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por The Cat Runner, em 07.09.18

LEVO-TE COMIGO PARA BERLIM (DIA 48 DA MARATONA )

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Antes de continuar a ler este texto leia primeiro o que está escrito na fotografia, em cima.

Se já leu, então continue…

Há coisas que uma pessoa nunca imagina que lhe possam acontecer.

Quem me lê sabe que não escrevo para dar lustro, para “puxar saco”, como se diz na bola.

Escrevo com tinta que me sai da medula, como diz o Gabriel “O Pensador”.

Tinta que sai de dentro.

Hoje, dedico este texto a alguém que me surpreendeu brutalmente.

Não estava a espera de tal coisa.

Mas, ela não se importa, de certeza, que eu também lhe dedique este texto, a si que o está a ler.

Há coisas que uma pessoa nunca imagina que lhe possam acontecer.

Jamais esperei, confesso, ter o apoio, o afecto, a estima, a atenção de tanta, mas tanta gente.

Pessoas que nem sequer conheço pessoalmente, a maioria.

Este texto é para ela e para vocês, que me foram levando ao colo ao longo destes nove meses de aventura.

As corridas têm-me colocado no caminho mais alegrias que obstáculos, muitas mais alegrias.

Pessoas, sobretudo.

Eu gosto do ser humano, gosto do “ser” humano, é disso que gosto.

Não gosto de vermes disfarçados de gente, sei quem eles são - levo essa vantagem -, conheço-os a todos, perfeitamente, sei onde estão, como se movem.

Não os quero por perto e, deles me afasto, me afastei.

Tenho-vos a vós e aos meus (eles sabem quem são).

Chega-me!

Faltam oito dias para a minha primeira maratona.

Entrei na fase em que é obrigatório recuperar o corpo, as pernas, sobretudo, porque não sou nenhum super-homem. Eles existem, mas eu não pertenço a essa classe.

O meu plano de treino contempla esta recuperação activa mas, as cargas foram de tal forma intensas que sempre recorri a suplementos, massagens e truques que fui aprendendo.

Acontece que, quero chegar ao dia 16 no meu máximo, como se nunca tivesse sido sujeito a tamanha “violência”.

Recorri, por isso, a um grande amigo, amigo há mais de 20 anos.

É o melhor dos melhores.

O António Gaspar, fisoterapeuta da selecção portuguesa faz-me esse favor, é meu amigo, a sério, desde o começo dos tempos.

Ontem, depois do Guedes me massajar as pernas enviei uma mensagem de voz ao António:

“Meu querido António, como estás? Preciso de ajuda para a maratona. Entrei no período de recuperação, mas não há maneira de este calor me largar os músculos, nem de as pernas ficarem cem porcento leves e frescas. O que é que tu fazes com os craques da selecção? Eles também deve padecer da coisa…”.

O António ( que está e estava em estágio com a selecção) respondeu-me, de imediato.

Aconselhou-me a passar na sua nova clínica, o quanto antes, para começar imediatamente a tomar um suplemento e usar uma pomada especial, que ele utiliza com o Cristiano Ronaldo e afins, penso eu de que!

Assim fiz.

Chegado à clínica, a Marisa, a gentil Marisa, pegou no saco e disse-me:

“Tem aqui o Muscle Repair e a Mad Form, que o Gaspar recomendou, mas a Ercília também lhe deixou uma coisa”.

Acto contínuo, coloca em cima da mesa o cartão que ilustra, no topo, este texto.

Não o li, na altura.

Ficámos ali, a falar, precisamente, sobre o ser humano, o “ser” humano.

A Marisa é das minhas, fala com o coração, houve empatia.

Paguei e vim embora, meia hora depois.

Só no regresso a casa tive coragem de ler o cartão que a Ercília me deixou.

Conheci a Ercília Machado numa corrida.

Lembro-me como se fosse hoje.

Ela ganhou os dez quilómetros.

Tirámos uma foto, no final e ficámos amigos.

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Ela tem 26 títulos nacionais, não é propriamente uma pessoa qualquer.

Naquele domingo ela corria por ela, tinha saído do clube ( não revelo o nome, obviamente ), onde era muito, mas mesmo muito mal paga.

São 26 títulos nacionais, mais a selecção portuguesa, não é coisa ao alcance de muitos.

Nesta merda de país ninguém dá o devido valor ao sacrifício e ao talento de quem escolheu o desporto como forma de vida. Só quando conquistam medalhas. Só nessa altura. Depois, depois voltam a esquecer-se de quem tanto sofre, trabalha e conquista, por nós, para nós.

A Ercília faz parte desse quadro exclusivo de heróis que eu admiro, que todos deviam admirar.

A Ercília foi operada, há meses, a uma anca.

Está a recuperar com o António, logo, está nas melhores mãos.

Foi por isso que soube que eu lá ia buscar os suplementos.

Nem sequer estranhei a sua mensagem, de véspera, na qual me perguntava a que horas lá ia.

Sou um cota naife.

Quando decidi escrever este texto e não outro, tive na linha do horizonte uma pergunta:

O que leva uma atleta de alta competição, uma atleta de topo,  a escrever uma dedicatória destas a um gajo que só corre porque lhe dá prazer, um perfeito amador, de amar, de amor?

Nada, a não ser um coração do tamanho de uma maratona, bem maior que aquela que irei correr, em Berlim.

Sim, é linda, mas a beleza da Ercília não é exterior, a beleza dela está no seu coração grande, tão grande que não cabe neste texto.

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Corras onde correres, serei sempre da tua cor, para sempre.

É o a minha promessa.

O meu compromisso é não desistir.

Não vou desistir, mesmo que as forças me faltem, jamais irei desistir.

Quanto a si, vá lá reler o cartão:

“ Meu querido Zé Quaresma”…

Bateu-me de uma maneira que ainda estou a refazer-me, por isso este texto já vai longo, porque as palavras saltam-me de dentro e não vcabem aqui todas, tal como o coração dela.

Peço desculpa, por isso.

…”Se por alguma razão pensares em desistir, lembra-te de tudo o que passaste para chegar até lá!

Tu és forte e vais brilhar! ACREDITA EM TI”.

Mandei-lhe uma mensagem que fica só entre nós os dois, porque é assim que tem que ser.

Disse-lhe também que vou levar este cartão, comigo, para Berlim.

Só não lhe disse que ele vai ficar na mesma moldura onde ficará a minha primeira medalha e a minha primeira camisola de maratonista.

Era surpresa ( pode ser que ela não leia este texto e será mesmo surpresa), mais que surpresa, é a minha homenagem a alguém tão “bonito”, que partilha comigo, incondicionalmente, a sua beleza e a sua bondade.

Levo o cartão comigo para Berlim, porque é também, o meu obrigado, a ela, e a todos aqueles que me levaram ao colo durante estes nove meses que passaram à "velocidade da luz", bem mais rápidos do que eu conseguirei correr a maratona.

É que nunca me passaria pela cabeça ser merecedor de tanta coisa tão boa, tão bonita, como aquelas que me têm dado.

Acho que não sou merecedor, na verdade.

Ela não leva a mal a inconfidência, senão não consigo ter um final, em grande, para este texto;

Respondeu-me assim à minha mensagem:

“Acho que fazes bem!!! Para te dar força antes de ires para a partida”.

Vou lê-lo, antes de sair para as Portas de Bradenburgo, para mais exigente aventura física e psicológica da minha vida, de mãos dadas com o meu irmão Francisco e com a minha irmã alice (porque só nós os 3 sabemos o que tudo isto significa, nas nossas vidas).

Garanto-te, querida Ercília, vou levar-te também comigo, porque já não sairás mais do meu coração.

Ficaste, também tu, tatuada nele, com a tua letra redonda e as asas dos teus pés.

A ti e a tanta gente que me tem acompanhado, lado-a-lado, nesta empreitada maluca, só posso ser grato, até à eternidade.

E, quando chorar como uma criança, no final, será em vocês que eu vou estar a pensar, em vocês todos, em ti, nos meus, nos que amo, e nos que me dispensam o seu afecto, amizade, estima e consideração.

Nos que me empurraram!

Agora, depois disto, não me falta mais nada.

Só falta o tiro de partida!

 

( Dedicado a ti, querida Ercília )

 

 

 

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publicado às 19:23


3 comentários

De Miguel Ângelo Joanico a 07.09.2018 às 20:22

FORÇA ZÉ!

De Anónimo a 10.09.2018 às 22:07

Por mais difícil que seja, nunca desista.
Nós que gostamos de si, mesmo longe vamos estar juntos. Força!
Beijinhos

De The Cat Runner a 11.09.2018 às 09:15

Prometo. É o que prometo no texto que acabei de publicar. Beijinhos.

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Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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