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por The Cat Runner, em 08.09.18

EU, TROLL, ME CONFESSO ( DIA 49 DA MARATONA )

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Eu não consigo discriminar todas as pessoas que, nos últimos anos, entraram na minha vida, por força das corridas.

São tantas.

Até porque seria injusto da minha parte, escolher uns e deixar outros de fora. A todos agradeço, oh meu deus (se existes) o quanto agradeço.

Por força das corridas, mas também por força da minha “exposição mediática”, da qual fujo a sete pés - e continuo cada vez mais a fugir - todas essas pessoas foram-se cruzando comigo.

Nas redes sociais e fora delas, no asfalto da vida.

Algumas têm sido fonte de inspiração, mesmo sem o saberem, outras têm-me marcado, desta ou daquela forma, e algumas entraram no meu círculo mais restrito, porque apesar da minha actividade no mundo virtual, noventa e nove porcento da minha vida é passada no mundo real, no recato.

Só os trolls, que não me conhecem de lado nenhum, embora privem comigo algumas horas por dia, ou que nunca privaram de todo é que acham o contrário.

Uma dessas pessoas que entrou na minha vida é o Ricardo.

Hoje, a poucos dias de correr a minha primeira maratona é ao Ricardo (Silva) que dedico esta crónica.

Há uns cinco anos eu era um gordo, um gordo, a entrar na casa dos quarenta.

Corria o risco de me tornar num troll, gordo, careca, com caspa, mas nunca num troll prepotente e de coração gelado, isso não.

Bastava-me um palito ao canto da boca para ser o protótipo tuga.

Decidi começar a correr, para evitar males maiores.

Para me incentivar (auto-incentivar), mas também para criar uma imagem estratégica, admito, comecei a publicar as fotos das minhas corridas e, paralelamente, a escrever sobre aquilo que corro.

Criou-se um propositado efeito de uma (mini) bola de neve e, segundo me dizem, fui inspirando uns e outros, como uns e outros me foram inspirando. Tantos!

O Ricardo, que se inspirou em mim, mas que agora me inspira, entrou na minha vida, como um verdadeiro amigo, de casa, de coração.

Tal como eu, o Ricardo era um gordo, ok, o Ricardo ainda era mais gordo do que eu (admite, eras).

Eramos os dois uns gordos, eu mais velho, ele mais novo.

Um dia, o Ricardo (Ricardinho) confessou-me que, por minha culpa, decidiu começar a correr.

Precisvaa, como eu, não apenas por razões físicas, sobretudo por razões espirituais, mentais, o que lhe queiram chamar, tal como eu tenho feito nos últimos meses, por recomendação médica.

Ele começou a perder peso, começou a ser cada vez mais rápido, cada vez mais forte e, de repente, já corria maratonas a uma velocidade que eu nunca irei correr ( Ricardo, a idade pesa e faz a diferença), ficou bem elegante, muito mais feliz, um homem diferente.

Depois lançou-se naquelas corridas dos malucos, aquelas de cem quilómetros ou mais.

Depois, bom, não há depois, comigo e com ele há o agora, ele confesou-se;

O Ricardo emociona-se comigo, disse-me uma vez, várias vezes, com os meus textos, com as minhas conquistas, vive-as como se fosse dele, como deve ser num verdadeiro amigo (os amigos emocionam-se com os amigos), mas o que ele não sabe é a quantidade de vezes que me emocionei com ele, muitas.

Agora, por exemplo.

Por causa do seu caminho, do seu esforço, das suas conquistas.

Por causa de um acontecimento que lhe marcou a vida e que me fez aproximar-me bastante dele, até hoje.

Somos homens do coração e da saudade.

Conversamos várias vezes, normalmente por mensagens, porque ele vive no Minho e eu vivo no Ribatejo ( não, não sou nem Mouro, nem Lisboeta ).

Conversamos sempre como se estivésemos juntos, como naquele fim de tarde em que nos conhecemos, depois de ele vir ver o seu Sporting.

 

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O RIcardo incentiva-me, preocupa-se com os olhos da minha mãe (cada vez melhores), com os meus problemas, com as minhas histórias, comigo.

Muito mais do que devia.

Muito mais do que eu lhe poderei dar, porque ele merece o pplaneta todo. Inteiro.

Ele tinha por hábito, já depois de me ter ultrapassado nas corridas - quando o criador é devorado pelo monstro (favor rir) - dizer-me que um dia eu iria correr uma maratona.

Ele apostava a vida que sim.

Eu sempre disse que não.

Loucura, nem pensar.

Só que, uma vez, deixei escapar que ia, um dia ia correr uma maratona.

Prometi-lhe, sob pressão (sorrir outra vez, sff).

Foi há uns três anos, mas o sacana nunca mais se esqueceu disso.

Eu disse-o convicto, mas…(Reticências).

Ontem recebi uma mensagem do Ricardo ( já antes tinha recebido um boneco em barro negro, um cabide para as medalhas, que guardo e que, finalmente, vou usar, para colocar a medalha da maratona, ficas a saber hoje que nunca o usei, porque me faltava esta, a dos 42 quilómetros, agora sim, vou usá-lo).

A Alice partiu o boneco em barro negro.

Perdoa-lhe.

Ela é uma boa gata, uma boa amiga.

Um pouco louca, mas só isso.

Como eu.

O Ricardo dá.

Amizade, afecto, carinho, estima, estímulo, inspiração, dá mais do que alguma vez eu conseguirei dar-lhe.

Peço-te desculpa, por isso, meu querido.

Por isso, dedico-te este texto, para que o mundo conheça a nossa amizade incondicional.

E, tu sabes o que significa, para mim, escrever; 

é o que me liberta das grilhetas da vida, o que me transforma por dentro.

Nessa mensagem que me enviou, ele manifesta tristeza por não estar a meu lado em Berlim.

Confessa que gostava que a minha estreia na maratona, a tal que lhe prometi correr, há três anos, fosse em Portugal, para me fazer a surpresa de aparecer e corrê-la comigo.

Estou a ler a mensagem, neste momento;

“Tenho que te confessar que quando, em 2015, me prometeste que farias a maratona, porque te tenho como eu, um homem de palavra, tinha reservada para ti a surpresa.

Se a prova fosse cá, sem te dizer nada, ia simplesmente aparecer, não seria difícil encontrar-te, e iria fazer a prova a teu lado, sentir a tua emoção e cortar a meta contigo”.

Digo-te, neste momento, Ricardo, tu vais cortar a meta comigo, só que não o sabias.

Tu vais correr a maratona comigo, em Berlim.

Eu ando muito sensível por causa disto, e por causa de outras coisas sobre as quais escrevo, e outras que não, porque não posso, nem devo, umas fantásticas, outras merdosas, de gente de merda, mas ando, sensível, com tudo o que me anda a contecer nestes meses últimos.

As lágrimas aparecem-me do nada, depressa, surpreendentes, como tu querias aparecer, na minha primeira maratona.

Surpresa, surpreedentes.

Nada posso, nem quero fazer. Liberto-me, apenas.

E, quando regressar de Berlim irei parar de chorar. Prometo, e sabes como cumpro as promessas porque, como tu, sou um homem de palavra.

Vais comigo, por isso também.

Não és tu que estás “orgulhoso” de mim, nem és tu que me tens que “agradecer de coração por tudo o que te tenho dado”-

Sou eu que devo curvar-me, perante a tua grandiosidade ( repara que não escrevi grandeza, de propósito, embora ambas as palavras queiram dizer o mesmo, mas grandiosidade é muito mais superlativo ).

É a mim que resta retribuir tudo, não é a ti, como dizes na mensagem.

É a mim, meu querido amigo.

É isso que faço agora: MUITO OBRIGADO, por tudo, até por me emocionares.

O teu pai tem imenso orgulho em ti, tenho tanto a certeza, a tua menina também.

E, eu também.

Orgulho em te ter na minha vida.

Dava-te agora um abraço, “à homem”.

Tenho tanta sorte.

Há uns cinco anos eu era um gordo, um gordo, a entrar na casa dos quarenta.

Corria o risco de me tornar num troll, gordo, careca, com caspa.

Bastava-me um palito ao canto da boca para ser o protótipo tuga.

Mas, não.

Fiquei mais elegante, o cabelo não me caiu, a caspa não apareceu e o palito fica horrível, ao canto da boca.

A única coisa que não cumpri foi parar o tempo, e entrei pelos quarenta dentro.

Não cnonsigo tudo, muito menos milagres.

“A tua amizade basta-me”, também a mim, esse é o maior dos milagres.

Espero que gostes de correr comigo em Berlim.

Esta, vai por ti!

 

 

 

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publicado às 20:34



Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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