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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

16.03.20

Dia Um "The Red Line"


The Cat Runner

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Hoje, pela primeira vez, nos últimos dias, voltei a ser uma pessoa normal.

Tenho estado absorvido, a viver dentro de uma bolha chamada Covid 19 e só hoje saí de lá de dentro, como se fosse possível, alguma vez, sair de dentro de um acontecimento tão impactante, tão transformador, quão assustador e esmagador, desafiante.

Revoltante.

O jornalismo é hoje e, percebem agora alguns, também é todos os dias o farol que ilumina uma sociedade.

O farol que fica aceso até ao fim das tempestades.

Para que essa luz não se apague e não nos deixe na escuridão, enquanto colectivo, enquanto comunidade, enquanto espécie, mas também pela nossa própria sobrevivência. A de cada um de nós, individualmente.

A minha redação ficou reduzida a metade. A outra metade, da qual faço parte, juntamente com a minha mulher, recebeu instruções para ficar em casa, em alerta, de prevenção, para que a luz não se apague, quando fraquejar. A qualquer momento.

O mundo está em guerra.

Dizer isto soa a estupidez, numa altura destas, de tão óbivo.

Só quem não consegue processar informação no seu cérebro ou quem vive num outro planeta é que não consegue ver o que nos está a acontecer, mas importa sublinhar, sublinho, estamos em guerra.

Estranha guerra que nos confina nas nossas próprias prisões, nunca imaginámos.

Hoje foi o meu primeiro dia, o nosso primeiro dia, o recomeço, estivemos os quatro em casa, estivemos, a palavra que muda tudo isto.

Nem que seja um processo de fé.

Eu, a minha mulher e os meus filhos.

Eles já estão em casa há uma semana, mas eu e ela temos estado na segunda linha da frente, para nós, na primeira.

Só hoje é que conseguimos estar juntos, porque alguém nos obrigou a estar juntos.

Há toda esta beleza na tragédia.

Cuidámos da casa, rimos, falámos sobre as notícias, fizemos planos para amanhã, preparámos tudo para estes dias estranhos.

Amanhã vamos recomeçar a treinar aqui no bairro, temos jardim, piscina, espaço, felizmente-

Confesso que, quando comprámos a nossa casa, neste condomínio fechado, a meia hora de Lisboa, que nos penaliza brutalmente nos custos das viagens, nunca imaginei que haveria de ser obrigado a ficar em casa por causa de uma cena de ficção científica.

Mas, está a acontecer e tenho essa possibilidade, de sair de casa, em casa.

Temos tudo mais ou menos planificado, estamos em família, finalmente.

Só nos falta aqueles que amamos e que estão a meia dúzia de quilómetros de nós separados por um Muro de Berlim mascarado de vírus. 

A mim cabe a tarefa de ir às compras.

No caminho para o hipermercado, numa viagem e visita extremamente rápidas, enquanto escutava a rádio e o ministro Cabrita a anunciar mais medidas ia observando os locais por onde passava.

O final de tarde parecia-me uma manhã de domingo.

Na bomba de gasolina dois agentes da PSP e o atendimento feito pela janela.

Todas as bombas assim, pela janela.

O ministro Cabrita informava-nos que as fronteiras praticamente fecham esta noite.

Pensei compar alguma coisa no Mc Donald´s mas está fechado, os restaurantes também, o Paris, a Torre, o Chico do Porto, nas farmácias as pessoas faziam fila, distanciadas pela segurança recomendada, muitas delas com máscaras, como eu.

Dei comigo a transportar uma máscara e a utilizá-la.

Já o tinha feito no trabalho, agora cá fora, no terreno de batalha, porque ele, o inimigo brutal, nunca se mostra. É cobarde. E, nos filmes e nas séries eles também andam de máscaras.

Antes de estacionar, olhei para a fila, à porta do supermercado.

Esperei pela minha vez, pouco tempo e entrei logo depois de tirar esta foto.

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A minha mulher, mais céptica, mais ponderada, mais lúcida do que eu, dizia-me ainda há bocado que tudo isto lhe parece uma série de televisão.

Pois parece, mas a diferença é que esta é uma série em tempo real, da vida real, sobre a qual se desconhece o final do argumento e os argumentistas, só os actores. 

Isto é tudo tão para lá do que seria humanamente possível imaginar que está a dar-me para várias coisas, para me revoltar, para me assustar, para me puxar à terra, para me adaptar e alterar hábitos, para pensar, muito, em tudo, para não mostrar fraquezas, para ajudar os outros. Para me emocionar.

Emocionei-me, quando chegada a minha vez, me mandaram entrar;

“para o que havíamos de estar guardados”.

Emocionei-me quando pedi o fiambre e o presunto e me indicaram para que ficasse atrás da linha amarela e me deixaram o saco em cima do balcão para que o fosse buscar após a empregada sair dali.

Emocionei-me quando fui à padaria, normalmente cheia de gente, e paguei o pão à empregada.

“Não esteja assustada ou então transforme esse medo em força, vamos ganhar, todos juntos”.

“Obrigado, pelas suas palavras”, agradeceu-me.

“Não tenham receio de avisar as pessoas”, disse-lhe eu, antes de sair, por causa daquela senhora, dona de mais de oitenta anos de vida, que entrou – só estávamos os dois, enquanto clientes – e se aproximou do balcão, encostando-se praticamente a mim.

Pousou os braços no balcão, num descanso improvisado, ao que, delicadamente lhe disse:

“Não pode encostar-se ao balcão, diz aí nessa papel por baixo dos seus braços”.

Olhou-me de lado, mirou-me a máscara, e respondeu-me:

“Oh !”, encolhendo os ombros, "já só tem esse pão, credo, as pessoas andam todas doidas".

Pois andam.

Percebi a urgência do momento e tentei não me demorar nas compras, normalmente não me demoro, levo tudo apontado no telemóvel, vou ouvindo música nos phones e sou rápido.

Já conheço os corredores. Cheiro as promoções. Danço com o carrinho.

Mas, hoje pensei nos que estavam na fila, lá fora.

Enquanto ia fazendo as compras ia olhando em redor até que decidi começar a filmar, a fotografar, porque tudo me era estranhamente habitual.

Senti-me dentro de um vídeo no Youtube, gravado na Coreia do Norte, onde os hipermercados estão vazios de gente e os poucos que se vêem são os que lá trabalham. Quem nunca viu um!

Corredores vazios.

Gente com máscaras.

Mas não, não estava na Coreia do Norte, estava no Ribatejo.

O vírus chegou ao Ribatejo

Senti-me estranho, no meu próprio mundo.

Ninguém se cruzava com ninguém, os poucos que circulavam no interior desviavam-se claramente uns dos outros, eu também.

Os chineses também.

Aqui, na minha freguesia, vive a segunda maior comunidade chinesa, no país.

Aqui, no bairro, o bairro é o condomínio, vivem algumas famílias chinesas, há anos, que viajam constantemente.

As pessoas desviavam-se marcadamente umas das outras.

A máscara era colocada quando estava muito próximo de alguém, como quando perguntei ao colaborador “qual é o detergente para máquina de lavar, para roupa branca?”.

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Detive-me na linha vermelha na caixa, após colocar os produtos no tapete rolante, cumprindo o que estava escrito.

“Pode avançar”, disse-me a empregada depois de limpar o balcão e o terminal de pagamento.

Coloquei a máscara.

Paguei, arrumei as compras e saí.

“Não pode sair por essa porta tem que ser pela outra”.

Ainda bem que há sempre uma porta para entrar, mas também há uma para sair, nem que seja a mesma.

Ocorreu-me, ao entrar no carro, para voltar a casa, que foi um vírus vindo da China (não sabemos se é mesmo chinês) que derrubou o Capitalismo, esse resistente a tudo e a todos.

Não pensou nisso?

Eu também ainda não tinha pensado. É uma das mudanças na nossa civilização.

Até isso mudou, vai mudar, está a mudar.

Está tanto e tudo a mudar.

É a primeira vez na minha vida, na nossa vida colectiva, que estou em casa, sem estar doente, de folga, de férias. Por ordem da minha empresa e das autoridades.

É a primeira vez para todos nós.

É também a oportunidade para celebrarmos o amor, junto da família.

Arrumamos a casa, fazemos refeições, conversamos, partilhamos preocupações, esperanças, convicções e afectos, treinamos, lemos, e até nos irritamos.

Estamos a aproveitar porque o amor também mata. Mata vírus e coisas mais más, ainda.

O amor mata.

O amor mantém-nos vivos.

Hoje tive que ir ver os meus pais, que não via há nove dias, apesar de o meu pai estar com uma infecção pulmonar aguda e ter isolado o centro de saúde, na sexta feira, por ser suspeito Covid 19. Não deve ser.

Mesmo assim, só hoje decidi ir visitá-los, à janela, tão rápido, para os proteger, a eles.

Como vos amo, mesmo sem vos poder abraçar.

Eu sei e eles sabem e nós sabemos que é a primeira vez que o mundo começa a parar e a recolher-se.

A história que estamos a viver é a mesma que estamos a escrever.

A oportunidade para mudarmos os nossos comportamentos e os nossos hábitos. Nunca o nosso amor.

A oportunidade para abrirmos os nossos corações e não deixar nenhum de nós para trás.

Nunca se deixa um dos nossos para trás, no campo de batalha.

A oportunidade para, no final, sermos outros.

Quem sabe se não precisávamos todos de sermos outros.

Quem sabe se não estamos também a experienciar uma oportunidade que nos cai no colo trazida por um tsunami escuro, feio, mau.

Como jamais aconteceu no mundo.

Dizia-me a minha mulher, nas muitas conversas que temos tido, “isto parece uma série, só falta começar a dar notícias de clones humanos que estão a aparecer por todo o planeta”.

Parece que os vejo, enquanto o relógio avança e o inimigo também.

Quero acreditar que não.

Mas, que parece uma série de ficção científica disso não tenho qualquer dúvida. E, talvez seja.

Acontece que, no final, os bons ganham sempre.

Não será diferente.

Tenho a certeza

 

 

 

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