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DESDE A ÚLTIMA VEZ

Terça-feira, 27.01.15

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Estou paralisado desde o ano passado. Atravesso uma crise, por aí. Costuma acontecer-me. De tempos a tempos.

Desta vez foi tempo demasiado. Acontece. Acontece-me. Aconteceu-me.

Não sou um profissional desta escrita, por isso, por isso não trago comigo as ferramentas que os escritores utilizam, com magia.

Escrevo o que me dá na alma e tenho brancas.

Tantas!

Tenho brancas quando estou a pensar comigo, quando estou a trabalhar, quando converso com alguém, quando vou buscar um copo de Coca-Cola e volto com nada na mão.

Quem nunca se sentou no sofá e exclamou: fogo, fui à cozinha e esqueci-me da Coca-Cola!

Quem nunca o fez que atire a primeira pedra ou fique sentadinho no sofá que a Coca-Cola há-de lá chegar.

A propósito das brancas:

Sou um simples Técnico Instalador de Palavras. Uma espécie de redondel onde um cavalo de palavras é desbastado, sem tempo para aprender as regras. As palavras não têm regras. Eu apenas as instalo, confortavelmente, à medida que toca uma música ou me apetece vomitar letras pelos dedos. Técnico Instalador de Palavras!

É preciso uma lata...

O tipo saca do cartão de visita, que já ninguém usa, apresenta-se como técnico, que faz assim e que faz assado e depois vem para aqui falar de brancas!

Ou se é profissional ou não. Em que é que ficamos?

Essa é a equação. O dilema. E a dialética.

No entanto, há truques para tudo.

Até para as brancas que impedem um técnico que se preze de instalar palavras regular e correctamente. Aqui já manifesto algumas dúvidas, mas enfim.

Não, aqui elas bem são desbastadas, ou tenta-se mas, são selvagens e não se adaptam. Correm desconcertadamente. Deixá-las.

Desde Dezembro do ano passado - parece que foi há muito tempo - que tenho estado paralisado, na verdade...

Na verdade, mal passou um mês, num mês em que tenho estado confrontado com uma branca do tamanho de qualquer coisa gigantesca.

O diabo e o anjo. Um em cada ombro. Está a ver? Isso!

Escreve. É o Passos, a Grécia, o Futebol, A Assembleia, a Austeridade. Isto está tudo mal. Escreve, caraças. Às vezes saem-te prosas engraçadas. Escreve.

Claro, é esse mesmo, quem me fura os tímpanos, entrecortado com uns risos histéricos e prolongados. Às vezes detesto. Outras dá-me pica.

Não escrevas. Depois podes ter problemas. Abstrai-te disso tudo. Vai correr. Isso são coisas tóxicas, do diabo. Ele quer arrastar-te para a Babilónia, rapaz. Não escrevas. Escuta uma música e vai correr.

Claro, é esse mesmo, quem me sussurra estas coisas, entrecortado com uns risos melosos. Às vezes acalma-me, às vezes apetece-me mandá-lo para um sítio onde não veja o sol nascer.

É nisto que ando desde Dezembro.

Com uma enorme vontade de escrever, todos os dias, sem nunca o fazer. Evito ter o portátil por perto. Refugio-me nas séries da moda, ando a tentar moderar a presença nas redes sociais, ouço música, jogo Simcity, corro. Faço outras coisas. Também trabalho.

Confesso, obviamente, que ao longo de todo este tempo tive motivos de sobra para escrever.

Confesso, o que eu não tenho tido é vontade. Imaginação.

Olhem só a maçada se escrevesse todos os dias - para quem lê - ia ser tão repetitivo como tudo o que lemos todos os dias. Não fazia sentido. Não faz. Escrever é tinta que sai da medula, como diz Gabriel "o Pensador".

Só escrevo quando me apetece ou, às vezes, quando me pagam.

Hoje apetece-me escrever.

Volto a não ter um tema para escrever. Não me salta. Não há click. Apenas vontade de estar aqui a escrever, enquanto escuto BB King no Youtube.

O mais curioso de tudo é que enquanto já gastei 541 palavras e já ocupei duas páginas, sem dizer nada, na verdade, nada que interesse a quem quer que seja, tenho viajado por todos aqueles dias em que não escrevi.

Parece um exercício estranhamente estúpido, mas que está a resultar como terapia libertadora (com uma enorme gargalhada à mistura).

Já pensei sobre a minha vida, as minhas corridas, a minha família, a minha vontade de mudar coisas, a minha vontade de mudar o que quer que seja, já pensei sobre a vitória do Syriza, sobre o resto da Europa que detesto. Já pensei que nunca mais é Outubro para poder ver uma mudança que quero ver. Já pensei no final de ano, que me colocou à prova. Já pensei no início de ano, que me colocou à prova. Já pensei que no Ribatejo as árvores vergam mas não partem.

Já andei a viajar, enquanto escrevo estas linhas. Já fiz isso tudo nestes longos minutos. Pois parece coisa pouca, mas já lá vai uma hora desde que cheguei da fábrica das notícias. É sempre isto; adrenalina viciante que te tira o sono e te faz ficar aqui à espera de nada.

Não escrevi nada que interesse rigorosamente a ninguém. Nem a mim.

Fi-lo sem um fim específico.

Um texto "Gato-Fedorento"!

Nunca gostei do último nome. Um texto sem sentido. Nunca gostei do último nome.

Nem deste texto.

Nem sei porque o escrevi.

Mais alíviado.

Ainda assim, não deixa de ser algo absolutamente estúpido.|

Tenho uma branca. Todos os dias. Uns dias maiores que os outros.

Continuo paralisado. Com tudo à minha volta.

Um texto com sentido. Porque tudo está à minha volta.

 

 

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publicado por The Cat Runner às 03:22


3 comentários

De Rodrigo ribeiro a 27.01.2015 às 04:04

Brancas são universais.
Só não as reconhece quem vive numa "branca permanente", como é o caso de algumas pessoas que se limitam a inspirar/expirar no intervalo entre o nascimento e morte. Nada mais fazem ou ponderam. Vivem em "permanente branca". Alguns são felizes assim.
.
Eu não seria feliz em permanente branca. Por mais inútil que seja a minha função neste Mundo, entre nascer e morrer, irei sempre querer saber o que ando a fazer por cá.
.
E, dito isto, dou por mim a clicar estas últimas palavras no smartphone, sentado no chão da cozinha onde, creio, deverei ter vindo buscar uma Coca-Cola...
...mas de que já não me lembro :-)

De rodrigo ribeiro a 27.01.2015 às 04:06

... não estou a inventar!
Dei mesmo por mim já sentado no chão gelado da cozinha, ao lado do frigorífico. :-)

De Zé Gab Quaresma a 27.01.2015 às 04:31

Isso é bom?

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