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Foi uma viagem incrível.

No domingo tinha marcado o meu penúltimo treino longo, antes da “Big One”.

O que é um treino longo?

É isso, um treino longo ( agora escrevia lol ).

É o treino que conclui a semana dureza.

Os últimos acontecimentos - que são públicos - mexeram imenso comigo, com a minha cabeça, sobretudo.

No domingo saí para correr duas horas e meia, com o meu amigo no meu pensamento.

Levei-o a cada passada.

Só que cometi um lapso.

Estava tão atordoado com os acontecimentos que baralhei o calendário todo.

Corri duas horas e meia, quando o treino era de três horas (o único com essa duração, nestes oito meses e meio).

O treino de três horas serve para - além de carregar quilómetros nas pernas - testar o que está para vir.

Fiquei satisfeito, o treino correu bem, pior foi quando cheguei a casa, por volta da meia noite, e fui registar o treino no mapa dos mesociclos.

Afinal, devia ter corrido três horas em vez de duas horas e meia.

De imediato enviei um email ao meu treinador, em pânico, até porque o treino de domingo que vem, o último longo, antes das duas semanas de descompressão que antecedem a maratona, tem a duração de duas horas.

Que não me preocupasse, fazia dois treinos de duas horas e meia - o de domingo passado e do próximo - em vez do treino das três horas.

Só que eu sou de vergar, mas não partir (uso imenso esta expressão) e já o informei que foco é foco, objectivo é objectivo e que, se havia um único treino de três horas para fazer e eu me enganei, então esse treino será feito.

Domingo gordo, pois claro. Até treme!

Posto isto,

É desconfortável correr mais do que duas horas, aqui na minha zona.

Não há condições.

Lamento, mas não há.

Os políticos de Vila Franca de Xira - a minha terra - e os políticos de Samora Correia - freguesia onde habito - não querem saber de quem faz desporto. Assumo, digo-o, é verdade!

Para correr duas horas, pelo menos, tenho que ir para Lisboa.

Gasto dez euros de gasóleo, mais portagens, acrescentando isso aos quatro ou cinco géis que tenho que tomar durante a corrida, mais duas ou três garrafas de água que tenho que beber, sai-me um treino ao preço do ouro.

Agradeço-vos, senhores políticos do PS e da CDU, neste caso, porque os outros também não me convencem.

Mas, não é sobre política que escrevo.

Deixei o carro no parque de estacionamento junto à casa dos Bicos ( vá lá, deixem-se de pensamentos obscenos ) e saí para correr duas horas e meia.

Como sei os meus ritmos, as reacções do meu corpo, sobretudo o estado actual do meu corpo, apontei para os vinte e quatro quilómetros.

É verdade, com estes treinos acima dos vinte um quilómetros - quem diria - já contabilizo, juntando as provas oficiais, nada mais nada menos que quinze ( 15 ) - até sublinho com número - quinze meias-maratonas.

Digo-o com imenso orgulho em mim.

Dizia eu, saí da Casa dos Bicos, do Saramago, fui em direcção aos Cais do Sodré, sempre junto ao rio, o Tejo, que mesmo em Lisboa, onde se funde com o mar, em definitivo, continua a ser o meu rio.

Segui para Santos, passei o Padrão dos Descobrimentos, depois a Torre de Belém, linda.

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Observei - abrandei para ver - o monumento aos Combatentes, mais à frente a fantástica Fundação Champalimaud. Detive-me a olhar o Boat Yard da Volvo Ocean Race, à esquerda, e as janelas dos prédios, sem cortinas, à direita.

Pudera, até eu... com uma vista daquelas sobre o Tejo, até eu!

Já para lá de Algés, fiz os dois últimos quilómetros da primeira metade da corrida numa zona com muito pouca gente, quase nenhuma. De um lado o rio, do outro a linha do combóio, e eu.

Pensei, porra, agora tenho que fazer tudo para trás.

E fiz.

E cheguei.

E senti-me feliz, com o que fiz, com o que vi - e que contarei em outro texto.

Senti-me tão bem, ao longo daqueles vinte e quatro quilómetros, um pouco por culpa da paisagem, dos bares a bombar a um domingo a noite, por causa das pessoas que se divertiam e das que corriam aquela hora, tantas e tantas.

Diverti-me brutalmente, sózinho. Sempre sózinho, que até a correr sou bicho do mato.

Quando comecei a correr levava o meu amigo no pensamento.

Depois, a corrida entra numa fase estratégica, de controlo da respiração, do ritmo, das dores nas pernas.

Comecei de dia e quando cheguei ao ponto de retorno já era noite.

Só no fim reparei que me tinha enganado no treino.

Fiquei fulo.

Decidi fazer o tal treino das três horas no domingo que vem.

Fiquei tão fulo que me vinguei num Big Mac, com batatas médias e uma Fanta.

Fanta que pariu isto tudo !

Domingo volto lá, sem medos.

Porque quem tem medo compra um cão e, que se saiba, a minha Alice é uma gata.

Está quase, já cheira a Berlim !

 

( O próximo texto, mais logo, vai descrever a minha corrida. Garanto que não vou falar sobre como corri. Vou falar de tantas histórias que se podem contar numa corrida de duas horas e meia. Fica a promessa, porque aquela noite foi mágica)

 

 

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