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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

23.03.20

Até O Futebol Nasceu Na China


The Cat Runner

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(Foto: The Cat Run - Museu do Pão)

 

Não é só o vírus que nasceu na China.

Para mal dos nossos pecados, até o futebol é de lá que vem, não pense que nasceu em Inglaterra.

Passaram tantos séculos. Creio que foi aí que os chineses tomaram o gosto pela exportação.

Voltámos atrás no tempo, que não é passado e nesta viagem voltou connosco o tempo da televisão.

As famílias, as que conseguem estar juntas, reunidas em frente à caixa mágica. Percebe-se agora a sua importância verdadeira. Sempre assim foi, desde que existe, volta a responder, presente!

São dias diferentes.

Acabei por não acender a lareira.

Já vou em quase duas toneladas este ano.

Liguei o aquecimento central, que aquilo está cheio de cinza e não me apetece ir limpar.

Vivo no campo.

São dias diferentes.

Está frio, estamos na Primavera.

A Alice, a minha gata, acabou por me tomar o lugar no sofá e, confesso, são tempos estes que não me dão vontade de a acordar só para me sentar.

Ela que se seja livre. E, feliz.

A Alice está cá em casa há uns anos, foi encontrada na rua, a morrer, tinha pouco mais de um mês.

Uma história de vida, se os gatos fossem humanos.

Depois de ouvir e de ver a entrevista ao Primeiro Ministro olhei para a Alice e percebi que ela não sai de casa há anos, a não ser daquela vez que caiu da varanda e foi parar lá a baixo.

É feliz. Tenho a certeza que a Alice é feliz.

Ocorreu-me isto porque o Primeiro Ministro disse que não há bóias quando há um tsunami. E, isto é um tsunami. Eu acho que são varios tsunamis num só, mas eu não sou Primeiro Ministro.

Em momento algum me passou pela cabeça ficar em casa durante anos, a propósito da entrevista e da Alice, acredito que não chegaremos aí porque, entretanto, alguma vacina milagrosa vai aparecer e porque os chineses já nos estão a ajudar e em força, digo-o de fonte fidedigna.

Apesar de haver um cientista chinês, lá onde a coisa se deu, que diz que isto é caso para dois anos e que na próxima Primavera vai haver outro pico.

Não acreditei nele, acreditei mais no Primeiro Ministro, na entrevista, no chinês não.

Neste chinês não.

Prefiro acreditar nas máscaras, nos fatos especiais, nas luvas, nos ventiladores, no know-how que está a chegar vindo da China. Em massa. Nesses chineses eu acredito, neste não.

Este não deve perceber nada de futebol. É só um malandro que não sabe que malandro que é malandro não estrilha, muda de esquina.

Acredito que conseguiremos voltar a ser um exemplo para o mundo, como quando o conquistámos, quando fizemos os barcos em madeira e fomos por ali fora com o vento a ajudar, ou como quando fomos campeões europeus da bola, o Éder e aqueles dias todos de festa, ou como quando aguentámos a grande crise. Fomos nós que a aguentámos.

Por isso acredito que vamos voltar a ser um exemplo.

O Estado de Emergência, coisa muito séria em democracia, já permitiu a detenção de 16 pessoas. Pessoas que não gostam de exemplos, só conseguem gostar dos golos do Éder e é porque toda a gente gosta.

Que sejam detidas as que forem preciso.

Gostava de ver as autoridades, PSP e GNR mais visíveis nas localidades, porque assim os exemplos a que todos nós assistimos aqui e ali deixavam de existir.

Os das praias é à tromba estendida, os dos "cafés do bairro" são mais dispersos.

Ainda hoje, quando andava em reportagem, deparei-me com dois carros da PSP junto de um grupo de uns cinco jovens, ali para a zona de Odivelas.

Como não conseguimos entender o comportamento destes cidadãos, então que alguém os faça entender. Não há estados de excepção, porque vontade de estar com pessoas creio que toda a gente tem, nesta altura.

Ainda por cima, eu não sou delator.

Não quero ser, era violentar-me e à Democracia. Nunca serei.

Por isso, falta isso, polícia visível nas localidades, mais visível.

Um Estado de Direito não pode permitir que cidadãos irresponsáveis coloquem em perigo a maioria, os que cumprem o que deve ser cumprido, mas um Estado de Direito também não tem ferramentas para dotar pessoas de inteligência mínima.

Não fiquei assustado com o que ouvi na entrevista do Primeiro Ministro.

Assustado já ando há dias. Andamos todos.

Só quem vive fora deste planeta é que podia ter sido surpreendido com a entrevista.

Não a estou a analisar politicamente.

Isso não é para mim.

Nem sequer a estou a analisar.

Estou, com ela, a justificar porque é que não fiquei assustado, nem surpreendido, porque eu ouvi o homem que tem o meu destino nas mãos, neste momento, como nunca, goste ou não se goste dele. Eu e todos nós.

São as evidências.

Acredito que o Primeiro Ministro não esteja a fazer política. Deve sobrar-lhe pouco tempo para isso.

Só que ao contrário do que parece, ele  devia fazer alguma política, porque ele é quem manda por estes dias. Influência. Decisão. Determinação.

A tão falada moratória dos bancos que é tão invisível quanto o vírus assustador. É aqui que estou a tocar.

Não é admissível endividar as pessoas com créditos, nem com contas-ordenado duplicadas, isso são jogadas de baixo nível, nem as empresas, com adiamentos de pagamentos de impostos.

O que nos está a acontecer não permite isso.

As pessoas, a esmagadora maioria, está a cumprir e a fazer a sua parte. As pessoas e as empresas, a sociedade quase toda, cidadãos que não querem ser ajudados a cumprir os seus compromissos finaceiros com adiamentos, empréstimos, mais fustigação, por algo que nada fizeram para o merecer, as pessoas querem so-bre-vi-ver.

E mesmo que não quisessem - os das minis querem lá saber disso - eram obrigadas a sobreviver.

O Primeiro Ministro, que é neste momento o CEO de Portugal, devia fazer política real, sim, e criar condições para que os bancos cessem imediatamente todos os pagamentos dos cidadãos e das empresas portuguesas.

E, a luz baixar, a água, lamento, toca a todos, está a tocar a reunir.

Os soldados já estão fartos de serem baleados nestes campos de batalha por onde temos andado durante quase a vida inteira.

Não há muito mais a justificar, da minha parte.

Não há sequer outra alternativa, ou esta ou o caos, ao caos segue-se o pânico, ao pânico, ao pânico não faço ideia do que se segue.

É inviável olhar o horizonte.

Mais à frente logo se vê.

Fiquei com essa sensação, para o bem e para o mal.

É que um tsunami é uma coisa bruta, esmagadora, transformadora e inesquecível.

E, é aqui que o Primeiro Ministro está a falhar. Falta-lhe ser aquilo que foi toda a vida, ser político, por breves momentos, apenas. Ser político para tomar a decisão que tarda.

Sendo o Chefe do Governo e estando o país sob Estado de Alerta só uma decisão política pode desbloquear aquela que é, no imediato, a bóia, mesmo que as bóias não sirvam de nada num tsunami.

Desta vez servem, ou o mundo não está a rodar ao contrário?

Está!

Então...

As pessoas devem aguentar “até Junho”, disse o Primeiro Ministro, na entrevista, acontece que as pessoas não conseguem aguentar até “Junho”, porque não têm condições para lá chegar, a maioria de nós, os que não andam a beber minis pelas esquinas, esses são cheios de sorte que parece não haver vírus que lhes pegue, salve seja.

Se o estado não tem dinheiro para tudo, também o disse, por outras palavras, então que peça o nosso dinheiro aos bancos.

Nem precisam de fazer favores. É só de-vol-ver. Não dá?

Eu sei.

Então, façam como todos nós, coloquem-se na linha de fogo que isto não é tempo de limpar armas.

Ajudar-nos, a nós, áqueles que fecharam portas, áqueles que até poupam o dinheiro que os outros gastam em minis, para ajudar nos medicamentos dos nossos pais, por exemplo.

Nós ajudamos.

Sempre ajudámos.

Assim como assim as pessoas não vão pagar aos bancos, não acredito que o Primeiro Ministro acredite que vão.

Não duvido que, se me cortarem mais uma vez o ordenado, eu quero lá saber do banco.

É uma questão de seriedade.

O meu compromisso será sempre com a minha família e com os meus, numa situação limite, como esta.

Mais que não seja porque depois logo se vê.

As pessoas pensam como o Primeiro Ministro, mas do lado oposto;

As pessoas não se importam de esperar por Junho, até porque não têm alternativa, mas não se importarem não implica que consigam.

Depois logo se vê assume o protagonismo imediato, porque o  Primeiro Ministro foi claro,

todas as sociedades se transformaram, tal como o mundo também, após uma guerra.

Uma guerra é transformadora, como foi o aparecimento da internet, como todas as revoluções e mudanças a que a civilização já se sujeitou.

O que eu deduzi da entrevista é que, o pós-guerra terá que ser – como escrevi, há dias – um tempo novo, de todos, para todos. To-dos, assim, soletrado em bold duro.

Todos teremos que nos adaptar à tal mudança, que será profunda, como ao longo da História.

Foi neste quadro que o Primeiro Ministro disse que a UE terá que ter um Marshall Plan, quando isto terminar, para que consigamos erguermo-nos dos escombros.

Não sei qual será o nome do plano, mas sei que Portugal terá que ter um plano.

Agora e também a seguir ao fim.

No princípio, no recomeço.

Sugiro que comecem o desenho mal possam. Ganhem tempo. Aproveitem o Centeno mandar naquilo tudo e ndar tudo aflito para tomarem a dianteira, mas isso é só depois da guerra. Começar de novo.

Agora é lutar na primeira linha de combate.

Depois, então, começar do zero, porque todos terão mesmo que mudar comportamentos, filosofias, sistemas, organizações, as pessoas, os Estados, os decisores, os da Finança - da clara e da escura e da alta - todos do zero.

O gasóleo até está a 1.10 euros o litro.

Há menos 75% de carros nas auto estradas de Portugal.

Há gente sem fim a trabalhar a partir de casa.

Há coisas que mudam segundo-a-segundo nas nossas vidas.

E, ainda há a esperança, nesta incerteza, nesta coisa brusca que nos está a atropelar, porque a esperança é a coragem de cada um de nós.

Não nos deixemos tomar pelo medo.

Hoje, quando regressei ao trabalho, ao fim de oito dias de confinamento social e saí de casa, de manhã, senti-me feliz.

Voltar a conduzir de vidros abertos, a ouvir música, chegar à fábrica, trabalhar, cuidar dos meus à distância, ter alguma normalidade dentro desta anormalidade. 

A minha felicidade durou desde o segundo andar até à garagem.

Quando entrei no carro lembrei-me de uma cena, de uma série que comecei a ver, por sugestão de um amigo.

A cena seguiu dentro da minha cabeça até chegar ao destino.

Que estranha viagem.

As estradas mais congestionadas do país são agora estradas limpas, claras, vazias.

Nunca cheguei tão depressa dentro dos limites de velocidade e já faço a A1, 2ª Circular e IC19 há 25 anos. Respect!

A cena da série era tão simples quanto inquietante e estranha.

A série é sobre as origens do futebol.

Não verdade, o futebol não nasceu em Inglaterra, como é senso-comum, as suas regras, sim.

Mas, se quiser posso falar-lhe disso isso depois.

( https://pt.wikipedia.org/wiki/Futebol#Origens )

Acredite, o futebol nasceu na China, tal como este maldito vírus. Se isto não é o nosso fado...

Mas não nos deixemos tomar pelo medo. Nós temos o poder de transformar o medo em coragem. 

A cena que me acompanhou no caminho gamou-me o sorriso, ao entrar no carro, porque  o passado jamais volta.

É a única certeza que tenho, essa e a de que não voltaremos a jogar futebol com bexigas de porco, como na China, onde "tudo" começou.

É a Lei das coisas e da vida.

A tal cena era um tão primitiva, um simples aperto de mão.

A cena era esse gesto tão estranho!

E, a Alice que continua a dormir, como se nada fosse?!

 

 

 

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