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por The Cat Runner, em 01.11.16

AS SAUDADES DE ALICE

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Dia 30

30/10/2016

 

Sobre partidas e chegadas...

 

Um dia irei embora.

Alice obrigou-me a alterar um dos hábitos que mais prazer me dava;

Sentar-me no sofá, colocar o computador no colo, e escrever, com as pernas esticadas, em cima da mesa branca.

Por causa dos passeios constantes, à falta de coragem em mandar Alice para a cozinha, adaptamos as circunstâncias, mudo-me eu.

Mas, um dia hei-de ir-me embora. Tal como Alice fez, um dia. Foi embora. Mandaram-na embora.

Um dia...

Assim, dou comigo, qual escritor a sério – que eu sei que eles escrevem à mesa – sentado numa das cadeiras da sala, na mesa de jantar, a escrever.

Pensei, talvez desta forma Alice se distraía com outra coisa qualquer.

Alice distrai-se com uma simples folha de papel embrulhada, a fazer de bola, passa um dia inteiro assim, se for preciso.

Enganei-me.

Menosprezei a inteligência de Alice.

Pois bem, com uma tecla do computador estragada, com os senhores lá em baixo a jogar ténis, com as exclamações audíveis: “caramba, pá, foi ponto”, com os menino fofinhos do condomínio – se calhar com instruções expressas dos papás – a sujarem-me a porta de casa (tiveram sorte, senão soltava-lhes a Alice e arranhava os putos todos), com coisas non- sense do Halloween, (hei-de fazer uma ronda para ver quantas portas sujaram os meninos dos papás, só para tirar umas dúvidas), com os chinesinhos no baloiço a gritarem felicidade histérica, dei comigo sentado à mesa a escrever.

Eu é que tive que me mudar.

Um dia piro-me.

Dá um ar mais solene à coisa, é um facto, estar a mesa a escrever.

Mas, é bastante mais desagradável, pelo menos, creio, até se-lhe ganhar o jeito.

Uma coisa evito, que Alice se torne um obstáculo à minha escrita, até porque aquela questão da tecla “T” ainda me está atravessada.

Neste quadro, neste contexto de improvisações, é fácil perceber que, em trinta dias, é esse o tempo que Alice está connosco, tive que alterar algumas coisas, logo eu que só gosto de alterar a minha vida, quando decido, nunca por causa de outros, é a pior coisa que me podem fazer. Ou das piores, vá.

Uma das coisas que alterei, foi então, o local onde escrevo.

Safo, pensei.

Mas, não.

Bastou-me ouvir aquele barulho característico de umas unhas a rasparem numa cadeira, por ali abaixo, para perceber que Alice voltava a atacar.

Há trinta dias, Alice estava prestes a entrar nas nossas vidas, sem pedir autorização sequer, trinta dias depois, Alice já é uma menina, com feitio próprio, com manias próprias. Bastou ouvir as unhas a raspar na cadeira, para ficar com essa certeza. Basta vê-la e à sua alegria e ternura todos os dias. Não engana.

Alice estava ali, imóvel, em cima das costas da cadeira, em frente a mim, sentada, claro, que ainda assim aquilo é uma cadeira, a observar-me.

Alice é inteligente, percebeu que se tentasse uma pequena aproximação sequer, era corrida dali.

Então, ficou a ver. Até que eu desse um sinal de vida.

A foto apanhou-a já a descer, mas pouco depois lá voltou.

Agora, criou um circuito, sobe para as cadeiras, procura a cauda de vez em quando e roda sem parar atrás dela, salta para cima da mesa de jantar, depois para cima da fruteira gigante, aproveitou até para rondar o cesto da roupa passada a ferro que, agora, sem que eu perceba porquê, passou a estar na sala, duas vezes por semana.

Qualquer dia emigro, que esta casa está a deixar de ser o que era.

A sério, qualquer dia emigro mesmo, assim me apareça uma oportunidade, embora me pareça cada vez mais que, como não tenho amigos de almoçaradas, nem nunca lambia botas a ninguém, que o meu prazo, dizia, esteja a passar.

Mas, qualquer dia vou.

Estou cansado de viver com o mesmo ordenado há onze anos, cansado de não ver reconhecido o meu caminho profissional, cansado de ver carreiras feitas à base de amizade, prejudicando sempre os outros, cansado de notícias que me dão vergonha de ler e às vezes de fazer, começo até a ficar cansado da desarrumação que começa a aparecer cá em casa, mas esta será talvez aquela situação que, no meio do meu cansaço mais saudades terei. Se me fosse embora.

Pelo menos iría ter um sítio para escrever, sem que me incomodassem.

Tirando as saudades, que essas incomodam.

Também as saudades de Alice.

Só me faltava mais esta.

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publicado às 11:39



Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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