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AMIGOS SEM ASPAS ( DIA 28 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 03.06.18

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Não via o Zé Carlos há mais de trinta anos, trinta anos.

Perdemos o rasto, um ao outro, até um dia.

Nós vivíamos no mesmo bairro e, por isso crescemos juntos, na Quinta da Mina.

No nosso bairro tínhamos o mundo inteiro só para nós.

Brincávamos ao touro, porque o Rui tinha um tio que lhe tinha dado uns cornos, que nos transformavam em destemidos forcados, em talentosos cavaleiros, em digníssimos touros. Jogámos ao alerta, e havia sempre um de nós que ficava a tarde toda a tentar “descobrir” os outros, porque os outros se escondiam no campo de futebol, atras do prédio do Luis “francês”, ou no depósito da água, ou dentro das “manilhas”, que existiam no fim da ladeira, e que faziam lembrar os bunkers das guerras que vemos nos filmes.

Putos a viver a vida a alta velocidade, em carrinhos de rolamentos, que nós próprios construíamos, na estrada do hospital, estrada abaixo, na “gáspia”, poucos automóveis havia, e os carrinhos de rolamentos tinham solas de sapatilhas, que faziam de travões, em caso de urgência.

Desvendámos imensos mistérios da vida, da vida de miúdos, quando brincávamos aos detectives, cada qual com a sua pistola e a sua maleta de mão, com “documentos da investigação”.

Imaginávamos o prédio do Covas e do Eduardo (situado mais abaixo, em relação ao meu prédio e ao do Zé Carlos) como sendo um mega arranha-céus, numa gigantesca metrópole, onde se passavam cenas de acção, elevador a cima, elevador a baixo, escondidos na casa da porteira ou deslizando nos corrimões das escadas, para não perdermos o bandido.

Havia sempre um que era “o rapaz”!

  • “Eu sou o rapaz”…

O “rapaz” era, naturalmente, o actor principal dos filmes, o que ficava sempre com a “rapariga” e aquele que nunca morria.

Grandes perseguições se fizeram, grandes tiroteios imaginários aconteceram.

O Eduardo morreu.

Morreu mesmo.

Soube-o agora, pelo Zé Carlos.

O Zé Carlos reapareceu-me na vida, depois de umas mensagens trocadas no Linkedin.

Fazia-lhe confusão como é que eu tirava as fotos das minhas corridas.

Lá lhe fui explicando, até que a dada altura me pergunta se eu sabia com quem estava a falar.

Fui delicado, expliquei-lhe que não, nem pelas coisas que ele me estava a recordar. Dessas recordações apenas reconhecia os nomes, e isso estava a fazer-me confusão.

Estava perante alguém tão próximo de mim, sem que eu conseguisse chegar até ele. O Zé Carlos contava-me histórias para me reavivar a memória, Faltava-me a cara dele.

Andámos dias nisto, até que um dia ele me enviou uma foto de quando era miúdo.

Pois.

Também eu fiquei assim, sem reacção.

Rapidamente chegámos ao Eduardo, que vivia no prédio do Covas.

O Covas trabalha nas OGMA, o Jorge é oficial superior na Armada, o Zéze perdi-lhe o rasto, o Rui tenho-o no Facebook, mas não me liga nenhuma, ao César, não sei o que aconteceu, nem ao Vasco, grande guarda redes era o Vasco.

Às vezes ficávamos no depósito da água, sentados, com as pernas para o lado de fora, a ouvir os relatos da taça dos Campeões, num rádio que falhava sempre as pilhas, à noite, depois de jantar. Outras vezes assaltávamos a casa da Comissão de Moradores (do bairro), enquanto os mais velhos tinham as suas reuniões sobre a comunidade. Nós iamos para a cave e éramos felizes.

Não havia mistérios para nós.

Mas sempre houve um mistério para mim.

Nunca o contei a ninguém, é a primeira vez.

O Eduardo era mais velho do que eu, e do que o Covas, o Rui e os outros; ele e o Zé Carlos eram os mais velhos do grupo.

O Eduardo era alguém misterioso, como a sua família.

O Eduardo era um desenquadrado com a sociedade, muito à frente no tempo dele.

A família era a avó, já muito velhinha, que lhe fazia pescada cozida com batatas, e o pai, alguém que recordo pelo seu semblante, um homem de pele escura, olhos enormes, caídos, ar de putanheiro e de jogador de casino.

Creio que nunca trocou uma palavra com nenhum de nós.

Trinta anos depois há muitos mistérios por desvendar, muitas histórias para recordar, muitas corridas para correr.

Se as corridas me têm dado a alegria de fazer amigos, foi por causa das corridas que, trinta anos depois, ali estávamos nós, outra vez.

Fomos correr juntos.

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Desde que comecei a preparação para a maratona nunca corri acompanhado.

Foi, de todas, a corrida onde me senti bem, sem quaisquer queixas.

Ficámos de voltar a correr juntos mas, sobretudo, ficámos de voltar a rebobinar o filme das nossas vidas.

Hoje fui correr uma hora.

Pela segunda vez, desde Janeiro - quando comecei a recuperação e a preparação - corri sem qualquer queixa. Consegui ter prazer na corrida.

Durante uma hora, só eu, comigo, como gosto, voltei atrás na minha vida, quando tinha sete, oito ou nove anos. Voltei a viver tudo outra vez.

Durante a corrida com o Zé Carlos não falámos daquele que era um dos momentos mais esperados, todos os anos, as fogueiras dos santos populares, quando fazíamos peditórios, na vila, para montar o balcão, com madeiras roubadas das obras, e para comprar o pão, as sardinhas e o vinho.

Depois, era correr por aquela ribanceira abaixo e saltar sobre fogueiras gigantescas, enquanto os vizinhos conversavam uns com os outros, e o bairro era o nosso mundo exclusivo.

Não falámos sobre isso, nem sobre nada do passado.

Corremos e falámos do presente.

É que eu quero voltar a tocar às campainhas dos prédios e fugir, como se fosse o dono do meu próprio mundo.

“Zé, anda para casa”, é a frase que me ecoa, quando a minha mãe me chamava, à varanda, lá do alto do quarto andar.

Por isso, Zé,  ainda temos muitas corridas para correr.

Muitas histórias para recordar, de um mundo que não era de mais ninguém.

Só nosso !

 

 

(NOTA DO AUTOR: Os títulos dos textos mencionam sempre um dia - DIA 28 DA MARATONA - esse número não corresponde efectivamente ao números de dias de treinos, pois comecei em Janeiro. É um número que corresponde ao texto, como se fosse uma página de um livro. Desfeita a dúvida)

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publicado às 12:05


1 comentário

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 03.06.2018 às 23:39

Fogo Ze, fizeste-me vir as lágrimas aos olhos. Em meia dúzia de linhas recuei mais de trinta anos.
Obrigado por escreveres tão bem..

Grande abraço
José Carlos

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