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AMIGOS ESCREVE-SE COM "A" ( DIA 43 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 25.08.18

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Começou a contagem decrescente.

De repente dou conta que faltam apenas três - 3 - semanas para aquele dia que eu nunca imaginei lá chegar.

A ansiedade e a insegurança desapareceram.

Ainda tenho mais uma semana de dureza pela frente, afinal, ainda nem acabei esta, amanhã corro 25 quilómetros.

Na próxima irei treinar os membros superiores, depois corrida progressiva de uma hora e meia, corrida de relaxamento de uma hora, treino de pernas, outra corrida de relaxamento de uma hora, folga, no sábado e, no domingo que vem…Trinta quilómetros.

Será a corrida mais longa da minha vida.

Depois, as duas semanas que antecedem a maratona de Berlim serão também elas de treino, mas com um objectivo diferente: libertar o corpo de toda esta carga brutal que tenho em cima, para chegar ao dia 16 no pico de forma, leve como uma pena - salve seja -, para correr os 42,195 kms.

O que me preocupa, na verdade, são aqueles 195 metros finais.

Neste momento já não estou preocupado com os restantes 42 quilómetros.

A sério.

No instante em que escrevo este texto sinto-me confiante, forte, física e psicologicamente, apoiado por quem está em meu redor, perdi os receios.

Estou há 8 meses e meio a preparar este dia.

Tenho sofrido imenso com as dores, com as massagens, com o calor, com os quilómetros, tenho abdicado de ir jantar com amigos, ou de sair com a família para fora, tenho cumprido o compromisso que assumi, primeiro, comigo, depois, com o meu treinador, com o meu recuperador, depois com os meus companheiros de aventura e com as pessoas da nossa equipa.

Sim, somos uma equipa, somos os “Rainbow Runners”.

Uma equipa constituída por amigos, amigos francos, sinceros, verdadeiros, comigo, todos os dias, e que vão a Berlim só para estar a meu (nosso) lado naquele que, provavelmente, será um dos dias mais marcantes da minha vida.

Isso não tem preço.

Quando soar o tiro de partida, às oito da manhã daquele domingo, arranco para a prova física mais exigente desde que me conheço. Física e psicológica.

Na cabeça levo a estratégia da corrida e as sábias palavras do meu treinador, levo também a companhia do Francisco e da Alice, os meus “wingman”.

No coração levo todos, sem qualquer excepção, que me encorajam todos os dias, me empurram para este sonho, que alimentam a minha coragem, mesmo nos momentos em que ela quer falhar.

Levo-os a todos, sem excepção.

Aqueles que deviam estar neste movimento - onde existem imensas pessoas que nem sequer conheço pessoalmente - mas, por opção própria nem uma palavra alguma vez me dirigiram, esses, esses não conseguiram os mínimos para participar na corrida…do meu coração.

Estão fora.

De fora ficarão.

E, não contam, para nada.

São os que me acarinham, os que me incentivam, os que acreditam em mim, os que me ajudam e apoiam que serão as molas que levarei nos pés.

Com o meu “irmão” Francisco de um lado e a minha “irmã” Alice do outro irei voar.

Se vou terminar nas 4.15H, nas 4.30H ou nas 4.40H, é algo que, de facto, não me incomoda rigorosamente nada.

Hoje, enquanto escrevo, sinto-me forte, como nunca, combativo, como sempre, sonhador, porque assim sou, crente, em mim e no que sei sofrer, esperançado, porque a felicidade voltou a visitar a minha vida. Finalmente.

Daqui nada vou ver a estreia do meu filho.

Vai jogar pela primeira vez no campeonato nacional de juniores ( Divisão II).

Está a cumprir o seu sonho, mas é para lá disso, ele e eu sabemos o que é e a força que os últimos acontecimentos me transmitiram. A mim e a ele.

Quinta feira, a minha mãe será operada e irá voltar a ver, sim, a ver, a minha mãe praticamente cegou, há uns anos.

Não havia como voltar a ver.

Mas, há e vai voltar a ver.

Se deus existe, e se quiser, outras novidades vão acercar-se de mim, nos próximos dias.

Tudo, exactamente tudo como desejei em Dezembro quando decidi mudar a minha vida e correr a maratona, pela primeira vez.

Por tudo isto, que aqui está escrito e que parece pouco, mas na realidade é uma brutalidade, na minha vida, faz com que não esteja preocupado com os 42 quilómetros.

Para essa epopeia única eu preparei-me, passaram oito meses e meio, desde o primeiro dia.

O que me preocupa são os 195 metros finais.

É que eu não treinei essa parte.

Ninguém treina o seu coração.

Quando completar os 42 quilómetros vou olhar para a Alice e para o Francisco, vou voltar a lembrar-me de todos aqueles e aquelas que me acompanharam neste caminho tão duro, vou lembra-me do Mané Cordeiro, que um dia disse que iria correr uma maratona comigo, antes de morrer. Mané vais estar a ver-me, onde quer que estejas, isso eu sei, meu querio amigo.

Vou lembrar-me do Grilo, que continua desaparecido, já lá vai uma eternidade.

Vou lembrar-me dos meus filhos e da Carla e do amor que me dão.

E, vou chorar. Muito. Tanto.

Tanto, que aqueles 195 metros finais serão uma mera fracção de tempo.

Não estou preparado para tamanha invasão de emoções.

Não treinei para isso.

E, ainda bem!

 

 

 

 

 

 

 

 

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2 comentários

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De Ana a 25.08.2018 às 21:02

Aqui a torcer. Força.
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De The Cat Runner a 26.08.2018 às 15:51

Obrigado, Ana, um abraço.

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