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por The Cat Runner, em 07.11.16

ALICE TIRA-ME O CHÃO

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Dia 36

05/11/2016

 

Os fins de semana...

 

É tão engraçado ver a tua relação com Alice”.

Foi, desta forma surpreendente que, também eu, fui surpreendido, ao fim deste dia de sábado.

Surpreendente, porque nunca me tinha (ainda) ocorrido.

A minha resposta foi quase entendível, embora tenha feito silêncio.

Alice está a dormir. Não se acorda um anjo.

Não é apenas a minha relação com Alice, é a mudança que Alice trouxe a cada um de nós, até a quem acompanha a vida de Alice, fora da nossa casa.

E, porque depois de Alice chegar até cá, as surpresas e as coisas surpreendentes acontecem cada vez mais, tem sido com admiração e, confesso, com um sorriso que me confronto com os acasos.

Nunca imaginei receber tantas mensagens, emails, comentários, likes, fotos, presentes, sugestões e conselhos, como desde que Alice começou a fazer parte da nossa família.

Eu agradeço, tenho até aprendido umas coisas, mas, há sempre aquela coisa em mim.

Basta-me Alice.

Escrevo por ela, faço tristes figuras por ela, a história que conto é a dela.

E, agradeço o pequeno universo que se criou, desde há um mês. Tem sido engraçado, engraçado, como já escrevi a palavra engraçado uma série de vezes.

Tal como na história de Alice, tudo o resto foi um acaso, por isso engraçado, lá está.

“Acho que Alice deve ter nascido ali”, aponta para o nosso lado esquerdo, lá em baixo há os pombais, o parque de estacionamento da escola onde andam os miúdos, há uma encosta grande e, só depois a auto-estrada que, há muitos anos, veio trazer-nos desenvolvimento, pessoas, produtividade e visibilidade à “vila”.

Passamos ali todos os dias. A escola dos miúdos fica ali, a casa dos avós fica ali e, há muitos anos, muitos mesmo, era eu muito pequeno, toda aquela zona, a Quinta do Bolhão era isso mesmo, uma gigantesca quinta.

Saltava-mos o muro (quem não saltou!) e o mundo parava durante toda a tarde.

Tantas vezes ali dormimos grandes sestas, depois de grandes banquetes de nêsperas, enquanto o guarda não aparecia, pelo menos.

Ali, às vezes, perdíamo-nos uns dos outros, só nos encontrava-mos mais a meio da tarde, no cais, junto à Fábrica do Arroz, onde é agora a Fábrica das Palavras.

Depois, aqui sinto-me maduro, veio o desenvolvimento.

Toda a quinta foi urbanizada. Fez-se a estrada, o liceu, a urbanização onde vivi quando casei, onde vivem os meus pais, fizeram-se os pombais, o parque de estacionamento, tudo a seguir à vinda da auto-estrada.

“Alice deve ter nascido ali porque há ali gatos vadios, de certeza”.

Engraçado não é só ver a minha relação com Alice.

Engraçado é imaginar.

Imaginar que Alice nasceu ali e que, por isso, conseguiu chegar à porta do liceu, há pouco mais de um mês, um mês depois de ter nascido.

Naquela condição tão frágil em que Maria encontrou Alice, ela não conseguia ter sobrevivido longe daquele lugar.

Não tería tido força para sobreviver.

Faz sentido.

Alice já tem um nome, uma data de nascimento, uma família, uma crónica nas redes sociais e um mundo novo que é só dela.

Alice só não sabe onde nasceu.

Nem quem será a mãe.

Um dia. Acredito que um dia!

Talvez tenha nascido ali mesmo.

Aquele é território nosso.

A minha relação com Alice é sintomática, é a minha e a de todos os membros da família, porque é assim que se constrói uma família, com relações, muito mais que com ralações, penso que nada de anormal.

O tempo passa, ela cresce, mais saudável, faz coisas que nos fazem rir, praticamente já não morde, e adormece junto de nós.

Era aqui que queria chegar;

A minha relação com Alice não é diferente da relação que tenho que outros seres de quem gosto.

Às vezes também gosto de olhar e observar pessoas a dormir.

Mas, Alice tira-me o chão.

Surpreendente?

Claro que sim, claro que sim, ora veja de novo a foto principal deste texto.

A minha relação com Alice baseia-se nisto; ternura.

Em cada pedaço de dia há um mundo todo de ternura.

Por isso escrevo Alice.

 

 

 

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publicado às 20:41


1 comentário

De marta-omeucanto a 08.11.2016 às 15:20

Os gatos fazem-nos rir, dão alegria a uma casa, transmitem-nos toda aquela ternura que só eles têm!
Muitas vezes olhamos para eles, seres tão pequeninos e frágeis, que temos o dever de defender, como se fossem as nossas próprias crias.
Seres tão independentes e auto-suficientes mas, ainda assim, tão dependentes do nosso amor e lealdade. Se é verdade que eles precisam de nós, também é verdade que, a partir do momento em que eles entram na nossa vida, já não sabemos viver sem eles.

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Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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