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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

03.10.16

ALICE E O SONO MÁGICO


The Cat Runner

 

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Dia 2

02/10/2016

 

Há um dom que eu não tenho, não consigo adivinhar o que se segue, pelo que só consigo escrever no final do dia, até porque esta história ainda me vai dar muitas dores (boas) de cabeça.

E, ao segundo dia, Alice escolheu a cama cor de rosa e de lá não mais saiu.

Talvez seja a primeira vez que descansa, na curta vida.

Dei comigo a pensar nisto, e no caminho de casa dei comigo de novo a pensar nisto.

Foi a primeira coisa que fiz assim que cheguei, já passava das duas da manhã;

Entrei, abri a porta da cozinha, tão devagar que o tempo parou ali, por instantes.

Só depois fui à sala.

Estranho e recente hábito, o de olhar logo para o lado direito, para o chão, para o canto.

A cama cor de rosa.

Lá estava ela deitada, tal como quando saí, doze horas antes.

“Continua na cama...”

“Esteve a tomar os medicamentos, esteve no colo, e depois voltou a deitar-se na cama, mas adormeceu ao colo”.

E, fiz-lhe uma festa.

Impressionou-me a sua fragilidade, mas muito mais a sua coragem, e a elegância.

Abriu a boca, como que a mostrar-me o quão inoportuno às vezes somos, abanou a cabeça umas três vezes, como que a mostrar que resiste.

A vida é dotada de elegância, pois claro, de belo, de surpreendente.

Detalhes, grandes ensinamentos.

Fragilidades.

Uma das coisas que me impressionou, profundamente, foi a inteligência, o instinto, longe de mim, da minha inteligência e do meu instinto.

Ontem, no primeiro dia cá em casa, poucos minutos depois de ter entrado, Alice caminhou, com uma estranha elegância, como se desfilasse, num corpo magro, de modelo, deixando atrás de si um rasto de estrelas prateadas, algumas transparentes, que se transformavam em pétalas ao tocarem o chão.

Caminhou breves segundos, até ao sítio onde está um produto que substitui a areia, (pedrinhas), onde dormiu a primeira noite, e acordou com pedrinhas à volta da boca, não me perguntem como se chama, só sei que é cinzento, porque a minha praia é outra.

Não sou dos produtos, dos acessórios, nem dessas coisas.

Nunca serei especialista em gatos.

A mim interessa-me a história, as histórias. Só isso.

Isso é o que me interessa.

Também nunca ia publicar coisas de gatos, nem sequer ter um(a) gato(a) e é o que se vê.

Lá chegada, Alice raspou, o resto sub-entende-se.

Estava ali há minutos, eu não lhe dei qualquer explicação, sei lá, eu já disse que acho que os gatos são pessoas que gostam de nós. Eu sei, a inteligência existe, o comportamento animal estuda-se, mas fazer o quê, eu prefiro este lado.

Mas, acho que me vou meter em sarilhos.

Já há vídeos com ela a saltar, a tentar saltar, para cima de uma gigante (à escala) cadeira, com ela a brincar com o que sobrou de um rolo de papel higiénico, aquela parte em cartão, já a apanhei em cima da caixa do ferro de engomar e já a encontraram atrás das máquinas de secar e assim.

 Evitei ir à cozinha, de novo, apesar de estar cheio de fome, sei lá, aquilo dá-se-me uma inquietude.

Mas no fim deste texto tenho que ir comer qualquer coisa.

À conta disto já deixei de comer antes de ir dormir. Hoje tem que ser. 

Ninguém é perfeito. 

A minha mulher, uma gata ( a sério, é mesmo), entrou na cozinha, fez o que tinha a fazer, enquanto Alice se limitou a abrir os olhos e a observar.

Eu também entrei, mas não lhe resisti e acabei por voltar a não comer, pela segunda noite consecutiva, madrugada, vá, que é quando escrevo esta página. Vou lá agora, que estou só nos retoques do texto.

Hoje toquei-lhe pela segunda vez. Pela terceira, que à tarde fui obrigado a pegar nela e a tirá-la do alto da pequena caixa do ferro de engomar.

Foi antes de sair para vir escrever. Deixou-me tocar-lhe, de novo, deitada na cama cor de rosa.

Foi há minutos. Meia hora. Isso... 

Percebi, com aquele toque leve, que quando somos tão frágeis, quando estamos tão à mercê de um mundo inteiro, um toque na alma serve o propósito, nem que seja ao leve, como a festa que lhe fazes na pequena cabeça, cuidadosamente, para não a assustar.

Olho sempre para aquele canto, no lado direito da cozinha, quando entro, já lá vão dois dias.

Estranho hábito o meu, sempre à procura de um simples olhar.

Aquela manta cor de rosa começa a ganhar vida, uma vida surpreendente, enrolada em si mesma.

Alice dorme agora.

 

 

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