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por The Cat Runner, em 03.10.16

ALICE E O SONO MÁGICO

 

IMG_1554.JPG

 

 

 

 

Dia 2

02/10/2016

 

Há um dom que eu não tenho, não consigo adivinhar o que se segue, pelo que só consigo escrever no final do dia, até porque esta história ainda me vai dar muitas dores (boas) de cabeça.

E, ao segundo dia, Alice escolheu a cama cor de rosa e de lá não mais saiu.

Talvez seja a primeira vez que descansa, na curta vida.

Dei comigo a pensar nisto, e no caminho de casa dei comigo de novo a pensar nisto.

Foi a primeira coisa que fiz assim que cheguei, já passava das duas da manhã;

Entrei, abri a porta da cozinha, tão devagar que o tempo parou ali, por instantes.

Só depois fui à sala.

Estranho e recente hábito, o de olhar logo para o lado direito, para o chão, para o canto.

A cama cor de rosa.

Lá estava ela deitada, tal como quando saí, doze horas antes.

“Continua na cama...”

“Esteve a tomar os medicamentos, esteve no colo, e depois voltou a deitar-se na cama, mas adormeceu ao colo”.

E, fiz-lhe uma festa.

Impressionou-me a sua fragilidade, mas muito mais a sua coragem, e a elegância.

Abriu a boca, como que a mostrar-me o quão inoportuno às vezes somos, abanou a cabeça umas três vezes, como que a mostrar que resiste.

A vida é dotada de elegância, pois claro, de belo, de surpreendente.

Detalhes, grandes ensinamentos.

Fragilidades.

Uma das coisas que me impressionou, profundamente, foi a inteligência, o instinto, longe de mim, da minha inteligência e do meu instinto.

Ontem, no primeiro dia cá em casa, poucos minutos depois de ter entrado, Alice caminhou, com uma estranha elegância, como se desfilasse, num corpo magro, de modelo, deixando atrás de si um rasto de estrelas prateadas, algumas transparentes, que se transformavam em pétalas ao tocarem o chão.

Caminhou breves segundos, até ao sítio onde está um produto que substitui a areia, (pedrinhas), onde dormiu a primeira noite, e acordou com pedrinhas à volta da boca, não me perguntem como se chama, só sei que é cinzento, porque a minha praia é outra.

Não sou dos produtos, dos acessórios, nem dessas coisas.

Nunca serei especialista em gatos.

A mim interessa-me a história, as histórias. Só isso.

Isso é o que me interessa.

Também nunca ia publicar coisas de gatos, nem sequer ter um(a) gato(a) e é o que se vê.

Lá chegada, Alice raspou, o resto sub-entende-se.

Estava ali há minutos, eu não lhe dei qualquer explicação, sei lá, eu já disse que acho que os gatos são pessoas que gostam de nós. Eu sei, a inteligência existe, o comportamento animal estuda-se, mas fazer o quê, eu prefiro este lado.

Mas, acho que me vou meter em sarilhos.

Já há vídeos com ela a saltar, a tentar saltar, para cima de uma gigante (à escala) cadeira, com ela a brincar com o que sobrou de um rolo de papel higiénico, aquela parte em cartão, já a apanhei em cima da caixa do ferro de engomar e já a encontraram atrás das máquinas de secar e assim.

 Evitei ir à cozinha, de novo, apesar de estar cheio de fome, sei lá, aquilo dá-se-me uma inquietude.

Mas no fim deste texto tenho que ir comer qualquer coisa.

À conta disto já deixei de comer antes de ir dormir. Hoje tem que ser. 

Ninguém é perfeito. 

A minha mulher, uma gata ( a sério, é mesmo), entrou na cozinha, fez o que tinha a fazer, enquanto Alice se limitou a abrir os olhos e a observar.

Eu também entrei, mas não lhe resisti e acabei por voltar a não comer, pela segunda noite consecutiva, madrugada, vá, que é quando escrevo esta página. Vou lá agora, que estou só nos retoques do texto.

Hoje toquei-lhe pela segunda vez. Pela terceira, que à tarde fui obrigado a pegar nela e a tirá-la do alto da pequena caixa do ferro de engomar.

Foi antes de sair para vir escrever. Deixou-me tocar-lhe, de novo, deitada na cama cor de rosa.

Foi há minutos. Meia hora. Isso... 

Percebi, com aquele toque leve, que quando somos tão frágeis, quando estamos tão à mercê de um mundo inteiro, um toque na alma serve o propósito, nem que seja ao leve, como a festa que lhe fazes na pequena cabeça, cuidadosamente, para não a assustar.

Olho sempre para aquele canto, no lado direito da cozinha, quando entro, já lá vão dois dias.

Estranho hábito o meu, sempre à procura de um simples olhar.

Aquela manta cor de rosa começa a ganhar vida, uma vida surpreendente, enrolada em si mesma.

Alice dorme agora.

 

 

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publicado às 09:49


9 comentários

De Anónimo a 03.10.2016 às 12:30

Maravilhoso texto , estou rendida de verdade e ainda faltam trezentos e tal dias :-) .Beijinhos .

De The Cat Runner a 03.10.2016 às 12:31

Bom dia
:)
A ver se os dias passam rápido.
Boa semana

De marta-omeucanto a 03.10.2016 às 14:34

A nossa Becas, no dia em que a fomos buscar, com cerca de 1 mês e meio, nunca devia ter experimentado antes a areia/pedras, e quando a punhamos lá, ela achava que era para comer e punha-as na boca. Mas depois percebeu que era apenas a casa de banho!
Vão haver muitas histórias, e muitos olhares, cada um diferente e com uma mensagem diferente.
O tempo passa depressa, e estas "ratitas" crescem depressa!

De The Cat Runner a 03.10.2016 às 22:40

Já vi que todos temos uma história :)

De Anaquegostade... a 03.10.2016 às 16:04

Tenho uma história de um resistente para lhe contar. O nosso gato, lá de casa dos meus pais, veio para casa parecia essa Alice. Tinha caído, com poucos dias, dentro de um balde cheio de água com detergente para lavar o chão. Tinha remelas e ranho até ao pescoço. Era enfezado e miar a reclamar da sorte que ainda não tinha tido. Hoje, é um sénior de 18 anos e 5 meses, desdentado e surdo, mas que ainda nos enche o coração quando lhe damos mimos.
Chama-se Astérix Candeias Furacão, Astérix, porque era minúsculo e tinha uns bigodes grandes), Candeias (que é o nome que na minha terra dão ao ranho que escorre do nariz) e Furacão porque não parava de correr pela casa.
Muita vida para a Alice!!! Beijos

De The Cat Runner a 03.10.2016 às 22:38

Alice manda um abraço ao Ásterix :)

De Marta Rebelo a 04.10.2016 às 12:55

O que te interessa é a Alice, Jorge! É gatinha, mas podia ser girafa. Entrou-te na vida e logo no coração, é o que eles fazem. Sabes porquê? Porque são simples e directos no que querem e sentem. Os gatos, os cães os animais que não humanos. Não problematizam tudo, não complicam nada, é como é e é agora.
Não me perguntes porquê, mas garanto-te que são donos de uma sapiência tremenda.
E prepara-te: a Alice é pirata! Deixa-a ganhar mais forças e vai ser um furacão aí em casa. Por volta dos 12 meses acalma (e ajuda muito se for esterilizada a partir dos 6 meses).

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Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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