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por The Cat Runner, em 05.10.16

ALICE E AS TAREFAS DA CASA

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Dia 4

04/10/2016

 

Instintos...

 

Nos últimos quatro dias tenho aprendido verdadeiras lições de sobrevivência.

Alice, aos poucos, começa habituar-se às pessoas, aos barulhos e a tudo o que lhe é estranho, e que é praticamente tudo.

Tenho dado comigo, deitado no chão da cozinha, ao nível do seu olhar, não vá achar-me um gigante medonho, a observar o seu comportamento.

Tanto quanto o pêlo escuro raiado de sol, o focinho ternurento, é o comportamento de Alice que me fascina.

Ela dá saltos no ar, como os drones quando levantam.

Ela dá voltas e mais voltas com o rabo, ela provoca a sua própria sombra, ele coloca-se debaixo do perigo (debaixo da mesa da cozinha, debaixo dos pés grandes, da mesa e de quem se senta à mesa), ela pára, ela senta-se, ela observa.

E a reacção é ao milésimo de segundo.

Alguém que se mexa, um barulho que se faça, e Alice reage.

Instinto. Instintos.

Creio que foi isso que a fez sobreviver.

O instinto, não se ensina, não se treina, não se aprende, o instinto é uma arma para sobreviver, e não só, obviamente.

Não vai ser fácil enganarem Alice.

Ainda esta noite, um susto. Enorme.

Estava a escrever um texto pra um blog com o qual colaboro ( eu faço o meu próprio serviço comunitário e cívico, escrevo no blog Insónias – para além de escrever no The Cat Run - e ajudo na comunicaçãoo da escola de Muay Thai, pro bono, entre outras coisas que faço), quando ouvi um enorme estrondo vindo da cozinha.

A primeira coisa em que não pensei foi: “Alice está a fazer exercício”.

A primeira coisa que pensei foi: “a tábua de engomar caiu em cima da Alice”.

“Não se passa nada, tudo tranquilo”, disseram-me do lado de lá da casa, do lado da cozinha.

A tábua tinha mesmo caído.

Desde o segundo dia cá em casa, e só passaram quatro que, Alice, na descoberta do espaço, rondava a tábua de passar a ferro.

Sempre pensei que quisesse começar já a contribuir para as tarefas domésticas, que vai chegar o momento, porque cá em casa todos contribuem.

Nunca imaginei que a conseguisse deitar abaixo, à tábua de passar a ferro.

É o mesmo que eu me colocar em frente a um arranha-céus e o empurrar.

Vai-se a ver e eu deito arranha-céus abaixo, se tentar.

Assustei-me.

Não tanto quanto Alice.

Se não morreu na rua, não será uma simples tábua de passar a ferro que a vai levar daqui.

O seu instinto voltou a salvar-lhe a vida, como foi no último mês e pouco, quando estava ao abandono de tudo e de todos.

É uma fracção de segundo;

Imaginem a borboleta, no Oriente, a bater as asas, até que o maremoto chega ao outro lado do mundo.

Assim é Alice, ainda a tábua não fez o primeiro balanço rumo ao chão, já ela se escapou para o outro lado da cozinha.

Mas, o estrondo foi enorme e Alice ficou assustada, tanto quanto eu.

Escondeu-se por baixo do carrinho das batatas e das cebolas, ali mesmo ao lado da cama cor de rosa.

Costuma meter-se lá por baixo, deve pensar que aquele mini-bunker a protege de algo que, aqui, não existe, aqui ninguém lhe fará mal.

Tentámos por todos os meios com que fosse para a cama.

Não nos deitámos enquanto tal não acontecesse.

Fomos à cozinha uma meia dúzia de vezes.

Fiquei com a sensação que teria que recomeçar tudo, de conquistar, de novo, a sua confiança, não fosse ela pensar que eu era um aliado da tábuade passar a ferro.

Durante toda a noite tratou-me como um estranho, a estudar-me, de novo, a testar-me, de novo, sem confiança em mim. Não gostei da sensação.

Deixei-a dormir.

Foi para a cama cor de rosa pelo seu próprio pé.

Agora, tenho mais uma dor de cabeça, tenho que encontrar um lugar para arrumar a tábua de passar a ferro.

Por agora está ali, no hall de entrada.

Até que me passe a aversão às tábuas de engomar.

 

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publicado às 16:15


1 comentário

De Marta a 05.10.2016 às 16:37

Ohh tadinha. Quando for assim, deixem estar que ela sairá do esconderijo quando se sentir segura e esquece rapidamente. Mas dá para ver que é das curiosas. Quer uma sugestão? Deixe coisas para ela brincar. Os gatinhos dormem muito mas quando acordam têm uma energia incrível e precisam de a descarregar. Uma bolinha daquelas que pulam fará as delícias à Alice. Uma rolha de cortiça e um cordel comprido. Eles adoram quando abanamos o cordel no ar e no chão.. E finalmente, o ai jsesus dos gatos são as caixinhas onde se podem esconder. As de cartão, fazendo tuneis e os tapetes pequenos onde se enrolam. Há muito para a Alice se entreter e assim evitará objectos maiores e mais perigosos. Um abraço ao clã da Alice.

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Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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