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por The Cat Runner, em 12.11.16

ALICE E A MINHA PROMESSA

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Dia 38 a 40

8,9,10/11/2016

 

( No dia 8 deste mês de novembro, este texto, que hoje foi concluído, começava assim...)

Dia 0

FIM…

 

Terminou a história de Alice.

Alice desapareceu.

Mesmo que Alice regresse, a história terminou.

A Maria e a Carolina vão, concerteza, perdoar-me não conseguir cumprir a minha promessa.

Enquanto pude, enquanto tive que, enquanto foi minha obrigação, tratei, cuidei, amei Alice, como nunca imaginei, eu, o tal que não ligava a animais.

Mas, Alice desapareceu.

O vazio da perda enche-nos, a falta de uma explicação inquieta-nos e tira-nos as forças.

A angústia tem sabores diferentes, mas todos cortam por dentro.

Ontem, quando cheguei a casa, ia com a ideia de meter os textos em dia, estava em falta com dois textos sobre Alice.

Ontem, ainda antes de sair da televisão recebi esta fotografia, por sms, com esta mensagem:

“Alice já deixa fazer festas, enquanto dorme, sem morder :) ).

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Respondi:

“Estive toda a manhã nisso. Estou apaixonado”.

Alice, ontem de manhã, quando entrou no meu quarto e saltou para a cama, deitou-se junto a mim.

Enfiou a cabeça entre os meus braços e adormeceu. Alice estava a começar a dar-se a nós.

Ficámos sem chão.

Sem explicação.

A Carla adormeceu pouco depois da meia noite. Alice brincava na sala, junto dela.

Estive toda a semana a editar a noite, na televisão. Quando assim é só consigo chegar a casa depois das duas da manhã. É quando, no silêncio, aproveito para meter coisas em dia, noite dentro.

Estranhei a Carla estar a dormir na sala aquela hora. Entrei, reparei que a cozinha tinha a luz acesa, mas estava vazia.

“Sabes da Alice?”.

“Deve andar por aí”.

Senti-me gelar. Sem explicação.

Espreitei para a manta castanha, por cima das pernas da Carla, onde Alice estaria a dormir.

“Alice...”

Durante mais de uma hora esta foi a palavra que ecoou pela casa. Invadimos os quartos dos miúdos, espreitámos por baixo de rigorosamente tudo, desviámos livros, objectos, abrimos gavetas, gavetões, armários, camas, voltámos a verificar todas as portas, todas as janelas.

“Alice”...

A partir deste momento, tanto quanto encontrar Alice, às quatro e tal da manhã, tentámos encontrar uma explicação. Alice não estava em casa. Era impossível. Mesmo morta, impossível, verificámos rigorosamente tudo.

Ponderámos rigorosamente tudo.

Alguém tentou assaltar a casa entre a meia noite e as duas da manhã – mas porque raio iam levar uma gata rafeira, e mais nada?), se teria fugido, apesar de tudo estar fechado, se estava num armário, gaveta ou roupeiro, apesar de não conseguir abrir portas, até nas sanitas procurámos.

Às quatro e tal da manhã andávamos a vasculhar todo o condomínio, arbustos, piscina, garagem, salão, jardim. Às sete da manhã, de novo, às duas da manhã do dia seguinte, de novo.

Este texto só hoje foi concluído, mas começou a ser escrito no dia 9, no dia a seguir a Alice ter desaparecido. Faltou-me, mais que a vontade, a coragem de o escrever.

Pelo meio decidi arrumar tudo o que era de Alice.

Não estava a conseguir entrar na cozinha e ver tudo como antes.

“Não arrumamos nada, ela vai voltar para o pé de nós”.

Mantivemos tudo como naquela noite. Exactamente como naquela noite.

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As opiniões das pessoas que gostam de Alice e da sua história de vida, no Facebook e aqui no blog e, ao dava-nos alguma esperança, sim, esperança, as opiniões convergiam, mas como podia Alice ter estado mais de 30 horas, em casa, sem se mexer, miar ou aparecer. Alice tem dois meses.

Alice adora brincar. Era impossível, mas o denominador comum começava a dar-nos esperanças: todas as pessoas contavam histórias de desaparecimentos de gatos, durante dias, exactamente nas condições misteriosas em que desapareceu Alice, embora me custasse a acreditar.

Dias de angustia pura, noites em que cheguei a casa e, ainda na rotunda, começava a observar tudo em redor, depois a entrada do condomínio, depois a garagem, o elevador, o hall, a casa.

Olha, de repente, como que à espera de ver Alice, lá ao fundo, um salto, uma corrida, outro salto, e aqui, ao meu lado, aninhada, a dormir.

Faz-nos falta, Alice.

Alice não é apenas a nossa gata, Alice é uma história de quem dela gosta.

O destino trouxe-nos Alice. O destino quis levar Alice.

Ou então, aquela gata que passou por mim, enquanto eu observava, lá em baixo, e redor da varanda, o jardim, aquela gata saiu do escuro, a passo, parou, olhou para cima, para mim, e seguiu.

Arrepiei-me.

A mãe de Alice tinha vindo buscá-la.

Não, já era delírio, tal como a explicação que nunca nos chegou.

Onde estava Alice, para onde foi Alice, porquê?

Contudo, apesar do frio lá fora, Alice, se por acaso caiu de uma das varandas e sobreviveu, estará protegida e, tenho a certeza, vai voltar para junto de nós.

Afinal, ainda faltam tantas páginas nesta história.

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publicado às 23:24



Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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