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ALICE "A GATA SEM NOME"

Domingo, 02.10.16

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PREFÁCIO/INTRODUÇÃO

 

30/09/2016

 

Alice é uma gata que não tinha nome, até ontem.

Alice já tem um nome, a partir de ontem, e o facto de eu afirmar que é “a gata sem nome”, serve apenas para marcar o antes e o agora. O futuro.

A minha relação com gatos era estranha, não era má, mas os gatos encostam-me à parede. Eu acho, paranóia minha, que os gatos têm todos um olhar familiar, gestos e reacções familiares e isso quase que me assusta.

Chego a pensar que são reencarnações.

Por isso sempre me opus à vontade dos restantes habitantes deste pequeno país que é a minha casa.

A minha filha sempre quis ter uma gata, ela quer ser veterinária.

Estava fora de questão.

Acontece que no dia 30 de setembro, sexta feira, um miúdo encontrou uma gata à porta do liceu, em Vila Franca de Xira.

Ela estava a morrer.

Não o deixaram entrar, com a gata, na escola.

Nesse instante, a minha filha vinha a sair, com a Ana Carolina, e ficou, literalmente, com a gata nos braços.

Não conseguiu deixar a gata no passeio.

Eu também não conseguiria, embora haja quem o tivesse feito.

Sabendo que a minha relação com gatos é estranha, Maria decidiu, por si, procurar ajuda para tentar salvar a gata, que não conseguia sequer caminhar, suster-se em pé. Tinha um olhar triste.

Mal entraram numa loja, com consultório veterinário, e ma pousou a gata no balcão, quase não conseguiu dizer: "encontrei esta gata na..." porque imediatamente alguém lhe disse, sem mais: “nem pensar!”.

Correram mais uns sítios e foram finalmente atendidas na Xira-Vet, uma das clínicas da cidade.

A gata sem nome estava salva.

Tudo ia ser diferente, daqui em diante. Para elas e para mim.

Tudo isto me chegou depois.

Estava eu a leste desta história tão bonita, quando recebo um telefonema:

“Pai, preciso de falar contigo, um assunto sério”.

Assustei-me.

Ela contou-me a história toda.

Tocou-me, muito, mas não dei parte fraca.

Se já falaste com a mamã, então deixa a gata na avó e depois tomamos uma decisão”, arrumei o assunto.

Mas, mal desliguei o telemóvel já estava decidido.

Mais ainda, depois de receber umas fotografias por sms.

Uma atitude como aquela, sem que houvesse qualquer tipo de manipulação, tinha que ser premiada, encorajada, mas acima de tudo respeitada e sublinhada, porque eu senti orgulho imenso no tamanho do coração dela.

À noite mandei um sms à minha filha, que me tinha enviado tais as fotos da gata sobrevivente, no seu colo.

Não tive coragem.

“Ok, por mim ela será bem-vinda”.

A alegria com que a Maria recebeu a notícia vai fazer com que daqui a muitos anos ela se lembre do que fez, do seu próprio exemplo. E, isso é impagável.

No veterinário foi-lhe então dito que Alice tinha pouco mais de um mês e que o facto de ter sobrevivido até chegar aos braços da Maria foi um milagre.

Como se sobrevive com um mês de vida, sózinha, na rua, à mercê de tudo, sem comida, sem carinho?

Ela sobreviveu, e é um exemplo que me entrou casa dentro.

Chegou ontem cá a casa.

Fraquinha, assustada, olhos inflamados, imensas peladas, cambaleante, com fome, mas com laivos dourados-sol, entre o pêlo escuro, uma expressão que me conquistou, mal a vi pela primeira vez, com um andar elegante, apesar de tudo, como se exige a uma gata bonita, sim, porque Alice é bela.

Há muita beleza nos olhos dos sobreviventes.

Eu guardo os exemplos de sobrevivência.

Sigo-os.

Demos-lhe o nome de Alice, porque as senhoras da casa decidiram que tinha que ser nome de pessoa.

Alice tem o som "cssssssssss", de Alicsssssssssssse, e dizem que os gatos gostam. E as gatas.

E, o facto de Alice ter aqui chegado não foi um mero milagre, foi um sinal. Para todos nós.

A sua história merece ser contada, porque ela é mais que uma gata, é a Alice, a gata que já tem nome.

Quando Alice fizer um ano de vida connosco, dia 1 de outubro do ano que vem, a história será concluída.

Até lá será contada todos os dias.

Hoje, pela primeira vez em 24 horas, Alice deitou-se na cama que é só dela.

E, eu não lhe consigo resistir.

Acho que nos vamos entender muito bem.

Esta é a história de “Alice”.

Esta é a nossa história.

Porque aqui amamos a vida e o bem.

 

( a seguir, o dia 1 de Alice - 1/10/2016)

 

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publicado por The Cat Runner às 15:05


10 comentários

De Marta Rebelo a 02.10.2016 às 15:48

Eu tenho pinta de carro de assalto e sou mesmo capaz do "quantos são, quantos são?".
Estou lavadinha em lágrimas. Das boas. Eles, os não humanos, convocam tudo o que haja de bom em mim. São, como bem dizes mas não deves temer, donos de um olhar que nos lê à transparência. Gatos, cães, porcos, periquitos. Humanos, bah, há poucos que me roubem lágrimas boas. A tua filha é claramente das que roubam. Já roubou.
Parabéns, rapaz. A Alice foi salva por uma humana das boas - tua filha. Por isso ganhaste uma "filha" nova - dia 1 de Outubro de 2017 falamos. Por isso, finalmente, tornaste-te um pouco (mais) melhor e mudaste mais uns cm de mundo - um dever de todos e cada um. E ainda tens a sorte de passar a vida (dela) com a Alice. Continua a fazer como o Mad Hater, a enumerar coisas impossíveis ao pequeno-almoço para chegarem ao fim do dia feitas - agora que encontraste a tua, vossa, Alice.

De The Cat Runner a 02.10.2016 às 20:58

se prometeres acompanhar a saga, todos os dias...:)

De Anónimo a 02.10.2016 às 19:26

Estou a torcer pela Alice e quero ler os textos todos os dias , porque a Alice é uma sobrevivente e dos fortes reza a história e o amor supera tudo e muitos meses virão tenho a certeza .

De The Cat Runner a 02.10.2016 às 20:59

Então dê-me a mão, vamos embora...:)

De HD a 02.10.2016 às 20:05

Que linda :)

De The Cat Runner a 02.10.2016 às 20:58

Não vale ironias...:)

De HD a 02.10.2016 às 21:07

Ironias ?! :s
É mesmo parecida com a minha, mas já tem 2 aninhos :)

De The Cat Runner a 03.10.2016 às 02:37

Fantástico...
:)

De Marta a 03.10.2016 às 21:39

Também quero ficar! Posso? Para comparar e porque vivo todos os dias histórias de Alices. Tinha (tenho!) já eu um casalinho adoptado adulto, um macho que terá cerca de oito ou nove anos e uma fêmea com dois, quando me apareceu um bebé do tamanho da Alice, esfomeado e com o pêlo eriçado a quem não fomos capazes de fechar a porta. E ainda bem. É uma aventura diária. Chamamo-lhe Moisés e sim, eles respo de sempre aos sssssssss! Vão ver o pêlo a baixar, a brilhar, vão ver as brincadeiras e as palhaçadas de felicidade.. e mais não digo, que a aventura seja toda vossa e eu vou acompanhar.
Oxalá mais Alices encontrem pessoas como vós! Porque há tantas e tantos Moisés por aí procurando quem lhes pegue mas não têm tanta sorte. Bem hajam!

De The Cat Runner a 03.10.2016 às 22:34

Obrigado, Marta,

um beijinho.

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