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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

20.03.16

ACIDENTE EM PASSO DE CORRIDA


The Cat Runner

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Os gatos têm sete vidas. Hoje gastei uma delas.

Só nos lembramos que a água molha quando chove. Pena.

Deviamos lembrar-nos todos os dias, horas, minutos, segundos.

Talvez fossemos gente melhor, connosco próprios e com os outros, mas faz parte da condição humana, a água molha.

Lembro-me que era perto das oito da manhã.

Foi esta manhã. Foi há horas.

Eu gosto de trabalhar aos fins de semana, quando o mundo inteiro descansa. Trabalho muito mais, mas há muito menos caras e vozes, menos trânsito e filas, menos stress e complicações.

Perto das oito da manhã.

Passei as portagens em Alverca. Tinha terminado a subida, na auto-estrada, já seguia em estrada plana.

Pelo retrovisor reparo num BMW preto lá ao fundo. À frente ninguém.

A pancada foi de repente. Por trás.

Senti-a. Seca.

O meu carro começou a entrar em despiste, aos círculos.

Instantes reveladores. Enquanto circulávamos, literalmente, aos círculos, conseguimos fitar a cara um do outro.

Segundos.

Conseguimos perceber a preocupação de um com o outro, trocámos olhares, em círculos, debaixo de um estranho silêncio.

Sim, durante três ou quatro piões o mundo parou, fez-se um silêncio absorvente.

Vi o azul do céu, vi o Norte, de onde vinha, vi o Sul, para onde ia.

Foi durante esses segundos que nos fitámos, olhos nos olhos.

De repente os dois carros estão encostados, lado-a-lado, como que a ampararem-se.

Deslizaram uns bons duzentos metros assim, colados, como se se conhecessem há muito.

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Senti aquela coisa esquizofrénica, quando temos um acidente e o carro anda ali aos trambolhões, até que lentamente se vai quedando, para de repente ganhar força, de novo, energia e violência, de novo, e disparar, embatendo em tudo o que existe e não existe.  

Depois do silêncio agarrei-me com todas as forças ao volante, prevendo que ia bater no separador central, e a partir daí o meu carro sería um cavalo selvagem, indomável.

Agarrei o volante com toda a força do mundo.

Já tinha visto os meus filhos, já tinha pensado que não saía dali com vida, já tinha feito a tal “retrospectiva”.

Faz-se mesmo, acredite.

Por chocante que pareça, estava pronto para ali ficar, à medida que o carro se ia quedando, em direcção ao separador central. Esperava por uma pancada brutal, fatal.

Foi tudo em menos de trinta segundos.

Lembro-me de olhar para o lado, controlar a distância para o separador, em cimento, e de ter guinado o volante, de modo a bater com a traseira do carro, e ali ficar.

Porque os milagres existem consegui abrir, a custo, a minha porta.

Já tinha gasto meia vida e meio milagre, nesta altura.

Nem um carro passou, o que evitou ainda mais uma tragédia.

Um minuto depois de tudo isto ter acontecido, virado para o sentido contrário, dirigi-me a um homem vestido de preto que saía do BMW.

Vinha de calções, ténis, camisola de corrida. Percebi logo que ia para a meia-maratona de Lisboa.

Chegado junto dele, no meio da faixa de rodagem, a mesma onde o carro dele abalroou o meu, olhámo-nos nos olhos, em silêncio, demos um abraço tão grande quanto as lágrimas.

Pediu-me desculpas.

Era administrador da EDP, vinha do Porto, ia para a meia-maratona.

Calma lá!

Se ia para a meia-maratona então é porque corre, se corre é porque é boa gente.

Nem eu nem ele tínhamos declaração amigável nos carros.

Tirámos fotos aos documentos e aos seguros, trocámos número de telemóvel e cada um foi à sua vida. Em dez minutos despachámos a coisa.

Ele seguiu para a meia-maratona e eu segui para o trabalho.

Cheguei apenas 40 minutos mais tarde, mas feliz.

Tinha gasto uma vida.

Não estou certo que ainda tenha mais seis vidas para gastar, até porque a ligeira dor na cabeça – o galo está proibido de cantar – e no ombro passam mais logo, quando for correr, por isso não contam. Mas, não estou certo que as tenha.

O carro fico com um dos lados em mau-estado, mas arranja-se.

Mau mesmo foi aquilo que era previsível:

Não corri, pela primeira vez, desde que comecei a correr, a meia-maratona da ponte 25 de Abril.

Era previsível porque sabia que tinha que vir trabalhar, e sim, troco o trabalho pela corrida, de caras. Mas vim e não fui.

Há muito que estava mentalizado para o facto, aliás, a caminho do trabalho nem pensava na corrida.

Só que tive o acidente. Que raio!!

Não havia mais ninguém para me bater no carro?

Tinha que ser um administrador da empresa que patrocina a corrida, equipado a rigor, a caminho da prova?

Tudo se resolve, menos o facto de não ter ido a uma das corridas que mais gosto de ir.

Fui a todas as meias-maratonas da ponte, desde há três anos a esta parte.

Desculpo tudo, o susto, o milagre, a chapa amolgada, as dores, tudo, só não desculpo o resto.

Espero que a prova lhe tenha corrido bem, ao menos.

Daqui nada já lhe pergunto, quando ele chegar para assinar os documentos que faltam.

Ao menos que tenha feito um bom tempo.

Conclusão:

Os problemas que tinha até às oito da manhã de hoje ficaram ali, no meio da auto - estrada do Norte, a seguir a Alverca. Mais logo ainda lá devem estar, quando eu passar de regresso a casa.

Depois do acidente arrumei a felicidade no bolso, meti um sorriso, há muito desparecido, pensei nos problemas espalhados no asfalto e aprendi a lição.

Não morri porque não tinha que ser esta manhã.

Não morri porque tenho sete vidas. Uma está gasta.

O Nuno está a chegar para assinar a declaração amigável e eu tenho que me despachar, hoje ainda quero ir correr e tenho uma moto para ir ver quando sair.

É que isto de andar de carro é muito perigoso.

 

 

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