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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

26.08.18

A MORTE NÃO TE LEVOU (DIA 44 DA MARATONA)


The Cat Runner

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A morte não te levou, porque nem a morte nos leva aqueles de quem gostamos.

Ficarás eternamente nos nossos corações.

O teu sorriso ficará para sempre nos nossos olhares.

A angústia deu agora lugar a uma profunda tristeza e a uma grande revolta.

E, eu ainda não chorei tudo, Grilo.

Quero ser forte, por ti, pela Rosa, pelo teu filho, pelos nossos amigos, mas o meu arrependimento não me está a deixar ser.

Quando deixei a mensagem no teu grupo da corrida, fi-lo aos soluços. 

Desculpa, não consegui, tu entendes, tu és mais forte do que eu e sabes o quão eu sou forte.

Se cá estivesses estarias a dar-me ( dar-nos ) um abraço, e estarias a passar-nos a tua calma olímpica, a reconfortar-nos.

Grande exemplo que tens sido, para todos.

E, eu ainda não chorei tudo, Grilo.

Arrependo-me tanto daquele dia, meu querido amigo.

Lembras-te, naquela quarta feira à tarde, quando nos cruzámos no jardim da vila, ias tu para lá e eu para cá?

“Grilo, dá-lhe, mano, força”, gritei-te eu.

“Amigo Zé” - era assim que me tratavas - “força, carrega, gosto de te ver assim”.

“Grande abraço”, e seguimos, cada qual a sua direcção.

Dias depois começou esta macabra história, até hoje.

Sabes, Grilo, fiquei indignado com os tipos do JN que ontem publicaram a notícia da tua morte.

Nunca tinha, antes, sido confrontado com a morte de um amigo, nos jornais.

Indignei-me e manifestei-lhes a minha indignação.

Mas, hoje, a  Rita mandou-me uma mensagem a confirmar que eras mesmo tu.

Já hoje falei com o Paulinho, já lhe mandei uma mensagem com a trágica notícia.

Ele também está de rastos, como todos nós, ele também te adorava, mas isso tu sabes há decádas.

Também já deixei uma mensagem de voz, lavada em lágrimas, aos teus amigos do teu grupo do atletismo.

Só não tinha conseguido falar com a tua Rosa, por falta de coragem.

Perdoa-me.

Sabes, normalmente, quando escrevo, a escrita sai-me a cem à hora. Escrevo um texto em dez minutos.

Estou aqui há mais de uma hora.  Faço pausas enormes entre cada frase escrita.

Há um grande silêncio entre as minhas frases.

E, a tua Rosa contactou-me, neste meio tempo, falei agora com a Rosa.

Tens uma mulher muito forte, fantástica, tal como tu.

Mais corajosa do que eu.

Estaremos a seu lado todo o tempo do mundo, fica descansado.

“Amigo Grilo” eu não queria estar a escrever este texto, na verdade, nunca imaginei escrevê-lo, porque nunca ninguém imaginou que este terrível e macabro pesadelo fosse realidade.

Mas, escrevo-o porque quero que saibas que hoje tenho treino, é verdade.

Eu sei que te estás a rir; o teu amigo gordinho anda a dar-lhe a sério. Só descanso aos sábados, mas e tu consegues eu, inspirado por ti, também estou a conseguir.

Quem sabe se um dia farei um Iron Man, como tu.

Prometo tatuar a perna, como fizeste.

Antes disso vou tatuar a outra perna, sabes o que lá vou escrever?

"I´m a marathoner", isso, eu sabia que ias gostar.

Hoje, "Amigo Grilo" é o meu penultimo treino logo, são 25 quilómetros.

Depois, como te disse há umas semanas, no próximo domingo terei o último longo antes da minha estreia na maratona, o de 30 quilómetros.

Daqui para a frente vou levar-te comigo, em cada corrida que faça, sabes porquê?

Porque acredito que os anjos olham por nós e tu vais contunuar a incentivar-me e a apoiar-me, como sempre.

Vais comigo, preso às minhas sapatilhas, colado à minha alma.

Serás, de hoje em diante, o motor da minha locomotiva.

Porque foste o exemplo.

Gordo do caraças :)

Já viste as elegâncias em que  os tornámos, depois de velhos?

Tenho tantas suadades tuas!

Sei que já não te irei  encontrar mais no jardim, mas o que tu não sabes é que irei pensar em ti, sempre que lá correr.

Aquele jardim guarda as minhas memórias de infância, os momento mais belos que vivi, menino, do lado de lá da linha do combóio e do lado de cá, onde a gente se encontrava, junto ao nosso rio.

Agora, o meu jardim guarda também a tua imagem.

Vou acabar, “Amigo Grilo” ( que saudades de te ouvir dizer “Amigo Zé”), quero só que saibas, estejas onde estiveres, que Berlim vai por ti.

É a ti que dedico a minha primeira maratona, que ficará tatuada na minha pele e na minha alma.

É a forma que encontro para agradecer as tuas palavras, que jamais esquecerei, que levarei comigo, no momento em que cortar aquela meta:

“Amigo Zé, tu vais conseguir”.

Vou, fica descansado.

Gosto muito de ti.

Obrigado, por tudo o que fizeste por mim.

Em Berlim, vai por ti, “Amigo Grilo”.

Recebe o meu abraço.

Jamais te esquecerei.

 

 

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