Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

04.10.14

A MINHA PRIMEIRA MEIA MARATONA OU CORRER ATRÁS DE DEUS


The Cat Runner


 


 


É engraçado como há coisas que batem certo.


Ouvimos ou lemos, retemos, mais tarde percebemos que tudo se encaixa. O Homem é um animal de hábitos.


Já me tinham falado sobre a ansiedade nos dias imediatamente antes da prova.


Ansiedade que impede um sono tranquilo, que faz esvoaçar borboletas dentro da barriga, que faz ter comportamentos pouco sintonizados com a nossa idade, que nos impele para ideias loucas e sonhos estranhos.


Será isso mau?


Será mau sentir coisas novas, coisas boas, esperanças, inseguranças, estar entre a multidão?


Até pode ser mau, mas sabe bem. E, aqui entramos num outro patamar. O que tem que ser será.


Já contei que as corridas me fazem bem, são como um bálsamo, único, que vicia, mas que faz bem. Estou a gastar caracteres à parva é o que é.


Hoje decidi - ontem decidi - correr.


Rolar cinco quilómetros para tentar expulsar a gripe e obrigar os músculos a mexerem-se, os poros a abrirem-se e aquele cerrar de olhos de prazer viciante, ressaca - também já falei sobre isto.


Controlado. Apenas rolar.


Consegui o meu melhor tempo de sempre.


Seis quilómetros, subidas, descidas, a uma média de cinco minutos e cinco segundos por quilómetro.


A cada passada pensava: é só rolar e perceber a reacção do corpo e da cabeça. Abranda. Logo à frente o ritmo aumentava involuntariamente. Deixei-me ir. Não havia remédio.


Corri junto ao aeroporto de Lisboa, enquanto a minha mãe esperava o meu pai. Equipei-me no parque de estacionamento. Saí até Figo Maduro e voltei, ainda dei um voltinha numa rua paralela.


Sei porque fui. Fui esperar o meu pai porque morria de saudades. Fui correr por estar revoltado.


Fui, porque estou farto de dizer adeus.


Juntar a isto a frustração por estar com gripe e estar a lutar como posso para sair daqui, foi a mola que me empurrou para a estrada. A combinação perfeita, que não pelos melhores motivos.


Já me despedi de amigos vezes demais nestes últimos meses.


Parece um estranho e surreal braço de ferro. Corro para não sangrar por dentro.


É a perda de mais um amigo - volta sempre a analogia entre a corrida e a vida. E a morte. - que me leva a modificar e a tornar o meu plano de preparação completamente anárquico a partir de agora.


Há dias, a gripe obrigou-me a esquecer o que tinha programado e a focar-me no facto de ter que correr com ela.


Estou a conseguir, mas, percebi que tudo muda num instante, uma vez mais. A vida já me tinha explicado isso. É sempre bom relembrar a relação de forças.


Neste contexto, mencionei numa das minhas crónicas, uma passagem de um texto do Filipe Mendonça - se não leu, aconselho - na qual ele dizia que domingo é um dia especial. Por um motivo especial.


Eu acrescentei no meu texto que era especial para ele e importante para todos os que forem correr.


Lembro-me que essa minha crónica tinha por base a radical alteração dos planos de preparação em função do meu estado mais débil. Tipo sobreviver para lá chegar.


De um momento para o outro a meia maratona de domingo não é só importante, ela passou a ser especial também para mim.


A celebração da vida. A homenagem, à minha maneira.


Volto a alterar os planos.


Uma esquina, uma surpresa, um instante. Tudo muda.


Não há mais planos.


Não há mais cuidados.


Não há mais nada a não ser ansiedade, vontade, querer muito. Correr. Agora, só há correr. Ponto.


Amanhã estrada!


Amanhã vou despedir-me de mais um amigo. Preciso de estrada. Sem planos.


Este meu amigo tinha sessenta e um anos.


Era amigo da família. Gente conhecida e respeitada na terra.


Conheço-o desde que me lembro. Sou amigo de um dos filhos. Uma daquelas pessoas que sabemos que gosta de nós.


Já há muitos anos, quando perdeu o irmão, a terra sentiu e amparou-o. Nas cidades pequenas ainda acontece assim.


Contou-me hoje a minha mãe ao jantar:


" Lembras-te quando nós tínhamos aquele cafézinho na Barroca...


No primeiro dia em que tu apresentaste o teu primeiro programa na TVI, o senhor Vitor sentou-se no meio da sala, olhou para mim e disse: " quem o viu tão pequenino e agora tão homem feito.


E chorou muito".


Ainda não consegui desatar o nó na garganta.


A minha mãe só me contou isto esta noite, ao jantar.


Tínhamos acabado de ir buscar o meu pai ao aeroporto.


Há longo tempo que é assim, por causa dos cortes, do adiamento da reforma, da velhice portuguesa - experiência e sabedoria na Holanda - dos impostos, do desemprego. Da crise e das elites.


Os meus pais são novos. Ele tem sessenta e cinco. Ela sessenta e dois. O senhor Vitor A. tinha sessenta e um e era nosso amigo e nós dele.


Tentam à força afastar-nos, pois devo dizer que a vida encarregou-se disso durante toda a vida, não precisavam de se preocupar. Basta a morte para separar. Se não for ela nenhum homem jamais irá seprar o que o amor uniu.


A cada partida à sempre uma chegada, seja onde for,  há sempre um momento único; o regresso, o reencontro, o abraço. Tudo misturado.


Partir e chegar. Como nas corridas. Como na vida. Como na morte.


Há muito de coragem em viver. É como correr atrás de Deus. Até que o encontramos, na morte. Eu não acredito em deus. A minha religião é outra.


Domingo, vai por ti, Vitor A.


Meu velho amigo.