A (MINHA) BATALHA DE MARATONA
Para quem não sabe, em 490 a. a. na Primeira Guerra Médica das Guerras Medo-Persas que ocorreram na Grécia, em Ática, no lugar de Maratona, desembarcaram os Persas.
Em Atenas perante o ataque iminente dos Persas, o pânico instala-se. O conselho decide pedir auxílio aos Espartanos. Este viria a ser um dos mais importantes acontecimentos da História da Grécia Antiga, que viriam a determinar a História de toda a Europa, a Batalha de Maratona.
E o que tem isso a ver com o passado dia 08? Absolutamente tudo.
Também eu, enfrentei uma dura e árdua batalha nesse dia.
E antes desse todos os que durante 20 semanas, qual ateniense, me preparei para a “batalha”. A minha batalha de maratona.
Foi uma preparação intensa onde privação e persistência foram duas das grandes chaves para o resultado final.
Quando o Filipe me convidou para a fazer (ele, que iria fazer a sua quarta e é ultramaratonista..), pensei que o mundo estaria de pernas para o ar! Mas a vontade de aceitar o desafio e conseguir foi enorme. Até o Zé Gabriel Quaresma me dizia que estava mais perto de fazer uma e eu… bem, eu, aceitei.
Qual noite, chuva ou frio. Isso não era importante. O importante era cumprir. Conseguir. Terminar.
Muitos achavam que estava doente. Doente com a corrida. Já me deviam conhecer, e saber que quanto mais me dizem essas coisas mais motivado eu fico.
Lá porque não correm não quer dizer que eu não o possa fazer, fazer aquilo que amo e eu amo correr.
Que posso dizer sobre o dia 08 que não tenham já deduzido? Foi extasiante.
Acordei ansioso. Sabia o que tinha para travar. Conseguimos um lugar pertinho da meta, onde eu e o Filipe nos reunimos com os meus Turbulentos.
Bem tentei distrair-me sobre como iria ser a prova, mas aquela ansiedade não passava.
Fui com o Filipe e o Paulo e depressa nos juntamos a todos os milhares de pessoas que se encontram para a partida. Eu estava nervosíssimo e não conseguia estar quieto. Saltava. Batia palmas.
Quando comecei a ouvir a música da partida, o coração disparou. E ainda tinha a minha batalha toda pela frente. Ouvi o Filipe a dizer "Vai correr bem". Ele sabia. Limpei os olhos, respirei fundo e o tiro foi dado.
Era agora!
Avistei o balão das 3:30h, era a ele que tinha de seguir.
Rapidamente aproximamo-nos do pacemaker. Senti que o nervosismo tinha ido com o tiro e estava com a adrenalina ao máximo.
Tinha o Paulo a avisar que íamos muito rápido. Tirando o km1 em que rolamos a 5'35", os seguintes iam ser bem abaixo disso e sempre abaixo de 5'00".
Ao km 8 o Filipe ficou com o Paulo que ia a um ritmo mais lento, mas aconselhou-lhe para ao km 12 passar o pacemaker das 3:30 e ficasse entre as 3:15 e as 3:30".
Comecei a seguir à frente dos dois e meti o primeiro gel. Ao km 11 sensivelmente passei pela Marta (@martarochaf), a quem sorri e disse "vaaaaamos". Cumpri o que me tinham aconselhado e a partir do km 13 dei por mim a rolar sozinho sem nenhum dos dois a meu lado.
E agora??? Estou na minha primeira maratona e estou sozinho!!!!
Cabeça fria. Manter o ritmo para chegar aos km 21 entre a 1:40h e a 1:45, e só ia no km 13.
Depressa chegou o km 16. O Alex, um caloiro nestas coisas, (como eu) da Corunha, fez-me companhia durante uns 2 kms.
Ao km 21 , peguei numas uvas-passas e em 1/4 de laranja lá segui o meu caminho, passando pela ribeira e entrando na ponte D Luís. Ia concentrado e a procura do meu amigo Mário Coutinho.
Acho que devo ter passado cedo demais, e que bem me sentia!
Nunca tinha passado os 21 km ou terminado uma meia maratona como me sentia naquele momento: fresquinho! Se a outra metade for igual consigo fazer uma prova abaixo das 3:30, pensava. Sentia-me maravilhosamente bem.
Passei pelos turbulentos Antunes e Carlos quando fiz o retorno. Também eles estavam a fazer uma grande prova. Encontrei-me com vários dos meus turbulentos e as palavras que recebi ecoavam na força que precisava. Segui e lá fui eu em direcção ao Freixo.
Vejo a Isabel Silva e só lhe gritei "Força Belinhaaaaa". Grande prova! E sempre a sorrir.
E eu sozinho, na minha primeira maratona, qual batalha!
No km 34 comecei a sentir uma quebra física.
Tinha um gel, duas gomas e uma barra energética.
Vejo o meu colega Rui Baptista a passo e coloquei-me a seu lado. Disse que era o joelho. Ora, não se deixam os nossos no campo de guerra: “Vamos anda, vamos devagarinho, eu vou contigo” e caminhamos os dois. Dividimos o gel e as gomas que havia e retomámos a corrida, em ritmo mais tranquilo.
Passei de 4'57" para 6'17".
O km 35 e 36 foram de pára arranca. O km 38 fizemos juntos e ao entrar no km 39 disse-lhe para ir que ia um pouco mais a passo.
“Anda está quase, anda", disse-lhe para seguir, precisava de água, porque garra ainda tinha.
Só quem faz uma batalha destas entende o espirito que existe.
Uma miúda que ia ao meu lado disse-me: “Vamos Ricardo está quase…” e ofereceu-me água e eu aceitei. Nem sei quem era.
No km 40 já me esperavam sentados no passeio o Rito, o André, o Nuno e o Bruno que rapidamente vieram para o meu lado. Segui escoltado e apanhamos o Rui.
Sabia que tinha que conseguir. Que ia conseguir. Mas não sozinho.
Olhei para o céu e pedi ao meu Pai e ao Vargas “quero voar, emprestem-me as vossas asas".
E não é que me ouviram?
Entro na rotunda da Anémona e começo a voar, ao fim de 42 km entro na subida que dava acesso ao Parque da Cidade, na direcção da meta (a minha meta!) a fazer um sprint como que de uma prova de 100m se tratasse. Tinham-me dado asas para voar e voei! Como voei!
Já trazia a bandeira, o meu Pai, que o Rito me tinha entregue.
Com ele (sempre com ele) entrei na reta da meta num ritmo mais calmo e cortei a meta, e chorei, eagradeci, e ajoelhei-me, e voltei a chorar. Sonho cumprido. Venci. Já estava.
Tinha o Alex (lembram-se dele? O espanhol?) à minha espera para agradecer a água e dar-me um abraço. Também o Rito, o Nuno, o André e o Rui (que tinha cortado a meta).
O resto… bem o resto foi recordar. E descansar. E sorrir. Sorrir muito. Esta é minha.
Tenho que agradecer a todos os que me apoiaram neste caminho, porque foram muitos aqueles que me apoiaram durante 20 semanas.
Não posso contudo deixar de dar uma palavra especial a duas pessoas:
Ao Filipe Meira pelo desafio lançado e pela forma como me fez acreditar que seria capaz de o cumprir.
E outra palavra ao Zé Gabriel Quaresma meu bom amigo, pelo exemplo que é para mim, por tudo o que tem sido e tem feito.
Portanto Zé, esta maratona para além de ter sido dedicada ao meu pai (a pessoa que mais desejei abraçar e ver sorrir no final, mas que sei que onde quer que esteja estará orgulhoso de mim), ao Vargas (era assim que era tratado por si e por todos os amigos), esta maratona é muito sua por tudo o quanto me inspirou e continua a inspirar.
Um beijo enorme para a Gi Morais pelo apoio constante.
Uma palavra para a Mariana (@missfit.insta) por aquele apoio que foi tónico para aquele final arrepiante.
E agradecer também a todos os Turbulentos, a minha equipa que me receberam de braços abertos. Fomos um.
Uma palavra para o Ricardo Martins Pereira(@oarrumadinho) pelas dicas que me foi dando e para o Filipe Mendonça
Terminei com 3:34:05. Isso será inesquecível.
Fiz uma prova como tinha programado, foi uma prova emotiva com convívio, camaradagem e certamente não foi a última.
Voltando ao que estava a dizer, os Gregos derrotaram os Persas.
Reza a história que 6 mil e 400 persas foram massacrados, enquanto apenas 192 homens caíram do lado ateniense. Mais importante do que isso , Filípides terá morrido a anunciar a vitória dos Atenienses em Maratona, depois de ter percorrido os 42,95 km que separam aquele demo da Ática da capital.
E eu percorri os meus.
Venha a próxima!
Ricardo Silva
Bragarunner