Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




por The Cat Runner, em 03.06.18

A CMTV ( DIA 29 DA MARATONA)

IMG20170909124919EasyResize.om.jpg

 

 

Quem me conhece sabe que eu não falo em público sobre orgãos de comunicação social.

Não o faço, enquanto for jornalista, porque há mínimos, em sociedade, um deles é não dizer mal do próprio oficio, porque há lugares para o fazer.

Hoje quebro essa regra por causa da CMTV.

Por causa dela hoje saltei o treino.

Dei descanso às pernas, não sei se fiz bem.

Hoje, o treino era de intensidade.

Vou fazê-lo amanhã, só que, depois de amanhã tenho um brutal treino de séries (3 x 4 kms), mas não há como falhar, adiar é diferente. Adiei.

Ainda assim, porque a noite estava como eu gosto, solta e fresca, ainda pensei sair para fazer o treino de hoje.

Mas não.

Dormi pouco esta noite ( como ainda me acontece, algumas vezes) e sentia-me sem vontade de treinar. Não fui.

Mas, também não fui por causa da CMTV.

A palavra Nodeirinho.

Ouvi a palavra Nodeirinho e gelei.

Estava a passar uma reportagem sobre a aldeia do Nodeirinho.

Ali, só ali morreram onze pessoas, no maior incêndio que há memória.

A aldeia do Nodeirinho é uma rua, apenas.

Onze pessoas.

Um terço dos habitantes.

Vi lágrimas e vi testemunhos de pessoas que vivem num inferno, abandonado por todos.

Lágrimas, embargos de voz, olhares, súplicas, apelos.

Foi a 17 de Junho, está quase a fazer um ano.

E, continuavam os testemunhos, misturados com aquelas brutais imagens negras;

- “ Eu já só pedia que fizessem ali qualquer coisa, olhe ali, pela janela, aquela noite está sempre presente, aquele inferno, olhe em frente, tudo queimado”, e chorou.

A aldeia do Nodeirinho foi esquecida. Os sobreviventes, dezanove pessoas, que lá continuam, são pessoas traumatizadas, a quem foi negado o direito de fugir do negro ardido, cheiro que ainda paira no ar, porque na aldeia do Nodeirinho só o cheiro a queimado é uma ilusão forçada, tudo o resto é real.

As casas destruídas, a floresta, em todo o redor, queimada, o rostos das pessoas.

O rosto das pessoas.

IMG20170909124416EasyResizecom.jpg

 

Um terço dos habitantes morreram enquanto fugiam ao inferno, porque o diabo andava ali e ele nunca lá tinha estado antes.

Eu estive na aldeia do Nodeirinho, depois do diabo por lá ter andado.

Sim, eu vi, eu estive junto ao tanque - que a CMTV voltou a retratar - que salvou mais de uma dezena de pessoas, enquanto, à volta, literalmente à volta, o fogo era o monstro imparável, o calor era o rasto que o diabo deixava, a noite estava horrível e tragicamente iluminada por um laranja que tudo envolvia, no seu rasto de horror.

Tudo ali me chocou, porque eu só tinha visto na televisão.

Tudo me chocou, mas aquilo que mais me deixou sem tino foi o tanque.

O tamanho do tanque.

Um pequeno tanque. E, tentei imaginar aquela noite de sábado, aquelas pessoas, ali dentro, daquele pequeno tanque, enquanto tudo ardia, casas, lojas, mata, tudo ardia.

Tentei imaginar, mas parei segundos depois, porque não consegui.

Achei que era ofender a memória de todos mas, sobretudo, não consegui.

Nodeirinho não fica longe de Lisboa.

Mas, Lisboa está longe de Nodeirinho - e de outras pequenas aldeias igualmente destruídas, na alma e na terra agora queimada.

Eu estive na aldeia do Nodeirinho e escutei histórias daqueles que as viveram.

Conheci quem tivesse tido a coragem de ter estado fechado em casa, totalmente envolta em chamas. Conheci quem tivesse acolhido os primos que ficaram com nada do que tinham. Ele ficou queimado, com gravidade, porque quando fugia do fogo, com a mulher, decidiu voltar atrás para ir buscar o carro.

Caiu.

O fogo apanhou-o, mas sobreviveu.

Ele não sai de casa. A mulher abeira-se da porta, com o primo, e por incrível que possa parecer, eles conseguem sorrir, abandonados dentro do seu próprio inferno.

IMG20170909140316EasyResizecom.jpg

 

Eu estive na aldeia do Nodeirinho.

O tanque é tão pequeno que ainda hoje me custa a crer que tenha salvo tantas vidas das garras do diabo.

Os que morreram, ali, naquela noite, envoltos em terror e desespero, não conseguiram chegar ao tanque, por muito pequeno que ele fosse (que ele é).

Os que vivem ali, hoje, envoltos em terror e desespero, olham todos os dias para o tanque, e choram, sobretudo, por dentro.

Choram porque acreditam que na próxima vez o diabo não irá poupar o tanque.

Por agora, dormem sem receio que o fogo volte tão depressa, mas inquietos, em sobressalto, tristes, resilientes, que já não há nada para arder, por aqueles lados.

Nos próximos anos, se a alma lhes permitir, eles podem dormir, em desassossego.

O tanque é pequeno.

Nós somos o inferno.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:33



Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2019
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2018
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2017
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ
  40. 2016
  41. JAN
  42. FEV
  43. MAR
  44. ABR
  45. MAI
  46. JUN
  47. JUL
  48. AGO
  49. SET
  50. OUT
  51. NOV
  52. DEZ
  53. 2015
  54. JAN
  55. FEV
  56. MAR
  57. ABR
  58. MAI
  59. JUN
  60. JUL
  61. AGO
  62. SET
  63. OUT
  64. NOV
  65. DEZ
  66. 2014
  67. JAN
  68. FEV
  69. MAR
  70. ABR
  71. MAI
  72. JUN
  73. JUL
  74. AGO
  75. SET
  76. OUT
  77. NOV
  78. DEZ
  79. 2013
  80. JAN
  81. FEV
  82. MAR
  83. ABR
  84. MAI
  85. JUN
  86. JUL
  87. AGO
  88. SET
  89. OUT
  90. NOV
  91. DEZ