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A AZEVIA DA VIZINHA DO FORNO NO OUTONO OU QUANDO ME DÁ PARA ESTAS COISAS

Sábado, 04.11.17

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Admito que a minha opinião valha zero, ainda assim,

é a minha. 

Não leia esta frase de forma errada, nem a entenda envolta em uma qualquer energia negativa, que isso são coisas de gente que acredita em "males olhados".

Nem uma ponta de ironia ela tem, a frase.

Acontece que, quando me dá na bolha - todos os dias - escrevo.

Um libertador de tensões, medos, inseguranças, olhares e profusões que emanam do fundo, do mais fundo de tudo aquilo que vivo nos meus dias.

São dias solitários.

Noites em que acordo de um dia passado a cerrar olhos tensos, que teimam em pesar.

A minha opinião só é válida para a minha própria construção das realidades que me salpicam a cara, sal, voar, enquanto dezenas de ideias tentam aproveitar-se de mim, baralham-me o ritmo do teclar, tecla-a-tecla. Até ao ponto final.

Vem tudo isto a propósito das azevias.

Isso,

O que vou dizer vai chocar os dois ou três leitores desta crónica desalmada tocada por baixo da guitarra da Tash Sultana, que apresentei ao puto Isaac, na Chapa 12, que saio de lá sempre com menos cinco anos, dois, vá, que o cabelo fica vintage e a barba quase me permite dizer que já sou um homenzinho.

Por isso, cá vai,

Não sou gajo - gajo escreve-se sem i, que eu sei escrever, pontuo tecnicamente mal, mas escrevo mais ou menos - de sol e de calor.

Admito, finalmente.

Também não sou gajo do inverno, credo, cruzes, canhoto.

Sou apenas um ser humano que adora o outono.

Uma das razões prende-se com as azevias.

Há as de grão, de batata, de batata doce e - a gata saiu agora disparada das minahs pernas e cravou-me as unhas, sem querer, da silva - aposto, dizia eu, que as "vizinhas do Forno" vão inventar azevias de pastel de nata.

Estou em crer!

Todos os dias, às vezes duas vezes por dia, vou ao Forno,

- "Bom dia, vizinhas..."

- "Bom dia, vizinho, está bom?

Ontem vi-o, óh vizinho, você fica tão bem no ecrã, com gravata, óh vizinho..."

Às vezes cruzo-me com a Bruna, e há também o senhor Justino, ex-mecânico de carros.

Uma rotina que tem anos, uns dez, talvez.

Enquanto o Outono não chega é uma bica e um pastel de nata, já provei os pampilhos, as bolas de berlim são muito grandes. Adoro as sandes de ovo.

Mas, quando chega ao outono, minha mãezinha, as azevias toldam-me a mente.

Ontem, por engano, comi uma de batata doce, que eu gosto mais das de grão.

É as que como ( comia ) sempre.

- " Vizinha, isto é maravilha..."

- " Vê, vizinho, eu sabia que ia gostar, não quero que vá para ali para o ecrã com fome..."

No Forno a televisão está sempre na TVI, e com o volume alto, que aquela gente começa a trabalhar quando eu chego a casa do trabalho, lá para as duas e meia da manhã e, confessou-me a Bruna uma vez, o som alto mantêm toda a gente alerta, entretida, acordada.

São os pastéis de nata no verão e na primavera, são as azevias no outono e os sonhos no inverno, que eu sou gajo de sonhos.

Sonho muito.

Na verdade, isto das azevias tem que se lhe diga.

A massa deve estar entre o estaladiça e o tenra.

O recheio deve ser doce, pouco, deve misturar-se com a massa e provocar uma explosão interior, uma emotiva mistura.

O café quase que se sente inferiorizado, mas ele percebe que as massas não são todas iguais.

Posto isto vou correr, ou treinar Muay Thai.

- "Então vizinho, de folga? já foi treinar hoje?..."

- " Vizinha, não gosta mesmo de mim, só quer  ver-me a trabalhar..."

- " Sabe que gosto muito de o ver no ecrã..."

- "Eu sei, vizinha, olhe, dê-me uma azevia e uma bica, se faz favor, que tenho que ir queimar calorias e se não as meter cá para dentro é mais difícil..."

- "O vizinho é um malandro..."

- " Não sou nada..."

Penso eu, por vezes temos que tomar o controle das situções, sobretudo quando todo o café está a olhar para nós, enquanto o açucar teima em colar-se à barba vintage, sem que isso me detenha.

Eles olha-me.

Eu saboreio a azevia e a bica.

Pago e saio, enquanto sacudo a barba, ali mesmo à frente da senhora que dá a sandes de queijo à menina, à frente dos dois homens que bebem uma cerveja, encostados ao balcão, da senhora que entra para comprar pão.

Todos eles vêem aquele triste quadro.

E saio porta fora.

As massas.

É preciso é entender as masssas, é o que é.

 

 

 

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publicado por The Cat Runner às 11:37





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