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A CMTV ( DIA 29 DA MARATONA)

Domingo, 03.06.18

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Quem me conhece sabe que eu não falo em público sobre orgãos de comunicação social.

Não o faço, enquanto for jornalista, porque há mínimos, em sociedade, um deles é não dizer mal do próprio oficio, porque há lugares para o fazer.

Hoje quebro essa regra por causa da CMTV.

Por causa dela hoje saltei o treino.

Dei descanso às pernas, não sei se fiz bem.

Hoje, o treino era de intensidade.

Vou fazê-lo amanhã, só que, depois de amanhã tenho um brutal treino de séries (3 x 4 kms), mas não há como falhar, adiar é diferente. Adiei.

Ainda assim, porque a noite estava como eu gosto, solta e fresca, ainda pensei sair para fazer o treino de hoje.

Mas não.

Dormi pouco esta noite ( como ainda me acontece, algumas vezes) e sentia-me sem vontade de treinar. Não fui.

Mas, também não fui por causa da CMTV.

A palavra Nodeirinho.

Ouvi a palavra Nodeirinho e gelei.

Estava a passar uma reportagem sobre a aldeia do Nodeirinho.

Ali, só ali morreram onze pessoas, no maior incêndio que há memória.

A aldeia do Nodeirinho é uma rua, apenas.

Onze pessoas.

Um terço dos habitantes.

Vi lágrimas e vi testemunhos de pessoas que vivem num inferno, abandonado por todos.

Lágrimas, embargos de voz, olhares, súplicas, apelos.

Foi a 17 de Junho, está quase a fazer um ano.

E, continuavam os testemunhos, misturados com aquelas brutais imagens negras;

- “ Eu já só pedia que fizessem ali qualquer coisa, olhe ali, pela janela, aquela noite está sempre presente, aquele inferno, olhe em frente, tudo queimado”, e chorou.

A aldeia do Nodeirinho foi esquecida. Os sobreviventes, dezanove pessoas, que lá continuam, são pessoas traumatizadas, a quem foi negado o direito de fugir do negro ardido, cheiro que ainda paira no ar, porque na aldeia do Nodeirinho só o cheiro a queimado é uma ilusão forçada, tudo o resto é real.

As casas destruídas, a floresta, em todo o redor, queimada, o rostos das pessoas.

O rosto das pessoas.

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Um terço dos habitantes morreram enquanto fugiam ao inferno, porque o diabo andava ali e ele nunca lá tinha estado antes.

Eu estive na aldeia do Nodeirinho, depois do diabo por lá ter andado.

Sim, eu vi, eu estive junto ao tanque - que a CMTV voltou a retratar - que salvou mais de uma dezena de pessoas, enquanto, à volta, literalmente à volta, o fogo era o monstro imparável, o calor era o rasto que o diabo deixava, a noite estava horrível e tragicamente iluminada por um laranja que tudo envolvia, no seu rasto de horror.

Tudo ali me chocou, porque eu só tinha visto na televisão.

Tudo me chocou, mas aquilo que mais me deixou sem tino foi o tanque.

O tamanho do tanque.

Um pequeno tanque. E, tentei imaginar aquela noite de sábado, aquelas pessoas, ali dentro, daquele pequeno tanque, enquanto tudo ardia, casas, lojas, mata, tudo ardia.

Tentei imaginar, mas parei segundos depois, porque não consegui.

Achei que era ofender a memória de todos mas, sobretudo, não consegui.

Nodeirinho não fica longe de Lisboa.

Mas, Lisboa está longe de Nodeirinho - e de outras pequenas aldeias igualmente destruídas, na alma e na terra agora queimada.

Eu estive na aldeia do Nodeirinho e escutei histórias daqueles que as viveram.

Conheci quem tivesse tido a coragem de ter estado fechado em casa, totalmente envolta em chamas. Conheci quem tivesse acolhido os primos que ficaram com nada do que tinham. Ele ficou queimado, com gravidade, porque quando fugia do fogo, com a mulher, decidiu voltar atrás para ir buscar o carro.

Caiu.

O fogo apanhou-o, mas sobreviveu.

Ele não sai de casa. A mulher abeira-se da porta, com o primo, e por incrível que possa parecer, eles conseguem sorrir, abandonados dentro do seu próprio inferno.

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Eu estive na aldeia do Nodeirinho.

O tanque é tão pequeno que ainda hoje me custa a crer que tenha salvo tantas vidas das garras do diabo.

Os que morreram, ali, naquela noite, envoltos em terror e desespero, não conseguiram chegar ao tanque, por muito pequeno que ele fosse (que ele é).

Os que vivem ali, hoje, envoltos em terror e desespero, olham todos os dias para o tanque, e choram, sobretudo, por dentro.

Choram porque acreditam que na próxima vez o diabo não irá poupar o tanque.

Por agora, dormem sem receio que o fogo volte tão depressa, mas inquietos, em sobressalto, tristes, resilientes, que já não há nada para arder, por aqueles lados.

Nos próximos anos, se a alma lhes permitir, eles podem dormir, em desassossego.

O tanque é pequeno.

Nós somos o inferno.

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publicado por The Cat Runner às 22:33

AMIGOS SEM ASPAS ( DIA 28 DA MARATONA )

Domingo, 03.06.18

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Não via o Zé Carlos há mais de trinta anos, trinta anos.

Perdemos o rasto, um ao outro, até um dia.

Nós vivíamos no mesmo bairro e, por isso crescemos juntos, na Quinta da Mina.

No nosso bairro tínhamos o mundo inteiro só para nós.

Brincávamos ao touro, porque o Rui tinha um tio que lhe tinha dado uns cornos, que nos transformavam em destemidos forcados, em talentosos cavaleiros, em digníssimos touros. Jogámos ao alerta, e havia sempre um de nós que ficava a tarde toda a tentar “descobrir” os outros, porque os outros se escondiam no campo de futebol, atras do prédio do Luis “francês”, ou no depósito da água, ou dentro das “manilhas”, que existiam no fim da ladeira, e que faziam lembrar os bunkers das guerras que vemos nos filmes.

Putos a viver a vida a alta velocidade, em carrinhos de rolamentos, que nós próprios construíamos, na estrada do hospital, estrada abaixo, na “gáspia”, poucos automóveis havia, e os carrinhos de rolamentos tinham solas de sapatilhas, que faziam de travões, em caso de urgência.

Desvendámos imensos mistérios da vida, da vida de miúdos, quando brincávamos aos detectives, cada qual com a sua pistola e a sua maleta de mão, com “documentos da investigação”.

Imaginávamos o prédio do Covas e do Eduardo (situado mais abaixo, em relação ao meu prédio e ao do Zé Carlos) como sendo um mega arranha-céus, numa gigantesca metrópole, onde se passavam cenas de acção, elevador a cima, elevador a baixo, escondidos na casa da porteira ou deslizando nos corrimões das escadas, para não perdermos o bandido.

Havia sempre um que era “o rapaz”!

  • “Eu sou o rapaz”…

O “rapaz” era, naturalmente, o actor principal dos filmes, o que ficava sempre com a “rapariga” e aquele que nunca morria.

Grandes perseguições se fizeram, grandes tiroteios imaginários aconteceram.

O Eduardo morreu.

Morreu mesmo.

Soube-o agora, pelo Zé Carlos.

O Zé Carlos reapareceu-me na vida, depois de umas mensagens trocadas no Linkedin.

Fazia-lhe confusão como é que eu tirava as fotos das minhas corridas.

Lá lhe fui explicando, até que a dada altura me pergunta se eu sabia com quem estava a falar.

Fui delicado, expliquei-lhe que não, nem pelas coisas que ele me estava a recordar. Dessas recordações apenas reconhecia os nomes, e isso estava a fazer-me confusão.

Estava perante alguém tão próximo de mim, sem que eu conseguisse chegar até ele. O Zé Carlos contava-me histórias para me reavivar a memória, Faltava-me a cara dele.

Andámos dias nisto, até que um dia ele me enviou uma foto de quando era miúdo.

Pois.

Também eu fiquei assim, sem reacção.

Rapidamente chegámos ao Eduardo, que vivia no prédio do Covas.

O Covas trabalha nas OGMA, o Jorge é oficial superior na Armada, o Zéze perdi-lhe o rasto, o Rui tenho-o no Facebook, mas não me liga nenhuma, ao César, não sei o que aconteceu, nem ao Vasco, grande guarda redes era o Vasco.

Às vezes ficávamos no depósito da água, sentados, com as pernas para o lado de fora, a ouvir os relatos da taça dos Campeões, num rádio que falhava sempre as pilhas, à noite, depois de jantar. Outras vezes assaltávamos a casa da Comissão de Moradores (do bairro), enquanto os mais velhos tinham as suas reuniões sobre a comunidade. Nós iamos para a cave e éramos felizes.

Não havia mistérios para nós.

Mas sempre houve um mistério para mim.

Nunca o contei a ninguém, é a primeira vez.

O Eduardo era mais velho do que eu, e do que o Covas, o Rui e os outros; ele e o Zé Carlos eram os mais velhos do grupo.

O Eduardo era alguém misterioso, como a sua família.

O Eduardo era um desenquadrado com a sociedade, muito à frente no tempo dele.

A família era a avó, já muito velhinha, que lhe fazia pescada cozida com batatas, e o pai, alguém que recordo pelo seu semblante, um homem de pele escura, olhos enormes, caídos, ar de putanheiro e de jogador de casino.

Creio que nunca trocou uma palavra com nenhum de nós.

Trinta anos depois há muitos mistérios por desvendar, muitas histórias para recordar, muitas corridas para correr.

Se as corridas me têm dado a alegria de fazer amigos, foi por causa das corridas que, trinta anos depois, ali estávamos nós, outra vez.

Fomos correr juntos.

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Desde que comecei a preparação para a maratona nunca corri acompanhado.

Foi, de todas, a corrida onde me senti bem, sem quaisquer queixas.

Ficámos de voltar a correr juntos mas, sobretudo, ficámos de voltar a rebobinar o filme das nossas vidas.

Hoje fui correr uma hora.

Pela segunda vez, desde Janeiro - quando comecei a recuperação e a preparação - corri sem qualquer queixa. Consegui ter prazer na corrida.

Durante uma hora, só eu, comigo, como gosto, voltei atrás na minha vida, quando tinha sete, oito ou nove anos. Voltei a viver tudo outra vez.

Durante a corrida com o Zé Carlos não falámos daquele que era um dos momentos mais esperados, todos os anos, as fogueiras dos santos populares, quando fazíamos peditórios, na vila, para montar o balcão, com madeiras roubadas das obras, e para comprar o pão, as sardinhas e o vinho.

Depois, era correr por aquela ribanceira abaixo e saltar sobre fogueiras gigantescas, enquanto os vizinhos conversavam uns com os outros, e o bairro era o nosso mundo exclusivo.

Não falámos sobre isso, nem sobre nada do passado.

Corremos e falámos do presente.

É que eu quero voltar a tocar às campainhas dos prédios e fugir, como se fosse o dono do meu próprio mundo.

“Zé, anda para casa”, é a frase que me ecoa, quando a minha mãe me chamava, à varanda, lá do alto do quarto andar.

Por isso, Zé,  ainda temos muitas corridas para correr.

Muitas histórias para recordar, de um mundo que não era de mais ninguém.

Só nosso !

 

 

(NOTA DO AUTOR: Os títulos dos textos mencionam sempre um dia - DIA 28 DA MARATONA - esse número não corresponde efectivamente ao números de dias de treinos, pois comecei em Janeiro. É um número que corresponde ao texto, como se fosse uma página de um livro. Desfeita a dúvida)

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publicado por The Cat Runner às 12:05

INNER PEACE ( DIA 27 DA MARATONA)

Quinta-feira, 24.05.18

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publicado por The Cat Runner às 21:55

ATÉ À ETERNIDADE ( DIA 26 DA MARATONA )

Quarta-feira, 23.05.18

 

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( Texto escrito há 48 horas, publicado dois dias depois devido à fraca internet, no paraíso, faz sentido )

 

 

Ontem voltei aos treinos de séries.

Treinei num sítio fantástico, quase tão fantástico, como o sítio que está aqui à minha frente, enquanto escrevo. É isto que vejo e que me rodeia, nos próximos dias.

A foto só não tem o som do ribeiro e da cascata, dos pássaros, devem ser dezenas de espécies, que parecem envolver-nos num concerto a várias vozes.

Na verdade, estou num local encantado, secreto, dentro de um bosque, que lhe dá o desenho que acabei de traçar.

O médico aconselhou-me várias coisas, treinar, treinar muito, viver, estar com os mais queridos, mas descansar, muito.

Provavelmente, não sabe, há tempos fui ao médico porque não conseguia dormir. Há dois meses que não dormia em condições. Ainda não consigo dormir em condições, mas já recuperei alguma estabilidade.

Não era suposto escrever isto, mas é uma questão de respeito.

O exercício que me foi recomendado pelo médico é aquele que eu faço há anos, a corrida, que chocou com a minha preparação para a maratona de Berlim. Uma casualidade.

Se devo treinar, porque o médico diz que devo, então, faço-o com a maratona em vista, algo que antecede em muito esta minha paragem profissional - temporária.

Por isso, nas minhas redes sociais vê publicações sobre as corridas, e tudo aquilo que tenha a ver com a terapia que estou a seguir, recomendada pelo meu médico de família. Nada mais, nem eventos sociais, nem rigorosamente nada que me faça sair destas de dentro destas duas paralelas; usar tudo ao meu alcance para dormir, uma noite, como deve ser, recuperar tranquilidade e serenidade.

O exercício, a alimentação, o descanso, a família, os amigos, um comprimido e a escrita, tudo conjugado, provocam o equilíbrio que estava a perder. Falta consolidá-lo. É o que estou a fazer.

Posto isto, de regresso aos treinos de séries, tomei consciência que andava enganado, que vergonha!

O treino de séries não serve, em exclusivo, para ganhar velocidade, serve, sobretudo, para ganhar resistência. Correr distâncias mais curtas, a um ritmo mais elevado, com curtos intervalos de recuperação. Aprendi à minha custa, até porque, quando treino séries, como ontem, as últimas são sempre um pouco mais longas que as primeiras.

Por isso fui ler e perguntei ao meu treinador. Na verdade, ele já me tinha explicado, mas é sempre assim !

Interessa-me o objectivo; correr três quilómetros a baixo dos seis minutos por quilómetro, foi cumprido. O problema - já reparou que em todos os textos há um problema - é que consigo encurtar o tempo e adaptar-me à intensidade, mas as BPM, agora, já não as atinjo como há umas semanas.

Para fazer as séries entre as 145 e as 150 Batidas Por Minuto tenho que correr muito mais rápido, em relação ao mais rápido que corro, nas séries, comparado com os outros treinos. E, não consigo. Quero dizer, até consigo, porque ao longo de cada série de três quilómetros, a partir de meio, as BPM vão para o patamar pretendido, mas só nessa altura.

Frustra um bocado, olhar para o relógio e ver 131, em vez de 142, embora esteja a correr mais rápido. Eu sei, é o coração que está mais forte.

Deixando os lamentos, o meu treino de ontem foi absolutamente fantástico.

Começou ao acordar, cedo, nove da manhã.

Tomei o pequeno almoço no alpendre da casa, contemplando o mesmo cenário da foto principal deste texto, mas de uma perspectiva superior, mais ampla.

Pássaros, muitos, cada qual na sua pauta, o som da água, na cascata, o fresco do bosque, o sol que entra pelas árvores, a espaços. Foi perante este cenário que demorei quase uma hora a tomar o pequeno almoço.

Meia torrada de pão escuro, com fiambre de frango. Uma fatia de bolo seco. Uma banana. Uma bebida de arroz com café de máquina- aqui no paraíso as casas são antigas, mas têm máquina de café. Tem tudo, até o bosque.

Seguimos para a eco pista, que fica a uns quatro quilómetros para lá dos portões do bosque encantado.

Um local brutal. Uma eco pista, ao longo do Rio Minho. Três quilómetros para cada lado. Rio, verde, com uma pista no meio. Foi assim, foi aqui.

Já recebi os parabéns do meu treinador, embora também ele me tenha levantado agora a questão. Bons ritmos - para mim - de corrida, mas pulsações de corrida de recuperação.

Às vezes penso que devo estar registado na maternidade do Entroncamento, na parte dos fenómenos, mas depois lembro-me que não, são mesmo coisas enigmaticamente estranhas, que me alavancam a vida, encantadoramente enigmáticas, como este sítio para onde me retirei. Retiro.

Hoje faz vinte anos.

Há vinte anos um sonho de miúdo tornou-se uma realidade, materializava-se, concretizou-se.

Há vinte anos casei com a mulher da minha vida.

Vinte anos depois, como que num sonho, viemos parar a este lugar encantado,como nós, tanto nos encanta.

Hoje devia ter treinado, mas não treinei.

Amanhã vamos correr juntos (as celebrações em privado serão inúmeras, brutais, estou a brincar, mas quase). O sono tranquilo há-de chegar, que começo a não ter idade para ansiedades.

Aqui, no bosque encantado, contigo, para sempre. Tenho a eternidade toda.

Temos toda a eternidade.

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publicado por The Cat Runner às 19:32

EU HEI DE CORTAR A META ( DIA 25 DA MARATONA )

Segunda-feira, 14.05.18

Correr é ser solidário, livre, corajoso, humilde, humano, maior.

Rumo a Berlim, com receios, mas inspirado por cenas como esta.

Faltavam 200 metros, apenas 200, como ir daqui até ali.

Só quem nunca levantou o butt do sofá é que pode achar que 200 metros é só ir daqui até ali.

Duzentos metros é ir dali até ao limite mais estreito da existência.

Eu hei-de cortar a meta...

 

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publicado por The Cat Runner às 21:55

EM ESTADO DE CHOQUE ( DIA 24 DA MARATONA )

Segunda-feira, 14.05.18

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Estou em estado de choque.

Não é caso para tal, mas eu gosto de dramatizar um bocado, para a coisa subir de tom.

Estou um pouco em estado de choque, isso sim.

Entro hoje no terceiro mesociclo, na minha preparação para a minha primeira maratona.

Mesociclo é uma palavra estranha, no meu caso consiste em quatro semanas de treino, quer dizer que oito semanas já lá vão.

Se o primeiro mesociclo foi para recuperar as minhas pernas, o segundo já teve como objectivo começar a re-adaptar-me à corrida.

Este terceiro mesociclo deixou-me abananado e ainda nem o comecei.

Depois de o receber e de o ler enviei um email ao José Carlos Santos, o meu treinador.

Dizia mais ou menos isto: vou ter que subir para patamares de intensidade para os quais não sei se as minhas pernas conseguem estar à altura.

Tinha acabado de enviar o email quando a minha mulher me pergunta como tem corrido a preparação.

Contei-lhe que sinto evolução, se calhar mais lentamente do que eu pensava, mas sinto a minha corrida a evoluir.

Confidenciei-lhe o meu drama; a partir de uma certa altura as minhas pernas, sem dor, nunca mais tive dores, não conseguem responder mais-além. Mantenho aquela cadência e dali não consigo passar.

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É, quando acabo de lhe dizer que "isto está a sair-me do bolso, está a começar a ficar exigente, mas foi por isso que me meti neste desafio, só tenho que me aguentar e acreditar", que recebo o email de resposta, do meu treinador, que estava em Espanha com a selecção portuguesa de Trail, da qual ele é o selecconador nacional.

Escrevia-me ele: "o que é importante são as batidas cardíacas por minuto, tens que as atingir".

Isso sei eu, pensei, e disse-o à minha mulher, "o problema é correr duas vezes três quilómetros acima das 145 BPM e as pernas colaborarem, deixarem de se sentir ultra-pesadas ( sinal que os treinos estão a dar resultado)".

- "Sabes o que me respondeu o Zé Carlos?", perguntei à Carla.

- "O quê?".

-"Aquela velha máxima, mas que é uma verdade absoluta: - no pain, no gain".

Confirmo.

Sem sofirmento não há conquista.

O sofrimento faz parte.

A lei da natureza impede a evolução, se não formos mais-além, se não puxarmos os nossos limites, se não sentirmos o cansaço.

Faz parte. É uma parte. 

Do outro lado da moeda está o prazer, o prazer de conseguir, o prazer de ver, o prazer de sentir, porque a seguir a uma pain vem um gain, como a tempestade a a bonança.

Mas, que dá para ficar meio em estado de choque dá, digam o que disserem. 

Começamos assim;

segunda feira, trabalho core e tronco e braços.

Terça feira, dez minutos de aquecimento abaixo das 130 BPM, a seguir duas vezes três quilómetros numa janela entre as 145 e as 150 BPM, e mais cinco minutos, no fim. Ou seja, tenho que fazer seis quilómetros na casa dos 5,30"/km. Medo.

Quarta feira, cinquenta minutos, nas 130 BPM.

Quinta feira, quinze minutos de bike e trabalho de pernas, massagem.

Sexta feira, uma hora de corrida, abaixo das 30 BPM.

Sábado, descanso.

Domingo, uma hora e um quarto e corrida. No início 130 BPM, no final 145 BPM.

Repete nas três semanas seguintes, mas aumenta gradualmente, ao longo da semana.

Para a próxima, em vez de duas vezes três quilómetros será quatro vezes três quilómetros, e por aí fora.

Neste terceiro mesociclo posso dizer que começo a treinar  para a maratona.

Até porque, ia eu uns parágrafos lá em cima, recebo este email do meu treinador:

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Confesso, ainda ontem, como me acontece algumas vezes, no meio da Lezíria, no meio da minha corrida dei comigo a pensar que não vou conseguir fazer a maratona.

Depois, lembro-me de emails como este, de amigos que começaram a correr depois de mim e fazem maratonas acima dos níveis em que ainda me encontro, lembro-me do dinheiro que esta aventura me está e vai custar, lembro-me dos compromissos de amizade que assumi, lembro-me, sobretudo, que me meti nisto para me confrontar comigo próprio e dar início a um novo ciclo na minha forma de viver e na minha vida.

É muito importante, para mim, chegar a setembro em forma e fazer a minha primeira maratona, mais que importante, um desafio decisivo, enquanto ser humano. Só que, já só faltam quatro meses.

E essa é a minha dúvida, será que nestes quatro meses vou conseguir tirar um minuto a cada quilómetro que corro, na verdade é isso que me falta.

Correr um quilómetro até seis minutos vezes quarenta e dois quilómetros.

A dúvida é minha, a certeza é a do meu treinador e do meu recuperador, Pedro Mimoso, com quem acabo de falar ao telefone.

Eles têm a certeza.

Quem sou eu para duvidar?!

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Falamos no final desta semana, para ver como está a correr esta nova e dura etapa da preparação.

Até porque, este fim de semana decidi perder dois quilos até sexta feira.

Hoje acordei por volta do meio dia e almocei o que a foto documenta.

Comer de três em três horas, cortar com doces, fritos, gorduras.

Se na sexta feira tiver perdido dois quilos, e se o meu corpo e cabeça tiverem aguentado o plano de treino, a minha dúvida cai por terra.

Se os outros acreditam em mim, porque raio eu não hei-de acreditar?

Vou comer um iogurte, uma banana, que daqui nada há treino.

E, que bom que isto me tem feito à cabeça, nestes últimos dois complicados e difíceis meses. 

Dois meses difíceis, porque como diz um amigo meu "a vida não é só correr".

Mas, é a correr que me equilibro e reencontro com a vida, embora demore, está a demorar, o meu reencontro, tal como a minha corrida, que me levará à forma perfeita.

Eu sei, tudo tem o seu tempo. 

 

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publicado por The Cat Runner às 15:22

MARATONA É O MEU NOME DO MEIO ( DIA 23 DA MARATONA)

Quinta-feira, 10.05.18
Uma ou outra vez, o blog do Gato Que Corre convida amigos, para escreverem sobre corrida, sobre as suas corridas. Já passaram por cá a  Rita Rodrigues, A Mafaldinha, a Carla Moita, e mais um ou dois amigos, das corridas, e não só.
Desta vez convidei alguém, uns dois anos mais velho do que eu, mas que já leva várias maratonas nas pernas.
Curiosidade minha, que vou correr a primeira maratona, em Setembro, em perceber o que se sente durante todos aqueles quilómetros.
Imaginava que era mais ou menos como o Quaresma escreveu, o Jorge.
Isto do nome é mera casualidade.
Espero que goste do relato, na primeira pessoa.
 

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Fui desafiado pelo Zé Gabriel Quaresma a escrever algo sobre a minha participação numa maratona, no fundo, transmitir tudo aquilo que nos vai na alma naqueles “ eternos “ 42.195 metros.
Pois bem!
Tudo passa mesmo pelo desafio, como este que foi lançado, pelo Zé para relatar a minha experiência ( é bem mais fácil correr...).
Tudo começou em 2015, quando em janeiro fui desafiado a participar num grupo de corrida e tentar correr 5 kms, enganaram-me, foram quase 10, mas consegui !
Que vitória, que satisfação , que orgulho.
Duas semanas depois estava a fazer a inscrição para a meia-maratona de Lisboa ( atravessar a ponte 25 de Abril a correr ), era um desafio interessante e exigente, objetivo era terminar ; só este, mais nenhum.
Desafio superado.
"Agora é tempo de pensares numa maratona “, disse-me o meu Amigo.
Outro desafio pela frente prontamente respondido com um enorme não, “ isso nunca “ , foram as minhas palavras que recordo ainda hoje.
No passado dia 22 de Abril fiz a minha sétima maratona.
Que loucura, mas o desafio de fazer 10 maratonas continua bem vivo.
Voltei onde já tinha sido feliz, Madrid, uma prova com mais de 36 mil participantes distribuídos entre meia e maratona.
Ambiente fantástico com imenso público constantemente a chamar pelo teu nome “animo jorge ânimo “, e os kms a passar e sem dar conta disso mesmo , metade já estava feito.
Mas vamos começar ainda antes do km zero, a viagem de véspera, trinta amigos num autocarro , todo um ambiente fantástico e as incertezas a surgirem.
Será que aguento ? Será que treinei o suficiente? Será que a alimentação foi correta? Será que vou conseguir dormir? Tantas perguntas sem resposta.
A noite realmente não foi a indicada, a minha almofada fez muita falta, o pequeno-almoço também não foi o melhor, os intestinos ficaram em Portugal, mais dúvidas surgiam sobre o meu desempenho, em que o desafio é e sempre será, chegar ao fim sem sofrer muito.
Tiro de partida, ritmo muito lento, somos milhares e a estrada fica demasiado estreita, não faz mal, só quero chegar ao fim.
Aproveito mais uma vez para ver a arquitetura da cidade madrilena, vou vendo outros companheiros de corrida, vou conversando com atletas de todo o mundo, e já estão quase 7 kms percorridos.
Não tinha fome, mas a experiência dizia-me que tinha que tomar o meu gel, mas os intestinos não funcionavam, ía ser uma luta até ao final.
Não falhei nenhum reabastecimento, alimentei-me sempre de 10 em 10 kms e sempre com uma garrafa de água na mão, porque o calor apertava.
Aos 16 kms, separação entre a meia maratona e a maratona: primeiro momento emotivo;
os atletas da meia maratona incentivavam-nos batendo palmas e gritando “ ânimo, força, vocês conseguem “, que arrepio, que força.
Passei os 21 kms, meia maratona já está, já só falta outra meia, está quase!
É o pensamento generalizado.
Aos 30 kms, o km conhecido como "O Muro" , onde está a marreta que nos faz quebrar fisicamente e começamos a correr com o coração.
Muita gente a assistir, a bater palmas, a gritar por ti, a dizer que falta pouco, mas as forças a fugir.
É então que surgem os primeiros pensamentos negativos, - não treinei o suficiente, o que estou aqui a fazer ?Mas porque é que me meti nisto? Ainda falta tanto....
Altura de respirar fundo e pensar positivo, pensar nas coisas boas da vida, daquilo que gostamos, daquilo que nos faz feliz e de repente voltas a correr mais leve e vês a placa dos 37 kms!
Já só faltam cinco, está quase.
Era o pensamento daqueles que me acompanhavam e pensavam fazer a prova em 4 horas.
Ainda estou a correr ao ritmo que queria, acho que vou bem, ou vou muito lento?
Tantas dúvidas, é altura de correr somente com o coração e esquecer tudo.
Chegou o quilómetro 41 !
Renasci !
As pernas voltaram a responder, a meta está ali ao nosso alcance, vou conseguir terminar, a emoção apodera- se de nós e quase por milagre voltamos a correr como no início, sem fadiga e com um sorriso enorme.
Os teus amigos da meia maratona estão nos metros finais a apoiarem-te, entregam-me uma bandeira de Portugal para as mãos, as lágrimas de satisfação insistem em sair, mas não saem, apenas um sorriso de felicidade indiscritível, só quem faz uma maratona percebe.
Acabou!
Consegui !
Nunca mais me meto noutra, dói-me tudo!
Recebes a tua medalha, descansas meia hora, depois já digo, onde é a próxima?
O desafio está lançado.
Porque a nossa vida pessoal, profissional é feita de desafios e só assim fazemos algo que à partida parece ser impossível de concretizar.
Quero fazer 10 maratonas, é o meu desafio.
Desafiante foi escrever este texto.
José Gabriel Quaresma, vais sem dúvida fazer e bem a tua primeira maratona, vai ser um misto de sentimentos que depois vais transmitir aqui para as pessoas perceberem esta coisa estranha que é correr.
Espero correr uma contigo.
 
(Jorge Quaresma)
 

 

 
 

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publicado por The Cat Runner às 17:32

A SENSAÇAO DE VIVER ÀS PORTAS DA GRANDE CIDADE ( DIA 22 DA MARATONA)

Terça-feira, 08.05.18

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Os esquecimentos irritam-me, mais que os atrasos. Quanto a atrasos sou um “Ás”.

Os esquecimentos é que me tiram do sério.

Os meus treinos passam por correr, com regras determinadas, com objectivos que tenho que alcançar. Por isso, o relógio é decisivo.

A recuperação é passado, as pernas estão boas, é um recomeço, do zero. Essa fase já lá vai. Começou no dia oito de Janeiro, acabou

Neste momento treino para a maratona de Berlim - estamos no mês em que dizem sim ou não às acreditações, mas o nosso serviço secreto trabalha bem.

O meu plano de treinos já inclui subidas, num determinado tempo, dentro de um registo cardíaco definido.

Também treino rectas, como hoje;

Fiz quinze minutos de aquecimento, com um patamar cardíaco definido e depois, bom, depois como se tivesse treinado rampas. É assim que sinto os treinos de velocidade, intensos, que cansam, que sentes que estás a trabalhar, a carregar, a desenvolver, tal como nas rampas acabo dobrado, com as mãos nos joelhos. Ofegante.

Um quilómetro vezes cinco, com um intervalos com cerca de um minuto.

No fim, mais dez minutos de corrida idêntica à corrida inicial.

Já disse que os esquecimentos me irritam, mais ainda quando me esqueço de carregar no botão do relógio, para começar o treino.

Parece de somenos, mas não é, então, a pessoa vai ali, téctéca, na sua passada, a fazer os seus quinze minutos de fama, antes das rectas malditas, quando repara que o relógio está parado.

O relógio parado.

Parou o relógio, mas não parou o tempo, e durante esse tempo, antes das rectas, pensei numa realidade que está à frente dos nossos olhos, mas parece que não existe.

A interioridade, na grande cidade.

Por causa da corrida tenho conhecido o “território” português e tenho visto quem são e como promovem o território, o esforço que fazem. Quase sempre no Interior, por vezes bem lá no interior.

É tramado, para eles, se querem ver um jogo do Sporting ou do Benfica, ou se querem ir ao concerto dos U2, ou simplesmente visitar família.

Há pessoas que nunca viram o mar.

Cá, em Portugal.

Por isso, entendo-os como ninguém.

E, é mais ou menos assim que me sinto sempre que meto os calções e a camisola e calço as sapatilhas. Um tipo que vive no interior, a apenas meia hora da capital do império.

Ao contrário dos meus concidadãos do interior, aqui ao lado, eu, simples cidadão posso ir ao jogo, ou ao concerto, ou visitar a família, mas é-me difícil praticar desporto. Nas cidades do interior não, nas cidades maiores muito menos, aqui sim, quase impossível.

Sinto-me como as pessoas de Bragança, da Guarda, de Castelo Branco, atenção; não estou a estabelecer uma comparação, estou a mencionar um estado de espírito.

Imagine-se, viver a meia hora da capital e o único local, num raio de 20 ou 30 quilómetros que tem para praticar desporto, no meu caso correr e treinar corrida, é um belo, fantástico, calmamente passeio ribeirinho, ao longo do Tejo. Mas, só isso, nada mais.

Nem mais um único sítio para praticar desporto, tirando as ruas e os cães e as pessoas, as estradas com os seus camiões, ou então, no meu caso, a Lezíria, mas ao que consta a Lezíria ainda não é um parque desportivo, continua a ser a maior propriedade agrícola do país, apenas isso.

Lisboa a Cascais quase que se pode fazer a correr, junto ao rio, o parque de Monsanto, o Estádio do Jamor, o Estádio Universitário, em Lisboa há imensos equipamentos desportivos que podem ser usados por pessoas que gostam e precisam de praticar desporto.

Lá, nas terras que conheci, há a distância que impede, mas há uma qualidade de vida que deixa a desejar, cá por estas bandas.

Em todas as cidades onde corri, ou em provas, ou por prazer, tive sempre um sítio apropriado para o fazer. Sim, no Interior há qualidade de vida, preocupação com as pessoas.

São trengas, essas campanhas contra o sal, contra o sedentarismo, blá, blá blá, se depois esquecem-se do desporto, esquecem-se das pessoas e, como eu me irrito com esquecimentos.

De Lisboa, até onde eu vivo, zero.

A excepção é o passeio ribeirinho de Vila Franca, é bonito, é bom, mas parece-me pouco.

Creio que os líderes desta zona (Vila Franca de Xira e Benavente - digamos que vivo nos dois sítios), bem às portas de Lisboa, não querem saber do desporto para nada, nem sequer, isso é que é grave, da saúde e do bem estar dos seus eleitores.

Todos os dias são cada vez mais e mais aqueles(as) que, ao fim do dia caminham, correm, fazem exercícios, onde calha, pois.

Eu treinei no passeio ribeirinho, onde treino normalmente (faço 7 kms de carro para cada lado) e esqueci-me de meter o relógio a funcionar, o que me ia dando cabo dos nervos.

É que eu detesto esquecimentos.

Detesto que se esqueçam das pessoas, muito mais do que quando me esqueço de ligar o sacana do relógio.

Os esquecimentos irritam-me.

Devia haver uma lei que obrigasse todos os políticos a praticar desporto.

Era garantia que havia locais para correr, para treinar, para respirar.

Só que não há lei nenhuma igual a essa.

Esqueceram-se de a fazer, porque as pessoas, afinal, importam pouco entre cada ciclo eleitoral.

Querem correr?

Corram na rua.

Nós corremos, descansai.

Mas, não é isso que me fará esquecer, porque os esquecimentos irritam-me.

Prefiro dez mil vezes esquecer-me de ligar o relógio antes do treino.

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publicado por The Cat Runner às 21:31

FELIZES, APENAS ( DIA 21 DA MARATONA )

Terça-feira, 01.05.18

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Quando te sentes pequeno, ao pé de outros e feliz, por isso.

Hoje tinha tudo para correr bem e para correr mal.

Correu muito bem.

Desde logo, porque o meu pai resolveu fazer-me companhia.

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Mal cheguei dei de caras com o João Campos ( um grande amigo corredor ).

Mal nos tínhamos cumprimentado, já ao longe caminhava em nossa direcção a Alice Vilaça ( uma grande amiga das corridas ).

Nada combinado, é assim !

Feitas as apresentações saímos para o aquecimento.

Sairam, porque logo ali alguma coisa dava sinais de me querer chatear.

Subimos a rua e entrei no café, enquanto eles continuaram, devagar, para aquecer.

Fila, como sempre, para o WC.

A menos de dez minutos da partida lá consegui estabilizar um pouco a coisa e, quando pensava aquecer um um bocado, como me tinha recomendado o meu treinador já a corrida tinha começado.

Quase mil e quinhentas pessoas.

Eu nunca tinha corrido num estádio, numa pista de tartan.

Dado o tiro de partida, Alice e João decidiram acompanhar-me. Tentei demovê-los. Eles correm mais rápido, eu ia fazer um teste, após cinco meses de recuperação e não era minha ideia estragar-lhes a corrida.

Até porque eu ia com o objectivo de me testar nos 10 quilómetros, os outros cinco eram uma borla, mas eles insistiam.

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Assim foi, assim fomos, até ao quilómetro dois. Isso.

Bom ritmo e a conclusão que, de duas uma, ou devia ter ido mais vezes ao WC, ou devia ter tomado um pequeno almoço mais reduzido, embora com os ingredientes ideais, ou devia tê-lo tomado mais cedo, nunca uma hora e meia antes da corrida.

Enquanto eu vomitava, ali mesmo em frente ao LNEC - peço desculpa - Alice e João esperavam por mim.

“Vão se embora”, gritei-lhes.

Quando isto me acontece tenho que parar mais umas duas ou três vezes, só depois fico novo, de novo.

À terceira foi de vez, obriguei-os a irem-se embora.

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O João sabe muito disto, reparei que,, enquanto fui com eles (fizeram menos 20 minutos do que eu) ele tentava manter a cadência certa da corrida, saltava para a nossa frente, discretamente, ia a ajudar-me-nos, sobretudo a mim, que quer o João, quer a Alice conhecem bem esta minha estranha história com a corrida.

Já sem eles senti-me mais livre.

Com eles tinha aproveitado para fazer os primeiros cinco quilómetros abaixo da meia hora, continuava indisposto, mas melhor, agora. Sem dores, pouco cansado, apenas com uma pequena "bola" aos saltos dentro do estômago.

Vamos lá para a segunda parte, pensei.

Se os primeiros cinco quilómetros foram feitos abaixo da meia hora, então poderei fazer dez abaixo da hora.

Subi os túneis de Entrecampos e a Avenida da República - está bonita, a cidade - e já perto do Marquês, no cruzamento da Augusto de Aguiar tiram-me esta foto.

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O meu amigo Pires (Grilo), que fez a tropa comigo, na Força Aérea, um super-atleta, é da minha idade e faz Triatlo, Maratonas, Trails e eu sei lá mais o quê!

O Pires é da PSP, das motas, e estava ali no cruzmamento, a cortar o trânsito.

Aos anos que não dávamos um abraço.

Agora é sempre a descer, pensei eu, desejei eu.

Fiz uma hora e quatro, aos dez quilómetros, entretanto já tínhamos descido a Avenida da Liberdade, dado a volta no Terreiro do Paço, já tínhamos passado o Martim Moniz, e a Almirante Reis, até ao Areeiro, estava quase.

Só que, estes últimos sete a cinco quilómetros, com a Fonte Luminosa pelo meio, foram todos a subir, de carro não parece, mas são a subir, garanto.

Quando virei a Rotunda do Areeiro dei conta que tinha perdido uns minutos na Almirante Reis, minutos ganhos antes, a descer a Fontes Pereira de Melo e a Avenida da Liberdade, mesmo com o abraço ao Pires, pelo meio.

Eu vinha cá para o fim da corrida.

A corrida do 1º de Maio é uma daquelas corridas onde os primeiros terminam em 40 e poucos minutos, menos uma hora do que eu.

Até mesmo os “populares”, com os seus 60, 70 ou 80 anos fazem a prova em tempos bem mais baixos que o meu.

A Alice e o João campos fizeram, obviamente.

Mas, o meu objectivo eram os dez quilómetros, para ver como tudo reagia, as pernas, a cabeça, o organismo, os músculos. Eazer entre hora e uma hora e dez. Fiz uma hora e quatro.

Gastei 41 minutos para fazer cinco quilómetros, quando em média os faço em meia hora.

A subida, o cansaço e alguma fraqueza por causa do que aconteceu ao quilómetro dois, em que salpiquei as sapatilhas da Alice e do João, e do Jorge Máximo e da Cláudia - mais dois amigos, de coração - , que entretanto me viram ali naquela triste figura.

Malditos dois copos de batido.

Até hoje só fiz treinos até dez quilómetros, desde Janeiro.

A última corrida longa que fiz foi em Novembro.

Passada a indisposição provocada pelo batido de aveia, com proteína e uma banana, uma torra de pão escuro com fiambre de perú e queijo fresco, mais um café, a corrida soube-me bem. Senti prazer. Não tive dores. Diverti-me. escutei as palmas de incentivo, revi amigos e estive uma manhã com o meu pai, o que não acontecia há milénios.

Disse-me uma das atletas de elite ( do SCP), "amanhã vens fazer os outros 15 quilómetros, com isso tudo o que comeste?".

Não tive dores nas pernas, consegui fazer os túneis de Entrecampos sem caminhar.

Fiz a Almirante Reis muito devagar, mas sem caminhar, e sentia-me bem, cansado, mas feliz, estava quase.

Certo é que dez quilómetros - ainda - são uma coisa, e mais cinco - ainda - é outra coisa diferente, para quem está na (não) forma em que estou.

Dizia eu, no fim, à Alice, ao João e ao meu pai: “como é que eu vou correr 4 horas seguidas, se não consigo fazer 15 quilómetros abaixo da hora e meia?”.

“Calma, ainda te falta bastante tempo até à maratona”.

Naquela altura nenhum de nós estava cansado. Felizes, apenas. Vê-se nos rostos.

Cansado já ia eu, a trezentos metros do fim, antes de reentrar no estádio, quando pela frente aparece a Alice, para me incentivar até ao fim, ela costuma fazer-me isto, já não é a primeira vez;

“Vá, entramos aqui na pista, o teu pai está lá na meta todo orgulhoso à tua espera, não olhes para a meta, só depois da curva”.

Nestas alturas, no fim das corridas, por muito boas ou penosas que tenham sido é da praxe fazer os últimos metros com altivez.

Escuto a Alice “agora vou desviar-me que esta chegada é só tua”.

Cortei a meta.

Baixei-me para respirar.

Faltava o meu pai.

 

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Dei um abraço ao meu velho.

Eu nunca tinha corrido a corrida do 1º de Maio e sempre soube que ele foi para me acompanhar, para passar a manhã comigo.

Só que, conheço-o há 48 anos.

E, sei que ele também foi para reviver outros primeiros de Maio.

“Ainda dei duas voltinhas à pista, fui lá abaixo à avenida e voltei”.

“E gostaste?”.

“Claro, gostei pois, o 1º de Maio…”.

“Da corrida, pai…”.

“Sim, da corrida do meu 1º de Maio”.

Senti-lhe a saudade, nas palavras, dos tempos em que lá ia ele, de punho ao alto, festejar o Dia do Trabalhador.

Nunca conheci, até hoje, um outro como ele.

Foi tão bom.

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publicado por The Cat Runner às 16:41

NUNCA DESISTI DE NINGUÉM ( DIA 20 DA MARATONA )

Domingo, 29.04.18

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Vem aí a primeira corrida, desde Novembro.

A última vez que participei numa corrida, foi na meia maratona Running Wonders, em Castelo Branco.

Desde então tem sido uma caminhada no deserto, mais uma, que o meu caminho atravessa muitos desertos.

Dia do Trabalhador, feriado, um de Maio.

Está planeada desde Janeiro, quando começámos a preparação para a Maratona de Berlim.

Será o primeiro teste desta fase, que dura há quatro meses. O próximo, antes da maratona, será a meia de Guimarães, do circuito Running Wonders 2017.

Está feito o último treino, agora é descansar até terça-feira.

Eis, quando, senão, dou comigo em frente ao espelho a falar de mim para mim.

Apesar de ter o apoio do meu treinador, José Carlos Santos, do meu recuperador, Pedro Mimoso e do meu fisioterapeuta, Pedro Carvalho, a pergunta que faço ao espelho é se estou em forma?

Eu acho que não.

Mas, não tenho qualquer certeza.

Por um lado, os treinos correm entre o bom e o mau, alternada e aleatoriamente.

São bons, quando atinjo o objectivo do treino, suportando o meu nível de esforço.

São maus, quando atinjo o objectivo, mas pareceu-me uma punição.

Foi assim este meu último treino, antes da corrida do 1ª de Maio.

Durante os oito quilómetros a palavra desistir veio-me à cabeça uma meia-dúzia de vezes.

Acho que já devia estar mais rápido e já devia estar a custar menos.

Desistir da maratona, dos treinos, passar a correr só quando me apetecer e fazer outro tipo de desporto.

São as pernas, senhor, são as pernas.

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Se é inquestionável o bem-estar que elas sentem por não terem voltado a ter dores e, nesse aspecto estarem a cem porcento, começa a ser questionável, por mim, o peso que as minhas pernas ganham, quando corro.

Chegam a pesar toneladas.

Acredito que possa ser cansaço, mas deixo de acreditar nisso quando fiz massagem de recuperação na sexta-feira, descansei no sábado, corri apenas oito quilómetros este domingo.

Em teoria, devia estar leve, mas não, não consigo fugir aos tempos que tenho feito, sempre para lá dos seis minutos por quilómetro.

Parece que estou a começar, há uns anos.

A ideia de desistir só começa a dissipar-se na minha cabeça, quando, apesar de tudo, olho para o relógio e a muito esforço vejo que cumpri os patamares de cada treino.

Dia 1 de Maio vai mesmo ser um teste.

Com ou sem pernas pesadas vou tentar deitar abaixo esse rochedo que tenho dentro da cabeça e que se chama minuto seis.

Tenho, quero, correr os quinze quilómetros dentro desse ritmo, só assim terei a minha própria garantia que, nos cinco meses que faltam para a maratona hei-de lá chegar.

O meu treinador não tem dúvidas.

Descubra eu a fórmula mágica para tirar quilos à pernas e a ver-se não, por acaso não.

Pensei em desistir, mas depois lembrei-me que desistir não faz parte.

Desistir da maratona sería desistir de mim.

Nunca desisti de ninguém.

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publicado por The Cat Runner às 19:45





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