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AS 50 SOMBRAS DE GAB ( DIA 50 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 09.09.18

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Hoje, não há cá textos emotivos.

Mas, não pense que, por causa deste título vai ler um texto altamente erótico.

Posso escrever um texto desses um dia, mas agora não.

Claro que posso, ia ser do caraças.

A seu tempo,

por agora, vou escrever uma carta aberta à minha amante.

A sério.

Tenho uma amante, chama-se corrida.

Daqui a poucos dias vamos ter a mais intensa experiência das nossas vidas, eu e ela.

Por isso, esta carta aberta,

 

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(FOTO DA MINHA PRIMEIRA CORRIDA, HÁ 14 KGS ATRÁS )

 

 

Vila Franca de Xira, 09 de Setembro de 2018,

 

Querida corrida,

 

Sou uma das tuas vítimas.

Entraste na minha vida há cinco anos e meio e, nada mais foi como antes.

A nossa relação tem sido amor/ódio, como se costuma dizer, mas amor que ódio, a bem da verdade.

Tem sido assim, ao longo dos anos.

Já lá vai o tempo em que eu te trocava pelo sofá, ou pelas manhãs na cama, até tarde.

O ódio só entra nesta história quando eu dou por mim a perguntar-me: “porque é que te obrigas a passar por esta espécie de tortura?”.

Eu sei porquê, porque nada é mais forte que o amor, ok, as endorfinas são mais fortes que o amor. Adoro a sensação, não há prazer tão sublime, como aquele que me dás.

Com o passar do tempo foi crescendo em mim um profundo respeito por ti e a coisa deixou de ser, simplesmente, carnal.

Não concebo a minha vida sem ti, sem os nossos momentos mais íntimos.

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Confesso-te que é preciso ter muita paciência para te aturar, ter que me vestir, acelerar o coração, as batidas cardíacas, quando nos envolvemos, ou apenas adormecer, extenuado, depois de muito transpirar, nos teus braços.

Mas isso é o menos.

A minha paciência é de santo, concluo, porque às vezes sinto falta de sair com os amigos, sinto falta de comer à bruta, à minha vontade ( embora saibas que se há coisa que não cuido em rigor é da alimentação).

Lembras-te daquela vez em que desisti, não consegui mais, nem com os comprimidos?

Um homem não é sempre de ferro, querida.

Tu bem querias, mas eu não consegui, até vomitei.

Faço sacrifícios por ti, agradeço que dês valor a isso, porque isto não é só termos prazer quando estamos juntos.

Até vídeos tu já me obrigaste a gravar, e fotos, fotos são centenas, e toda a gente vê, toda a gente nos vê, na nossa intimidade.

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Acho bem que tenhas consciência disso, agora que vamos partir para a nossa maior aventura. Eu e tu.

Às vezes tiras-me do sério, juro-te.

Não compro isto, ou aquilo e depois vou gastar dinheiro em sapatilhas - duram pouco, tens que ser mais cuidadosa -,porque as outras já não servem, porque são quilómetros e quilómetros.

Ainda por cima, tudo de marca, tudo caro.

São os suplementos, para as dores musculares, que já não caminho para novo, apesar da minha vitalidade, suplementos para o pré-acto, para o pós-acto, para dar energia, para isto, para aquilo.

És uma amante de manutenção cara, como quase todas as amantes.

Já para não falar nas massagens regulares, adoro as massagens, o creme a deslizar pelas minhas pernas, os banhos de gelo, para acalmar.

Tens noção do que é encher uma banheira com oito quilos de gelo e meteres-te lá dentro, por amor?

Não tens?

Eu digo-te, são quase oito euros, para cinco minutos de prazer, que é como quem diz!

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Meter-me na banheira, depois de um banho quente, é o que vou fazer agora, a seguir a terminar este texto, já em cima da meia noite, porque os amantes amam-se de noite, a qualquer hora.

Espero que tenhas a noção do que isto custa, e do prazer que dá.

Sorte a tua que nunca me magoei, ao longo destes anos, enquanto andamos enrolados um com o outro, sorte a tua e minha, mas mesmo que me tivesse acontecido alguma coisa desse género eu voltaria sempre para ti.

O prazer que me dás não tem preço.

E, ficas saber;

apesar das vezes que me senti mal disposto, apesar das vezes que recusei ir a jantares, fins de semana, almoços, apesar de acordar cedo, de não fazer aquilo que qualquer pessoa normal faz, só tenho a agradecer-te, agradecer tudo o que fizeste por mim.

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Não há nada melhor que, quando chegamos ao final do acto ( não fumamos um cigarro, é certo, mas porra…), é uma felicidade que nos invade, somos felizes, os dois.

Felizes, como naqueles momentos em que me levaste, braço dado, encostados, para lugares que nunca sonhei, nem nunca pensei que existiam.

Contigo, já corri mais de oito - 8 - mil quilómetros, cum caraças...

Quando começámos a andar, nem dois quilómetros eu conseguia.

Agora, agora vou correr uma maratona, contigo.

Fazes-me sentir desejado, fazes-me sentir homem !

Fora da nossa intimidade - isso apaixona-me em ti - tens o condão de unir as pessoas, até os meus pais já foram a uma prova, e a minha mulher ( que tu conheces, apesar de seres a minha amante), até ela já me traiu contigo.

Fizeste-me conhecer amigos novos.

És a fuga que eu preciso para me sentir vivo. Estás sempre presente, quando preciso, todos os dias.

Ajudas-me a limpar a cabeça e a alma, ajudas-me a dar sentido à minha vida e a afastar de mim aqueles que me querem mal, há um ou dois, apenas.

Ajudas-me a ser feliz, quando estou triste.

Sem ti, nada disto fazia sentido.

Chego a fechar os olhos de prazer, quando estou contigo.

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( EM BERLIM VAMOS VESTIR DE GALA PORQUE MERECEMOS)

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( LEMBRAS-TE DA NOSSA PRIMEIRA VEZ A SÉRIO ? )

 

 

Não me deixes agora, agora que faltam tão poucos dias.

Prometo-te uma espécie de orgasmo cósmico, mental.

E, não precisas de me dizer;

Eu sei que vais dar cabo de mim, de prazer,no final!

Quem diria, afinal, no final, o título deste texto até foi bem sacado.

Há aqui qualquer coisa de intenso, nestas linhas.

Não são cinquenta sombras, são 250 dias de muita paixão, paixão intensa, dor, prazer, cumplicidade, nove meses, desde Janeiro, até domingo que vem.

Não são cinquenta sombras, são cinquenta textos, até hoje.

A nossa história merece ser mostrada ao mundo, num livro que vou escrever.

Só depois irei escrever um conto erótico, prometo.

Agora, vira-te para lá e vamos dormir, que amanhã de manhã temos que meter "a escrita em dia".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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EU, TROLL, ME CONFESSO ( DIA 49 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 08.09.18

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Eu não consigo discriminar todas as pessoas que, nos últimos anos, entraram na minha vida, por força das corridas.

São tantas.

Até porque seria injusto da minha parte, escolher uns e deixar outros de fora. A todos agradeço, oh meu deus (se existes) o quanto agradeço.

Por força das corridas, mas também por força da minha “exposição mediática”, da qual fujo a sete pés - e continuo cada vez mais a fugir - todas essas pessoas foram-se cruzando comigo.

Nas redes sociais e fora delas, no asfalto da vida.

Algumas têm sido fonte de inspiração, mesmo sem o saberem, outras têm-me marcado, desta ou daquela forma, e algumas entraram no meu círculo mais restrito, porque apesar da minha actividade no mundo virtual, noventa e nove porcento da minha vida é passada no mundo real, no recato.

Só os trolls, que não me conhecem de lado nenhum, embora privem comigo algumas horas por dia, ou que nunca privaram de todo é que acham o contrário.

Uma dessas pessoas que entrou na minha vida é o Ricardo.

Hoje, a poucos dias de correr a minha primeira maratona é ao Ricardo (Silva) que dedico esta crónica.

Há uns cinco anos eu era um gordo, um gordo, a entrar na casa dos quarenta.

Corria o risco de me tornar num troll, gordo, careca, com caspa, mas nunca num troll prepotente e de coração gelado, isso não.

Bastava-me um palito ao canto da boca para ser o protótipo tuga.

Decidi começar a correr, para evitar males maiores.

Para me incentivar (auto-incentivar), mas também para criar uma imagem estratégica, admito, comecei a publicar as fotos das minhas corridas e, paralelamente, a escrever sobre aquilo que corro.

Criou-se um propositado efeito de uma (mini) bola de neve e, segundo me dizem, fui inspirando uns e outros, como uns e outros me foram inspirando. Tantos!

O Ricardo, que se inspirou em mim, mas que agora me inspira, entrou na minha vida, como um verdadeiro amigo, de casa, de coração.

Tal como eu, o Ricardo era um gordo, ok, o Ricardo ainda era mais gordo do que eu (admite, eras).

Eramos os dois uns gordos, eu mais velho, ele mais novo.

Um dia, o Ricardo (Ricardinho) confessou-me que, por minha culpa, decidiu começar a correr.

Precisvaa, como eu, não apenas por razões físicas, sobretudo por razões espirituais, mentais, o que lhe queiram chamar, tal como eu tenho feito nos últimos meses, por recomendação médica.

Ele começou a perder peso, começou a ser cada vez mais rápido, cada vez mais forte e, de repente, já corria maratonas a uma velocidade que eu nunca irei correr ( Ricardo, a idade pesa e faz a diferença), ficou bem elegante, muito mais feliz, um homem diferente.

Depois lançou-se naquelas corridas dos malucos, aquelas de cem quilómetros ou mais.

Depois, bom, não há depois, comigo e com ele há o agora, ele confesou-se;

O Ricardo emociona-se comigo, disse-me uma vez, várias vezes, com os meus textos, com as minhas conquistas, vive-as como se fosse dele, como deve ser num verdadeiro amigo (os amigos emocionam-se com os amigos), mas o que ele não sabe é a quantidade de vezes que me emocionei com ele, muitas.

Agora, por exemplo.

Por causa do seu caminho, do seu esforço, das suas conquistas.

Por causa de um acontecimento que lhe marcou a vida e que me fez aproximar-me bastante dele, até hoje.

Somos homens do coração e da saudade.

Conversamos várias vezes, normalmente por mensagens, porque ele vive no Minho e eu vivo no Ribatejo ( não, não sou nem Mouro, nem Lisboeta ).

Conversamos sempre como se estivésemos juntos, como naquele fim de tarde em que nos conhecemos, depois de ele vir ver o seu Sporting.

 

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O RIcardo incentiva-me, preocupa-se com os olhos da minha mãe (cada vez melhores), com os meus problemas, com as minhas histórias, comigo.

Muito mais do que devia.

Muito mais do que eu lhe poderei dar, porque ele merece o pplaneta todo. Inteiro.

Ele tinha por hábito, já depois de me ter ultrapassado nas corridas - quando o criador é devorado pelo monstro (favor rir) - dizer-me que um dia eu iria correr uma maratona.

Ele apostava a vida que sim.

Eu sempre disse que não.

Loucura, nem pensar.

Só que, uma vez, deixei escapar que ia, um dia ia correr uma maratona.

Prometi-lhe, sob pressão (sorrir outra vez, sff).

Foi há uns três anos, mas o sacana nunca mais se esqueceu disso.

Eu disse-o convicto, mas…(Reticências).

Ontem recebi uma mensagem do Ricardo ( já antes tinha recebido um boneco em barro negro, um cabide para as medalhas, que guardo e que, finalmente, vou usar, para colocar a medalha da maratona, ficas a saber hoje que nunca o usei, porque me faltava esta, a dos 42 quilómetros, agora sim, vou usá-lo).

A Alice partiu o boneco em barro negro.

Perdoa-lhe.

Ela é uma boa gata, uma boa amiga.

Um pouco louca, mas só isso.

Como eu.

O Ricardo dá.

Amizade, afecto, carinho, estima, estímulo, inspiração, dá mais do que alguma vez eu conseguirei dar-lhe.

Peço-te desculpa, por isso, meu querido.

Por isso, dedico-te este texto, para que o mundo conheça a nossa amizade incondicional.

E, tu sabes o que significa, para mim, escrever; 

é o que me liberta das grilhetas da vida, o que me transforma por dentro.

Nessa mensagem que me enviou, ele manifesta tristeza por não estar a meu lado em Berlim.

Confessa que gostava que a minha estreia na maratona, a tal que lhe prometi correr, há três anos, fosse em Portugal, para me fazer a surpresa de aparecer e corrê-la comigo.

Estou a ler a mensagem, neste momento;

“Tenho que te confessar que quando, em 2015, me prometeste que farias a maratona, porque te tenho como eu, um homem de palavra, tinha reservada para ti a surpresa.

Se a prova fosse cá, sem te dizer nada, ia simplesmente aparecer, não seria difícil encontrar-te, e iria fazer a prova a teu lado, sentir a tua emoção e cortar a meta contigo”.

Digo-te, neste momento, Ricardo, tu vais cortar a meta comigo, só que não o sabias.

Tu vais correr a maratona comigo, em Berlim.

Eu ando muito sensível por causa disto, e por causa de outras coisas sobre as quais escrevo, e outras que não, porque não posso, nem devo, umas fantásticas, outras merdosas, de gente de merda, mas ando, sensível, com tudo o que me anda a contecer nestes meses últimos.

As lágrimas aparecem-me do nada, depressa, surpreendentes, como tu querias aparecer, na minha primeira maratona.

Surpresa, surpreedentes.

Nada posso, nem quero fazer. Liberto-me, apenas.

E, quando regressar de Berlim irei parar de chorar. Prometo, e sabes como cumpro as promessas porque, como tu, sou um homem de palavra.

Vais comigo, por isso também.

Não és tu que estás “orgulhoso” de mim, nem és tu que me tens que “agradecer de coração por tudo o que te tenho dado”-

Sou eu que devo curvar-me, perante a tua grandiosidade ( repara que não escrevi grandeza, de propósito, embora ambas as palavras queiram dizer o mesmo, mas grandiosidade é muito mais superlativo ).

É a mim que resta retribuir tudo, não é a ti, como dizes na mensagem.

É a mim, meu querido amigo.

É isso que faço agora: MUITO OBRIGADO, por tudo, até por me emocionares.

O teu pai tem imenso orgulho em ti, tenho tanto a certeza, a tua menina também.

E, eu também.

Orgulho em te ter na minha vida.

Dava-te agora um abraço, “à homem”.

Tenho tanta sorte.

Há uns cinco anos eu era um gordo, um gordo, a entrar na casa dos quarenta.

Corria o risco de me tornar num troll, gordo, careca, com caspa.

Bastava-me um palito ao canto da boca para ser o protótipo tuga.

Mas, não.

Fiquei mais elegante, o cabelo não me caiu, a caspa não apareceu e o palito fica horrível, ao canto da boca.

A única coisa que não cumpri foi parar o tempo, e entrei pelos quarenta dentro.

Não cnonsigo tudo, muito menos milagres.

“A tua amizade basta-me”, também a mim, esse é o maior dos milagres.

Espero que gostes de correr comigo em Berlim.

Esta, vai por ti!

 

 

 

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LEVO-TE COMIGO PARA BERLIM (DIA 48 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 07.09.18

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Antes de continuar a ler este texto leia primeiro o que está escrito na fotografia, em cima.

Se já leu, então continue…

Há coisas que uma pessoa nunca imagina que lhe possam acontecer.

Quem me lê sabe que não escrevo para dar lustro, para “puxar saco”, como se diz na bola.

Escrevo com tinta que me sai da medula, como diz o Gabriel “O Pensador”.

Tinta que sai de dentro.

Hoje, dedico este texto a alguém que me surpreendeu brutalmente.

Não estava a espera de tal coisa.

Mas, ela não se importa, de certeza, que eu também lhe dedique este texto, a si que o está a ler.

Há coisas que uma pessoa nunca imagina que lhe possam acontecer.

Jamais esperei, confesso, ter o apoio, o afecto, a estima, a atenção de tanta, mas tanta gente.

Pessoas que nem sequer conheço pessoalmente, a maioria.

Este texto é para ela e para vocês, que me foram levando ao colo ao longo destes nove meses de aventura.

As corridas têm-me colocado no caminho mais alegrias que obstáculos, muitas mais alegrias.

Pessoas, sobretudo.

Eu gosto do ser humano, gosto do “ser” humano, é disso que gosto.

Não gosto de vermes disfarçados de gente, sei quem eles são - levo essa vantagem -, conheço-os a todos, perfeitamente, sei onde estão, como se movem.

Não os quero por perto e, deles me afasto, me afastei.

Tenho-vos a vós e aos meus (eles sabem quem são).

Chega-me!

Faltam oito dias para a minha primeira maratona.

Entrei na fase em que é obrigatório recuperar o corpo, as pernas, sobretudo, porque não sou nenhum super-homem. Eles existem, mas eu não pertenço a essa classe.

O meu plano de treino contempla esta recuperação activa mas, as cargas foram de tal forma intensas que sempre recorri a suplementos, massagens e truques que fui aprendendo.

Acontece que, quero chegar ao dia 16 no meu máximo, como se nunca tivesse sido sujeito a tamanha “violência”.

Recorri, por isso, a um grande amigo, amigo há mais de 20 anos.

É o melhor dos melhores.

O António Gaspar, fisoterapeuta da selecção portuguesa faz-me esse favor, é meu amigo, a sério, desde o começo dos tempos.

Ontem, depois do Guedes me massajar as pernas enviei uma mensagem de voz ao António:

“Meu querido António, como estás? Preciso de ajuda para a maratona. Entrei no período de recuperação, mas não há maneira de este calor me largar os músculos, nem de as pernas ficarem cem porcento leves e frescas. O que é que tu fazes com os craques da selecção? Eles também deve padecer da coisa…”.

O António ( que está e estava em estágio com a selecção) respondeu-me, de imediato.

Aconselhou-me a passar na sua nova clínica, o quanto antes, para começar imediatamente a tomar um suplemento e usar uma pomada especial, que ele utiliza com o Cristiano Ronaldo e afins, penso eu de que!

Assim fiz.

Chegado à clínica, a Marisa, a gentil Marisa, pegou no saco e disse-me:

“Tem aqui o Muscle Repair e a Mad Form, que o Gaspar recomendou, mas a Ercília também lhe deixou uma coisa”.

Acto contínuo, coloca em cima da mesa o cartão que ilustra, no topo, este texto.

Não o li, na altura.

Ficámos ali, a falar, precisamente, sobre o ser humano, o “ser” humano.

A Marisa é das minhas, fala com o coração, houve empatia.

Paguei e vim embora, meia hora depois.

Só no regresso a casa tive coragem de ler o cartão que a Ercília me deixou.

Conheci a Ercília Machado numa corrida.

Lembro-me como se fosse hoje.

Ela ganhou os dez quilómetros.

Tirámos uma foto, no final e ficámos amigos.

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Ela tem 26 títulos nacionais, não é propriamente uma pessoa qualquer.

Naquele domingo ela corria por ela, tinha saído do clube ( não revelo o nome, obviamente ), onde era muito, mas mesmo muito mal paga.

São 26 títulos nacionais, mais a selecção portuguesa, não é coisa ao alcance de muitos.

Nesta merda de país ninguém dá o devido valor ao sacrifício e ao talento de quem escolheu o desporto como forma de vida. Só quando conquistam medalhas. Só nessa altura. Depois, depois voltam a esquecer-se de quem tanto sofre, trabalha e conquista, por nós, para nós.

A Ercília faz parte desse quadro exclusivo de heróis que eu admiro, que todos deviam admirar.

A Ercília foi operada, há meses, a uma anca.

Está a recuperar com o António, logo, está nas melhores mãos.

Foi por isso que soube que eu lá ia buscar os suplementos.

Nem sequer estranhei a sua mensagem, de véspera, na qual me perguntava a que horas lá ia.

Sou um cota naife.

Quando decidi escrever este texto e não outro, tive na linha do horizonte uma pergunta:

O que leva uma atleta de alta competição, uma atleta de topo,  a escrever uma dedicatória destas a um gajo que só corre porque lhe dá prazer, um perfeito amador, de amar, de amor?

Nada, a não ser um coração do tamanho de uma maratona, bem maior que aquela que irei correr, em Berlim.

Sim, é linda, mas a beleza da Ercília não é exterior, a beleza dela está no seu coração grande, tão grande que não cabe neste texto.

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Corras onde correres, serei sempre da tua cor, para sempre.

É o a minha promessa.

O meu compromisso é não desistir.

Não vou desistir, mesmo que as forças me faltem, jamais irei desistir.

Quanto a si, vá lá reler o cartão:

“ Meu querido Zé Quaresma”…

Bateu-me de uma maneira que ainda estou a refazer-me, por isso este texto já vai longo, porque as palavras saltam-me de dentro e não vcabem aqui todas, tal como o coração dela.

Peço desculpa, por isso.

…”Se por alguma razão pensares em desistir, lembra-te de tudo o que passaste para chegar até lá!

Tu és forte e vais brilhar! ACREDITA EM TI”.

Mandei-lhe uma mensagem que fica só entre nós os dois, porque é assim que tem que ser.

Disse-lhe também que vou levar este cartão, comigo, para Berlim.

Só não lhe disse que ele vai ficar na mesma moldura onde ficará a minha primeira medalha e a minha primeira camisola de maratonista.

Era surpresa ( pode ser que ela não leia este texto e será mesmo surpresa), mais que surpresa, é a minha homenagem a alguém tão “bonito”, que partilha comigo, incondicionalmente, a sua beleza e a sua bondade.

Levo o cartão comigo para Berlim, porque é também, o meu obrigado, a ela, e a todos aqueles que me levaram ao colo durante estes nove meses que passaram à "velocidade da luz", bem mais rápidos do que eu conseguirei correr a maratona.

É que nunca me passaria pela cabeça ser merecedor de tanta coisa tão boa, tão bonita, como aquelas que me têm dado.

Acho que não sou merecedor, na verdade.

Ela não leva a mal a inconfidência, senão não consigo ter um final, em grande, para este texto;

Respondeu-me assim à minha mensagem:

“Acho que fazes bem!!! Para te dar força antes de ires para a partida”.

Vou lê-lo, antes de sair para as Portas de Bradenburgo, para mais exigente aventura física e psicológica da minha vida, de mãos dadas com o meu irmão Francisco e com a minha irmã alice (porque só nós os 3 sabemos o que tudo isto significa, nas nossas vidas).

Garanto-te, querida Ercília, vou levar-te também comigo, porque já não sairás mais do meu coração.

Ficaste, também tu, tatuada nele, com a tua letra redonda e as asas dos teus pés.

A ti e a tanta gente que me tem acompanhado, lado-a-lado, nesta empreitada maluca, só posso ser grato, até à eternidade.

E, quando chorar como uma criança, no final, será em vocês que eu vou estar a pensar, em vocês todos, em ti, nos meus, nos que amo, e nos que me dispensam o seu afecto, amizade, estima e consideração.

Nos que me empurraram!

Agora, depois disto, não me falta mais nada.

Só falta o tiro de partida!

 

( Dedicado a ti, querida Ercília )

 

 

 

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O AMOR EMOCIONA-ME ( DIA 47 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 04.09.18

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Hoje emocionei-me enquanto corria.

Foi a primeira vez que voltei ao jardim, onde me cruzei, pela última vez, em vida, com o meu amigo.

Não foi fácil, de todo.

Deixei o carro no parque de estacionamento, equipei-me no balneário do pavilhão do meu União, onde costumava equipar-me antes dos treinos de Muay Thai, na “casinha” ( vou voltar, muito em breve ).

Como sei que o balneário está sempre aberto, pimba, fui lá trocar de roupa.

Cenas…

Foi depois, foi depois que a coisa me tocou, junto ao portão que liga o jardim, onde cresci, ao passeio ribeirinho.

Foi naquele pedaço de chão que o vi, com vida, pela última vez.

Foi ali que trocámos as últimas palavras.

Esta merda teima em não me sair da cabeça!

Talvez, por isso, as pernas se tenham recusado a avançar.

Pesadas, como há nove meses, mas sem dor.

Mandei uma mensagem ao meu treinador, assustado.

Estou a semana e meia de concretizar um sonho, a aventura mais louca da minha vida e, as pernas recusaram-se a ir.

“ Vai as massagens. Isso também faz parte do medo cénico”, respondeu-me, com um smile no fim.

Acredito no José Carlos Santos até ao fim do mundo.

Foi ele que pegou em mim, me recuperou, me guiou, me treinou, me deu todo o apoio, foi ele que acreditou em mim, nestes nove meses.

Em Berlim, também corro por ele, porra, em Berlim corro por tantos e por tantas, que acho que me posso dar por feliz, mesmo que tenha outros sonhos por cumprir, ainda.

Hei-de cumpri-los, todos.

Obriguei-me a esquecer as memórias e segui viagem.

Um treino de uma hora e um quarto já não me assusta, por isso, por isso decidi correr rápido, o mais que conseguisse.

E, consegui, cheguei a andar abaixo dos cinco minutos por quilómetro, dá pica, desde que haja a consciência que não correrei a maratona, nunca, naquele ritmo.

Eu tenho consciência das minhas limitações.

Fui focado, as pernas começaram então a aliviar - é sempre assim, ao fim de meia hora - e comecei a sentir-me forte, mesmo forte.

Se, normalmente, há uns meses, fazia quinze quilómetros em uma hora e quarenta, hoje fiz treze quilómetros em uma hora e um quarto.

O trabalho de casa está feito, as rampas, as séries curtas, as séries longas, os quilómetros carregados nas pernas, mais e mais, as longas, passei isto tudo até chegar aqui.

E cheguei!

Dizia-me o Marcos Pinto, com quem me cruzei na volta, “emocionaste-te? Vais emocionar-te é quando cortares a meta e abraçares a tua mulher e os teus filhos”.

O Marcos é um bacano.

Não o via há mais de um mês.

Almoçámos juntos antes de ele ir de férias.

Vi-o no passeio ribeirinho, a meio da corrida.

Costumava-o ver todos os dias, na TVI.

Já lá não vou há bastante tempo.

A sério, deviam correr, a corrida é tão, mas tão mágica, que não imaginam a quantidade de coisas que acontecem nessa janela de tempo.

O Marcos respondia-me, porque eu lhe tinha dito que, momentos antes me tinha emocionado.

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Estes dias longos tem sido dias de muita ansiedade, de muita expectativa, de muita esperança, de alguma dor, têm sido dias muito difíceis de gerir, para mim, pelo que tenho a emoção à flor da pele.

Da pele?

Do coração, da alma, das pernas, do rosto.

Ando muito sensível, mas aguento, tudo, até as notícias que me chegam, por causa dos tipos com várias caras.

Castigar-me?

Nunca terás essa possibilidade, porque nunca correste a meu lado.

Não sabes o que é sofrer para lá chegar.

Tem sido complicado gerir tudo emocionalmente, a maratona, a morte do meu amigo, os treinos, os outros problemas que não torno públicos, tudo tem sido duro.

Estou de baixa desde Março, porque estava no limite.

Durante este tempo aprendi a olhar a vida à minha maneira.

Tudo o que me verga, não me consegue partir.

Costumo usar esta expressão, acab por ser o meu mantra.

Torna-me forte, perante a gente com várias caras, perante as adversidades, porque correr é isso tudo, também.

E, vou correndo.

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A correr, dei de caras - não é a primeira vez - com os peregrinos, na sua caminhada de fé.

Esses sim, gente de coração grande, ao contrário de outros que conheço, gente rasteira, de coração pequeno.

Nada fácil, deixar as emoções transformadas em pernas presas, lá atrás, no portão do jardim, onde nos vimos pela última vez e, mais à frente levar com aquele banho de humildade, de humanidade.

Fotografei o momento, depois de pedir autorização.

Os peregrinos fazem o mesmo caminho que eu, por isso os encontro, de caras, algumas vezes.

Eles têm uma cara, os rasteiros têm várias.

Nunca caminharão mais do que um passo no lodo em que vivem.

Tirei o retrato e continuei, mais rápido, mais forte, juro.

Estou mais forte.

Cruzei-me com eles durante quase todo o caminho.

Eles não repararam, mas levava os olhos molhados de sal.

E, sorria-lhes.

No meu sorriso alguns repararam, que eu vi.

Sorri com ternura, com afecto.

Afinal, eles e eu, em caminhos cruzados, em direcções contrárias, ali passámos, atrás de uma fé só nossa.

Cada qual tem a sua.

É como as caras.

Uns têm uma.

Outros têm várias.

A minha revela aquilo que sou, aquilo que serei.

Serei um maratonista, um peregrino, como aqueles que me emocionaram.

Porque é de fé que se trata.

O amor emociona-me.

O amor só emociona aqueles que sabem amar e sorrir, aqueles que só têm uma cara.

Depois, meti-me no carro, cheguei a casa, e abracei os meus filhos.

Estou pronto!

 

 

 

 

 

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OS MISERÁVEIS ( DIA 46 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 03.09.18

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A solidariedade anda na boca de toda a gente, mas tão pouca gente faz uso dela.

Sobretudo, quem devia conhecer o seu significado.

Este texto é sobre duas viagens que fiz na mesma cidade, separadas por poucos dias, por muitos quilómetros.

Lisboa, século vinte e um.

A mesma cidade, duas caras.

As minhas duas corridas longas foram feitas com um espaço de sete dias.

Domingo-a-domingo.

Deixei o carro no parque de estacionamento, junto à Casa dos Bicos.

É um parque de estacionamento recente, embora os turistas pouco ou nada andem de carro na cidade, preferem os tuk-tuk, como numa selva.

Tudo pensado para eles.

Antigamente ninguém conseguia estacionar por ali, não havia lugares, só pobres caídos pelos cantos.

Saí a correr, ainda de dia, em direcção ao outro lado.

Ali pela zona do Terreiro do Paço creio não ter escutado uma única palavra em português (chupa Camões), a não ser dos moços dos carrinhos que vendem frutas e sumos, ou nos quiosques que vendem garrafas de água, das pequenas, a dois euros, com uma cara de pau impune.

Está-lhes na cara.

A Praça do Comércio está fechada ao trânsito, aos fins de semana.

Faz lembrar que Lisboa é uma cidade que não deve nada a nenhuma outra.

Barrada a Norte e a Sul, por barricadas feitas de peças metálicas, apontadas ao céu, em bico e ferro forte, que impedem qualquer filho da puta de entrar com um carro por ali fora e matar uma dúzia de pessoas.

A polícia controla os movimentos.

De noite e de dia, que eu sou testemunha.

Nessa altura já eu tinha deixado a Praça do Comérico, fina, cara, sentada, no Cais das Colunas, a contemplar o Tejo.

A Praça dos turistas - não tenho nada contra eles, antes pelo contrário, mas tenho conta o pedantismo, daí o tom caustico e pesado da escrita.

Pedantes, os políticos, grosso modo são pedantes e repugnam-me imenso, porque não olham os seus, apenas os outros e a si próprios.

Saí da Casa dos Bicos, fui até para lá de Algés.

Voltei, já noite escura, vinte e quatro quilómetros depois. Isso!

Que viagem!

Duas horas e meia a correr.

E, ali, mesmo à minha frente, já com a noite a chegar, a miséria.

Ali, já um tudo nada longe dos olhares dos turistas pé-descalço ( que em Portugal, em Lisboa, fazem vida de lordes), os sem-abrigo, e os voluntários, que os ajudam, todas as noites.

Estranha cidade!

No Cais do Sodré a Lisboa suja.

Quilómetro a quilómetro.

Na Praça do Comércio a Lisboa limpa e cheirosa.

Chego a Santos.

Corro entre restaurantes e esplanadas, abre-me o apetite, ver aquela gente toda a dar ao dente, sorridente, longe daquela gente pobre, os outros.

O cheiro a grelhados, puta que pariu!

Detenho-me debaixo da ponte 25 de Abril.

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Pergunto ao rapaz do bar, o bar do Clube de Padel ( lamento a má publicidade, senhores) se há onde beber água, por ali.

Olha para mim, cara de otário, que não, “acho que não”.

Sim, basta perguntar-me se queria um copo de água.

Não perguntou, nem deve ter dado conta do que não fez.

Continuou agararado ao ecrã do computador a ver o jogo da bola.

Fotografei a ponte, linda, livre, por não ser de ninguém.

Pensei no Grilo, pensei nele nas últimas corridas que fiz, em quase toda a corrida, até mesmo quando me detinha para fotografar, não resisto a uma boa fotografia.

Vou pensar nele em Berlim.

Não me sai da cabeça.

Tirei um retrato ao amor, esquecendo-me do pobre otário que não me ofereceu água, olhando para mim, seco até à medula, com um "não sei", na ponta da língua.

O Amor, com Á grande, é isso que me importa na vida, amar.

Senti-os felizes, indiferentes a mim, a tudo, menos ao rio.

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Seguindo os meus próprios passos, por aquela altura, já a noite cobria a cidade, a ponte cada vez mais bonita, toda a corrida feita junto ao rio, valha-me isso.

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Nunca tinha visto tanta gente a correr, às dez da noite, era domingo, pareciam formigas, algumas pareciam formigas atómicas.

Percebi depois que pertenciam a uma “crew” (euqipa amadora) de atletismo, os Run Tejo.

Gente boa.

O otário, funcionário do bar do Clube de Padel - tenho o direto de o ofender, pois então - sabe lá o que é a solidariedade, dava um bom político, aposto até que, se conhecer a palavra a escreve com cê de cedilha;

Çolidariedade.

É quando, do nada, escuto uma voz, junto a um banco,“ quer uma agua? Vai aí todo transpirado”.

Era dois elementos da equipa Run Tejo que estavam a dar apoio aos colegas que treinavam que, ao verem-me  nauqele estado, a passar, atiraram-me a pergunta.

Só que corre sabe como os corredores são solidários, eles conhecem a palavra que se escreve com um ésse.

Que sim, respondi.

Dádiva dos deuses.

Pedi para os fotografar, para este texto, e agradeci-lhes.

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Devia ter-lhes perguntado o nome.

 Passei Belém, uma parte da outra Lisboa, a Lisboa bonita, sem pobres, sem miséria visível.

Uma hora e um quarto depois voltei.

Já não vi os miseráveis, já dormiam, entre pacotes de vinho e pontas de cigarros fumados até ao tutano, filtro e tudo.

A noite escondeu-os.

À minha vista, no regresso, apenas turistas, que o peixe grelhado é únicoe a a vista do rio, à noite, é algo único.

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Até sete dias depois.

Fim da manhã, arranquei para o último “longão” da minha longa preparação.

São nove meses de dedicação total a uma ideia louca, vinda da cabeça de um gajo louco, eu!

Estava muito quente, o sol queimava—me os ombros, senti-o durante vinte quilómetros, durante duas horas, para lá e para cá.

Tirei a camisola de alças, mal saí do centro comercial Vasco da Gama.

Ficam a saber que do Parque das Nações à estação de comboios de Santos, ir e vir, são vinte quilómetros, queime o sol os ombros, haja água ou não.

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Sete dias depois lembrei-me do barista otário.

Se sete dias antes corri ao fim do dia, sete dias depois corri com o dia no seu esplendor.

A manhã preparava-se para se sentar à mesa e almoçar.

Longe dali, a miséria escondida,  continuava escondida, adormecida, debaixo de um viaduto qualquer, longe dos olhares dos políticos, dos turistas e dos otários desta vida.

Bastava-lhes darem as sapatilhas, correr um pouco, para verem a miséria que eles próprios são, por se permitirem ter na sua cidade tamanho cenário de horror, sim, é horroroso o ser humano desprezar o seu semelhante, só porque ele está longe dos olhares dos casais altos e louros, com unhas dos pés por cortar, mas com a carteira cheia de euros.

Gente, numa manhã de domingo, escondida, em quatro paredes de papelão, junto ao rio.

Sempre o rio.

A corrida de um domingo confundiu-se com a corrida de outro domingo, noite, dia.

Lá fui eu, pela mesma Praça do Comércio, pelo mesmo Cais do Sodré que, pela manhã de domingo está inundado de garrafas e copos vazios, das noite de loucura e muita branca na cabeça, urina seca, pelos cantos, despojos de gente com dinheiro.

Ali, ali lembrei-me do rapaz otário e do casal da Run Tejo.

Foi quando parei e perguntei ao segurança da estação do cais do Sodré se havia WC.

“Há, mas tens que pagar, e a TVI, como vai?”, perguntou-me.

"Não sei, estou de baixa há meses, não sei, mesmo, estou desligado, como a televisão".

“Tens que me levar para lá”, atirou, meio a brincar.

Mais a sério, perguntou-me se queria água fresca.

“Vou lá dentro e encho-te a garrafa, na boa”.

Com tom mais sério pediu-me; "Tens que me tirar daqui da porta da estação".

Apertou-se-me o peito, deu-se-me um nó na garganta seca.

Coincidências, alguém que me dá agua, como no domingo anterior, alguém a quem eu “pago” com uma foto.

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“Pede-me amizade, no Facebook, para eu te identificar na foto”, apelei.

Até hoje, nada de pedido.

Devia ter-lhe perguntado o nome.

Não o fiz no domingo anterior, de noite, não o fiz naquele domingo, de dia.

Sou um otário.

Nem nome, nem pedido no Facebook, apenas a água que me deu, e que me permitiu continuar e voltar para trás, para acabar o treino.

Estavam 35 graus e muita humidade.

De repente, dou comigo a fazer treinos tão ou mais longos do que uma meia maratona e eu sei o quanto me custo correr as 16 meias-maratonas que já levo nas pernas, nestes anos ( quatro).

Acabei os dois últimos quilómetros da minha última corrida longa, antes da maratona, a caminhar.

Estava tanto calor que os meus pés quase coseram dentro dos ténis, de nada me valeram os “Boost” e o seu sistema de refrigeração, mais a sua solo tecnologicamente avançada .

Mal tentava correr, eles sobre-aqueciam, de tal forma que só consegui caminhar.

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Em casa, junto à piscina, esperava-me a família, e um fantástico almoço de peixe grelhado, bem melhor do que aquele que os turistas comem, nos restaurantes junto ao ri.

O relógio batia, praticamente, nas três da tarde.

O dia continuava estupidamente quente.

Pensei neles, em como é que eles aguentam, o calor, a pobreza, a fome, com um pacote de vinho na mão, logo pela manhã.

Os miseráveis ( que vivem na miséria) ainda dormiam, entre quatro paredes de papelão, longe dos olhares dos outros, os que bebem água a dois euros a garrafa, no meu regresso ao Vasco da Gama, onde tinha o carro.

Duas horas depois passei, de novo, por baixo do viaduto de Santa Apolónia, mas já não tive coragem de tirar mais fotos.

Tenho a certeza que sim, tenho a certeza que dormiam.

A vida para eles parou.

Não há domingos, debaixo do viaduto.

Passei por lá no regresso.

Tudo igual.

Senti-me tão otário, mais do que o outro.

É que a água não se nega a ninguém.

O direito a viver também não.

Muito menos àqueles que foram arrumados debaixo de um viaduto qualquer, junto a uma qualquer linha de combóio.

Um remédio venenoso.

Longe dos olhares dos que nunca correram.

 

 

 

 

 

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Foi uma viagem incrível.

No domingo tinha marcado o meu penúltimo treino longo, antes da “Big One”.

O que é um treino longo?

É isso, um treino longo ( agora escrevia lol ).

É o treino que conclui a semana dureza.

Os últimos acontecimentos - que são públicos - mexeram imenso comigo, com a minha cabeça, sobretudo.

No domingo saí para correr duas horas e meia, com o meu amigo no meu pensamento.

Levei-o a cada passada.

Só que cometi um lapso.

Estava tão atordoado com os acontecimentos que baralhei o calendário todo.

Corri duas horas e meia, quando o treino era de três horas (o único com essa duração, nestes oito meses e meio).

O treino de três horas serve para - além de carregar quilómetros nas pernas - testar o que está para vir.

Fiquei satisfeito, o treino correu bem, pior foi quando cheguei a casa, por volta da meia noite, e fui registar o treino no mapa dos mesociclos.

Afinal, devia ter corrido três horas em vez de duas horas e meia.

De imediato enviei um email ao meu treinador, em pânico, até porque o treino de domingo que vem, o último longo, antes das duas semanas de descompressão que antecedem a maratona, tem a duração de duas horas.

Que não me preocupasse, fazia dois treinos de duas horas e meia - o de domingo passado e do próximo - em vez do treino das três horas.

Só que eu sou de vergar, mas não partir (uso imenso esta expressão) e já o informei que foco é foco, objectivo é objectivo e que, se havia um único treino de três horas para fazer e eu me enganei, então esse treino será feito.

Domingo gordo, pois claro. Até treme!

Posto isto,

É desconfortável correr mais do que duas horas, aqui na minha zona.

Não há condições.

Lamento, mas não há.

Os políticos de Vila Franca de Xira - a minha terra - e os políticos de Samora Correia - freguesia onde habito - não querem saber de quem faz desporto. Assumo, digo-o, é verdade!

Para correr duas horas, pelo menos, tenho que ir para Lisboa.

Gasto dez euros de gasóleo, mais portagens, acrescentando isso aos quatro ou cinco géis que tenho que tomar durante a corrida, mais duas ou três garrafas de água que tenho que beber, sai-me um treino ao preço do ouro.

Agradeço-vos, senhores políticos do PS e da CDU, neste caso, porque os outros também não me convencem.

Mas, não é sobre política que escrevo.

Deixei o carro no parque de estacionamento junto à casa dos Bicos ( vá lá, deixem-se de pensamentos obscenos ) e saí para correr duas horas e meia.

Como sei os meus ritmos, as reacções do meu corpo, sobretudo o estado actual do meu corpo, apontei para os vinte e quatro quilómetros.

É verdade, com estes treinos acima dos vinte um quilómetros - quem diria - já contabilizo, juntando as provas oficiais, nada mais nada menos que quinze ( 15 ) - até sublinho com número - quinze meias-maratonas.

Digo-o com imenso orgulho em mim.

Dizia eu, saí da Casa dos Bicos, do Saramago, fui em direcção aos Cais do Sodré, sempre junto ao rio, o Tejo, que mesmo em Lisboa, onde se funde com o mar, em definitivo, continua a ser o meu rio.

Segui para Santos, passei o Padrão dos Descobrimentos, depois a Torre de Belém, linda.

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Observei - abrandei para ver - o monumento aos Combatentes, mais à frente a fantástica Fundação Champalimaud. Detive-me a olhar o Boat Yard da Volvo Ocean Race, à esquerda, e as janelas dos prédios, sem cortinas, à direita.

Pudera, até eu... com uma vista daquelas sobre o Tejo, até eu!

Já para lá de Algés, fiz os dois últimos quilómetros da primeira metade da corrida numa zona com muito pouca gente, quase nenhuma. De um lado o rio, do outro a linha do combóio, e eu.

Pensei, porra, agora tenho que fazer tudo para trás.

E fiz.

E cheguei.

E senti-me feliz, com o que fiz, com o que vi - e que contarei em outro texto.

Senti-me tão bem, ao longo daqueles vinte e quatro quilómetros, um pouco por culpa da paisagem, dos bares a bombar a um domingo a noite, por causa das pessoas que se divertiam e das que corriam aquela hora, tantas e tantas.

Diverti-me brutalmente, sózinho. Sempre sózinho, que até a correr sou bicho do mato.

Quando comecei a correr levava o meu amigo no pensamento.

Depois, a corrida entra numa fase estratégica, de controlo da respiração, do ritmo, das dores nas pernas.

Comecei de dia e quando cheguei ao ponto de retorno já era noite.

Só no fim reparei que me tinha enganado no treino.

Fiquei fulo.

Decidi fazer o tal treino das três horas no domingo que vem.

Fiquei tão fulo que me vinguei num Big Mac, com batatas médias e uma Fanta.

Fanta que pariu isto tudo !

Domingo volto lá, sem medos.

Porque quem tem medo compra um cão e, que se saiba, a minha Alice é uma gata.

Está quase, já cheira a Berlim !

 

( O próximo texto, mais logo, vai descrever a minha corrida. Garanto que não vou falar sobre como corri. Vou falar de tantas histórias que se podem contar numa corrida de duas horas e meia. Fica a promessa, porque aquela noite foi mágica)

 

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A MORTE NÃO TE LEVOU (DIA 44 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 26.08.18

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A morte não te levou, porque nem a morte nos leva aqueles de quem gostamos.

Ficarás eternamente nos nossos corações.

O teu sorriso ficará para sempre nos nossos olhares.

A angústia deu agora lugar a uma profunda tristeza e a uma grande revolta.

E, eu ainda não chorei tudo, Grilo.

Quero ser forte, por ti, pela Rosa, pelo teu filho, pelos nossos amigos, mas o meu arrependimento não me está a deixar ser.

Quando deixei a mensagem no teu grupo da corrida, fi-lo aos soluços. 

Desculpa, não consegui, tu entendes, tu és mais forte do que eu e sabes o quão eu sou forte.

Se cá estivesses estarias a dar-me ( dar-nos ) um abraço, e estarias a passar-nos a tua calma olímpica, a reconfortar-nos.

Grande exemplo que tens sido, para todos.

E, eu ainda não chorei tudo, Grilo.

Arrependo-me tanto daquele dia, meu querido amigo.

Lembras-te, naquela quarta feira à tarde, quando nos cruzámos no jardim da vila, ias tu para lá e eu para cá?

“Grilo, dá-lhe, mano, força”, gritei-te eu.

“Amigo Zé” - era assim que me tratavas - “força, carrega, gosto de te ver assim”.

“Grande abraço”, e seguimos, cada qual a sua direcção.

Dias depois começou esta macabra história, até hoje.

Sabes, Grilo, fiquei indignado com os tipos do JN que ontem publicaram a notícia da tua morte.

Nunca tinha, antes, sido confrontado com a morte de um amigo, nos jornais.

Indignei-me e manifestei-lhes a minha indignação.

Mas, hoje, a  Rita mandou-me uma mensagem a confirmar que eras mesmo tu.

Já hoje falei com o Paulinho, já lhe mandei uma mensagem com a trágica notícia.

Ele também está de rastos, como todos nós, ele também te adorava, mas isso tu sabes há decádas.

Também já deixei uma mensagem de voz, lavada em lágrimas, aos teus amigos do teu grupo do atletismo.

Só não tinha conseguido falar com a tua Rosa, por falta de coragem.

Perdoa-me.

Sabes, normalmente, quando escrevo, a escrita sai-me a cem à hora. Escrevo um texto em dez minutos.

Estou aqui há mais de uma hora.  Faço pausas enormes entre cada frase escrita.

Há um grande silêncio entre as minhas frases.

E, a tua Rosa contactou-me, neste meio tempo, falei agora com a Rosa.

Tens uma mulher muito forte, fantástica, tal como tu.

Mais corajosa do que eu.

Estaremos a seu lado todo o tempo do mundo, fica descansado.

“Amigo Grilo” eu não queria estar a escrever este texto, na verdade, nunca imaginei escrevê-lo, porque nunca ninguém imaginou que este terrível e macabro pesadelo fosse realidade.

Mas, escrevo-o porque quero que saibas que hoje tenho treino, é verdade.

Eu sei que te estás a rir; o teu amigo gordinho anda a dar-lhe a sério. Só descanso aos sábados, mas e tu consegues eu, inspirado por ti, também estou a conseguir.

Quem sabe se um dia farei um Iron Man, como tu.

Prometo tatuar a perna, como fizeste.

Antes disso vou tatuar a outra perna, sabes o que lá vou escrever?

"I´m a marathoner", isso, eu sabia que ias gostar.

Hoje, "Amigo Grilo" é o meu penultimo treino logo, são 25 quilómetros.

Depois, como te disse há umas semanas, no próximo domingo terei o último longo antes da minha estreia na maratona, o de 30 quilómetros.

Daqui para a frente vou levar-te comigo, em cada corrida que faça, sabes porquê?

Porque acredito que os anjos olham por nós e tu vais contunuar a incentivar-me e a apoiar-me, como sempre.

Vais comigo, preso às minhas sapatilhas, colado à minha alma.

Serás, de hoje em diante, o motor da minha locomotiva.

Porque foste o exemplo.

Gordo do caraças :)

Já viste as elegâncias em que  os tornámos, depois de velhos?

Tenho tantas suadades tuas!

Sei que já não te irei  encontrar mais no jardim, mas o que tu não sabes é que irei pensar em ti, sempre que lá correr.

Aquele jardim guarda as minhas memórias de infância, os momento mais belos que vivi, menino, do lado de lá da linha do combóio e do lado de cá, onde a gente se encontrava, junto ao nosso rio.

Agora, o meu jardim guarda também a tua imagem.

Vou acabar, “Amigo Grilo” ( que saudades de te ouvir dizer “Amigo Zé”), quero só que saibas, estejas onde estiveres, que Berlim vai por ti.

É a ti que dedico a minha primeira maratona, que ficará tatuada na minha pele e na minha alma.

É a forma que encontro para agradecer as tuas palavras, que jamais esquecerei, que levarei comigo, no momento em que cortar aquela meta:

“Amigo Zé, tu vais conseguir”.

Vou, fica descansado.

Gosto muito de ti.

Obrigado, por tudo o que fizeste por mim.

Em Berlim, vai por ti, “Amigo Grilo”.

Recebe o meu abraço.

Jamais te esquecerei.

 

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AMIGOS ESCREVE-SE COM "A" ( DIA 43 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 25.08.18

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Começou a contagem decrescente.

De repente dou conta que faltam apenas três - 3 - semanas para aquele dia que eu nunca imaginei lá chegar.

A ansiedade e a insegurança desapareceram.

Ainda tenho mais uma semana de dureza pela frente, afinal, ainda nem acabei esta, amanhã corro 25 quilómetros.

Na próxima irei treinar os membros superiores, depois corrida progressiva de uma hora e meia, corrida de relaxamento de uma hora, treino de pernas, outra corrida de relaxamento de uma hora, folga, no sábado e, no domingo que vem…Trinta quilómetros.

Será a corrida mais longa da minha vida.

Depois, as duas semanas que antecedem a maratona de Berlim serão também elas de treino, mas com um objectivo diferente: libertar o corpo de toda esta carga brutal que tenho em cima, para chegar ao dia 16 no pico de forma, leve como uma pena - salve seja -, para correr os 42,195 kms.

O que me preocupa, na verdade, são aqueles 195 metros finais.

Neste momento já não estou preocupado com os restantes 42 quilómetros.

A sério.

No instante em que escrevo este texto sinto-me confiante, forte, física e psicologicamente, apoiado por quem está em meu redor, perdi os receios.

Estou há 8 meses e meio a preparar este dia.

Tenho sofrido imenso com as dores, com as massagens, com o calor, com os quilómetros, tenho abdicado de ir jantar com amigos, ou de sair com a família para fora, tenho cumprido o compromisso que assumi, primeiro, comigo, depois, com o meu treinador, com o meu recuperador, depois com os meus companheiros de aventura e com as pessoas da nossa equipa.

Sim, somos uma equipa, somos os “Rainbow Runners”.

Uma equipa constituída por amigos, amigos francos, sinceros, verdadeiros, comigo, todos os dias, e que vão a Berlim só para estar a meu (nosso) lado naquele que, provavelmente, será um dos dias mais marcantes da minha vida.

Isso não tem preço.

Quando soar o tiro de partida, às oito da manhã daquele domingo, arranco para a prova física mais exigente desde que me conheço. Física e psicológica.

Na cabeça levo a estratégia da corrida e as sábias palavras do meu treinador, levo também a companhia do Francisco e da Alice, os meus “wingman”.

No coração levo todos, sem qualquer excepção, que me encorajam todos os dias, me empurram para este sonho, que alimentam a minha coragem, mesmo nos momentos em que ela quer falhar.

Levo-os a todos, sem excepção.

Aqueles que deviam estar neste movimento - onde existem imensas pessoas que nem sequer conheço pessoalmente - mas, por opção própria nem uma palavra alguma vez me dirigiram, esses, esses não conseguiram os mínimos para participar na corrida…do meu coração.

Estão fora.

De fora ficarão.

E, não contam, para nada.

São os que me acarinham, os que me incentivam, os que acreditam em mim, os que me ajudam e apoiam que serão as molas que levarei nos pés.

Com o meu “irmão” Francisco de um lado e a minha “irmã” Alice do outro irei voar.

Se vou terminar nas 4.15H, nas 4.30H ou nas 4.40H, é algo que, de facto, não me incomoda rigorosamente nada.

Hoje, enquanto escrevo, sinto-me forte, como nunca, combativo, como sempre, sonhador, porque assim sou, crente, em mim e no que sei sofrer, esperançado, porque a felicidade voltou a visitar a minha vida. Finalmente.

Daqui nada vou ver a estreia do meu filho.

Vai jogar pela primeira vez no campeonato nacional de juniores ( Divisão II).

Está a cumprir o seu sonho, mas é para lá disso, ele e eu sabemos o que é e a força que os últimos acontecimentos me transmitiram. A mim e a ele.

Quinta feira, a minha mãe será operada e irá voltar a ver, sim, a ver, a minha mãe praticamente cegou, há uns anos.

Não havia como voltar a ver.

Mas, há e vai voltar a ver.

Se deus existe, e se quiser, outras novidades vão acercar-se de mim, nos próximos dias.

Tudo, exactamente tudo como desejei em Dezembro quando decidi mudar a minha vida e correr a maratona, pela primeira vez.

Por tudo isto, que aqui está escrito e que parece pouco, mas na realidade é uma brutalidade, na minha vida, faz com que não esteja preocupado com os 42 quilómetros.

Para essa epopeia única eu preparei-me, passaram oito meses e meio, desde o primeiro dia.

O que me preocupa são os 195 metros finais.

É que eu não treinei essa parte.

Ninguém treina o seu coração.

Quando completar os 42 quilómetros vou olhar para a Alice e para o Francisco, vou voltar a lembrar-me de todos aqueles e aquelas que me acompanharam neste caminho tão duro, vou lembra-me do Mané Cordeiro, que um dia disse que iria correr uma maratona comigo, antes de morrer. Mané vais estar a ver-me, onde quer que estejas, isso eu sei, meu querio amigo.

Vou lembrar-me do Grilo, que continua desaparecido, já lá vai uma eternidade.

Vou lembrar-me dos meus filhos e da Carla e do amor que me dão.

E, vou chorar. Muito. Tanto.

Tanto, que aqueles 195 metros finais serão uma mera fracção de tempo.

Não estou preparado para tamanha invasão de emoções.

Não treinei para isso.

E, ainda bem!

 

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"A DOR EXPULSA A FRAQUEZA" ( DIA 42 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 16.08.18

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( FOTO: RICARDO AREIAS )

 

 

Hoje escrevo sobre mim, por interposta pessoa.

Outra pessoa.

Podia ter sido eu.

Tenho recebido apoio e incentivos de tantas pessoas que, confesso, fico banzado.

O Ricardo Areias tem sido uma dessas molas que alavancam a vontade de levar isto até ao fim.

Ontem, o Ricardo enviou-me um texto dele, que publicou, com uma coragem que raramente se vê.

É ler, para perceber.

Este texto não me sairá da cabeça.

Vai acompanhar-me até ao momento em que cortar a meta, em Berlim.

Já vai entender...

 

 

 

 

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OS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS ( DIA 41 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 15.08.18

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Sou bipolar.

A corrida trouxe à tona a minha bipolaridade.

Só não sofro é da parte do “transtorno”.

No último texto queixei-me das dores nas pernas.

Hoje as minhas pernas estão novas.

Do Inferno ao Céu em menos de vinte e quatro horas.

Sei lá !

Acha que eu sei porque é que isto acontece?

O que eu sei é que a corrida de hoje foi do diabo.

Depois de ter corrido, pela primeira vez, que vinte e quatro quilómetros, com enorme sacrifício, tudo fiz para recuperar bem.

Mas, o desconforto nas pernas não me largava, até hoje.

Hoje, quando saí para correr eu não tinha pernas, tinha duas bigornas, uma de cada lado.

Cumpri o calendário de preparação mas falhei o objectivo do treino.

Uma hora e um quarto em ritmo progressivo.

Em teoria, uns doze quilómetros, na prática, quase onze.

Foi uma corrida tão pesada quanto o calor que senti.

Não consegui correr progressivamente, a trinta dias da maratona.

Senti-me frustrado, desanimado, stressado, cansado.

Foi, provavelmente, a corrida mais lenta que fiz, desde Janeiro deste ano.

Inquieto, com o pensamento a puxar-me para baixo, terminei o treino onde tinha começado, junto da família.

Logo hoje que fomos fazer um piquenique, logo hoje, não podia estragar-lhes(me) o dia.

E não estraguei.

O meu amigo de toda uma vida, padrinho da minha filha, encarregou-se de iniciar a minha recuperação;

Crioterapia “à la carte”.

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Não havia como ficar desanimado.

Depois lembrei-me da conversa que tive com o Ricardo Areias.

O Ricardo é uma daquelas pessoas ( como todos os que correm a sério ) a quem o país dá valor zero.

Sentido o que eu sinto, de bom e de menos bom, com a corrida, na corrida, a corrida dá-me o privilégio de trocar mensagens e pedir conselhos a atletas “profissionais” (?), mesmo sem nos conhecermos pessoalmente.

A corrida não tem nada a ver com o distante mundo do futebol.

Não que os corredores não trabalhem. Trabalham é muito mais do que se possa imaginar.

Eu imagino.

Aquilo que se sente, sofre, para atingir os objectivos, e os deles são totalmente diferentes dos meus.

O Ricardo é daqueles que correm a maratona em menos de três horas.

Pois bem, lembrei-me da nossa conversa de ontem, no chat do Facebook ( porque ainda não nos conhecemos pessoalmente, será em…Berlim).

E lembrei-me da troca de mensagens com o Francisco, durante a (não) corrida de hoje.

O Francisco, depois de um treino de quarenta quilómetros e outro de dez parou dois dias.

O Ricardo também parou, e também me garantiu que o desconforto não poupa ninguém, mas que será fundamental para “lá chegar”, à meta.

Lembrei-me deles e do que me disseram.

O Ricardo Areias é, se quiser, um dos maiores, se não o maior responsável pela concretização desta aventura demolidora.

Foi ele que, após apelo meu nas redes sociais, me colocou em contacto com a “Maratonas do Mundo”.

Assim conseguimos as nossas inscrições totalmente fora de horas e quando já não acreditávamos.

O Ricardo envia-me mensagens, às vezes.

Como se não fosse bastante enviou-me há dias uma foto com uma mensagem de incentivo, de apoio, de coragem.

Nessa foto estavam as medalhas que o Ricardo já conquistou em Berlim, na maratona.

Ainda a guardo.

Pensei em tudo isso, em tudo o que me disseram e, depois de ter rogado pragas ao meu adorado treinador - sabe tanto disto - durante a corrida, devido ao meu sofrimento, cheguei à conclusão que bate tudo certo.

Quando cheguei a casa tomei banho, tratei dos cuidados habituais, creme no corpo, desodorizante roll-on, cera no cabelo, dentes lavados e pimba, “vou escrever”, pensei.

É quando me dou conta que as minhas pernas, como que do nada, deixaram fugir todo o calor, todo o peso, todo o desconforto que tinham e que tanto me fizeram odiar aquilo que estava a fazer. A sério.

O meu treinador sabe tanto disto.

Os meus amigos sabem tanto disto.

Foi isto, esta corrida diabólica, debaixo de um intenso sol ribatejano, que tratou de recuperar os músculos das pernas.

Do nada, ou não tanto, talvez porque é assim mesmo.

Agora é gerir até domingo, dia de longão.

Ok, eu até admito não ser bipolar e ter usado a palavra para tentar agarrá-lo(a) ao texto, mas as minhas pernas são.

Seja como for, ainda há bocado estava deprimido e agora estou feliz.

Elas estavam mortas e acabaram de renascer.

Cheira-me que vou acabar esta semana em altas.

Soubesse a malta o apoio que me transmitem!

Não tira as dores, mas fá-las desaparecer.

Juro!

Ou não.

Ou então, são os deuses que estão loucos.

E eu também!

 

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