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Só passaram três semanas desde que corri a minha primeira maratona, em Berlim.

Parece que passaram três anos.

A distância permite-me, agora, um olhar mais frio, menos emotivo, mais assertivo sobre o que ali aconteceu.

O que ali aconteceu, o que ali me aconteceu, foi qualquer coisa de marcante, profundamente transcendental.

Marcas que ficam na pele, nos músculos, na alma e no coração.

Já não há lágrimas à mistura, o que é bom. Faz-nos ver as coisas como realmente elas são.

Quando entrei no quilómetro doze ia bem, ia a correr solto, leve, como há muito não me acontecia.

Ia, sei-o agora, a esta distância, a cumprir aquilo que o José Carlos Santos, o meu treinador, o verdadeiro mentor desta epopeia me tinha indicado.

Perante tudo aquilo que me envolvia era nele que eu pensava, no que ele me tinha dito, no acreditar, no que ele acreditava em mim. Obriguei-me a correr dentro das balizas que ele tinha traçado, afinal, foi ele e só ele quem me preparou para aquela que seria a aventura maior, a maior de todas.

No final, já a caminho do apartamento, com as pernas desfeitas, que eu não estou habituado a estas coisas, o meu treinador ligou-me:

“Então, atleta, és um finisher, és um maratonista, como correu?”.

Não foi o primeiro telefonema que recebi depois de concluir a maratona.

Já antes o meu irmão me tinha ligado, já antes tinha chorado como uma criança, ao telefone com o meu filho: “pai, tenho tanto orgulho em ti, amo-te muito”.

"E eu a ti, filho".

Ninguém resiste, muito menos eu.

“Sim, coach, sou um finisher, mas não correu bem”, respondi-lhe, ao meu treinador, aquele que me acompanhou todos os dias, literalmente, durante nove intensos e brutalmente desgastantes meses.

Aquele que é o verdadeiro responsável por eu ter conquistado a coisa mais absurda da minha existência, a maior superação física a quem alguma vez me sujeitei.

“Como não correu bem?”, espantou-se.

“Por um lado correu bem, cheguei ao fim, mas isso eu iria chegar sempre, nem que chegasse sem pernas, eu sou do Ribatejo, coach, só que demorei cinco horas e onze, em vez das quatro e meia que tinhamos combinado”, respondi-lhe.

Senti a indignação no tom.

“És louco? Não quero ouvir isso de novo. Lembra-te que chegaste ao pé de mim, cheio de dores, sem conseguir correr dois quilómetros de seguida. Chegaste e disseste-me, eu quero correr uma maratona. Nove meses depois cortaste a meta, nunca mais voltes a dizer uma coisa dessas”.

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Agora, três semana depois, as lágrimas já ficaram secas mas, naquele momento, enquanto caminhava, sozinho, pelas ruas de Berlim, em direcção a casa, silenciei-me por breves segundos.

“Estás aí, atleta?”.

“Estou, desculpa…”.

“Não digas mais isso, tu és um campeão, eu ando nisto há anos suficientes para te dizer que muitos poucos conseguiriam fazer o que tu fizeste, no estado em que te encontravas,  a superação que tu conseguiste, aí em Berlim, isso é digno só dos gajos sérios e fortes.

Agora, vai curtir e desfruta disso tudo, porque é único aquilo que estas a viver”.

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Há momentos, na vida, em que por muito perdidos que no sintamos basta uma palavra, desde que seja honesta e sincera, para que nos reencontremos.

E, naquela altura, naquela altura como eu me sentia perdido, sozinho, no meio da rua.

Queria agradecer-lhe com um abraço.

Três semanas depois, continuo a falhar, ainda não estive com ele para lhe mostrar a minha medalha.

Devo-lhe esse abraço.

O José Carlos Santos fez o favor de me acompanhar durante nove meses, mas ele tem mais que fazer.

Para além de ser o seleccionador nacional de Trail, ele é vice-presidente da Federação Internacional de Trail e dirigente da Federação Portuguesa.

Ele, sim, é uma máquina.

É, portanto, um tipo que podia estar perfeitamente a cagar-se para mim.

Mas, não, assumiu o compromisso de me fazer começar e acabar uma maratona e levou-o até ao fim, até aquele telefonema, até ao abraço de gratidão que ainda lhe devo.

Dali não vem mentira, nem aproveitamento, nem falsidade.

Provo o que digo, dias antes, cometo a inconfidência, tinha-me enviado este email, ainda eu não tinha partido para Berlim:

 

“ Amigo, tenho orgulho em ti desde o dia em que nos conhecemos e iniciamos o trabalho juntos. 

Alguém que não conseguia correr 2km seguidos propunha-se correr uma maratona....é de Homem!

Com a tua dedicação e resiliência já alcançaste objectivos inimagináveis, e o grande dia está ali tão próximo...

Lembrar-me de como falavas da meta que julgavas impossível dos 6m/km, e ver o que fazes hoje, é algo que me enche de orgulho.

Falta só mais um pouco....

Grande abraço”

 

Entre o quilómetro dez e o quilómetro quinze, ainda ia eu fresquinho da silva, foi nele e nos seus ensinamentos que pensei, consecutivamente.

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No pace, na passada, na respiração, no tempo. Ia a cumprir e sentia-me orgulhoso, por ele, por mim. O pior veio depois, lá mais para a frente, que ainda há quase trinta quilómetros para escrever.

Se pensava que as histórias começavam a fraquejar, como as minhas pernas, que a escrita começava a morrer, como os meus músculos, está muito bem enganado(a).

Eu entendo, não me conhece.

Pouca gente me conhece, verdadeiramente.

Parece que me dou a conhecer a toda a gente, por causa do meu sorriso fácil, do meu trato simples, mas não, desengane-se, por incrível que possa parecer, quase ninguém me conhece, só que eu quero que me conheça.

O resto, o resto são sorrisos ocasionais.

Só me conhece quem eu quero, a quem eu me entrego.

Só me conhece quem me trata por Zé Gabriel, como ele me trata, que para os outros sou tudo, menos isso, porque não tem que ser.

Ao José Carlos Santos devo gratidão eterna. Ele, ele eu sabemos o que eu sofri para aqui chegar.

Não foi fisicamente.

A minha prova de superação não era física, isso foi só uma consequência.

A minha prova de superação foi para além do resto que é imaginável, para além do sofrimento.

Sofri muito mais mentalmente que fisicamente, durante nove meses, o tempo que uma criança leva a nascer.

Sou feliz e sou-o todos os dias, quando olho para a minha medalha. É minha. E dele.

Tem noites que durmo com ela à cabeceira.

Como que a suplicar para que não me fuja, porque ainda a tenho que mostrar ao José Carlos.

Sei que ele vai gostar de a conhecer.

Sei que aquilo que nos une, desde o momento em que cortei aquela meta, é uma coisa tão forte que, até eu, homem das palavras, não consigo aqui deixar escrito, de tão profundo que é. Intenso.

Não dá para lhe explicar.

Há coisas que não se explicam.

Há coisas que não têm que ter explicação.

Só quem me trata por Zé Gabriel, esse minúsculo universo, que me trata assim, só ele sabe os quês e os porquês.

Foi assim que eu sonhei, foi assim que eu quis.

O resto é mundo, lá fora.

Entrámos no quilómetro treze.

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Em primeiro lugar, falemos de slogans.

Aquele slogan "se conduzir não beba" é correcto, não bate certo ir agarrado ao volante com a cabeça "cheia", está provado.

Por isso, neste caso, porque falamos da maratona, inventemos alguns slogans, cá vai o primeiro: "se correr beba, desde que esteja fresca".

O segundo slogan inventado virá lá mais à frente, antes disso, um pouco de história, cultivemo-nos.

A primeira maratona de Berlim aconteceu quatro meses, quase cinco, depois do 25 de Abril de 1974.

A Liberdade, em todo o seu esplendor.

Foi uma corrida com pouca gente, eram uns duzentos corredores, por aí, não mais do que isso.

Foi o SCC, o Clube de Corredores de Berlim que organizou a primeira maratona, e todas as outras, desde esse dia.

A sigla SCC ainda hoje se mantém na medalha que é colocada ao pescoço dos finishers.

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Só muitos anos depois apareceu o slogan “No Pain No Gain“ (sem dor não há vitória).

Antes disso Os Corredores de Berlim usavam uma outra expressão - para não estar sempre a repetir slogan, ups, repeti -  que, ela sim, determinava quem podia participar na prova: “No Training No Marathon” (sem treino não há maratona).

Se não treinou, não pode correr a maratona.

Eu treinei e vi-me grego (em homenagem à primeira de todas as maratonas, na Grécia Antiga) para chegar ao fim.

É engraçado que escrevo este texto num dia importante para muitos portugueses, o dia da República, e é engraçado porque a maratona de Berlim, em 1990, correu-se três dias antes da reunificação das duas Alemanhas.

 

Há aqui um certo paralelismo.

Foi, por assim dizer, um acto de celebração, pelas ruas da bela Berlim.

Claro que houve cerveja a rodos. Há sempre, percebi eu, quando lá estive.

A cerveja é um dos motivos de orgulho para o povo alemão.

No final da maratona há voluntários que distribuem cerveja sem álcool.

A cerveja oficial é a Erdinger, uma das marcas mais famosas, na Alemanha.

Também ela tem um slogan (mais um), que isto nas corridas há slogans para todos os gostos, com ou sem álcool: “100 porcento de desempenho, 100 por cento de recuperação”.

Acrescento eu (mais um) novo slogan - eu avisei no ínicio do texto que ia inventar uns dois slogans: “sofres a correr celebra a beber”.

Foi exactamente isso que fizemos, no final, um brinde ao nosso feito histórico, um brinde a nós, um brinde aos nossos.

O problema foi só um, a cerveja estava quente - houve quem a bebesse toda - e eu e o Stephane só bebemos um trago, para concluir o brinde, mas bebemos e brindámos.

Celebrámos, como diz o slogan que acabei de inventar neste texto.

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Mas, porque é que a cerveja, mesmo sem álcool - e com álcool, já lá iremos beber uma…- é parte integrante de uma maratona, desta, a e Berlim?

Fácil.

Para além de ser orgulho nacional, a cerveja alemã está subordinada a uma lei com mais de meio século ( mais de 500 anos) que assegura a pureza da cerveja.

As cervejeiras só podem fabricar cerveja pura, feita com cevada, lúpulo, água e ponto final.

É um elemento integrante da cultura.

Por isso, ao longo dos 42 quilómetros o(a) caro(a) leitor(a) não imagina a quantidade de vezes, foram mesmo muitas, que eu pensei em parar, sentar-me numa qualquer esplanada e pedir uma fresquinha.

Um dos meus companheiros de aventura não se sentou, mas à passagem por uma fila de mesas (eu nem dei conta disso) carregadas de cerveja, parou e enfiou uma de seguida, ou quase, como regista a foto, porque festa é festa.

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Eu sei lá, a mim deu-me vontade de tudo, deu-me vontade de me deitar nas macas, ao longo do trajecto, e juntar-me às dezenas de pessoas que estavam a levar massagens, em tempo real (rir), apeteceu-me entrar nas casas e atirar-me pra cima dos sofás dos berlinenses que nos apoiavam junto às suas portas, apeteceu-me sentar na beira do passeio e ficar ali, junto dos outros, a ver os outros a passar e, apeteceu-me, juro, apeteceu-me entrar nos restaurantes e bares, abertos aquela hora da manhã, para que nada faltasse a ninguém, e pedir uma salsicha e uma cerveja à pressão.

Admito, vim de Berlim e não comi uma salsicha, mas isso será tema em outro quilómetro.

Quando passámos pelas tais mesas cheias de cerveja os meus companheiros ainda disseram: “bebe uma”, mas eu ia tão “desaustinado” que nem os ouvi, hoje invade-me um sentimento de puro arrependimento ( rir, de novo), porque tenho a certeza que me teria sabido tão, mas tão bem…

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Bebi no final, só para o brinde.

Na verdade, não sou muito dado a álcool, bebo só quando tem que ser, mas uma fresquinha eu gosto, e com álcool, que cerveja sem álcool só nas maratonas.

Ao jantar pedi duas, das grandes, deve ter bebido uns quase dois litros, a acompanhar aquele bife estrondoso e caro.

Vinguei-me daquele momento em que o stress, o cansaço, a ideia fixa de chegar ao fim me impediu de ser racional e de deitar abaixo aquela fresquinha que acho agora distância teria feito de mim um maratonista ainda mais feliz.

Convém apenas acrescentar que os vencedores da primeira Maratona de Berlim, em 1974 foram

Günter Hallas, com 2h.44min.53 e Jutta von Haase, com 3h.22min.01.

Desde então, os dois, correram todas as edições desta "Major" maratona.

Os dois voltaram a correr naquele domingo, 16 de Setembro de 2018, que eu vi.

Tenho a certeza que correram todas estas maratonas pelo seu amor à corrida, mas também tenho a certeza que no final brindaram sempre com uma fresquinha, como manda a tradição alemã.

Tenho a certeza absoluta.

Entrámos no quilómetro doze.

 

(Olhe só o senhor Hallas a cortar a meta…antes de mim)

 

 

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E quando uma conhecida lhe oferece uma bandeira isso é…

Já lá vamos a essa parte.

Primeiro o enquadramento.

A Carla Fernandes gosta muito pouco da exposição, ao contrário da maioria dos seres humanos, que a procuram incessantemente. Isso faz dela uma amiga muito especial, mas não apenas isso.

Ela gosta de ser discreta, de passar entre os intervalos da chuva, só que desta vez não tem hipótese.

Conheci a Carla há uns bons quatro ou cinco anos, nas corridas.

A empatia que a Carla cria traduz-se, não raras vezes, em amizade.

A Carla tem uma colecção de ténis impressionante, mais, a marca preferida dela é a mesma que a minha, ainda por cima gostamos de ténis coloridos (na minha terra diz-se ténis).

Eu conheci a Carla nas corridas, mas não a conheci por causa das corridas.

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Foi em Bruxelas que tudo começou, por causa de um livro que eu escrevi.

Um belo dia fui a Bruxelas apresentar esse livro à Comissão Europeia.

Foi lá que conheci o Jorge, Fernandes, de apelido.

Era o responsável pela delegação dos Super Dragões de Bruxelas, casa onde passámos, eu o Eduardo Vieitas e um outro senhor “do qual não se deve pronunciar o nome” três fantásticos dias, entre bifanas, minis e jogos de matraquilhos.

Já eu andava nas corridas há um bom par de anos, quando o Jorge, um dia, me mandou uma mensagem:

“Tens que conhecer a minha irmã, ela também vai sempre a essas meias maratonas onde tu vais, já lhe disse para ir ter contigo quando te vir”.

Dito e feito. Não me recordo em que corrida foi, apenas sei que foi numa manhã de domingo que alguém se aproximou de mim e me disse, “olá, eu sou a Carla, a irmã do Jorge”.

Eu sou gajo de sorriso fácil e abraços soltos.

Desde então, a Carla cruzava-se sempre comigo quando eu ia a essas meias maratonas, em cidades património mundial.

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Ela gosta de fazer o bem, gosta de fazer voluntariado, ainda por cima, soube em Berlim, foi campeã nacional de atletismo.

Só em Berlim, mea culpa, associei a minha amiga ao nome, ao tempo e ao feito hirtórico.

A sua humildade é de tal forma incrível que nunca me o tinha dito.

Que ela percebia muito de atletismo isso saltava à vista, mas nunca a tinha associado a essa imagem de topo, o que ainda a aconchegou mais no meu coração e me fez ter ainda muito mais respeito e carinho por ela.

Mas, não foi apenas isso...Há mais.

A Carla tem uma mania, ela costuma ir buscar-me-nos a duzentos metros da meta, puxa por nós, ao nosso lado, e depois deixa-nos cortar a linha sozinhos. Afasta-se, no momento final.

Vai buscar-me-nos, apesar de tudo, sempre.

Mal sabe ela o bem que sabe.

Mas, o coração dela é grande demais, é muito maior, ainda.

Quando os meus companheiros de aventura souberam que eu ia correr a minha primeira maratona em Berlim, sozinho, ofereceram-se para me acompanhar, isso já é público, o que não se sabe é que a Carla, mal soube que o Francisco e a Alice iam fazer-me companhia e ajudar-me a ser maratonista, também ela decidiu ir, também ela foi a Berlim.

Tinha acabado de percorrer toda a Europa, com a filha, em férias, tinha acabado de chegar a Portugal, quando voltou a apanhar um avião e rumou a Berlim.

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Foi ela que teve a ideia das bandeiras.

“Vou com vocês e vou levar três bandeiras, para vos dar antes de chegarem a meta”.

Eu, de imediato, acreditei nela, mulher do norte cumpre a palavra, amiga minha, de coração, nunca me engana, a não ser às vezes, em relação aos autocarros, como o vídeo demonstra.

 

A atitude da Carla foi qualquer coisa de marcante mas, sobretudo, um acto de coragem impar.

Eu explico;

A Maratona  de Berlim faz parte do circuito WMM (World Marathon Majors), é por assim dizer a elite das elites, uma prova extremamente organizada, onde tudo é cuidado ao detalhe.

Pois bem, a Carla, levada por esse sentimento ao alcance de poucos, quando verdadeiro, que é a amizade, e porque é uma mulher corajosa, bondosa, incrível, decidiu esperar por nós entre o quilómetro 41 e o 42, um pouco antes do local onde estava a nossa família e amigos (que já tinham terminado a corrida).

Ela pensa tanto nos outros, antes de pensar nela que, muitas das imagens e alguns dos vídeos que têm visto por aqui (e as que ilustram este texto) são da sua autoria.

Do nada, a Carla saltou as baias, entregou-nos as bandeiras de Portugal, eram três, uma para cada um, ligou o telemóvel, começou a filmar o último quilómetro, sempre ao nosso lado.

Foi sem calções, com calças de ganga, mas com a camisola dos “Rainbow Runners”, feita especialmente para a maratona de Berlim que ela correu, connosco, o último quilómetro.

Foi, para além de uma maravilhosa amiga, a nossa repórter dos metros finais.

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Carla, aquilo que aconteceu em Berlim é por assim dizer uma página que o destino nunca conseguirá rasgar.

Ainda hoje, já refeito de todas as emoções, e com o distanciamento devido, consigo viver aquele último quilómetro, como se ainda lá estivesse, no limite de mim mesmo.

Ainda hoje consigo ouvir a tua voz, quando dei aquele abraço à carla, a minha Carla: "continuem, continuem, a meta é lá à frente, vamos, ainda falta!".

A Carla, como sempre fez, foi-nos buscar antes do final, para puxar por nós e, como sempre fez, ao cortar a meta colocou-se de lado, porque ela entende que aquele momento é nosso, de cada um de nós.

Teve sorte, porque eu já não ia no meu perfeito estado mental, porque se fosse, desta vez ela não escapava, cortava a meta de mãos dadas comigo, porque aquele momento também foi todo dela.

Foi, digo-o hoje, à distância, como se tivesse cortado aquela meta, comigo, de mão dada.

A Carla, que conheci nas corridas, por causa da minha viagem a Bruxelas, e das bifanas e das minis, mais os jogos de matraquilhos, foi a grande campeã desta maratona inesquecível.

Não está ao alcance de muitos aquilo que ela fez.

Não está ao alcance de quase ninguém.

Depois de me colocarem a medalha ao pescoço, que linda que é, ainda hoje dou por mim a admirá-la, depois desse momento incrível, olhei para ela, para a medalha e chorei.

Só voltei a sorrir quando levantei a cabeça e vi a Carla, a olhar fixamente para mim, com aquele olhar cor de castanha doce.

Admirei a medalha, a dela.

Sim, depois de tudo isto ela tinha que ter uma medalha.

E teve-a.

A medalha da Maratona de Berlim, a mais inesquecível de todas as corridas.

Entrámos no quilómetro onze.

 

 

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 Uma vez vi Angela Merkel toda nua, a correr, com umas amigas.

Juro, confesso, vi-a numa fotografia e nunca mais aquela imagem horrível me saiu da cabeça.

Não tem nada de machista, esta minha observação, ela é resumida e estritamente estética.

Angela Merkel não fazia a depilação, via-se bem, ao longe.

Desde esse dia que comecei a detestar a senhora, cada vez a detesto mais, admito.

A minha filha conseguiu apertar-lhe o pescoço.

Eu, como sou um homem de sorte, não me cruzei com ela, em Berlim.

A minha filha, sim, mas também ela é uma miúda com sorte, e a Chanceler não se mexia, não ouvia, não falava, nem sequer respirava, graças a deus, se ele existir.

Era de cera, a senhora.

Dizem que a verdadeira é quem governa a União Europeia, não tenho dúvidas, ela tem mais calças que muitos homens.

Espero que, nos dias que correm, ela já faça a depilação, afinal já estamos no tempo da Guerra Fria e ela já não vive na Alemanha de Leste. Outros tempos, pois.

Mais uma razão para eu a detestar, a sério, não consigo, é mais forte do que eu.

Lembro-me sempre daqueles sovacos horrorosos e não só, via-se tudo, procure no Google e verá que eu não minto mas aviso já, achtung baby, que aquilo é hardcore.

Angela Merkel é, para mim, o protótipo dos alemães antipáticos, autoritários, dos alemães que ainda têm alguns genes de outros tempos mais "socialistas".

Na sexta feira, antes da maratona, eu, a Alice, a Adriana, a Carla e a Maria fomos matar o tempo, dando voltas pela cidade, horas e horas, deslumbrados com tudo, com a história, com as bicicletas, com os edifícios, com a atmosfera.

Eu já tinha estado em Berlim duas vezes, mas nunca tinha estado ao pé do parlamento, o Reichstag.

Só a meia palavra “Reich” tira-me logo do sério. Acho que aquilo não devia ter nada a ver com a maratona.

Acontece que a entrada para os blocos de partida era ali e, no final, era ali que as famílias e os amigos se encontraram, para abraçar os seus corredores preferidos.

E, como os abraços fazem toda a diferença, muito mais depois do sofrimento e do prazer que é correr durante tantas horas.

Há abraços que comovem, mesmo que dados, apertados, em frente ao símbolo da arrogância imponente.

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Vinguei-me, “mijei” mesmo em frente ao Reichstag e ninguém me levou preso.

Vinguei-me, abracei quem amo e ningém me aumentou os impostos, nem me despediu.

Vinguei-me, fui feliz, ali mesmo, e chorei, muito, por estar feliz.

Eu detesto Angela Merkel, irei detestá-la para sempre,  porque ela é o rosto da destruição impune.

Foi ela, foi através dela e daquele ministro das finanças com ar de nazi - que entretanto desapareceu de cena, arrumado num cargo milionário, como todos os burocratas sem coração - que eu vi a destruição de famílias, de vidas, de empresas, de sonhos, no meu país.

Foi por culpa de toda aquela imponência fascista que vi filhos, irmãos, netos emigrarem, famílias divididas, como nos tempos do Muro.

Não aprenderam a lição.

Por isso, quando passei por aquele imponente edifício - mantido à nossa custa -  e mais à frente, pelo Banco Central Alemão, recheado de carros de alta cilindrada com motoristas à porta, não me contive, meio a sério, meio a brincar;

protestei, qual esquerdista a lutar pela democracia (porque os tipos de esquerda têm a mania que só eles é que sabe o que é a democracia, também têm a memória curta, como a Angela e o ministro com ar de nazi).

Perante os olhares espantados da Alice, da Carla e da Maria, com a minha reacção, ali mesmo, às portas do poder, logo me apressei a sublinhar, no mesmo tom de voz, que “não sou comunista”, e não sou.

Não consigo ser partidário. Ponto.

Voltando à maratona, que o texto, embora não pareça é sobre a maratona, tive que gramar com o Reichstag, que por sinal é de uma beleza brutal.

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Para mim, os alemães eram (o tempo verbal foi escolhido de propósito) um povo antipático, sobretudo, por causa da Chanceler.

A única alemã que eu gostava (voltei a usar o passado de propósito, embora continue a gostar dela, no presente, e no futuro) é a minha grande amiga Petra Sauer.

Se tivesse uma irmã mais velha era a ela que escolhia.

Uma alemã com mais humor que qualquer latino, com um coração maior que qualquer onda do Guincho, com tanto talento que até trabalha bem longe da Alemanha, aqui mesmo, em Portugal, e faz o favor de me aturar sempre que preciso de um ombro amigo.

Adoro a Petra e ela sabe.

É de mim, não conseguia (tempo verbal sempre no passado) simpatizar com os alemães, excepção feita à minha querida Petra, até porque, aquela tipa de cabelo pintado de encarnado e azul, que servia ao balcão do

Starbuck´s conseguia ser bem pior que a Chanceler.

Também nos vigámos dela.

Tratou-nos, ao pequeno almoço, com uma arrogância e desprezo tais que aprecia uma doutora, atrás de um balcão, onde servia, mal, clientes que apenas queriam tomar o pequeno-almoço.

Tudo porque alguém, dos nossos, não entendeu a sua pergunta;

“ É para levar lá para fora?”, perguntou ela, com uma voz estridente, num inglês tão, mas tão mau, que até eu falava melhor.

Teve o que merecia, viemos cá para fora, deixámos os pedidos pendentes, deixámo-la pendurada, como só os portugueses sabem fazer.

Ficou a falar sozinha.

Cá fora, o sol sorria para nós, era o bastante.

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Restava-nos Berlim, a cidade.

Ela não tem nada a ver com a tipa de cabelo pintado com cores berrantes e absurdas, nem com Angela Merkel, apesar de ambas lá viverem. Não há cidades perfeitas.

Berlim é quase eprfeita, ela é muito mais bela, acolhedora, adorável, que estas duas aventesmas.

Berlim é tão mais do que elas que, quando me vim embora, no último dia, vim com uma ideia completamente diferente em relação à ideia com que lá cheguei.

 

Afinal, os alemães, não sendo como a minha Petra, porque ela é excepcional, são pessoas adoráveis, praticamente todos, menos aquelas duas.

Durante a maratona havia muitos estrangeiros nas ruas, mas havia muitos alemães também.

Todos eles, sem qualquer excepção, com palavras de conforto para quem ali ia a correr a corrida das suas vidas, palavras, bebidas, comida, simples toques de mão-com-mão.

Estavam ali para nos apoiar, mas também para promover a sua própria cidade, com a simplicidade dos bons.

Coisas de seres humanos, sem raça, sem idade, sem crenças, apenas humanos, seres.

Berlim obrigou-me a mudar a percepção que eu tinha sobre os alemães, essa raça com mania das superioridades, como eu achava.

Afinal, Berlim e as pessoas de lá são encantadoras e é o mínimo que posso dizer delas.

Fui-me apercebendo disso ao longo dos quarenta e dois quilómetros, cento e noventa e cinco sofridos metros.

Mas, foi no fim da maratona, já mais para lá do que para cá, já com um andar novo que eu deixei de ter qualquer dúvida.

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Este rapaz, que está nestas fotos comigo tem um nome.

Eu estava tão em transe que não lhe perguntei, sequer, mas hei-de descobrir, juro que sim. Não o conhecia, tão pouco. Não o reconheci, mesmo quando erguemos a bandeira de Portugal, os dois.

Foi preciso os meus companheiros de estrada avivarem-me a memória, no momento em que ele pediu para tirar as fotos.

“Não te lembras dele?”

“Não, quem é?”.

Eu não me lembrava, mas ele foi mais um protagonista nesta história brutal que eu vivi em Berlim.

A determinada altura da maratona, não sei se ao quilómetro 30 ou 30 e tal, a minha cabeça só tinha uma imagem, tal era o meu sofrimento, a minha mulher.

Eu sabia que a Carla estava entre o quilómetro 41 e 42, mas naquela altura procurava-a, inconscientemente, por todo o lado.

“Queria tanto dar-lhe um abraço, agora, precisava tanto”, disse à Alice e ao Francisco. 

Acho que ia a alucinar, ia num dos vários momentos de alucinação que tive.

“Volta à estrada, concentra-te na corrida, foca-te, anda, volta”, gritou-me a querida Alice.                       

Nesse momento puxei a camisola, para esconder o rosto e comecei a chorar, convulsivamente, sem parar, sem nexo, sem controle.

Nessa altura, alguém chega por trás, acerca-se de mim, agarra-se a mim, aos meus ombros, com força e grita-me:

“Come on man, let’s finish this fucking shit, let´s go man”.

Eu não me lembro, mas sei que comecei a correr rápido, tão rápido que era impossível, naquele momento, numa altura em que as minhas pernas nem sequer recebiam as ordens do cérebro, de tão dormentes que estavam.

Corri durante uns trezentos ou quatrocentos metros, a uma velocidade que era, para mim, naquela altura, impraticável.

Não me lembrava de nada do que tinha acontecido.

“Depois de te abraçar, ele perguntou-nos”, contou-me a Alice e o Francisco, “se tu estavas bem e nós encolhemos os ombros, sorrimos e dissemos que achávamos que sim”. 

Quando eu, finalmente, passei a meta, em Berlim, quando eu me tornei num Finisher, num Marathoner, quando eu conquistei o meu objectivo, o meu Santo Graal, eu só queria perceber o que é que me ia acontecer a seguir, se ia desfalecer, se ia ter um ataque, ou se ia conseguir sobreviver até chegar à tenda onde estavam a oferecer cerveja alemã.

Ao contrário de outras corridas, não queria nem abraços nem fotografias. Mas, tirei várias, tive que tirar, não tinha como não as tirar, são marcas que ficam, para sempre, sorrisos imortalizados, no digital, até que um dia alguém as apague.

Uma, algumas dessas fotos, foram com esse rapaz de camisola preta, esse alemão fantástico, do qual eu não me lembrava sequer.

Esse rapaz com nome, um nome que eu hei-de descobrir, prometi-me.

Do abraço que me deu, lembro-me agora, ainda o sinto.

Ele lembrava-se de mim, ele preocupou-se comigo, ele empurrou-me, ele marcou-me, até hoje.

Era ele, contaram-me, no fim, os meus companheiros de aventura, era ele.

E, para sempre, guardei os alemães no meu coração.

Menos a Angela e a tipa do Starbuck´s.

Essas não!

Entrámos no quilómetro dez.

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 Naquela manhã de Setembro, mal despertei, a primeira coisa que fiz foi abeirar-me da janela e

espreitar o dia lá fora.

Também ele estava ainda a despertar, comigo.

Ao aproximar-me de uma das janelas do quarto olhei o Memorial dos judeus mortos, lá em baixo, à direita, e um pouco mais afastada, ainda mais à direita, a embaixada dos Estados Unidos, também ela um símbolo daquela resistência toda.

Hoje, o símbolo de coisa nenhuma, porque há um americano que quer construir um muro, o mesmo muro que separa, divide, afasta. Um americano burro que, curiosamente, deu de caras comigo durante a corrida, no fim deste texto.

Estava a poucas horas e começar a correr pelas ruas de Berlim.

A minha memória estava a ser assaltada por uma perturbadora imagem, o “Muro”.

O muro de Berlim, da vergonha, e o muro do idiota, sem vergonha.

O muro que divide, separa, destrói, afasta.

Quando decidi correr a minha primeira maratona, um desígnio solitário, escolhi Berlim por vários motivos;

Porque é uma cidade onde me sinto bem, porque é uma cidade brutalmente marcada e carregada de e pela história recente deste mundo surreal, porque queria que a minha filha caminhasse por aquelas ruas, olhasse os pedaços de “muro” e viesse de lá com a consciência toldada.

E, veio, felizmente. Ela e eu. Venho de lá sempre assim, sempre que lá vou.

Em Berlim, quem quiser, quem tiver a humildade que compete a cada ser humano ter, aprende uma enorme lição de vida, porque não tem como fugir dela.

Por isso escolhi Berlim e não qualquer outra cidade.

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Junto à minha janela, contemplava o sol que nascia e ao mesmo tempo fitava aqueles dois mil e tal blocos de betão, quando essa perturbadora imagem me assaltou. Senti-me envergonhado pela humanidade, por mim, pelo que o “homem” tem de pior.

A minha corrida, daí a algumas horas, ia ser um caminho longo, cheio de considerações, provações, lutas, sobretudo, interiores, homenagens, em vida, em morte, tanta coisa, essa ia ser a minha corrida, foi por isso que escolhi Berlim, foi por isso que tomei a minha decisão.

Ao olhar pela janela do quarto lembrei-me do que ali tinha acontecido, há não tanto tempo quanto isso. Parece que foi ontem.

Foi há vinte e nove anos, foi ontem, continua a ser todos os dias, porque as marcas continuam lá, aqui e ali, pedaços do muro, erguidos esteticamente.

Marcas do muro, espalhadas pelo chão da cidade, o mesmo chão que dai a horas eu ia pisar, naquele que era a mais importante desafio físico e mental da minha existência.

Mas, o que era isso, comparado com os desafios que ali enfrentaram todos aqueles que, numa madrugada, em Agosto, cinquenta e sete anos antes daquele dia, foram abruptamente separados dos seus, por um muro que nos envergonha a todos, que envergonha a humanidade.

Fui assaltado por muitas imagens, por muitas ideias, por muitos, ruídos, imaginários, que tentavam cortar o silêncio que ainda envolvia o quarto, a casa, tudo o resto, naqueles instantes, enquanto olhava pela minha janela.

Quando, na véspera, fui à “feira” levantar o dorsal e colocar a pulseira oficial da maratona no pulso fiz questão de colocar a minha assinatura no muro.

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Era um outro muro, mas a assinatura era minha e eu sei porque é que lá deixei a minha marca;

Berlim marcou-me e eu quis marcar Berlim.

O Muro foi construído na madrugada de 13 de Agosto de 1961.

Nesse dia, quem estava do lado de cá, cá ficou, quem estava do lado de lá, lá ficou.

Pais, irmãos, avós, amigos, uma fronteira os separou durante vinte e oito longos anos.

Uma fronteira, na cidade.

Berlim de um lado, Berlim do outro.

É difícil imaginar, mesmo estando lá, mesmo olhando as marcas que nos agitam a consciência, o que é acordar de manhã e não voltar a ver os nossos filhos.

Para quem ama é impossível imaginar.

O Berliner Mauer circundava toda a cidade, onde dali a pouco eu ia correr.

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Correr, ali, assim, era algo de totalmente impensável há vinte e nove anos, precisamente, porque havia ali uma fronteira física, um muro, que separou uns dos outros, para lá do muro havia pistas onde cães ferozes corriam atrás de quem se atrevesse, alarmes que soavam ao mínimo movimento, homens armados, com ordens para atirar a matar quem ousasse sequer espreitar para o lado de lá.

Foi com essa ideia no pensamento que fui tomar o meu banho e vestir o meu equipamento, antes de tomar o pequeno almoço: há poucos anos era impossível eu fazer aquilo que iria fazer dali a pouco tempo, correr em Berlim, por toda a cidade, livre, seguro, feliz.

Houve quem pagasse com a própria vida, para que naquela manhã de Setembro, eu em mais 43 mil pessoas pudéssemos fazer uma das coisas que mais gostamos, correr.

Dias antes eu tinha estado a tomar café junto ao Check Point Charlie, que hoje em dia não é mais do que um ponto turístico, onde se factura dinheiro com fotografias.

Na altura da guerra fria, o Check Point Charlie era o único posto militar para a passagem das tropas aliadas de uma Alemanha para a outra.

Depois de tomar o café fui visitar uma exposição ao ar livre, onde se conta a história de dois soldados que tentaram saltar o muro. Um conseguiu fugir. O outro foi ferido.

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As tropas aliadas não tinham autorização para o ir buscar, as tropas orientais também não, e ele morreu, ali mesmo, horas depois de estar a agonizar, banhado no seu próprio sangue.

Senti um arrepio, quando olhei para o lado e vi a fotografia do momento em que, finalmente, os soldados aliados conseguiram retirar o corpo daquele local.

Estando ali - passámos lá perto durante a maratona - sentimos dentro de nós toda a verdade e toda a mentira do mundo dos homens.

 

Um longo filme passou-me em frente aos meus olhos, durante aqueles breves minutos, enquanto olhava pela janela do meu quarto.

Naquela manhã de domingo, enquanto corria a maratona, enquanto escutava as palmas e as palavras de incentivo de mais de um milhão de pessoas, dei por mim a olhar em redor, e sim, vi pedaços do muro, e sim, pisei as marcas no chão, com os mesmos pés que pisaram o bunker onde Hitler se matou, logo a seguir à porta do prédio, lá em baixo, por baixo da minha janela.

Em Berlim serei sempre um homem feliz, porque foi lá que corri a minha primeira e, provavelmente, única maratona, porque a história não se repete.

Felizmente.

Lembrei-me da minha filha, quando passei por aquele pedaço de muro, junto ao hotel onde antigamente existia uma rádio, que através dos seus reclamos em néon passava mensagens para as famílias do lado de lá do muro.

Um pedaço de muro violentado, todos os dias, nos nossos dias, por gente miserável, carteiristas que distraem os turistas com jogos ranhosos, para os roubarem, se seguida, gente cobarde que foge depois de escutar um grito de aviso, do outro lado da rua.

Vem aí a polícia.

Estávamos lá, nesse momento, passei por lá quando estava quase, quase, quase a chegar ao fim da maratona.

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 Relembrei a cena que vi nos dias anteriores, olhei o hotel, onde havia a antiga rádio, e segui passo-a-passo.

Tenho a certeza que a minha filha jamais esquecerá Berlim, foi por isso que a convidei para ir comigo, para juntos vivermos aqueles dias estonteantes.

Berlim fica tatuado na nossa alma.

Marcado em nós, tal e qual as marcas no chão, ao longo de toda a cidade, onde corri durante cinco horas e onze sofridos minutos.

Nada que se compare ao imenso sofrimento daquela gente separada por um muro.

O muro esteve sempre presente, até, mais à frente, nas minhas pernas, sempre presente, durante aqueles dias, na minha cabeça.

O muro.

Lembrei-me de Donald Trump e do muro que ele quer construir.

Lembrei-me de Donald Trump e de um cartaz que vi, a determinada altura da maratona, dizia assim:

“if an idiot can run a country, you can run a marathon”!

Entrámos no quilómetro nove.

 

 

 

 

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Já fiz aquilo que você, provavelmente, nunca irá fazer na vida, nesta, na outra já não sei!

Eu já corri com o Elvis Presley.

Ele é que não deu conta.

Nem eu quase dei.

“Olha, olha o Elvis”, alguém gritou.

Olhei-o de alto a baixo, mas fingi que não o vi, de propósito que houve alturas em que o que menos me interessava era gente mascarada.

Ele, o Elvis, ia ali na boa, enquanto eu, o Zé Gab ia ali a torcer-me todo, mentira minha, na altura em que passei pelo Elvis, ou ele por mim, eu ainda ia bem das pernas e da cabeça.

Só depois é que fiquei louco.

Uma das coisas que mais me stressa nas corridas são as bandas de música, por vários motivos;

Desde logo porque vou cansado e quero é paz e amor.

Depois, depois porque normalmente não se percebe nada do que estão a tocar.

Por fim, para não ser injusto, agradeço, contudo, a presença, afinal quem dá o que tem a mais não é obrigado.

A maratona de Berlim é uma World Marathon Major.

Só há seis - Berlim, Chicago, NYC, Boston ( a mãe das maratonas), Tóquio e Londres - e, diz vossa excelência; “o gajo estreou-se nas maratonas numa WMM, ainda por cima onde o outro pulverizou todos os recordes, e pior, ainda viu o Elvis, o gajo nasceu com o rabo virado para a lua".

Eu respondo, não nasci nada, é que a sorte não se encontra, a sorte procura-se.

Planeei tudo e tudo correu como eu planeei, a única coisa que eu não dominava neste processo era o facto do Eliud Kipchoge fazer cair o seu próprio recorde do mundo, ainda assim eu desconfiava que isso poderia acontecer.

Também não dominava, aqui sim fui apanhado na curva, a possibilidade de me cruzar com o Elvis Presley, confesso.

“Olha, olha o Elvis”, e era mesmo ele, em carne, osso e sapatilhas.

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Dizia eu, as bandas de música, a mim, acrescentam pouco, nas corridas, mas eu sou bicho do mato, não sou exemplo para ninguém, contudo (já usei esta palavra lá em cima, estou a perder faculdades) devo admitir que em Berlim a coisa foi diferente.

Hei-de dedicar um quilómetro só às bandas de música, porque destas eu gostei.

Havia de tudo, todos os géneros musicais, bem audíveis, bem visíveis. Gostei!

Acontece que, voltando ao tema, devo dizer que não foi só o Kipchoge que bateu o recorde na maratona de Berlim.

O espírito do Elvis Presley é omnipresente. Se calhar, muitos de nós, dos que correm, já se cruzaram com ele por esse mundo fora, a mim nunca tinha acontecido, em Berlim foi a primeira vez.

Vim a saber, já em Portugal, que o Elvis Presley não quis ficar atrás do Kipchoge e também ele fez história, tornou-se o Elvis mais rápido do mundo a completar uma maratona.

O que me deixa incrédulo é saber que ele foi vestido da cabeça aos pés, com óculos, cabeleira, apesar de a manhã estar fresca criando as condições perfeitas para correr, ainda assim, porra!

O Elvis “Nikki Johnstone” Presley quase apanhava o queniano.

Correu em duas horas, trinta e cinco minutos e vinte segundos.

É o Elvis mais rápido das maratonas ( eu sei, voltei a repetir-me, deve ser da idade), bateu o recorde de Ian Sharman, em Seattle, que durava há dezanove anos.

Isto que lhe conto está registado no Guiness.

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Havia toda uma exigência a cumprir, desde logo, correr vestido de branco, como o “King of Rock and Roll”, a peruca, simulando o cabelo original e as sapatilhas, embora não conste que o verdadeiro Elvis corresse, apesar da energia que emanava em palco.

Se leu o meu texto sobre as necessidades fisiológicas dos corredores, fique a saber que até o rei do rock fica apertado durante a corrida, disse ele no final:

“Julgava que a corrida ia ser mais fácil, mas aos vinte e um quilómetros tive que parar num WC para fazer xixi. Demorei dois minutos só para tirar e vestir o fato”.

Perante isto, porque demorei cinco horas e onze, acho que vou é dedicar-me à música.

“óh ápe bápe a lula óh ápe ben bum tutti fruti oh baluti” (ler assim mesmo).

Entrámos no quilómetro oito.

 

 

 

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Temos que ler as coisas com atenção, porque a velocidade a que recebemos e processamos a informação é estonteante.

Esta é a era da tecnologia e por isso o que esta no “de” (o remetente) chega ao “para”

(o destinatário) mais rápido do que o recorde do mundo do queniano, em Berlim.

Atenção, please.

Falsos gémeos, por exemplo, é diferente, completamente diferente, de gémeos falsos.

Penso que concorda comigo.

Mas, lendo a correr, porque este blog fala muito de corrida, pode parecer uma e a mesma coisa.

Tem tudo a ver com a nossa consciência, com a forma como interiorizamos a vida e as coisas.

Por exemplo, se segue o que eu escrevo sabe que, desde ha uns nove meses e picos, me queixei sempre dos meus gémeos, aquelas duas barrigas abaixo dos joelhos.

Os meus gémeos costumavam estar tão, mas tão grandes e inchados que conseguiam a proeza de serem maiores que a minha própria barriga ( não a perco totalmente porque as damas dizem que dá um certo charme, não que eu acredite nisso, apenas porque ainda não me mentalizei para a perder).

Quando cheguei a Berlim, naquela quinta feira, uma dor específica, na parte lateral do joelho, começou a intensificar-se, a prender-me a perna por ali abaixo.

Andei à voltas, quase a entrar em parafuso.

Antes de seguir viagem, o Guedes, o meu massagista, dizia-me que era uma espécie de bolsa, entre o osso e o músculo que estaria inflamada.

Deitei-me a fazer gelo, alongamentos, até, imagine, a manipular a zona com o dedo o que me provocava ainda mais dores.

Quanto aos gémeos, os verdadeiros, os meus, esses já nem contavam, afinal, estavam permanentemente doridos.

Juro, não houve um único dia, nesses nove meses, em que os meus gémeos e as minhas restantes pernas ficassem tranquilos(as), nem um.

Era um ciclo vicioso, treinava todos os dias, descansava apenas um dia, fui para Berlim todo lixado das pernas, com caixa/resistência bem, preparado, mesmo, mas lixado das pernas.

Em Berlim já estava, por assim dizer, habituado. Até já tinha ganho algum afecto às dores das pernas, mas aquela dor era nova e preocupante.

Ponha-se no meu lugar, anda nove meses a trabalhar para cumprir um dos sonhos de uma vida inteira, consegue passar todo esse tempo sem se lesionar, apenas com uma ou outra bolha nos pés, já que nas pernas é como lhe disse; faz parte, e chega a dois dias do grande dia e começa a sentir que não vai conseguir.

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É aqui que entra a Alice.

A Alice, na véspera da maratona, tal como eu, começa a queixar-se de uma dor na perna.

Com o passar das horas vamos trocando olhares e à pergunta se estava melhor respondia que sim. Mentira.

O olhar desmentia-a.

Eu e ela estávamos com uma dor na perna e estávamos pensativos e apreensivos porque no dia seguinte tínhamos uma maratona para correr.

A Alice tem dois gémeos, todos nós temos, a bem do rigor, mas a Alice nem tem dois, tem quatro gémeos.

Dois gémeos verdadeiros, como os meus e dois falsos gémeos, verdadeiros, os dela.

Dois gémeos, os verdadeiros, estão nas pernas, os dois falsos gémeos ( e verdadeiros, porque existem) estão no coração.

Eles receberam-na, no aeroporto, com braços abertos, como só os filhos sabem receber os pais e, como o amor faz parte das corridas, como faz da vida, a primeira coisa que lhe pediram, logo a seguir ao carinho intenso daquele momento, foi a medalha.

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Ai, a medalha, ainda hoje ando com a minha dentro do carro para a mostrar a quem me pede mas, sobretudo, para a ver quando quero.

Se ela me fascina, imagino ao Salvador e à Francisca.

O que sei é que, em Berlim, a coisa estava a dar para o torto.

O gelo atenuava-me a dor ( a Alice não fez gelo, nem tomou nada) que voltava pouco depois.

Os anti-inflamatórios também a escondiam, a dor, mas não a levavam.

Começava a mentalizar-me para uma tarefa praticamente impossível; correr a minha primeira maratona com uma dor permanente que me ia impedir de chegar ao fim.

Estava mentalizado, apesar de os meus companheiros de aventura, e de todos os que estavam comigo me dizerem que aquilo não era nada.

Era, eu sentia.

No sábado, véspera da corrida, fomos à Expo (a feira da maratona), que fica no antigo aeroporto de Berlim, mandado construir por Hitler, para servir a aviação da guerra nazi.

A feira é fantástica, tem de tudo o que tem a ver com corrida e corredores, quando digo tudo é tudo, mesmo.

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Aproveitei para comprar fitas de “kinésio”, que são fitas que têm como objectivo “aconchegar” os músculos, permitindo a sua estabilidade.

Pensei que aquilo poderia fazer o lugar das meias de compressão, que quase nunca usei porque me apertam em demasia.

A dor continuava a prender-me a perna.

As fitas cumpriram esse papel, na perfeição.

Ajudaram-me, e de que maneira, a correr aqueles longos quarenta e dois quilómetros mais cento e noventa e cinco metros, a mesma distância que o soldado Fidípedes correu entre o campo de batalha de Maratona até Atenas.

Lá chegado anunciou a vitória dos exércitos atenienses contra os persas.

Morreu exausto.

Eu não queria morrer antes de partir para a minha missão.

Adormeci preocupado - um destes quilómetros conto a história desse sono sobressaltado -, estava muito preocupado e nervoso. Dormi pouco, mas dormi bem, apesar de tudo.

Foi quando acordei que tive aquela sensação de espanto, surpreendente, que às vezes nos invade.

Nove meses depois de um sofrimento auto-infligido, um dia hei-de perceber o que é que me passou pela cabeça para me ter decidido fazer tal coisa, nove meses depois, acordei, pela primeira vez, sem qualquer dor nas pernas.

Nem a dor que me andava a ensombrar existia.

Eu tinha dito à Alice que a dor dela era psicológica, ela sabia que sim.

Eu estava convencido que a minha dor era real.

Tudo falso.

Tudo invenção da minha cabeça.

Eu sentia a dor, mas ela não existia, ela era fruto do meu sub-consciente, do meu estado de ansiedade, tudo me doía, sem que nada me doesse.

Corri a minha primeira maratona sem dores.

Aquilo que me aconteceu a meio foi outra coisa, foi uma transformação;

As minhas pernas transformaram-se num pesadelo, sem dor, apenas um pesadelo, uma dor única e global, nas pernas.

Conclusão:

Os meus gémeos, afinal, eram falsos, não eram uns falsos gémeos, verdadeiros, como os da Alice.

Tudo não passou de uma invenção da minha cabeça.

Ele há com cada coisa...

Entrámos no quilómetro sete.

 

 

 

 

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Ao quilómetro cinco ia na boa.

Quero dizer, ainda ia na boa, apesar de ir meio a medo, sem saber o que havia de encontrar lá mais à frente.

Ia a desfrutar daquilo tudo, porque foi para isso que lá fui, não só mais também.

Eu fui a Berlim para provocar em mim uma profunda mudança, sobretudo, interior.

Com os pés no chão, apesar de correr com a cabeça na lua, que foi isso que me aconteceu, durante aquelas cinco horas.

Ao quilómetro cinco eu não achava que ia a correr mais rápido do que devia.

Antes disso, sim.

Levava instruções para fazer a primeira metade da maratona em duas horas e treze.

Ao quilómetro cinco ia com trinta e dois minutos, podia até ter ido mais rápido porque conseguia, são que eu tinha mais trinta e sete (37) assustadores quilómetros pela frente.

Eu sabia lá o que estava para vir!

Até ao quilómetro cinco, lembro-me de ir um tudo nada preocupado, pois íamos a correr abaixo dos seis minutos, por isso, ali para o quilómetro três, mais ou menos, que a memorai já se-me falha, que a pessoa não vai para nova, fiz-me mula e abrandei, como quem não quer a coisa.

Lembrava-me, permanentemente, do que me tinha dito o meu treinador, correr a seis quinze, seis vinte por quilómetro.

À passagem pela meia maratona (21 kms) já tinha esbardalhado o tempo todo!

Em vez de duas horas e treze gastei mais dez minutos, duas horas e vinte e três, portanto, mas isso é lá mais para a frente.

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Voltando ao quilómetro cinco, lembro-me bem, - porque nessa altura o meu cérebro ainda tinha bastante oxigénio - que aquilo que mais me impressionou, para além de ter visto o Golden Angel (aquela coisa ali em cima, na foto, do lado direito, dourada) foi a multidão.

Multidão dentro da corrida, multidão a acompanhar a corrida, durante todos aqueles quilómetros.

Eu era apenas um, no meio da multidão e, meu caro(a), ser apenas um no meio da multidão é absolutamente esmagador.

Sentir que não te olham de alto a baixo, simplesmente, porque ninguém te conhece é brutalmente saboroso e isso faz-te reflectir ( a mim, não, porque há muito que reflecti nisso) naquela questão da fama.

É um veneno que todos querem tomar, deslumbrados com o efémero efeito que ele (o veneno) produz, mas não presta para nada.

Basta passar a fronteira, basta correr a maratona, em Berlim, para sentires a ressaca do veneno, lá, no momento em que ninguém te conhece e te trata de igual-para-igual.

Aquilo que mais retenho ao quilómetro cinco são as pessoas que me chamavam pelo nome (um nome que ninguém me chama), as mesmas pessoas que chamavam todos os outros pelo seu nome. Iguais entre iguais.

Naquela corrida, famoso era o nigeriano que pulverizou o recorde, mais ninguém, apesar de todos aparecerem nos ecrãs gigantes.

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Saber saborear essa condição de incógnito é algo profundamente revelador.

Conseguir pensar, reflectir e entender isso é algo profundamente tocante.

Até mesmo quando dás de caras com uma banda, que toca ao vivo, ( eram imensas. ao longo do percurso) uma famosa música dos Queen.

A fama...

Nesse isntante, em que tu passas, incógnito, em que olhas as pessoas, nos olhos, em que levas os teus sentidos vivos, excitados, nesse instante em que passas, no exacto momento em que a banda toca aquela parte famosa, ela sim, famosa, a passagem da música, e cantas em voz alta, bem alta, arrastada, para todos ouvirem, sorriso rasgado, coração cheio, incógnito, porque ninguém sabe quem és:

“we are the champions…of the world”!

Entrámos no quilómetro seis.

 

 

 

 

 

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Começo por dizer que este é um texto melindroso.

Está avisado, se continuar a ler será por sua conta e risco.

É melindroso, desde logo, porque é sustentado pelas necessidades fisiológicas das pessoas.

Isso mesmo que acabou de ler.

Como é que eu me vou referir ao acto de mictar ou de obrar, sem correr o risco de este texto sair molhado ou tornar-se literalmente num texto de merda (desculpe o palavrão, mas é aqui que começa o meu melindre)?

Este é um texto sobre “aflições”.

Dizem os entendidos que não se deve estrear ou experimentar o que quer que seja durante uma corrida longa, como a maratona.

Dizem os especialistas e disse-me o meu treinador, vezes sem conta.

Esta parte tem a ver com o gel (que dá energia), mas já lá irei.

Certo é que os corredores, tal como qualquer outra pessoa, também têm necessidades fisiológicas.

Também há quem diga que quando estamos concentrados numa coisa dificilmente temos vontade de ir ao WC. Bulshit!

Eu, sempre que corro - e como provarei adiante, não sou só eu - tenho vontade de ir ao WC, às vezes até nas corridas mais curtas de cinco ou de dez quilómetros.

Pois bem, nós começamos a conhecer o nosso corpo e o nosso organismo e começamos a contornar estas questões.

Para ter uma noção, na manhã da maratona eu acordei às seis da manhã, três horas antes.

O pequeno almoço estava marcado para as sete, duas horas antes.

Quero dizer, antes do pequeno almoço e várias vezes depois do pequeno almoço fui ao WC, para não ter que ir durante a prova.

Mas, estas coisas não são assim tão…lineares!

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 “Malta, lamento, mas preciso de ir fazer xixi - que havia senhoras perto e mijar soa mal”, disse eu aos meus companheiros, mesmo antes da partida.

Olhámos à nossa volta, à nossa volta havia milhares de pessoas, o Reichtag ( o parlamento alemão), um bosque um pouco longe - e também cheio de gente - e um enorme descampado.

As hipóteses era reduzidas, a moita era a solução, a única solução.

Uma moita, no meio do descampado.

Encostei-me, discretamente e, pelo que parece havia mais gente aflita, que aquilo da maratona provoca nervos bons.

Eu e os meus homens, ladeados pelas guarda-costas vigilantes Alice e Sandrina sacámos as cenas e pimba, que alívio.

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 Só que, mal o tipo de branco (na foto) nos viu naqueles propósitos, dirigiu-se à mesma moita, no lado contrário e pimba, sacou da cena e, vimos na cara dele, que alívio.

Ninguém deu conta, a não ser nós, achamos nós.

Como dizia, é proibido experimentar e estrear o que quer que seja nas corridas longas, mas nós somos os Rainbow Runners, por isso o Chico correu com uns ténis novos, bem bonitos e eu, bom, eu é a história da minha vida;

Em Portugal, durante os treinos, experimentei o gel de uma marca.

Na maratona, em Berlim, tinha instruções para tomar um gel de meia em meia hora. Oito, no total, credo.

Lá está, esqueci-me de comprar em Portugal, portanto, fiz a maratona com géis que comprei em Berlim, mas de outra marca.

Sempre que preciso de ir ao WC durante uma corrida eu vou, estou a cagar-me (rir, agora) para os tempos, há prioridades.

Só que eu não queria incomodar o Chico e a Alice, porque os “três mosqueteiros” - como a Clara nos chama - iam felizes, na primeira metade da corrida, por isso nunca lhes disse que o meu interior mais profundo estava a travar uma permanente batalha consigo próprio a partir das duas horas de corrida, ainda nem vamos a meio.

O gel que eu já tinha tomado (quatro embalagens) e que o Diogo me recomendou, comprado na feira da Maratona era bom, era dos bons, mas o meu organismo não estava habituado e, aquilo foi uma luta interior deus me livre.

Não lhes disse nada, e ainda bem. Consegui orientar a coisa e a partir do quilómetro trinta não havia gel que desse cabo de mim, nem água, nem bebida isotónica, nem chá quente, nem banana, nem nada. Eu estava era com outras dificuldades.

Por isso a coisa deu-se e os restantes géis tomei-os, mas quase nem dei conta, aliás, o Chico é que me lembrava;

“Zé, já tomaste o gel?”.

Nós dávamos conta disso, não que eu fizesse qualquer ruído interior, mas porque começava a falar muito, dada a cafeína ingerida (rir, de novo).

Durante a corrida senti, de novo, a necessidade de ir fazer xixi ( ou chichi), que urinar é um termo horroroso.

Convém dizer que havia mais de um milhão de pessoas na rua, os 43 mil corredores entendiam a minha necessidade, vi-os a mijar em vários sítios, até à porta de prédios, até junto a uma esplanada, que aquilo não dava para entrar nos cafés, mas eu tinha algum pudor.

Não conseguia, com tanta gente a ver (rir, again).

Lá encontrei mais uma moita, num cruzamento, num dos muitos bairros pelos quais passámos;

“Malta vou mijar, não aguento mais”, e fui.

Cá entre nós, que ninguém nos ouve, aproveitei e recuperei um pouco o fôlego. Mais aliviado segui viagem.

Minutos depois o Chico;

“Vou aproveitar e também vou fazer xixi”, confesso que não sei onde fez porque não vi, era o que mais faltava.

Ao que, a nossa Alice respondeu;

“Vocês, homens, tem cá uma sorte, já eu não posso fazer nada”, e não fez, mas podia, digo eu (continuar a rir, sff).

Não voltei a ter dificuldades de qualquer ordem, desse tipo, não voltámos a parar mais para fazer xixi (que termo tão fofo).

Aliás, a partir dos 28 quilómetros aquilo foi tão duro para mim, que nem conseguia pensar em necessidades que não fossem as de chegar ao final daquela coisa toda.

Quase, quase a chegar, a uns oito quilómetros da meta, o Chico começa a falar com a Alice e eu a ouvir;

“Alice, não estou a acreditar, nem consigo olhar, não olhes”, achei aquilo estranho.

“Não olha para onde, Chico”, perguntei eu, que nunca perdi a faculdade de falar, apenas a escondi durante alguns quilómetros, lá está, concentração, José.

“Não olhem para a frente, vai ali uma tipo toda borrada”.

Juro que foquei o meu olhar na berma da estrada, aquela era a última visão que que poderia ter durante aqueles quilómetros finais.

“Porra, Chico, que merda é essa?” , perguntei, meio aflito, sempre as aflições.

“Não olhes, Alice”, gritei, “alguma vez eu fazia isto, se é para cagar que se cague em condições, no WC, pá isto não é possível, a senhora deve ir em dificuldades extremas”.

Só sei que a ultrapassei porque num raio de dois metros ninguém se aproximava dela (voltar a rir).

Pior, no fim da maratona, disse-me a Moita (a minha, nada de confusões com a moita do inicio do texto, que essa é com m pequeno e a minha com M grande antecedido de Carla);

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môr, estava preocupada contigo, tinhas dito quatro horas e meia e passaram cinco horas e eu não sabia nada de ti”.

Disse-lhe que podia ter ligado ao Francisco, que para além de ter sido o meu pagemaker também foi assessor, pois recebeu tantas chamadas, que eu nunca imaginei ser possível.

A Carla diz que nem se lembrou disso, mas confessou que estava assustada, porque tinha visto muitas pessoas a passarem por ela - ela estava entre o quilómetro 41 e o 42, mesmo antes das Portas de Bradenburg- em dificuldades extremas;

“uns iam de lado, outros iam a arrastar os pés...cheguei a ver uma senhora toda borrada, juro, fiquei chocada e preocupada”.

Como a senhora que a Carla viu não podia ser a senhora que nós tínhamos ultrapassado, respondi-lhe;

“Acabemos com esta conversa de merda”.

Não respondi assim, mas deu-me jeito para acabar o texto.

Quem nunca se borrou que atire a primeira pedra!

Entrámos no quilómetro cinco.

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( FOTO: ALICE VILAÇA - MARATONISTA )

 

O amor.

O amor corre de mão dada.

Eu sei, porque vi.

E tenho testemunhas. Há pelo menos 43 mil pessoas que viram, não fui só eu.

Agora sei que se chamam Dora e Carlos.

No domingo soube que eram portugueses, pelas camisolas.

Alguns portugueses correram na maratona de Berlim, nada de relevante se comparado com corredores de outras nacionalidades.

Impressionou-me a quantidade de mexicanos, de brasileiros e de norte-americanos.

E alemães, claro.

Portugueses contavam-se pelos dedos das duas mãos.

Eu, a Alice, o Chico, a Clara, O Stephane, o Diogo, a Sandrina, um companheiro que não revelo por agora o nome - senão estraga o argumento de uma próxima história -, mais a Dora e o Carlos.

Sei que houve um outro grupo de portugueses a correr, mas não os vi durante os cinco dias de Berlim.

Não devia haver muitos mais, se havia não sei, ah, havia sim, havia um senhor de idade avançada que, por momentos, pensei ser a mesma pessoa que me acompanhou numa corrida de dez quilómetros há uns anos, em Lisboa.

“Lebres do Sado”, li eu, naquela camisola deslavada.

Falarei dele quando chegar a um outro quilómetro, que este é dedicado ao amor, que corre de mão dada.

Éramos poucos, muito menos, os portugueses, do que o tempo que demorei a escrever esta ideia.

Bastava esta frase: éramos poucos, deu para perceber.

É engraçado, quando corres uma maratona pela primeira vez nunca estás preparado, nunca, por muito que aches que estás. Nunca.

Disso dei conta no domingo, isso confirmei há bocado.

Ora leia:

" Então boas tardes, fico feliz por ver que a tua parte de "gru mal-disposto” já tenha passado :)

As sensações de uma primeira maratona são difíceis, se não praticamente impossíveis de transpor para papel.

Sei perfeitamente o que sentiste ao passar aquele pórtico de meta porque tb já passei por isso e aposto que existe um Zé AM e um Zé DM - antes da maratona e depois da maratona.

Foi divertido acompanhar os teus últimos km, ora à vossa frente, ora atrás, fartei-me de rir com os teus amigos (nessa altura eram da onça não eram?) ao ver-te rezingão e meti-me contigo (se os olhares matassem não estava aqui a escrever agora :) ).

Voltei a ver-te depois de já teres cortado a meta, quase sem palavras, todo feliz da vida a tentar retirar o "suor" dos olhos :) … muitos parabéns!!!

Pela Maratona concluída, pela resiliência e tb pelos amigos que tens.

Aquele abraço, do casalinho tuga "simpático" (digo eu) que fez metade da maratona a caminhar de mão dada :)

P.S. Fixe fixe era mandares aquelas fotos que tiramos juntos na meta. Isso é que era ;)

P.S.2 - Qual é a próxima??? :) "

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A foto já seguiu, porque os maratonistas são gente de palavra.

Ao ler o comentário do Carlos, aqui neste blog, percebi, definitivamente, que a única pessoa que ali ia a alucinar era eu. Toda a gente viu o que estava a acontecer, menos eu.

Eu só queria despachar aqueles 16 quilómetros ( baqueei aos 26) e ir à minha vida.

O que a Dora e o Carlos não sabem, porque não lhes disse é que ao ver os seus sorrisos, no final e, mesmo tendo feito mais tempo do que eu, senti-me um homem ainda mais feliz, não por causa do tempo feito, mas porque eu gosto de pessoas que sorriem, que correm de mão dada.

Na verdade, se isto não fosse uma narrativa interminável, uma história incotável, um mar de emoções, eu até podia ter ficado deprimido, porque eles foram mais lentos do que eu, mas eles não treinaram e eu treinei nove meses, mas não tenho tempo para isso, por falar em tempo.

Ainda bem que demoraram mais do que eu, senão nunca me teria cruzado com eles.

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 Respondi ao comentário do Carlos:

"Boa tarde, Carlos,

Estou sem palavras, a sério.

Notou-se assim tanto o meu stress?

Imaginas o tanto que cerrei os dentes para continuar. Sabes o que senti ao passar aquele pórtico. E, sim, Há um Zé AM e um Zé DM, não havia outra forma, foi também por isso que lá fui, para vir de lá um ser humano diferente.

E, consegui.

Os meus amigos da onça tornaram-se muito mais do que amigos, naquele domingo em Berlim;

eles foram lá para me ajudar a ser maratonista, não foram para correr por eles e, isso não está ao alcance de qualquer um, é preciso ter um grande coração, gostar muito dos outros, sem falsidades.

Sim, houve momentos em que o meu olhar matava qualquer um, porque as minhas pernas me matavam, a mim. Nunca me faltou o fôlego, apenas as pernas. 

Isso provocou-me revolta interior. Eu queria, mas as pernas não.

Quando vos vi, e percebi que eram portugueses, apetecia-me abraçar-vos, mas não conseguia, naquele momento só queria ver a minha filha, a minha mulher, abraçá-las e depois cortar a meta."

Carlos, Dora, desculpem não ter sido simpático, desculpem não vos ter ligado nenhuma naquele instante, mas não consegui. Tive que apelar ao maior do egoísmo, para chegar até ao fim.

Não podia desistir, não conseguia andar, e tinha que correr.

Por muito difícil que fosse, nunca cortei uma meta a passo, não o podia fazer ali.

"Isto não foi apenas uma corrida, isto foi muita coisa junta, para mim, dentro e fora da corrida, que a vida tem sido um desafio constante e há corredores (com letra pequena) batoteiros.

Vocês não são um casalinho simpático, vocês são o casal que fez a maratona de mãos dadas ( estou a chorar, neste momento) e, isso, também não é para qualquer coração.

Hoje, "O Quilómetro Três" é dedicado a vocês.

Envio a foto, sim, pede-me amizade, no Facebook (ZeGab Quaresma).

Forte abraço

PS: a próxima será Londres, para o ano, abaixo das 5H :) "

Amor.

Eu sei que amor corre de mão dada.

Eu vi e tenho testemunhas.

A foto já seguiu.

A maratona de Berlim deu ao Carlos o meu blog.

A maratona de Berlim deu-me mais dois amigos, o Carlos e a Dora.

Deu-me tanto, a maratona de Berlim.

Entrámos no quilómetro quatro.

 

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