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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

22.11.19

COISAS DE GAJOS


The Cat Runner

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Foi um dia de cão, que até nem me correu mal.

Um spin, como agora se diz, ou lá o que é que isso queira dizer.

Um tipo chega aos cinquenta e já não chega como chegava, atrasado. Há mínimos.

Se ontem me deitei tarde, porque saí tarde do trabalho, porque jantei tarde e, porque, ao contrário da corrente mais intelectual, estou a adorar a nova temporada de “The Crown”.

Me, Peaky Blinder, me confesso, não gostei da última temporada sobre a famílias Shelby, adiante.

Entendo o Arthur Shelby, mas há médicos que tratam depressões, desculpem lá!

Dizia eu;

se ontem me deitei tarde, em outras alturas, hoje levantava-me tarde, mas não, às sete já estava a pé.

Resulta, há menos stress, logo ao acordar.

Ups!

Os planos saíram trocados, alterações de última hora, tenho que levar os miúdos, ela à escola, ele estação dos comboios e ainda tenho que meter gasóleo e não há uma única excepção para entrar em Lisboa que não a minha adorava CREL, por causa da chuva, do vento, dos acidentes, das filas, o normal.

Um pouco de stress, afinal, era eu quem corria o risco de chegar tarde, quando até o breakfast – não sei se deu conta mas gosto de me armar aos estrangeirismos – eu tinha tomado nas calmas.

Em televisão há sempre um plano B, C ou D, neste caso chama-se CREL.

Paguei quase quatro euros mas cheguei a tempo, um café, e sair para começar uma reportagem de longa duração sobre um tema bem interessante.

A forma como os futebolistas fazem a gestão financeira das suas carreiras, das deles.

É aqui que, apesar de o dia até estar a correr bem, a pessoa começa a sentir que está é a ser um dia de cão.

Chegámos à Alta de Lisboa e nesse exacto momento em que estamos a sair do carro começa a chover, mas a chover, não eram pingos, eram baldes de água.

Aquela sensação de desconforto, com um enorme tripé ao ombro, sem saber bem para onde ir, com o equipamento às costas à procura do 27-B.

Completamente encharcado fiz a primeira entrevista, desta reportagem, adiámos as filmagens para um tempo melhor, literalmente e regressei à base.

Incrível.

Ao longo do curto caminho começo a perceber que estava a ficar doente. 

Com o passar dos minutos a sensação intensifica-se e os sinais também.

Como levei a mochila decido ir correr, quando sair e tratar a constipação, ou gripe, como habitualmente, com a chuva e com o vento.

Tenho corrido todos os dias, hoje era dia de correr 12 quilómetros. Tinha a mochila no carro. Tranquilo.

Mas, já sentia a cabeça meio vazia (questiono-me se isso era sintoma da gripe ou se é mesmo assim), dores no pescoço, no resto do corpo, arrepios.

Sem força.

Correr, não. Hoje, não. Não consigo.

A questão nem tem a ver com o meu plano de perda de peso/gordura que até está a resultar. Tem a ver que, mais de um ano depois de ter corrido a maratona, voltei a ter prazer a correr e em correr.

É como uma facada no coração (ou em outro sítio), ter vontade e não conseguir.

No caminho para casa ainda reconsiderei, ponderei, acho que vou arriscar, pensei.

Eis quando, a mochila...

Ficou dentro do carro, porque voltei num carro da empresa, por motivos profissionais. O meu ficou no estacionamento, no trabalho.

Não tem problema, vou a casa, equipo-me e sigo.

Tem problema, tem.

Esse foi o problema.

Cheguei a casa, já depois de ter metido um pó debaixo da língua que até me aliviou os sintomas, mas já não consegui sair, por motivos de força maior.

Estou sem forças.

Com a agravante de ter que trabalhar este domingo.

Esse ainda é um mal menor.

Mal maior foi ter deixado a mochila dentro do carro, no trabalho, com o nécessaire lá dentro. Tinha lá tudo. Escova de dentes, de cabelo, perfume, creme para o corpo, para o rosto, lâmina de barbear, óleo para a barba, coisas de gajos na crise da “Meia Idade”.

Para tudo isto tenho redundâncias em casa. Duplicados. Substitutos.

O que me assusta é outra coisa.

Também lá ficou a minha cera para o cabelo, old fashion pomade, que compro no meu barbeiro.

Sem isso sinto-me despido.

E, sem a minha cera, até posso melhorar da gripe, por acaso neste momento até estou melhor, até posso não ir trabalhar, no domingo, se piorar, mas sem ela, uma coisa eu sei: à rua eu não saio.

Vou mas é tomar um Ben-u-Ron, que foi um dia de cão.

E até nem correu mal.

 

 

 

 

14.11.19

HÁ ONDAS MAIORES QUE AS DO CANHÃO DA NAZARÉ


The Cat Runner

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Desta vez não quero falar de mim.

Desta vez quero falar sobre si, sobre vocês.

Desde logo, dizer que, quando eu morrer se tiver metade das pessoas que me deram os parabéns, pelos meus 50 anos (agora, em números), não há cemitério que me-vos-nos albergue.

Graças a deus, se ele existir.

Mas, quando eu morrer se ninguém estiver no meu funeral, quanto melhor. Eu cá sou de despachar as tarefas e de não andar a engonhar.

Providenciem é música, isso não pode faltar.

Basta de falar sobre mim, que não tenho intenção de me finar tão cedo.

Bom,

bom era conseguir que saísse, em palavras escritas, o que lhe/te quero dizer.

Quem me tem acompanhado nesta vida sabe que, embora possa parecer o contrário, não sou pessoa de me colocar em bicos de pés, até porque dava um desarticulado bailarino. Nunca tive tendência para sincronizar movimentos de forma permanente.

Em cima, usei o prenome pessoal porque isto que escrevo é objectiva e conscientemente para si, para ti, para vocês.

Algumas destas tantas pessoas trato-as por tu. Outras por você.

E, este texto é, simultaneamente, para muitas pessoas e para cada uma, que o lê.

Tenho por norma dirigir-me a uma só pessoa, quando escrevo.

No entanto, por agora, escrevo para essa pessoa, que são muitas pessoas.

Username e password.

Estou ligado.

Visito as redes sociais onde tenho conta, Facebook, Instagram, LinkedIn e Whatsapp.

Espreito as sms no telemóvel.

E, as chamadas.

Respondi todas, às sms e às chamadas. Às mensagens no Whatsapp.

Mas, não consegui acompanhar a avalanche ( a palavra existe e está correcta ) de mensagens, no Messenger, nem os comentários, em todas as redes sociais, onde tenho conta.

Tentarei, não prometo.

Já não estou em idade de promessas.

É por esse facto que comecei a escrever este texto.

Não sei dançar ballet.

E, pelas fotos que vi na internet, os bicos dos pés ficam feridos de tanto se embicarem.

É ao contrário.

É dizer-lhe/te que sentir tamanho afecto, sentir que tantas pessoas gastaram um pouco do seu tempo, aquele que entenderam, para pensar em mim, é qualquer coisa que nem neste texto consigo explicar.

( A minha gata Alice anda a brincar, na cozinha, com uma moeda e o barulho está a distrair-me e estamos a falar de coisas sérias. Um momento)

Voltando ao que aqui me trouxe;

Chegar aos 50 anos de idade e ter uma onda da Nazaré, que vem do fundo do Canhão e se agiganta, demolidora, carregada de ternura, de afecto, de amizade, de atenção e de sei lá mais o quê, faz-me ter vontade de viver mais 50 anos, só para voltar a sentir o que senti ontem.

Hoje, tenho 50 anos e mais um dia.

Já posso falar de cátedra.

O dia de ontem foi simples, como eu gosto das coisas simples, que não sou de engonhar, mas foi tão intensamente vivido que, perante a sua/tua generosidade, até me apetece contar como foi.

Fiz questão de fazer a última corrida, com 49 anos, na véspera.

E, fiz questão de fazer a primeira corrida, com 50 anos, pela manhã.

Depois peguei na donzela, montámos o cavalo se seguimos a galopar pela Lezíria fora.

Se eu fosse Romeo, a Carla era Juliet, mas sem a parte da tragédia, que agora já há apps que impedem essas coisas de acontecer.

Juliet é agora apresentadora de um programa de televisão.

Uma princesa.

E, Romeo é um homem orgulhoso.

Foi com ela e com os outros amores da sua vida que Romeo almoçou no dia do seu aniversário.

Num restaurante, na vila, onde outrora Romeo cresceu, enquanto brincava dentro da cozinha e se prostrava, no peal da porta das traseiras, que dava para a rua do combóio, antes de começarem a servir os almoços, a meio da manhã, a observar os serventes, jovens empregados, enquanto lavavam garrafas de vinho, com longos piaçabas.

Vi-me ali, sentado, de calções a desviar o olhar, de tempos a tempos, para a frente, para lá da linha do combóio, atravessando o rio e parando o olhar na margem dourada do sol.

Foi um almoço impactante, também por isso, porque foi ali, no agora “150 Gramas”, que eu vivi dos dias mais bonitos destes longos dias.

Não faço ideia quantos dias são 50 anos!

As únicas coisas que estão iguais é o pequeno balcão, que guarda uma pequena garrafeira e o armário, onde repousam os talheres, guardanapos, pratos e copos, que é exactamente o mesmo que pertencia ao senhor Luís, do “Regional”.

Fica na porta ao lado, da casa onde vivi com a minha avó, após a morte do meu avô, durante os meus primeiros 11 anos.

A janela da minha avó dava para a escada da casa, mas a janela da vizinha Rosa e a da família Nunes deixavam-me observar o rio e a Lezíria, num plano mais elevado que o peal da porta das traseiras.

Tinha idêntica beleza.

Só já não servem ensopado de enguias. E, o senhor Luís “do Regional”, já não se passeia pela sala, com o pano branco em cima do ombro direito.

Já não se lavam garrafas de vidro com longos piaçabas.

Só o pequeno balcão e o armário junto à cozinha restam.

E o momento!

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(Foto: xira.pt )

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Mini Bola de Berlim com caramelo salgado

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Tarte de limão merengada

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Bloody Mary de Robalo

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Batatas do campo

 

Dali, fui tomar café, já com a minha Juliet a caminho do seu castelo mágico e os miúdos nos seus afazeres, quando não têm nada para fazer. Fui sozinho, pelas minhas ruas, a rua do Dó-Ré-Mi, a rua da antiga loja da minha avó, que ficava em frente à nossa casa e ao “Regional”, tudo a uma distância de um passeio e uma esquina, a rua dos bombeiros, a rua do Chave D´Ouro, o Largo da Câmara.

As pedras e o chão que conheço, como a mim próprio, porque há lá pedaços de mim.

O coração cheio de sorrisos.

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Senti-me na esplanada do “Tradicional Receita” (este nome tem o seu quê) e pedi um café.

O Rui Bico sai de lá de dentro,  passa pela mesa, dá-me os parabéns e diz.me que não quer viver até aos 90.

Digo-lhe que quero.

A Carminda e o senhor Carvalho deram-me os parabéns, pelo caminho e brincaram com a queda que a minha mãe deu dias antes e que lhe provocou vários hematomas.

“Foi o Helder que...” atira o senhor Carvalho.

“Não foi nada, não sejas parvo”, retorquiu a dona Carminda.

Enquanto isso, sentado na esplanada, onde antigamente era a sede dos Antigos Combatentes,  ia espreitando as redes sociais e começava a assustar-me.

Tanta gente!

Assobiei alto, desde a esplanada.

Os meus putos ouviram o asobio e sentaram-se comigo e pagaram-me o café.

Seguimos juntos, eu, o Isaac e o André.

Estava na hora do Isaac abrir a barbearia.

O cliente das três não apareceu, avancei eu. Experiência que só um gajo de 50 anos tem. Usurpei-lhe a vaga.

Barba e cabelo. À antiga.

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Barber André

 

Só faço barba e cabelo no Chapa 12.

Eu servi de cobaia, quando o puto Isaac andava no curso de barbeiro, em casa dele, no Bom Retiro. 

Ainda por cima, ele vende a cera que eu gosto de usar no cabelo e o óleo para a barba que me faz parecer um fake-jovem.

Apareceu o meu filho, o Tiago e a irmã, mais uns putos e brindámos aos meus 50.

Sabe-me bem ouvir os meus putos a tratarem-me por cota Zé. Faz-me bem.

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Meus Putos

A caminho de casa, de boleia com o Zé Fernando, que o carro continua na oficina, voltei a espreitar as minhas redes sociais.

Foi quando me começou a passar pela cabeça a ideia peregrina de escrever este já longo texto.

Você, vocês, não merecem um simples “obrigado” via copy & paste, com um coração no final (também copy & paste), nas minhas redes sociais.

É lá, onde encontro amigos de sempre, amigos de ontem, que conheço, outros que nunca vi em carne e osso e outros que lá conheci e com quem já estive, em carne e osso mas, e essa é a âncora, todos, amigos que me acompanham há tanto tempo.

Este tempo todo.

Alguns há quase 50 anos.

“C´um escafandro...”!

Merece, merecem, que cada uma destas linhas seja escrita a pensar no seu/vosso afecto, estima e consideração.

Faço-o aqui.

Presto a minha mais profunda homenagem e admiração, um-a-um, uma-a-uma.

Dentro das minhas parcas possibilidades, que a pessoa trabalha, vou tentar, lá nas minhas redes sociais, meter um like em tudo, um sinal, para que saiba que eu vi, eu li, eu agradeço.

Acabei a noite a jantar, no Ginguinha.

Sou cliente e, acho que, amigo do senhor Victor há quase 18 anos.

Isto já parece uma enciclopédia de efemérides.

Jantei com o meu mano, com os culpados disto tudo, o meu pai e a minha mãe, com a minha segunda mãe, a mãe de Juliet e com os meus filhos.

Cantámos os parabéns.

É sempre assim, não é?

Só falhou uma coisa, não sei se reparou;

Passei todo o texto a falar de mim.

Aos 50 dou comigo a pensar: será que, afinal, sei dançar em bicos dos pés?

Continuo a achar que não.

Grande obrigado.

Sei que não chega.

Mas é o melhor que consigo, desta vez!

 

 

 

 

 

13.11.19

HOJE FAÇO CINQUENTA ANOS


The Cat Runner

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Hoje faço cinquenta anos.

Assim mesmo, por extenso.

Acho que tem sido assim a minha vida, extensa, intensa, cruel e bonita.

Dez mais dez mais dez mais dez mais dez.

Cinquenta anos que só podem ser escritos por extenso, não há atalhos.

A vida e os seus próprios caminhos.

Como nas maratonas;

quando dividimos a distância total, a vida, por pequenas etapas, pequenas metas, os anos, que não páram, como a corrida e somamos tudo no final, quando cruzamos a última linha.

A meta.

Parece uma fatalidade.

E, talvez seja.

Para mim, que hoje faço cinquenta anos, assim mesmo, por extenso, foi uma fatalidade, que me obrigou a fechar-me em mim próprio.

Um fantasma, que me atormenta, um dia atrás do outro.

Foi assim que vivi no último ano, eu, frustrado comigo, eu, que  sentia tantas saudades de mim.

Eu sinto saudades de mim.

Estou perfeitamente consciente que sería relativizar tudo se dissesse que a minha inquietação derivava do simples facto de não me sentir com cinquenta anos.

Em nenhum aspecto, em nenhum momento.

Também era reduzir ao óbvio, tentar convencer-me que a vida que vivemos só a vivemos uma única vez, em fracções de segundos e, portanto, toca a todos. Era simples e eu gosto de coisas simples, não neste caso. É um caso sério, este, o meu.

Talvez seja qualquer coisa inédita, isto que está a acontecer neste instante:

está a ler um texto sobre um tipo que chega aos cinquenta, no dia em que ele enfrenta todas as sombras do mundo, no dia em que começa a ser um homem a caminhar para o seu final.

Eu, nunca tinha tido a experiência de ler sobre esta passagem, em tempo real.

Arrisquei, arrisco, e continuo.

Ninguém vive o mesmo momento duas vezes.

Não há passado, nem presente, apenas há o agora.

Dizemos todos isso, quando chegamos aos cinquenta, aos quarenta, aos trinta, vá.

Mas, os cinquenta, caro amigo ou amiga, os cinquenta, a mim, têm-me feito sentir como um boneco em cima de um touro grande, enquanto uma única mão tenta segurar-me e proteger-me dos saltos loucos e violentos da besta.

A multidão aplaudia, a escorrer finos traços de sangue pelos poros.

Eu estava prestes a cair.

Faltava-me a força, contra a força bruta.

O tempo.

O relógio.

O passar.

O já não voltar.

Já não se volta mais.

Força bruta, como o touro grande e, eu, quase a cair.

Mantive esta ousadia insana -  dez mais dez mais dez mais dez mais dez - exclusivamente dentro de mim, não a contei, não falei sobre ela com ninguém, nem mesmo com o meu núcleo mais restricto, os que me trouxeram até aqui. A rede invisível.

Meio-por-meio, cinquenta, assim mesmo, por extenso.

Quis ser dono do meu próprio tormento, viver com os meus próprios fantasmas, lutar contra a minha própria ansiedade e deixar os outros absorvidos naquilo que é seu. Quis chegar aqui com a mesma dignidade que faz de nós homens sós, quando a solidão é aquilo que entendemos como nossa. 

Estou aqui a contar-lhe, em primeira mão, o que é chegar aos cinquenta anos de vida.

É relativa, a importância de tudo isto, ou porque acha que só os outros têm cinquenta anos ou porque já lá chegou.

Mas, não, para mim. É aqui, aqui mesmo, a escrever, que exorcizo tudo o que me agarra, impede, perturba.

E, tudo mudou, porque tudo muda no presente, neste segundo, porque o passado e o futuro são apenas momentos transitórios.

Era terça feira de manhã.

A primeira coisa que faço quando acordo é pegar no smartphone, espreitar os push-ups das notícias, correr as minhas redes sociais, publicar as minhas rubricas e...

Fico mais um bocado na cama. Como que a convencer-me que preciso ir viver e a vida corre quase sempre do lado de fora de nós.

Só depois me ligo ao dia.

Sou primeiro digital, só depois analógico.

Nessa manhã, quando acordei, peguei no telemóvel mas, imediata e estranhamente, voltei a colocá-lo onde antes o tinha tirado.

Desta única vez fui, coisa rara, primeiro analógico e só depois digital.

Estava com vontade de sorrir para mim.

E, sorri. Fiquei ali, deitado, a sorrir.

Só me faltou o abraço.

Falta-nos sempre uma coisa qualquer.

Epifania.

Tomada de consciência.

Os meus fantasmas privados, que tanto me atormentavam, ali despojados, desprezados, junto ao telemóvel.

Estavam mortos.

Revelador, tétrico não, que estes fantasmas, os meus, até eram simpáticos, embora brutais, como um torturador de almas e afectos.

Só que não gosto de ser atormentado.

Foi há duas semanas, numa terça feira de manhã.

Durante estas duas semanas tive tempo para treinar até chegar ao fim desta corrida.

Até chegar aqui.

Nessa terça feira de manhã ficou claro, em mim, que a corrida recomeça neste preciso momento, hoje.

Foi um rasgo de magia.

Nada mais que isso.

Faço cinquenta anos e já matei os meus fantasmas:

Aqui chegado ficou mais límpido e perceptível, o horizonte à minha frente.

Queremos mudar de vida, mudemos.

O nosso filho ou a nossa filha entra-nos pela sala e diz-nos que vai casar ou que está grávida ou que vai ser pai, festejemos.

Se ainda tivermos aqueles que amamos connosco, celebremos todos os dias com eles.

Se queremos ser felizes, porque não sabemos se chegamos ao dobro da idade que faço hoje, embora seja uma probabilidade, afastemos de nós todos aqueles que nos incutem cargas negativas.

Se temos amigos de sempre, façamos com que saibam que os estimamos.

Se o carro se avariar, há-de ser arranjado.

Se encontrar uma pedra no caminho, fume-a, deixe lá os castelos em paz.

Aos cinquenta anos somos nós!

É a grande lição que recebi de mim próprio.

Há um fim, lá à frente.

O tempo não corre.

O relógio continua a fazer com que os ponteiros rodem, doidos, impiedosos, cada vez mais rápidos e pensamos na morte.

Na nossa, na dos nossos, é isso que, na verdade, deprime, puxa para baixo, suga, impede de ver o dia nascer.

É esse é o ponto-chave.

Foi esse o ponto chave.

Encaremo-lo de frente, ou não tivesse eu já morto os fantasmas, que se diluíram no caminho entre o meu quarto e a cozinha, naquela manhã de terça feira, antes do pequeno almoço.

Nestas duas últimas semanas, que antecederam o dia de hoje,  perdi duas pessoas, com quem tinha profundos laços afectivos, desde a minha infância.

Morreram!

Uma delas foi como uma segunda mãe.

A outra foi a última pessoa a desejar-me felicidades, antes de entrar na igreja, no dia em que casei com o meu grande amor.

E, o Artur, o Pitas, a avó, os meus avôs, tive três, a avó velhinha, o Renato, o meu irmão bebé e todos os outros que morreram, retirando-me a possibilidade de lhes agradecer os parabéns. Agradeço-lhes a vida.

Os meus mortos.

A morte. Miserável, que não nos deixas.

Não nos pode deixar, ela faz parte da vida.

Não saber isso é envelhecer e morrer por dentro.

Era isso que, na verdade, estava subjacente à minha revolta, quando criava as imagens do que está para vir, do que vou deixar para trás.

Caraças, quanto tempo, é muito tempo!

Olho as minhas mãos, as minhas pernas, os meus braços, cinquenta anos, e o coração. Vivo um momento privado e irrepetível, como qualquer momento. E, gosto.

Afago-me.

Imagino o meu coração que bate durante cinquenta longos anos, que passaram a uma velocidade mentirosa, por mim?

O caminho, inexorável, até ao fim.

Acho que matei morte.

Nós matamos a morte quando fazemos cinquenta anos.

Meu caro(a), a equação é a mais simples possível: se tens cinquenta anos assume-os.

Chegaste à idade adulta.

Não fosse a idade adulta a idade da eterna inocência.

Hoje, assumidamente, sou um cinquentão.

Só não me chamem "quinquagenário". Isso não.

A ver se aproveito os próximos cinquenta.

Ainda quero ir correr a meia-maratona da Muralha da China, ainda quero fazer uma Spartan Race, ainda quero continua a treinar Muay Thai, ainda quero continuar a correr as minhas corridas, ainda quero evoluir profissionalmente, ainda quero começar uma carreira, sim, começar uma carreira aos cinquenta anos.

Ainda quero escrever muito (comecei a escrever o meu primeiro romance, o meu terceiro livro e, imagine onde começa: no quarto secreto de Salazar, apesar de ser uma espécie de auto-biografia, uma espécie, porque um gajo de cinquenta anos ainda só tem a sua própria história a metade),.

Ainda quero aprender, ainda quero ensinar, ainda quero amar, ainda quero rir, quero rir muito, ainda quero ver os sorrisos dos outros, os que ainda tenho comigo.

Ainda quero ter um cão, ainda quero abraçar, ainda quero dar, ainda quero viajar, ainda quero ler, ainda quero ver, ainda quero escutar e, não nego, até gostava que me saísse o Euromilhões.

Ontem, fiz a minha última corrida, que encerrou a década dos 40.

Hoje irei fazer a primeira dos cinquenta, porque não faz qualquer sentido ser de outra forma.

Lou Holtz, que só conheço do Google, tem uma frase que eu cortei a meio, em proveito próprio e que diz assim:

"Neste mundo, ou você está crescendo ou está morrendo...".

Hoje faço cinquenta anos.

Hoje deixei todos os meus fantasmas pelo caminho.

Sou um homem feliz.

(Parabéns, mamã, parabéns, papá, amo-vos, eternamente)

(Obrigado, Carla, Rodrigo, Maria e Ricardo, vocês serão sempre a minha rede invisível)

( Se eu fosse uma música, hoje, era esta)

 

 

 

02.11.19

The Perfect Sunday


The Cat Runner

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Hoje dei comigo a pensar que já corro há quase sete anos.

Caraças, alguma vez isto me havia passado pela ideia!

Durante estes quase sete anos, eu, que nem gostava de corridas, só gostava de correr, corri corridas que nem imaginava.

Foi tudo, tem sido tudo muito surpreendente. Até a forma como escrevo sobre as minhas corridas.

Leia:

Já corri numa floresta, na selva, numa mata, no zoológico, na Lezíria, junto ao mar, num castelo, na cidade, na ponte, nas pontes, tantas, tantas corridas que me deixaram como que a acreditar que há, de facto, há bons e belos e surpreendentes momentos numa corrida.

Já me cruzei com freiras, unicórnios, avestruzes, dragões, empregados de mesa, com laçarote e tudo, com canecas de cerveja, com tudo. Até com Santo António. Juro.

Mas, são as canecas de cerveja que contam, por agora.

Não as que mencionei, nem nenhuma daquelas personagens, porque por baixo daqueles trajes há pessoas. Há pessoas nas corridas, de todos os géneros, para todos os géneros.

Também já corri com pessoas.

Até com um pelotão de Comandos.

A única vez que me deram uma cerveja, no final, foi quando acabei a Maratona de Berlim, em 2018. Fresquinha. Sem álcool.

Cheguei a escrever um texto sobre Berlim, a Maratona de Berlim e a história da cerveja.

Longe de mim imaginar, uma vez mais – o que prova que as corridas são como que tocar nas nuvens e voltar – que ia receber um convite para participar na primeira corrida da cerveja, em Portugal.

Vai ser histórico.

Mente perversa, não é por isso, também por isso, pela fresquinha, no fim, mas não é por isso.

É porque a família vai toda comigo, mulher, mãe, pai e irmão.

Os miúdos, claro, tem a sua agenda preenchida.

Vamos com calma.

A “Beer Runners” é uma corrida que estreia em Lisboa, promovida pelos Cervejeiros de Portugal e, no caso, organizada pela Last Lap.

É este domingo. Domingo, o dia mágico.

Eu disse vamos com calma, porque podia estar a pensar que este texto era uma apologia ao consumo do álcool. Havia esse risco, assumido, por mim.

Longe disso.

Esta corrida tem um objectivo claro que é incentivar a prática do exercício físico e conciliá-lo com o natural acto social de partilhar uma cerveja com os amigos e com a família, depois de passar a meta.

Correr dez quilómetros ou caminhar cinco, num domingo de manhã, em Lisboa, na Praça do Império, até Belém, Algés e pela Avenida 24 de Julho, sempre com o rio e a foz e o mar lado-a-lado é uma espécie de força maior para uma ou duas cervejas após o esforço físico e, a seguir, um almoço, já com os miúdos, em família.

The Perfect Sunday !

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E, inédito.

Nunca corri com a família.

Do que pesquisei é esse o link, o gancho, a ligação neste e deste evento;

Família.

O movimento “Beer Runners” apareceu há 12 anos, em Filadélfia, nos Estados Unidos.

Dizem que quem corre tem pancada.

Talvez. Talvez tenha sido isso que pensaram os membros de um grupo de corredores que se cruzou com um estudo da Universidade de Granada, Espanha.

Muito bem,

O estudo dizia que a cerveja seria um complemento à ingestão de antioxidantes e vitaminas após a prática desportiva.

A partir daí, o grupo passou a organizar corridas uma vez por semana, nas "Streets of Philadelphia", que terminavam sempre com a partilha de uma cerveja.

Só em Espanha, a comunidade “Beer Runners” conta com mais de 28 mil membros, repartidos por 78 grupos locais. O movimento está também a crescer na Dinamarca, em Edimburgo, em Nova Iorque e Chicago.

 

Em Lisboa, como nas outras cidades, todos os participantes que cruzarem a meta terão oportunidade de degustar uma cerveja ou cerveja sem álcool, acompanhada de tremoços e frutos secos.

Naquela de repor os níveis de hidratação e de sódio.

Só levo uma pequena inquietação, o meu irmão, que corre uma vez por semana, quando corre, diz que acha que vai fazer 40 minutos.

Eu sei que é capaz. Já vi.

Desta vez desconfio que o motivo é outro.

Isso mesmo...

Desta vez acertou, parabéns.

Sai uma fresquinha!

Uma não acusa em balão nenhum.

E, sabe tão bem!