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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

25.06.19

SOCORRO, OS CÂNTICOS NÃO ME SAEM DA CABEÇA


The Cat Runner

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( Foto: FB UDV Futebol SAD )

Isto deve enquadrar-se, provavelmente, num qualquer quadro de stress pós-traumático. Isto que me aconteceu. A mim e a mais uma quantidade de gente.

No domingo fui à bola.

Havia festa e eu fui, lá fomos.

Cheguei cedo, por isso, pensava encontrar umas centenas de pessoas.

Aquilo com que dei de caras foi com uma catarse colectiva, na mata, à chegada.

Aquilo era gente por todo o lado, era música, era entremeadas, febras, porco no espeto, confidenciaram-me que até havia choco frito.

Havia festa, havia tudo.

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Uma liturgia que viajou do campo raso da Lezíria, se calhar, desde a ermida da Senhora de Alcamé, padroeira dos campinos.

O campo raso que, do lado de lá, nos transforma, aos do lado de cá.

Um acto de exultação, foi isso que eu vi, quando cheguei, cedo, à mata do Jamor.

Foi nisso que me envolvi.

Foi isso que vivi, naquele domingo de comunhão.

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Os cânticos mão me saem da cabeça. Não se trata de os guardar e ter prazer em os ouvir.

É quase um tormento. Porque a festa já acabou.

Se calhar foi porque quando eu posso vou à bola ver o União. Este ano fui mais do que costumo ir.

Vi o União em casa, fora, no computador, no telemóvel e no Jamor.

Fui sempre convencido que ia ver a equipa da minha terra jogar.

Só quando cheguei à mata do Jamor é que, finalmente, deu-se-me uma luz. Para quem não acredita, às vezes dá-se uma luz.

Foi nesse momento que comecei a realizar que, para mim, como para aqueles milhares de pessoas da minha terra, não foi uma época que tivesse a ver apenas com futebol.

Aqueles milhares com quem passei o domingo sentem, pensam e acham como eu sentia, pensava e achava, que era à bola que nós íamos.

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65108014_1083172125213933_4446135683664314368_n.jpg( Foto: FB UDV Futebol SAD )

Não sei se esta tomada de consciência se acercou de algum desses milhares, nem é isso que relevo.

Eu tive essa tomada de consciência.

Muito mais do que ir à bola.

O que aconteceu àqueles milhares foi o que me aconteceu;

Nós vamos ao futebol. E, não passa disso. Isso é imenso. É que medida que a equipa vai ganhando o envolvimento aumenta.

A equipa continua a ganhar. Passa-se para um estágio de pré-comunhão.

E, as coisas vão-se dando, vão acontecendo.

O envolvimento atinge – não estou a personalizar em mim, nem em qualquer outra pessoa – um determinado grau, no qual o foco passa por continuar a ganhar e a divertir muitas pessoas.

65203011_1083171881880624_6381251431013285888_n.jpg( Foto: FB UDV Futebol SAD )

Passa-se a não ter o discernimento em proporções adequadas e não se dá conta disso. A festa vai boa.

Na verdade, aquilo que estas pessoas viveram foi uma viagem em tudo idêntica à que fez aquela liturgia, desde a vila até à mata do Jamor.

Conforme o União ia ganhando, ganhando, ganhando, também ia construindo alguma visibilidade, que dava para começar a encher o peito de orgulho, do União e da terra de onde somos. Falavam de nós.

Isso exaltava dentro das pessoas a sua ligação forte ( um bom headline - ligação forte ) à sua terra, aos seus valores, à sua saudade, até. Tudo na ponta de uma chuteira.

65136541_1083171595213986_6560822815363170304_n.jpg( Foto: FB UDV Futebol SAD )

O que nos estava a acontecer, sem darmos conta, e neste caso personalizo em mim, era algo único.

Nos golos que entravam celebrávamos a nossa terra, o nosso chão, o nosso rio, o nosso calor, o nosso Jardim, as nossas ruas, os nossos velhinhos, que também foram ao Jamor, celebrávamos aquilo que somos.

Foi isso que o União provocou nas pessoas que foram à bola, a equipa acordava nas pessoas a cidade dormente dentro delas.

Domingo-a-domingo era na bola que as pessoas acordavam a vila e essa união do quase sagrado, com o quase profano, que foi provocando um despertar quase permanente, então.

Não era só os golos do União que eram festejados.

Também era o coração, o sangue, as raízes que sustentam um amor.

A terra de onde somos.

Foi tudo isto.

Eles não ainda sabem, mas foi isto.

O União é uma parte disso.

Uma liturgia que viajou do campo raso da Lezíria, se calhar, desde a ermida da Senhora de Alcamé, padroeira dos campinos.

Uma liturgia que navegou Tejo, dentro de nós.

A entremeada estava uma maravilha!

 

( Um dos cânticos que mais me perfura o cérebro de dez em dez minutos é este, no link )

 

 

 

 

17.06.19

UNIÃO – UMA VIAGEM AO SONHO - (FINAL)


The Cat Runner

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A viagem ainda não terminou.

Hoje, acordei com aquela sensação de que nada disto está a acontecer.

Há festa dentro de nós.

Isto só comigo.

Uma hora e meia antes do jogo, depois de ter cumprimentado dezenas de unionistas, eis que dou comigo, de repente, numa fila.

Não sei como ali fui parar.

O portão abria às três e meia e às três e um quarto ali estava eu misturado com a gente da vila.

Escutava as conversas, observava os semblantes, até mesmo os daqueles que, do outro lado da estrada, se sentavam numa estação de combóios pintada num muro, como que a aguardarem que chegasse a carruagem do sonho.

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Sei que, antes de dar comigo na fila, cruzei-me com o senhor que costumo encontrar nas corridas. Com ele e com os amigos.

Aquele homem com quem me encontrei quando me preparava para a maratona, que voltei a ver na corrida de Santo António, num destes últimos textos e que me gritou à minha passagem:

"Domingo vamos para a segunda liga".

Recordámos esse momento, a caminho do campo.

Fomos conversando sobre as corridas, sobre o jogo decisivo.

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É quando chegou à fila, uma hora e meia antes do jogo começar. Nunca tal me tinha acontecido e nem precisava, mas ali estava, a viver aquele momento único, até o sol me estava a saber bem.

Na revista, ficaram-me com o isqueiro, à entrada, que me devolveram simpaticamente no final e com a garrafa de água.

"É para te ires habituando, na segunda liga é assim", dizia um dos velhos unionistas, como se ele alguma vez soubesse o que é estar na segunda liga.

Nenhum de nós sabe.

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Lembrei-me daquele jogo da Taça de Portugal, contra o Vitória de Guimarães, há muitos anos, era eu um miúdo.

Vivia-se no Cevadeiro o mesmo ambiente, as mesmas caras felizes, o mesmo calor, o mesmo sol, a mesma esperança.

Foi há muitos anos. 

Naquela altura o que mais me fascinava era as bolas Le Coq Sportif e as botas de futebol da marca francesa. O Vitória de Guimarães equipava Le Coq Sportif.

Na bancada, onde me continuo a sentar aos domingos, no cimo, no último degrau, que dá para ver os balneários, deliciava-me a observar o Neno a aquecer, aqueles craques todos, todos bem equipados.

Aqueciam no cascalho, na zona dos balneários, até porque o nosso campo era pelado, na altura.

Mas, nós tínhamos o Vitor Rosa, o Murtinheira, O Lobo, e mais um camião de brilhantes jogadores, mas estes três eram os que mais me enchiam as medidas.

Nesta tarde de domingo, enquanto via aquecer os jogadores do União e os do Leiria dei comigo a rever esse momento, há muitos anos, era eu miúdo, já sentado na bancada, no lugar onde me sento sempre, atrásdo nosso banco de suplentes.

Naquela altura tinha a companhia do vendedor de queijadas, à moda antiga.

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Tive tempo para pensar em tudo.

Decidi deixar continuar a viagem.

Agora, era eu, outra vez miúdo, sentado no Cevadeiro, depois de andar a brincar pelas ruas da vila.

Nem com o Vitória de Guimarães, naquele tempo, o Cevadeiro levou tanta gente, nem mesmo com os marinheiros sentados no muro do quartel. Todos União.

Para algumas pessoas pode ser só futebol.

Para mim, que não sou um fundamentalista do futebol, não é só futebol.

Perguntavam-me num destes dias:
“E se um dia tiveres que fazer uma reportagem com o União?”.

Respondi franca e simplesmente: “Não faço!”.

A partir de agora consigo perceber aquelas pessoas que dizem que amam um clube. Mas, continuo a ser não fundamentalista do futebol.

Percebo, agora, essas pessoas, porque se aquilo que eu senti neste domingo é aquilo que essas pessoas sentem, então, eu entendo-as, a partir de hoje.

Isto mexe connosco. Com o nosso mais íntimo.

Não é apenas futebol.

É a vida inteira, as ruas, o Jardim, o Campo da Feira, o rio, o Cevadeiro, as lembranças boas, quando íamos na carrinha do Farinha, que trabalhava na Atlas Copco, para todo o lado onde o União fosse, aos domingos.

Os meus pais iam beber café ao Cá-Te-Espero e depois seguiam todos dali para Mafra, Bucelas, Torres Vedras, para todo o lado. Eu ia com eles, sempre. Usava-se aqueles chapés de sol feitos em cartão, como os dos chineses antigos, que se prendiam ao pescoço com um fino cordel, como o da memória.

É materializar, através do futebol, a alegria de reviver uma tarde de domingo.

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A diferença mais vincada é que já não brincamos às guerras, já não lanço granadas, já não estilhaço o vidro da sala das irmãs idosas, e já não fujo do meu pai. Abraço-o.

Até me abracei a ele, no fim do jogo. E chorámos.

Nenhum de nós alguma vez havia visto o que ali aconteceu.

Nenhum de nós, os que estiveram ali, nesta tarde de domingo.

Nunca ninguém na vila tinha vivido tal coisa.

Nunca tinha acontecido.

Fomos a penalties, eles falharam.

Se marcássemos estávamos na Liga Profissional.

Eu gosto do Campo do Cevadeiro porque tenho lá essas memórias bonitas, que me acompanham ao longo da vida.

Também gosto porque é mesmo em cima do relvado, à antiga, Old School.

Sente-se o bafo da Piranha.

Estivemos na frente.

Eles empataram.

Colinho.

Fomos para prolongamento.

Estava com receio do prolongamento.

O meu filho tem treinado com a equipa e disse-me que estava a ser complicado recuperar alguns jogadores. Estamos no fim da época. Tinha um receio que não me matou a fé.

Aliás, deve ser a única época, em Portugal, que ainda não acabou.

Acaba domingo, no Jamor.

Mais uma tarde de domingo, portanto.

A época ainda decorre e,  depois, se quiserem arranjem o campo e montem uma equipa profissional em meia-dúzia de dias e é se querem. Senão tchau!

Mas, isto são coisas da bola, foi só um desabafozinho.

Falhámos o primeiro penaltie. Bateu no poste.

Eles marcam.

Nós marcamos.

O nosso guarda redes defende.

“Este vai mandar para a Marinha”, diz-me alguém junto de mim.

Nesta altura o meu filho já estava ali, comigo.

A minha mãe e o meu pai, eu vi-os.

“Este vai mandar para a Marinha”.

E, ele mandou para a Marinha.

O meu filho agarrou-se a mim, com lágrimas nos olhos.

“Vai Wilson”!

“É agora, marcamos e estamos na segunda liga”.

É aqui que revivo o jogo daquela altura, com o Vitória de Guimarães.

O Neno defendeu o penaltie.

Naquela altura não havia telemóveis.

Liguei o modo vídeo e comecei a gravar.

Wilson ajeita a bola, na marca.

O guarda redes tenta distrair.

Wilson ajeita melhor.

Dá quatro passos atrás.

Olha para a bola.

O árbitro apita.

“É agora”, voltei a ouvir.

Wilson corre para a bola, pica os pés na relva, como que numa falsa lentidão.

O guarda redes já começa o vôo para o seu lado direito.

Wilson acelera e bate a subir, para o lado esquerdo do guarda redes.

Como costuma fazer nos treinos.

O que aconteceu a seguir?

Está neste vídeo. Veja...

 

Fui engolido e arrastado, como que em levitação feliz, para dentro do relvado.

São assim, as tardes de domingo, damos connosco, de novo, ali dentro, como quando invadíamos o pelado, no intervalo dos jogos dos séniores. Pó e golos por todo o lado.

Quando o Wilson partiu para a bola dei comigo a ver o Vitor Rosa a tentar bater o Neno.

Mas, no momento em que rematou a bola, para o lado contrário do guarda redes, quem eu vi foi o Wilson.

E, o meu filho agarrou-se a mim e eu a ele, a chorar:

“Já está, já está, pai”!

Um Piranha, é o que é!

Acho que o Cevadeiro chorou de alegria, sem limites.

Deixei-me ficar por ali, a gozar o momento.

Fui dar uma abraço aos jogadores a quem tinha prometido o abraço.

O mister, conhecemo-nos, profissionalmente, há uns vinte anos.

Aquilo que ele me disse fica entre nós.

O que se passa no Cevadeiro fica no Cevadeiro.

 

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O meu pai chorava de alegria. Um Unionista.

Deixei-me ficar por ali, a gozar o momento.

Sentei-me na bancadas, já com o meu isqueiro, guardado pelo simpático segurança. Acendi um cigarro e fiquei a observar.

Só consegui dizer duas coisas àqueles que abracei, amigos, família, jogadores, treinadores, dirigentes:

“Obrigado” e “olhem para esta gente tão feliz, hoje é um dia feliz”.

Quando voltamos a ser miúdos e a estar dentro do campo do Cevadeiro é voltar a ser muito feliz. Foi um dia feliz.

Hoje, ao acordar, ao acordarmos é que dei e demos conta do que nos aconteceu, dentro de nós, a comunhão, a força, a coragem, a união, a nossa amada vila.

Puxei uma passa, saboreei o fumo na garganta, soltei-o, respirei fundo e voltei pra casa.

Pelas mesmas ruas.

Só que agora já não fui jogar, no nosso campinho com piso em paralelo, na rua de trás, junto à linha do comboio.

As senhoras idosas já não moram na casa grande, junto ao largo onde os bombeiros guardavam os botes salva-vidas, já não brincamos à guerra, nem ao touro, os vidros das janelas estão garantidos, o meu pai já está em casa, depois das emoções.

Nesta viagem de regresso as ruas da vila parecem-me mais frias.

O fim do domingo encerra sempre alguma nostalgia em nós.

Começa a ouvir-se o som de buzinas.

Já há gente no Largo da Câmara. Diz que a equipa vai dar uma volta à vila, num autocarro descoberto.

O Facebook mostrou-me esses momentos, em directo.

Fantástico “mundo novo”.

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Eu vim para casa.

Parecia que tinha andado uns cinquenta quilómetros, durante todo o dia. Amassado, mas feliz.

Atravessava a ponte para o lado de cá, quando recordei a viagem que tinha acabado de fazer.

Uma viagem que durou uma eterna tarde de domingo.

Lembrei-me dos que deviam estar aqui, junto de nós, a cantar União.

Publiquei uma homenagem, no meu perfil. Uma sentida homenagem aos que não estão ao pé de nós, mas estão sempre connosco.

Tudo isto que estamos a viver eles também estão, no céu, com cachecol ao pescoço e bandeira nas mãos morenas.

Agora percebo aquelas pessoas que vivem os seus clubes como parte sua.

Na próxima época não posso ir tanto à bola.

Desgasta os nervos.

O campeonato é profissional e assim passamos a ter uma relação diferente, por força da minha actividade profissional. Outro registo.

Mas, sou União, até morrer.

Porque isto não tem a ver com futebol.

Isto tem a ver com uma viagem, pelas ruas da vila.

A viagem termina domingo, com a final do Jamor.

Depois, remeto-me ao recato.

Dá na televisão, vejo em casa.

Prefiro assim.

Até porque, dificilmente, haverá outra viagem como a desta tarde de domingo.

Isto é uma crónica sobre futebol, até porque o golo do empate é carga sobre o nosso guarda redes. Foi mal validado e prolongou o nosso sofrimento, mas dei mais alegria à nossa alegria.

Só por isso é que é uma crónica sobre futebol, senão não era.

 

 

 

 

 

17.06.19

UNIÃO – UMA VIAGEM AO SONHO - (PRIMEIRA PARTE)


The Cat Runner

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Há domingos que ficam para sempre dentro de nós.

A magia das tardes de domingo.

Costumava ir com a minha avó, aos domingos à tarde, passear no Jardim.

Levava-me a ver o rio, de mão dada, os patos e os macacos, os pavões e os Porquinhos-da-Índia, comprava-me torrões de Alicante  e Jorgelins e algodão muito doce e seco. Ainda lhe sinto o cheiro redondo e açucarado a entrar-me pelas narinas.

As tardes de domingo são especiais e há domingos que ficam para sempre dentro de nós.

Nunca fui grande jogador de futebol. Era gozado pelos meus amigos, ainda hoje somos amigos, por achar que jogava bem. Não jogava. Continuo a não jogar.

Mas, joguei no União. Quando era Escolas e Infantil.

Todos nós jogámos no União. Até mesmo aqueles que nunca lá jogaram.

Todos somos União, os que são da vila.

No Cevadeiro mandamos nós.

É assim, desde que me lembro.

Neste domingo almocei cedo e decidi sair, sozinho.

Conduzi até à vila, que é cidade. Faltavam duas horas para o jogo, meia hora para abrir o portão.

Não vivo na vila há anos. Mas, a vila vive em mim, todos os dias, há muitos anos, desde sempre.

Estou apenas a um atravessar de uma ponte. O nosso rio.

De tempos a tempos, conforme se-me impele, dou comigo a caminhar nas ruas onde pareço parar no tempo.

Estacionei junto ao Museu e comecei a caminhar pela rua do antigo quartel de bombeiros.

A magia que aquilo me mostrava, quando a sirene tocava e os bombeiros desciam, escorregando, agarrados àquele tubo mais alto que Santanás. Nós, embasbacados, cá em baixo, a olhar, olhos arregalados e com uma secreta admiração por aqueles homens.

Aos fins de semana havia baile no salão dos bombeiros. Soirées aos sábados e matinés aos domingos. 

Ali à frente, no largo onde era a garagem dos barcos do ISN e dos bombeiros, na esquina do lado esquerdo, viviam umas senhoras de idade.

Pessoas de classe abastada, que naquela altura a vila tinha muitas famílias abastadas e muitas pobres.

Foi ali que vivi um dos maiores apertos da minha infância.

Viemos de ver o União e resolvemos ir brincar às guerras.

Aquilo só acontecia porque naquela altura a guerra fazia parte das notícias, de onde nunca saiu. Éramos miúdos. Tinhamos metralhadoras, pistolas e latas de tinta vazias. E, liberdade, que só as tardes de domingo conseguem transmitir-nos.

Atirei uma dessas latas de tinta, que era uma granada imaginária potente, tão potente que estilhaçou o vidro da janela da sala das senhoras de idade. Eram irmãs.

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Pensava que não me viam, a mim e aos meus camaradas de armas, escondidos naquele monte de areia retirada do rio, junto à betoneira, das obras que estavam a reparar a fachada do armazém dos barcos do ISN.

Fugimos para a rua de trás, junto à linha do comboio.

Era lá que tínhamos o nosso campinho, com piso de paralelo, marcado com uma tinta amarelo-gema de ovo. Quando bater no muro é fora, gritávamos, como que a definir uma regra que todos conheciamos!

Parece que ainda o vejo, o Vitor Rosa, capitão, a deambular pelo pelado do Cevadeiro fora, braços abertos, a trote, a conduzir a bola, com afecto.

Um capitão, de bigode, é um homem com pés generosos.

Nós gostávamos dos jogadores da primeira divisão, mas também dos do nosso clube.

Havia jogadores que eu adorava ver, o capitão, o Joaquim Lobo, o Murtinheira, sou desse tempo.

Na rua de trás imaginávamos que estávamos no Cevadeiro a fazer remates que nunca aconteceram.

Entretanto, chegou o meu pai, que aos domingos à tarde as notícias corriam rápido, na vila.

O resto depreende-se.

Pagámos o vidro e fui obrigado a entrar na sala de jantar das irmãs, para ver os estragos. Uma sala linda. Antiga.

Virei à direita, em direcção à passagem de nível do cais, que fica no entroncamento com a rua da rua do “Diversões”, o salão de jogos onde passávamos tardes inteiras a jogar aos matraquilhos, roda bota fora. Deixei para trás das costas uma guerra mundial travada com latas de tinta, vazias.

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Parei junto à passagem de nível, já com a praça de touros lá ao fundo.

Entreguei o bilhete ao “meu irmão”, dei-lhe um abraço e segui, tranquilo, emocionado.

À minha direita a rua onde havia o posto da PSP.

“Olha, o Zé, há quanto tempo que não te via!”, ouvi chamar lá do alto.

Tirei os phones, olhei para a varanda do prédio de dois andares.

Há anos que não falava com a Zézinha, a mãe da Lídia, que me viu crescer, a Zézinha e a Lídia.

“Gostei muito de a ver, um beijinho grande”.

“Um beijinho, Zé e que ganhe o nosso União".

Estranha, esta minha liturgia.

Aqui, no largo da praça de touros, era uma vez um campo de futebol, quando não havia Feira ou Colete Encarnado.

Era de cascalho.

Ali ao lado da praça o cemitério. Logo a seguir o Campo da Feira.

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O Campo da Feira também era de cascalho e de areia do rio.

Os meus avós vendiam na Feira, nas feiras.

Cestos de vime e verga. Eram cesteiros.

Levavam-me com eles para todas as feiras. Éramos quase nómadas, embor a sua oficina e loja fossem bem no centro da vila, numa das mais importantes avenidas.

Já nessa altura a fronteira, para lá da Praça de Touros e do Campo da Feira era marcada pelo Campo do Cevadeiro.

Do terreiro dos meus avós, na Feira de Outubro, só não dava para ver o campo, por causa do circo, que tapava a visão. E a pista dos carrinhos-de-choque.

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Este domingo, mais do que nunca, lembrei-me dos meus avós, que me embrulhavam em cobertores papa e me aconchegavam ao um canto da barraca, cheia de cestos, cadeiras, caixas, de vime e verga, feitos pelas suas mãos vividas.

Lá à frente é o campo do Cevadeiro, lugar mágico, onde vai terminar esta viagem de sonho.

 

(Continua... daqui a 1 hora )

 

 

 

13.06.19

O ÚLTIMO PASTEL DE NATA


The Cat Runner

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Não esperava que o último texto cumprisse o meu objectivo, pelo menos de forma tão abrupta.

Aquilo que era uma alerta, sem alarmismos, começou a tornar-se numa conversa.

E o blog teve visitas como se o mundo acabasse hoje.

Na caixa de mensagens, nas minhas redes sociais, nos comentários no blog, conversas boas.

Em todas as mensagens trocadas um denominador comum: ser feliz.

É quase chocante, no bom sentido, que todas as mensagens que tenho trocado, a propósito do texto, são de pessoas que já fizeram o caminho a que agora, desde agora, me proponho fazer.

Felizmente, sou apenas um peixe dentro de um oceano, foi o que concluí.

É o reverse effect: a minha história, esta, que faz parte de uma história maior, inspira aqueles que, sem saberem, me inspiram. Há alguma coisa tão gratificante?

Uma onda positiva, de energia positiva, de comunhão de interesses, de palavras, parte daquilo que o ser humano precisa para fazer o seu caminho. Positividade, esperança e acreditar,

Penso que, assim, não me levará a mal, caro(a) leitor(a) por ter decidido ir partilhando a minha experiência. Não o farei diariamente, não aprecio massacres, mas virei aqui contar histórias.

É o que mais me importa; as histórias.

Tudo isto, para dizer que lá fui eu, em direcção ao desígnio, que de fatalidades anda a crosta terrestre cheia.

Pesei-me de manhã e mandava balanço: 91 quilos.

Hoje foi o dia zero, a consulta à tarde, portanto, ao sair de casa caiu bem um pastel de nata e um café.

O último dos pastéis de nata. Essa é que é essa.

Dito assim custa dizer.

Mas é preciso ser dito.

Está dito!

Pontualmente, às quatro, lá estava eu, em frente a uma nutricionista.

Desde segunda feira que não faço exercício, como que a dizer-me: estás a dar as últimas, aproveita.

Eu, sentado em frente a ela.

  • “Ora, então vamos lá, conte-me tudo”.

E, eu contei.

Tudo esclarecido, tudo explicado, tudo conversado, uma dieta perfeitamente ao alcance do dia-a-dia, um drenante, um multivitamínico e uma "coisa" para desintoxicar alguns órgãos.

Parece quase anúncio, mas não é.

Podia ser um anúncio àquelas dietas mágicas, mas não é.

É só um "auxiliar", digamos.

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Na verdade é uma dieta, onde não posso comer hidratos, fruta e açúcar, nesta fase, na qual só posso comer determinados vegetais, a maioria da carne e do peixe, até conservas posso comer, como o Cristiano Ronaldo (ele come conservas, acredite).

Zero hidratos. Zero açucar. Nem sopa, sequer.

Não posso tocar nas bebidas de arroz, aveia e que tais, que tanto gosto, só posso beber chá ou água. Por causa dos açucares.

Nada de anormal.

As contas estão feitas, para chegar ao objectivo ao qual me propus: 12 quilos a menos em dois meses e mudança de hábitos, de alguns hábitos.

Já fui abastecer o frigorífico, com iogurtes e gelatinas zero, já comprei pão de forma zero. Tudo zero. Credo!

Para já apenas posso dizer que em uma janela de tempo de duas horas já fui mais vezes ao wc que durante o mês todo.

Daqui a seis dias tenho avaliação, com a nutricionista e, nessa altura, devo ter deixado para trás os primeiros dois quilos.

Amanhã, pela manhã, vou treinar Muay Thai, que sinto saudades.

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Junto às saudades a necessidade e, confesso, sinto vontade de me mexer, o que não acontecia há semanas. Já programei os treinos com o meu mestre ZFortes e as minhas corridas.

O que um simples nano-momento do pensamento faz!

Umas horas depois da consulta e já me sinto outro, passe o exagero.

Ainda nem sequer fiz a primeira refeição a sério.

Será ao jantar. 

Más as gelatinas não são, garanto.

Amanhã vou ao Muay Thai e vou almoçar um peixe grelhado, só com alface e pepino, ao Batalha.

Faz uns grelhados maravilhosos.

Só não posso levar o meu filho, por causa da entremeada grelhada, com batatas fritas.

Um homem não é de ferro.

Isto está a pôr-se de tal forma, que vou portar-me tão bem, que mais dia menos dia estou a transpirar água benta.

Sem açúcar.

Zero.

 

 

 

 

 

12.06.19

EU JÁ FUI ISTO E AQUILO


The Cat Runner

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A vida é dez porcento do que nos acontece e noventa porcento de como reagimos.

Comprovei isso nos últimos tempos.

Chegou a hora de reagir.

Comodismo.

Acomodamo-nos.

E, assim ficamos.

Há nove meses corri uma maratona.

Hoje, não consigo correr cinco quilómetros seguidos.

Comecei a ganhar peso – a engordar -, comecei a fumar, comecei a criar hábitos maus, errados. Eu sabia que eram errados.

Passei o último ano deitado no sofá, ou quase. Horas a mais. Muitas horas a mais.

Tenho estado fora do circuito activo.

Quando tudo isto começou, aliás, tudo isto começou porque estava à beira de um “burnout”, uma neologismo engraçado que não mais é do que exaustão. Quando tudo isto começou soaram campaínhas dentro da minha cabeça.

É também esse alerta que quero deixar;

cuidem-se, só assim faz sentido, abdiquem, arrisquem, ousem, mas cuidem-se.

Vivi um ano e meio em contra-ciclo, à noite.

Eu vivia de noite, enquanto o mundo vivia de dia.

Profissionalmente foi assim. Pessoalmente, como consequência, também.

Estava a tocar na fina linha que nos separa da normalidade aparente e da anormalidade constante.

Antes que queimasse, como muitos colegas meus – nem imagina quantos -, antes disso fui ao médico.

O médico mandou-me parar imediatamente, descansar, viver, comer, rir, estar com os meus filhos, olhar o sol, sentir a brisa, correr, sim, mandou-me, ordenou-me que corresse e mandou-me ser feliz.

Ordenou-me que me afastasse e eu afastei-me.

É o que tenho feito no último ano, tentar ser feliz.

É uma carga de trabalhos, ser feliz.

Ser feliz é uma equação que não vem em nenhum exame.

Agora, preparo-me para regressar de onde saí e ocupar o lugar que me pertence.

Mais um ou dois meses e, creio, estarei em condições de recomeçar, porque é de um recomeço que se trata. A todos os níveis, profissional, pessoal, físico, mental e como eu adoro recomeços.

Há sempre uma caminho que desafia, quando se recomeça.

Só que olho-me ao espelho e não gosto do que vejo.

Envelheci, neste último ano, embora o rapaz do ginásio lá em Lisboa me tenha dado 35 anos.

"Juro", disse ele.

Ainda há gente simpática.

A roupa deixou de me servir, sinto-me pesado, não me sinto bem comigo. Já nem me sinto giro. A sério, vezes houve em que me senti giro. Houve vezes em que senti que só tinha 35 anos.

Pior, não me sinto saudável, de todo.

Mentalmente estou pronto, fisicamente não estou saudável.

Eu sei, deve estar a pensar, não é normal estes "tipos da tv" abrirem-se tanto ao mundo, mas eu penso exactamente ao contrário.

Penso que os "tipos da tv" tem o dever de, através do exemplo, em imensas áreas da nossa vida, alertarem, avisarem, aprenderem, também.

É disso que trata este texto, não tanto da minha história.

Um alerta, para quem o aceitar.

Eu já fui isto e aquilo.

Irei ser eu, de novo.

Cheguei a um ponto em que o exercício já não produz resultados e não posso intensificar o exercício por causa do peso a mais.

Continuo a treinar, mas sem a intensidade de outrora, sem o prazer de outrora, sem os resultados práticos de outrora.

Mais do que correr caminho.

No Muay Thai estou sempre desejoso que o treino acabe e só lá vou de vez em quando.

Nada disto era assim.

Não pode ser assim, porque eu já fui isto e aquilo.

Transformei-me numa palavra que acabo de inventar: sedentário-activo.

Já tentei tudo, treinadores, PT´s, programas na internet, tudo, bom, tudo não.

É aqui que esta história começa a ter interesse, pelo menos, para mim.

É que tudo tem que ter um fim. E, tem !

Eu já derrotei uma depressão grande, há quase vinte anos, eu já derrotei o “burnout”, há cerca de um ano, eu até já corri uma maratona, algo que, provavelmente, nunca irá conseguir fazer, caro(a) leitor(a).

Não se ofenda. É mesmo assim, há coisas que são como são. Provavelmente fará coisas que eu nunca farei. É por aí. Não se ofenda.

Nem siga o meu exemplo, mas olhe para o meu alerta.

Foi esta paragem quase-voluntária,  longa e forçada, que contribuiu para o meu desleixo. Não encontro palavra mais adequada. 

Comecei a não sentir motivação, para nada.

O sofá, pouco mais.

Ter corrido uma maratona foi um erro.

Um momento impactante, marcante, inesquecível, mas um erro.

Nunca o devia ter feito. Roubou-me todo o prazer e sem prazer o homem é apenas uma coisa qualquer.

Roubou-me o prazer de correr e eu roubei-me o resto.

Comodista. Acomodei-me. Errei.

Tudo isto é exactamente aquilo que não deve acontecer. A ninguém, muito menos a alguém, como eu, que já esteve onde quis estar, como quis estar, quando quis estar.

Eu já fui isto e aquilo.

Puxei, uma vez mais, da minha resiliência, a mesma que me fazia terminar as meias maratonas depois de um esforço imenso e lancei-me o tal desafio: voltar à normalidade aparente.

Work in progress.

Amanhã tenho uma consulta marcada com uma nutricionista.

Começo do zero e, quando regressar à televisão, o mesmo é dizer à vida activa, quero chegar no meu melhor, como sempre.

Quero voltar a ter prazer em fazer televisão, algo que me foi retirado, se calhar por mim próprio, quero recomeçar a correr (muito) como fazia há um ano e a ter prazer, quero que a roupa me volte a servir, quero voltar a olhar-me no espelho e sentir-me giro, quero ser feliz.

A felicidade divide-se em duas metades.

Uma é estar longe do que é tóxico. A outra é voltar para lá, depois da desintoxicação.

Sinto falta, saudades, de tudo.

Eu disse que amanhã vou a uma consulta de nutrição.

O objectivo nesta fase é acelerar o metabolismo, utilizando a gordura como fonte principal de energia.

Inclui-se nesse objectivo perder dois quilos por semana, oito, num mês.

Nessa altura estarei de regresso à minha vida profissional, entretanto, com alguns projectos novos, que estou a desenvolver, pelo meio (a seu tempo darei conta) e entrarei na fase II do plano.

O objectivo nesta fase é esgotar as reservas de gordura e identificar os elementos que promovem a perda de peso.

São mais quatro semanas.

Um quilo, a menos, por semana.

Estamos a falar de doze quilos.

Daqui a dois meses estarei com o meu menor peso dos últimos quinze anos.

Chegado aqui, à última fase, com o organismo reeducado, com hábitos de vida alterados, com a alimentação bem encaixada no meu perfil físico e psicológico, o principal objetivo é ser capaz de manter e gerir o peso.

Estarei, seguramente, a praticar desporto, como antes, terei deixado de fumar, farei uma alimentação saudável, variada e equilibrada. Estarei a trabalhar. Sinto falta de trabalhar.

Acho que é aquela cena da crise da meia idade, como se quando eu fizer 50 alguém me garanta que vivo até aos 100.

Meia idade my ass.

É uma das minhas palavras preferidas: mudança.

Fica o meu compromisso;

daqui a dois meses, no máximo, estarei de volta e voltarei como nunca antes o fiz ou estive.

Quem me conhece sabe que se há coisa que sou é determinado, obstinado, resiliente, capaz de cumprir aquilo com que me comprometo, sobretudo, comigo próprio.

Depois, pode ser que volte a caber dentro do ecrã da televisão.

Mas, isso já não depende de mim.

Pelo menos dentro dos fatos irei caber, de certeza.

Não sigam o meu exemplo.

Quando entramos pelo cano é difícil sair dele.

Eu sei sair.

Já saí várias vezes.

Estou a sair, neste preciso momento.

Q

 



 

 

10.06.19

PORTEI-ME MAL


The Cat Runner

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Se há coisa que eu sou é um gajo sincero.

Ainda por cima aprendi na escola de jornalismo que devemos sempre respeitar, primeiro que tudo e todos, o leitor.

E, quer queiramos quer não aqui até podemos ser amigos, família, conhecidos mas seremos sempre autor e leitor.

É uma fatalidade.

Feito o devido enquadramento, dizer que me portei estupidamente mal.

Não foi só agora. Já me portei mal em outras ocasiões.

Mas, quem nunca se portou mail?

Eu sei, vivemos num mundo de liberdade absoluta. Não há um único ser humano que nunca se tenha portado mal.

Feito o segundo enquadramento, dizer que aumentei dez quilos em nove meses.

Dá uma média interessante: cerca de um quilo por mês.

Cheguei saturado de Berlim.

Com a corrida.

Vicissitudes!

Confesso que, ao longo do processo de relaxamento extremo – assim o defino – tive a consciência plena do que me estava a acontecer.

Continuo a treinar, mas metade do que era normal.

Sinto-me pesado, com tudo o que dramático isso acarreta.

Não é só a estética. É, sobretudo, gordura em excesso. A gordura mata.

Todos morremos, tudo mata, mas a gordura mata.

Hoje comi o meu último hambúrguer nos próximos meses.

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Comecei este texto com dois enquadramentos temporais e factuais, não que sinta vontade de justificações.

De justificações está o inferno a arder.

Apenas para reforçar o que escrevo e o que escrevo é apenas isso.

Digamos que me tornei num sedentário activo e gozei o momento.

Fiz-me mal, eu sei.

Atravessa-se então, bem em frente aos meus olhos, aquilo que já fiz, assente numa resiliência que não me julgava capaz.

Berlim. Sempre Berlim.

Toda uma estrada de ensinamento e humildade.

Se já fui capaz uma vez o que me impede de ser capaz de novo?

Entramos num processo de consciencialização, um processo que já conhecemos, que sabemos que demora tempo e dá trabalho. Herrar é o mano !

É para isso que nos colocamos desafios, metas, objectivos, para podermos ir vivendo.

Não vou fazer desta etapa um diário mas, com grande probabilidade, irei deixando aqui alguns rastos de tinta, escritos conforme tem de/que ser.

Já percebeu que decidi tomar medidas.

Isso.

O dia zero é agora.

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Não é fácil: queimar dez quilos de gordura.

Mas há um plano.

O objectivo um: Perder oito quilos, nas próximas quatro semanas.

Depois conto.

Portei-me mal, mas admito-o.

Começa agora.

(As fotos são minhas, a música é de um amigo meu).

 

 

 

05.06.19

PARA TI, STEPHANE


The Cat Runner

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Foi aquele abraço, em Berlim, que nos uniu, para sempre. Como dois irmãos de sangue.

E, só nos conhecíamos há dois dias.

Há abraços que são assim.

Berlim e o teu abraço será para sempre a nossa “história” mais íntima.

Hoje recordei a chegada à meta e aquele momento em que cumpriste a promessa que me fizeste à mesa do café do turco.

O abraço.

Olha que as promessas às vezes são levadas pelo vento. Não havia vento, naquela manhã.

Hoje queria ter estado junto de ti.

É por isso que te dedico este texto.

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A corrida tem sido uma dádiva, de pessoas generosas, de momentos irrepetíveis, de sensações inimagináveis, que se prolongam no resto da vida.

Tem-me ensinado tanto do que é ser-se humano.

Sabes, Stephane, no sábado voltei a correr.

Já não corria desde a meia-maratona de Viseu, que serviu como treino de descompressão, logo a seguir à maratona, onde nos conhecemos.

No final dessa corrida, em Viseu, decidi não voltar a participar em provas.

Coisas minhas.

Não vais acreditar, desleixei-me, voltei a fumar, engordei uns bons dez quilos, porque faço tudo em grande e, pasma-te, deixei de ter prazer em correr.

Deixe de sentir prazer.

O tempo foi passando e eu decidi lutar contra ele. Luto todos os dias. Tenho as minhas lutas. Todos temos as nossas lutas.

Comecei do zero. Outra vez. Também gosto de recomeços, acho que te o disse uma vez.

Caminhar, correr, caminhar, correr, comecei a fazer uns exercícios através de uma aplicação, afinal, eu também sou um ser digital, mas correr provas não. Isso é que não. Coisas minhas.

Só que, na quarta feira, a Carla chegou a casa e disse-me:

“Tu não apareces na televisão há bastante tempo, mas continuam a mandar-te convites, isto estava na portaria da TVI”.

As pessoas gostam de bajular as pessoas da televisão e, quando as conhecem e percebem que são apenas pessoas descartam-nas.

Entregou-me um manjerico, um saco, com uma camisola, um dorsal e disse-me:
“Vai, volta a correr, tu és feliz assim, vai, aceita o convite”.

Eu aceitei.

Estou habituado a dizer sempre “sim” aos amigos e, este convite, foi feito por um amigo, dono de uma empresa de eventos de corrida, que nunca, jamais, me pediu o que quer que fosse em troca.

O gesto foi tão simpático que anui.

Decidi, então, ir correr a corrida do Santo António, em Lisboa.

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Sabes como gosto de correr à noite.

Tu sabes, Stephane, porque é que eu gosto de correr;

Para além as experiências sensorais que vivo, das descobertas que faço, do prazer que tenho, para além disso, são as histórias que me tocam, em todas as corridas.

Uma corrida é uma história, dividida em muitas histórias.

Caraças, são sempre histórias bonitas. Tenho tanta sorte.

São as histórias dessa corrida que te vou contar, hoje, especialmente hoje, porque sei que gostas de ler as minhas histórias, sei que ris com elas, que te comoves, que te delicias, porque gostas de coisas genuínas, como eu.

Imagina, acordei cedo, mas fui o último a chegar à linha de partida. Não fiz de propósito, Stephan, é um problema que tenho, chegar a horas.

Já eles iam lá todos à frente quando eu cheguei, já com o aquecimento feito, fruto da corrida que dei desde o estacionamento do Parque Mayer até ao Rossio.

Cheguei exactamente na hora da partida. Só eu.

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Não te contei mas já perdi três quilos na última semana.

Olha, imagina tu que fiz os primeiros três quilómetros como vocês costumam fazer, rápido, a correr, pouco acima dos cinco minutos. Claro que sabia que lá à frente ia arrear. E arreei.

Mas não ia, como nunca vou, preocupado com tempos e ritmos. Fui, pelo prazer.

Fui parando, aqui e ali, para fotografar pessoas e momentos, e mesmo assim abaixo dos seis minutos por cada quilómetro.

Estava um vento abafado e forte, a garganta secava e eu a pensar que era do tabaco.

Não era.

No final havia pessoas a falarem entre si sobre a sua secura, imagina tu, interrompi-as para perguntar se lhe tinha acontecido o mesmo. Olhavam-me, como se olha para um extraterrestre, reconheciam-me, sorriam e respondiam-me que sim, também lhes tinha acontecido.

Tu sabes o quanto eu sou de me emocionar facilmente.

Por tudo e por nada. Ainda hoje, quando trocámos mensagens os dois.

Emocionei-me quando vi famílias juntas, emocionei-me quando vi pessoas de idade avançada, lutadores de uma vida inteira, ali, a cumprirem o seu desígnio.

Gente forte, como tu, gente gentil, como tu, gente de afectos e resiliência, como tu.

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Sabes, há um senhor que eu conheço, mas a quem não conheço o nome.

Lembro-me dele, na vila, desde que me lembro.

Nunca lhe perguntei o nome. Nem desta vez.

Quando me preparava para a nossa maratona encontrei-o várias vezes, ora no passeio ribeirinho, ora no campo da Cimpor, ora no jardim.

Nunca lhe perguntei o nome.

Encontrei-o, depois, várias vezes, nas corridas.

Ele já vai avançado na idade, passos lentos, determinado. A única coisa que nos diferencia a mim e a ele é a idade.

Reencontrei-o na corrida de sábado, reconheci-o pelas costas, pelos passos, pelo ritmo que levava. Pelos cabelos brancos.

Gente da sabedoria, que com eles aprendo.

Passei por ele, rápido, imagina, eu, rápido, porque só assim o conseguia apanhar de frente para lhe tirar o retrato.

Não lhe perguntei o nome.

Há coisas que não se perguntam, para não roçarmos a indelicadeza.

“Vamos, Vila Franca, vamos lá”, gritei-lhe.

“Vamos embora”, respondeu-me.

“E domingo vamos a Leiria ganhar e subir à segunda divisão”.

“Sem espinhas”, gritei-lhe, “Sem espinhas, somos União, somos da Vila”.

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Não sei se a ti incomoda, mas a mim incomoda-me os cheiros, alguns cheiros, quando corro.

Um gajo vai ali no meio do sofrimento, no meio de um prazer que o comum dos sendentários não entende e de repente, vindo como que de um nevoeiro que não existe, aquele cheiro a churrasco, a salsichas, reconheci o cheiro das salsichas, aposto que eram salsichas frescas.

Enquanto alguns milhares de tolos felizes corriam, numa quente noite de sábado, outros tolos divertiam-se, no Village Underground, que é um espaço cheio de autocarros velhos, transformados em escritórios.

É aquela malta que há uns anos eram chamados de Yuppies e hoje são os nómadas do trabalho, acho que é assim que dizem.

O cheiro agoniou-me, ainda por cima com a garganta seca.

Acho que só lhes perdoava se me convidassem para uma imperial, mas eu ia do lado de lá da rua.

Já na volta vi-me de frente com um amigo – um dia hei-de apresentar-te o João .

O João é um amigo que está sempre cá, como tu, para tudo.

Tira-me dúvidas sobre corrida, ele corre há muitos anos, tira-me dúvidas sobre o computador, ele é programador, tira-me dúvidas sobre tudo.

Lá vinha ele, com a Elsa, a sua mulher, ambos com luzes na cabeça e o carrinho de bebé empurrado por aqueles braços fortes.

O João é forte. Tu também és forte.

Parámos, demos um abraço, sempre o abraço. Escreveu-me, horas depois, no Facebook que tinha adorado rever-me. E eu a ele.

IMG_20190601_211243_1.jpg

Tenho saudades tuas, Stephane. Temos que nos ver.

Depois, ouvi gritar o meu nome em alta velocidade, era a nossa Alice. Já não a via há imenso tempo.

Já estava quase a chegar ao fim quando me deixei passar por alguém que me fez parar e ficar ali, estático, a pensar em como somos pequenos perante o nosso destino.

Não irei escrever mais uma palavra sobre ele.

Ele é quem vai aqui, neste vídeo.

Imagina a resiliência, a coragem, a força, sobretudo, a alegria de seguir em frente, depois de tamanhos obstáculos que a vida nos coloca. Não é o destino, é a vida.

E, segue-se em frente.

Voltei a parar, desta vez para ver algo que nunca vi. 

Qual Ronaldo, qual Félix, qual Kipchoge. Este sim, um runner talentoso, ora vê.

Já te deixo ir, deixa-me só contar-te mais esta.

O Hugo Miguel Sousa é o amigo de que te falei, em cima. Ele é dono da HMS, a empresa que organiza as corridas de que te falei, a São Silvestre, por exemplo, que é uma corrida mágica, por ser na altura do Natal, quando a cidade está mais bela do que nunca.

Foi ele que me convidou e organizou a corrida do Santo António.

Mas, sabes o que descobri, Stephane?

Descobri que andamos todos aqui a mentir uns aos outros, a criar mitos, narrativas.

Descobri que o Santo António é uma mulher.

Acredita em mim. Eu sei que acreditas.

Eu passei por ela. Eu tirei-lhe um retrato.

É uma mulher, Stephane.

 

Eu nunca te menti, porque quem recebe um abraço como o que eu recebi em Berlim não consegue mentir.

Depois, já mesmo no fim, reparei que Lisboa está cada vez mais encantadora, bonita, charmosa.

Cheia de gente de fora, turistas, que atravessam as passadeiras enquanto a gente corre, que se metem connosco.

Meteram-se comigo.

Uma das miúdas saiu do grupo, que devia ir em direcção a uma bebedeira qualquer, ou para uma orgia qualquer, ou não sei para onde.

Primeiro mandei-a para um lado obsceno, em português, mas ela, naquele vestido justo e decotado, com padrões de folhas verdes, manteve-se a meu lado, enquanto dizia adeus ao resto do grupo.

Decidi aplicar todo o meu “cámone” e disparei:

“Wanna come?”.

Ainda bem que ela não pensou outra coisa.

“Yes, let´s go”.

Pensei, pensou isso mesmo.

E, deixei-a a falar sozinha, em inglês carregado de álcool.

“Onde é a meta?”, perguntei a um daqueles que ainda andam a correr já depois de terminarem a corrida.

“É ali a trezentos metros, força”.

Entrei no Rossio.

Virei a curva.

Passei a meta.

Vi o Marcelino, que um fotógrafo, sempre presente nas corridas, em Lisboa, vi a Sandra, do Correr Lisboa, uma equipa pela qual tenho enorme estima.

Tirámos fotos, tiraram-me fotos.

A camisola que eu levava é aquela que tu me ofereceste.

A camisola mais bonita da corrida.

Agora, depois deste texto, a camisola que eu mais estimo, com muito afecto, amizade, respeito, arrisco, amor, até.

É linda a camisola que me ofereceste.

Reconforta-me vesti-la, como me reconfortou o teu abraço, como me reconfortou a palavra que me deste e cumpriste em Berlim.

Será sempre a nossa história mais íntima, Stephane.

Muito mais a partir de hoje.

Esta história não teria qualquer importância, nem este texto, nem a minha corrida, não fosse o facto de eu saber que a ias gostar de ler.

Não fosse o facto de eu saber que a ias entender, em cada linha, em cada entrelinha, em cada palavra ou ponto de exclamação.

Não fosse isso não tería qualquer significado.

Assim, Stephane, faz todo o sentido.

Como um ponto final.

Um ponto final é uma mudança de parágrafo.

E, Stephane, o início de cada parágrafo é o começo de uma nova ideia, de uma nova frase, de uma nova vida.

Faz todo o sentido, Stephane.

Tudo faz sentido.

Mesmo quando não faz qualquer sentido.

 

 

 

 

 

 

04.06.19

PARA TI, STEPHANE


The Cat Runner

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Foi aquele abraço, em Berlim, que nos uniu, para sempre. Como dois irmãos de sangue.

E, só nos conhecíamos há dois dias.

Há abraços que são assim.

Berlim e o teu abraço será para sempre a nossa “história” mais íntima.

Hoje recordei a chegada à meta e aquele momento em que cumpriste a promessa que me fizeste à mesa do café do turco.

O abraço.

Olha que as promessas às vezes são levadas pelo vento. Não havia vento, naquela manhã.

Hoje queria ter estado junto de ti.

É por isso que te dedico este texto.

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A corrida tem sido uma dádiva, de pessoas generosas, de momentos irrepetíveis, de sensações inimagináveis, que se prolongam no resto da vida.

Tem-me ensinado tanto do que é ser-se humano.

Sabes, Stephane, no sábado voltei a correr.

Já não corria desde a meia-maratona de Viseu, que serviu como treino de descompressão, logo a seguir à maratona, onde nos conhecemos.

No final dessa corrida, em Viseu, decidi não voltar a participar em provas.

Coisas minhas.

Não vais acreditar, desleixei-me, voltei a fumar, engordei uns bons dez quilos, porque faço tudo em grande e, pasma-te, deixei de ter prazer em correr.

Deixe de sentir prazer.

O tempo foi passando e eu decidi lutar contra ele. Luto todos os dias. Tenho as minhas lutas. Todos temos as nossas lutas.

Comecei do zero. Outra vez. Também gosto de recomeços, acho que te o disse uma vez.

Caminhar, correr, caminhar, correr, comecei a fazer uns exercícios através de uma aplicação, afinal, eu também sou um ser digital, mas correr provas não. Isso é que não. Coisas minhas.

Só que, na quarta feira, a Carla chegou a casa e disse-me:

“Tu não apareces na televisão há bastante tempo, mas continuam a mandar-te convites, isto estava na portaria da TVI”.

As pessoas gostam de bajular as pessoas da televisão e, quando as conhecem e percebem que são apenas pessoas descartam-nas.

Entregou-me um manjerico, um saco, com uma camisola, um dorsal e disse-me:
“Vai, volta a correr, tu és feliz assim, vai, aceita o convite”.

Eu aceitei.

Estou habituado a dizer sempre “sim” aos amigos e, este convite, foi feito por um amigo, dono de uma empresa de eventos de corrida, que nunca, jamais, me pediu o que quer que fosse em troca.

O gesto foi tão simpático que anui.

Decidi, então, ir correr a corrida do Santo António, em Lisboa.

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Sabes como gosto de correr à noite.

Tu sabes, Stephane, porque é que eu gosto de correr;

Para além as experiências sensorais que vivo, das descobertas que faço, do prazer que tenho, para além disso, são as histórias que me tocam, em todas as corridas.

Uma corrida é uma história, dividida em muitas histórias.

Caraças, são sempre histórias bonitas. Tenho tanta sorte.

São as histórias dessa corrida que te vou contar, hoje, especialmente hoje, porque sei que gostas de ler as minhas histórias, sei que ris com elas, que te comoves, que te delicias, porque gostas de coisas genuínas, como eu.

Imagina, acordei cedo, mas fui o último a chegar à linha de partida. Não fiz de propósito, Stephan, é um problema que tenho, chegar a horas.

Já eles iam lá todos à frente quando eu cheguei, já com o aquecimento feito, fruto da corrida que dei desde o estacionamento do Parque Mayer até ao Rossio.

Cheguei exactamente na hora da partida. Só eu.

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Não te contei mas já perdi três quilos na última semana.

Olha, imagina tu que fiz os primeiros três quilómetros como vocês costumam fazer, rápido, a correr, pouco acima dos cinco minutos. Claro que sabia que lá à frente ia arrear. E arreei.

Mas não ia, como nunca vou, preocupado com tempos e ritmos. Fui, pelo prazer.

Fui parando, aqui e ali, para fotografar pessoas e momentos, e mesmo assim abaixo dos seis minutos por cada quilómetro.

Estava um vento abafado e forte, a garganta secava e eu a pensar que era do tabaco.

Não era.

No final havia pessoas a falarem entre si sobre a sua secura, imagina tu, interrompi-as para perguntar se lhe tinha acontecido o mesmo. Olhavam-me, como se olha para um extraterrestre, reconheciam-me, sorriam e respondiam-me que sim, também lhes tinha acontecido.

Tu sabes o quanto eu sou de me emocionar facilmente.

Por tudo e por nada. Ainda hoje, quando trocámos mensagens os dois.

Emocionei-me quando vi famílias juntas, emocionei-me quando vi pessoas de idade avançada, lutadores de uma vida inteira, ali, a cumprirem o seu desígnio.

Gente forte, como tu, gente gentil, como tu, gente de afectos e resiliência, como tu.

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Sabes, há um senhor que eu conheço, mas a quem não conheço o nome.

Lembro-me dele, na vila, desde que me lembro.

Nunca lhe perguntei o nome. Nem desta vez.

Quando me preparava para a nossa maratona encontrei-o várias vezes, ora no passeio ribeirinho, ora no campo da Cimpor, ora no jardim.

Nunca lhe perguntei o nome.

Encontrei-o, depois, várias vezes, nas corridas.

Ele já vai avançado na idade, passos lentos, determinado. A única coisa que nos diferencia a mim e a ele é a idade.

Reencontrei-o na corrida de sábado, reconheci-o pelas costas, pelos passos, pelo ritmo que levava. Pelos cabelos brancos.

Gente da sabedoria, que com eles aprendo.

Passei por ele, rápido, imagina, eu, rápido, porque só assim o conseguia apanhar de frente para lhe tirar o retrato.

Não lhe perguntei o nome.

Há coisas que não se perguntam, para não roçarmos a indelicadeza.

“Vamos, Vila Franca, vamos lá”, gritei-lhe.

“Vamos embora”, respondeu-me.

“E domingo vamos a Leiria ganhar e subir à segunda divisão”.

“Sem espinhas”, gritei-lhe, “Sem espinhas, somos União, somos da Vila”.

IMG_20190604_233604.jpg

Não sei se a ti incomoda, mas a mim incomoda-me os cheiros, alguns cheiros, quando corro.

Um gajo vai ali no meio do sofrimento, no meio de um prazer que o comum dos sendentários não entende e de repente, vindo como que de um nevoeiro que não existe, aquele cheiro a churrasco, a salsichas, reconheci o cheiro das salsichas, aposto que eram salsichas frescas.

Enquanto alguns milhares de tolos felizes corriam, numa quente noite de sábado, outros tolos divertiam-se, no Village Underground, que é um espaço cheio de autocarros velhos, transformados em escritórios.

É aquela malta que há uns anos eram chamados de Yuppies e hoje são os nómadas do trabalho, acho que é assim que dizem.

O cheiro agoniou-me, ainda por cima com a garganta seca.

Acho que só lhes perdoava se me convidassem para uma imperial, mas eu ia do lado de lá da rua.

Já na volta vi-me de frente com um amigo – um dia hei-de apresentar-te o João .

O João é um amigo que está sempre cá, como tu, para tudo.

Tira-me dúvidas sobre corrida, ele corre há muitos anos, tira-me dúvidas sobre o computador, ele é programador, tira-me dúvidas sobre tudo.

Lá vinha ele, com a Elsa, a sua mulher, ambos com luzes na cabeça e o carrinho de bebé empurrado por aqueles braços fortes.

O João é forte. Tu também és forte.

Parámos, demos um abraço, sempre o abraço. Escreveu-me, horas depois, no Facebook que tinha adorado rever-me. E eu a ele.

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Tenho saudades tuas, Stephane. Temos que nos ver.

Já estava quase a chegar ao fim quando me deixei passar por alguém que me fez parar e ficar ali, estático, a pensar em como somos pequenos perante o nosso destino.

Não irei escrever mais uma palavra sobre ele.

Ele é quem vai aqui, neste vídeo.

Imagina a resiliência, a coragem, a força, sobretudo, a alegria de seguir em frente, depois de tamanhos obstáculos que a vida nos coloca. Não é o destino, é a vida.

E, segue-se em frente.

Voltei a parar, desta vez para ver algo que nunca vi. 

Qual Ronaldo, qual Félix, qual Kipchoge. Este sim, um runner talentoso, ora vê.

Já te deixo ir, deixa-me só contar-te mais esta.

O Hugo Miguel Sousa é o amigo de que te falei, em cima. Ele é dono da HMS, a empresa que organiza as corridas de que te falei, a São Silvestre, por exemplo, que é uma corrida mágica, por ser na altura do Natal, quando a cidade está mais bela do que nunca.

Foi ele que me convidou e organizou a corrida do Santo António.

Mas, sabes o que descobri, Stephane?

Descobri que andamos todos aqui a mentir uns aos outros, a criar mitos, narrativas.

Descobri que o Santo António é uma mulher.

Acredita em mim. Eu sei que acreditas.

Eu passei por ela. Eu tirei-lhe um retrato.

É uma mulher, Stephane.

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Eu nunca te menti, porque quem recebe um abraço como o que eu recebi em Berlim não consegue mentir.

Depois, já mesmo no fim, reparei que Lisboa está cada vez mais encantadora, bonita, charmosa.

Cheia de gente de fora, turistas, que atravessam as passadeiras enquanto a gente corre, que se metem connosco.

Meteram-se comigo.

Uma das miúdas saiu do grupo, que devia ir em direcção a uma bebedeira qualquer, ou para uma orgia qualquer, ou não sei para onde.

Primeiro mandei-a para um lado obsceno, em português, mas ela, naquele vestido justo e decotado, com padrões de folhas verdes, manteve-se a meu lado, enquanto dizia adeus ao resto do grupo.

Decidi aplicar todo o meu “cámone” e disparei:

“Wanna come?”.

Ainda bem que ela não pensou outra coisa.

“Yes, let´s go”.

Pensei, pensou, isso mesmo.

E, deixei-a a falar sozinha, em inglês carregado de álcool, que eu sou um homem comprometido.

“Onde é a meta?”, perguntei a um daqueles que ainda andam a correr já depois de terminarem a corrida.

“É ali a trezentos metros, força”.

Entrei no Rossio.

Virei a curva.

Passei a meta.

Vi o Marcelino, que um fotógrafo, sempre presente nas corridas, em Lisboa, vi a Sandra, do Correr Lisboa, uma equipa pela qual tenho enorme estima.

Tirámos fotos, tiraram-me fotos.

A camisola que eu levava é aquela que tu me ofereceste.

A camisola mais bonita da corrida.

Agora, depois deste texto, a camisola que eu mais estimo, com muito afecto, amizade, respeito, arrisco, amor, até.

É linda a camisola que me ofereceste.

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Reconforta-me vesti-la, como me reconfortou o teu abraço, como me reconfortou a palavra que me deste e cumpriste em Berlim.

Será sempre a nossa história mais íntima, Stephane.

Muito mais a partir de hoje.

Esta história não teria qualquer importância, nem este texto, nem a minha corrida, não fosse o facto de eu saber que a ias gostar de ler.

Não fosse o facto de eu saber que a ias entender, em cada linha, em cada entrelinha, em cada palavra ou ponto de exclamação.

Não fosse isso não tería qualquer significado.

Assim, Stephane, faz todo o sentido.

Como um ponto final.

Um ponto final é uma mudança de parágrafo.

E, Stephane, o início de cada parágrafo é o começo de uma nova ideia, de uma nova frase, de uma nova vida.

Faz todo o sentido, Stephane.

Tudo faz sentido.

Mesmo quando não faz qualquer sentido.