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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

19.03.19

O QUILÓMETRO 42 - EM NOME DO PAI - (DIA 99 DA MARATONA)


The Cat Runner

 

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O meu pai tem as mãos largas, os dedos grossos e gretados de uma vida inteira de trabalho.

Viveu mil vidas.

Eu sei que tem mais de mil, ainda, para viver.

Ele costuma dizer que não há-de morrer, pelo menos, antes dos oitenta e cinco anos.

Ele ensinou-me o significado da palavra coragem, da palavra carácter, da palavra amor, à sua maneira, porque nunca é tarde para mostrar o amor que guardamos em nós.

Ensinou-me tanto.

Ensina-me tanto.

Mas, pai, hoje ensino-te eu uma coisa;

ensino-te o que significa a palavra filho.

Tu és o homem que todos os homens deviam ser.

O homem que eu jamais conseguirei assemelhar-me, sequer, porque não tenho a tua bondade, a tua seriedade, a tua simplicidade, muito menos a grandeza do teu sorriso, em mim.

Gostava de ser o avô que tu és, a sério, pai.

Sabes, já corri esta maratona com tanta gente e, conhecendo-te como te conheço, aposto que achaste que não a ias correr comigo e eu contigo.

Pai, tu sabes como eu gosto de fazer surpresas.

Alguma vez eu te ia deixar de fora desta corrida tão intensa?

Guardei-te para o último quilómetro - não digas a ninguém que depois de vermos a placa dos 42 ainda temos que correr os últimos 195 metros, não digas, eu sei que tu guardas segredos, guarda-o - guardei-te para este quilómetro, porque hoje é o “Dia do Pai”, do meu pai.

És meu.

Eu, mais do que ninguém, sei aquilo que sofreste em silêncio, por mim, todos estes anos, todos aqueles quilómetros de Berlim, todos estes quilómetros das nossas vidas inteiras.

Foi por mim, por nós, que a história foi escrita assim, não há histórias perfeitas, pai, não te condenes nunca por isso, porque não há histórias perfeitas.

Há o amor e ele acaba sempre por nos entrelaçar, demore anos, décadas, demore a eternidade.

Nunca é tarde, pai.

Não foi tarde, para nós.

Tu és o homem que todos os homens deviam ser.

Vou aproveitar para te dizer uma coisa, estou aproveitar-me desta corrida, porque ela está a chegar ao fim, para te dizer coisas que nunca te disse.

Nem mesmo naqueles tempos em que a vida nos tentou trocar as voltas, tanto tempo, que ela é uma maluca, nem mesmo nesses tempos em que cada um de nós andava pelos seus próprios caminhos, afastados, te afastei do meu coração e, nunca tive interrogações sobre esta minha decisão, que  foi das coisas mais certas que fiz na minha vida.

Porque nunca é tarde para mostrarmos o nosso amor.

Nós trocámos as voltas à vida, pai, e ganhámos.

Como eu ganhei, quando cortei aquela meta, em Berlim.

Senti-me um campeão do mundo.

Tu és um campeão do nosso mundo.

Imagina, até já treinaste Muay Thai, até já correste uma corrida, imaginavas tu, algum dia ?

Até nesses pequenos instantes me fizeste feliz.

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Sim, estás certo, as lágrimas que deixei inundar os meus olhos, no final, nessas lágrimas escorrias tu, no meu rosto, naquele instante em que a minha boca salgou, porque sorria, como um menino, o teu “menino”.

Serei sempre o teu menino.

Serás sempre o meu farol, quando a escuridão me visitar, porque tu e eu já caminhámos o tempo suficiente no escuro da vida.

Vou contar uma história,

quando era criança a minha avó levava-me todos os dias a passear na “Rua do Chave D´ouro”.

Parávamos sempre em frente à montra da loja das bicicletas.

Eu adorava deambular entre os triciclos, as motorizadas, as bicicletas de mil cores.

Ainda hoje sinto o cheiro da borracha dos pneus novos que pairava na loja e tu encostado lá ao fundo, ao balcão, a conversar, conversas que eu nunca escutava, porque nada nem ninguém me fazia desviar daquele sonho.

Era branca.

Recordo a cor, branca e linda.

Aquela que eu jamais conseguiria ter, porque tu eras um pai que insistia em guardar os teus afectos para ti, porque não eras homem de dar presentes por dá cá aquela palha. Só nos momentos certos.

Recordo a cor, branca e linda.

E, recordo aqueles dias mágicos, quando ia-mos tomar café ao Filimar. Eu, tu e a mãe, que o mano ainda não tinha nascido.

Pois, hoje digo-te, aquele foi um dos dias mais felizes de toda a minha vida.

Era inicio de tarde, lembras-te?

O sol aconchegava, apesar da brisa saborosa que corria na vila, naquela tarde quando tu, eu e a mãe entrámos no café - o que eu adorava ver-te e as teus amigos a jogar snooker, naquelas mesas tão grandes e tão bonitas.

  • “Zé, olha ali uma bicicleta igual àquela que tu gostavas de ter”.

Parece que a estou a ver, encostada à parede, à entrada do Filimar.

Brilhava, branca e linda.

Confesso-te que, neste momento, anda sinto o cheiro da borracha dos pneus novos.

Olhei-te, cá debaixo.

Vi, pela primeira vez na vida o brilho do teu olhar, vejo-o agora, outra vez.

  • “É tão bonita, pai”.
  • “Pega nela, vai dar uma volta”.
  • “Não posso, pai, não é minha”.
  • “Pega nela, vai dar uma volta. É tua”.

Depois perdi a minha memória, apenas me lembro que era o filho mais feliz do mundo.

Imagina, mais de 40 anos depois, ainda lhe sinto o cheiro da borracha dos pneus novos e ainda estou, pasmado, a ver o brilho do teu olhar.

Nesse dia o céu tocou a terra.

Como numa noite, aquela noite em que fomos pai e filho, de pleno direito.

Levei-te, foi comigo que foste, pela primeira vez ao Estádio da Luz, tu de um lado, o meu filho, teu neto, ao meio e eu do outro lado.

Os três, ali, juntos, pela primeira vez, lado-a-lado, passos sincronizados, coisas de homens.

Subíamos a rampa, para ver um jogo que a memória não me deixa lembrar.

Os três de mãos dadas.

Tu e o Rodrigo sorriam porque iam à bola.

Tu ias conhecer o estádio do teu Eusébio, o Gu ia ver os bonecos da Playstation, em carne e osso.

Eu sorria porque, pela primeira vez, éramos pai, filho e neto.

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Mãos dadas, os três. Felizes, cada qual à sua maneira.

Os netos são os nossos filhos, disseste-me.

Por mil anos que viva nunca irei conseguir agradecer o amor que entregas todos os dias aos meus dois filhos.

Que orgulho gigante que o Gu e a Maria têm em ti.

E, eu.

Tao gigante, gigante, como só tu.

Nessa noite a nossa história, a tua e a minha recomeçou, alinhou-se, encheu-se de tudo o que de mais belo existe, porque nós deixámos a escuridão perdida no tempo e derrotámos as trevas.

Foi, provavelmente, a noite mais marcante da minha vida.

O instante em que eu te chamei pai, pela primeira vez, com o P maior que existe em qualquer abecedário do amor.

  • “Estou tão feliz, pai, nunca imaginei que um dia ia à bola, contigo e com o Rodrigo”

Quando me levavas contigo, para irmos ao Cevadeiro, ver o nosso União, nunca me levavas pela mão, eu sei que querias, mas eu era assim.

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Hoje, não deixo a tua mão, larga, gosto de sentir os teus dedos grossos e gretados de uma vida inteira de trabalho entrelaçados nos meus.

Acalma-me, sossega-me, faz-me sentir forte, faz-me sentir o campeão do mundo.

Foi teu, o primeiro telefonema que recebi depois de acabar a maratona que me trouxe até aqui.

O teu orgulho, naquilo que eu acabava de ter feito, a preocupação na tua voz, a doçura das tuas palavras, filho, chamaste-me filho, lembras-te?

- "Como é que estãs, filho, estava tão preocupado?".

Até àquele momento eu não tinha atendido um único telefonema, eu não estava em mim, a emoção que me invadiu depois de cortar aquela meta acompanhou-me até casa, enquanto caminhava sozinho, por não ter coragem de chorar de alegria em frente a mais ninguém.

Já tinha chorado demais.

Que raio, nunca é demais, quando choramos por sermos felizes e, até isso tu ensinaste-me, a chorar de alegria, como naquela tarde, quando me deste a bicicleta, como naquela noite, em que fomos os três à bola.

E, tal como em Berlim, nunca me viste chorar de alegria.

Ainda hoje não consigo meter em palavras aquele instante que durou uma vida.

A tua e a minha.

Apenas alguns metros, desde que deixei a Carla, a Maria e todos aqueles amigos que guardarei para sempre em mim, alguns metros, solitários, até casa,  só eu, metros que ainda hoje me pareceram os mesmos quilómetros fantásticos e mágicos que tinha acabado de correr.

Tão mágicos quanto a tua voz.

Tão mágicos como o teu amor.

Naquele pedaço de tempo voltei a sentir-me menino.

O teu menino.

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Foi por isso que as lágrimas que deixei inundar os meus olhos, quando passei aquela meta e cheguei ao fim, foi por isso que nessas lágrimas, partilhadas com uma multidão de afectos, também escorrias tu, no meu rosto, naquele instante em que a minha boca salgou, porque sorria, como um menino, o teu “menino”.

Nunca te o disse, vou dizer-te, olhos nos olhos, quando te juntares a mim, no final deste quilómetro tão cheio de tanto.

Vou dizer-te, olhos nos olhos, porque quero voltar a ver o brilho do teu olhar, como naquela tarde em que me mandaste pegar na bicicleta branca e linda e me empurraste para um caminho onde fui tão feliz.

A minha maratona está a chegar ao fim.

Ai de ti que não estejas a meu lado quando fizeres 85 anos, porque tu, sim, tu és um corredor de fundo.

Já gahaste tantas maratonas, os filhos que perdeste, o cancro que derrotaste, os ataques de coração que tiveste, vejo-te, quando saiste de maca do hospital de Vila Franca, para Lisboa e nos olhaste, a mim e à mãe e disseste "eu quero voltar para junto de vocês".

E voltaste. E estamos juntos, até ao fim desta corrida.

Sim, porque tu és um homem de palavra.

Tu és o homem que todos os homens deviam ser.

Quero-te dar amor, todo o amor que te fiquei a dever.

Feliz dia, Pai.

Entrámos nos últimos 195 metros!