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por The Cat Runner, em 26.01.19

O QUILÓMETRO 35 - SOBRE CORAGEM - (DIA 92 DA MARATONA)

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(Foto: Francisco Cunha Cerca)

 

Esta semana apanhei um vídeo, nas redes sociais, que me levou até Berlim, Setembro do ano passado.

O vídeo tem apenas três minutos.

Durante três minutos voltei a sentir tudo o que senti naquela manhã de domingo, as lágrimas, os sorrisos, as dores, os tremores, o desespero, a esperança, a crença, a união, a amizade, o amor.

Antes de continuar, para perceber melhor aquilo que escrevo, aquilo que senti, aquilo que sentirei, para sempre, porque aquela manhã de domingo será eterna, para se colocar no meu lugar, prometo que não lhe passo as dores, mostro-lhe o vídeo, depois continuo.

 

Não sei se reparou, mas estamos no quilómetro trinta e cinco desta longa corrida, demorada, como foi a minha primeira maratona.

Mas, tal como aconteceu em Berlim, aquilo que me prometi, aquilo que prometi a alguém, o compromisso, será até ao fim e já faltou mais.

Faltam apenas sete quilómetros. Apenas?

É este o ponto forte desta crónica, quando mil metros parecem cem mil, quando um passo parece um pesadelo, pesado, muito pesado, quando as ideias ficam lá para trás, quando aquilo que mais queremos é chegar, abraçar, sorrir, porque no fim, nas horas seguintes, não dá para muito mais.

Nas horas seguintes dá para conhecer o purgatório, um sítio algures entre o bem e o mal, entre a dor  e o prazer.

O vídeo que acabou de ver levou-me, de novo, a Berlim.

Menos gordo, menos pesado, se calhar, melhor preparado, em relação ao homem que desespera, eu revi-me neste vídeo.

Eu passei por aquilo.

Eu passei por aquilo, sabendo que aquilo me ia acontecer, mas por muito preparado, sobretudo, mentalmente, que estejamos, nunca imaginamos aquele momento, aqueles momentos, onde tudo se confunde, onde tudo parece ser um abismo sem fim, onde nada acontece por acaso, porque nada acontece por acaso.

Tal como aquele homem gordo, pesado, se calhar, mal preparado, eu também tive o incentivo de muita gente, durante a corrida.

As pessoas que assistiam à corrida, os voluntários oficiais, a família, alguns amigos, eu tive o apoio que aquele homem teve daquele voluntário.

Mas eu tive mais.

Tive os meus dois parceiros durante todas aquelas horas, a meu lado, a levarem-me desde que começou até que acabou.

Sem eles não creio que tivesse acabado.

Por isso, se voltar a ver estes três minutos, deste vídeo, vai perceber, em definitivo, o real valor de muitas das palavras que costumo usar quando escrevo sobre as corridas.

Mas, uma dessas palavras acompanha aquele homem gordo, pesado, se calhar, mal preparado, ela acompanhou-me durante aquelas cinco horas;

coragem.

A coragem ao alcance de quem acredita em si, de quem acredita nos outros, de quem quer alcançar.

Eu alcancei.

Aquele homem gordo, pesado, se calhar, mal preparado, também alcançou.

Gostava de o conhecer.

Gostava de debater a superação, gostava de ouvir o som da sua vez e, no fim, dava-lhe um abraço, como aqueles que dei, no fim, em Berlim.

Abraços sérios.

Para milhões de pessoas correr uma maratona é nada, fácil, chegam a ter prazer todo o tempo.

Para milhões de pessoas correr uma maratona é tudo.

Para mim foi ir do céu ao inferno e voltar.

Sim, eu fui e voltei!

Entrámos no quilómetro 36!

 

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publicado às 18:46


por The Cat Runner, em 21.01.19

O QUILÓMETRO 34 - SIMPLESMENTE, QUARESMA - (DIA 91 DA MARATONA)

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Quando a corrida se mistura com o futebol, com a amizade, com a viagem que é a nossa vida.

Simplesmente, Quaresma.

A única ligação que eu tenho ao jogador de futebol, o das trivelas, é que somos primos em quarto ou quinto grau, por parte do meu pai, de quem um tio dele era primo direito, mas do meu avô.

Qualquer coisa deste género.

Tirando isso conheço o Quaresma e o Quaresma conhece o Quaresma por força da minha profissão e da dele.

Ao que consta Quaresma nunca jogou na Alemanha, mas não imagina que, em Berlim, ele esteve presente entre nós.

A nossa comitiva acidental, acidentalmente boa, nesta aventura mágica que foi a maratona, decidiu que aquele restaurante de esquina, do qual o nome não fixei, sería o nosso refeitório.

Em Berlim os restaurantes são caros, para as nossas carteiras, para as carteiras das pessoas da Europa de segunda (ou terceira) e o “Turco” - assim ficou conhecido entre nós - tinha variedade de pratos, era barato e, melhor que tudo, tinha uma esplanada, a esplanada da foto.

Usámos e abusámos do “Turco”, um homem baixo, cabelo preto, rosto gorduroso, devido às horas que passava em frente ao fogão, óculos com lentes tão, mas tão grossas e embaciadas, que até lhe permitiam ver vídeos, no pequeno telemóvel.

O “Turco” tinha tudo aquilo que precisávamos e, por isso, era lá que nos juntávamos, mais que não fosse para beber um café e trocar uns dedos de conversa fraternal.

De simpático ele não tinha nada, limitava-se a aceitar os pedidos, a cozinhar e a dar instruções aos empregados.

Quatro dias ali e parecia que já nos conhecíamos há anos, nós, a nós, nós, a ele.

Já sabíamos de letra os turnos em que estava a miúda, tarde/noite, o horário do turco mais novo, noite/madrugada e horário do chefe, o “Turco”.

Dava a sensação que ele fazia todos os turnos. Vim de lá com essa crença.

O restaurante estava aberto praticamente vinte e quatro horas por dia, o que era fantástico, para nós e para ele, dada a facturação, mas isso são coisas do “Turco”.

A carta tinha, obviamente, especialidades turcas, mas também tinha massas, pizzas, bifes, sandes fantásticas e servia muito bem as nossas intenções. E, a esplanada.

Almoçámos lá, jantámos lá, lanchámos lá, por vezes íamos apenas descansar, na esplanada, entre um café e os tais dedos de conversa. Histórias que não se repetem, porque a História não se repete, isso é um dado adquirido.

Foi lá, na esplanada do “Turco” que eu escrevi, algures nestes quilómetros, que chorámos todos com as nossas histórias, fruto, creio eu, do momento que se aproximava;

a minha primeira maratona, mais uma maratona para os restantes. Aprendi que sempre que se corre uma maratona passa-se pelo mesmo processo, sempre, as expectativas, os receios, os medos, até.

Contámos histórias que nos uniram naquele único propósito: Berlim!

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O “Turco” marcou-nos a todos, arrisco em dizer, cada um à sua maneira, como tem que ser.

Mas, como bons portugueses houve um momento em que o “Turco”, fizemos acontecer esse momento, do nada, em que o “Turco” sorriu para nós.

Ele parecia viver ali, em frente ao fogão, quase sempre de costas voltadas para o balcão, para os clientes.

Uma dessas noites, uma das mais marcantes desta aventura, fomos jantar “em família”, embora alguns de nós tivessem jantado noutro lugar, por força da distância entre os nossos apartamentos.

Naquela noite fomos apenas as famílias de sangue, mais a nossa Carla e a nossa Alice.

O “Turco” demorava a atender-nos.

Levantei-me, fui direito ao balcão e perguntei-lhe se podia fazer o pedido.

Deu-me a lista, com a mão direita, enquanto a mão esquerda virava o hambúrguer, coberto de cebola.

Num ápice, junto à lista, os copos, os guardanapos, os pratos, os talheres. Eu que levasse para a mesa.

Levei.

Ficámos ali à conversa, como sempre, já com umas cervejas a acompanhar-nos, quando no demos conta;

o “Turco” estava com pressa, muita pressa.

Estava a chegar a hora de jantar, o relógio batia na meia noite, mais coisa menos coisa, o que ele queria era despachar-se.

Mas, não era para jantar.

Sentado naquela mesa de dois lugares, dedos grossos e gordurosos, ele ria à gargalhada, gritava, gritava impropérios, tenho a certeza, pelo menos ouvi-lhe um sonoro “skime”, que é como quem diz, em bom português, F…se!

O “Turco” não jantava, ele passava a hora de jantar a ver vídeos no Youtube, vídeos do seu grande amor, que o levava a gritar, em pleno restaurante, a plenos pulmões, vídeos que já devia ter visto milhares de vezes, mas que provocavam nele as mesma s reacções, todas as noites.

Eram vídeos do Beşiktaş, provavelmente, o maior clube da Turquia.

Pois, isso…

Quaresma.

É lá que (ainda) joga o português Quaresma.

O que nós rimos à gargalhada!

Levantei-me, esperei que ele acabasse de ver aquele vídeo, não fosse levar-me ou fazer-me mal, tamanha era a sua devoção, fanatismo ou amor, não fosse ele pensar que eu queria pedir mais um hambúrguer e que, por isso, ia interromper a sua hora de jantar golos e trivelas bem medidas, com tudo o que ele tinha direito, tudo menos cebola frita e gotas de suor a escorrer-lhe pela testa.

Esperei e atirei-lhe, em inglês:

- Sabe como me chamo?

Levantou os olhos para mim, sem nunca largar o telemóvel, e sorriu, pasmado, sem perceber o que se estava a passar.

  • Chamo-me Quaresma!

Percebi que não estava acreditar. Contei-lhe então a história do tio do Quaresma, o Alfredo Quaresma, antigo jogador do Belenenses e do primo, em segundo grau, o Helder Quaresma, o meu pai.

Não queira ver a alegria do homem!

Pela primeira vez sorriu como deve ser, levantou-se, mostrou-me aquele golaço de trivela que estava ver no Youtube.

Apertou-me a mão e sentou-se, de novo, como uma criança deliciada.

Voltou a colocar os olhos no pequeno ecrã do telemóvel e ali continuou.

Ele e nós.

Nos dias seguintes recebeu-nos sempre de forma calorosa.

Por segundos, quando chegávamos, deixava o fogão para nos cumprimentar.

Já era um avanço.

Gostava de ter tirado uma foto com ele, mas jamais ia interromper, outra vez, aquele momento sagrado.

Um dia hei-de saber o nome do restaurante.

Até lá será sempre o “Turco”, o restaurante daquele homem baixo, cabelo preto, rosto gorduroso, devido às horas que passava em frente ao fogão, óculos com lentes tão, mas tão grossas e embaciadas, que até lhe permitiam ver vídeos, no pequeno telemóvel.

Entrámos no quilómetro 35!

 

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publicado às 18:53


por The Cat Runner, em 19.01.19

O QUILÓMETRO 33 - A MORTE NÃO NOS LEVA QUEM NOS TOCA NO ROSTO - (DIA 90 DA MARATONA)

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Este quilómetro vai ser quase impossível de concluir.

À medida que corro vou ficando cada vez mais de rastos.

A corrida já vai longa.

É um quilómetro triste, numa altura em que faltam longos nove quilómetros para chegar ao fim.

Tem sido uma maratona muito mais dura do que alguma vez a imaginei.

Muito mais implacável, muito mais difícil, muito mais cruel.

Vamos no dia noventa.

São noventa dias, já, consigo, lado-a-lado, ao meu lado, como foi em Berlim, com os meus dois parceiros.

Noventa dias de felicidade, de orgulho, de tristeza, de dor, de esperança, de superação.

É uma das palavras que aprendi: superação. A todos os níveis, em todos os patamares, em qualquer condição. Sem condições.

Desde que isto tudo começou, até este quilómetro, morreram duas pessoas de quem gosto muito.

Morreu o meu amigo Grilo, violentado todos os dias e à sua memória, nos Media sem coração, nas redes sociais carregadas de lixo humano. Morreu às mãos de alguém, mas não o deixam ter a paz dos mortos.

Em Berlim corri por ele, com ele. Foi ele quem me acompanhou dentro da minha cabeça em permanência.

Os outros milhares de frames que me passaram pela pensamento foram e vieram, mas ele esteve sempre comigo.

Ontem morreu a Maria José!

Nunca lhe consegui chamar “Zézinha” ou “Misé”, como os mais íntimos.

Sempre a tratei por “directora”. A "directora que sorri".

Felizmente, para mim, sobretudo, para mim, ao contrário do mal que o mundo continua a fazer ao meu amigo Grilo, com a Maria José tudo é diferente, a começar, desde logo, pelas circunstâncias da sua morte.

Ela não foi assassinada por um ou mais monstros em forma humana.

Não foi um ser humano que lhe roubou o sorriso.

Ela morreu por causa de um ataque de coração fulminante.

Desde ontem, ao percorrer as redes sociais, onde o lixo humano se deposita, não vi em momento algum um único comentário reles, depreciativo, baixo, sobre ela. Sería difícil, mas no meio do lixo encontra-se de tudo. Não vi. Ainda bem que não vi, porque só eu sei o que me magoa ler piadas, opiniões, montes de merdas escritos por montes de merdas, sobre o meu amigo.

São textos e textos e textos belos, bonitos, dóceis, de afecto, de amor e de amizade, textos que a Maria José merece.

Ela personifica tudo o que de bom um ser humano tem, ou deve ter, dentro de si.

Quando a conheci, há uns cinco anos, no primeiro momento, disse à minha mulher: “agora só nos faltava aqui uma bruxa”!

Foi por causa do seu rosto que, apesar de bonito, era fechado, e escondia, naquele momento, um sorriso que só depois aprendi a decifrar.

Conheci-a quando foi apresentada a toda a redacção da TVI, mas a primeira vez que me dirigi a ela foi no refeitório, porque precisava de falar com alguém da direcção.

Não sei porquê, sempre tive grande empatia com o Zé Alberto, desde que tirei o curso de jornalismo, há vinte e cinco anos. Foi a ele que me dirigi, mas foi ela quem me respondeu.

Era a milésima vez que eu tinha sido atirado para um canto, precisava que me ouvissem, precisava de ouvir, precisava que perceber se eu era mesmo "aquilo" que me fizeram sentir.

“Vai ter comigo ao meu gabinete a seguir ao almoço”, e sorriu-me, sem mais.

A Maria José sorria permanentemente, descobri-o depois.

“Enganei-me, ela não é nenhuma bruxa, o seu semblante fechado guarda sempre um sorriso”, disse à minha mulher, porque nós trabalhamos juntos e a porcaria do trabalho está sentado no meio de nós no nosso sofá, à mesa, no quarto, seja onde for.

Entrei no seu gabinete, “senta-te”, convidou-me, enquanto abria a cigarreira e retirava um cigarro que guardava entre os dedos, juntamente com o isqueiro, enquanto conversávamos.

“Então, o que se passa contigo?”.

Desabafei, naquele momento, desabafei com alguém que nem sequer conhecia minimamente, mas que estava na disposição de me escutar. Senti a sua preocupação e, estranhamente, porque não nos conhecíamos, senti um grande afecto vindo daquele rosto que me tinha enganado num primeiro momento.

Contei-lhe o que sentia, a revolta, a frustração, a injustiça, falei-lhe daquilo que mais amava, sim, amava, na forma passada, fazer em televisão, aquilo que me completava e que era apresentar, não para me tornar conhecido, nada disso, isso eu dispenso, dispensava, apenas porque adorava estar em frente a uma câmera a desafiar-me.

É o desafio que me empurra, não perceber isso é não entender nada da condição humana.

Ela entendeu, à primeira, na primeira conversa.

Contei-lhe que, de tempos a tempos, encostavam-me, tiravam-me do ar, para onde voltava para tapar buracos de folgas ou de ausências de colegas, porque nunca na vida fui a almoços com ninguém, falei-lhe dos meus anos de profissão, do que fiz, do que não me deixaram fazer, do que queria fazer, ela escutava, contei-lhe que as pessoas seguiam o meu trabalho há mais de vinte anos o reconheciam, me transmitiam esse reconhecimento, quase todos os dias mas que dentro de portas me tratavam como eu nunca o mereci.

Dependeia de quem mandava.

Depende sempre de quem manda!

A Maria José tinha acabado de chegar à TVI, integrada na nova direcção de informação, com o José Alberto carvalho e a Judite de Sousa.

Não conhecia pessoalmente nenhum dos três.

Tinhamo-nos cruzado aqui ou ali, conheciamo-nos dos ecrãs, mas não mais do que isso.

Ela passou uma boa meia hora a ouvir-me, a escutar-me, com aquele leve sorriso permanente e os olhos doces, guardando o cigarro, apagado, entre os dedos e o isqueiro na outra mão.

Eu só precisava daquilo, de nada mais e ela deu-me, mas deu-me o resto.

Vi-lhe nos olhos o afecto, naquele momentoe a prendi a decifrar o sorriso, mesmo quando era dura, como tem que ser.

A partir dali foi o meu anjo da guarda, a minha confidente, a minha amiga, a minha melhor directora.

Poucos dias depois o Director de Informação chama-me para me dizer, já passaram uns cinco anos, puta que pariu isto, que eu era uma cara da TVI e não fazia sentido estar fora.

Ia voltar a apresentar notícias, que me preparasse!

Assim foi.

Havia mão dela.

A mão dela.

Dei uma entrevista ao Diário de Notícias, a pedido do jornal, sobre o meu regresso e voltei a fazer aquilo que mais amava fazer na televisão.

Durou pouco, apenas o tempo que durou aquela direcção, mas foi tão bom!

Pelo meio, imensas vezes, a Maria José chamava-me ao seu gabinete ou convidava-me para irmos lá fora fumar um cigarro, embora eu não fumasse, nessa altura.

"Anda, vamos fumar e conversar".

E falávamos sobre tudo, a família, os amigos, os problemas dos outros, os nossos, a TVI, falávamos enquanto durava um cigarro, ou dois.

Por entre os noticiários que me deixou voltar a apresentar entregou-me a enorme responsabilidade de acompanhar, gerir, produzir, editar e apresentar tudo o que tinha a ver com desportos náuticos, na TVI, com total liberdade.

Foi assim que fiz a América Cup todas as provas mais importantes.

Não podia falhar, por ela. Nunca falhei.

Foi assim que voltei a viajar pelo mundo, que voltei a sentir que tinha valor, que voltei a ser um profissional feliz, estimado, respeitado, acarinhado, um homem feliz.

“Tens que ser tu a ir, se não fores tu eu não fico sossegada”, dizia-me, quando por qualquer motivo eu não podia estar presente nesses eventos, ou nas reuniões de produção, fosse onde fosse.

Por ela, eu ia, desmarcava tudo e ia.

Não era uma troca de favores, era uma questão de lealdade do coração.

A lealdade ao alcance de apenas alguns.

Ontem, a Maria José morreu.

Foi a minha muher que me informou por mensagem, sem mais "morreu a nossa Maria José Nunes".

Nós choramos, eu e a Carla, e todos os que tiveram a sorte de se cruzar com ela, porque nos lembramos todos daquilo que ela fez por todos.

Vai continua a cuidar de nós, eu sei disso, o seu olhar e o seu sorriso disseram-me isso, ontem, quando, a custo, adormeci.

Uma mãe, uma irmã, uma amiga, uma confidente, uma conselheira, uma directora, a melhor que alguma vez tive, nesta longa maratona que tem sido a minha carreira.

A Maria José não morreu, não!

Ainda agora, neste momento em que me arrepio ao escrever esta linha, reparo no seu olhar doce e no seu sorriso subtil, mas permanente.

Ainda agora sinto a sua mão na minha face e choro, porque nunca ninguém me tinha feito uma festa no rosto, com tanto afecto, como naquele momento em que saí do seu gabinete.

Só que hoje, Maria José, hoje agarro-te a mão, com a minha e não te deixo largar o meu rosto.

Acho que nunca te larguei a mão.

Tu nunca a tiraste do meu rosto.

Gosto muito de ti, minha querida amiga.

Porque se há alguma coisa que tu foste para mim, neste mundo de merda que é o nosso, foi amiga.

Entrámos no quilómetro 34!

 

 

 

 

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publicado às 19:52


por The Cat Runner, em 09.01.19

O QUILÓMETRO 32 - EXORCIZAR A NEGRITUDE - (DIA 89 DA MARATONA)

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Prazer.

Prazeres há muitos, seu palerma, diria Vasco Santana, no filme, se soubesse o que eu sei hoje.

Uma das coisas que mais gosto de fazer, mais prazer me dá é correr.

A outra é escrever.

Correr dá-me liberdade, permite-me ser apenas eu e ser feliz.

Escrever exorciza-me a negritude que, por vezes, me invade.

Dois actos, uma liturgia.

Gostava de escrever mais, mas a minha corrida, no último ano e no início deste tem tido imensas pedras no caminho, não as suficientes para construir o tal castelo.

Nem um Super-Homem é sempre o Super-Homem, basta ver quando tira a capa.

Começámos a corrida deste ano, ainda vamos no princípio e quase nada mudou, a não ser o calendário.

Não comi as doze passas, na mudança do ano, algo que já deixei de fazer há alguns anos, em primeiro lugar porque não gosto de passas comidas assim à bruta, depois porque não acredito em coisas dessas.

Gosto de sultanas com mel.

Há um ano, em vez de comer as doze passas decidi correr a maratona.

Este ano, nem isso, não decidi nada. Tudo o que me acontecer irá acontecer porque tem que acontecer. Já não tenho estômago para comer passas por imposição.

Este é o primeiro quilómetro deste novo ano. Doze meses.

Faltam dez, para acabar esta maratona, neste blog, que me é tão especial, tão meu, tão único.

Aqui, sou eu, mais do que em qualquer outro lugar.

Se há algo em mim que gosto, gostar é diferente de ter prazer, essa coisa é levar até ao fim aquilo com que me comprometo.

Foi assim em Berlim. É assim há uma carrada de tempo.

Assim será esta saga, até ao fim, já faltou mais, faltam os tais doze quilómetros para chegar aso quarenta e dois. Doze quilómetros de escrita, como quantos mesmos faltam para voltarmos a virar o calendário e a acreditar que o mundo corre ao nosso lado.

Depois, independentemente daquilo que me possa acontecer irei escrever um livro.

Sem objectivos comerciais, sem querer parecer escritor, sem querer o que quer que seja senão ser eu mesmo, como o fui e serei toda a vida.

Um livro diferente dos que já escrevi, um livro meu.

Entre os dias, este ano já corri uma meia dúzia de vezes, não destoando do habitual.

Voltei a treinar Muay Thai, um ano depois de ter parado, por causa da maratona, e por força das saudades daquela família, onde me sinto querido e acarinhado e por força dos quilos que ganhei desde Setembro.

Iniciei-me, desta forma, na gastronomia do exercício, criei um novo parto, a entremeada de desporto, Muay Thai às segundas, corrida às terças, e assim sucessivamente, dia sim, dia não. Ao fim de semana não treino. Em um desses dois dias vou namorar.

Pego na mão dela e vamos caminhar para o passeio ribeirinho, que o rio continua lindo. Depois descanso.

Acaba por ser um treino, porque caminhamos oito quilómetros, mas é mais do que isso, é um momento exclusivo. Afecto, amor.

Só que, os treinos e as corridas, não funcionam apenas para me manter activo, feliz, eles servem, sobretudo, para segurar a auto-estima, para que ela não venha por aí abaixo porque, garanto, quando ela cai é extremamente difícil voltar a vir cá a cima.

Resiliência, foi o que me ensinou Berlim.

É uma palavra feia, mas cheia de força.

Aprendi a conhecê-la no ano passado, antes, durante e depois da maratona.

A maratona de Berlim teve várias consequências. Ensinou-me outras coisas sobre mim próprio.

As boas, tem vossa excelência lido por aqui, as menos boas reservo-as, na sua maiora.

Uma delas, por incrível que pareça foi retirar-me o prazer de correr. Dessa eu não estava à espera.

Sobrecarga física e emocional. Obrigação. 

Correr uma maratona é personificar a metáfora da nossa própria vida. É mesmo.

Não é uma prova de corrida.

Para mim não é, por isso, dificilmente, irei correr outra. Vivi essa catarse, chegou-me.

Admiro que gosta de correr maratonas, pelo prazer de correr, mas admiro mesmo.

Eu não tive esse prazer, apenas luta, luta titânica, uma batalha contra mim próprio e contra os quilómetros, lentos, lentos e lentos. Foi assim que quis que fosse. 

Desistir era olhar-me ao espelho e ver um homem fraco.

Fui, fomos, até ao fim.

Mas gosto de correr e irei correr até que o corpo me obrigue a parar.

Voltando à terra,

a escrita faz-me sentir outro, não faz sentido não escrever todos os dias, só que é isso que acontece e não tem sido por falta de tempo, infelizmente. Tenho tido todo o tempo do mundo, infelizmente.

Não sei se acontece a mais gente, mas quando sinto em baixo, quando as coisas não me aparecem, nem parecem como eu quero, às vezes basta um telefonema desanimador, perco a vontade, a vontade de correr, a vontade de escrever, a vontade de fazer as coisas que mais prazer me dão.

Bicho estranho, o ser humano, não me bastava ser bicho do mato.

Ando para aqui às voltas, dia-após-dia, à procura da meta, de uma meta que não se consegue ver quando estamos no início da corrida, por fica muito longe.

À medida que vamos correndo e gastando os quilómetros a meta continua invisível, ela só começa a vislumbrar-se no último quilómetro, mas para isso é preciso lá chegar.

É preciso ter força, ter forças.

Ter pernas e pulmões, alma e coragem, paciência e uma mão apertada, agarrada à nossa.

Resiliência,

independentemente daquilo que me possa acontecer irei escrever um livro.

Vou começar hoje.

Depois vou treinar Muay Thai.

Exorcizar a negritude.

Antes disso vou correr.

Basta-me ser feliz durante essa janela de tempo.

Amanhã começa tudo outra vez.

Entrámos no quilómetro 33!

 

 

 

 

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publicado às 17:08


Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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