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Faltam 17 quilómetros para chegar ao fim.

A escrita já vai cansada, dura, mas resiliente.

Adoro desafios, passo-me com desafios, são os desafios que me guiam todos os dias há 49 anos. Dia-após-dia.

Mais que não seja, o desafio de me levantar da cama. É um desafio, sobretudo, em dias como estes, frios, chuvosos, nebulosos, como eu gosto.

Sou um tipo às cores, mas gosto do Outono e das suas tonalidades, do seu frio, aconchegado pela lareira. Foi um aparte.

Adoro desafios e, correr é cada vez mais um desafio, porque a idade também vai correndo e tudo pesa muito mais, ano-após-ano, há-de lá chegar e constactar.

Correr passou a ser um desafio constante na minha vida há já cinco anos. Ou só há cinco anos.

Soubesse eu o que sei hoje.

Vejo-os, aos corredores, passar a alta velocidade e fico feliz, não com aqueles malandros que não sabem mudar de esquina, mas com aqueles malandros que começaram a correr, inspirados nas minhas corridas e, hoje são autênticos bichos. Com esses fico feliz.

Fazem-me lembrar os jornalistas, a quantidade de jornalistas que formei, ao longo destes anos, que me passaram pelas mãos e que hoje estão aí, a fazer as suas coisas, felizes, sem serem malandros, ou ainda assim, malandros.

O malandro aqui é no sentido positivo da palavra, seu eu quisesse dar o sentido mais próximo usava a palavra cabrões, ou filhos da puta, ou assim.

Não faça juízos errados da palavra malandro, neste texto, aqui tem um significado fofinho

Malandro que é malandro não estrilha, muda de esquina.

Sou um tipo que quase toda a vida viveu acima do seu peso, há quem viva acima das suas possibilidades, mas esta frase faz-me lembrar aquele governo que nos ia matando a todos.

Não gosto dela, só a adapatei.

Quando me nasceu esta louca ideia, poucos acreditaram que eu conseguisse correr uma maratona. Não me conheciam bem.

Muitos me apoiaram, depois de começarem a acreditar. E, começaram a conhecer-me melhor.

Fico e sou feliz por mostrar e provar o contrário.

Fui para Berlim com 79 quilos, uns três quilos a mais do que devia, mas fui, e fiz, e acabei e tornei-me maratonista.

O grande campeão Carlos Lopes dizia-me há uns meses, em Viseu, quando lá estive a convite do meu amigo Jorge Quaresma, na última prova em que participei do circuito Running Wonders, que eu não era maratonista.

Insinuou que nem eu nem a maioria dos que correm maratonas, por prazer.

Claro que, ao pé dele, nem um protótipo de maratonista eu seria e, por estranho que possa parecer,  concordei com o campeão, que me inspirou e inspira desde Los Angeles.

Ainda assim, respondi-lhe: "eu sou maratonista"!

Ele sorriu e deu-me uma suave palmada nas costas.

Ele foi profissional das corridas, eu sou profissional da comunicação, como outros são profissionais de outras áreas.

Garantidamente, Carlos Lopes nunca faria um “directo” ou apresentaria um telejornal tão bem como eu, por isso ele nunca seria um homem da comunicação.

Por isso, eu não sou maratonista. O que ele disse, da forma como o disse faz todo o sentido.

Sou apenas um tipo que começou e terminou uma maratona.

Por isso a maioria dos “malandros”, com aspas, e não malandros, sem aspas, onde me incluo, nunca serão maratonistas. O Carlos Lopes é.

Só que isso não nos retira, a uns e a outros, o orgulho de dizermos que somos maratonistas, que corremos uma maratona, porque para nós é isso que somos, é isso que nos sentimos, foi isso que fizemos.

Eu corri a maratona de Berlim e tornei-me num homem diferente, mais feliz, mais de bem com a vida e com os outros, não só por ter terminado aquilo, mas porque sei que continuarei a inspirar homens e mulheres (gordinhos) a tornarem-se activos, saudáveis, felizes, como eu. Isso eu sei.

Os últimos cinco anos provam o que digo.

Na verdade, a distância que eu mais gosto de correr são os dez quilómetros, que me deixam à beira do abismo, mas  inundado de prazer por todos os poros.

Só corro meias maratonas ou porque fui embaixador oficial de um circuito (uma vez), ou porque de tempos a tempos gosto de me colocar à prova, para lá dos desafios diários.

Ver como estou e o que consigo fazer, só por isso, ok, também porque como conheço centenas de pessoas das corridas, aproveito para matar saudades e, divirto-me.

Faço umas trê sou quatro meias maratonas por ano. Chega-me.

Não que as meias me dêem prazer, muito menos a maratona.

Mas, pelos motivos acima explicados.

Quanto aos cinco quilómetros, aquilo, para mim, é uma espécie de ejaculação precoce, pouco mais.

Os dez quilómetros, isso sim.

E, vou confessar, os dez quilómetros que mais gozo me dão, em prova, são os da São Silvestre de Lisboa, a cada 29 de Dezembro, em cima do Natal.

É magia.

As luzes, a cidade, as pessoas, o cheiro das castanhas assadas, a névoa, os abraços.

Magia.

Nas corridas longas, o meu "problema" é simples, por isso corro-as, de tempos a tempos, cada quilómetro que eu venço numa meia maratona (e na maratona, porque hei-de correr mais umas quantas) traz-me uma alegria imensa, aquele sentimento da superação ja tantas vezes falado, mas que é real, aquela sensação que me empurra, porque se eu quero, eu consigo.

Um mantra.

Se eu quero eu consigo.

Tem tudo a ver com motivação. Inspiração. Assim levo a vida. Assim vim de Berlim.

A maratona foi um dos meus maiores desafios, desde os treinos até o dia da prova. Todo este processo obrigou-me a olhar para a vida de maneira diferente e ao cortar aquela meta percebi que tudo aquilo que queremos só depende de nós, nunca dos outros, somos nós que comandamos a nossa vontade, a nossa força, o nosso querer, somos nós o nosso próprio exemplo. Foi isso que conclui, para além da maratona, não me canso de sublinhar isso, eu acabei aquele cena.

Mostrei a mim mesmo o controlo emocional que desconhecia, os limites físicos que nunca tinha enfrentado, a vontade de chegar, de ser o que sou. Vim de lá com isso.

Aprendi a ser mais humilde, a jogar como a minha própria fragilidade, mas também aprendi a força que tenho.

Aprendi a usá-la, a meu favor.

Aprendi a usar tudo isto, nestes meus desafios diários, que é viver, sobreviver, tentar ser exemplo, tentar ser feliz, tentar fazer quem me rodeia feliz, e já lá vão 49 anos.

Desde Setembro que sou outro homem. Em todos os aspectos. Obrigado, Berlim.

Depois da me tornar maratonista, apesar do meu querido Carlos Lopes achar o contrário, fiquei com uma certeza;

Para mim, o céu é o limite.

O inferno é só o caminho para lá chegar.

Entre mim e Deus, venha o diabo e escolha.

Que a mim não me agarram.

Sou um malandro, sem aspas.

A quantidade de vezes que eu já mudei de esquina, nesta rua da vida.

A maratona de Berlim só veio mostrar-me o caminho.

Entrámos no quilómetro 26 !

 

( Be Happy )

 

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Não, este texto não fala sobre se deve ou não deve praticar sexto antes de correr, era o que mais faltava, eu meter-me na cama entre si e o seu par, nem pensar!

Este texto tem a ver com segurança.

E, se pensa que lhe vou deixar conselhos sobre como controlar a natalidade durante o acto, tire o preservativo da chuva, perdão, o cavalinho. Na verdade dê-lhe o nome que quiser, vai tudo dar ao mesmo, sexo!

Enquanto corria nas ruas de Berlim, há dois meses e meio - parece que foi há séculos - confesso que pensei, muitas vezes, na segurança.

Berlim é uma cidade daquelas, a maratona é a mais rápida do mundo e uma das mais conceituadas, tudo era possível acontecer. Pensei nisso, enquanto me divertia, enquanto corria.

Só quando as dores começaram a tomar conta do meu corpo é que me esqueci da segurança, esqueci-me de tudo.

Ali por volta do quilómetro 24 lembrei-me de uma notícia que tinha lido, um mês antes de partir para a minha grande aventura.

Aeroporto de Berlim, Schonefeld, Agosto de 2018.

O mesmo aeroporto onde aterrei e onde levantei, curiosamente, um dos piores e mais pequenos aeroportos onde alguma vez estive, nem parecia Berlim.

Durante uma revista normal de bagagem os funcionários, grandes como torres, deviam calçar para aí o 52, barrigudos, detectaram um objecto suspeito na mala de um passageiro.

Acharam eles que era uma bomba.

Mal sabiam eles que, durante a maratona, quem quisesse metia ali as bombas que entendesse, tal era a falta de segurança, pelo menos, eu senti-a.

O terminal do aeroporto foi evacuado (aprenda, não se evacua pessoas, as pessoas é que evacuam, mas isso não vem agora ao caso, evacua-se instalações e não só). O dono da mala foi detido temporariamente e levado para uma zona exclusiva.

Os agentes alemães precisaram de uma hora inteira para perceber que objecto era aquele.

Eu precisei de cinco horas para correr a maratona.

Não creio que alguém tenha aguentado cinco horas, a não ser com ajudas extra, tal como eu. Na corrida, bem entendido.

Posso dizer, com propriedade, que sou um verdadeiro maratonista (rir).

Depois dessa tensão toda (eu disse tensão) os agentes lá perceberam, com alguma surpresa, que a bomba era pacífica (rir, de novo).

Quero dizer, ela provoca estragos, mas em bom.

O que parecia ser um engenho explosivo era, afinal, um brinquedo sexual (nome pomposo para vibrador).

O passageiro confessou que o tinha comprado umas semanas antes, ele e a namorada.

Quanto ao uso, dê largas à sua imaginação, porque eu, como disse em cima, não me meto no meio, nestas coisas.

Este episódio foi animando a minha corrida, apenas isso, porque enquanto se corre poucas coisas são compatíveis, embora se transpire imenso, se atinja, por vezes, aquela sensação de orgasmo, embora tenhamos imenso prazer, mas são poucas as coisas compatíveis com a corrida, muito menos se ela fora longaaaaaaaaaaa, a corrida.

Eis quando, por volta dos 24 quilómetros dou de caras com uma situação embaraçosa.

Preferia ter sido apanhado com um vibrador dentro da mala.

Enquanto o pelotão corria, alguns pré-humanos, uma raça que não é exclusiva de Portugal, existe em todo o mundo,  atravessavam a estrada de um lado para o outro, uns iam a pé, a correr, podiam ter-se juntado a nós, mas não, e outros com bicicletas pela mão, podiam ter ido a pedalar, mas não.

Dou comigo a pensar, credo, numa Major Marathon é esta a segurança?

Bem sei que, garantir a segurança de mais de 40 mil pessoas ao longo de mais de 40 quilómetros só mesmo se fossemos chefes de estado ou assim, ainda assim…

Lembrei-me da história do vibrador, quando vi aquela gente a faltar ao respeito a quem corria, a colocar em perigo quem corria, a menosprezar quem corria, ainda por cima a pagar, e bem, e lembrei-me da história do vibrador só que, desta vez, não lhe achei graça nenhuma.

Pensei, isso sim, que estávamos ali, todos vulneráveis, durante algumas horas.

À mão de semear.

Confesso que, enquanto tive forças para correr e pensar ao mesmo tempo, só pedia para que não acontecesse nada que, ironicamente, meses antes esteve para acontecer;

Um atentado, falhado, em Berlim. Basta pesquisar as notícias. Eu tinha feito essa e outras pesquisas, porque preparei bem a minha primeira maratona.

Pensei em Boston, até porque na viagem para Berlim conheci um mexicano, o meu amigo Art Torres, que tinha cruzado a meta em Boston poucos minutos antes do atentado.

Pensei em milhares de coisas, enquanto tive forças para pensar.

Pensei que podia acontecer alguma coisa nas Portas de Bradenburg, onde estavam milhares de pessoas.

Depois, depois perdi as forças, e deixei-me ir, sem pensar em nada, como acontece sempre que perdemos as forças, sabe a que me refiro.

Só não fumei um cigarro, depois, no final, porque quando se corre não se fuma.

Ou estava a pensar que perdi as forças por outro motivo?

O brinquedo sexual era do outro senhor, não era meu.

Não me "fecundem".

Entrámos no quilómetro 25!

 

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( Em Berlim aprendi o significado da palavra gordo, perdão, da palavra Brezel  )

 

As coisas são como são e ponto final.

Conheço pessoas que vendem a alma ao diabo para terem “quinze” minutinhos de fama.

Conheço diabos que vendem a alma às pessoas, antes pelo contrário.

Isto para fazer uma pergunta e dar a reposta que eu sou um diabo e não vendo a alma a ninguém, porque só tenho uma, a pergunta é:

quem de nós nunca viu uma publicação na internet do género “saiba como perder oito quilos em oito semanas”?

Os “quinze” minutinhos de fama.

Neste caso, aqui, eu faço o papel do anti-herói, porque sempre gostei das antíteses, a exposição de ideias opostas, vou fazer o quê?

Fiz a pergunta, dou a resposta, que eu cá não engano ninguém, como o diabo.

Todos nós já vimos publicações como aquela a que fiz referência, eu já vi, vejo todos os dias.

Junte-se-lhe os sumos detox, as dietas milagrosas e os fat burner e a alma acaba vendida ao diabo. Não tenha a mínima dúvida. 

Pois bem, aqui não se explica como se perde peso, aqui explica-se como se ganha peso, embora, não possa inferir deste texto que o que aqui acabo de escrever é uma sugestão, um conselho, uma dica, nada disso.

Digamos, antes, que fui possuído pelo diabo, esse maldito, que sorri com os dentes amarelos.

Podia estar a brincar e até estou.

Quando fui para Berlim, para correr a maratona, já lá vão oito semanas, se a memória não me trai, que eu já não vou para novo e isto falha, de vez em quando, levava comigo 79 quilos.

Sou um tipo de estatura larga, por isso, a mim, não se aplica a fórmula altura vs peso.

Tenho 1,74m se pesasse 74 quilos tinha ar de doente.

Os 79 ou 78, 77, vá, é o meu peso ideal.

Cheguei a Berlim com 79 e com 79 de lá vim, apesar das Shoarmas, dos haburgueres, dosBrezel, por incrível que pareça, não comi uma única salsicha.

O diabo esconde-se nos detalhes, como dizia a costureira. Acho que era a costureira que dizia.

Quatro semanas depois estou oito quilos mais gordo, sem espinhas, sem remorsos.

Não vou ensinar como se faz, basta comer, comer bem, beber uns copos, com ponderação, às vezes e, confesso, fumar um ou dois cigarros por dia. Até isso eu consigo deixar ontem.

Depois da maratona, lá está, senti que tinha tido os meus “quinze” minutinhos de fama, vai daí, como qualquer pedante, vendi a alma ao diabo.

A ideia era;

se corri a maratona posso pecar como uma freira louca.

Claro que eu sabia os custos, mas cá entre nós, pecar é a melhor coisa do mundo.

Depois, paga-se o preço, mas valeu pelo prazer.

Durante estas oito semanas, à conta da aventura de Berlim, comi e bebi que nem um louco, ou que nem uma freira, com todo o respeito que tenho pelas sis .

A bem dizer vinguei-me, mas como tudo na vida, tenho uma explicação.

Passei nove meses a levar com filmes, mais filmes, treinos, mais treinos, comida controlada, cenas lixadas que me aconteceram, blá, blá, blá.

A paixão (que tenho pela corrida) começou a dar lugar a algo que nunca antes tinha sentido.

Uma espécie de stresse disfarçado de prazer, porque não havia como voltar atrás.

Momentos houve em que me apeteceu mandar tudo para o "cesto da gávea" (Google explica).

Só que quando corro, leve o tempo que levar, nunca volto para trás, mesmo que o prazer me abandone e me deixe ali, estupidificado.

Quando voltei para Portugal decidi parar de correr, porque o que eu faço na vida faço por prazer e já não tinha nenhum - refiro-me à corrida, ok? -.

Quis, de novo, voltar a ter prazer, por isso decidi parar, até voltar a vontade.

E, pequei.

Pequei como se não houvesse amanhã.

Os Brezel deram lugar a grelhadas mistas, a dobrada, codornizes, mousse de chocolate, pastéis de nata - isso é certinho -, choco frito e um sem número de orgasmos.

A seguir, claro, um cigarrinho.

Fiz alguns treinos de ginásio, não os suficientes para equilibrar a balança e ela desequilibrou-se, a favor do diabo.

Foi assumido, eu sabia o que ia acontecer, porque já tinha sido este eu, sabia o que ia passar para voltar a ser o outro eu.

Oito semanas e oito quilos depois, decidi voltar a calçar os ténis (sapatilhas não é para mim, que sou do Ribatejo e sempre disse ténis), voltei a sentir o cansaço grande, os olhos a arderem por causa do suor, voltei a fechar os olhos e a deixar-me ir.

Voltei a correr, como me dá mais prazer, sem me armar aos cucos, que já tenho fama que me chegue. Se tenho a fama que tenha o proveito.

Foi assim que tudo aconteceu.

Lento, muito lento, que carregar estes quilos todos é de bradar aos céus, ou aos infernos.

Hei-de lá chegar, aos 77, 78 ou 79 quilos, eu sei que sim, porque se há alguém que me conhece bem, esse alguém sou eu. Só eu.

O diabo nem sabe quem eu sou, ele só conhece o que eu lhe quero dar a ver.

Incha diabo.

Incha ele e incho eu, que é assim que me sinto, inchado, giro, mas gordo.

Agora é tempo de voltar a ficar pintarolas.

Voltei a correr e a ter prazer.

Só assim vale a pena.

Só assim sei viver.

Costumo dizer aos meus alunos que, quem quer fazer televisão tem que saber rir de si, em primeiro lugar. Mostro-lhes o vídeo que me catapultou para a fama, quando perdi o pivot, em directo. E rimos muito. Como agora, neste momento, quase meia noite e eu a rir.

Eles acreditam em mim.

Eu acredito em mim.

Sou como eles, ainda sonho coisas boas.

Sei rir de mim, antes de qualquer outra pessoa.

Não preciso que me digam: "estás mais gordo", porque se assim for vejo-me obrigado a responder "e tu estás mais parado do cérebro", porque constatar aquilo que é o que se vê acaba por ser um exercício de profunda burrice, digo eu, que gosto de mim mais ou menos assim, menos assim, oito quilos menos.

Estou mais gordo. 

Vou ficar mais magro.

Na segunda feira recomecei a correr, todos os dias, como antes, com prazer, como gosto.

Só não gosto quando estou na passadeira e chega um bimbo altamente perfumado, deixando um rasto por onde passa, agonia.

Detesto bimbos.

Quem é que vai perfumado para um ginásio?

Só mesmo quem vendeu a alma ao diabo, ou quem, eventualmente, anda à procura dos seus “quinze” minutinhos de fama. 

Amanhã volto à rua.

Correr na rua é como a vida, como na vida, encontro muitos bimbos, enquanto corro, mas pelo menos não me agonio com o perfume deles.

Dou-lhes distância.

A léguas.

Não vá o diabo aparecer-me ao caminho e vender-me a alma.

A dele.

Que a minha não está à venda.

Entrámos no quilómetro 24!

 

 

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Eu confesso que não fiz de propósito.

Corri, aqui, o quilómetro 21, o da meia maratona, numa corrida que entremeou as palavras dando-lhes um carácter metafórico; a meia maratona, a metade da vida.

Se eu quisesse que fosse de propósito não ia conseguir que, o quilómetro 22, o primeiro depois da viragem da metade, o início da segunda parte da corrida, coincidisse com o dia do meu aniversário.

Hoje faço 49 anos.

I-na-cre-di-tá-vel !

Eu nunca imaginei chegar até a esta fase da “prova”, eu nem sequer me imagino a correr para o fim da corrida.

Leva-me este dia de aniversário de volta a Berlim, à minha primeira maratona.

Estreei-me com 48 anos, era um jovem.

Uns cinco quilos depois - tenho-me baldado um tudo nada -, que precisei de me desligar da obrigação de correr, dou comigo a pensar se algum dia eu irei correr mais uma qualquer maratona, tirando esta, a da vida, esta eu, se pudesse, correria eternamente.

Não me apetece morrer, um dia, sei lá.

Mas, não somos (até ver) eternos.

Há-de estar a pensar: o que é que a maratona tem a ver com o aniversário dele, a não ser a ligação entre a meia maratona e a segunda metade da vida?

Pois bem, digo eu, que sou quem está a escrever e a correr, tem muito a ver.

Já percebeu que eu não me limito a contar episódios que me aconteceram na maratona, em Berlim, eu pego nesses episódios e comparo-os com pensamentos, meus, reflexões, minhas, situações que vivi, e crio estes textos, corro esses quilómetros.

Também já reparou, por isso, que eu não retrato, em rigor, cada quilómetro que corri e que aqui escrevo. Senão, isto não tinha piada, era cansativo, mais do que correr a maratona, e ninguém  ia ler o que eu escrevo, com tanta dedicação e alma.

Foi uma fórmula que eu decidi seguir e que tem resultado, as pessoas leem, anseiam pelos textos, as que leem, porque se divertem, aguardam pelo próximo quilómetro e isso, tal como na maratona, em Berlim, faz com que eu não páre e siga até ao fim.

Chama-se incentivo, apoio, atenção, chega a chamar-se afecto, eu acho. Eu acho que as pessoas que me leem têm afecto por mim e eu tenho imenso respeito por elas, de outra forma não seria capaz de escrever, sem respeito.

É um turbo que dá power nesta corrida saborosa, por vezes dramática.

Escrever é dramático, para quem escreve, embora seja saboroso.

Muito bem, eu hoje faço anos, eu corri a minha primeira maratona, faz daqui a três dias dois meses e, tal como naquele domingo de Setembro, também hoje, neste dia especial, bastante especial (em breve explicarei porquê, que agora não posso, nem devo) recebi uma mensagem daquelas que jamais irei perder de vista, jamais irei deixar escapar do meu coração, jamais irei permitir que dela não me lembre.

Tal e qual como a mensagem que recebi em Berlim, depois do maior feito da minha história, a nível fisico e mental.

Muitos parabéns, amor da minha vida”, apitou o telefone, bem cedo.

Agradeci-lhe e disse que comecei o dia a correr.

“Gosto de saber que comecaste o dia dos teus 49 anos cheio de energia”.

Disse-lhe que vamos ficar juntos para sempre, como sempre lhe prometi.

“Sim…juntos até sermos velhinhos”.

É uma ideia que temos desde os nossos 15 anos, altura em que nos conhecemos e começamos a namorar, até hoje. Acabar a nossa vida, juntos, velhinhos.

"Muitos parabéns, velhote", esta ela nunca me tinha dito. E não me soou mal de todo, dito por ela.

Esta mensagem, devido a circunstâncias, que serão conhecidas em outra altura, encheu-me os olhos de sal, rasos de Lezíria, como canta a canção.

Fez-me sorrir de orelha a orelha mas, aquilo que provocou em mim, foi uma clara definição que há muito eu tinha perdido de vista: eu sou um homem feliz!

Foi a Carla, o grande amor da minha vida quem me enviou a mensagem.

Foi a ela que eu escolhi para ficar a meu lado a vida toda.

Foi a mim que ela escolheu para ficar a seu lado a vida toda.

Apesar da vida.

Apesar das armadilhas da vida.

Apesar das distâncias da vida.

Só a vida tentou trair o nosso amor, nunca conseguiu e nunca irá conseguir, porque ele é para sempre. Para lá da vida, até.

Agora, entrado na segunda parte da maratona, tenho a certeza que ficaremos de mãos dadas até que apenas a morte no separe. Apenas ela.

E, nem isso será um dado garantido, porque nós seremos um só, para lá da eternidade.

Quando estava entre o quilómetro 41 e o 42, o último da maratona, em Berlim, numa altura em que estava emocionalmente de rastos, como acho que nunca tive, dei de caras com a Carla, numa lateral da avenida, a escassos metros das Portas de Bradenburg.

Foi o maior dos abraços das nossas vidas.

Hoje, não será possível dar-lh esse abraço, não seria tão forte e intenso, como aquele, será difícil abraçar-nos, como naquela manhã. Mas, sería tão mas tão bom.

Fundimo-nos e assim ficámos, para sempre.

Hoje recebi a mensagem que me encheu os olhos, a alma, o coração e o sorriso.

Naquele dia de domingo, a Carla publicou a foto desse nosso abraço, dado em Berlim, na recta final da maratona.

 

O sonho ia ser real, como quando sonhámos ser marido e mulher.

Nunca antes ela tinha tido tamanha manifestação de amor, por mim, publicamente, tirando o dia do nosso casamento.

Ela gosta de passar discreta. Eu gosto dela assim.

Naquele dia não, naquele dia, depois daquele abraço, ela sentiu, decidiu, que o mundo devia saber a nossa história, a sua versão.

Naquele dia, naquele domingo, ela publicou a foto do abraço, a mesma deste texto (repetida, hoje, deliberadamente) com uma mensagem que me calou ainda mais fundo do que aquela que eu recebi hoje.

Dizia assim:

“Foi este o momento que fez tudo valer a pena”.

A Carla, desde o início, soube aquilo que significava para mim correr uma maratona, o simbolismo, a transcedência, o ir para lá de tudo, para tudo provar, para tudo selar.

Aquela fotografia selou o ciclo.

O ciclo terminou.

O ciclo começou.

A mensagem dela falava dessa fotografia.

A mensagem dela falava de nós.

Hoje, aqui, digo-te eu, digo ao mundo, não chega dizer-te obrigado. Não chega, nem nunca chegaria.

Uma palavra não chega para uma vida inteira, quando dois são um e assim serão, para todo o sempre.

Havemos chegar a velhinhos, de mãos dadas, lado-a-lado, como sempre sonhámos.

Como eu te prometi, quando eramos miúdos e eu comecei a namorar com a miúda mais gira do liceu.

Amo-te, para sempre, meu amor.

Entrámos no quilómetro 23.

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Berlim 2018

 

Chegámos à meia maratona.

Agora, falta-me metade, até cortar a meta, até atingir o meu objectivo.

Um pouco como com a vida, dentro de dias faço 49 anos, já vou na correr para a segunda metade da corrida e, pelo que me parece, a passos largos.

Dispensava tanta velocidade, corro mais ano a ano que quilómetro a quilómetro e isso inquieta-me.

Inquieta-me, porque penso que o tempo fica curto, porque há tanta coisa que quero fazer, transformar, viver, que fico com a impressão que já não tenho tempo para tudo.

Gastei tempo mais do que devia ter gasto. O tempo é das poucas coisas que não se recupera, nesta vida, nem na outra.

Em Berlim, por esta altura, na maratona, também tinha essa noção, não ia conseguir cumprir o tempo definido.

O meu treinador, o José Carlos Santos tinha-me dito que “quando chegares à meia maratona reavalias o teu estado, se estiveres bem corres mais rápido, se estiveres cansado abrandas a velocidade”.

Como com a vida, eu sabia que ia estar cansado, que não ia conseguir ser mais rápido, afinal, tinha treinado tanto, tinha corrido tanto, sabia, sabia o que me acontecia ao corpo a partir das duas horas de corrida, sei o que me tem acontecido  enquanto homem grande, a partir dos 40 anos.

Sou mais maduro, sou mais responsável, sou mais consciente, mais experiente, sou intelectualmente mais evoluído, mas os quilómetros cansam, pesam nas pernas, vale o coração e a coragem, que isso só depende de mim. Isso leva-me onde quero, custe-me o que me custar!

Depois, passa uma música no Spotify - que na maratona, em Berlim, não usei o telemóvel, mas na vida estou sempre com os fones nos ouvidos - e sinto-me de novo com coragem para os quilómetros que faltam, embora se pudesse evitava-os.

Evitava, mesmo, mas não posso, nem na maratona, em Berlim, eu os pude evitar.

São uma obrigação, enquanto a respiração fica mais e mais ofegante.

Ninguém gosta de envelhecer, por muito que se convença que o passar dos anos faz de nós pessoas melhores. faz, é um facto, mas não gosto. Não nos torna, apesar de tudo, pessoas mais fortes.

É a lei da natureza, a seguir ao Verão vem o Outono.

“Papa Was a Rolling Stone”.

Ouço, lembro-me, sigo correndo e vivendo, enquanto vou cantarolando, para mim próprio, sem que ninguém mais ouça.

Em Berlim, por esta altura, em vez das duas horas e dez, já ia com duas horas e vinte.

Sabia que estes dez minutos a mais iam transformar-se no dobro, à medida que o cansaço se ia apoderando das minhas pernas, malditas.

O que não me passava pela cabeça é que em vez de correr mais vinte minutos do que o planeado ia acabar com mais quarenta.

Longe de mim imaginar as dores de alma e de pernas, até de braços, que ia sentir e que me impediam de ser tão “leve” quanto os meus companheiros e todos aqueles milhares que iam lá à frente, à minha frente.

Não podemos ser bons em tudo, somos bons em quse nada, nada.

Lembrei-me depois daqueles milhares que ficaram atrás de mim. Isso é um facto.

Uns partem, outros chegam, outros ficam a meio.

Seja como for, os planos sairam-me furados, naquele momento, neste moment, na meia maratona, em que tinha que reavaliar a minha corrida sairam furados.

Daqui a dias faço 49 anos, é na próxima terça feira.

Será um aniversário especial, por ser diferente dos outros aniversários.

Tenho-me lembrado da segunda parte da maratona de Berlim. Foi a partir daí que o meu sofrimento se tornou real, único e quase insuportável.

Espero que até terça não se-me massacrem os músculos, e que a partir de terça em diante se-me não massacre a alma, porque tenho mais uma meia maratona para correr, até ao fim da linha.

Filhos para ver, mulher para amar, pais para adorar, irmão para abraçar, amigos para sorrir-lhes.

Enquanto isso a voz negra continua a cantar “Papa Was a Rolling Stone” e é aí, nesse momento inspirador, que vou buscar a coragem, cerrar os dentes, ganhar forças inimagináveis, para seguir em frente, rumo ao fim.

Um dia, daqui a uns tempos, conto-lhe porque é que escrevi esta crónica desta forma e não de outra.

Entrámos no quilómetro 22!

 

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