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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

13.09.18

BERLIM DO NOSSO CORAÇÃO ( DIA 54 DA MARATONA )


The Cat Runner

O Francisco e a Alice vão ajudar-me a ser maratonista.

Pedi-lhes que escrevessem um texto, antes da nossa aventura.

Hoje publico o texto da Alice.

Fixem o nosso nome: RAINBOW RUNNERS

Espero que gostem.

É de elementar justiça.

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Para ti que estás a 42 quilómetros e 195 metros de te tornar MARATONISTA!

E para ti Francisco, que também ajudaste a que eu seja MARATONISTA!



Há cenas do caraças, escrevias estes dias na legenda de uma fotografia.
E eu digo-te que Berlim vai ser do caraças.
Não tenho dúvidas.
Na tal fotografia, eu, tu e o Massuça cruzávamos a meta do Grande Prémio de Natal na Avenida da Liberdade. Foi a primeira vez que o fizemos juntos!

Corremos os últimos metros da Avenida contigo e foi uma alegria.

Devo confessar que aquele dia (que acabaria por ser um dos piores da minha vida) talvez tenha sido o último dia em que sorri e me ri sem medida e me senti plenamente feliz!

Depois disso, já na corrida do Primeiro de Maio, já com a tua maratona no horizonte, não corremos juntos. Depois dos primeiros quilómetros “pediste-me” que me fosse embora.

Eu fui, mas cheguei contigo à meta do estádio 1.º de Maio.

Corremos juntos os últimos metros, mas desta vez senti que devias cortar a meta sozinho!
Tinhas lá o teu pai e o seu abraço à tua espera!

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Em Berlim, vamos correr juntos.

Mesmo que nos mandes embora. Vamos cortar a meta juntos e contigo vamos escrever a tua “história” de Maratonista!

Sim, daqui a uns dias vais poder dizer e escrever: eu sou MARATONISTA (assim mesmo em maiúsculas).

E vamos ter muitos abraços no final!

A mim vão-me faltar alguns, mas abraço-os quando chegar a Portugal.

Lá, em Berlim, terei os vossos e das vossas famílias que são também a minha família! Família que a corrida me deu!
Esta aventura “montou-se” tal qual a preparação de uma maratona! Tal qual a própria corrida.

Um quilómetor de cada vez!

E, aquilo que há uns meses parecia impossível, está prestes a acontecer!
Será a minha quarta maratona, também a quarta que vou correr com o nosso companheiro desta aventura, o Francisco, e a tua primeira.
Tenho a certeza que será marcante nas nossas vidas.

E, uma vez mais vou poder dizer e contar o tanto que a corrida me dá!
Obrigada aos dois por me “deixarem” fazer parte desta Rainbow Aventura!

Da vossa Rainbow “sis” Runner,


Alice no País das Sapatilhas!

( Alice Vilaça )

12.09.18

BERLIM, CURTO E GROSSO ( DIA 53 DA MARATONA )


The Cat Runner

O Francisco e a Alice vão ajudar-me a ser maratonista.

Pedi-lhes que escrevessem um texto, antes da nossa aventura.

Hoje publico o texto do Francisco.

Fixem o nosso nome: RAINBOW RUNNERS

Espero que gostem.

É de elementar justiça.

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Berlim, curto e objectivo.

Nesta altura em que escrevo este texto estou quase na reta final para a partida, para dizer “presente”, em mais uma maratona, a de Berlim.

Não será apenas mais uma, será uma Major e a minha décima terceira, sim, treze corridas de 42 quilómetros e 195 metros.

Também será a mais especial de todas porque a meu lado vão dois AMIGOS , dois "IRMÃOS ", dos melhores seres humanos que conheço e que a corrida me deu.

O José Gabriel Quaresma e a Alice Vilaça.

Ao contrário do que aconteceu em cada uma das ocasiões anteriores, em que tinha algumas dúvidas sobre que poderia estar para vir, pois tinha sempre algumas reservas sobre os treinos que realizava, sobe o estado físico, sobre o meu estado geral, em matéria de saúde, nessas alturas duvidava até de minha sanidade mental, imagine?

Mas, acima de tudo, tinha receio, bom, quero dizer, algum receio!

Mas nesta NÃO!

Nesta sinto-me tranquilo, sereno, objectivo, acima de tudo muito confiante .

E, é com essa confiança que ganhei nas milhares de horas e nos cinquenta mil quilómetros que ja percorri no alcatrão e na estrada da vida que vou correr correr esta maratona, em Berlim.

Porque ela é muito especial!

Porque é a primeira do Zé!

Porque a Alice também vai!

Porque temos a família e os amigos verdadeiros do nosso lado, e lá estrão no final, porque eles vibram connosco, mas também porque há uma história de superação enorme por trás desta aventura.

Esta corrida, pode e vai mudar as nossas vidas!

Pra melhor!

Viremos de lá ainda mais amigos e muito mais Felizes!

Se for preciso, partir-me-ei todo, até posso ficar com "caganeira" ( desuclpe o termo), mas vou até ao encontro do mais íntimo do meu ser, para levar os meus dois queridos amigos até ao fim.

Pode ter a puta da certeza !

Do vosso,

Rainbow Runner, Francisco Cerca!

11.09.18

DIAS DE RAIVA ( DIA 52 DA MARATONA)


The Cat Runner

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Está a chegar ao fim um dia normal.

Um dia que, há 17 anos, foi tudo menos normal.

Não vou cair nos clichés porque, obviamente, o 11 de Setembro, há 17 anos, mudou o mundo tal como o conhecíamos até então.

Sublinhar isso é gastar linhas de texto. Isso é para as redes sociais, as frases feitas, vazias de conteúdo.

Há 17 anos eu achava que tinha a vida toda pela frente. Tinha 31 anos, um filho, uma profissão que amava, ganhava dinheiro, faltava-me muito pouco. Depois, depois cresci.

Cresci porque a vida me obrigou, cresci porque aquele dia mudou-me, não mudou apenas o mundo tal como o conhecíamos até então.

Mudou-nos a quase todos.

Há 17 anos, cheio de mim, cheio de vida, cheio de tudo e, afinal, tão vazio em tantas coisas, há 17 anos eu não corria.

Não tinha necessidade disso, achava.

Ocupava o tempo com outras coisas.

Por essa altura, nas minhas folgas semanais ( trabalhei aos fins de semana durante 15 longos e cheios anos, quando apresentava o Contra-Ataque, aos sábados ) costumava ir almoçar fora, normalmente, a Lisboa com o meu compadre Pedro Pato.

Ia eu, ele e o meu filho Rodrigo.

Grandes bifes devorámos na Portugália. O Rodrigo limitava-se a sorrir-nos, com a barriga cheia de papa, que os bifes e as imperiais eram só para os mais velhos.

Nesse dia, 11 de Setembro, o meu compadre estava de férias, o meu filho estava no infantário e eu fui almoçar sozinho, ao Vila Franca Centro.

Antes de ser um centro comercial, o único no país com ecrã IMAX, o Vila Franca Centro era o cine-teatro (como a foto mostra), onde vi o E.T. e o Grease e os Encontros Imediatos do Terceiro Grau.

Bem me lembro, no fim da sessão o medo que me seguia, pela calçada da Barroca até à Quinta da Mina.

Naquela altura eu adorava ir ao cine-teatro ver filmes de ficção e de terror. Adorava a adrenalina que era regressar a casa, pela noite, vendo sombras e vultos que nunca existiram, fantasmas que só eu criei na minha cabeça.

Depois, construiram um centro comercial, na minha cidade, que era o ponto mais vital, naqueles dias, e que hoje está abandonado.

Roubaram-nos pedaços do nosso passado e deitaram-os ao lixo.

Nunca lhes foi pedida responsabilidade, antes, foi-lhes dada impunidade, ainda hoje se passeiam pelas ruas, olhar arrogante, como se nunca tivessem cometido aquele crime.

Tenho saudades de ir ao cinema e de comer rebuçados Bola de Neve e brincar a apanhada, nos intervalos, escadaria abaixo. Tenho saudades de escolher se queria sentar-me na plateia ou em um dos camarotes e de enganar o senhor Rocha, o porteiro, porque eu nunca comprava bilhete.

Roubaram-me isso e isso é crime.

Não se roubam as memórias de uma criança.

É verdade, a minha cidade é tão, mas tão mal governada que nos damos ao luxo de ter um centro comercial que ocupa um quarteirão inteiro, votado ao abandono total.

Há tantos anos, está assim há tantos anos que se confundem com o próprio tempo, o tempo em que ali está ele, abandonado, numa cidade cada vez mais só mas que continua a ser minha, a minha.

Mas, não vou aqui gastar mais tinta com a política, porque a política mete-me nojo.

Almocei, nesse dia, num dos restaurantes com vista sobre o rio e sobre a Lezíria, no restaurante do “Manel do Pote”.

Ainda sinto o sabor do bife com molho  três pimentas.

Eu gostava tanto de vaguear pelo Vila Franca Centro, adorava ir espreitar o Bowling, adorava visitar a papelaria Ricardo, que tinha filofaxes (vá ao Google) lindíssimos, adroava tomar café no bar do Filipe do PizzBurguer, amava olhar os retratos a cores que decoravam a vitrine do fotógrafo, do qual agora não me recordo o nome.

Mas, uma das coisas que eu mais gostava era de me deter na montra da loja da Singer e ficar a olhar para aqueles ecrãs de televisão - eram tantos - durante alguns minutos, e o motivo era simples;

Nessa altura eu era apaixonado pela televisão, dentro e fora dela.

Eram tempos fantásticos.

Quando estamos apaixonados são dias sempre brutais, os nossos dias, o nosso tempo, e eu detinha-me, ali, em frente à montra, minutos eternos, a olhar para todos aqueles ecrãs, a cores.

Ali estava eu, do lado de cá e do lado de lá do vidro.

A loja da Singer, no Vila Franca Centro, costumava passar nos ecrãs os programas que eram gravados no gravador de vídeo.

Eu, ali, do lado de cá da montra, em dia de folga, sem o meu compadre e sem o meu Rodrigo, eu, do lado de lá da montra, gravata bonita, cara bonacheirona a apresentar o Contra-Ataque.

A meu lado aquele homem, boné castanho aos quadrados, camisa branca, mãos nos bolsos, a fitar-me, como que a um fantasma de carne e osso.

Nunca lhe guardei os traços do rosto.

Quando alguém me reconhece eu não consigo olhar-lhe o rosto, por vergonha minha, não sei de quê. Talvez de nada.

Eu, ali, nós os dois, não era apenas eu, eu e eu, eu e ele.

Nunca fui só eu, ao longo da minha vida.

Espantado, lembro-me como se fosse agora, espantado a olhar para mim, aquele homem não reparou no meu espanto, mais que isso, na minha total impotência, quando vi, no ecrã ao lado daquele onde a minha gravata brilhava a imagem de um avião a embater numa das duas torres, em Nova Iorque, no dia em que o mudou o mundo tal como o conhecíamos até então.

Já havia telemóveis, há 17 anos.

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O meu era uma espécie de pioneiro dos smartphones de agora, tinha tudo, até uma tecla que dizia “internet”, mas quase não havia internet. Fazia chamadas, isso fazia.

Liguei à minha mulher. A Carla estava na fila do bar, para almoçar.

Por momentos acreditámos que estávamos a ver um filme hiper-real. Até hoje. Até mesmo depois do segundo avião embater na torre.

Fui a correr  buscar o Rodrigo ao infantário, impelido por um estúpido impulso de sobrevivência, como se Nova Iorque estivesse dentro do Vila Franca Centro. E estava.

Não voltei a olhar para aquele homem de chapéu aos quadrados, camisa branca, mãos nos bolsos.

Ainda hoje ele lá deve estar, cristalizado no seu espanto, dentro do centro comercial abandonado, que outrora, cheio de vida, os mostrava filems de terror, entre Bolas de Neve e caramelos que se colavam aos dentes, enquanto a fita rolava.

Nessa altura, eu não corria, achava-me o dono do mundo, o mundo que mudou tal como o conhecíamos até então.

Não precisava de correr, achava eu.

Na verdade, se nessa altura eu corresse, em vez de ter ido buscar o Rodrigo, e de ainda hoje estar sentado no meu sofá azul, a olhar para aquele filme hiper-real, eu teria ido para o passeio ribeirinho queimar asfalto.

O mundo mudou.

Eu comecei a correr.

Nunca mais parei em frente à montra da Singer, a ver os ecrãs, a ver-me na televisão, a cores.

Com o passar dos anos ela desencantou-me.

O centro comercial faliu e fechou.

O mundo mudou.

O Rodrigo fez-se homem.

Tenho pena que ele não vá comigo a Berlim.

Foi lá que o mundo mudou, pela primeira vez,  tal como o conhecíamos até então.

Só depois é que aconteceu o 11 de Setembro.

 

 

 

 

11.09.18

O QUENIANO MAIS LENTO DA LEZÍRIA ( DIA 51 DA MARATONA )


The Cat Runner

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Pode até estar a rir-se por causa do título que escolhi.

Ria-se à vontade.

Acontece que, eu, eu que escrevo, eu não minto.

Há, sim, há semelhanças entre este seu servo e um atleta queniano, daqueles que correm à velocidade do som.

Claro que há semelhanças.

A planície, eu sei que apesar de haver montanhas sólidas e quase intransponíveis em África, a fome, a pobreza, a doença, há tantas, eu sei, mas sei que apesar dessas montanhas que me provocam raiva e desolação, também sei que é na planície que a vida se dá, a sobrevivência acontece, o sol torna ouro o fim do pote, onde acaba o arco-íris e começa a felicidade.

É nessa busca que vamos para Berlim.

Os “Corredores do Arco-Íris”.

Não vamos em busca do pote de ouro, porque acreditamos que dentro desse pote, no fim desse arco-íris há a felicidade, a mesma que os corredores quenianos mostram nos seus dentes imaculadamente brancos, enquanto correm.

Nunca, jamais, eu conseguirei correr um metro que seja aquela velocidade mas, uma coisa me une a essa gente, a planície.

Só que vive na planície sabe o que ela encerra em sim mesma.

A Lezíria ribatejana (não há outra, mas gosto de sublinhar as minhas raízes) é, provavelmente, a maior planície acima do Alentejo, onde se confundem as cores, os sobreiros, os touros e os cavalos.

Há algo de África na extensão da planície e só isso me liga aos quenianos, isso e o facto de correr, eu e eles, debaixo de um sol brutal.

Tudo o resto é ficção.

Eles correm um quilómetro em três minutos e pouco, eu demoro mais do dobro.

E, ficamos por aqui.

É nessas alturas que me sinto queniano, quando corro e o sol me queima os ombros, me seca a boca. O mesmo sol que me aconchega, reconforta.

Tenho a pele morena, queimada por esse sol.

A maior diferença entre mim e eles nem é, propriamente, a velocidade.

É o rio.

Eu tenho um rio que divide a planície da minha cidade e corro nas duas margens.

Haverá maior privilégio que correr nas duas margens de um rio?

Lamento, amigos quenianos, em Berlim - adorava que sim - até podem bater novo recorde do mundo (já se bateram dez recordes na #berlim42), mas o rio é só meu.

Como o rio corre para a foz, em mais do dobro do tempo, também eu irei chegar, ao ponto de onde parti.

Espero ver-vos por lá.

Por agora devo dizer-vos que, finalmente, fiz a minha primeira corrida, desde há nove meses, na qual desfrutei do princípio ao fim.

Há muito tempo que não acontecia.

Fora nove meses de sacrifício, pouco prazer.

Esta semana, assim estava definido, serve para relaxar.

Não é que isto bate tudo certo?!

Até já corro dez quilómetros abaixo de uma hora.

Faltam apenas dois treinos antes do grande dia.

Um treino em Portugal e o último já em Berlim.

Espero que os dois corram como este último.

O último será memorável, na cidade das cidades.

Berlim encanta-me, desde sempre, por isso a escolhi para me receber nesta aventura quase maquiavélica.

Há tanto tempo que não fechava os olhos, sem dores, sem desconforto.

Forte, suado, feliz.

Fechei os olhos e deixei-me ir.

Voltei a sentir o prazer de correr.

Em Berlim, dificilmente, os quenianos vão bater o recorde do mundo.

Eu vi um documentário com 3 dos melhores corredores do mundo, nesse documentário eles treinaram exclusivamente para fazer a maratona abaixo das duas horas.

Está para nascer esse super-homem.

Nem sequer se aproximaram das duas horas e um minuto. É, quase, humanamente impossível.

O recorde do mundo está nas duas horas e dois.

Isso, eles correm a maratona em duas horas e dois, eu corro em quatro horas e meia.

No fim eles estarão felizes.

Eu também.

Até aqui sou parecido com os corredores quenianos.

Acho que eles iam adorar conhecer a minha Lezíria.

Acho que eles iam adorar aqui correr.

Enquanto isso não acontece, espero vê-los em Berlim, no fim, nem que seja na televisão.

Porque quando eles acabarem de correr eu ainda irei a meio, se deus quiser ( se existir).

Prometo não desistir, eles nunca desistem

E, eu cumpro sempre as minhas promessas.

 

 

09.09.18

AS 50 SOMBRAS DE GAB ( DIA 50 DA MARATONA )


The Cat Runner

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Hoje, não há cá textos emotivos.

Mas, não pense que, por causa deste título vai ler um texto altamente erótico.

Posso escrever um texto desses um dia, mas agora não.

Claro que posso, ia ser do caraças.

A seu tempo,

por agora, vou escrever uma carta aberta à minha amante.

A sério.

Tenho uma amante, chama-se corrida.

Daqui a poucos dias vamos ter a mais intensa experiência das nossas vidas, eu e ela.

Por isso, esta carta aberta,

 

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(FOTO DA MINHA PRIMEIRA CORRIDA, HÁ 14 KGS ATRÁS )

 

 

Vila Franca de Xira, 09 de Setembro de 2018,

 

Querida corrida,

 

Sou uma das tuas vítimas.

Entraste na minha vida há cinco anos e meio e, nada mais foi como antes.

A nossa relação tem sido amor/ódio, como se costuma dizer, mas amor que ódio, a bem da verdade.

Tem sido assim, ao longo dos anos.

Já lá vai o tempo em que eu te trocava pelo sofá, ou pelas manhãs na cama, até tarde.

O ódio só entra nesta história quando eu dou por mim a perguntar-me: “porque é que te obrigas a passar por esta espécie de tortura?”.

Eu sei porquê, porque nada é mais forte que o amor, ok, as endorfinas são mais fortes que o amor. Adoro a sensação, não há prazer tão sublime, como aquele que me dás.

Com o passar do tempo foi crescendo em mim um profundo respeito por ti e a coisa deixou de ser, simplesmente, carnal.

Não concebo a minha vida sem ti, sem os nossos momentos mais íntimos.

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Confesso-te que é preciso ter muita paciência para te aturar, ter que me vestir, acelerar o coração, as batidas cardíacas, quando nos envolvemos, ou apenas adormecer, extenuado, depois de muito transpirar, nos teus braços.

Mas isso é o menos.

A minha paciência é de santo, concluo, porque às vezes sinto falta de sair com os amigos, sinto falta de comer à bruta, à minha vontade ( embora saibas que se há coisa que não cuido em rigor é da alimentação).

Lembras-te daquela vez em que desisti, não consegui mais, nem com os comprimidos?

Um homem não é sempre de ferro, querida.

Tu bem querias, mas eu não consegui, até vomitei.

Faço sacrifícios por ti, agradeço que dês valor a isso, porque isto não é só termos prazer quando estamos juntos.

Até vídeos tu já me obrigaste a gravar, e fotos, fotos são centenas, e toda a gente vê, toda a gente nos vê, na nossa intimidade.

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Acho bem que tenhas consciência disso, agora que vamos partir para a nossa maior aventura. Eu e tu.

Às vezes tiras-me do sério, juro-te.

Não compro isto, ou aquilo e depois vou gastar dinheiro em sapatilhas - duram pouco, tens que ser mais cuidadosa -,porque as outras já não servem, porque são quilómetros e quilómetros.

Ainda por cima, tudo de marca, tudo caro.

São os suplementos, para as dores musculares, que já não caminho para novo, apesar da minha vitalidade, suplementos para o pré-acto, para o pós-acto, para dar energia, para isto, para aquilo.

És uma amante de manutenção cara, como quase todas as amantes.

Já para não falar nas massagens regulares, adoro as massagens, o creme a deslizar pelas minhas pernas, os banhos de gelo, para acalmar.

Tens noção do que é encher uma banheira com oito quilos de gelo e meteres-te lá dentro, por amor?

Não tens?

Eu digo-te, são quase oito euros, para cinco minutos de prazer, que é como quem diz!

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Meter-me na banheira, depois de um banho quente, é o que vou fazer agora, a seguir a terminar este texto, já em cima da meia noite, porque os amantes amam-se de noite, a qualquer hora.

Espero que tenhas a noção do que isto custa, e do prazer que dá.

Sorte a tua que nunca me magoei, ao longo destes anos, enquanto andamos enrolados um com o outro, sorte a tua e minha, mas mesmo que me tivesse acontecido alguma coisa desse género eu voltaria sempre para ti.

O prazer que me dás não tem preço.

E, ficas saber;

apesar das vezes que me senti mal disposto, apesar das vezes que recusei ir a jantares, fins de semana, almoços, apesar de acordar cedo, de não fazer aquilo que qualquer pessoa normal faz, só tenho a agradecer-te, agradecer tudo o que fizeste por mim.

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Não há nada melhor que, quando chegamos ao final do acto ( não fumamos um cigarro, é certo, mas porra…), é uma felicidade que nos invade, somos felizes, os dois.

Felizes, como naqueles momentos em que me levaste, braço dado, encostados, para lugares que nunca sonhei, nem nunca pensei que existiam.

Contigo, já corri mais de oito - 8 - mil quilómetros, cum caraças...

Quando começámos a andar, nem dois quilómetros eu conseguia.

Agora, agora vou correr uma maratona, contigo.

Fazes-me sentir desejado, fazes-me sentir homem !

Fora da nossa intimidade - isso apaixona-me em ti - tens o condão de unir as pessoas, até os meus pais já foram a uma prova, e a minha mulher ( que tu conheces, apesar de seres a minha amante), até ela já me traiu contigo.

Fizeste-me conhecer amigos novos.

És a fuga que eu preciso para me sentir vivo. Estás sempre presente, quando preciso, todos os dias.

Ajudas-me a limpar a cabeça e a alma, ajudas-me a dar sentido à minha vida e a afastar de mim aqueles que me querem mal, há um ou dois, apenas.

Ajudas-me a ser feliz, quando estou triste.

Sem ti, nada disto fazia sentido.

Chego a fechar os olhos de prazer, quando estou contigo.

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( EM BERLIM VAMOS VESTIR DE GALA PORQUE MERECEMOS)

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( LEMBRAS-TE DA NOSSA PRIMEIRA VEZ A SÉRIO ? )

 

 

Não me deixes agora, agora que faltam tão poucos dias.

Prometo-te uma espécie de orgasmo cósmico, mental.

E, não precisas de me dizer;

Eu sei que vais dar cabo de mim, de prazer,no final!

Quem diria, afinal, no final, o título deste texto até foi bem sacado.

Há aqui qualquer coisa de intenso, nestas linhas.

Não são cinquenta sombras, são 250 dias de muita paixão, paixão intensa, dor, prazer, cumplicidade, nove meses, desde Janeiro, até domingo que vem.

Não são cinquenta sombras, são cinquenta textos, até hoje.

A nossa história merece ser mostrada ao mundo, num livro que vou escrever.

Só depois irei escrever um conto erótico, prometo.

Agora, vira-te para lá e vamos dormir, que amanhã de manhã temos que meter "a escrita em dia".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

08.09.18

EU, TROLL, ME CONFESSO ( DIA 49 DA MARATONA )


The Cat Runner

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Eu não consigo discriminar todas as pessoas que, nos últimos anos, entraram na minha vida, por força das corridas.

São tantas.

Até porque seria injusto da minha parte, escolher uns e deixar outros de fora. A todos agradeço, oh meu deus (se existes) o quanto agradeço.

Por força das corridas, mas também por força da minha “exposição mediática”, da qual fujo a sete pés - e continuo cada vez mais a fugir - todas essas pessoas foram-se cruzando comigo.

Nas redes sociais e fora delas, no asfalto da vida.

Algumas têm sido fonte de inspiração, mesmo sem o saberem, outras têm-me marcado, desta ou daquela forma, e algumas entraram no meu círculo mais restrito, porque apesar da minha actividade no mundo virtual, noventa e nove porcento da minha vida é passada no mundo real, no recato.

Só os trolls, que não me conhecem de lado nenhum, embora privem comigo algumas horas por dia, ou que nunca privaram de todo é que acham o contrário.

Uma dessas pessoas que entrou na minha vida é o Ricardo.

Hoje, a poucos dias de correr a minha primeira maratona é ao Ricardo (Silva) que dedico esta crónica.

Há uns cinco anos eu era um gordo, um gordo, a entrar na casa dos quarenta.

Corria o risco de me tornar num troll, gordo, careca, com caspa, mas nunca num troll prepotente e de coração gelado, isso não.

Bastava-me um palito ao canto da boca para ser o protótipo tuga.

Decidi começar a correr, para evitar males maiores.

Para me incentivar (auto-incentivar), mas também para criar uma imagem estratégica, admito, comecei a publicar as fotos das minhas corridas e, paralelamente, a escrever sobre aquilo que corro.

Criou-se um propositado efeito de uma (mini) bola de neve e, segundo me dizem, fui inspirando uns e outros, como uns e outros me foram inspirando. Tantos!

O Ricardo, que se inspirou em mim, mas que agora me inspira, entrou na minha vida, como um verdadeiro amigo, de casa, de coração.

Tal como eu, o Ricardo era um gordo, ok, o Ricardo ainda era mais gordo do que eu (admite, eras).

Eramos os dois uns gordos, eu mais velho, ele mais novo.

Um dia, o Ricardo (Ricardinho) confessou-me que, por minha culpa, decidiu começar a correr.

Precisvaa, como eu, não apenas por razões físicas, sobretudo por razões espirituais, mentais, o que lhe queiram chamar, tal como eu tenho feito nos últimos meses, por recomendação médica.

Ele começou a perder peso, começou a ser cada vez mais rápido, cada vez mais forte e, de repente, já corria maratonas a uma velocidade que eu nunca irei correr ( Ricardo, a idade pesa e faz a diferença), ficou bem elegante, muito mais feliz, um homem diferente.

Depois lançou-se naquelas corridas dos malucos, aquelas de cem quilómetros ou mais.

Depois, bom, não há depois, comigo e com ele há o agora, ele confesou-se;

O Ricardo emociona-se comigo, disse-me uma vez, várias vezes, com os meus textos, com as minhas conquistas, vive-as como se fosse dele, como deve ser num verdadeiro amigo (os amigos emocionam-se com os amigos), mas o que ele não sabe é a quantidade de vezes que me emocionei com ele, muitas.

Agora, por exemplo.

Por causa do seu caminho, do seu esforço, das suas conquistas.

Por causa de um acontecimento que lhe marcou a vida e que me fez aproximar-me bastante dele, até hoje.

Somos homens do coração e da saudade.

Conversamos várias vezes, normalmente por mensagens, porque ele vive no Minho e eu vivo no Ribatejo ( não, não sou nem Mouro, nem Lisboeta ).

Conversamos sempre como se estivésemos juntos, como naquele fim de tarde em que nos conhecemos, depois de ele vir ver o seu Sporting.

 

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O RIcardo incentiva-me, preocupa-se com os olhos da minha mãe (cada vez melhores), com os meus problemas, com as minhas histórias, comigo.

Muito mais do que devia.

Muito mais do que eu lhe poderei dar, porque ele merece o pplaneta todo. Inteiro.

Ele tinha por hábito, já depois de me ter ultrapassado nas corridas - quando o criador é devorado pelo monstro (favor rir) - dizer-me que um dia eu iria correr uma maratona.

Ele apostava a vida que sim.

Eu sempre disse que não.

Loucura, nem pensar.

Só que, uma vez, deixei escapar que ia, um dia ia correr uma maratona.

Prometi-lhe, sob pressão (sorrir outra vez, sff).

Foi há uns três anos, mas o sacana nunca mais se esqueceu disso.

Eu disse-o convicto, mas…(Reticências).

Ontem recebi uma mensagem do Ricardo ( já antes tinha recebido um boneco em barro negro, um cabide para as medalhas, que guardo e que, finalmente, vou usar, para colocar a medalha da maratona, ficas a saber hoje que nunca o usei, porque me faltava esta, a dos 42 quilómetros, agora sim, vou usá-lo).

A Alice partiu o boneco em barro negro.

Perdoa-lhe.

Ela é uma boa gata, uma boa amiga.

Um pouco louca, mas só isso.

Como eu.

O Ricardo dá.

Amizade, afecto, carinho, estima, estímulo, inspiração, dá mais do que alguma vez eu conseguirei dar-lhe.

Peço-te desculpa, por isso, meu querido.

Por isso, dedico-te este texto, para que o mundo conheça a nossa amizade incondicional.

E, tu sabes o que significa, para mim, escrever; 

é o que me liberta das grilhetas da vida, o que me transforma por dentro.

Nessa mensagem que me enviou, ele manifesta tristeza por não estar a meu lado em Berlim.

Confessa que gostava que a minha estreia na maratona, a tal que lhe prometi correr, há três anos, fosse em Portugal, para me fazer a surpresa de aparecer e corrê-la comigo.

Estou a ler a mensagem, neste momento;

“Tenho que te confessar que quando, em 2015, me prometeste que farias a maratona, porque te tenho como eu, um homem de palavra, tinha reservada para ti a surpresa.

Se a prova fosse cá, sem te dizer nada, ia simplesmente aparecer, não seria difícil encontrar-te, e iria fazer a prova a teu lado, sentir a tua emoção e cortar a meta contigo”.

Digo-te, neste momento, Ricardo, tu vais cortar a meta comigo, só que não o sabias.

Tu vais correr a maratona comigo, em Berlim.

Eu ando muito sensível por causa disto, e por causa de outras coisas sobre as quais escrevo, e outras que não, porque não posso, nem devo, umas fantásticas, outras merdosas, de gente de merda, mas ando, sensível, com tudo o que me anda a contecer nestes meses últimos.

As lágrimas aparecem-me do nada, depressa, surpreendentes, como tu querias aparecer, na minha primeira maratona.

Surpresa, surpreedentes.

Nada posso, nem quero fazer. Liberto-me, apenas.

E, quando regressar de Berlim irei parar de chorar. Prometo, e sabes como cumpro as promessas porque, como tu, sou um homem de palavra.

Vais comigo, por isso também.

Não és tu que estás “orgulhoso” de mim, nem és tu que me tens que “agradecer de coração por tudo o que te tenho dado”-

Sou eu que devo curvar-me, perante a tua grandiosidade ( repara que não escrevi grandeza, de propósito, embora ambas as palavras queiram dizer o mesmo, mas grandiosidade é muito mais superlativo ).

É a mim que resta retribuir tudo, não é a ti, como dizes na mensagem.

É a mim, meu querido amigo.

É isso que faço agora: MUITO OBRIGADO, por tudo, até por me emocionares.

O teu pai tem imenso orgulho em ti, tenho tanto a certeza, a tua menina também.

E, eu também.

Orgulho em te ter na minha vida.

Dava-te agora um abraço, “à homem”.

Tenho tanta sorte.

Há uns cinco anos eu era um gordo, um gordo, a entrar na casa dos quarenta.

Corria o risco de me tornar num troll, gordo, careca, com caspa.

Bastava-me um palito ao canto da boca para ser o protótipo tuga.

Mas, não.

Fiquei mais elegante, o cabelo não me caiu, a caspa não apareceu e o palito fica horrível, ao canto da boca.

A única coisa que não cumpri foi parar o tempo, e entrei pelos quarenta dentro.

Não cnonsigo tudo, muito menos milagres.

“A tua amizade basta-me”, também a mim, esse é o maior dos milagres.

Espero que gostes de correr comigo em Berlim.

Esta, vai por ti!

 

 

 

07.09.18

LEVO-TE COMIGO PARA BERLIM (DIA 48 DA MARATONA )


The Cat Runner

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Antes de continuar a ler este texto leia primeiro o que está escrito na fotografia, em cima.

Se já leu, então continue…

Há coisas que uma pessoa nunca imagina que lhe possam acontecer.

Quem me lê sabe que não escrevo para dar lustro, para “puxar saco”, como se diz na bola.

Escrevo com tinta que me sai da medula, como diz o Gabriel “O Pensador”.

Tinta que sai de dentro.

Hoje, dedico este texto a alguém que me surpreendeu brutalmente.

Não estava a espera de tal coisa.

Mas, ela não se importa, de certeza, que eu também lhe dedique este texto, a si que o está a ler.

Há coisas que uma pessoa nunca imagina que lhe possam acontecer.

Jamais esperei, confesso, ter o apoio, o afecto, a estima, a atenção de tanta, mas tanta gente.

Pessoas que nem sequer conheço pessoalmente, a maioria.

Este texto é para ela e para vocês, que me foram levando ao colo ao longo destes nove meses de aventura.

As corridas têm-me colocado no caminho mais alegrias que obstáculos, muitas mais alegrias.

Pessoas, sobretudo.

Eu gosto do ser humano, gosto do “ser” humano, é disso que gosto.

Não gosto de vermes disfarçados de gente, sei quem eles são - levo essa vantagem -, conheço-os a todos, perfeitamente, sei onde estão, como se movem.

Não os quero por perto e, deles me afasto, me afastei.

Tenho-vos a vós e aos meus (eles sabem quem são).

Chega-me!

Faltam oito dias para a minha primeira maratona.

Entrei na fase em que é obrigatório recuperar o corpo, as pernas, sobretudo, porque não sou nenhum super-homem. Eles existem, mas eu não pertenço a essa classe.

O meu plano de treino contempla esta recuperação activa mas, as cargas foram de tal forma intensas que sempre recorri a suplementos, massagens e truques que fui aprendendo.

Acontece que, quero chegar ao dia 16 no meu máximo, como se nunca tivesse sido sujeito a tamanha “violência”.

Recorri, por isso, a um grande amigo, amigo há mais de 20 anos.

É o melhor dos melhores.

O António Gaspar, fisoterapeuta da selecção portuguesa faz-me esse favor, é meu amigo, a sério, desde o começo dos tempos.

Ontem, depois do Guedes me massajar as pernas enviei uma mensagem de voz ao António:

“Meu querido António, como estás? Preciso de ajuda para a maratona. Entrei no período de recuperação, mas não há maneira de este calor me largar os músculos, nem de as pernas ficarem cem porcento leves e frescas. O que é que tu fazes com os craques da selecção? Eles também deve padecer da coisa…”.

O António ( que está e estava em estágio com a selecção) respondeu-me, de imediato.

Aconselhou-me a passar na sua nova clínica, o quanto antes, para começar imediatamente a tomar um suplemento e usar uma pomada especial, que ele utiliza com o Cristiano Ronaldo e afins, penso eu de que!

Assim fiz.

Chegado à clínica, a Marisa, a gentil Marisa, pegou no saco e disse-me:

“Tem aqui o Muscle Repair e a Mad Form, que o Gaspar recomendou, mas a Ercília também lhe deixou uma coisa”.

Acto contínuo, coloca em cima da mesa o cartão que ilustra, no topo, este texto.

Não o li, na altura.

Ficámos ali, a falar, precisamente, sobre o ser humano, o “ser” humano.

A Marisa é das minhas, fala com o coração, houve empatia.

Paguei e vim embora, meia hora depois.

Só no regresso a casa tive coragem de ler o cartão que a Ercília me deixou.

Conheci a Ercília Machado numa corrida.

Lembro-me como se fosse hoje.

Ela ganhou os dez quilómetros.

Tirámos uma foto, no final e ficámos amigos.

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Ela tem 26 títulos nacionais, não é propriamente uma pessoa qualquer.

Naquele domingo ela corria por ela, tinha saído do clube ( não revelo o nome, obviamente ), onde era muito, mas mesmo muito mal paga.

São 26 títulos nacionais, mais a selecção portuguesa, não é coisa ao alcance de muitos.

Nesta merda de país ninguém dá o devido valor ao sacrifício e ao talento de quem escolheu o desporto como forma de vida. Só quando conquistam medalhas. Só nessa altura. Depois, depois voltam a esquecer-se de quem tanto sofre, trabalha e conquista, por nós, para nós.

A Ercília faz parte desse quadro exclusivo de heróis que eu admiro, que todos deviam admirar.

A Ercília foi operada, há meses, a uma anca.

Está a recuperar com o António, logo, está nas melhores mãos.

Foi por isso que soube que eu lá ia buscar os suplementos.

Nem sequer estranhei a sua mensagem, de véspera, na qual me perguntava a que horas lá ia.

Sou um cota naife.

Quando decidi escrever este texto e não outro, tive na linha do horizonte uma pergunta:

O que leva uma atleta de alta competição, uma atleta de topo,  a escrever uma dedicatória destas a um gajo que só corre porque lhe dá prazer, um perfeito amador, de amar, de amor?

Nada, a não ser um coração do tamanho de uma maratona, bem maior que aquela que irei correr, em Berlim.

Sim, é linda, mas a beleza da Ercília não é exterior, a beleza dela está no seu coração grande, tão grande que não cabe neste texto.

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Corras onde correres, serei sempre da tua cor, para sempre.

É o a minha promessa.

O meu compromisso é não desistir.

Não vou desistir, mesmo que as forças me faltem, jamais irei desistir.

Quanto a si, vá lá reler o cartão:

“ Meu querido Zé Quaresma”…

Bateu-me de uma maneira que ainda estou a refazer-me, por isso este texto já vai longo, porque as palavras saltam-me de dentro e não vcabem aqui todas, tal como o coração dela.

Peço desculpa, por isso.

…”Se por alguma razão pensares em desistir, lembra-te de tudo o que passaste para chegar até lá!

Tu és forte e vais brilhar! ACREDITA EM TI”.

Mandei-lhe uma mensagem que fica só entre nós os dois, porque é assim que tem que ser.

Disse-lhe também que vou levar este cartão, comigo, para Berlim.

Só não lhe disse que ele vai ficar na mesma moldura onde ficará a minha primeira medalha e a minha primeira camisola de maratonista.

Era surpresa ( pode ser que ela não leia este texto e será mesmo surpresa), mais que surpresa, é a minha homenagem a alguém tão “bonito”, que partilha comigo, incondicionalmente, a sua beleza e a sua bondade.

Levo o cartão comigo para Berlim, porque é também, o meu obrigado, a ela, e a todos aqueles que me levaram ao colo durante estes nove meses que passaram à "velocidade da luz", bem mais rápidos do que eu conseguirei correr a maratona.

É que nunca me passaria pela cabeça ser merecedor de tanta coisa tão boa, tão bonita, como aquelas que me têm dado.

Acho que não sou merecedor, na verdade.

Ela não leva a mal a inconfidência, senão não consigo ter um final, em grande, para este texto;

Respondeu-me assim à minha mensagem:

“Acho que fazes bem!!! Para te dar força antes de ires para a partida”.

Vou lê-lo, antes de sair para as Portas de Bradenburgo, para mais exigente aventura física e psicológica da minha vida, de mãos dadas com o meu irmão Francisco e com a minha irmã alice (porque só nós os 3 sabemos o que tudo isto significa, nas nossas vidas).

Garanto-te, querida Ercília, vou levar-te também comigo, porque já não sairás mais do meu coração.

Ficaste, também tu, tatuada nele, com a tua letra redonda e as asas dos teus pés.

A ti e a tanta gente que me tem acompanhado, lado-a-lado, nesta empreitada maluca, só posso ser grato, até à eternidade.

E, quando chorar como uma criança, no final, será em vocês que eu vou estar a pensar, em vocês todos, em ti, nos meus, nos que amo, e nos que me dispensam o seu afecto, amizade, estima e consideração.

Nos que me empurraram!

Agora, depois disto, não me falta mais nada.

Só falta o tiro de partida!

 

( Dedicado a ti, querida Ercília )

 

 

 

04.09.18

O AMOR EMOCIONA-ME ( DIA 47 DA MARATONA )


The Cat Runner

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Hoje emocionei-me enquanto corria.

Foi a primeira vez que voltei ao jardim, onde me cruzei, pela última vez, em vida, com o meu amigo.

Não foi fácil, de todo.

Deixei o carro no parque de estacionamento, equipei-me no balneário do pavilhão do meu União, onde costumava equipar-me antes dos treinos de Muay Thai, na “casinha” ( vou voltar, muito em breve ).

Como sei que o balneário está sempre aberto, pimba, fui lá trocar de roupa.

Cenas…

Foi depois, foi depois que a coisa me tocou, junto ao portão que liga o jardim, onde cresci, ao passeio ribeirinho.

Foi naquele pedaço de chão que o vi, com vida, pela última vez.

Foi ali que trocámos as últimas palavras.

Esta merda teima em não me sair da cabeça!

Talvez, por isso, as pernas se tenham recusado a avançar.

Pesadas, como há nove meses, mas sem dor.

Mandei uma mensagem ao meu treinador, assustado.

Estou a semana e meia de concretizar um sonho, a aventura mais louca da minha vida e, as pernas recusaram-se a ir.

“ Vai as massagens. Isso também faz parte do medo cénico”, respondeu-me, com um smile no fim.

Acredito no José Carlos Santos até ao fim do mundo.

Foi ele que pegou em mim, me recuperou, me guiou, me treinou, me deu todo o apoio, foi ele que acreditou em mim, nestes nove meses.

Em Berlim, também corro por ele, porra, em Berlim corro por tantos e por tantas, que acho que me posso dar por feliz, mesmo que tenha outros sonhos por cumprir, ainda.

Hei-de cumpri-los, todos.

Obriguei-me a esquecer as memórias e segui viagem.

Um treino de uma hora e um quarto já não me assusta, por isso, por isso decidi correr rápido, o mais que conseguisse.

E, consegui, cheguei a andar abaixo dos cinco minutos por quilómetro, dá pica, desde que haja a consciência que não correrei a maratona, nunca, naquele ritmo.

Eu tenho consciência das minhas limitações.

Fui focado, as pernas começaram então a aliviar - é sempre assim, ao fim de meia hora - e comecei a sentir-me forte, mesmo forte.

Se, normalmente, há uns meses, fazia quinze quilómetros em uma hora e quarenta, hoje fiz treze quilómetros em uma hora e um quarto.

O trabalho de casa está feito, as rampas, as séries curtas, as séries longas, os quilómetros carregados nas pernas, mais e mais, as longas, passei isto tudo até chegar aqui.

E cheguei!

Dizia-me o Marcos Pinto, com quem me cruzei na volta, “emocionaste-te? Vais emocionar-te é quando cortares a meta e abraçares a tua mulher e os teus filhos”.

O Marcos é um bacano.

Não o via há mais de um mês.

Almoçámos juntos antes de ele ir de férias.

Vi-o no passeio ribeirinho, a meio da corrida.

Costumava-o ver todos os dias, na TVI.

Já lá não vou há bastante tempo.

A sério, deviam correr, a corrida é tão, mas tão mágica, que não imaginam a quantidade de coisas que acontecem nessa janela de tempo.

O Marcos respondia-me, porque eu lhe tinha dito que, momentos antes me tinha emocionado.

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Estes dias longos tem sido dias de muita ansiedade, de muita expectativa, de muita esperança, de alguma dor, têm sido dias muito difíceis de gerir, para mim, pelo que tenho a emoção à flor da pele.

Da pele?

Do coração, da alma, das pernas, do rosto.

Ando muito sensível, mas aguento, tudo, até as notícias que me chegam, por causa dos tipos com várias caras.

Castigar-me?

Nunca terás essa possibilidade, porque nunca correste a meu lado.

Não sabes o que é sofrer para lá chegar.

Tem sido complicado gerir tudo emocionalmente, a maratona, a morte do meu amigo, os treinos, os outros problemas que não torno públicos, tudo tem sido duro.

Estou de baixa desde Março, porque estava no limite.

Durante este tempo aprendi a olhar a vida à minha maneira.

Tudo o que me verga, não me consegue partir.

Costumo usar esta expressão, acab por ser o meu mantra.

Torna-me forte, perante a gente com várias caras, perante as adversidades, porque correr é isso tudo, também.

E, vou correndo.

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A correr, dei de caras - não é a primeira vez - com os peregrinos, na sua caminhada de fé.

Esses sim, gente de coração grande, ao contrário de outros que conheço, gente rasteira, de coração pequeno.

Nada fácil, deixar as emoções transformadas em pernas presas, lá atrás, no portão do jardim, onde nos vimos pela última vez e, mais à frente levar com aquele banho de humildade, de humanidade.

Fotografei o momento, depois de pedir autorização.

Os peregrinos fazem o mesmo caminho que eu, por isso os encontro, de caras, algumas vezes.

Eles têm uma cara, os rasteiros têm várias.

Nunca caminharão mais do que um passo no lodo em que vivem.

Tirei o retrato e continuei, mais rápido, mais forte, juro.

Estou mais forte.

Cruzei-me com eles durante quase todo o caminho.

Eles não repararam, mas levava os olhos molhados de sal.

E, sorria-lhes.

No meu sorriso alguns repararam, que eu vi.

Sorri com ternura, com afecto.

Afinal, eles e eu, em caminhos cruzados, em direcções contrárias, ali passámos, atrás de uma fé só nossa.

Cada qual tem a sua.

É como as caras.

Uns têm uma.

Outros têm várias.

A minha revela aquilo que sou, aquilo que serei.

Serei um maratonista, um peregrino, como aqueles que me emocionaram.

Porque é de fé que se trata.

O amor emociona-me.

O amor só emociona aqueles que sabem amar e sorrir, aqueles que só têm uma cara.

Depois, meti-me no carro, cheguei a casa, e abracei os meus filhos.

Estou pronto!

 

 

 

 

 

03.09.18

OS MISERÁVEIS ( DIA 46 DA MARATONA)


The Cat Runner

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A solidariedade anda na boca de toda a gente, mas tão pouca gente faz uso dela.

Sobretudo, quem devia conhecer o seu significado.

Este texto é sobre duas viagens que fiz na mesma cidade, separadas por poucos dias, por muitos quilómetros.

Lisboa, século vinte e um.

A mesma cidade, duas caras.

As minhas duas corridas longas foram feitas com um espaço de sete dias.

Domingo-a-domingo.

Deixei o carro no parque de estacionamento, junto à Casa dos Bicos.

É um parque de estacionamento recente, embora os turistas pouco ou nada andem de carro na cidade, preferem os tuk-tuk, como numa selva.

Tudo pensado para eles.

Antigamente ninguém conseguia estacionar por ali, não havia lugares, só pobres caídos pelos cantos.

Saí a correr, ainda de dia, em direcção ao outro lado.

Ali pela zona do Terreiro do Paço creio não ter escutado uma única palavra em português (chupa Camões), a não ser dos moços dos carrinhos que vendem frutas e sumos, ou nos quiosques que vendem garrafas de água, das pequenas, a dois euros, com uma cara de pau impune.

Está-lhes na cara.

A Praça do Comércio está fechada ao trânsito, aos fins de semana.

Faz lembrar que Lisboa é uma cidade que não deve nada a nenhuma outra.

Barrada a Norte e a Sul, por barricadas feitas de peças metálicas, apontadas ao céu, em bico e ferro forte, que impedem qualquer filho da puta de entrar com um carro por ali fora e matar uma dúzia de pessoas.

A polícia controla os movimentos.

De noite e de dia, que eu sou testemunha.

Nessa altura já eu tinha deixado a Praça do Comérico, fina, cara, sentada, no Cais das Colunas, a contemplar o Tejo.

A Praça dos turistas - não tenho nada contra eles, antes pelo contrário, mas tenho conta o pedantismo, daí o tom caustico e pesado da escrita.

Pedantes, os políticos, grosso modo são pedantes e repugnam-me imenso, porque não olham os seus, apenas os outros e a si próprios.

Saí da Casa dos Bicos, fui até para lá de Algés.

Voltei, já noite escura, vinte e quatro quilómetros depois. Isso!

Que viagem!

Duas horas e meia a correr.

E, ali, mesmo à minha frente, já com a noite a chegar, a miséria.

Ali, já um tudo nada longe dos olhares dos turistas pé-descalço ( que em Portugal, em Lisboa, fazem vida de lordes), os sem-abrigo, e os voluntários, que os ajudam, todas as noites.

Estranha cidade!

No Cais do Sodré a Lisboa suja.

Quilómetro a quilómetro.

Na Praça do Comércio a Lisboa limpa e cheirosa.

Chego a Santos.

Corro entre restaurantes e esplanadas, abre-me o apetite, ver aquela gente toda a dar ao dente, sorridente, longe daquela gente pobre, os outros.

O cheiro a grelhados, puta que pariu!

Detenho-me debaixo da ponte 25 de Abril.

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Pergunto ao rapaz do bar, o bar do Clube de Padel ( lamento a má publicidade, senhores) se há onde beber água, por ali.

Olha para mim, cara de otário, que não, “acho que não”.

Sim, basta perguntar-me se queria um copo de água.

Não perguntou, nem deve ter dado conta do que não fez.

Continuou agararado ao ecrã do computador a ver o jogo da bola.

Fotografei a ponte, linda, livre, por não ser de ninguém.

Pensei no Grilo, pensei nele nas últimas corridas que fiz, em quase toda a corrida, até mesmo quando me detinha para fotografar, não resisto a uma boa fotografia.

Vou pensar nele em Berlim.

Não me sai da cabeça.

Tirei um retrato ao amor, esquecendo-me do pobre otário que não me ofereceu água, olhando para mim, seco até à medula, com um "não sei", na ponta da língua.

O Amor, com Á grande, é isso que me importa na vida, amar.

Senti-os felizes, indiferentes a mim, a tudo, menos ao rio.

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Seguindo os meus próprios passos, por aquela altura, já a noite cobria a cidade, a ponte cada vez mais bonita, toda a corrida feita junto ao rio, valha-me isso.

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Nunca tinha visto tanta gente a correr, às dez da noite, era domingo, pareciam formigas, algumas pareciam formigas atómicas.

Percebi depois que pertenciam a uma “crew” (euqipa amadora) de atletismo, os Run Tejo.

Gente boa.

O otário, funcionário do bar do Clube de Padel - tenho o direto de o ofender, pois então - sabe lá o que é a solidariedade, dava um bom político, aposto até que, se conhecer a palavra a escreve com cê de cedilha;

Çolidariedade.

É quando, do nada, escuto uma voz, junto a um banco,“ quer uma agua? Vai aí todo transpirado”.

Era dois elementos da equipa Run Tejo que estavam a dar apoio aos colegas que treinavam que, ao verem-me  nauqele estado, a passar, atiraram-me a pergunta.

Só que corre sabe como os corredores são solidários, eles conhecem a palavra que se escreve com um ésse.

Que sim, respondi.

Dádiva dos deuses.

Pedi para os fotografar, para este texto, e agradeci-lhes.

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Devia ter-lhes perguntado o nome.

 Passei Belém, uma parte da outra Lisboa, a Lisboa bonita, sem pobres, sem miséria visível.

Uma hora e um quarto depois voltei.

Já não vi os miseráveis, já dormiam, entre pacotes de vinho e pontas de cigarros fumados até ao tutano, filtro e tudo.

A noite escondeu-os.

À minha vista, no regresso, apenas turistas, que o peixe grelhado é únicoe a a vista do rio, à noite, é algo único.

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Até sete dias depois.

Fim da manhã, arranquei para o último “longão” da minha longa preparação.

São nove meses de dedicação total a uma ideia louca, vinda da cabeça de um gajo louco, eu!

Estava muito quente, o sol queimava—me os ombros, senti-o durante vinte quilómetros, durante duas horas, para lá e para cá.

Tirei a camisola de alças, mal saí do centro comercial Vasco da Gama.

Ficam a saber que do Parque das Nações à estação de comboios de Santos, ir e vir, são vinte quilómetros, queime o sol os ombros, haja água ou não.

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Sete dias depois lembrei-me do barista otário.

Se sete dias antes corri ao fim do dia, sete dias depois corri com o dia no seu esplendor.

A manhã preparava-se para se sentar à mesa e almoçar.

Longe dali, a miséria escondida,  continuava escondida, adormecida, debaixo de um viaduto qualquer, longe dos olhares dos políticos, dos turistas e dos otários desta vida.

Bastava-lhes darem as sapatilhas, correr um pouco, para verem a miséria que eles próprios são, por se permitirem ter na sua cidade tamanho cenário de horror, sim, é horroroso o ser humano desprezar o seu semelhante, só porque ele está longe dos olhares dos casais altos e louros, com unhas dos pés por cortar, mas com a carteira cheia de euros.

Gente, numa manhã de domingo, escondida, em quatro paredes de papelão, junto ao rio.

Sempre o rio.

A corrida de um domingo confundiu-se com a corrida de outro domingo, noite, dia.

Lá fui eu, pela mesma Praça do Comércio, pelo mesmo Cais do Sodré que, pela manhã de domingo está inundado de garrafas e copos vazios, das noite de loucura e muita branca na cabeça, urina seca, pelos cantos, despojos de gente com dinheiro.

Ali, ali lembrei-me do rapaz otário e do casal da Run Tejo.

Foi quando parei e perguntei ao segurança da estação do cais do Sodré se havia WC.

“Há, mas tens que pagar, e a TVI, como vai?”, perguntou-me.

"Não sei, estou de baixa há meses, não sei, mesmo, estou desligado, como a televisão".

“Tens que me levar para lá”, atirou, meio a brincar.

Mais a sério, perguntou-me se queria água fresca.

“Vou lá dentro e encho-te a garrafa, na boa”.

Com tom mais sério pediu-me; "Tens que me tirar daqui da porta da estação".

Apertou-se-me o peito, deu-se-me um nó na garganta seca.

Coincidências, alguém que me dá agua, como no domingo anterior, alguém a quem eu “pago” com uma foto.

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“Pede-me amizade, no Facebook, para eu te identificar na foto”, apelei.

Até hoje, nada de pedido.

Devia ter-lhe perguntado o nome.

Não o fiz no domingo anterior, de noite, não o fiz naquele domingo, de dia.

Sou um otário.

Nem nome, nem pedido no Facebook, apenas a água que me deu, e que me permitiu continuar e voltar para trás, para acabar o treino.

Estavam 35 graus e muita humidade.

De repente, dou comigo a fazer treinos tão ou mais longos do que uma meia maratona e eu sei o quanto me custo correr as 16 meias-maratonas que já levo nas pernas, nestes anos ( quatro).

Acabei os dois últimos quilómetros da minha última corrida longa, antes da maratona, a caminhar.

Estava tanto calor que os meus pés quase coseram dentro dos ténis, de nada me valeram os “Boost” e o seu sistema de refrigeração, mais a sua solo tecnologicamente avançada .

Mal tentava correr, eles sobre-aqueciam, de tal forma que só consegui caminhar.

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Em casa, junto à piscina, esperava-me a família, e um fantástico almoço de peixe grelhado, bem melhor do que aquele que os turistas comem, nos restaurantes junto ao ri.

O relógio batia, praticamente, nas três da tarde.

O dia continuava estupidamente quente.

Pensei neles, em como é que eles aguentam, o calor, a pobreza, a fome, com um pacote de vinho na mão, logo pela manhã.

Os miseráveis ( que vivem na miséria) ainda dormiam, entre quatro paredes de papelão, longe dos olhares dos outros, os que bebem água a dois euros a garrafa, no meu regresso ao Vasco da Gama, onde tinha o carro.

Duas horas depois passei, de novo, por baixo do viaduto de Santa Apolónia, mas já não tive coragem de tirar mais fotos.

Tenho a certeza que sim, tenho a certeza que dormiam.

A vida para eles parou.

Não há domingos, debaixo do viaduto.

Passei por lá no regresso.

Tudo igual.

Senti-me tão otário, mais do que o outro.

É que a água não se nega a ninguém.

O direito a viver também não.

Muito menos àqueles que foram arrumados debaixo de um viaduto qualquer, junto a uma qualquer linha de combóio.

Um remédio venenoso.

Longe dos olhares dos que nunca correram.

 

 

 

 

 

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