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Foi uma viagem incrível.

No domingo tinha marcado o meu penúltimo treino longo, antes da “Big One”.

O que é um treino longo?

É isso, um treino longo ( agora escrevia lol ).

É o treino que conclui a semana dureza.

Os últimos acontecimentos - que são públicos - mexeram imenso comigo, com a minha cabeça, sobretudo.

No domingo saí para correr duas horas e meia, com o meu amigo no meu pensamento.

Levei-o a cada passada.

Só que cometi um lapso.

Estava tão atordoado com os acontecimentos que baralhei o calendário todo.

Corri duas horas e meia, quando o treino era de três horas (o único com essa duração, nestes oito meses e meio).

O treino de três horas serve para - além de carregar quilómetros nas pernas - testar o que está para vir.

Fiquei satisfeito, o treino correu bem, pior foi quando cheguei a casa, por volta da meia noite, e fui registar o treino no mapa dos mesociclos.

Afinal, devia ter corrido três horas em vez de duas horas e meia.

De imediato enviei um email ao meu treinador, em pânico, até porque o treino de domingo que vem, o último longo, antes das duas semanas de descompressão que antecedem a maratona, tem a duração de duas horas.

Que não me preocupasse, fazia dois treinos de duas horas e meia - o de domingo passado e do próximo - em vez do treino das três horas.

Só que eu sou de vergar, mas não partir (uso imenso esta expressão) e já o informei que foco é foco, objectivo é objectivo e que, se havia um único treino de três horas para fazer e eu me enganei, então esse treino será feito.

Domingo gordo, pois claro. Até treme!

Posto isto,

É desconfortável correr mais do que duas horas, aqui na minha zona.

Não há condições.

Lamento, mas não há.

Os políticos de Vila Franca de Xira - a minha terra - e os políticos de Samora Correia - freguesia onde habito - não querem saber de quem faz desporto. Assumo, digo-o, é verdade!

Para correr duas horas, pelo menos, tenho que ir para Lisboa.

Gasto dez euros de gasóleo, mais portagens, acrescentando isso aos quatro ou cinco géis que tenho que tomar durante a corrida, mais duas ou três garrafas de água que tenho que beber, sai-me um treino ao preço do ouro.

Agradeço-vos, senhores políticos do PS e da CDU, neste caso, porque os outros também não me convencem.

Mas, não é sobre política que escrevo.

Deixei o carro no parque de estacionamento junto à casa dos Bicos ( vá lá, deixem-se de pensamentos obscenos ) e saí para correr duas horas e meia.

Como sei os meus ritmos, as reacções do meu corpo, sobretudo o estado actual do meu corpo, apontei para os vinte e quatro quilómetros.

É verdade, com estes treinos acima dos vinte um quilómetros - quem diria - já contabilizo, juntando as provas oficiais, nada mais nada menos que quinze ( 15 ) - até sublinho com número - quinze meias-maratonas.

Digo-o com imenso orgulho em mim.

Dizia eu, saí da Casa dos Bicos, do Saramago, fui em direcção aos Cais do Sodré, sempre junto ao rio, o Tejo, que mesmo em Lisboa, onde se funde com o mar, em definitivo, continua a ser o meu rio.

Segui para Santos, passei o Padrão dos Descobrimentos, depois a Torre de Belém, linda.

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Observei - abrandei para ver - o monumento aos Combatentes, mais à frente a fantástica Fundação Champalimaud. Detive-me a olhar o Boat Yard da Volvo Ocean Race, à esquerda, e as janelas dos prédios, sem cortinas, à direita.

Pudera, até eu... com uma vista daquelas sobre o Tejo, até eu!

Já para lá de Algés, fiz os dois últimos quilómetros da primeira metade da corrida numa zona com muito pouca gente, quase nenhuma. De um lado o rio, do outro a linha do combóio, e eu.

Pensei, porra, agora tenho que fazer tudo para trás.

E fiz.

E cheguei.

E senti-me feliz, com o que fiz, com o que vi - e que contarei em outro texto.

Senti-me tão bem, ao longo daqueles vinte e quatro quilómetros, um pouco por culpa da paisagem, dos bares a bombar a um domingo a noite, por causa das pessoas que se divertiam e das que corriam aquela hora, tantas e tantas.

Diverti-me brutalmente, sózinho. Sempre sózinho, que até a correr sou bicho do mato.

Quando comecei a correr levava o meu amigo no pensamento.

Depois, a corrida entra numa fase estratégica, de controlo da respiração, do ritmo, das dores nas pernas.

Comecei de dia e quando cheguei ao ponto de retorno já era noite.

Só no fim reparei que me tinha enganado no treino.

Fiquei fulo.

Decidi fazer o tal treino das três horas no domingo que vem.

Fiquei tão fulo que me vinguei num Big Mac, com batatas médias e uma Fanta.

Fanta que pariu isto tudo !

Domingo volto lá, sem medos.

Porque quem tem medo compra um cão e, que se saiba, a minha Alice é uma gata.

Está quase, já cheira a Berlim !

 

( O próximo texto, mais logo, vai descrever a minha corrida. Garanto que não vou falar sobre como corri. Vou falar de tantas histórias que se podem contar numa corrida de duas horas e meia. Fica a promessa, porque aquela noite foi mágica)

 

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A MORTE NÃO TE LEVOU (DIA 44 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 26.08.18

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A morte não te levou, porque nem a morte nos leva aqueles de quem gostamos.

Ficarás eternamente nos nossos corações.

O teu sorriso ficará para sempre nos nossos olhares.

A angústia deu agora lugar a uma profunda tristeza e a uma grande revolta.

E, eu ainda não chorei tudo, Grilo.

Quero ser forte, por ti, pela Rosa, pelo teu filho, pelos nossos amigos, mas o meu arrependimento não me está a deixar ser.

Quando deixei a mensagem no teu grupo da corrida, fi-lo aos soluços. 

Desculpa, não consegui, tu entendes, tu és mais forte do que eu e sabes o quão eu sou forte.

Se cá estivesses estarias a dar-me ( dar-nos ) um abraço, e estarias a passar-nos a tua calma olímpica, a reconfortar-nos.

Grande exemplo que tens sido, para todos.

E, eu ainda não chorei tudo, Grilo.

Arrependo-me tanto daquele dia, meu querido amigo.

Lembras-te, naquela quarta feira à tarde, quando nos cruzámos no jardim da vila, ias tu para lá e eu para cá?

“Grilo, dá-lhe, mano, força”, gritei-te eu.

“Amigo Zé” - era assim que me tratavas - “força, carrega, gosto de te ver assim”.

“Grande abraço”, e seguimos, cada qual a sua direcção.

Dias depois começou esta macabra história, até hoje.

Sabes, Grilo, fiquei indignado com os tipos do JN que ontem publicaram a notícia da tua morte.

Nunca tinha, antes, sido confrontado com a morte de um amigo, nos jornais.

Indignei-me e manifestei-lhes a minha indignação.

Mas, hoje, a  Rita mandou-me uma mensagem a confirmar que eras mesmo tu.

Já hoje falei com o Paulinho, já lhe mandei uma mensagem com a trágica notícia.

Ele também está de rastos, como todos nós, ele também te adorava, mas isso tu sabes há decádas.

Também já deixei uma mensagem de voz, lavada em lágrimas, aos teus amigos do teu grupo do atletismo.

Só não tinha conseguido falar com a tua Rosa, por falta de coragem.

Perdoa-me.

Sabes, normalmente, quando escrevo, a escrita sai-me a cem à hora. Escrevo um texto em dez minutos.

Estou aqui há mais de uma hora.  Faço pausas enormes entre cada frase escrita.

Há um grande silêncio entre as minhas frases.

E, a tua Rosa contactou-me, neste meio tempo, falei agora com a Rosa.

Tens uma mulher muito forte, fantástica, tal como tu.

Mais corajosa do que eu.

Estaremos a seu lado todo o tempo do mundo, fica descansado.

“Amigo Grilo” eu não queria estar a escrever este texto, na verdade, nunca imaginei escrevê-lo, porque nunca ninguém imaginou que este terrível e macabro pesadelo fosse realidade.

Mas, escrevo-o porque quero que saibas que hoje tenho treino, é verdade.

Eu sei que te estás a rir; o teu amigo gordinho anda a dar-lhe a sério. Só descanso aos sábados, mas e tu consegues eu, inspirado por ti, também estou a conseguir.

Quem sabe se um dia farei um Iron Man, como tu.

Prometo tatuar a perna, como fizeste.

Antes disso vou tatuar a outra perna, sabes o que lá vou escrever?

"I´m a marathoner", isso, eu sabia que ias gostar.

Hoje, "Amigo Grilo" é o meu penultimo treino logo, são 25 quilómetros.

Depois, como te disse há umas semanas, no próximo domingo terei o último longo antes da minha estreia na maratona, o de 30 quilómetros.

Daqui para a frente vou levar-te comigo, em cada corrida que faça, sabes porquê?

Porque acredito que os anjos olham por nós e tu vais contunuar a incentivar-me e a apoiar-me, como sempre.

Vais comigo, preso às minhas sapatilhas, colado à minha alma.

Serás, de hoje em diante, o motor da minha locomotiva.

Porque foste o exemplo.

Gordo do caraças :)

Já viste as elegâncias em que  os tornámos, depois de velhos?

Tenho tantas suadades tuas!

Sei que já não te irei  encontrar mais no jardim, mas o que tu não sabes é que irei pensar em ti, sempre que lá correr.

Aquele jardim guarda as minhas memórias de infância, os momento mais belos que vivi, menino, do lado de lá da linha do combóio e do lado de cá, onde a gente se encontrava, junto ao nosso rio.

Agora, o meu jardim guarda também a tua imagem.

Vou acabar, “Amigo Grilo” ( que saudades de te ouvir dizer “Amigo Zé”), quero só que saibas, estejas onde estiveres, que Berlim vai por ti.

É a ti que dedico a minha primeira maratona, que ficará tatuada na minha pele e na minha alma.

É a forma que encontro para agradecer as tuas palavras, que jamais esquecerei, que levarei comigo, no momento em que cortar aquela meta:

“Amigo Zé, tu vais conseguir”.

Vou, fica descansado.

Gosto muito de ti.

Obrigado, por tudo o que fizeste por mim.

Em Berlim, vai por ti, “Amigo Grilo”.

Recebe o meu abraço.

Jamais te esquecerei.

 

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AMIGOS ESCREVE-SE COM "A" ( DIA 43 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 25.08.18

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Começou a contagem decrescente.

De repente dou conta que faltam apenas três - 3 - semanas para aquele dia que eu nunca imaginei lá chegar.

A ansiedade e a insegurança desapareceram.

Ainda tenho mais uma semana de dureza pela frente, afinal, ainda nem acabei esta, amanhã corro 25 quilómetros.

Na próxima irei treinar os membros superiores, depois corrida progressiva de uma hora e meia, corrida de relaxamento de uma hora, treino de pernas, outra corrida de relaxamento de uma hora, folga, no sábado e, no domingo que vem…Trinta quilómetros.

Será a corrida mais longa da minha vida.

Depois, as duas semanas que antecedem a maratona de Berlim serão também elas de treino, mas com um objectivo diferente: libertar o corpo de toda esta carga brutal que tenho em cima, para chegar ao dia 16 no pico de forma, leve como uma pena - salve seja -, para correr os 42,195 kms.

O que me preocupa, na verdade, são aqueles 195 metros finais.

Neste momento já não estou preocupado com os restantes 42 quilómetros.

A sério.

No instante em que escrevo este texto sinto-me confiante, forte, física e psicologicamente, apoiado por quem está em meu redor, perdi os receios.

Estou há 8 meses e meio a preparar este dia.

Tenho sofrido imenso com as dores, com as massagens, com o calor, com os quilómetros, tenho abdicado de ir jantar com amigos, ou de sair com a família para fora, tenho cumprido o compromisso que assumi, primeiro, comigo, depois, com o meu treinador, com o meu recuperador, depois com os meus companheiros de aventura e com as pessoas da nossa equipa.

Sim, somos uma equipa, somos os “Rainbow Runners”.

Uma equipa constituída por amigos, amigos francos, sinceros, verdadeiros, comigo, todos os dias, e que vão a Berlim só para estar a meu (nosso) lado naquele que, provavelmente, será um dos dias mais marcantes da minha vida.

Isso não tem preço.

Quando soar o tiro de partida, às oito da manhã daquele domingo, arranco para a prova física mais exigente desde que me conheço. Física e psicológica.

Na cabeça levo a estratégia da corrida e as sábias palavras do meu treinador, levo também a companhia do Francisco e da Alice, os meus “wingman”.

No coração levo todos, sem qualquer excepção, que me encorajam todos os dias, me empurram para este sonho, que alimentam a minha coragem, mesmo nos momentos em que ela quer falhar.

Levo-os a todos, sem excepção.

Aqueles que deviam estar neste movimento - onde existem imensas pessoas que nem sequer conheço pessoalmente - mas, por opção própria nem uma palavra alguma vez me dirigiram, esses, esses não conseguiram os mínimos para participar na corrida…do meu coração.

Estão fora.

De fora ficarão.

E, não contam, para nada.

São os que me acarinham, os que me incentivam, os que acreditam em mim, os que me ajudam e apoiam que serão as molas que levarei nos pés.

Com o meu “irmão” Francisco de um lado e a minha “irmã” Alice do outro irei voar.

Se vou terminar nas 4.15H, nas 4.30H ou nas 4.40H, é algo que, de facto, não me incomoda rigorosamente nada.

Hoje, enquanto escrevo, sinto-me forte, como nunca, combativo, como sempre, sonhador, porque assim sou, crente, em mim e no que sei sofrer, esperançado, porque a felicidade voltou a visitar a minha vida. Finalmente.

Daqui nada vou ver a estreia do meu filho.

Vai jogar pela primeira vez no campeonato nacional de juniores ( Divisão II).

Está a cumprir o seu sonho, mas é para lá disso, ele e eu sabemos o que é e a força que os últimos acontecimentos me transmitiram. A mim e a ele.

Quinta feira, a minha mãe será operada e irá voltar a ver, sim, a ver, a minha mãe praticamente cegou, há uns anos.

Não havia como voltar a ver.

Mas, há e vai voltar a ver.

Se deus existe, e se quiser, outras novidades vão acercar-se de mim, nos próximos dias.

Tudo, exactamente tudo como desejei em Dezembro quando decidi mudar a minha vida e correr a maratona, pela primeira vez.

Por tudo isto, que aqui está escrito e que parece pouco, mas na realidade é uma brutalidade, na minha vida, faz com que não esteja preocupado com os 42 quilómetros.

Para essa epopeia única eu preparei-me, passaram oito meses e meio, desde o primeiro dia.

O que me preocupa são os 195 metros finais.

É que eu não treinei essa parte.

Ninguém treina o seu coração.

Quando completar os 42 quilómetros vou olhar para a Alice e para o Francisco, vou voltar a lembrar-me de todos aqueles e aquelas que me acompanharam neste caminho tão duro, vou lembra-me do Mané Cordeiro, que um dia disse que iria correr uma maratona comigo, antes de morrer. Mané vais estar a ver-me, onde quer que estejas, isso eu sei, meu querio amigo.

Vou lembrar-me do Grilo, que continua desaparecido, já lá vai uma eternidade.

Vou lembrar-me dos meus filhos e da Carla e do amor que me dão.

E, vou chorar. Muito. Tanto.

Tanto, que aqueles 195 metros finais serão uma mera fracção de tempo.

Não estou preparado para tamanha invasão de emoções.

Não treinei para isso.

E, ainda bem!

 

Vídeo... )

 

 

 

 

 

 

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"A DOR EXPULSA A FRAQUEZA" ( DIA 42 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 16.08.18

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( FOTO: RICARDO AREIAS )

 

 

Hoje escrevo sobre mim, por interposta pessoa.

Outra pessoa.

Podia ter sido eu.

Tenho recebido apoio e incentivos de tantas pessoas que, confesso, fico banzado.

O Ricardo Areias tem sido uma dessas molas que alavancam a vontade de levar isto até ao fim.

Ontem, o Ricardo enviou-me um texto dele, que publicou, com uma coragem que raramente se vê.

É ler, para perceber.

Este texto não me sairá da cabeça.

Vai acompanhar-me até ao momento em que cortar a meta, em Berlim.

Já vai entender...

 

 

 

 

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OS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS ( DIA 41 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 15.08.18

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Sou bipolar.

A corrida trouxe à tona a minha bipolaridade.

Só não sofro é da parte do “transtorno”.

No último texto queixei-me das dores nas pernas.

Hoje as minhas pernas estão novas.

Do Inferno ao Céu em menos de vinte e quatro horas.

Sei lá !

Acha que eu sei porque é que isto acontece?

O que eu sei é que a corrida de hoje foi do diabo.

Depois de ter corrido, pela primeira vez, que vinte e quatro quilómetros, com enorme sacrifício, tudo fiz para recuperar bem.

Mas, o desconforto nas pernas não me largava, até hoje.

Hoje, quando saí para correr eu não tinha pernas, tinha duas bigornas, uma de cada lado.

Cumpri o calendário de preparação mas falhei o objectivo do treino.

Uma hora e um quarto em ritmo progressivo.

Em teoria, uns doze quilómetros, na prática, quase onze.

Foi uma corrida tão pesada quanto o calor que senti.

Não consegui correr progressivamente, a trinta dias da maratona.

Senti-me frustrado, desanimado, stressado, cansado.

Foi, provavelmente, a corrida mais lenta que fiz, desde Janeiro deste ano.

Inquieto, com o pensamento a puxar-me para baixo, terminei o treino onde tinha começado, junto da família.

Logo hoje que fomos fazer um piquenique, logo hoje, não podia estragar-lhes(me) o dia.

E não estraguei.

O meu amigo de toda uma vida, padrinho da minha filha, encarregou-se de iniciar a minha recuperação;

Crioterapia “à la carte”.

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Não havia como ficar desanimado.

Depois lembrei-me da conversa que tive com o Ricardo Areias.

O Ricardo é uma daquelas pessoas ( como todos os que correm a sério ) a quem o país dá valor zero.

Sentido o que eu sinto, de bom e de menos bom, com a corrida, na corrida, a corrida dá-me o privilégio de trocar mensagens e pedir conselhos a atletas “profissionais” (?), mesmo sem nos conhecermos pessoalmente.

A corrida não tem nada a ver com o distante mundo do futebol.

Não que os corredores não trabalhem. Trabalham é muito mais do que se possa imaginar.

Eu imagino.

Aquilo que se sente, sofre, para atingir os objectivos, e os deles são totalmente diferentes dos meus.

O Ricardo é daqueles que correm a maratona em menos de três horas.

Pois bem, lembrei-me da nossa conversa de ontem, no chat do Facebook ( porque ainda não nos conhecemos pessoalmente, será em…Berlim).

E lembrei-me da troca de mensagens com o Francisco, durante a (não) corrida de hoje.

O Francisco, depois de um treino de quarenta quilómetros e outro de dez parou dois dias.

O Ricardo também parou, e também me garantiu que o desconforto não poupa ninguém, mas que será fundamental para “lá chegar”, à meta.

Lembrei-me deles e do que me disseram.

O Ricardo Areias é, se quiser, um dos maiores, se não o maior responsável pela concretização desta aventura demolidora.

Foi ele que, após apelo meu nas redes sociais, me colocou em contacto com a “Maratonas do Mundo”.

Assim conseguimos as nossas inscrições totalmente fora de horas e quando já não acreditávamos.

O Ricardo envia-me mensagens, às vezes.

Como se não fosse bastante enviou-me há dias uma foto com uma mensagem de incentivo, de apoio, de coragem.

Nessa foto estavam as medalhas que o Ricardo já conquistou em Berlim, na maratona.

Ainda a guardo.

Pensei em tudo isso, em tudo o que me disseram e, depois de ter rogado pragas ao meu adorado treinador - sabe tanto disto - durante a corrida, devido ao meu sofrimento, cheguei à conclusão que bate tudo certo.

Quando cheguei a casa tomei banho, tratei dos cuidados habituais, creme no corpo, desodorizante roll-on, cera no cabelo, dentes lavados e pimba, “vou escrever”, pensei.

É quando me dou conta que as minhas pernas, como que do nada, deixaram fugir todo o calor, todo o peso, todo o desconforto que tinham e que tanto me fizeram odiar aquilo que estava a fazer. A sério.

O meu treinador sabe tanto disto.

Os meus amigos sabem tanto disto.

Foi isto, esta corrida diabólica, debaixo de um intenso sol ribatejano, que tratou de recuperar os músculos das pernas.

Do nada, ou não tanto, talvez porque é assim mesmo.

Agora é gerir até domingo, dia de longão.

Ok, eu até admito não ser bipolar e ter usado a palavra para tentar agarrá-lo(a) ao texto, mas as minhas pernas são.

Seja como for, ainda há bocado estava deprimido e agora estou feliz.

Elas estavam mortas e acabaram de renascer.

Cheira-me que vou acabar esta semana em altas.

Soubesse a malta o apoio que me transmitem!

Não tira as dores, mas fá-las desaparecer.

Juro!

Ou não.

Ou então, são os deuses que estão loucos.

E eu também!

 

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O HOMEM SEM CABEÇA ( DIA 40 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 14.08.18

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Aproxima-se aquele que é, provavelmente, o dia mais simbólico da minha idade adulta.

Entrámos na recta final.

Aposto que a ansiedade já se apoderou de todos os que pertencem à nossa equipa.

Isso, somos uma equipa, em nome da amizade pura e das cores do arco-íris.

Até temos um nome, somos os Rainbow Runners.

Somos mesmo e somos amigos puros, todos os onze que vão conquistar o coração de Berlim, onde há um arco-íris só nosso.

O tempo passou tão depressa e eu sinto-me cansado.

É de revolução que falo.

Auto-revolução, porque há desafios do caraças.

Ponha-se no meu lugar, nos últimos oito meses aquilo que mais tive foi dores nas pernas treino após treino. Mas eu acredito que a amizade pura faz milagres, acredito que não ficarei assustado como ontem à noite.

Saia do meu lugar, porque isto não é uma queixa, é um facto com que eu já contava.

Só o (a) convidei para se colocar no meu lugar para sentir um bocadinho, só isso.

Depois do treino longo, que devia ter acontecido no domingo - não posso falhar um treino sequer, falhei o dia, agora tenho que compensar- dei comigo a pensar:

“ acabei de treinar uma meia-maratona, mais uns pózinhos, as pernas clamam, como é que vou correr o dobro?”.

Desanimei, confesso.

No caminho para casa reflecti.

Na verdade não fiz tempos muito diferentes do habitual, na verdade as pernas continuam quentes, muito quentes, mesmo, por dentro, cá dentro, mas há dois dados novos que são importantes;

A recuperação foi muito diferente, para melhor.

A outra outra que me animou;

Não acabei cansado.

As minhas pernas sim, eu não !

Durante quase vinte e quatro quilómetros, a mais longa corrida que já fiz, percebei muito melhor o meu corpo, as diferenças, aquilo com que vou contar.

Nessa reflexão,

Estou consciente que esta carga ( que eu julgava inimaginável) há menos de oito meses, esta carga que as minhas pernas carregam há oito meses, de forma permanente, umas vezes menos, outras mais, vai ser-me extremamente útil durante as quatro horas e meia, o tempo que gostava de fazer na minha primeira ( e provavelmente a única) maratona.

Porque a ideia é que todo este desconforto que me queima os músculos esteja bem longe de Berlim, no domingo, dia 16 do mês que vem, e o meu pavor começou a dissipar-se.

Como que em um filme vejo-me leve, solto daqui a cinco semanas.

É assim,

As últimas duas semanas são tão importantes quanto todas as outras vinte e oito semanas que é o tempo que demora esta aventura.

Nessas duas últimas semanas os treinos vão ter como objectivo retirar-me toda a fadiga das pernas, mantendo a condição adquirida ao longo destes duros, austeros, desafiantes e brutais meses.

Aqui entra outra barreira que tenho vindo a derrubar - e têm sido imensas, acredite, era assim que eu imaginava esta espécie de doce penitência -, os meus dois companheiros de aventura estão de longe em melhor forma do que eu, até porque já têm várias maratonas nas pernas.

Incomoda-me obrigá-los a correr cada quilómetro em seis minutos e meio, quando qualquer um deles o corre em cinco minutos.

Eles vão com esse propósito ( não só mas também ), ajudar-me e estar a meu lado, mas incomoda-me porque esta corrida seria fantástica para eles, se não fossem ao meu ritmo.

É uma barreira que será quebrada, já quebrei outras, como correr sem dores nas pernas a mando apenas do sub-consciente, sem qualquer dor, na verdade, mas com a sensação que as tinha, às dores.

Em outras corridas mandei-os embora, para fazer a corrida ao meu ritmo.

Em Berlim não.

Em Berlim quero-os ao meu lado.

São eles as asas que me vão fazer voar, porque eu acredito que a amizade pura faz milagres.

Passei de assustado ao estado oficial de crente.

Eu creio na corrida.

Eu creio na amizade.

Os milagres só existem nas nossas cabeças, mas existem.

A não ser que não tenha cabeça.

This is crazy !

 

 

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CORAÇÕES BONS ( DIA 39 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 06.08.18

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...É por isto que vou a Berlim...   ( CLIQUE E VEJA )

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