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É ATÉ AO FIM ( DIA 38 DA MARATONA )

Sábado, 21.07.18

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Hoje fiz aquilo que não devia fazer, para fazer aquilo que tinha que fazer.

Têm sido dias angustiantes, estes.

Para mim e para muitas pessoas.

Tenho o defeito, disseram-me um dia, de “carregar todo o peso do mundo, nas minhas costas”.

Alguém aqui é perfeito?

Desde que me tornei adulto, há pouco tempo, que cheguei a uma conclusão, provocada pelo caminho feito até então: isto é só altos e baixos, para duros, porque a vida tanto te empurra para cá, como para lá, para onde ela quiser.

A angústia devia ser um sentimento banido pela ciência.

Ela suga-me.

Tenho um amigo que está desaparecido desde segunda feira. Desapareceu enquanto treinava.

Amigo dos tempos de escola, grande amigo quando precisei dele, obeso, como eu, há uns cinco anos.

Serve-me de exemplo, quando me cruzo com ele, em treino, eu para a minha maratona, ele para as suas provas de Iron man ou Triatlo.

Ando angústiado com o seu desaparecimento.

E, hoje fiz aquilo que não devia fazer; deixei um treino para trás.

Quer dizer que segunda feira será dose dupla, em vésperas de séries de vinte minutos.

Vou ter que ir buscar forças onde elas estão escondidas, para recuperar o calendário.

Mas, não fiz aquilo que devia fazer, para fazer aquilo que devia fazer.

Passei praticamente todo o dia em casa, a trocar mensagens, contactos, porque por um amigo dás tudo, incondicionalmente.

Ao fim da manhã pensei fazer  o treino que a angústia me impediu de fazer ontem.

Interiorizei que tinha que ir, por todos os motivos.

Foi quando recebi uma mensagem.

O comandante Jorge Manuel Mendes, um operacional, que me dá a honra de ser meu amigo, fez-me chegar a informação que tinha formado um grupo, voluntariamente, um grupo de voluntários, uns trinta.

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Este sábado estiveram a bater o terreno até a noite cair.

Este domingo voltam ao terreno, agora com outros mapas, outras pistas, outras estratégias.

Estão a fazer um trabalho paralelo ao das autoridades, pois estão como voluntários, mas estão em perfeita sintonia com as autoridades, afinal também eles fazem parte de organizações de busca e salvamento.

Quando recebi a mensagem do comandante JMM decidi ficar em casa e começar a filtrar, receber e a fazer chegar informação. Estivemos assim até ao fim do dia.

Quando lhe agradeci - o Jorge é dos lados de Sintra, o meu amigo é da minha zona e nunca se conheceram - o comandante respondeu-me com um soco no estômago:

“Não tens que agradecer, é um dever de cidadão”!

Esta semana, durante todos os treinos que fiz tive esse obstáculo invisível que se chama angústia.

Empurra-te para trás, quer que te arrastes, prende-te.

Compete a ti ser mais forte e ir mais além.

Que luta é essa se comparada com esta luta tão desigual?

Hoje não fui treinar porque tinha que fazer algo mais importante.

Este domingo tenho que fazer uma hora e meia intensa.

Levarei a angústia comigo, vou deixá-la no rio, espalhada até à foz.

Faltam-me oito semanas para chegar ao fim do arco íris.

Falta tão pouco, não é momento para correr com a angústia a meu lado.

Falta tão pouco, é até ao fim.

É seguir o teu exemplo.

É até ao fim !

E, mesmo que ande perdido é até ao fim.

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publicado por The Cat Runner às 22:20

SORRISO SOFRIDO ( DIA 37 DA MARATONA )

Quinta-feira, 19.07.18

 

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Há um livro que me marcou, para sempre.

Vou reler, pela segunda vez, agora que se estreita o caminho para Berlim e a vida nos vai colocando, aqui e ali, obstáculos, para que não nos esqueçamos da nossa condição, quando, legitima e finalmente começamos a sorrir, por este ou por aquele motivo.

É assim, a vida é feita assim, não à medida do homem.

Esse livro foi escrito por um japonês que, depois de ter mudado de vida e de se ter dedicado apenas à escrita decidiu começar a correr.

Correu dezenas de provas de longa distância, triatlos, até que decidiu reflectir nesse livro o que significa para ele correr e como a corrida  passou a influenciar a sua maneira de escrever e de viver.

Os treinos diários, a paixão pela música, a consciência da passagem do tempo, os lugares por onde viaja acompanham-no ao longo de um relato.

Aqui, neste livro, escrever e correr traduzem a forma de Haruki Murakami estar na vida.

Ler este livro impele para uma meditação sobre nós próprios, na permanente busca  da verdade sobre quem somos, afinal?

Marcou-me pelos ensinamentos e pela outra história que ele conta.

“Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo” foi-me emprestado por um querido amigo, colega de trabalho, corredor de fundo, que tinha ganho a batalha contra um cancro. Ele emprestou-me o livro que me mudou, enquanto ser humano.

Nunca lhe o devolvi.

Ele morreu na véspera de uma meia maratona, ele ia correr a dele, eu ia correr a minha, noutra cidade.

Recebi a notícia da sua morte, de repente, no quarto do hotel, na manhã da minha corrida.

Nunca tive oportunidade de lhe devolver o “Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo” .

Está ali, na minha estante, em frente à minha cama.

Por vezes olho-o. Assalto-me por dentro. Por vezes evito-o.

Vou pegar nele e voltar a lê-lo.

A preparação para o maior desafio da minha vida está na recta quase final.

Vai ajudar-me, reler Murakami vai fortalecer-me, por vários motivos.

Porque vou reviver e relembrar coisas, porque vou reaprender outras, porque preciso de me preparar psicologicamente para a minha maratona.

Não quero chegar ao fim em dificuldades, isso quer dizer que não me preparei como deve ser. Quero passar a meta com todas as minhas faculdades físicas e mentais no auge.

Mas, vou voltar a ler o livro de Murakami porque estes têm sido dias difíceis.

Tal como foi dolorosa aquela corrida, poucas horas de pois de saber da trágica notícia do meu amigo JP, também dolorosos têm sido os meus treinos, esta semana.

Um querido amigo está desaparecido desde o início da semana.

Andámos juntos na escola, ajudou-me muito quando tive dois restaurantes que quase me levaram a falência, é um bom homem.

Sensivelmente, pela mesma altura em que comecei a correr, há uns cinco anos, o meu amigo era obeso, inchado.

Agora, com cinquenta anos é Iron Man, faz Triatlo, uma máquina.

Um ser humano sempre pronto para os outros.

Cruzo-me com ele muitas vezes, no jardim, no passeio ribeirinho, enquanto treinamos.

Desde o início da semana.

Ninguém sabe nada dele, apenas o telemóvel foi encontrado.

Paira uma onda de choque por estes lados, de choque e de solidariedade, de voluntarismo, de fé.

Tenho treinado com ele no meu pensamento. E, quantos pensamentos me têm passado pela cabeça, enquanto treino!

Vou seguindo as horas, com inquietação.

Vou continuando a treinar, cada vez mais duro, mais forte, mais rápido.

Não quero fazer má figura quando cortar a meta, em Berlim, amigo Grilo.

Quero cortar a meta como tu, naquela fotografia da semana passada, de braços no ar, esforço espelhado na cara que mostra aquele sorriso de quem corta uma meta.

Só quem corta uma meta entende esse sorriso sofrido.

Já tenho saudades de me cruzar contigo e te dizer: "bora lá, amigo Grilo".

O que nunca te disse é a inspiração que me tens dado desde que deixámos os dois de ser gordos.

Quero dizer-te, finalmente.

Olhos nos olhos.

 

 

 

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publicado por The Cat Runner às 23:12

AS DÚVIDAS E AS CERTEZAS DE UM CORREDOR EM "AFLITOS" (DIA 36 DA MARATONA)

Sábado, 14.07.18

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Pronto, meti zoom 300 porcento na página e assim já vejo bem, para escrever esta crónica.

Estou confrontado com sensações que nunca tinha experimentado antes.

Ainda há poucos dias escrevia sobre o início da aventura Road2Berlin2018;

Faltam nove meses, dizia eu, o parto perfeito. Tinha tempo para tudo, para recuperar as lesões crónicas das pernas, para modificar hábitos alimentares, fruto das circunstâncias, tinha tempo até para treinar.

Faltavam nove meses para a minha primeira e mais importante maratona, Berlim.

Pois, agora faltam dois meses e meio.

Pois.

Fruto das circunstâncias, tenho tempo suficiente para pensar na minha corrida.

Vejo vídeos, com os quais aprendo técnicas, que me têm ajudado nos treinos.

Leio sobre recuperação, métodos de treino físico e mental, treino a vários ritmos e intensidade, durante quatro dias, os outros dois dias faço ginásio e descanso um.

Tenho atingido os objectivos de treino, com extrema dificuldade, dada a intensidade e a cadência das sessões, mas tenho sentido resultados.

Disse-me o meu treinador: “ hard work paid off “.

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Fruto das mesmas circunstâncias - estou de baixa "prolongada" - tenho conseguido dedicar-me à preparação para a corrida, acontece que, vou repetir-me, sorry, sinto-me melhor a correr hoje do que me sentia há um ano, seis meses, quatro meses, dois meses, um mês, sinto-me bem melhor. Ponto.

Mas, a dois meses e meio da Big One pergunto-me várias vezes se estou no momento de forma em que devia estar?

Não sei se devia estar mais forte, mais consistente, mais rápido, mais resistente.

Estou mais do que estava, mas não sei se chega.

Sei que dois meses e meio dão para fazer muito, basta olhar o mesociclo; séries de 3X3 kms ou 3X4 kms, situações de treino que me levam quase à exaustão, sessões que, por vezes me obrigam a parar uns segundos.

Correr é sofrer, e essas pequenas paragens fazem-me voltar a sentir o equilibro enquanto corro, mas vou evitá-las, cada vez mais. Sofrer, mas com calma.

Sei que nestes dois meses e meio vou continuar a perder peso, vou continuar a melhorar, sei que vou passar para outro patamar, em breve, muito em breve.

Isso dá-me confiança, sobretudo quando dou comigo a visualizar a corrida mentalmente, porque já comecei a planificá-la dentro da minha cabeça.

Uma tarefa que será ainda mais trabalhada, se a minha forma continuar a evoluir.

Em Janeiro, o meu treinador disse-me: “a ideia é trabalhar, cumprir os objectivos, com calma. Trabalhamos para, em Setembro, estares no pico da forma, no momento programado”.

Hoje, depois de me queixar da alucinação do treino semanal de séries, ao fim de uns minutos de perguntas e respostas, mais da minha parte, várias ele dúvidas, explicou-me que “estes treinos de séries, em função dos BPM são treinos que vão ser úteis durante a maratona, quando chegares ao quilómetro trinta”.

Pronto, disse tudo.

O quilómetro trinta.

Recordo-me que, em Janeiro, quando falámos pela primeira vez, pessoalmente, ter-me dito: “ vamos treinar, durante estes nove meses, todos os factores que terás que enfrentar numa maratona. A alimentação antes, durante e depois da prova, as dores, a estratégia mental, a parede, ao quilómetro trinta, vamos treinar a forma de ultrapassar esse obstáculo e acabar a maratona bem”.

É incrível, tudo bate certo, menos a minha dúvida.

Um eu diz que sim. O outro eu também.

Mas, eu ainda tenho dúvidas.

E certezas.

 

( EM BERLIM SERÁ ASSIM, ATÉ RIMA E VAI SER VERDADE )

 

 

 

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publicado por The Cat Runner às 13:35

ESTA VIDA DAVA UM LIVRO E UMA MARATONA ( DIA 35 DA MARATONA )

Sexta-feira, 06.07.18

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Não tem volta a dar, vou correr uma maratona.

Está tudo preparado, menos eu, estadia, viagens, inscrição.

Não há, nem quero que haja volta a dar.

No primeiro dia do ano, quando decidi meter-me nesta aventura, porque é uma aventura, aquilo a que me propus, fi-lo porque queria materializar uma profunda decisão, interior, sobre mim, enquanto homem, enquanto pessoa, enquanto pai e marido, enquanto amigo, enquanto profissional.

A decisão mais difícil que jamais tomei não foi correr uma maratona;

Vou a meio da vida, não conto viver muito mais que 96 anos.

Digamos que estou no limbo da vida.

Perante aquele momento em que te equacionas, na busca de uma resposta, seja ela qual for.

A maratona de Berlim é a materialização de uma profunda mudança de vida, enquanto pessoa.

Ainda há dias disse-o ao telefone, a um amigo;

“Estou a meio da minha vida, gostei da primeira metade, mas a segunda, por ser a última, terá potes no final do arco-íris, mesmo que não haja ouro dentro”.

Dia 15 de Setembro será a data, o dia, o momento da minha individual e egoísta celebração.

Quero celebrar-me, porque sei que virei de Berlim um homem melhor, comigo.

Mais forte, mais corajoso, mais amigo, mais solidário, mais disposto, um homem melhor.

Porque, quando estiver a duzentos metros da meta final sei que a minha figura vai elevar-se, deixar o meu corpo - eu vou ver - e esfumar-se.

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Duzentos metros depois, quando cortar aquela meta, serei eu, novo, porque a minha fé, a fé em mim, levou-me até ao fim de uma aventura que terá exactamente nove meses de duração.

Começou em Janeiro.

Só há pouco tempo é que comecei, de facto, a estabelecer uma ligação entre uma coisa e outra, uma depende da outra.

Porque também posso não cortar a meta, em Berlim.

Tudo conta.

Berlim será tudo ou exactamente o mesmo.

Acredito que será tudo. Finalmente, em meu redor, as coisas começam a conjugar-se.

Começo a encontrar-me, de novo.

Sobretudo, por corro.

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Parece que foi ontem, “são nove meses de preparação”, mas não foi. Faltam dois meses e meio.

Estou a guardar tudo para Agosto, quando faltar um mês e meio.

Vou espreitando uns vídeos, no Youtube, com algumas técnicas de corrida, que aplico nos treinos e que, ultimamente, tem dado resultado.

Aprendi a aumentar a passada, aprendi colocar os pés, as pernas, os quadris como deve ser, aprendi a respirar, aprendi a correr com os olhos no horizonte.

Espreito os vídeos, experimento e coloco em prática nos treinos definidos no meu plano.

Tenho melhorado os meus tempos, nas duas últimas semanas, depois da meia maratona de Guimarães.

Mas, melhor, tenho sentido, no corpo, todo o trabalho que tenho feito, desde Janeiro.

Momentos houve em que sentia que não estava a evoluir nada.

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Hoje, sinto-me mais seguro, mais forte, mas ainda com um profundo respeito pela maratona, que é disso que este texto trata, pela importância que ela ganhou, na mudança que quero, para mim, enquanto gente.

Penso nos meus amigos que correm a maratona em três horas e meia.

Penso nos que correm em menos tempo.

Penso nos amigos que vão correr comigo, ao meu ritmo.

Penso que eles não sabem, mas vão ficar surpreendidos comigo.

Agosto marca a recta final deste processo.

Em Agosto começo a parte da afinação, afinar, alinhar, definir, em Agosto quero sentir que sou muito mais feliz, outra vez, mesmo antes do final deste propósito meu.

A maratona, logo a seguir, será o selo oficial desta aventura, aventura de vida, de uma vida, da minha vida.

Eu acho que tenho o direito de ser feliz.

É só isso, nada mais.

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publicado por The Cat Runner às 23:38





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