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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

28.06.18

CONQUISTAS ( DIA 34 DA MARATONA )


The Cat Runner

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Correr uma meia maratona, sem dormir pelo menos oito horas não me parece bem.

Muito menos se essa corrida parte do castelo, na cidade que fundou Portugal.

É responsabilidade, gente.

Muito menos se essa corrida é feita, em grande parte, nas ruas, ruelas e passeios carregados de história, do centro de Guimarães, Património Cultural da Humanidade.

Agora percebo porquê!

Fantástica viagem no tempo, na história.

Esta, era uma das meias maratonas que faltava no meu curriculum de pré-maratonista amador.

Dizia-me alguém que eu escrevo melhor que corro.

É isso que quero inverter.

Certo é que a corri a meia maratona, dura, para duros, e cheguei ao fim.

A humidade, em Guimarães, no grande terreiro, junto ao castelo, era de 80%.

Às nove e meia da manhã já estavam trinta graus.

“ Amigo, ainda não começou a correr e já está a transpirar assim?”, lançou-me um daqueles tipos, com mais de cinquenta anos, bigode negro, sorriso malandro, daqueles que fazem a meia em pouco mais de hora e meia.

Era tudo junto, a humidade relativa do ar, a temperatura, as emoções, a noite anterior, e eu, ali mesmo, onde nunca tinha partido, no meio do pelotão, no meio dos duros.

Esta, era uma corrida que, por motivos pessoais, não estava para fazer mas, porque estou a levar à risca o plano de preparação tive que me fazer homem e fiz-me à estrada.

Valeu a pena, desde que cheguei até que vim embora. Há coisas que valem a pena.

Ali estiva eu, no meio dos corredores.

Ali ia eu, a abrir pelas ruelas fora, para não ser atropelado.

Fiz os três primeiros quilómetros abaixo dos cinco minutos cada.

Já sabia o que estava para vir, quebra.

Nunca eu imaginara o que aí estava para vir.

O pequeno almoço…

A parir do quarto quilómetro comecei a sentir tudo às voltas no estômago.

Alimentei-me correctamente, mas cometi o mesmo erro - pela terceira vez - que foi comer apenas uma hora antes da corrida.

Andei ali uns quilómetros aflito, a controlar a respiração ao limite, para que o oxigénio me ajudasse a passar aquele indisposição.

Foi assim até aos dez quilómetros. Já tinha o tempo todo lixado.

O meu treinador definiu uma corrida calma, em patamares baixos, apenas para ver as reacções.

Eu, não lhe o disse, mas quis ir mais além. Lixei-me, no entanto, ainda assim, cumpri com o que ele me disse, pelo que me deu os parabéns, ao fim do dia.

Começo a sentir o efeito dos treinos duros.

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As ancas não cederam nas primeira subidas, as pernas comportaram-se bem durante os vinte e um quilómetros, sem dores, sem mal-estar, o pior é que depois de descer tem que se subir e as subidas eram mais que as descidas.

Por alturas dos quinze quilómetros já estava a prever uma porcaria de tempo. O calor tinha apertado, a humidade mantinha-se, e depois - detesto - há sempre aqueles cromos, na beira da estrada que tem mandam uma boca: “então, assim não chega ao fim”.

Para a p@€£‰¶ que te pariu, pensei, não disse.

Siga, subidas, descidas, a Alice, já em sentido contrário, que a Alice está uma máquina, para brilhar em Berlim;

“Anda, eu espero, vou contigo”, ela já sabe a resposta, “nem pensar, segue”.

Pouco depois, também em sentido contrário, a Joana.

A Joana é bonita e elegante e sobressai no meio dos corredores.

Ela não me viu, confessou-me, no final, que queria fazer cinquenta minutos (ela estava a correr os dez quilómetros), mas que a determinada altura caiu de joelhos, exausta.

Eu disse que o traçado era duro.

Fez uma hora e quatro. Excelente.

Um dia alguém me explicará porquê, mas é ao fim de uma hora e tal de corrida que começo a sentir-me melhor.

Pensei recuperar tempo, estava quase a chegar ao fim.

Ele foi hidratante, na água, ele foi Red Bull, ele foi Isostar - só não vi as laranjas - eu fiz todos os abastecimentos, mas o que é para ser é, e o que não é para ser não é.

Não era para ser mais do que foi, cumprir os objectivos e ficar por aí.

Como sempre a Carla apareceu-me ao caminho, para tirar a selfie da ordem. Ao Francisco perdi-lhe o rasto desde a noite anterior, na rua das "quengas", apesar de ele me ter ligado antes da partida.

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Uma coisa esta meia maratona veio provar-me, quanto mais a dureza aumenta, mais aumenta a tua capacidade e a forma como conftontas os obstáculos.

Desta vez não festejei, quando passei a meta.

Limitei-me a cumprir o ritual; é sempre a Teresa Batista quem me coloca a medalha.

Nesta etapa, de Guimarães, a que me faltava no curriculum, tinha que ser a Teresa, e foi.

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Faz parte do ritual dar um abraço ao senhor Alfredo, que dei.

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Respirei fundo.

Respirámos fundo.

Há abraços que atalham caminhos, mesmo depois de duras subidas e de descidas traiçoeiras, que te dão cabo dos joelhos.

Sou um homem de sorte.

No fim, ainda almocei com a Joana. Roam-se de inveja !

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A medalha é linda.

Agora, em teoria, até Setembro não faço mais nenhuma prova, apenas treinos.

Sempre quero ver se a medalha da maratona da minha vida, que vou correr em Berlim é tão bonita quanto a que conquistei em Guimarães.

É que Guimarães é terra de conquistadores.

Lá, conquistam-se coisas, corridas e pessoas.

28.06.18

VISITA À TWILIGHT ZONE ( DIA 33 DA MARATONA )


The Cat Runner

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Estamos no ano 1345.

É noite de festa, nas ruelas, nos largos junto ao castelo, no adro.

Os nobres estão escondidos, ou entretidos em guerras lá entre eles, um ou outro, vêm-se aqui e acolá, numa esquina escura.

O clero reza nas trevas.

Não se mistura com as prostitutas, com os bêbados, com os mercadores, nem assiste aos espectáculos mais medonhos.

É cobarde.

Inquisição.

Os pobres, em noite de festa e de loucura enchem as ruas de Guimarães, noite dentro, noite carregada, como se não houvesse amanhã.

Um caos perfeitamente ordenado, assustador, ao mesmo tempo uma festa imensa, uma orgia.

Dizem-me que aquela a rua das “quengas”, e avisam-me: “toma cuidado, podem meter-te a mão pelos calções dentro, podem apalpar-te todo”, interrompo; “demoramos muito a lá chegar?”.

Por ordem do rei, naquelas noites, em que o real se confunde com o bom e o mau, as pessoas só podem caminhar numa única direcção, em cada rua.

Desde o castelo até cá ao casario que rodeia o largo principal.

Fez-me lembrar o Colete Encarnado, na minha terra, a movida.

Reparei que a Sílvia já estava à conversa com uma das muitas meretrizes, que aquela é a rua delas, sentada ao lado de uma outra, em cima de uma mesa de madeira, manca, mesmo no meio, no início da rua empedrada.

A mesa e a puta, mancas e gastas.

Se as duas trabalhavam para o taberneiro, que de lá de dentro do estabelecimento espreitava o que se passava cá fora, isso não sei. Reparei-lhes nas unhas, grandes, sujas, e nas sapatilhas de ginástica, daquelas brancas, com um elástico que todos usámos em miúdos, quando faziamos educação Física.

Isso, sapatilhas de ginástica nos pés de uma puta fingida.

Uma irrealidade desconcertante.

Tudo irreal, hiper-real.

Começava aqui uma viagem vertiginosa, na noite anterior à meia maratona (eu sei, não devia andar nestas vidas, mas...)seguimos em fila indiana, controlávamos a marcha com um braço esticado, apoiado no ombro do da frente.

Nunca entendi por que é que se chama fila indiana a uma fila de gente.

Só assim mantenhamos o sentido, misturados com centenas e centenas de pessoas como nós, vestidos como nós, sim, gente que vive no século XXI, só que...

A Sílvia não aprecia mulheres com buço e dentes podres, cabelos desgrenhados e crespos, pelo que começámos a descer a rua, em fila indiana, para não nos perdermos, que aquela é a rua das perdições.

O Francisco, a Joana, a Carla e os restantes seguiam lá mais à frente, que a fila já não era indiana, já não era fila.

“Prostitutas nada, só as duas lá do cimo da rua, gajos bêbados e feios, mulheres com lepra cravada no rosto, pobres almas condenadas ao inferno da Inquisição".

Era a Sílvia que me acompanhava, tinha sido ela a dar-me as dicas para entrar naquela rua, pimba, era ela que levava comigo.

Vai ser difícil esquecer ( e parar de rir ) a cara daquela miúda, olheiras escuras e gigantescas, olhos vidrados, abertos, muito brancos, aquele olhar entre o desespero e o ódio, a compaixão.

Assustei-me, quando a senti parada, junto a mim, bem ali à minha frente.

Eu levava o olhar cravado no chão, para não cair, quando de repente, ali, do nada, uma miúda vestida com um retalho preto como aquela noite, apenas iluminada pelos lampiões e pelas fogueiras das bruxas e pelo fogo do demónio.

A Sílvia conhece essa tal miúda, que me deteve, como se estivesse na presença de um fantasma, mas ao mesmo tempo não, olhando para as pessoas que me rodeavam.

Mostrou-me a foto dela, no telemóvel.

O Facebook ajuda imenso.

Era linda, gira, mais que isso tudo, era mesmo gira.

“ Tens que cá vir a Guimarães, mas sem ser para correr, vais adorar a cidade”, atira a Sílvia.

Continuámos a caminhar;

Uma mulher, numa casota de um cão, que acabára de dar à luz (uma boneca, para o efeito).

Mais adiante as pessoas quase paravam.

Agora sim,

Sinto um lenço, carmim, a passar-me na cara.

Olho, quase em câmara lenta.

Junto à porta, ali está ela, a mulher mais bonita que vi naquela noite.

“Te gusta, guapo?”.

Não me contive,

“Eu dizia-te, guapa, acaba lá isso e vem mas é ver-me correr amanhã de manhã e depois podemos almoçar ou assim…”.

Siga, que aquilo não é para estar parado.

Ainda me lembro da cara dela.

Acabámos a noite com uma sangria, no largo principal, onde desaguava a rua das “quengas”.

Aquela hora os tendeiros ainda vendiam carne viva (animais não racionais), sopas e poções mágicas, algodão doce, porco assado, com pão da zona a acompanhar.

Acabava a noite, para mim, em Guimarães, em plena feira Afonsina.

Uma viagem até às entranhas da Idade Média, só que em pleno século vinte e um.

Por isso não fui dormir em casa de passe nenhuma, nem sequer bebi em casa de pasto alguma.

Dormi no hotel, que já chega de Twilight Zone experiences.

Só que, chegado ao quarto, ligo a televisão, afinal, estamos na Idade dos Media e eu tinha acabado de sair da Idade Média.

Estava a dar aquela situação daquela assembleia geral.

Por pura curiosidade deitei-me, a ver.

Adormeci eram quase três da manhã.

Às sete, a pé.

A Meia Maratona de Guimarães era a única etapa que me faltava no curriculum das Running Wonders.

Casualmente, foi o meu treino longo da semana, assim estava definido.

Mas, isso vem no texto seguinte, porque para correr sem dormir como deve ser já me bastou no fim de semana.

Ontem e hoje foi dia de treino.

Tende paciência.