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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

03.06.18

A CMTV ( DIA 29 DA MARATONA)


The Cat Runner

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Quem me conhece sabe que eu não falo em público sobre orgãos de comunicação social.

Não o faço, enquanto for jornalista, porque há mínimos, em sociedade, um deles é não dizer mal do próprio oficio, porque há lugares para o fazer.

Hoje quebro essa regra por causa da CMTV.

Por causa dela hoje saltei o treino.

Dei descanso às pernas, não sei se fiz bem.

Hoje, o treino era de intensidade.

Vou fazê-lo amanhã, só que, depois de amanhã tenho um brutal treino de séries (3 x 4 kms), mas não há como falhar, adiar é diferente. Adiei.

Ainda assim, porque a noite estava como eu gosto, solta e fresca, ainda pensei sair para fazer o treino de hoje.

Mas não.

Dormi pouco esta noite ( como ainda me acontece, algumas vezes) e sentia-me sem vontade de treinar. Não fui.

Mas, também não fui por causa da CMTV.

A palavra Nodeirinho.

Ouvi a palavra Nodeirinho e gelei.

Estava a passar uma reportagem sobre a aldeia do Nodeirinho.

Ali, só ali morreram onze pessoas, no maior incêndio que há memória.

A aldeia do Nodeirinho é uma rua, apenas.

Onze pessoas.

Um terço dos habitantes.

Vi lágrimas e vi testemunhos de pessoas que vivem num inferno, abandonado por todos.

Lágrimas, embargos de voz, olhares, súplicas, apelos.

Foi a 17 de Junho, está quase a fazer um ano.

E, continuavam os testemunhos, misturados com aquelas brutais imagens negras;

- “ Eu já só pedia que fizessem ali qualquer coisa, olhe ali, pela janela, aquela noite está sempre presente, aquele inferno, olhe em frente, tudo queimado”, e chorou.

A aldeia do Nodeirinho foi esquecida. Os sobreviventes, dezanove pessoas, que lá continuam, são pessoas traumatizadas, a quem foi negado o direito de fugir do negro ardido, cheiro que ainda paira no ar, porque na aldeia do Nodeirinho só o cheiro a queimado é uma ilusão forçada, tudo o resto é real.

As casas destruídas, a floresta, em todo o redor, queimada, o rostos das pessoas.

O rosto das pessoas.

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Um terço dos habitantes morreram enquanto fugiam ao inferno, porque o diabo andava ali e ele nunca lá tinha estado antes.

Eu estive na aldeia do Nodeirinho, depois do diabo por lá ter andado.

Sim, eu vi, eu estive junto ao tanque - que a CMTV voltou a retratar - que salvou mais de uma dezena de pessoas, enquanto, à volta, literalmente à volta, o fogo era o monstro imparável, o calor era o rasto que o diabo deixava, a noite estava horrível e tragicamente iluminada por um laranja que tudo envolvia, no seu rasto de horror.

Tudo ali me chocou, porque eu só tinha visto na televisão.

Tudo me chocou, mas aquilo que mais me deixou sem tino foi o tanque.

O tamanho do tanque.

Um pequeno tanque. E, tentei imaginar aquela noite de sábado, aquelas pessoas, ali dentro, daquele pequeno tanque, enquanto tudo ardia, casas, lojas, mata, tudo ardia.

Tentei imaginar, mas parei segundos depois, porque não consegui.

Achei que era ofender a memória de todos mas, sobretudo, não consegui.

Nodeirinho não fica longe de Lisboa.

Mas, Lisboa está longe de Nodeirinho - e de outras pequenas aldeias igualmente destruídas, na alma e na terra agora queimada.

Eu estive na aldeia do Nodeirinho e escutei histórias daqueles que as viveram.

Conheci quem tivesse tido a coragem de ter estado fechado em casa, totalmente envolta em chamas. Conheci quem tivesse acolhido os primos que ficaram com nada do que tinham. Ele ficou queimado, com gravidade, porque quando fugia do fogo, com a mulher, decidiu voltar atrás para ir buscar o carro.

Caiu.

O fogo apanhou-o, mas sobreviveu.

Ele não sai de casa. A mulher abeira-se da porta, com o primo, e por incrível que possa parecer, eles conseguem sorrir, abandonados dentro do seu próprio inferno.

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Eu estive na aldeia do Nodeirinho.

O tanque é tão pequeno que ainda hoje me custa a crer que tenha salvo tantas vidas das garras do diabo.

Os que morreram, ali, naquela noite, envoltos em terror e desespero, não conseguiram chegar ao tanque, por muito pequeno que ele fosse (que ele é).

Os que vivem ali, hoje, envoltos em terror e desespero, olham todos os dias para o tanque, e choram, sobretudo, por dentro.

Choram porque acreditam que na próxima vez o diabo não irá poupar o tanque.

Por agora, dormem sem receio que o fogo volte tão depressa, mas inquietos, em sobressalto, tristes, resilientes, que já não há nada para arder, por aqueles lados.

Nos próximos anos, se a alma lhes permitir, eles podem dormir, em desassossego.

O tanque é pequeno.

Nós somos o inferno.

03.06.18

AMIGOS SEM ASPAS ( DIA 28 DA MARATONA )


The Cat Runner

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Não via o Zé Carlos há mais de trinta anos, trinta anos.

Perdemos o rasto, um ao outro, até um dia.

Nós vivíamos no mesmo bairro e, por isso crescemos juntos, na Quinta da Mina.

No nosso bairro tínhamos o mundo inteiro só para nós.

Brincávamos ao touro, porque o Rui tinha um tio que lhe tinha dado uns cornos, que nos transformavam em destemidos forcados, em talentosos cavaleiros, em digníssimos touros. Jogámos ao alerta, e havia sempre um de nós que ficava a tarde toda a tentar “descobrir” os outros, porque os outros se escondiam no campo de futebol, atras do prédio do Luis “francês”, ou no depósito da água, ou dentro das “manilhas”, que existiam no fim da ladeira, e que faziam lembrar os bunkers das guerras que vemos nos filmes.

Putos a viver a vida a alta velocidade, em carrinhos de rolamentos, que nós próprios construíamos, na estrada do hospital, estrada abaixo, na “gáspia”, poucos automóveis havia, e os carrinhos de rolamentos tinham solas de sapatilhas, que faziam de travões, em caso de urgência.

Desvendámos imensos mistérios da vida, da vida de miúdos, quando brincávamos aos detectives, cada qual com a sua pistola e a sua maleta de mão, com “documentos da investigação”.

Imaginávamos o prédio do Covas e do Eduardo (situado mais abaixo, em relação ao meu prédio e ao do Zé Carlos) como sendo um mega arranha-céus, numa gigantesca metrópole, onde se passavam cenas de acção, elevador a cima, elevador a baixo, escondidos na casa da porteira ou deslizando nos corrimões das escadas, para não perdermos o bandido.

Havia sempre um que era “o rapaz”!

  • “Eu sou o rapaz”…

O “rapaz” era, naturalmente, o actor principal dos filmes, o que ficava sempre com a “rapariga” e aquele que nunca morria.

Grandes perseguições se fizeram, grandes tiroteios imaginários aconteceram.

O Eduardo morreu.

Morreu mesmo.

Soube-o agora, pelo Zé Carlos.

O Zé Carlos reapareceu-me na vida, depois de umas mensagens trocadas no Linkedin.

Fazia-lhe confusão como é que eu tirava as fotos das minhas corridas.

Lá lhe fui explicando, até que a dada altura me pergunta se eu sabia com quem estava a falar.

Fui delicado, expliquei-lhe que não, nem pelas coisas que ele me estava a recordar. Dessas recordações apenas reconhecia os nomes, e isso estava a fazer-me confusão.

Estava perante alguém tão próximo de mim, sem que eu conseguisse chegar até ele. O Zé Carlos contava-me histórias para me reavivar a memória, Faltava-me a cara dele.

Andámos dias nisto, até que um dia ele me enviou uma foto de quando era miúdo.

Pois.

Também eu fiquei assim, sem reacção.

Rapidamente chegámos ao Eduardo, que vivia no prédio do Covas.

O Covas trabalha nas OGMA, o Jorge é oficial superior na Armada, o Zéze perdi-lhe o rasto, o Rui tenho-o no Facebook, mas não me liga nenhuma, ao César, não sei o que aconteceu, nem ao Vasco, grande guarda redes era o Vasco.

Às vezes ficávamos no depósito da água, sentados, com as pernas para o lado de fora, a ouvir os relatos da taça dos Campeões, num rádio que falhava sempre as pilhas, à noite, depois de jantar. Outras vezes assaltávamos a casa da Comissão de Moradores (do bairro), enquanto os mais velhos tinham as suas reuniões sobre a comunidade. Nós iamos para a cave e éramos felizes.

Não havia mistérios para nós.

Mas sempre houve um mistério para mim.

Nunca o contei a ninguém, é a primeira vez.

O Eduardo era mais velho do que eu, e do que o Covas, o Rui e os outros; ele e o Zé Carlos eram os mais velhos do grupo.

O Eduardo era alguém misterioso, como a sua família.

O Eduardo era um desenquadrado com a sociedade, muito à frente no tempo dele.

A família era a avó, já muito velhinha, que lhe fazia pescada cozida com batatas, e o pai, alguém que recordo pelo seu semblante, um homem de pele escura, olhos enormes, caídos, ar de putanheiro e de jogador de casino.

Creio que nunca trocou uma palavra com nenhum de nós.

Trinta anos depois há muitos mistérios por desvendar, muitas histórias para recordar, muitas corridas para correr.

Se as corridas me têm dado a alegria de fazer amigos, foi por causa das corridas que, trinta anos depois, ali estávamos nós, outra vez.

Fomos correr juntos.

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Desde que comecei a preparação para a maratona nunca corri acompanhado.

Foi, de todas, a corrida onde me senti bem, sem quaisquer queixas.

Ficámos de voltar a correr juntos mas, sobretudo, ficámos de voltar a rebobinar o filme das nossas vidas.

Hoje fui correr uma hora.

Pela segunda vez, desde Janeiro - quando comecei a recuperação e a preparação - corri sem qualquer queixa. Consegui ter prazer na corrida.

Durante uma hora, só eu, comigo, como gosto, voltei atrás na minha vida, quando tinha sete, oito ou nove anos. Voltei a viver tudo outra vez.

Durante a corrida com o Zé Carlos não falámos daquele que era um dos momentos mais esperados, todos os anos, as fogueiras dos santos populares, quando fazíamos peditórios, na vila, para montar o balcão, com madeiras roubadas das obras, e para comprar o pão, as sardinhas e o vinho.

Depois, era correr por aquela ribanceira abaixo e saltar sobre fogueiras gigantescas, enquanto os vizinhos conversavam uns com os outros, e o bairro era o nosso mundo exclusivo.

Não falámos sobre isso, nem sobre nada do passado.

Corremos e falámos do presente.

É que eu quero voltar a tocar às campainhas dos prédios e fugir, como se fosse o dono do meu próprio mundo.

“Zé, anda para casa”, é a frase que me ecoa, quando a minha mãe me chamava, à varanda, lá do alto do quarto andar.

Por isso, Zé,  ainda temos muitas corridas para correr.

Muitas histórias para recordar, de um mundo que não era de mais ninguém.

Só nosso !

 

 

(NOTA DO AUTOR: Os títulos dos textos mencionam sempre um dia - DIA 28 DA MARATONA - esse número não corresponde efectivamente ao números de dias de treinos, pois comecei em Janeiro. É um número que corresponde ao texto, como se fosse uma página de um livro. Desfeita a dúvida)