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CONQUISTAS ( DIA 34 DA MARATONA )

Quinta-feira, 28.06.18

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Correr uma meia maratona, sem dormir pelo menos oito horas não me parece bem.

Muito menos se essa corrida parte do castelo, na cidade que fundou Portugal.

É responsabilidade, gente.

Muito menos se essa corrida é feita, em grande parte, nas ruas, ruelas e passeios carregados de história, do centro de Guimarães, Património Cultural da Humanidade.

Agora percebo porquê!

Fantástica viagem no tempo, na história.

Esta, era uma das meias maratonas que faltava no meu curriculum de pré-maratonista amador.

Dizia-me alguém que eu escrevo melhor que corro.

É isso que quero inverter.

Certo é que a corri a meia maratona, dura, para duros, e cheguei ao fim.

A humidade, em Guimarães, no grande terreiro, junto ao castelo, era de 80%.

Às nove e meia da manhã já estavam trinta graus.

“ Amigo, ainda não começou a correr e já está a transpirar assim?”, lançou-me um daqueles tipos, com mais de cinquenta anos, bigode negro, sorriso malandro, daqueles que fazem a meia em pouco mais de hora e meia.

Era tudo junto, a humidade relativa do ar, a temperatura, as emoções, a noite anterior, e eu, ali mesmo, onde nunca tinha partido, no meio do pelotão, no meio dos duros.

Esta, era uma corrida que, por motivos pessoais, não estava para fazer mas, porque estou a levar à risca o plano de preparação tive que me fazer homem e fiz-me à estrada.

Valeu a pena, desde que cheguei até que vim embora. Há coisas que valem a pena.

Ali estiva eu, no meio dos corredores.

Ali ia eu, a abrir pelas ruelas fora, para não ser atropelado.

Fiz os três primeiros quilómetros abaixo dos cinco minutos cada.

Já sabia o que estava para vir, quebra.

Nunca eu imaginara o que aí estava para vir.

O pequeno almoço…

A parir do quarto quilómetro comecei a sentir tudo às voltas no estômago.

Alimentei-me correctamente, mas cometi o mesmo erro - pela terceira vez - que foi comer apenas uma hora antes da corrida.

Andei ali uns quilómetros aflito, a controlar a respiração ao limite, para que o oxigénio me ajudasse a passar aquele indisposição.

Foi assim até aos dez quilómetros. Já tinha o tempo todo lixado.

O meu treinador definiu uma corrida calma, em patamares baixos, apenas para ver as reacções.

Eu, não lhe o disse, mas quis ir mais além. Lixei-me, no entanto, ainda assim, cumpri com o que ele me disse, pelo que me deu os parabéns, ao fim do dia.

Começo a sentir o efeito dos treinos duros.

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As ancas não cederam nas primeira subidas, as pernas comportaram-se bem durante os vinte e um quilómetros, sem dores, sem mal-estar, o pior é que depois de descer tem que se subir e as subidas eram mais que as descidas.

Por alturas dos quinze quilómetros já estava a prever uma porcaria de tempo. O calor tinha apertado, a humidade mantinha-se, e depois - detesto - há sempre aqueles cromos, na beira da estrada que tem mandam uma boca: “então, assim não chega ao fim”.

Para a p@€£‰¶ que te pariu, pensei, não disse.

Siga, subidas, descidas, a Alice, já em sentido contrário, que a Alice está uma máquina, para brilhar em Berlim;

“Anda, eu espero, vou contigo”, ela já sabe a resposta, “nem pensar, segue”.

Pouco depois, também em sentido contrário, a Joana.

A Joana é bonita e elegante e sobressai no meio dos corredores.

Ela não me viu, confessou-me, no final, que queria fazer cinquenta minutos (ela estava a correr os dez quilómetros), mas que a determinada altura caiu de joelhos, exausta.

Eu disse que o traçado era duro.

Fez uma hora e quatro. Excelente.

Um dia alguém me explicará porquê, mas é ao fim de uma hora e tal de corrida que começo a sentir-me melhor.

Pensei recuperar tempo, estava quase a chegar ao fim.

Ele foi hidratante, na água, ele foi Red Bull, ele foi Isostar - só não vi as laranjas - eu fiz todos os abastecimentos, mas o que é para ser é, e o que não é para ser não é.

Não era para ser mais do que foi, cumprir os objectivos e ficar por aí.

Como sempre a Carla apareceu-me ao caminho, para tirar a selfie da ordem. Ao Francisco perdi-lhe o rasto desde a noite anterior, na rua das "quengas", apesar de ele me ter ligado antes da partida.

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Uma coisa esta meia maratona veio provar-me, quanto mais a dureza aumenta, mais aumenta a tua capacidade e a forma como conftontas os obstáculos.

Desta vez não festejei, quando passei a meta.

Limitei-me a cumprir o ritual; é sempre a Teresa Batista quem me coloca a medalha.

Nesta etapa, de Guimarães, a que me faltava no curriculum, tinha que ser a Teresa, e foi.

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Faz parte do ritual dar um abraço ao senhor Alfredo, que dei.

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Respirei fundo.

Respirámos fundo.

Há abraços que atalham caminhos, mesmo depois de duras subidas e de descidas traiçoeiras, que te dão cabo dos joelhos.

Sou um homem de sorte.

No fim, ainda almocei com a Joana. Roam-se de inveja !

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A medalha é linda.

Agora, em teoria, até Setembro não faço mais nenhuma prova, apenas treinos.

Sempre quero ver se a medalha da maratona da minha vida, que vou correr em Berlim é tão bonita quanto a que conquistei em Guimarães.

É que Guimarães é terra de conquistadores.

Lá, conquistam-se coisas, corridas e pessoas.

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publicado por The Cat Runner às 17:10

VISITA À TWILIGHT ZONE ( DIA 33 DA MARATONA )

Quinta-feira, 28.06.18

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Estamos no ano 1345.

É noite de festa, nas ruelas, nos largos junto ao castelo, no adro.

Os nobres estão escondidos, ou entretidos em guerras lá entre eles, um ou outro, vêm-se aqui e acolá, numa esquina escura.

O clero reza nas trevas.

Não se mistura com as prostitutas, com os bêbados, com os mercadores, nem assiste aos espectáculos mais medonhos.

É cobarde.

Inquisição.

Os pobres, em noite de festa e de loucura enchem as ruas de Guimarães, noite dentro, noite carregada, como se não houvesse amanhã.

Um caos perfeitamente ordenado, assustador, ao mesmo tempo uma festa imensa, uma orgia.

Dizem-me que aquela a rua das “quengas”, e avisam-me: “toma cuidado, podem meter-te a mão pelos calções dentro, podem apalpar-te todo”, interrompo; “demoramos muito a lá chegar?”.

Por ordem do rei, naquelas noites, em que o real se confunde com o bom e o mau, as pessoas só podem caminhar numa única direcção, em cada rua.

Desde o castelo até cá ao casario que rodeia o largo principal.

Fez-me lembrar o Colete Encarnado, na minha terra, a movida.

Reparei que a Sílvia já estava à conversa com uma das muitas meretrizes, que aquela é a rua delas, sentada ao lado de uma outra, em cima de uma mesa de madeira, manca, mesmo no meio, no início da rua empedrada.

A mesa e a puta, mancas e gastas.

Se as duas trabalhavam para o taberneiro, que de lá de dentro do estabelecimento espreitava o que se passava cá fora, isso não sei. Reparei-lhes nas unhas, grandes, sujas, e nas sapatilhas de ginástica, daquelas brancas, com um elástico que todos usámos em miúdos, quando faziamos educação Física.

Isso, sapatilhas de ginástica nos pés de uma puta fingida.

Uma irrealidade desconcertante.

Tudo irreal, hiper-real.

Começava aqui uma viagem vertiginosa, na noite anterior à meia maratona (eu sei, não devia andar nestas vidas, mas...)seguimos em fila indiana, controlávamos a marcha com um braço esticado, apoiado no ombro do da frente.

Nunca entendi por que é que se chama fila indiana a uma fila de gente.

Só assim mantenhamos o sentido, misturados com centenas e centenas de pessoas como nós, vestidos como nós, sim, gente que vive no século XXI, só que...

A Sílvia não aprecia mulheres com buço e dentes podres, cabelos desgrenhados e crespos, pelo que começámos a descer a rua, em fila indiana, para não nos perdermos, que aquela é a rua das perdições.

O Francisco, a Joana, a Carla e os restantes seguiam lá mais à frente, que a fila já não era indiana, já não era fila.

“Prostitutas nada, só as duas lá do cimo da rua, gajos bêbados e feios, mulheres com lepra cravada no rosto, pobres almas condenadas ao inferno da Inquisição".

Era a Sílvia que me acompanhava, tinha sido ela a dar-me as dicas para entrar naquela rua, pimba, era ela que levava comigo.

Vai ser difícil esquecer ( e parar de rir ) a cara daquela miúda, olheiras escuras e gigantescas, olhos vidrados, abertos, muito brancos, aquele olhar entre o desespero e o ódio, a compaixão.

Assustei-me, quando a senti parada, junto a mim, bem ali à minha frente.

Eu levava o olhar cravado no chão, para não cair, quando de repente, ali, do nada, uma miúda vestida com um retalho preto como aquela noite, apenas iluminada pelos lampiões e pelas fogueiras das bruxas e pelo fogo do demónio.

A Sílvia conhece essa tal miúda, que me deteve, como se estivesse na presença de um fantasma, mas ao mesmo tempo não, olhando para as pessoas que me rodeavam.

Mostrou-me a foto dela, no telemóvel.

O Facebook ajuda imenso.

Era linda, gira, mais que isso tudo, era mesmo gira.

“ Tens que cá vir a Guimarães, mas sem ser para correr, vais adorar a cidade”, atira a Sílvia.

Continuámos a caminhar;

Uma mulher, numa casota de um cão, que acabára de dar à luz (uma boneca, para o efeito).

Mais adiante as pessoas quase paravam.

Agora sim,

Sinto um lenço, carmim, a passar-me na cara.

Olho, quase em câmara lenta.

Junto à porta, ali está ela, a mulher mais bonita que vi naquela noite.

“Te gusta, guapo?”.

Não me contive,

“Eu dizia-te, guapa, acaba lá isso e vem mas é ver-me correr amanhã de manhã e depois podemos almoçar ou assim…”.

Siga, que aquilo não é para estar parado.

Ainda me lembro da cara dela.

Acabámos a noite com uma sangria, no largo principal, onde desaguava a rua das “quengas”.

Aquela hora os tendeiros ainda vendiam carne viva (animais não racionais), sopas e poções mágicas, algodão doce, porco assado, com pão da zona a acompanhar.

Acabava a noite, para mim, em Guimarães, em plena feira Afonsina.

Uma viagem até às entranhas da Idade Média, só que em pleno século vinte e um.

Por isso não fui dormir em casa de passe nenhuma, nem sequer bebi em casa de pasto alguma.

Dormi no hotel, que já chega de Twilight Zone experiences.

Só que, chegado ao quarto, ligo a televisão, afinal, estamos na Idade dos Media e eu tinha acabado de sair da Idade Média.

Estava a dar aquela situação daquela assembleia geral.

Por pura curiosidade deitei-me, a ver.

Adormeci eram quase três da manhã.

Às sete, a pé.

A Meia Maratona de Guimarães era a única etapa que me faltava no curriculum das Running Wonders.

Casualmente, foi o meu treino longo da semana, assim estava definido.

Mas, isso vem no texto seguinte, porque para correr sem dormir como deve ser já me bastou no fim de semana.

Ontem e hoje foi dia de treino.

Tende paciência.

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publicado por The Cat Runner às 11:55

DE BESTIAL A BESTA ( DIA 32 DA MARATONA )

Quinta-feira, 07.06.18

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De bestial a besta já fui algumas vezes ( não tantas assim, felizmente ).

Do céu ao inferno também já fui algumas vezes ( as suficientes ).

Nada espantado, é assim o caminho, não há grandes voltas a dar-lhe, é ser resiliente, ter a capacidade de lidar com problemas, de se adaptar às mudanças, superar obstáculos e resistir à pressão de situações adversas.

Quem nunca foi besta, nem bestial, quem nunca foi do céu ao inferno, nunca tocou ambos os lados da equação.

O meu último treino de séries foi infernal.

Ecoava na minha cabeça uma dúvida; quando é que vou recuperar disto?

Pior, questionava-me como é que não tinha atingido os patamares de intensidade exigidos.

Foi o inferno.

Escusa de perguntar; então porque corres?

Isso vinha já a seguir.

É que, depois, do nada há coisas que viram tudo ao avesso, ficando então o teu mundo na posição correcta.

Uma boa notícia e uma boa corrida e tudo muda.

Ou será, uma boa notícia é que te empurra para uma boa corrida?

Talvez tenha acontecido ambas as coisas no meu último treino, o melhor de todos, desde Janeiro.

Senti-me bem a todos os níveis. Choveu durante os cinquenta minutos de corrida. Era só eu, de olhos semi-cerrados, como eu tanto gosto.

Os primeiros quilómetros foram a um ritmo desenhado pelo treino que tenho feito, corri os primeiros quilómetros abaixo dos seis minutos por quilómetro.

Sabia que mais à frente ia sentir cansaço.

Estranhamente, a meio da corrida ainda ia abaixo dos seis minutos. Não quebrei, como nos outros treinos.

Stronger !

Senti isso.

Tentei manter o ritmo.

Devia correr abaixo das 130 BPMs, corri sempre acima das 140.

Sentia-me bem.

Consegui, finalmente, sair do patamar dos seis minutos e meio por quilómetro, que me estava a prender, como entre quatro paredes, dentro da minha cabeça, ao longo das minhas pernas.

Credo, sinto-me bem, ainda me sinto bem.

Houve um momento até em que limpei os olhos, olhei a pista lá ao fundo, vazia, o rio cinzento, escuro, como ele é nestes dias, cheguei a sentir-me o corredor mais giro da pista.

Não vi uma única pessoa durante cinquenta minutos.

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Fitei o longe e senti-me corredor, confesso.

Foi um grande momento, do meu melhor quilómetro, ia a 5.45”.

Depois foi voltar a controlar o treino, verificar as batidas cardíacas, o tempo de corrida, e já agora o ritmo.

Nada de especial, mas uma vitória, do José Carlos, o meu treinador, do Pedro Mimoso, o meu recuperador.

Graças a eles, depois da dureza de alguns treinos, consegui, finalmente, treinar na plenitude, gozando e tendo prazer no treino, cumprindo os objectivos definidos, voltei a gostar e a correr por prazer, embora estivesse em treino.

Mas, acho que é, basicamente, isto que pretendemos.

Se há dois dias eu estava no inferno.

Bastou as massagens do Pedro para hoje ter estado no céu.

Se no treino de séries fui uma besta.

Bastou uma boa notícia para me sentir bestial.

Amanhã é outro dia.

Começa outra corrida.

E, é sempre assim, até ao fim.

 

 

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publicado por The Cat Runner às 23:25

NÃO É COMO COMEÇA É COMO ACABA ( DIA 31 DA MARATONA )

Quinta-feira, 07.06.18

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Sai mais uma lição de vida para a mesa do canto.

Aprendi que conseguimos fazer coisas que nunca antes imaginámos fazer.

Coisas que vão para além, até, da nossa vontade.

Aprendi-o no calçadão, durante a minha última corrida.

Confesso que há coisas que me  fazem temer, coisas que para outros são “com uma perna às costas”, mas se tivéssemos todos a mesma paleta éramos todos Leonardos Da Vinci, e não somos.

No final da semana passada começou a penetrar no meu sub-consciente o meu último treino, o mais recente.

Tinha que correr três vezes quatro quilómetros num determinado patamar cardíaco, que entre outras coisas mais importantes até, me permitia baixar tempos, a cada quilómetro.

Foi assim nas séries de dois quilómetros e nas séries de três.

Também nunca as tinha feito na vida mas fi-las e dentro das instruções que recebi.

Mas, quatro quilómetros?

Vezes três?

Depois de um quilómetro e meio a aquecer e mais quinhentos metros, no final?

Espera, quatorze quilómetros a um nível (que me lembre) só consegui nos primeiros dois anos de corrida?

Aquilo andou ali, no meu sub-consciente, a atemorizar-me, a assombrar-me, porque conheço os meus limites, porque sei que estou agora melhor que em Janeiro, mas ainda distante do que serei em Setembro.

Chegou o dia.

Idealizei o treino, começar no  jardim, ir até Alhandra, um e meio mais quatro feitos, voltar dois quilómetros, ir para trás mais dois, segunda série concluída, de Alhandra ao jardim, fim de treino, chamem o 112.

Foi assim que o sacana do meu sub-consciente andou a meter uma pressão brutal em mim.

Sabia que conseguia fazer o treino. Sabia que não ia conseguir andar ao ritmo definido.

Acontece que, a meio da segunda série, já com sete quilómetros e meio nas pernas bati contra um muro que eu próprio meti, ali, à minha frente.

Já no treino do dia anterior tinha falhado. Só consegui treinar meia hora, devido à fadiga, potenciada por factores externos que não são chamados ao caso.

Isto da corrida é do caraças.

Estava eu a imaginar onde e como ia inventar pernas para a segunda metade do treino, a entrar em stress, até a fita de medição cardíaca me estava a fazer passar.

Eu explico, a determinação em concluir o treino era tanta quanto o meu corpo se recusava a treinar.

E, sublinho, não tem a apenas a ver com o treino.

Nos últimos dias, quando vou treinar, levo comigo um peso extra, uma dormência temporária.

Os meus últimos treinos, devido a factores externos, têm sido hard-core. Grau 5 na escala da loucura.

Só que é assim que te tornas mais forte. Não é como começa é como acaba.

Foi essa a lição de vida, naquele calçadão.

Parece fácil, não é como começa é como acaba.

Mas, alguém faz ideia do caminho que se faz até chegar ao fim?

Eu faço.

Os meus dois últimos treinos foram atípicos. Era eu, a correr contra a minha ansiedade, contra os minutos, contra as batidas cardíacas, contra as passadas, contra quase tudo.

-“ Não é como começa, é como acaba. Esse é o meu truque nas minhas corridas. E, resulta”.

Disse-me o Zé Duarte, a determinada altura.

-“ Cada um gosta mais do seu tipo de treino, mas as séries são das coisas mais duras que existe, só que dão te resistência e velocidade. Agora custa-te, mas quando chegar a Setembro vai produzir efeitos”.

O Zé Duarte apareceu-me, em sentido contrário, precisamente a meio da minha segunda série.

Andava ali a rolar, até às 140 BPMs (que são as batidas que eu devia ter no quase pico do esforço, ele andava a rolar).

Obviamente que continuou o seu treino comigo, no meu registo, assim como assim não passava das 140 BPMs ( ah ah ah ).

A nossa conversa desenrolou-se nos restantes quase sete quilómetros - ainda nos cruzámos com o Sousa e com o Rui.

O Zé Duarte tem mais quatro anos que eu.

Ainda jogámos à bola juntos, era um guarda redes do caraças.

Foi ele quem me indicou o meu/nosso treinador.

O Zé Duarte vai só fazer umas duzentas milhas ali a Chamónix - Mont - Blanc, uma daquelas provas de topo, onde está a elite toda.

  • “ Óh Zé durante aquelas horas todas em que é que pensas, um, dois dias…?”.

Que ali não existe o tempo, que te esqueces e não dás por ele passar.

  • “ Como quando éramos putos e vamos brincar e o tempo passava num instante, é mais ou menos isso”.

Por esta altura o Zé ia à minha frente e eu seguia-lhe a passada, assim é mais fácil.

  • “Eu, quando treino séries treino sempre acompanhado, e séries de quatro quilómetros então…”

Depois, contou-me o que tem que preparar para uma prova daquelas, a mochila, a roupa para o frio, a comida, o equipamento, o telemóvel, por causa dos dados.

  • “ Como é que tens bateria durante aquele tempo todo?”

Diz que leva “powerbanks”.

Eu, acompanhando o seu passo, atrás dele, pensava;

Puta que pariu…No bom sentido, claro, que eu não sou ordinário.

  • “ Quantas BPMs?”:
  • “ 145…”.
  • “ Vês, treinar séries sozinho não dá, digo-te mais, eu faço 200 milhas tranquilo, mas se faço uma maratona mato-me todo…”.
  • “ Se eu fizesse uma maratona em três horas e meia também morria”.

Por esta altura, a meio da última série das três, confesso, já me arrastava.

  • “ 140, vês, estamos bem”.

O tempo começava a ficar curto, ele ainda tinha que acabar o treino dele, ir buscar o carro a casa e ir buscar a filha.

  • “ Vai a correr”, disse-lhe eu.

O Zé Duarte já tem muita maratona, muita montanha, muito quilómetro, muita experiência.

A lição estava a chegar ao fim.

Eu nunca treinei corrida. É a primeira vez.

Explicou-me o Zé que as barreiras que aparecem à nossa frente são para ser destruídas, é essa coisa a que muitos chamam superação.

O trabalho que estou a fazer desde Janeiro tem um só objectivo: chegar a Setembro em pico de forma, mais rápido, mais forte.

  • “ Meu, isto faz parte, tens que superar, continuar e ultrapassar o desconforto, porque não é agora que conta, é depois. Não é como começa é como acaba”.

Faltavam quinhentos metros.

  • “Zé acelera”.

Terminámos o treino nas 150 BPMs.

Contei tudo isto ao meu treinador, estes meus dois treinos dificultados por factores extra.

E, dali, como sempre veio aquela força, que já antes o Zé me tinha transmitido.

  • “Zé, keep on going. Um abraço”.

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Começa a ser cada vez mais intenso, este processo, cada vez mais duro e desafiante, cada vez mais exigente.

Eu sei, foi a isto que me propus!

Se é para “morrer” morremos de pé!

Hoje foi dia de massagens e já ressuscitei.

Entrei morto. Saí novo.

Isto não é como começa é como acaba.

Parece fácil?

Eu aprendi à minha custa!

 

 

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publicado por The Cat Runner às 11:55

EU VI UM SAPO... ( DIA 31 DA MARATONA )

Quinta-feira, 07.06.18

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publicado por The Cat Runner às 10:55

LOVE & RUN (DIA 30 DA MARATONA)

Segunda-feira, 04.06.18

 

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publicado por The Cat Runner às 14:51

A CMTV ( DIA 29 DA MARATONA)

Domingo, 03.06.18

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Quem me conhece sabe que eu não falo em público sobre orgãos de comunicação social.

Não o faço, enquanto for jornalista, porque há mínimos, em sociedade, um deles é não dizer mal do próprio oficio, porque há lugares para o fazer.

Hoje quebro essa regra por causa da CMTV.

Por causa dela hoje saltei o treino.

Dei descanso às pernas, não sei se fiz bem.

Hoje, o treino era de intensidade.

Vou fazê-lo amanhã, só que, depois de amanhã tenho um brutal treino de séries (3 x 4 kms), mas não há como falhar, adiar é diferente. Adiei.

Ainda assim, porque a noite estava como eu gosto, solta e fresca, ainda pensei sair para fazer o treino de hoje.

Mas não.

Dormi pouco esta noite ( como ainda me acontece, algumas vezes) e sentia-me sem vontade de treinar. Não fui.

Mas, também não fui por causa da CMTV.

A palavra Nodeirinho.

Ouvi a palavra Nodeirinho e gelei.

Estava a passar uma reportagem sobre a aldeia do Nodeirinho.

Ali, só ali morreram onze pessoas, no maior incêndio que há memória.

A aldeia do Nodeirinho é uma rua, apenas.

Onze pessoas.

Um terço dos habitantes.

Vi lágrimas e vi testemunhos de pessoas que vivem num inferno, abandonado por todos.

Lágrimas, embargos de voz, olhares, súplicas, apelos.

Foi a 17 de Junho, está quase a fazer um ano.

E, continuavam os testemunhos, misturados com aquelas brutais imagens negras;

- “ Eu já só pedia que fizessem ali qualquer coisa, olhe ali, pela janela, aquela noite está sempre presente, aquele inferno, olhe em frente, tudo queimado”, e chorou.

A aldeia do Nodeirinho foi esquecida. Os sobreviventes, dezanove pessoas, que lá continuam, são pessoas traumatizadas, a quem foi negado o direito de fugir do negro ardido, cheiro que ainda paira no ar, porque na aldeia do Nodeirinho só o cheiro a queimado é uma ilusão forçada, tudo o resto é real.

As casas destruídas, a floresta, em todo o redor, queimada, o rostos das pessoas.

O rosto das pessoas.

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Um terço dos habitantes morreram enquanto fugiam ao inferno, porque o diabo andava ali e ele nunca lá tinha estado antes.

Eu estive na aldeia do Nodeirinho, depois do diabo por lá ter andado.

Sim, eu vi, eu estive junto ao tanque - que a CMTV voltou a retratar - que salvou mais de uma dezena de pessoas, enquanto, à volta, literalmente à volta, o fogo era o monstro imparável, o calor era o rasto que o diabo deixava, a noite estava horrível e tragicamente iluminada por um laranja que tudo envolvia, no seu rasto de horror.

Tudo ali me chocou, porque eu só tinha visto na televisão.

Tudo me chocou, mas aquilo que mais me deixou sem tino foi o tanque.

O tamanho do tanque.

Um pequeno tanque. E, tentei imaginar aquela noite de sábado, aquelas pessoas, ali dentro, daquele pequeno tanque, enquanto tudo ardia, casas, lojas, mata, tudo ardia.

Tentei imaginar, mas parei segundos depois, porque não consegui.

Achei que era ofender a memória de todos mas, sobretudo, não consegui.

Nodeirinho não fica longe de Lisboa.

Mas, Lisboa está longe de Nodeirinho - e de outras pequenas aldeias igualmente destruídas, na alma e na terra agora queimada.

Eu estive na aldeia do Nodeirinho e escutei histórias daqueles que as viveram.

Conheci quem tivesse tido a coragem de ter estado fechado em casa, totalmente envolta em chamas. Conheci quem tivesse acolhido os primos que ficaram com nada do que tinham. Ele ficou queimado, com gravidade, porque quando fugia do fogo, com a mulher, decidiu voltar atrás para ir buscar o carro.

Caiu.

O fogo apanhou-o, mas sobreviveu.

Ele não sai de casa. A mulher abeira-se da porta, com o primo, e por incrível que possa parecer, eles conseguem sorrir, abandonados dentro do seu próprio inferno.

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Eu estive na aldeia do Nodeirinho.

O tanque é tão pequeno que ainda hoje me custa a crer que tenha salvo tantas vidas das garras do diabo.

Os que morreram, ali, naquela noite, envoltos em terror e desespero, não conseguiram chegar ao tanque, por muito pequeno que ele fosse (que ele é).

Os que vivem ali, hoje, envoltos em terror e desespero, olham todos os dias para o tanque, e choram, sobretudo, por dentro.

Choram porque acreditam que na próxima vez o diabo não irá poupar o tanque.

Por agora, dormem sem receio que o fogo volte tão depressa, mas inquietos, em sobressalto, tristes, resilientes, que já não há nada para arder, por aqueles lados.

Nos próximos anos, se a alma lhes permitir, eles podem dormir, em desassossego.

O tanque é pequeno.

Nós somos o inferno.

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publicado por The Cat Runner às 22:33

AMIGOS SEM ASPAS ( DIA 28 DA MARATONA )

Domingo, 03.06.18

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Não via o Zé Carlos há mais de trinta anos, trinta anos.

Perdemos o rasto, um ao outro, até um dia.

Nós vivíamos no mesmo bairro e, por isso crescemos juntos, na Quinta da Mina.

No nosso bairro tínhamos o mundo inteiro só para nós.

Brincávamos ao touro, porque o Rui tinha um tio que lhe tinha dado uns cornos, que nos transformavam em destemidos forcados, em talentosos cavaleiros, em digníssimos touros. Jogámos ao alerta, e havia sempre um de nós que ficava a tarde toda a tentar “descobrir” os outros, porque os outros se escondiam no campo de futebol, atras do prédio do Luis “francês”, ou no depósito da água, ou dentro das “manilhas”, que existiam no fim da ladeira, e que faziam lembrar os bunkers das guerras que vemos nos filmes.

Putos a viver a vida a alta velocidade, em carrinhos de rolamentos, que nós próprios construíamos, na estrada do hospital, estrada abaixo, na “gáspia”, poucos automóveis havia, e os carrinhos de rolamentos tinham solas de sapatilhas, que faziam de travões, em caso de urgência.

Desvendámos imensos mistérios da vida, da vida de miúdos, quando brincávamos aos detectives, cada qual com a sua pistola e a sua maleta de mão, com “documentos da investigação”.

Imaginávamos o prédio do Covas e do Eduardo (situado mais abaixo, em relação ao meu prédio e ao do Zé Carlos) como sendo um mega arranha-céus, numa gigantesca metrópole, onde se passavam cenas de acção, elevador a cima, elevador a baixo, escondidos na casa da porteira ou deslizando nos corrimões das escadas, para não perdermos o bandido.

Havia sempre um que era “o rapaz”!

  • “Eu sou o rapaz”…

O “rapaz” era, naturalmente, o actor principal dos filmes, o que ficava sempre com a “rapariga” e aquele que nunca morria.

Grandes perseguições se fizeram, grandes tiroteios imaginários aconteceram.

O Eduardo morreu.

Morreu mesmo.

Soube-o agora, pelo Zé Carlos.

O Zé Carlos reapareceu-me na vida, depois de umas mensagens trocadas no Linkedin.

Fazia-lhe confusão como é que eu tirava as fotos das minhas corridas.

Lá lhe fui explicando, até que a dada altura me pergunta se eu sabia com quem estava a falar.

Fui delicado, expliquei-lhe que não, nem pelas coisas que ele me estava a recordar. Dessas recordações apenas reconhecia os nomes, e isso estava a fazer-me confusão.

Estava perante alguém tão próximo de mim, sem que eu conseguisse chegar até ele. O Zé Carlos contava-me histórias para me reavivar a memória, Faltava-me a cara dele.

Andámos dias nisto, até que um dia ele me enviou uma foto de quando era miúdo.

Pois.

Também eu fiquei assim, sem reacção.

Rapidamente chegámos ao Eduardo, que vivia no prédio do Covas.

O Covas trabalha nas OGMA, o Jorge é oficial superior na Armada, o Zéze perdi-lhe o rasto, o Rui tenho-o no Facebook, mas não me liga nenhuma, ao César, não sei o que aconteceu, nem ao Vasco, grande guarda redes era o Vasco.

Às vezes ficávamos no depósito da água, sentados, com as pernas para o lado de fora, a ouvir os relatos da taça dos Campeões, num rádio que falhava sempre as pilhas, à noite, depois de jantar. Outras vezes assaltávamos a casa da Comissão de Moradores (do bairro), enquanto os mais velhos tinham as suas reuniões sobre a comunidade. Nós iamos para a cave e éramos felizes.

Não havia mistérios para nós.

Mas sempre houve um mistério para mim.

Nunca o contei a ninguém, é a primeira vez.

O Eduardo era mais velho do que eu, e do que o Covas, o Rui e os outros; ele e o Zé Carlos eram os mais velhos do grupo.

O Eduardo era alguém misterioso, como a sua família.

O Eduardo era um desenquadrado com a sociedade, muito à frente no tempo dele.

A família era a avó, já muito velhinha, que lhe fazia pescada cozida com batatas, e o pai, alguém que recordo pelo seu semblante, um homem de pele escura, olhos enormes, caídos, ar de putanheiro e de jogador de casino.

Creio que nunca trocou uma palavra com nenhum de nós.

Trinta anos depois há muitos mistérios por desvendar, muitas histórias para recordar, muitas corridas para correr.

Se as corridas me têm dado a alegria de fazer amigos, foi por causa das corridas que, trinta anos depois, ali estávamos nós, outra vez.

Fomos correr juntos.

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Desde que comecei a preparação para a maratona nunca corri acompanhado.

Foi, de todas, a corrida onde me senti bem, sem quaisquer queixas.

Ficámos de voltar a correr juntos mas, sobretudo, ficámos de voltar a rebobinar o filme das nossas vidas.

Hoje fui correr uma hora.

Pela segunda vez, desde Janeiro - quando comecei a recuperação e a preparação - corri sem qualquer queixa. Consegui ter prazer na corrida.

Durante uma hora, só eu, comigo, como gosto, voltei atrás na minha vida, quando tinha sete, oito ou nove anos. Voltei a viver tudo outra vez.

Durante a corrida com o Zé Carlos não falámos daquele que era um dos momentos mais esperados, todos os anos, as fogueiras dos santos populares, quando fazíamos peditórios, na vila, para montar o balcão, com madeiras roubadas das obras, e para comprar o pão, as sardinhas e o vinho.

Depois, era correr por aquela ribanceira abaixo e saltar sobre fogueiras gigantescas, enquanto os vizinhos conversavam uns com os outros, e o bairro era o nosso mundo exclusivo.

Não falámos sobre isso, nem sobre nada do passado.

Corremos e falámos do presente.

É que eu quero voltar a tocar às campainhas dos prédios e fugir, como se fosse o dono do meu próprio mundo.

“Zé, anda para casa”, é a frase que me ecoa, quando a minha mãe me chamava, à varanda, lá do alto do quarto andar.

Por isso, Zé,  ainda temos muitas corridas para correr.

Muitas histórias para recordar, de um mundo que não era de mais ninguém.

Só nosso !

 

 

(NOTA DO AUTOR: Os títulos dos textos mencionam sempre um dia - DIA 28 DA MARATONA - esse número não corresponde efectivamente ao números de dias de treinos, pois comecei em Janeiro. É um número que corresponde ao texto, como se fosse uma página de um livro. Desfeita a dúvida)

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publicado por The Cat Runner às 12:05





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