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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

19.04.18

A GRANDE CAMINHADA ( DIA 17 DA MARATONA )


The Cat Runner

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Há quase dois meses que não dormia.

Um sono seguido.

Há um ano e meio que me deitava perto das quatro da manhã, acordava às sete e meia, para ver os meus filhos, adormecia às onze, para acordar às duas ou três da tarde.

Durante um ano e meio fui conjugando tudo, com alguma elasticidade, o sono, que não dormia, o trabalho, cada vez mais exigente, a vida familiar, que parecia quase não existir e eu próprio.

É no treino, na corrida, que encontro (ou tento) encontrar o meu próprio equilíbrio, para conseguir conjugar uma vida em contra-ciclo.

Nos últimos meses comecei a ficar impossível, criticava tudo, existia dentro de mim uma animosidade e uma ansiedade que não eram normais, tudo disfarçado pelas horas de sono.

Mentira.

Sentia-me bem fisicamente, porque apesar de não conseguir dormir de seguida, na verdade dormia horas suficientes.

Foi depois de uma conversa mais dura, no trabalho, que tomei a decisão de consultar um médico.

Pairou no ar que tinha sido efeito causa-consequência, mas só que não me conhece pode pensar que eu ousaria sequer pensar em tal coisa.

Foi a causa próxima, isso foi.

Expliquei à médica, que substituía o meu médico de familia, que estava a ficar intolerante com as pessoas, irritado com tudo mas, sobretudo, não estava feliz.

O que aconteceu depois fica entre as paredes do consultório.

Saí de lá com uma baixa médica, para doze dias e com recomendações bastante claras.

Voltei doze dias depois, já com o meu médico de família regressado das férias, e declarou mais um mês de baixa médica e com recomendações bastante claras.

Também saí de lá a saber o que estava a acontecer;

“Está dentro de si um caldeirão de ansiedade a querer saltar cá para fora, tudo junto com a falta de qualidade do sono está a provocar-lhe um stress que começa a materializar-se”.

Perante isto foi-me ordenado que treinasse - até há quem possa ver na coincidência uma qualquer intenção, como se estivesse a ver-se ao espelho - mas, o meu médico de família, que há um ano sofreu um enfarte, para além de ser um excelente médico, sabe que praticar desporto intensamente só ajuda.

Mental e fisicamente.

Foi mais uma coincidência, apenas.

Coincidiu com a minha preparação para a maratona, mas já antes ela se tinha iniciado, bem antes, pelo que agora cada treino faz parte das minhas tarefas diárias.

Dormir de seguida - ainda a custo, mas está quase lá -, tomar cinco refeições diárias, treinar, estar com os meus filhos, visitar a minha mãe, escrever, ver amigos, apanhar o sol na cara, e descansar.

É só um anti-depressivo e um ansiolítico, faz-se bem.

Têm sido assim os meus dias, no último quase mês e meio.

Estou a voltar a ser quem sou, lentamente, como lenta tem sido a preparação desta maratona, não me refiro apenas à de Berlim.

A vida.

Estes dias, estes meses, este ano e meio.

Mas, vou seguindo, lentamente, o caminho.

Eu sei que - ensinou-me a corrida - primeiro ganhas resistência, só depois ganhas velocidade.

Sei mais;

sei que a grande caminhada faz-se de pequenos passos.

E, ninguém gosta de ficar pelo caminho.

Nem eu !

 

(Se calhar são efeitos desta música )

 

 

 

 

19.04.18

RAMPAS DO DIABO ( DIA 16 DA MARATONA )


The Cat Runner

 

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Chegou o bom tempo.

Até ver.

Posso dizer, por isso, agora que parou de chover que, por entre os intervalos da chuva fui aumentando a minha carga de treino, porque Berlim é já aí.

Já passei por quatro fases, recuperação das lesões, corridas de teste de reacção das pernas, adaptação à corrida e, agora o treino de resistência e velocidade. 

Passram quatro meses.

Faltam cinco meses, para Berlim, e por incrível que pareça, sinto que foi há dias que recomecei.

Recomeçar.

Corri durante mais de quatro anos, mas metade deles corri cheio de lesões. Parei. Re-aprendo, ou na verdade, aprendo agora o que é "correr".

Janeiro e as duras massagens já lá vão, Fevereiro e as corridas de teste já ficaram lá atrás, Março trouxe-me corridas mais definidas e específicas e, Abril trouxe-me as rampas e as rectas.

Sem dores. Cansado, mas sem dores.

É isso o que mais me anima e empurra, sentir que, apesar de continuar lento deixei de ter dores.

Correr.

Simplesmente.

Corro sem dores, neste momento, corro subordinado a patamares de treino definidos, pelo meu treinador, no que às batidas cardíacas diz respeito.

Registo todos os dados, de cada corrida e analisamos, em conjunto, para definir os mesociclos de preparação.

Se faço uma corrida de cinquenta minutos, de recuperação, sei que não devo ultrapassar determinadas BPM.

Se faço um treino de rampas, sei que tenho que atingir determinadas BPM, quase o meu máximo.

O mesmo, quando treino rectas.

É este o segundo aspecto que me anima.

Na verdade, ainda não treinei rectas, o treino de velocidade.

Desde Janeiro, tenho tratado as pernas, cuidado do resto do corpo, tenho corrido, para começar a acrescentar quilómetros e, as rampas, para fortalecimento e resistência.

Só para a semana é que vou iniciar o treino de velocidade.

Depois de uma corrida de 15 minutos, leve, tenho 5 rectas para correr, um quilómetro cada uma, com intervalos.

Nessas corridas as minhas batidas cardíacas devem atingir obrigatoriamente as 160 BPM.

Uma espécie de sprint, num quilómetro.

Só devo partir para o quilómetro seguinte, quando as batidas descerem para as 110.

Aquilo que tenho sentido, porque isto é uma coisa muit solitária, apesar de tudo, é que estou completamente fora de forma e, para Berlim só faltam cinco meses.

Mas, posso estar errado, admito.

No final de alguns treinos de corrida ( 6 por semana, 4 de corrida e 2 de ginásio) sinto que não vale a pena, porque as pernas prendem, não respondem à velocidade que lhes quero dar. Algumas vezes penso em desistir.

Já pensei tantas vezes.

Só que aguentei e, agora, começo a perceber que, afinal, não estou em baixo de forma, não senhor.

Estou a caminhar em sua direcção.

Tenho ganho consistência e resistência, no último mês e meio.

Nas pernas e no resto do corpo.

Agora, vou juntar a velocidade.

Agora, começo a acreditar, verdadeiramente, que vou correr em Berlim a minha primeira maratona.

Porque começo a juntar as peças e elas começam a encaixar-se. Vêm aí cinco meses alucinantes.

E, todo este tempo tem sido uma enorme lição;

Perceber que somos feitos de nada, e de tanto, ao mesmo tempo.

Quando a tua cabeça pende para baixo, levanta-a, coloca a tua coroa e sai para a rua.

As coisas acontecem.

Parecem impossíveis, mas acontecem.