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VOLTEI A TER PERNAS ( DIA 9 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 31.01.18

 

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Passaram quatro semanas, desde que comecei a narrar aqui a minha aventura, que vai durar até Setembro.

Poucas coisas me correm bem na vida, mas esta correu como previsto, pelo menos tem estado a correr.

Quatro semanas depois tive “alta” das pernas.

As contracturas desapareceram todas (resta restos de uma, mas já lhe ganhei carinho), depois do tratamento-choque à base de massagens ( 7 em 4 semanas) e mudança brusca de hábitos alimentares, mais vitaminas e magnésio.

“Primeiro objectivo atingido, as tuas pernas estão prontas”, disse-me o meu treinador, depois de mais uma sessão de massagens.

“Volto a dizer que nunca vi uns gémeos como os teus, não sei como conseguias correr com tantas contracturas. Agora vamos dar mais um passo em frente”.

Foi, provavelmente, a melhor notícia que recebi este ano, que não tem sido um ano nada fácil, mas isso são outras histórias.

Comecei mal o dia, aquela cena da austeridade, o recibo de vencimento sem duodécimos e sem mais um bocado de dinheiro que tanto me custa a ganhar.

Fiquei neura, quando fico neura refugio-me, mas hoje tinha que ir fazer 40 minutos de bicicleta, porque hoje era dia de massagens e o meu treinador queria perceber como é que as pernas iam responder após três semanas sem grande esforço.

Não tinha como não ir.

Pedalei 14 quilómetros, alonguei bem, fiz-me à estrada e não, ainda não me passou a neura, só vejo as caras do Socrates, do Passos e do Costa à frente e esta vontade de lhes fazer maldades ainda me consome.

Mas, diz-me o José Carlos: “tivemos sucesso com as tuas pernas”, e isso alegrou-me.

“Sabes do que tenho saudades?”, perguntei-lhe eu, depois de desabafar com ele sobre a revolta que me invade por causa desta gente que comanda este país, gente que eu não respeito, nem que morra agora, aqui. Lamento.

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O meu treinador ouviu o meu desabafo austero, e foi-me animando, à medida que os seus dedos se cravavam nos meus músculos e me ia dando as boas notícias.

“Tenho saudades, nem que seja de correr só um bocadinho”.

“Não te preocupes, para a semana vamos introduzir a corrida, no treino”.

Foi o que precisava de ouvir, para vir escrever este texto, se não aposto que ia ficar aqui, comigo próprio a chamar nomes a estes filhos de uma enorme meretriz.

O desporto faz parte da minha vida, é a ele que recorro para  aguentar toda esta porcaria, os impostos, o trabalho, a corrupção, as preocupações, esta vida cada vez mais merdosa que nos impõem.

Não corro há quatro semanas, que fique claro.

Nos dias que faltam até ao fim de semana vou continuar a fazer reforço de pernas, core e membros superiores, e até lá vou receber o “mesociclo” que  meu treinador me vai enviar e iremos falar ao telefone para acertar detalhes desta segunda fase, mas para a semana tudo vai mudar, outra vez.

A maratona é ali à frente.

Até lá é lutar, contra mim, contra os fantasmas, contra este sistema abjecto, e acreditar, acreditar em mim, sobretudo e sobreviver.

Acreditar que se eu consigo passar da noite para o dia e fazer-me à vida, porque quero correr a maratona, acreditar que estando focado me abstraio do resto, acreditar que estas elites, um dia, um dia vão meter a mão na consciência.

Eu sei, sou um utópico.

Esta gente só mete a mão nos bolsos, dos outros, sabem lá eles o que é consciência.

Agora só quero que chegue segunda feira, para voltar a correr como se não houvesse amanhã.

Por dores nas pernas já não as há.

Valha-me isso, pelo menos, porque de dores está a minha alma cheia.

Nunca estive tão farto, como agora!

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HÁ DIAS MUITO FELIZES (DIA 8 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 25.01.18

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(Foto by Sérgio Furtado )

 

Se isto der em livro já vai em oito páginas, podia ser pior.

Se não der em livro, esta aventura que comecei a viver, há sempre o coração para guardar os momentos.

Os momentos são construídos por pessoas, do nada, por isso momentos.

As minhas corridas e o que nelas vivo permitem-me continuar a acreditar no homem-bom, nas pessoas de bem, na humanidade, nos olhares.
Tenho vivido, nestes últimos anos, experiências brutais e marcantes, tenho conhecido pessoas inigualáveis e apaixonantes, a corrida, meu amor, a corrida.

Quando decidi correr a minha primeira maratona fi-lo cheio de incertezas, desde logo se conseguia recuperar as lesões que me têm feito viver um pesadelo, depois encontrar a pessoa certa para me preparar, as pessoas certas, pois as valências de uma aventura como esta são várias.

De seguida a escolha da prova, a pesquisa dos voos, alojamento, a pré-preparação, se assim posso chamar, e as inscrições, porque a prova tinha que tem que calhar no mês de Setembro, por causa da planificação.

São nove meses focado ao máximo, a re-construir-me, a edificar o corpo e a mente, para chegar lá bem e de lá sair feliz.

Todas estas incertezas não foram suficientes para me fazer recuar, porque uma coisa eu sei; o bom de uma coisa como esta supera qualquer ponto de interrogação.

Eis que tive essa prova.

Tive a prova e se dúvidas tivesse elas morreram ali mesmo.

Ontem conheci a Petra.

A Petra não é uma mulher qualquer.

A Petra já fez, em poucas horas, com que tudo isto tivesse afinal o significado que eu achava que ia ter, atalhou caminho.

A Petra é amiga do Rui. O Rui é meu amigo, e agora a Petra também é minha amiga, por causa do Rui.

O Rui atendeu ao meu pedido, para me ajudar a encontrar duas inscrições para a maratona de Berlim.

É aquela que eu quero fazer, só irei a Oslo se não conseguir e só irei ao Porto se não conseguir ir a berlim ou a Oslo.

O Rui, sempre disponivel para os amigos, falou, desde Angola com a amiga, que dirige o hotel do Guincho (depois de ter sido directora do Vila Joya), porque a Petra é alemã, com óbvios contactos em Berlim.

Aproveito para sublinhar uma indiganção minha, o Rui Dias já trabalhou com nomes enormes do cinema, é editor de vídeo de qualidade mundial, mas tem que estar em Angola, porque Portugal ainda não lhe deu aquilo que ele merece, um dia Rui, em breve, tenho a certeza, tenho mesmo.

Voltemos à Petra, a minha nova amiga.

Nada disso,

aquela imagem de austeridade e frieza alemãs não encaixam nela, a Petra fala português fluente, sorri imenso, tem um sentido de humor latino, mas tem um coração muito maior que o meu.

Nunca estivemos juntos, iremos estar, mas sei que sorri muito, vi nas mensagens que me escreveu, nos emails, na voz da Petra.

Falámos ao telefone, traduziu-me emails, para a organização da prova, tem-me ajudado, como ninguém, recordo: é directora de um dos melhores hóteis do país, isso, só isso revela o seu coração.

Para Berlim, acredito que consigamos as inscrições, vai o Francisco e a família, a dele e a minha, mas temos mais dois acompanhantes, o Rui e a Petra, diz ela que vão apoiar, acredito que vão.

 Mas, digo eu, que estou sem palavras, nem que vá ao pé coxinho, mas estas pessoas, estes meus enormes amigos merecem muito mais do que ver-me cortar aquela meta, merecem que eu faça a maratona por eles.

Merecem que eu passe nove meses a privar-me de coisas, a trabalhar imenso e rigidamente, para acabar com o sorriso que eles merecem. E vão tê-lo, garanto.

É que, quando eu conseguir fazer isso vou abraçá-los, a todos, se me deixarem, porque vou acabar todo transpirado. Faz parte. Eu sei que vão deixar, já corri muitos quilómetros nesta vida, e na outra.

Se soubesse, mas não sei, e não vou ao Google voltava a dizer obrigado, Petra, em alemão, mas isso era desvirtuar os nossos sorrisos.

Vai, pela centésima vez, em português: obrigado, Petra, obrigado, Rui, é tão bom ter a vossa amizade.

É a medalha que desejo para sempre, muito mais do que a da maratona !

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UM DIA DE CADA VEZ ( DIA 7 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 23.01.18

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Comecei esta aventura que é preparar-me para correr a minha primeira maratona faz hoje 15 dias.

Não bate certo com o sétimo dia do título, mas até bate.

Tudo aqui bate certo, mesmo aquilo que parece não bater.

É uma contagem incerta, escrevo nos dias que dedico  à preparação desta coisa medonha e desafiante, porque a si pouco importa o que faço nos outros dias.

Ao sétimo dia descansou.

Ao oitavo dia também descansou.

Faz hoje oito dias.

Farto de descansar, oito dias depois da maior gripe que há memória, de descansar forçado, preparo-me para regressar ao mundo dos vivos.

Nunca na vida (desde que comecei a correr e a treinar, há quatro anos ) estive oito dias sem praticar exercício.

Tenho aproveitado o pouco tempo lúcido, entre dores de cabeça e de corpo, suores frios e coisas da gripe, a preparar outras vertentes deste projecto pessoal e transmissível.

A alimentação, por exemplo.

Ou o nada fácil acto que é conseguir a inscrição na Maratona.

Berlim, que é onde quero estar a correr, a cidade que quero para a estreia, encerrou as inscrições em Outubro. Estamos em Janeiro.

Pois ontem passei o dia a desdobrar-me em contactos, emails, telefonemas, para conseguir a inscrição para a "Big Mamma".

E, agora não é uma, são duas inscrições, porque o meu amigo Francisco Cerca, solidário, amigo, prometeu ir comigo correr a minha primeira maratona, e acompanhar-me nos treinos, ele em Guimarães, eu no Ribatejo.

Assim que as pernas, as minhas, o permitam, e devem permitir muito em breve.

Vamos com as famílias.

Para além de ser meu companheiro na estreia, para além de ser meu amigo, o Francisco é um corredor, por isso será memorável aquilo que sei que vamos viver, sentir, experienciar, junto das nossas famílias.

Deixei de precisar de uma inscrição ( 108 euros ) para passar a precisar de duas.

A organização já foi contactada, espero ter resposta (positiva), em breve.

Como me acreditei como Media, como Berlim permite fazer reportagens a correr, no pelotão, esta aventura será editada em vídeo, desde a partida para Berlim, até à chegada a Lisboa, com a Maratona pelo meio.

Se calhar bem, e deve calhar, até os treinos vão ser editados.

Andemos...

Ao oitavo dia volto à mesa das massagens, quinta feira volto a treinar no ginásio, sexta e sábado também, para recuperar o tempo perdido e para a semana entramos na segunda fase, Começo com bicicleta e natação, para além do trabalho de reforço e de core.

Só em finais de Fevereiro começo a re-aprender a correr.

O meu treinador, não é só o seleccionador português de Trail, não é só um especialista no treino e na recuperação, ele é também, agora, a luz que me vai guiar até Berlim, consiga eu as inscrições ( se não conseguir iremos a Oslo, nesse dia ).

Mas, neste momento, a comitiva já vai em sete pessoas confirmadas, e dois "apoiantes" muito especiais.

Somos nove.

Desses "apoiantes" muito especiais falo no próximo texto.

Uma coisa é certa, a cada dia que passa sinto o desfaio em cima de mim, e não é que estou a gostar !

 

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A MESA DA TORTURA ( DIA 6 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 17.01.18

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 Perguntava-me há dias um amigo “como é que estava a ressaca da corrida?”.

É a primeira vez que estou sem correr, desde que comecei a correr.

Nos últimos quatro anos não houve uma semana em que não corresse.

E, quando estava mais de dois ou três dias sem correr começaçava a “hiperventilar”.

Agora, já lá vai uma semana e meia desde que me vi obrigado a parar.

Nem me lembrava, não fosse o Marco perguntar.

Nem tenho tempo para me lembrar, entre preparar as refeições que tenho que tomar, idas ao ginásio e às massagens, não dá sequer para me lembrar.

Minto. Claro que me lembro, todos os dias, quando estou a fazer remo ou bicicleta, é nesses momentos que me lembro que não corro há quase duas semanas.

O corpo nem reclama muito, e estou a fazer um milagre que é não engordar, sim eu tenho essa paranóia.

Os exercícios de fortalecimento e de core são tão brutos que me amassam o corpo todo.

Amassado, permanentemente amassado, é como me ando a sentir.

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Se não é do treino é das massagens, se não é das massagens é do treino.

Na última sessão de tortura dizia-me o meu treinador: “no pain no gain”, só que imediatamente dexei-lhe uma questão: “vai haver algum momento em que é só gain, sem pain?”.

“Claro que sim, é para isso que estamos a trabalhar”.

Mas há uma coisa que nunca imaginei em mim - as mudanças que estas coisas nos infligem são incríveis -, que é fazer planos a longo prazo.

Eu sou das coisas imediatas.

Daqui a duas semanas e meia as pernas estarão recuperadas, “os gémeos estão incrivelmente melhores, vão ficar novos”, moralizou-me o José Carlos (o meu treinador).

Depois precisamos de um mesociclo para ganhar de novo base, com o fortalecimento e com o trabalho de core que andamos a fazer bastam quatro semanas.

Só depois, daqui a quase dois meses, é que vamos começar a treinar corrida.

O segundo mesociclo (4 semanas) será feito sem grande intensidade e sem grande velocidade, meter quilómetros nas pernas.

A partir daqui é que as coisas começam a ser mais exigentes.

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 Rampas, séries, core, fortalecimento, objectivos, massagens que vão apssar a quinzenais e vamos trabalhar com o tempo e não com as distâncias.

Assim será até à Maratona.

Pelo meio vou viajar, em Maio, faço 20 anos de casado, e em Agosto vou 15 dias de férias.

Sim, já tenho o plano de treino adaptado a essas duas semi-paragens.

Portanto, caro leitor(a), só para dizer que está tudo tratado, como diria o outro, só falta o dinheiro.

O que é que me está a inquietar?

Não é a ressaca da corrida, é a Maratona.

Escolhemos Oslo, Porto ou Berlim.

Decidi-me por Berlim, sem saber que é quase impossível a inscrição, mas já há um amigo que se calhar vai abrir uma porta.

Senão Oslo, na Noruega.

Porto não em agrada, para a estreia, só proque não.

Isto é;

Consegui orientar tudo para chegar aquele objectivo que quase me cega, neste momento, tal é a vontade e a determinação.

Só não estou a conseguir orientar a Maratona que, está total e dfinitivamente decidido, será em Setembro.

Porque é que estou inquieto?

Não, não é por causa das inscrições, isso, com um ou outro contacto ultrapassa-se, estou inquieto porque até Setembro faltam 8 meses e meio.

Está a imaginar-se a preparar-se oito meses e meio para uma coisa que vai durar quatro horas e custar os olhos da cara?

Pois, nem eu estava, mas agora estou.

É que todas aquelas dores que o José Carlos me inflige, nas massagens, para além de custarem dinheiro, custam mesmo, vão ter ser compensatórias e eu não sou homem para ficar a meio do caminho.

Mas, na útlima sessão de massagens desabafei:

“Coach, sabes o que é que me preocupa mesmo? Quando começar a correr, devagar, com os gémeos já recuperados, vou ter medo que mal dê os primeiros passos voltem as dores, aquela bola que tinha no gémeo direito e que está a despaarecer, na verdade, na minha cabeça parece que continua cá”.

É esta a minha inquietação.

A dor é crónica e está a desaparecer, mas a sensação que tenho é que quando começar a correr ela vai voltar.

“Essa é a parte psicológica, estou aqui para te ajudar a ultrapassar isso”.

É por isso que amanhã volto à mesa da tortura.

E, se eu não for mais forte que isto tudo, não serei nada.

E, eu sei o que sou!

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DESPERTAR VIOLENTO ( DIA 5 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 15.01.18

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A custo lá fui para o ginásio fazer o primeiro treino da semana.

Recordo-me bem das palavras do meu treinador, “nunca treinas o mesmo grupo dois dias seguidos, tens que intercalar”.

E, lembrei-me à força, porque embora me locomovesse (palavra cara, hã? ) com mais ligeireza, continuo com as pernas a gritar, e esta terça feira volto às massagens, aquelas que fazem chorar.

Nem quero imaginar.

Também foi difícil imaginar o meu pré-treino.

Como sempre, desde há oito dias, tomei o pequeno almoço, é inédito, eu sei.

Um pão escuro, com manteiga de amendoim, fiambre de perú, bebida de arroz, com café de máquina. Tomei sózinho, não tive companhia no pré-treino.

A minha mulher estava branca, em silêncio, percebi depois.

Diz que viu o chão da cozinha a ondular, todas as portas do nosso palácio a vibrar, isso, o tremor de terra.

Foi o mais forte desde há 20 anos, com origem em terra.

Este veio do Alentejo, subiu por ali acima, passou pelo Ribatejo, Oeste, ainda visitou a zona da capital, e só foi parar lá para Coimbra. Um dos grandes.

A Carla já tinha tomado o pequeno almoço antes, quando foi levar os miúdos à escola, mas normalmente acompanha-me. Hoje não, sentou-se na sala a olhar os push-ups das notícias. Estava com medo, que eu conheço-a há uns 30 anos.

Eu, nestas coisas, estranhamente, porque sou um tipo quente, mantenho uma frieza incomum.

O que me lembro?

Lembro-me de estar quase a acordar. As minhas pernas acordam-me, juro.

Pela manhã as pernas acordam, pesam e esticam-se, involuntariamente, como que num processo de auto-alongamento. Depois acordo, tem sido assim nas últimas semanas.

Estava eu a sentir esta cena, quando a Alice (a minha gata louca) salta da cama, de repente e desata a fugir pelo quarto fora (ainda são alguns 30 metros quadrados).

Disse-me a minha mulher, depois, que cinco minutos antes do tremor de terra já a gata andava alucinada, digo alucinada, poprque ela é doida, logo, não posso usar essa palavra.

Mal Alice saltou para o chão senti a cama a abanar. A minha cama não é uma cama qualquer, é gigante, comporta umas quatro pessoas, embora só lá durmam duas, eu e ela.

A cama abanava de tal forma que me acordou, o que não é tarefa fácil, nada fácil.

Quando acordo sou um bicho estranho, que precisa de umas boas duas horas para descer à terra. Mas, nunca tinha acordado com duas mãos de um gigante qualquer, invisível, que decidiu abanar a minha cama, comigo lá dentro, como se de uma pequena caixa de fósforos se tratasse, provavelmente, eu sería o fósforo.

Segundos depois, talvez uns dez, não consigo precisar, saltei para o chão e, aí sim, aquela porcaria abanava muito.

Mantive a frieza, apesar de ter mal-acordar – a Valeriana faz milagres – e encaminhei-me para o corredor do quarto que faz ligação com as restantes divisões da casa.

Parei em frente à cama e, a cena seguinte é digna de um filme de Woody Allen;

A minha mulher entra no quarto, assustada, e olha-me com um olhar estranho.

Ali estava eu, de pé, a segurar dois quadros, para que não caissem, tinha a terra acabado de tremer.

“Foi grande…”, disse-me.

“Acho que sim, consegui com que os quadros não caissem”.

Que estranha e estúpida preocupação, segurar os dois quadros, enquanto aquilo tremia tudo.

Já na cozinha, enquanto preparava o pequeno almoço (tenho desculpa, ainda não estava totalmente acordado), como se nada fosse, liguei para a minha mãe, que não sentiu nada, a Carla ligou aos miúdos, a Maria, na escola não sentiu, o Rodrigo estava na explicação e sentiu, e eu fui onde tudo acontece: ao Facebook.

Recebo um push up com a intensidade e o epicentro do sismo e trinquei a sandes de fiambre de perú, emborquei o copo com magnésio e tomei o complexo B.

A terra tinha parado de tremer.

Era hora de ir treinar, que os tremores de terra também não se importam connosco, porque é que haveria de me importar com ele, ou com as réplicas, no caso?

Lembrei-me do que me disse o treinador, nada de treinar os mesmos grupos dois dias seguidos.

Aqueci na bicicleta, lancei-me nas pranchas, nos abdominais, nos braços, no tronco, alonguei e saí a correr para ir fazer um raio-x, que vou mostrar ao meu treinador.

Vai servir para alinharmos as pernas, se for preciso alinhar, para melhor definir, no futuro próximo, a melhor forma de corrida.

Foi um dia cheio, como se vê.

Mas, aquilo que me lixou não foi a terra a tremer, as dores nas pernas, a correria para encaixar tudo numa só tarde, até porque ainda tinha que preparar a primeira refeição grande do dia, e preparar o jantar para trazer para a televisão, mas não foi por isso.

O que realmente me chateou foi um caramelo que costuma ir ao ginásio.

O tipo deve achar-se especial, embora não seja grande coisa, comparado com os bodybuilders a sério, mas pelo olhar que faz à matador, e pela postura que mantém deve achar que é importante,

Pois o gajo fez aquilo que rapidamente me tira do sério;

Entrou no balneário e saiu, sem sequer dizer boa tarde. Só lá estávamos os dois.

Não te desejo um tremor de terra que ainda ia ficar com peso na consciência, mas que as pernas te tremam até à língua, que é para aprenderes a ser bem educado.

A sério, pequenas coisas que me fazem bater em algúem, embora não bata, se não era o escândalo: "jornalista da TVI agride otário" !

Os online até salivam por histórias destas, mas comigo têm azarico. Na escola onde eles andaram já eu era lá professor.

Quem me lê agora deve achar que estou a stressar por falta de corrida, mas não, não estou e até estou surpreendido.

O esforço que agora faço compensa a ausência e sei que daqui a três semanas volto à estrada.

O problema é que acho que fui influenciado pelo meu acordar abrupto e inesperado, acho que foi isso.

Eu tenho mal-acordar, como se prova.

Mas sou bem educado, ao contrário de alguns otários desta vida.

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Sábado, o dia em que me caiu a ficha.

Sábado, o dia em que me fiz adulto, ao fim de tanto tempo.

Adormeci às quatro da manhã, com a mesma dor de cabeça que arranjei por volta da uma da tarde de sexta feira.

Na sexta feira, já aqui o contei, fiz uma viagem pelos últimos 18 anos da minha vida.

Uma viagem que adiei durante toda a semana, em que as fotografias esperavam ansiosamente na timeline do meu computador. Fui fugindo, até ao limite.

Foram seis horas seguidas a editar um vídeo, para mostrar à família, na noite de Sábado, antes de irmos jantar, para comemorar a "idade adulta" daquele ser humano, o mais maravilhoso dos seres humanos.

Ou seja, tive um dia e uma noite que mexeram profundamente comigo, um daqueles momentos, comigo funciona assim, em que o corpo perde toda a capacidade de resposta e a cabeça toda a vontade.

Atropelado por uma manada de elefantes imaginários.

Nostalgia o revisitar o amor, uma catarse foi de certeza.

Por isso pedi ajuda.

"Acorda-me às dez e meia, que ainda não fiz o quarto treino da semana, e isto é igualmente sério...".

Isto é a tal decisão que tomei na mudança do ano;

preparar-me para correr a primeira maratona da minha vida.

Estou obrigado, para além de manter um regime alimentar específico, mais sessões de massagens, a treinar quatro vezes por semana.

Sou obstinado, só que por força de me deitar sempre tarde, nunca treino no ginásio aos Sábados. 

À hora a que acordo já eles estão todos a almoçar.

Não foi preciso acordar-me, quando a Carla entrou no quarto já eu estava a ver o que estava a acontecer lá fora, no mundo.

Não tinha muito tempo, na verdade.

O ginásio fecha à uma da tarde, aos sábados, e tinha que ir buscar os miúdos a Vila Franca, para almoçarmos, e tinha ainda um pequeno almoço para tomar.

Confesso, não gostava de treinar depois de comer, nunca gostei, aliás, na minha antepenúltima meia maratona, desisti ao quilómetro onze depois de passar metade da corrida a vomitar, por ter tomado um leve pequeno almoço.

Foi a primeira e única vez em que desisti numa corrida, e isso ainda hoje me serve de lição.

Aviei uma bebida de arroz com Nespresso, uma torrada de pão escuro, com queijo fresco e fiambre de perú, mais um café e lá fui.

Tinha que ir, não só porque me faltava um treino semanal, mas porque precisava de ir.

No Sábado a ficha desligou-se.

No Sábado, confesso sem vergonha, tornei-me adulto.

Pai do menino.

E, precisava de confrontar a inércia do corpo com a sua própria existência, e matar o monstro.

O meu plano de recuperção proíbe o uso dos gémeos, aquelas duas bolas que temos na parte de trás das pernas, abaixo dos joelhos. Por essas bandas está tudo a recuperar dos excessos e dos estragos.

Por isso, trabalho o core, à base de TRX (uma espécie de elásticos que permitem usar o peso do próprio corpo nos exercícios), de abdominais e pranchas, trabalho braços, tronco, zona abdominal, tenho também um esquema de alongamentos, de tal forma exigentes, que precisei tirar uma foto para a consultar sempre que treino, tal é a especificidade.

Há também o trabalho de pernas - nada de gémeos -, fortalecimento de pernas.

Agora, agora já percebo aqueles posts nas redes sociais quando a malta publica as fotos do ginásio com a legenda "legs day", como que a gritar; socorro que me dói tudo.

Não, nunca na vida tinha feito este tipo de trabalho tão específico.

Porra, o Sábado foi dia de fortes emoções, o meu filho tornou-se um homem, os Xutos anunciaram que vão continuar, e fiz trabalho de pernas.

Parece coisa pouca, também eu achava o mesmo.

Quanto aos agachamentos com pesos, perdi-lhes a conta, numa perna, noutra, nas duas, quando à maquina "leg extention" e "leg curl", esqueçam.

Tinha que fazer quatro séries em cada perna, fiz duas, mas informei o treinador, via email.

Era assim: uma perna de cada vez, 30 repetições sem peso, um segundo para cima, cinco segundos para baixo.

Na segunda série diminuia o número de vezes, mas aumentava 5 quilos. 

Assim até às 15 repetições, 30, 25, 20 e 15.

Fiz duas.

As pernas termiam por todo o lado.

Estive nisto duas horas.

O relógio da torre batia as 13 badaladas, a cinderela tinha que ir tomar banho e já nem sequer tinha tempo para alongar.

Alonguei em casa, antes de irmos almoçar, já debaixo de uma pressão de uma adolescente esfomeada, de um (já) adulto esfomeado e de uma adulta, na plenitude, também ela esfomeada.

Ao almoço até correu bem, sentei-me, comi, ri, conversei.

Sim, perguntei ao treinador se podia comer pézinhos de coentrada, até porque à noite tinha o jantar de aniversário, em família.

"Podes, diverte-te", respondeu-me, com um smile.

Bebi cola zero, que de vez em quando posso beber, mas só zero.

Não violei, totalmente, o plano alimentar, só um bocadinho, até porque treinei, até porque encontrei a minha nutricionista a treinar e trocámos umas palavras.

 

Foi ao fim do dia que comecei a sentir dificuldades em sentar-me e em levantar-me. Juro.

Um dia depois, hoje, Domingo, e já são quase onze da noite, sinto-me com propriedade, como diz o outro, para publicar uma foto com a legenda "legs day".

Pena que não tirei foto alguma, só a do ginásio já vazio, em hora de fecho.

Mas, uma coisa garanto, tenho extremas dificuldades em sentar-me e em levantar-me, o chamado andar novo.

Ainda pensei fazer uma banho de sal marinho, receita do meu amigo Francisco, mas preferi estar 90 porcento do dia no sofá, com a minha gata aos pés.

Tenho esperança que amanhã, quando voltar ao treino, consiga fazer trabalho de core e de braços.

Os abdominais e os membros superiores deste corpinho (quase danone) estão porreiros, mas da cintura para baixo parece que fui fustigado por uma força invisível.

Eu achava que a  malta que publica as fotos do treino com a legenda "no pain no gain" estava a exagerar.

De longe.

"No pain, no gain".

Sei que é preciso capacidade de sofrimento, força interior, mental, força física, para preparar uma maratona, mas porra, eu nem sequer ainda comecei a correr, só estou a recuperar as pernas.

Neste estado, também não tinha qualquer hipótese de correr um metro que fosse, por isso, sentei-me na esquina da lareira, enquanto toda a gente já se tinha acomodade nos sofás da sala.

A lareira estava acesa, os corações estavam afagados, tinhamos um filme para ver, uma viagem para fazer.

Tive que me sentar para ligar o computador à televisão, e optei por dali não sair, do canto da lareira que fica junto ao móvel onde está a televisão, dada a dificuldade em sentar-me e em levantar-me.

Pedi para apagarem a luz.

Sorrimos e chorámos, juntos, em silêncio.

No fim do filme, o meu menino, agora homem, veio abraçar-me e devolveu-me a paz que procurei naqueles vinte minutos de filme.

Desliguei a ficha.

Naquele instante, naquele abraço, tornei-me um adulto, o meu filho também.

Só as dores nas pernas não me passaram.

 

 

 

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Hoje passei o dia inteiro a chorar.

Verdade !

E nem treinei, nem fiz massagens.

Pausei o programa de recuperação e de treino por um dia, porque tinha mesmo que ser assim.

Devo treinar quatro vezes por semana, treinei três, este Sábado recupero.

Passei o dia inteiro a chorar, precisamente por causa deste Sábado, precisamente, porque estive a viajar dentro da minha própria história, nos últimos 18 anos.

Verdade !

O meu filho faz 18 anos este Sábado.

É um momento que sempre soube que ia chegar, embora nunca tenha pensado nele de forma perfeitamente objectiva.

Não estou preparado, confesso.

Vou treinar e a coisa passa-me, bem sei. Sou de repentes,  mas ainda não estou preparado, pela manhã já estarei, até porque temos jantar com a família mais próxima e com os padrinhos e a pessoa tem que se mostrar forte, mesmo com o coração derretido.

Decidi-me, então,  a abrir a timeline e começar a editar o vídeo, pois já não tinha mais por onde fugir, aprendi que não se foge das memórias bonitas, embora elas nos choquem.

Tinha menos de 24 horas para o ter pronto.

Lembro-me perfeitamente daquela tarde de quarta-feira, estava sol.

Marcámos encontro junto à estação dos autocarros.

Semanas antes tinhas-me surpreendido com a notícia, a melhor das nossas vidas, o teste tinha dado positivo.

Aquela tarde, naquele momento quando te vi sair do consultório do ginecologista, confesso, acabou por ser uma das tardes mais nervosas da minha vida, tive outras, entretanto, mas aquela…

“O médico diz que está tudo bem, é um rapaz!”.

Vejo os nossos sorrisos, agora mesmo, enquanto escrevo.

Lembro-me de te abraçar muito, como te abraço, às vezes.

Tinha começado, ali mesmo, a mais bela das histórias de amor.

Inquietude, incerteza, sonho, medo, coragem, sorriso, lágrimas, tudo se encaixava, na perfeição, a partir daquela tarde em diante.

E, passaram 18 anos, num instante.

Em vez de ir treinar passei o dia inteiro a editar um vídeo com 20 minutos.

Nesse vídeo, que começa no dia do nascimento do nosso filho, desfilam as memórias mais belas, que emocionam tanto, porque tens sido imensamente feliz, e não te tens dado conta, nestes anos todos. Foi ontem, e hoje é um homem.

Chorei muito, porque tinha que chorar, porque não o evitei, porque nós choramos, quando somos felizes.

Andava há duas semanas para editar o vídeo, tinha as imagens todas na timeline, mas fugi dele e delas, como o diabo foge da cruz.

Disseste-me “vai ser duro”.

Foi muito duro, mas foi muito bonito reviver a nossa felicidade estampada no rosto do ser humano mais fantástico que alguma vez conheci, o nosso filho.

Está lá tudo, a primeira vez que chegou a casa, a primeira vez que o levamos à rua, a passear, a bola que o Eusébio lhe deu, e a foto dos dois, com o meu pai, a tia Paula e o tio Pedro, os avós, o beijo na tua barriga, como que a dar as boas vindas à Maria, está lá tudo, meu amor, até as minhas lágrimas felizes.

Foi saborosamente duro, saber que temos sido tão felizes, saber que aquelas fotos tão cheias de vida jamais voltarão àquela tarde de sol, quando saíste do consultório do ginecologista e me disseste, “é um rapaz…”

O meu texto acaba aqui.

Voltei a chorar e tenho um noticiário para apresentar.

Hoje não treinei, mas acho que o meu treinador vai compreender.

O meu filho é um homem e eu estou emocionado.

Rodrigo, o meu coração será sempre teu.

Guarda este texto, ele é teu, como o meu coração.

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PEDAÇOS DE CARNE COM CÉREBRO ( MARATONA DIA 2)

por The Cat Runner, em 11.01.18

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Foi a primeira vez na minha vida que fiz isto.

Nunca antes tinha treinado, sem correr.

A coisa pareceu-me estranha, como tudo o que é novidade e, confesso, ainda não se entranha.

Faz-me falta (eu e a minha mania de dramatizar as cenas).

Lá, no ginásio que me está a apoiar nesta empreitada de loucos estranharam não me ver na passadeira, estranharam mais ainda a minha invasão do espaço dos pedações gigantescos de carne, com cérebro.

Habituem-se.

Costumo correr na rua, no Passeio Ribeirinho, em Vila Franca, e no ginásio, depende da vontade, do tempo, dos tempos, depende daquilo que me apetece, na altura.

Mas, sim, sempre que vou ao ginásio não passo sem a passadeira. Não passava!

É objecto (uma passadeira é um objecto) proíbido nas próximas três semanas (mais esta).

A malta do ferro costuma olhar-me, tipo, vens para aqui  passas a vida a correr, aposto que agora falam entre eles: o gajo da televisão rendeu-se, quer é ficar como nós, que eu apesard e falar muito, como se nota, não costumo falar com estranhos, ainda por cima enormes.

Estou a brincar, eu curto a malta do ginásio e ninguém disse nada, nem sequer eu invadi o que quer que fosse.

Acontece que eles vão ao fim do dia e eu vou sempre em day time, quando está lá pouca gente, por isso raramente os encontro.

Acaba por ser engraçado,

A minha recuperação, que começou na segunda feira, está a correr bem.

Esta semana já fiz duas sessões de massagem desportiva, e a de hoje nem correu nada mal, apesar de o meu treinador ter “ido mais fundo” nas minhas amigas contracturas, muito mais fundo.

Saber sofrer para surpreender, porque se a ideia é fazer festas nas pernas ia a um Spa.

Bom, na verdade, neste momento, nem sei onde é que (não) estou dorido, são as pernas, por causa das massagens, são os braços e os abdominais (300 por treino), eu sei lá, dói-me uma série de músculos que nem imaginava que existissem.

O meu treinador prescreveu-me um treino de recuperação com a duração de quatro semanas, treino de fortalecimento de pernas (nada de gémeos), treino de core, treino de braços, tronco, alimentação, essas cenas, mas nada de corrida.

Remo, remo, remo, que qualquer dia chego ao Brasil, e bicicleta, mas sem carga, para não dar cabo do trabalho todo.

Bicicleta ainda não fiz.

Receio que os pedações de carne me olhem e comentem: “olha o gajo, nem carga mete na bike, ganda fraquinho”.

(Gargalhada) É mentira, ainda não fiz porque não calhou, mas faço esta sexta, que o meu treinador não quer que eu treine mais que quatro vezes por semana, até que iniciemos a preparação para a Maratona (já empurrámos para Junho/Julho, porque em Maio vou de Lua-de-Mel e esse período é para adaptar ao pico de forma).

Começo, na verdade, a perceber algumas coisas, por exemplo:

Até à maratona (aqui com letra pequena) só vou fazer duas provas, uma de dez quilómetros e uma meia maratona, eventualmente poderei fazer uma ou outra de dez se coincidir com o plano de treino, mas a ideia não é essa.

A ideia de passar quase cinco meses sem ir às corridas (embora vá correr/treinar, daqui a semanas) inquietou-me, mas é assim que será, afinal somos uma equipa e o treinador é ele.

Mas, o que mais me inquietou foi no fim da sessão de massagens de hoje.

Zé Carlos, há mais de um ano que não consigo fazer uma corrida contínua, não em estou a ver correr 42 quilómetros, sem parar”.

“Primeiro tratamos as dores e as pernas, depois sim, claro que vais correr, sem parar”.

“Sim”, interrompi, “senão não acabo a maratona em quatro horas e meia”, interrompeu-me;

“Não vais acabar nesse tempo...”

“Eu sabia, era fruta a mais…”

“Vais acabar abaixo das quatro horas”, afirmou (e uma afirmação não é algo que se dissipe no tempo):

“Se tu o dizes”, respondi-lhe a medo, sem que ele notasse, e saí, com um andar novo.

Agora, V.Exa. que fez o favor de me ler até ao fim diga lá se não inquieta estar perante um desafio como este?

É que já não sou só eu, sou eu e ele…

Puta que pariu (com respeito), como diz o outro!

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VOU COMER A SOPA TODA (MARATONA DIA 1)

por The Cat Runner, em 09.01.18

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Há pessoas que ficam para sempre registadas na sebenta da nossa história.

O meu treinador é uma dessas pessoas.

Conheci-o apenas há um dia.

Mas, alguém que treina atletas de alta competição e se disponibiliza para preparar um jornalista para uma maratona, sem pedir nada em troca é alguém que está pelo bem, pela ajuda, pelo amor à corrida.

Conheci o José Carlos da Run Advisor por alturas do Natal, mas ele não me conhecia.

Foi um amigo comum, treinado por ele, quem me o apresentou, estávamos no jantar de natal da ZFortes, a nossa escola de Muay Thai.

O meu amigo, o Zé Duarte, tem 50 anos, despediu-se há semanas do emprego de 25 anos. Era chefe de oficina. O Zé faz ultra-trail, este ano vai fazer o mítico Mont Blanc.

Dizia-me ele que descobriu o José Carlos na internet.

O Zé precisava, como eu, de um especialista que o ajudasse a fazer as coisas bem feitas.

Nessa noite comprometeu-se a meter em contacto comigo o seu treinador, mas não estava totalmente certo que eu conseguisse ser treinado por ele. Não custava tentar. Tentei.

Consegui.

No sábado trocámos mensagens, na segunda feira estávamos frente a frente, pela primeira vez, eu e o meu treinador.

Não é difícil criar empatia com o José Carlos, é reconfortante ouvi-lo falar sobre corrida, sobre treino, sobre nutrição, sobre recuperação.

Depois de fazer uma análise visual aos meus pés e às minhas pernas, depois de um questionário ao qual tive que responder, saímos para uma corrida de cinco quilómetros.

Estamos em testes.

Fizemos 33 minutos, entremeados com meia dúzia de metros de caminhada.

Senti necessidade de chegar a um especialista porque quero preparar a maratona, com pés e cabeça, sem ter que navegar à vista.

Em teoria, em Maio, fazia-me à estrada, adiámos para Junho ou Julho, porque precisamos das próximas quatro semanas para recuperar os estragos que permiti infligir a mim próprio.

Mas, aqueles que me conhecem e que me acompanham sabem que os últimos dois anos têm sido um pesadelo para mim.

Para não cair na rotina de deixar de correr, tenho corrido, diariamente, cheio de dores musculares nas pernas.

Até à semana passada, durou dois anos, nunca tinha decidido ir à oficina.

O José Carlos percebeu imediatamente as minhas dificuldades e os meus condicionalismos físicos.

Os meus gémeos não enganam.

Agora, para além de começar a corrigir algum desalinhamento provocado por uma gravíssima lesão que tive em 2004 ( altura em que quase tiveram que me amputar a perna ), tenho que eliminar estas dores.

O objectivo é a maratona, mas esta é agora a prioridade.

Se não recuperar não consigo aguentar os treinos que estão para vir, e se aguentar, seguramente, não conseguirei acabar a Maratona.

E, isso é ver desabar tudo à frente dos olhos.

"Deves ter uma enorme capacidade de resistência, não sei como conseguiste correr durante dois anos com as pernas nesse estado", disse-me.

Coisa pouca, fibroses e contracturas musculares crónicas.

Resumindo, os músculos enrolam-se uns nos outros, devido a vários factores, e provocam dores enormes.

Tenho umas 3 ou 4 na perna esquerda, a que sofreu o acidente, e umas 4 ou 5 na perna direita, que durante anos tem suportado a cobardia da esquerda, porque entretanto criei um desconforto na planta do pé, fruto da defesa que a própria perna decidiu encetar.

Chamam-lhe verruga plantar. Chamo-lhe prego espetado no pé.

Não tem sido fácil, não me estou a queixar, e sei que o que está para vir será, provável e igualmente duro, mas cada quilómetro da vida é ele próprio duro, e eu gosto da dureza e do desafio, sem o desafio sou outra coisa qualquer.

Alonguei, no final, fizemos massagem profunda, dolorosa e conversámos mais um pouco.

O enigma é perceber porque tenho estas contraturas crónicas e a prioridade, como disse é eliminá-las.

Desconfiamos que a causa está relacionada com a alimentação deficiente.

Espantado, ficou o José Carlos quando me questionou sobre os meus hábitos alimentares.

Ao logo dos anos e das leituras e das corridas foi-me fácil perceber que o regime alimentar de quem pratica exercício é decisivo. Mas, nunca interiorizei que estava obrigado a isso.

“Bebo um iogurte e um café, vou treinar, como um pastel de nata e um café, vou trabalhar…”

“E o jantar?”

“Como uma tosta e um sumo…”

“E, de madrugada, quando chegas a casa?”

“Bebo bebida de arroz e como o que houver, uma broa, por exemplo”.

“Conclusão: não te alimentas!”

Confesso que tive vergonha.

Nos últimos dois anos, para além das dores permanentes que me obrigavam a sofrer mais do que era suposto, nunca consegui, durante esse período melhorar a minha corrida, antes pelo contrário, chegando ao ponto de querer desistir.

“Tens que mudar os hábitos alimentares já hoje, tens que ingerir proteína e hidratos, tens que ir hoje a um nutricionista”.

E, fui.

Conversei com a Mariana Gameiro, que até dá consultas online, e pouco tempo depois de me ter despedido do José Carlos, na Beloura, já estava a comer frango, com feijão e arroz, e um ovo estrelado extra. Repeti a dose ao jantar e hoje, ao almoço, já ataquei peito de frango, com salada e arroz.

Como as análises clínicas que fiz estão boas, tirando o exorbitante colestrol, começo a concluir o que me disse ontem o meu treinador, é da alimentação, que eu não fazia.

O carro não anda se não tiver combustível, é tão simples, e eu sou tão estúpido.

O meu treinador decidiu que nas próximas duas a quatro semanas não há corrida, para recuperar as pernas, apenas trabalho específico de ginásio, regime alimentar cuidado e muitas massagens daquelas que fazer chorar, mas que depois fazem sorrir.

Estou a seguir tudo à risca, de tal forma que nunca antes as pernas me doeram tanto como hoje.

É das massagens.

Quinta feira há mais e há reavaliação destas primeiras horas.

Quase não mexo as pernas, de tão doridas e pesadas, mas já consigo sorrir.

Ora, voltando ao início desta crónica, se alguém (que nem sequer conhecias) te provoca esse momento intensamente mágico que é um sorriso, esse alguém ficará na sebenta da tua história.

Mais do que o sorriso é a mudança que estou a viver;

Estou a lutar por um objectivo, estou dedicado de alma e coração, estou a adaptar a minha vida pessoal e profissional e a sacrificar, em nome desse desafio.

Eu sei que vou correr a Maratona, não que lhe tenha perdido o medo, só que quando me desafio os medos transformam-se em determinação e em coragem.

Se ontem eu queria correr os 40 e dois quilómetros e picos e terminar bem, hoje eu quero correr a Maratona em menos de quatro horas.

E vou conseguir.

Porque as pernas vão parar de me doer e eu já voltei a sorrir.

É assim que tem que ser e assim será.

Ah, e prometo comer a sopa toda.

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Há decisões que os adultos tomam na vida que não passam de impulsos.

Depois vem o resto, quando te colocas frente a ti mesmo e percebes que não há caminho de volta.

Se há quatro anos não imaginava correr um quilómetro, sequer, muito menos sonhava correr meias-maratonas.

Já corri uma dúzia delas.

Mas, esta não é uma crónica sobre um corredor de fundo, das corridas.

Esta é a primeira crónica sobre um corredor de fundo, da vida.

Aprendi a partir de trás, lentamente, até atingir o ponto de rebuçado, a frente.

Percebi que por vezes a luz ao fundo do túnel não passa, apenas, do combóio que se aproxima.

Nessa encruzilhada a decisão segue o seu impulso, apanhas o combóio ou ficas na eternidade de uma dúvida, se a luz existe, lá ao fundo do túnel?

A minha vida é como a minha corrida;

Comparo as decisões, os impulsos, a dor, a alegria, o suor, o descanso merecido, o bom e o mau, que somos todos, porque o caminho não o escolhemos, apenas o calcorreamos.

Desde que há quatro anos comecei a praticar exercício físico com regularidade que sempre me recusei a alimentar a ideia de correr a prova que transforma um qualquer num maratonista;

A Maratona (com M grande).

 

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