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ALICE, A ESPERANÇA MORA AQUI

por The Cat Runner, em 12.11.16

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Dia 41 a 42

11 e 12/11/2016

 

Sobre milagres que se repetem...

 

A noite de quinta para sexta foi ainda pior que a noite de quarta para quinta.

A esperança mora aqui, nesta casa, mas ninguém é de ferro.

Cada um de nós tinha esperança de ver Alice voltar, mas aqui, nesta casa, somos gente que se bate com o destino, que não baixa os braços, mesmo quando a esperança só nos pertence, quando é a única coisa que nos pertence.

Foram dezenas, as pessoas que durante estes dias nos transmitiram afecto, solidariedade, amizade, preocupação, não tanto por nós, creio, que não somos dignos de tamanho gesto, mas por Alice, que é uma história bonita.

A noite de quinta para sexta foi ainda pior que a noite de quarta para quinta, porque os meus filhos voltaram a dar-me mais uma lição de vida.

Percebi isso, e gelei quando o percebi, no instante em que abri a porta de acesso ao elevador, para quem vem da garagem.

Na noite de quinta para sexta voltei às buscas, no condomínio, por volta das duas e tal da manhã. Porta a porta, vi em cada bloco, na garagem, nas escadas. As escadas.

À entrada das escadas, no hall de acesso ao elevador, para quem vem da garagem, estava espalhada comida de Alice. Calou-me fundo, arrepiei-me, senti o quanto Alice é parte de nós, dos meus filhos.

Voltei a fazer o percurso seguindo as pistas. Junto às luzes, mais comida, junto a porta principal do condomínio, nas escadas, na nossa porta, porque a nossa casa é onde mora o amor.

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Mas, o que me cortou o coração foi a resma de folhas A4, em cima da mesa na entrada, com o apelo de Maria.

A minha gata...

"Dei duas voltas ao condominio. Nada. E, por cá, novidades?", perguntei à Carla, deitada no sofá, como na noite anterior. Estava tudo estranhamente igual. O tempo parou-nos.

Foi a custo que adormecemos, tal como na noite em que Alice desapareceu.

Adormecemos na almofada de uma esperança só nossa.

Lembro-me de, antes de ter chegado a casa, enquanto contornava a rotunda, pensar que hoje ia fazer anos e que Alice ia estar connosco. Mas, como?

Eu não gosto de festejar o meu aniversário, mas este ia ser o primeiro de quarenta e tal, com Alice comigo.

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"Gu, a Alice...a Alice está na sala"...

Abri os olhos, acordei, estava a sonhar.

"Gu, olha, Alice..."

"Alice..."

Não estava a sonhar, estava a delirar, sem febre.

Levantei-me, corri para junto deles.

Neste instante eu e a Maria estávamos junto do Rodrigo e da Carla. Os quatro de costas para a cozinha, a olhar, sem palavras, sem raciocínio, Alice, ali em frente a nós, sentada na alcatifa onde se confunde, como se nunca dali tivesse saído.

Havia pouco tempo, os miúdos tinha a boleia para a escola à espera (obrigado, tia Paula).

Tirámos uma foto, registámos o milagre digitalmente, abraçámo-nos, só depois abraçámos Alice (para aprender).

Os miúdos sairam.

Maria já não chorava de tristeza escondida naquela força da natureza do seu sorriso.

Rodrigo já não precisava de ir com ela espalhar mais comida, como isco vindo do seu doce coração.

Eu e a Carla olhavamo-nos, com um sorriso como não trocávamos há anos, felizes, e abraçámo-nos de novo.

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Só depois peguei em Alice ao colo.

Não lhe perguntámos onde foi, porque foi, como foi, ainda hoje não o sabemos, nunca o iremos saber.

Passei o dia com Alice junto a mim, não a larguei mais.

À noite, na rotunda, dei comigo a pensar em como estava, estávamos tão felizes, todos, os quatro, os pais, os amigos, vocês, sim, vocês, a quem nós agradecemos, de coração aberto.

Muito Obrigado.

Acho que este era o texto que Alice escrevia, depois deste pesadelo psicadélico, se soubesse escrever.

Mas, não sabe.

Escrevo eu por ela, por mim, por nós e por vocês, incansáveis amigos, fontes de afecto, que os afectos também são virtuais, tal como as amizades.

Hoje, quando passei pela rotunda, antes de chegar a casa, lembrei-me destas trinta e tal horas, hora a hora, minuto a minuto, a impaciência, a impotência, a angústia, a esperança, a procura, o encontro.

Mas, ao passar pela rotunda, houve um de todos os pensamentos que me vai ajudar a concluir este texto.

Hoje faço anos, Alice voltou.

Sou um quarentão feliz!

 

 

 

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ALICE E A MINHA PROMESSA

por The Cat Runner, em 12.11.16

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Dia 38 a 40

8,9,10/11/2016

 

( No dia 8 deste mês de novembro, este texto, que hoje foi concluído, começava assim...)

Dia 0

FIM…

 

Terminou a história de Alice.

Alice desapareceu.

Mesmo que Alice regresse, a história terminou.

A Maria e a Carolina vão, concerteza, perdoar-me não conseguir cumprir a minha promessa.

Enquanto pude, enquanto tive que, enquanto foi minha obrigação, tratei, cuidei, amei Alice, como nunca imaginei, eu, o tal que não ligava a animais.

Mas, Alice desapareceu.

O vazio da perda enche-nos, a falta de uma explicação inquieta-nos e tira-nos as forças.

A angústia tem sabores diferentes, mas todos cortam por dentro.

Ontem, quando cheguei a casa, ia com a ideia de meter os textos em dia, estava em falta com dois textos sobre Alice.

Ontem, ainda antes de sair da televisão recebi esta fotografia, por sms, com esta mensagem:

“Alice já deixa fazer festas, enquanto dorme, sem morder :) ).

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Respondi:

“Estive toda a manhã nisso. Estou apaixonado”.

Alice, ontem de manhã, quando entrou no meu quarto e saltou para a cama, deitou-se junto a mim.

Enfiou a cabeça entre os meus braços e adormeceu. Alice estava a começar a dar-se a nós.

Ficámos sem chão.

Sem explicação.

A Carla adormeceu pouco depois da meia noite. Alice brincava na sala, junto dela.

Estive toda a semana a editar a noite, na televisão. Quando assim é só consigo chegar a casa depois das duas da manhã. É quando, no silêncio, aproveito para meter coisas em dia, noite dentro.

Estranhei a Carla estar a dormir na sala aquela hora. Entrei, reparei que a cozinha tinha a luz acesa, mas estava vazia.

“Sabes da Alice?”.

“Deve andar por aí”.

Senti-me gelar. Sem explicação.

Espreitei para a manta castanha, por cima das pernas da Carla, onde Alice estaria a dormir.

“Alice...”

Durante mais de uma hora esta foi a palavra que ecoou pela casa. Invadimos os quartos dos miúdos, espreitámos por baixo de rigorosamente tudo, desviámos livros, objectos, abrimos gavetas, gavetões, armários, camas, voltámos a verificar todas as portas, todas as janelas.

“Alice”...

A partir deste momento, tanto quanto encontrar Alice, às quatro e tal da manhã, tentámos encontrar uma explicação. Alice não estava em casa. Era impossível. Mesmo morta, impossível, verificámos rigorosamente tudo.

Ponderámos rigorosamente tudo.

Alguém tentou assaltar a casa entre a meia noite e as duas da manhã – mas porque raio iam levar uma gata rafeira, e mais nada?), se teria fugido, apesar de tudo estar fechado, se estava num armário, gaveta ou roupeiro, apesar de não conseguir abrir portas, até nas sanitas procurámos.

Às quatro e tal da manhã andávamos a vasculhar todo o condomínio, arbustos, piscina, garagem, salão, jardim. Às sete da manhã, de novo, às duas da manhã do dia seguinte, de novo.

Este texto só hoje foi concluído, mas começou a ser escrito no dia 9, no dia a seguir a Alice ter desaparecido. Faltou-me, mais que a vontade, a coragem de o escrever.

Pelo meio decidi arrumar tudo o que era de Alice.

Não estava a conseguir entrar na cozinha e ver tudo como antes.

“Não arrumamos nada, ela vai voltar para o pé de nós”.

Mantivemos tudo como naquela noite. Exactamente como naquela noite.

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As opiniões das pessoas que gostam de Alice e da sua história de vida, no Facebook e aqui no blog e, ao dava-nos alguma esperança, sim, esperança, as opiniões convergiam, mas como podia Alice ter estado mais de 30 horas, em casa, sem se mexer, miar ou aparecer. Alice tem dois meses.

Alice adora brincar. Era impossível, mas o denominador comum começava a dar-nos esperanças: todas as pessoas contavam histórias de desaparecimentos de gatos, durante dias, exactamente nas condições misteriosas em que desapareceu Alice, embora me custasse a acreditar.

Dias de angustia pura, noites em que cheguei a casa e, ainda na rotunda, começava a observar tudo em redor, depois a entrada do condomínio, depois a garagem, o elevador, o hall, a casa.

Olha, de repente, como que à espera de ver Alice, lá ao fundo, um salto, uma corrida, outro salto, e aqui, ao meu lado, aninhada, a dormir.

Faz-nos falta, Alice.

Alice não é apenas a nossa gata, Alice é uma história de quem dela gosta.

O destino trouxe-nos Alice. O destino quis levar Alice.

Ou então, aquela gata que passou por mim, enquanto eu observava, lá em baixo, e redor da varanda, o jardim, aquela gata saiu do escuro, a passo, parou, olhou para cima, para mim, e seguiu.

Arrepiei-me.

A mãe de Alice tinha vindo buscá-la.

Não, já era delírio, tal como a explicação que nunca nos chegou.

Onde estava Alice, para onde foi Alice, porquê?

Contudo, apesar do frio lá fora, Alice, se por acaso caiu de uma das varandas e sobreviveu, estará protegida e, tenho a certeza, vai voltar para junto de nós.

Afinal, ainda faltam tantas páginas nesta história.

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