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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

26.10.16

OS PASSEIOS DE ALICE


The Cat Runner

 

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Dia 25

25/10/2016

 

Hoje aconteceu, pela primeira vez.

Isto por aqui, nos últimos dias, tem sido uma espécie de dias felizes e todos os dias, por aqui, acontecem coisas novas.

Alice já se passeia pela casa, desde que alguém se mova. Ela gosta de estar onde estão pessoas.

Hoje aconteceu, pela primeira vez.

Nestes últimos dias, Alice que parece estar connosco há anos, tem surpreendido com passeios por cima das costas do sofá, em perfeitas manobras de equilibrismo, isto sem contar com as sestas por baixo da capa do iPad.

Neste momento em que escrevo estava aqui mesmo em cima do sofá, já saltou para cima do teclado, a dar volta aos meus dedos, isto começa a parecer uma babilónia.

É este o principal motivo pelo qual tenho demorado a escrever os textos. Alice não me deixa.

O chão da cozinha está cheio de coisas espalhadas, um carrinho, o tubarão, o rato de madeira e corda, uma mola do cabelo, bom, já não há rolos de papel higiénico nem garrafões de água a tapar a passagem para trás das máquinas, mas a cozinha parece cada vez mais um campo minado, com minas que não explodem mas magoam os pés.

Fui dar com os meus Tune no chão da sala.

Os Tune são dois devices que se ligam a uma app que regista e guarda os dados das minhas corridas.

Costumam estar em cima de uma arca que divide os sofás da sala. Em cima da arca os Tune, quando não estão a carregar, mais uns quantos livros, uma concha do mar, grande, uns jogos chineses. Era a arca mais arrumada das arcas que separam sofás.

Passou a ser um dos pontos de passeio de Alice.

Ainda por cima os Tune têm, cada um, uma luzinha branca que pisca.

Hoje aconteceu, pela primeira vez.

A casa começa a querer parecer-se com um acampamento, mas nem pensar.

Alice salta das minhas pernas para cima da mesa de centro, o que vale é que é grande e espaçosa, diverte-se com os meus phones, olha o telemóvel, senta-se, vê um pouco de tv e volta ao carrocel.

As noites têm sido divertidas.

É isso, divertidas.

Há uma nova vida, entre nós.

Basta que alguém se levante para ir...apagar a luz, e lá vai Alice atrás.

Quanto à cozinha vou deixar estar assim, quanto à sala ela que não pense!

A sala é minha. Ponto.

Aceito que me apareça uma "coisa" a saltar, de repente, enquanto escrevo, na tentativa de subir para o sofá, como agora, que acabou de saltar e bateu com a cabeça no meu ombro, aceito até que arranhe o sofá, na tentativa de não cair, que nem sempre consegue saltar à primeira.

Aceito até que, de vez em quando, como agora, volte a assaltar-me o teclado do computador e, não, não é por causa da luz nem do calor, é para me atacar os dedos.

Ataca tudo o que mexe.

E, morde (lá foram os Tune para o chão outra vez).

“Alice”, digo-lhe com voz baixa, “não me mordas”.

Às vezes pára de morder, mas não me solta o dedo, preso com as duas patas.

Mas, o que me começa a irritar é uma provocação que Alice me fez hoje. Já o tinha feito à Carla.

Senta-se junto à minha cabeça e, de repente, dá-me um toque com a pata na minha cara e vai-se embora.

“É melhor tirares os Tune daqui, já está a brincar com eles de novo”.

Não tenho remédio.

Enquanto não sincronizo os devices com a app vou terminar este texto. É aproveitar.

É que Alice acenou com a bandeira branca.

Alice, adormeceu ao colo, entre as pernas, sossegada, delicioso.

Amanhã mando-a arrumar a cozinha.

26.10.16

A MÃE DE ALICE


The Cat Runner

 

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Dia 24

24/10/2016

 

Uma data de nascimento. Uma mãe.

São estes, para mim, os dois factores X que tornam qualquer indivíduo num indivíduo único.

Não há cópias.

É assim para qualquer animal.

Isto, a propósito de Alice.

Prometi, há dias, falar sobre a mãe de Alice.

Alice tem mãe.

Desde há dias, tem também uma data oficial de nascimento; 20 de Agosto de 2016.

Foi a veterinária quem, através da aparência e de outros sinais de Alice lhe determinou a data de nascimento.

Alice é, agora, um ser vivo com um princípio de vida para contar.

Há dias vi uma gata parecida com Alice, uma gata adulta, junto ao portão de entrada da minha casa.

Vi-lhe semelhanças, pêlo escuro, mas tricolor, pêlo de gata rafeira, só as gatas fêmeas são tricolor,

engraçado, as coisas que Alice me vai ensinando.

Aquela gata podia ter sido a mãe de Alice.

Pode ser, mas mesmo que não o seja, o princípio é universal: uma mãe nunca abandona um filho.

Uma mãe nasce para amar o filho. Um filho nasce para amar a mãe. Eu gosto do curso natural das coisas.

Não sei se, no mundo dos gatos é suposto as mães abandonarem os filhos e, mais tarde, procurarem por eles. Não sei, os animais não racionais (?), no caso os gatos, vivem num mundo muitas vezes inacessível a nós, os racionais (?).

Quero acreditar que não.

Acredito, sim, que aquela gata, que parece Alice adulta, não é a mãe de Alice. Eu acredito, mas...

Suponhamos que é, que era.

Se fosse mãe de Alice ela nunca a abandonaria.

Se fosse mãe de Alice ela defendia-a até ao seus próprios limites.

Se fosse mãe de Alice ela amava-a.

Se fosse mãe de Alice ela estaria à minha porta no dia seguinte.

Aquela gata não era, nem é a mãe de Alice, mas podia ser.

O amor que uma mãe tem por um filho é amor diferente de todo o resto do amor.

A minha, eu tenho a minha mãe, terei sempre a minha mãe, prova-me isso há 46 anos. Todos os dias.

Todos os dias trocamos mensagens, telefonamos, vêmo-nos, às vezes trocamos mensagens tão simples quanto: "Era só para te dizer que te amo".

"Também te amo muito, meu filho".

Coisas simples.

Dela nasci, ela me criou, ela abdicou por mim, ela dedicou-se a mim, ela acompanhou-me, ela defendeu-me, ela abraçou-me, ela beijou-me, ela fez-me ser eu, no todo, por ela, até hoje e até à eternidade, que eu acredito que somos eternos. O nosso amor é.

Acho que, também no mundo dos gatos, deva ser assim, pelo menos as gatas dão-nos exemplos; as mães limpam tudo em seu redor, quando as crias nascem, transportam-as na boca para local seguro e, até que deixem de mamar, as mães são como a minha; tudo pelos seus filhos.

A minha mãe continua a zelar por mim. 

As gatas desprendem-se dos filhos, passado um tempo.

Será isso que nos torna racionais e a eles não?

Talvez não, porque só estou a falar de amor, incondicional, único.

Por veze,s a vida coloca-nos curvas inesperadas no caminho, e a natureza inverte o seu curso, uma mãe e um filho separados é inverter o curso da natureza.

Não sei se aquela gata é a mãe de Alice, ainda tenho as minhas dúvidas.

 Não sei se não o é.

Se ela aparecer, de novo, prometo perguntar-lhe.

Se a resposta for afirmativa convido-a a entrar, desde que me garanta que não me leva Alice.

Deixarei que a visite sempre que queira, mas não deixo que me a leve daqui.

É que um filho nasce para amar a sua mãe.

Alice nasceu para a amar-mos.