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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

01.04.15

ESTA CORRIDA JÁ FOI LONGE DE MAIS


The Cat Runner

 

Running-Leg.jpg

 

Manter uma conversa entre quatro (dois pares) ténis é algo  muito arriscado. Há sempre tendências e ideias pré-feitas usadas como arma de argumento. Imaginar uma conversa entre seis (três pares) ténis é pisar completamente a linha vermelha.

Os cor de laranja, os amarelos e os novos, finalmente frente a frente, dentro do mesmo armário. Sentiam o bafo uns dos outros. 

Cá fora, sentado encostado à parede, com as pernas recolhidas, escutando o que me chegava de dentro do armário do hall de entrada, temia o pior.

Caso a conversa entre estes seis loucos não corresse bem, temia que todos os outros ténis, sapatos, sapatilhas, chinelos, até os sapatos da minha mulher pudessem acordar e, do nada, começar uma revolução dentro do armário. Escutemos.

 

- Podem continuar.

 

Os novos fizeram questão de marcar logo o território.

Os cor de laranja olharam para os amarelos e os quatro olharam para os novos. (Isto sou eu a narrar).

 - Sejam bem vindos. (Dizem os quatro aos outros dois).

- Deixem-se de tretas, sabemos bem que querem é ver-nos a milhas.

- A quilómetros, nós usamos quilómetros.

Os amarelos ainda tinham aquele sentimento que nos faz pensar que somos descartáveis mas, ao mesmo tempo, ainda esperam qualquer coisa de nós. Os amarelos, se calhar, um dia ainda vão voltar a correr um bocadinho comigo, quem sabe se uma despedida simbólica. Os cor de laranja eram uns ténis resignados. Tinham chegado ao fim da linha. Não lhes prestei a devida homenagem, ainda assim:

 - Usamos quilómetros...

- Vocês já não usam nada.

 Os novos entravam a matar.

 - Meus caros, já não usamos quilómetros, não usamos nada, mas nunca usámos milhas. E, para que conste, quando corremos os nossos 1.000 quilómetros sempre soubemos adaptar-nos à passada, ao ritmo, às intempéries e às calamidades. Sempre gostámos de correr contra a chuva...

 Os cor de laranja são interrompidos, abruptamente pelos novos.

 - Quando chegámos vocês estavam a falar dele. Sabem porque é que ele vos descartou?

Nós dizemos; é porque tudo tem um fim, se esse fim é definitivo essa é outra questão. Um ciclo se fecha um ciclo se abre. Agora somos nós. Temos uma sola alta que absorve o impacto como nenhuma outra. Somos feitos de uma matéria que resiste a praticamente tudo, temos cor, às vezes até brilhamos. Ele sente-se confortável e de consciência tranquila.

Sabem que mais, como é que vocês não queriam ser descartados por ele se nunca se estrearam a correr uma meia maratona?

- Jovens, nós somos os mais velhos, os mais experientes...

- Esperem, cor de laranja.

Meus amigos, se vocês foram os escolhidos, então parabéns, a escolha é legítima. Escolher não está ao alcance de qualquer um. Decidir é quase tão difícil quanto correr. Ele sabe o que faz, embora por vezes não consiga ver a justiça, reconhecer, vá.

- Nós temos dois rasgões de lado. A nossa sola cor de laranja está gasta de prazer. Já não saboreamos a corrida. Já não corremos. Nós somos a corrida, meus caros jovens. Vocês são a vitalidade, o poder, vocês governam o mundo e a corrida. Parabéns, se a vossa estreia foi na meia maratona.

Eu corri três, com ele, nos seus pés, carregando-o quilómetro a quilómetro. Três!

- E nós uma. E, no total, fizemos mais quilómetros que os cor de laranja.

- Nem assim vocês conseguem ser modestos. Juntem-se a eles. Não dá?

Pois, eles são mais fortes. Então deixem de mandar palpites. O vosso amarelo está tão gasto quanto o nosso laranja.

- Estão a ver, somos nós quem brilhamos.

- O nosso amarelo também já brilhou. Todos nós brilhamos quando somos novos.

- Nós não brilhámos. O nosso cor de laranja não pensava em brilhar. Apenas correr.

- Vocês são passado.

Fiquem a saber que algumas correntes filosóficas defendem que os quilómetros totais devam ser dobrados, cada um dos ténis devem ter os seus próprios quilómetros, apesar de sermos pares corremos cada um por si. Provavelmente é a escola onde vocês aprenderam.

Nós não, nós nem sequer nos importamos com os quilómetros. Nós somos feitos de qualquer coisa diferente do resto.

Percebem agora porque foram descartados?

Porque foi preciso escrever quase três mil caracteres para ouvir a primeira e única coisa inteligente vinda da boca de quatro velhos e gastos ténis de corrida. Finalmente colocaram-se no vosso devido lugar.

Tende juízo, sois uns desgraçados.

 É neste momento que estico as pernas, de repente, levanto-me, inspiro -expiro, claro, caso contrário não vivia mais -  passo as palmas das mãos nas calças, para as secar e decido abrir o armário.

Os ténis são meus.

Eles vivem em democracia mas, porque são meus, a última palavra é sempre minha.

Esta conversa já foi longe de mais.

 

 

 

01.04.15

CUIDADO COM AS PALAVRAS MESMO QUE SEJAS UM SIMPLES PAR DE TÉNIS


The Cat Runner

BLOG PHOTO.jpg

 

Cenário:

Prateleira no armário do hall de entrada.

 Personagens:

Três pares – laranja, amarelos e os novos, seis ténis.

 Assunto:

As frustrações, as faltas de respeito, as pressões, as cedências e a vontade de revolta. A tristeza de uns, a alegria de outros. Como em tudo na vida.

 

Tomei o banho matinal – não consigo sair de casa sem tomar banho -  e depois de retocar a barba, espalhar creme no corpo, cera no cabelo e aquele perfume que fica encaminhei-me, como sempre, para o hall de entrada, para escolher os ténis ou os sapatos, depende do feeling.

Imediatamente antes de abrir a porta do armário, que acabei por não abrir, escutei um burburinho vindo de lá de dentro. Alguém falava baixinho.

Sentei-me no chão e limitei-me a escutar.

No fim, tinha aprendido uma coisa, mas fica para final de conversa.

 - Há coisas que não entendo, amarelos.

- Tais como, cor de laranja?

- Tal como um gajo ser colocado na prateleira, de repente.

- Um gajo?

- Sim, eu sou um par de ténis. Sou dois ténis, mas sou um par, porra. Ou até esse direito me querem tirar, já agora com a tua ajuda e com as tuas palmadinhas nas costas?

- Acalma-te lá, agir a quente nunca deu bons resultados.

- A quente?

Tens noção de quanto tempo passou, tens noção do que me aconteceu?

- Tenho, claro que tenho, acompanhei tudo e, se queres saber, sinto-me culpado, de alguma forma.

- Deixa-te disso. A tua responsabilidade é indirecta, tu não pediste a ninguém para me obrigar a deixar de fazer aquilo que mais gosto e a colocar-me numa prateleira. Foi uma decisão dele.

- É um facto, mas fui eu quem te foi substituir e isso pesa, e se eu te disser que tinhas que ir para a prateleira ainda me levas a mal.

- A única coisa que te aponto foi nunca me teres defendido. Não te levo a mal dizeres isso, mas isso nunca devia ter acontecido. É falta de respeito. Pelo menos usava-me para caminhar.

- Porra, eu defendi-te. Eu falei com ele, onde é que foste buscar essa ideia?

- Amarelos, eu lembro-me bem da nossa conversa, olhos nos olhos.

 O ele era eu.

Os sacanas dos amarelos estavam a mentir aos cor de laranja. Hoje é dia um de Abril, esqueci-me, mas estavam a mentir. Deliberadamente. Cínicos. Também eles descartados, revoltados e agora a tentarem conseguir apoio dos cor de laranja. Continuei a escutá-los.

 - Deves ter falado deves. Nós, ténis, nessas coisas somos como os humanos, se há um que está em baixo o outro coloca-lhe o pé em cima da cabeça para o afundar ainda mais.

- Não somos todos assim. sabes que eu não sou assim.

- Os humanos também não são todos assim. A maioria é.

Viste o que lhe aconteceu?

- Vi, claro, toda a gente viu. Aquela corrida em que ele se espalhou?

- Essa, mas…

- Mas o quê?

- Cala-te agora, vem aí o novo par de ténis do gajo.

- E o que é que tem? Tens medo que lhe vá contar a nossa conversa? Assim como assim já fomos encostados à box. Já estamos na prateleira. Medo de quê?

- Não é medo, eu pelo menos não tenho, já são muitos quilómetros, muitos mais do que os que eles já fizeram, mas pelo sim pelo não deixa ver como é que eles entram na conversa.

- E ficamos a meio?

- Nós, não. Deixa-o entrar e vais ver.

- Estás mesmo revoltado.

- Como nunca.

- Relaxa. Facto: já não te “fardas” mais. Por isso, relaxa.

- Não imaginas as saudades que tenho de uma corrida.

- Cala-te, ele está a entrar.

- Ok, já continuamos.

 

 

01.04.15

QUANDO QUEREM CORRER CONNOSCO


The Cat Runner

BLOG.jpg(RUN FOREST RUN)

 

Para injustiça já basta a dos homens. É por isso, de elementar justiça, escutar os outros. Atentamente. E, às vezes, basta um toque no ombro e algumas palavras que reconfortam. Escutar. Atentamente. Aqueles que sempre nos carregaram, que nunca negaram lealdade. Aqueles que sempre deram tudo por nós e pelos outros, a troco de algo que se eclipsou como o sol e a lua. Com o tempo.

Os homens são cruéis.

Até com os seus ténis de especiais de corrida, porque uns ténis que são de corrida são especiais, por muito que os coloquem em uma qualquer prateleira.

Com base no que acabo de correr, perdão, de escrever (hoje corri), lembrei-me de uma história verídica, pelo menos na minha imaginação.

Há um ano, talvez um ano e picos, escrevi um texto que reproduzia uma conversa entre os meus dois pares de ténis. Os antigos e os novos. Os encostados, descartados, e os que até brilhavam no escuro tanto era o seu brilho.

Tudo acaba e tudo começa. Cruel ou docemente.

Passado um ano e picos a coisa repetiu-se.

Foi uma conversa sincera, disso dei conta, logo de início.

No entanto, à medida que fui escutando, a atenção ao que ouvia aumentava na exacta medida da expectativa do desfecho.

O meus primeiros ténis, que utilizei para correr, quando comecei há dois anos e picos - os picos dão jeito, as rosas que o digam, ninguém as molesta - ou estão arrumados na arrecadação ou foram parar ao lixo. Confesso que não me recordo.

Os meus segundos ténis, que correram mais quilómetros que os primeiros estão ali a repousar na casa de banho grande. Estão preocupados com o que lhes irá acontecer. Estamos todos. Até eu. Os homens são cruéis. Nem escutam os seus ténis. Eu escuto-os, quando calha. Ninguém é perfeito.

Estão lá, na casa de banho grande - não gosto de pronunciar a palavra WC - para não os perder de vista, até porque o meu filho quer usá-los em Educação Física. Para isso ainda servem, para correr é que já não.

Os meus terceiros ténis - que estão a levar tratamento de choque, já seguem com quase 87 quilómetros em 12 dias - estão a repousar. Por esta hora já dormem.

Sempre os tratei com estima, afecto, respeito, consideração e carinho. Até ao dia em que os descartei. Lá está, a crueldade do homem que não impede tudo o resto.

Só que o improvável aconteceu. A tecnologia é fantástica. Cada qual no seu smartphone e a conversa que se segue...

Em outro post, obviamente.