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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

27.03.15

CORRER É MODA - EXIBICIONISTAS É O QUE É


The Cat Runner

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Correr é moda. Correr é uma moda. Correr é para quem quer aparecer. Correr serve para tirar fotos e meter nas redes sociais. Para ser visto. Qualquer dia é outra coisa.

E, não é que é totalmente verdade!

Quantas vezes já não ouvimos (os que correm) este tipo de frases, com sotaque trocista e algum acento tónico na ironia?

E continua a correr, o tipo que é como os gatos, o gato,  porque tem várias vidas, porque é vários tipos, todos diferentes.

Quanto aos gatos não estou certo que as sete vidas sejam todas iguais.

- Ainda bem que é moda. Por ser moda despertou-me a curiosidade. Depois o apetite.

-Tens fome quando corres?

- Alguma, quando vejo as fotos das corridas dos outros.

- Fome?

- Esquece.

Ainda bem que é moda. Foi por causa da moda que comecei a correr e agora sou isto que vês na foto.

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- Também combinas os ténis com a cor da camisola, os calçoes com as meias'

- Combino o que quiser.

- Não enerva, vá.

- Nada.

Mas deixas-me continuar?

 Os caracteres estão a chegar ao limite, pode ser?

- Claro, desculpa.

- Vou tentar concluir se não me interromperes mais.

Comecei a correr por necessidade. Comecei a correr porque é moda e gosto mais desta moda do que da moda dos ginásios. Depois a coisa foi-se dando.

- E agora…

- Podes ouvir?

- Desculpa.

- Agora corro porque respiro, porque como, porque amo, porque trabalho, porque vivo, porque rio, porque choro, porque adoro o vento na cara, a chuva nos olhos, o sol nos ombros, as pernas moídas.

Agora, corro porque sou outro tipo, o tal tipo diferente do outro tipo que referiste no início do penultimo post e no início deste.

- Corres porque estás viciado e qualquer dia arranjas outro passatempo?

- A tua vida é um passatempo, viver é um passatempo?

- Não, mas correr é. Bom, viver, se quiseres também é.

- Aí tens a resposta.

A minha vida passou ela toda a ser o meu passatempo e a corrida é parte da vida.

Não há como parar mais.

- Portanto, seguiste a moda, viciaste-te, percebeste o que de bem correr faz e estás um tipo diferente?

- Isso, diferente, melhor nem pior. Apenas corro.

E já não consigo viver sem correr.

 

Como o entendo, há tanto ainda para correr.

 

 

 

 

27.03.15

O GATO CONTINUA A CORRER


The Cat Runner

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Esta é a continuação da história sobre um tipo que quando deu por ele era um tipo totalmente diferente do que tinha sido até então, porque um dia decidiu começar a correr.

O tal tipo,  que no penúltimo post se levantou sem pagar os cafés e saiu para correr porque lhe faltava uma resposta, é sobre esse tipo, esta história que completa a outra, se bem se lembra, se não se lembra é ir reler. O dono do blog agradece.

O tipo voltou. Ele volta sempre.

Eu continuava na mesma mesa, na mesma cadeira, à espera.

Apenas tinha pago a conta, no penúltimo post.

- Correu bem?

- Correr corre sempre bem, pá.

- E já tens resposta para a minha pergunta?

- Se estou diferente por causa da corrida?

- Não, por causa do tempo.

- Para que é que queres saber isso?

 

Mal sabia ele que eu preciso de conteúdos para escrever, de ideias, de motivação e ás vezes ando ás voltas sobre mim mesmo até ficar tonto de não encontrar a chamada inspiração, porque assuntos não faltam.

 

- Quero saber porque sou teu amigo e porque a corrida modificou a minha vida de alto a baixo. É normal querer saber se contigo aconteceu o mesmo.

- Se tu tens a resposta para que é que me perguntas?

- Porque é sobre ti que quero saber. Básico.

- Eu?

- Não, a resposta.

 

Não entendi, nesta fase, a dificuldade que este meu amigo, este tipo, que passou a ser outro tipo, tem em me responder a uma coisa tão simples. Acho que se está a proteger.

 

- Eu respondo-te, mas acho que não é relevante ao ponto de andarmos há dois dias nisto.

- Estás a guardar algum segredo?

-Eu? Não!

- Então reponde, que a paciência tem limites.

- Eu, quando me sinto assim, com pouca paciência,  corro.

- Está bem, vamos terminar o assunto.

Os cafés estão pagos, já correste, já voltaste e continuas a fugir à pergunta.

- Mas eu respondo-te: a corrida mexeu comigo sim. Modificou-me, por isso tiveste o mote para escrever. Escrever sobre as mudanças que a corrida me trouxe à vida e aos dias.

Nos  últimos dois anos passei por uma metamorfose, confesso.

 

- Uma quê?

- Uma mudança.

- Porra, é isso que eu te estou a perguntar desde ontem.

- Então cala-te e escuta o que te vou escrever.

- Escreve, estou a escutar.

 

Finalmente o tipo ia dar-me assunto para escrever.

 

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- Comecei a correr porque estava gordo, a ficar velho, sentia-me menos bem com tudo.

Sempre detestei correr. Na rua nem pensar. Fi-lo por absoluta necessidade.

- Está bem, mas depois podias ter abrandado ou...

- Ou isso.

Nem abrandar, nem parar, nem sequer pensar em tal ousadia.

- Como assim?

- Passaram apenas dois anos mas correr já faz efectivamente parte da minha vida. É como outra qualquer tarefa que tenho que fazer no meu dia-a-dia, olha, respirar, por exemplo.

- Isso é vicío.

- É vicío, barato, legal e nem faz mal à saúde. Um vicío do caraças, sim.

- Vais dizer que começaste a correr porque gostas de estar na moda?

- Não, sabes que não. Mas, sim, claro que sim.

Graças a Deus (se ele existir).

À moda devo a corrida. Mas, se quiseres continuar, continuamos mais logo. Agora foi desfilar.

- Vais correr.

- Eu não corro, eu desfilo. Eu sou um corredor. Até já.

-Até já, gato.

- Por isso desfilo.

(E deixou escapar uma gargalhada que se ouviu lá no fundo, lá no fim da corrida)

 

27.03.15

ÚLTIMA HORA: O GATO MATOU O DESCONCERTEZAS


The Cat Runner

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Sem tirar nem pôr.

O blog Desconcertezas morreu. O gato matou-o. E matou-o com traços de sadismo.

Primeiro ele entrou-lhe pelas definições dentro. Depois selecionou tudo. Não satisfeito e já com o Desconcertezas a definhar, o gato ( The Cat Run para os amigos e amigas) seleccionou-o todo, transformou-o em um ficheiro e, aqui é de arrepiar, exportou-o. Para aqui, para este blog.

Um crime que compensou.

 

A partir de hoje todos os textos que viviam no blog Desconcertezas moram agora aqui no The Cat Run. Todos.

 

O dono deste blog, que adora escrever, que adora correr, já foi ao funeral do outro blog. Foi uma festa. Toda a gente divertida.

 

Por isso é possível que passe a encontrar um ou outro texto que não sobre corrida. Ninguém é perfeito. Nem o gato.

Vai gostar, se tudo correr bem.

Lá está, correr, corrida, vai dar tudo à mesma meta.

Escusa de googlar desconcertezas.blogs.sapo.pt porque ele morreu, o gato matou-o. Isso é não acreditar no que eu escrevo.

Paz à sua alma.

Viva o gato!

27.03.15

O TIPO QUE TEM SETE VIDAS COMO OS PASTÉIS DE NATA


The Cat Runner

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Esta é a história de um tipo que já foi tantas coisas e muitas delas ao mesmo tempo.

Alguma vez imaginava ele que um dia ia correr alguns quilómetros, quanto mais uma meia maratona ou coisa parecida. Jamais!

 

Esta é a história de um tipo que já foi mais novo, como as pessoas, regra geral, de um tipo que quando decide olhar para trás percebe que já não é a mesma pessoa, o mesmo tipo.

Sim, acontece com as pessoas, regra geral, eu sei, mas é assim, vá-se lá dizer o contrário.

Ele começou a correr com regularidade há uns dois anos, por aí.

 

Entrou nos quarenta com excedente primário em termos de camada adiposa, leia-se alguma excessiva gordura em redor de todo o seu corpo, excepto a cabeça. Vá, a zona do pescoço e as bochechas. Fumava, claro, após longas paragens, mas fumava.

Podia dedicar-se à comercialização de pneus humanos, um nicho de negócio que lhe foi aconselhado em resultado dos vários protótipos que exibia com alguma insatisfação disfarçada.

 

Este tipo era um gato, quando era novo, como a foto comprova, pena os óculos inclinados, mas tudo bem, um gato que já tinha entrado nos quarenta; melhor não mostrar foto.

 

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 Um gato que um dia deixou crescer a barba e deixou de ser gato, talvez urso, assim cresça a barba.

Que, de um dia para o outro, passados muitos dias, deixou de ser urso, ou gato e passou a ser outro tipo, que não ele. Deu-se conta disso ainda a tempo.

A bem do rigor ele continua a ser gato, já teve três vidas neste texto, faltam quatro para as sete, vidas, bem entendido.

Passou de gato a urso e tornou-se corredor, runner que é mais elegante. Começou a correr.

 

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Uma espécie de estagiário - ele só corre há dois anos - que se apaixonou perdidamente. As paixões também se vivem a correr.

Outras transformam-se em amor. Vício. Na verdade há paixões que assumem contornos de loucura. Se assim não fosse correr era outra coisa qualquer.

Há dias encontrei-o:

(Conversa forçada e imaginária)

 

- Estás um tipo diferente.

- Pois estou.

- É da corrida?

 

A pausa foi quase uma branca.

 

- Já pediste os cafés?

- Sim e um pastel de nata e uma miniatura.

- Boa!

Não sei se é da corrida. Se a perspectiva é emparelhar a corrida com a forma de viver, como se costuma dizer: com a forma de estar - não evitou o sorriso felino, como de um qualquer gato que se preze - se calhar é da corrida, ou da vida, ou não será uma a mesma e outra coisa?

- Bem, vamos ver...

- Vamos ver nada, vamos correr, correr, pode ser?

 

Deixei-o sem resposta. Primeiro era um gato, depois deixou crescer a barba e no fim fez-se runner.

 Levantou-se, de repente, como quem "não quer a coisa" e foi correr. Não saiu a correr, foi correr.

Paguei os cafés, o pastel de nata e a miniatura e fiquei a vê-lo afastar-se, passada larga como a esperança que carrega nos pés.

Daqui nada já conto o resto da história. Isto não acaba assim. Ele volta. Eu sei que volta.