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por The Cat Runner, em 03.12.14

ANESTESIA GERAL

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Este texto é sobre o momento que fica, pairando, perdido num tempo, por um milhão de anos, entre um fechar e um abrir de olhos. Entre um adormecer e um acordar.

Um milhão de anos, tão rápido como este piscar de olhos.

Se tiveres que ir não direi que não. Mas, não vás.

Se fores vai quando quiseres.

Há um antes e um depois, sempre.

Coloco dúvidas se há um princípio e um fim. E há tantas reticências...

Tudo aconteceu mais ou menos assim...

Um dia decidi e comecei a correr. Cada vez mais. Longe. Longo. Mais.

Um dia decidi parar e parei de fumar. Já vi muitos chineses aqui da zona a caminhar ou a andar de bicicleta - sim, às vezes a Lezíria rasga os seus olhos - enquanto fumam violentamente. Os chineses fumam violentamente, que eu já vi. Eles fumam enquanto comem. Eu já vi.

Um dia decidi fazer e fiz uma bateria de exames médicos.

Fiz quase todos os exames que, assim de repente, me lembro. É aquela coisa da "idade", é a corrida, é a vida.

Tirando aquelas coisas mundanas que matam, como o colesterol média alta, algum açúcar - resisto lá a um palmier pela manhã! É como com os beijos. Resisto lá a um beijo pela manhã!-, tirando isso estou um quarentão saudável.

Mas não, não pretendo morrer saudável. Se tiver que ir que vá quando quiser. Era o que queria.

Vá, reflicta lá; não é isso que a humanidade mais quer?

A humanidade sabe que é a única coisa sobre a qual não tem escolha. O ir e não voltar mais.

Partimos quando é dado o tiro de partida e não somos nós quem tem a arma na mão. Apenas a corrida é nossa. O destino não.

Curioso, partir, começar, não forçosamente desaparecer, esquecer.

Não, não pretendo morrer saudável. Nem sequer pretendo morrer.

Quero viver saudável. Isso quero. E, feliz.

Por isso a bateria de exames.

Vá, prometo reduzir no açúcar ( prometo nada ).

Havia um - na verdade, dois exames que devia realizar ao mesmo tempo - que obrigavam a anestesia geral.

Coisa leve: "o Propofol é o que tomava o Michael Jackson. É levezinho".

A ideia do meu médico me mandar fazer os dois exames ao mesmo tempo, aquele tipo de exames, ao abrigo da idade, "que assim ficamos já com tudo resolvido", deixou-me pensativo.

Quando fico pensativo mundo de mim próprio para outra coisa qualquer.

Sobretudo, quando fico pensativo.

Na verdade, eram exames "normais", que há muitos anos não fazia.

Perguntei, fartei-me de perguntar; se ia sentir alguma coisa durante e depois, se ia embora logo a seguir, se podia comer, se vomitava por causa da anestesia, se...

E, havia um "se" com reticências.

Nada de anormal. Apenas um simples "se" com reticências.

Curiosidade jornalística e geneticamente entranhada ou simples curiosidade pelo ambiente que me rodeava, curiosidade que me levou a observar tudo ao detalhe, em redor, enquanto preparavam a intervenção.

Parecia uma série do cabo. Eu era o bacano!

O meu médico, lá ao fundo, sentado em frente a uns ecrãs, olhava para umas imagens coloridas. Imperceptíveis, para mim. Percebi depois que eram imagens de tumores e intestinos e esófagos e cólon(s), mas a cores.

Ainda bem que só as percebi no fim.

Falava com alguém, depois com outro alguém, desta vez ao telemóvel, o meu médico.

Eu gosto de ligar para o telemóvel do meu Gastro:

"Sabe que foi considerada a música do século, o Satisfaction, dos Rolling Stones"...

"É por isso que gosto de ligar para si", respondo-lhe sempre, "para ficar a ouvir a música enquanto espero".

Há três médicos de que gosto: o meu Médico de Família, o meu Gastro e o meu Psiquiatra. Para além de serem excelentes médicos são pessoas apaixonantes. Uso mais o Médico de Família, mas os outros dois agradecem, acho.

"Coloque isto na boca..."

Coloquei uma peça plástica, transparente, que me obrigou a manter a boca aberta. Já sei, é para o tubo com a sonda penetrar (há aqui qualquer coisa de erótico).

"Coloque-se de lado..."

No coments.

O enfermeiro, fiel escudeiro do meu Gastro, puxava as luvas, primeiro a da mão direita, depois a da mão esquerda. Sorriu-me.

Também ribatejano.

A anestesista usava um colar pesado, dourado, lindo.

Assentava com classe em cima da camisola em tons escuros, gola alta.

A bata branca recortava-lhe a silhueta.

Consegui perceber que era uma senhora bem educada, anestesista, se calhar a vida toda, estudiosa. Tinha uma voz parecida com os misteriosos cânticos das sereias. Doce, que adormece. (Imaginei se tomaria calmantes, ansiolíticos ou assim).

 Olhei, de novo. Havia mais uma pessoa na sala. Todos vestiam bata verde-garrafa. Menos o enfermeiro.

"Deixe-me colocar-lhe este tubinho no nariz..."

Estou a sentir fresco.

"Respire fundo, é ar fresco, bom..."

Confirmo. Já não olhava em redor. Agora, eu era o centro. Não havia "à volta", era "eu".

"Pense em alguém, penso numa coisa boa, inspire fundo, devagar, fundo..."

Todo o verde se tornava rápida e lentamente branco-nuvem.

O ar fresco.

"Rodrigo é o nome do filho...", ouvi pela última vez. Foi o que ouvi, vindo de uma conversa que já tinha começado antes, mas que eu não cheguei a escutar.

No preciso momento em que escrevo estas linhas, neste instante em que o olhar salta de uma linha para a outra, em que acabei a anterior, e comecei esta(s), neste preciso momento abro os olhos. Acordo. Volto. Regresso.

Referiam-se, seguramente, a uma das tatuagens que tenho nos braços. Rodrigo é o nome de um dos meus filhos.

É a última coisa de que me lembro antes de sentir o interior da veia do braço direito a aquecer, lenta e rapidamente. Ameno.

Fechei os olhos. Abri-os agora mesmo. Neste instante.

Um milhão de anos.

Abri os olhos.

Um milhão de anos.

Nunca tinha visto aquela enfermeira na vida, nem a que estava a seu lado.

"Faça-me só um favor; desligue o iPhone, por causa da música..."

Vi-as sorrir, olhar uma para a outra, sorrir, de novo.

"Como se sente, está bem?"

"Sim, baixe só a música, por favor", pedi-lhe.

A música tocava suave.

Esta Tone toca suave, mesmo quando a guitarra geme alto. Foi com a música deste virtuoso que acordei.

"Internal Flight" (Esta Tone).

Aconselho, a quem gosta de viagens que duram instantes tão curtos como um milhão de anos.

É do que me lembro.

Adormeci quando escutei o nome Rodrigo. Acordei a escutar uma música que não estava a tocar, a não ser dentro da minha cabeça, nos segundos imediatamente antes de abrir os olhos. Ou durante aquele milhão de anos?

Não consigo responder.

Esse é o mistério. Não foi o colar pesado, dourado, nem o trato fino e cuidado. Foi a capacidade de me fechar os olhos e fazer voltar a abri-los, numa janela de tempo, na qual o tempo parou. Voei. Fui. Parti. Estive ausente.

A capacidade de fazer adormecer no tempo...

Não sei quanto tempo foi, dizem-me uma hora, acredito, não sei o que me aconteceu, dizem que me fizeram uns exames, não sei o que me fizeram, dizem.

Naquele instante de tempo ou naquele milhão de anos, não sei.

Passou uma semana.

Passei uma semana a decidir se devia escrever este texto. Decidi que sim.

Alterar. Desconstruir. Modificar. Andar. Virar. Voar. Viver.

Não sei quanto tempo ficou entre o tempo em que deixei de ver aquele colar pesado, dourado, e o tempo em que escutei uma música que não tocava em parte nenhuma.

Sei que o tempo faz partir e faz voltar.

O tempo suficiente para fechar os olhos, passar por uma história, abrir os olhos e regressar à realidade.

Agora, a vida inteira, se um milhão de anos não bastar.

"Não se preocupe, não era pequeno, mas era benigno..."

O meu Gastro, para além de ser excelente médico, é uma pessoa apaixonante.

Ele perdoa-me a inconfidência, ele vai escrever, ou pondera, vá, escrever um livro que descodifique clinicamente os provérbios populares.

Estás branco como a cal da parede, por exemplo.

Tudo tem uma explicação e, eu admiro-o e acredito nele.

É por isso, que desde quarta-feira, faz agora uma semana, Esta Tone toca em loop, em tudo o que dá música.

Horas seguidas a escutar a guitarra que sei que tem na ponta um pau de incenso a queimar esperanças que vão e que voltam em instantes.

No instante de uma passada enquanto corres, num instante de uma anestesia que te faz sentir tudo e nada ao mesmo tempo. Porque o tempo, como a vida, tu não controlas. Ele passa. Ela passa. Às vezes encontram-se.

"Sabes porque é que gosto de te ter como paciente?"

"Não, doutor..."
"Porque gosto de tratar gajos saudáveis, dão menos trabalho..."

Uma semana depois, ainda não estou totalmente convencido, mas se ele o diz!

Estou convencido que a sorte voltou a espreitar-me, desde a esquina onde se esconde.

Um mero acaso levou-me ao exame, o exame matou-me qualquer coisa, que me deu vida, mas que vida fora me ia matar. Um acaso feliz.

A anestesia, concluo eu, é como um interruptor: on e off. Tal como a vida fora dela.

Pelo meio fica um tempo que dura um instante. Um milhão de anos. Pelo meio fica, afinal, todo o tempo.

E ainda há tempo!

Há sempre tempo, para mudar, porque tudo muda, num milhão de anos ou no instante que ele dura.

 

 

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publicado às 03:35


Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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