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por The Cat Runner, em 20.03.19

195 METROS "O FIM" - O SENTIDO DA VIDA - (DIA 100 DA MARATONA)

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Chegámos ao fim.

Cumpriu-se o sonho.

A missão foi concluída.

Nunca deixei nada por fazer, nesta vida, nem por dizer, nem por pensar, não ia ser agora.

A viagem foi marcante.

Cravou-se-me na pele, na alma e no coração, naquilo que é o mais íntimo e profundo, em mim.

Desgastante.

Transformadora.

Espiritual, física, emocional, emotiva, feliz, bela, para além dos limites de tudo aquilo que eu alguma vez poderia pensar.

Um poema.

É isso que isto tudo foi, um poema bonito.

Um longo poema, escrito por mim mas, sobretudo, escrito por tanta gente, toda esta gente que, à sua maneira me acompanhou, desde o primeiro momento em que tornei pública esta insana aventura, até este momento em que, finalmente, cortei a meta. Esta meta, hoje!

Porque tudo isto foi um bocado insano. E, ainda bem.

Foi ali, a 195 metros da meta, junto às Portas de Brandeburgo que tudo passou a fazer sentido, na minha vida, o amor, a amizade, a coragem, a solidariedade, o respeito, o afecto, os abraços, os sorrisos, as lágrimas, as dores, as dores desapareceram naquele instante.

Tudo passou a fazer sentido.

O sentido da vida.

Tudo aquilo que eu fui à procura e encontrei.

Estes últimos metros são felizes, são metros em que agradeço, passo-a-passo.

As palmas.

Escuto-as, ainda.

 

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As bandeiras de Portugal que carregávamos nas mãos, ao pescoço, à cintura, que a Carla Fernandes, como combinado, nos entregou, em mão, enquanto corriamos, como se fossemos os campeões do universo e, sabem, naqueles metros finais foi isso mesmo que fomos, os campeões do universo.

Passaram seis meses, desde esse domingo mágico que eu não quero repetir.

Não quero repetir, não que não conseguisse correr outra maratona, não quero repetir porque mais nenhuma maratona que eu corra será o que esta foi.

Um poema.

Ali mesmo, no meio da multidão, corria a chorar, direito a ti, com a Alice e o Francisco, cada um a meu lado, os meus “wingmen”. Acho que até eles iam a chorar de alegria.

Porque um homem também chora!

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Estávamos todos altamente contagiados.

A tua preocupação acabava ali.

Eu sei, depois de passadas as quatro horas e meia, o tempo que eu queria cumprir, começaste a preocupar-te, talvez, como nunca, porque sabes que eu vergo, mas não parto.

Mas vias o estado em que algumas pessoas iam chegando, arrastando-se, tentando tudo, no limite e tu, sem saberes nada de mim.

Passava o tempo, os segundos, as horas e eu sentia que a tua preocupação comigo, a preocupação de uma vida e de uma bela história de amor ia aumentando, sem saberes o que estava a acontecer.

Pensei tanto nisso, na tua preocupação, quando passámos o quilómetro 41 e entrámos no 42.

Só que aí eu já ia certo que te iria encontrar e abraçar-te.

Mas, também sabes que eu gosto de fazer surpresas e gosto de sorrir quando surpreendo alguém.

Foi a primeira vez que não me lembrei de sorrir.

Tinha sofrido tanto, que me esqueci.

Só consegui chorar, de alegria, quando te vi, no meio daquela multidão imensa.

E, ganhei forças, gigantes, brutais, para correr até ti.

Nunca, nestes mais de 30 anos nos tínhamos abraçado como naquele fim de manhã de domingo.

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Sinto os teus braços à volta do meu pescoço, o meu suor colado no teu corpo, as tuas lágrimas e  a tua alegria.

A tua tranquilidade.

A tranquilidade que me transmites durante este nosso poema, que tem sido a nossa história, desde miúdos.

Tinha acabado a tua preocupação.

Como eu te amo!

Só chorei uma vez mais depois de ter cortado a meta.

Foi dias depois, quando visitei o teu Instagram.

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Não faz parte de ti expôr a tua vida privada, acho até que nunca tornaste público qualquer afecto, ou se o fizeste foi discretamente, para que a multidão não se apercebesse.

Até isso admiro em ti. Admiro tudo em ti.

Tu és o meu poema.

Fizeste-o, pela primeira e única vez por causa da minha maratona, porque sabes o que ela significou, para mim, para ti, para nós.

Foi a tua tranquilidade, o teu apoio, o teu colo, a verdade com que acreditaste em mim que me fez ir e conseguir.

Escreveste no teu Instagram, para que toda a gente pudesse ler, na legenda da fotografia: “ Tu dizes que foi neste momento que tudo valeu a pena…

E eu acredito”.

E, senti, genuinamente, o teu orgulho em mim.

Foi nesse momento que voltei a chorar, desta vez, sozinho, outra vez, de felicidade.

Foi, sim, foi nesta fracção de tempo que tudo valeu a pena.

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Foi aqui que descobri o sentido da vida.

Um dia hei-de tirar te uma foto com a minha medalha, porque ela é tua, é de muita gente, mas é tua, mais do que de alguém.

Muito mais tua que minha.

Nela está representada toda a nossa vida.

Era isso, era isso que eu queria mostrar-te, provar-te, a nossa vida, ali, naquele momento, naquela medalha.

Um poema.

Acabámos a maratona.

Cortei a meta.

 

(Dedico este texto e esta música a todos(as) vocês)

( Agora chegou a parte dos agradecimentos. Peço que a leia. São nomes.

São os nomes de todos aqueles que me levaram pelas ruas de Berlim, naquela que foi a aventura mais brutal da minha própria existência.

Sem eles até podia ter acontecido, mas nunca tería sido o que foi, um poema eterno)

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Obrigado, meu querido, Luis Grilo, meu querido João Paulo Vargas.

Tenho tanta pena que não tenham estado aqui, para terem visto esta aventura.

Sei que, onde estão, puxaram por mim, sorriram e sofreram comigo.

Sei que em abraçaram.

Obrigado.

Obrigado,

Carla Moita.

Maria Quaresma

Rodrigo Quaresma.

Adelaide Quaresma.

Helder Quaresma.

Ricardo Quaresma.

José Carlos Santos.

Pedro Mimoso.

José Fortes.

Rui Dias.

Petra Sauer.

Ricardo Areias.

Jorge Quaresma.

Stephane Jorge.

Clara Oliveira.

Sandrina Cardoso.

Diogo Duarte.

Carla Fernandes.

Carlos Samora.

Pedro Samora.

José Duarte.

Alexandre Perleques

Lara Esfola.

Ricardo Silva.

Pedro Pato.

Ana Paula Santos.

João Campos.

Alfredo Augusto Costa.

Paulo Vieira da Silva.

Verónica Ferreira.

Hamilton Guedes.

José Massuça.

Carlos Ferreira Alves.

Jorge Manuel Mendes.

Henrique Reck Farias.

Sílvia Peixoto.

Carla Martinho.

Carlos Cardoso.

Dora Dias.

Art Torres.

Bea Torres.

Inês Amado.

Obrigado.

Obrigado, a todos aqueles que treinaram comigo.

Obrigado, a todos - e, por incrível que pareça foram centenas e centenas - que durante 9 meses e um domingo inteiro me mostraram o seu apoio, a sua energia e a sua confiança, no meu facebook, no meu instaram e no meu blog.

A todos os que telefonaram durante a maratona.

Todos aqueles que eu levei nas asas das minhas sapatilhas.

São todos vocês.

Obrigado, também àqueles que a minha memória não permite recordar os seus nomes, obrigado e desculpem-me, por isso.

E, por fim, aqueles que me levaram do princípio até aqui, os meus dois “wingmen”,

Francisco Cunha Cerca e Alice Vilaça.

Agora, sim, posso dizer, bem alto:

Eu sou um Maratonista.

 

FIM

 

 

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publicado às 14:24


por The Cat Runner, em 19.03.19

O QUILÓMETRO 42 - EM NOME DO PAI - (DIA 99 DA MARATONA)

 

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O meu pai tem as mãos largas, os dedos grossos e gretados de uma vida inteira de trabalho.

Viveu mil vidas.

Eu sei que tem mais de mil, ainda, para viver.

Ele costuma dizer que não há-de morrer, pelo menos, antes dos oitenta e cinco anos.

Ele ensinou-me o significado da palavra coragem, da palavra carácter, da palavra amor, à sua maneira, porque nunca é tarde para mostrar o amor que guardamos em nós.

Ensinou-me tanto.

Ensina-me tanto.

Mas, pai, hoje ensino-te eu uma coisa;

ensino-te o que significa a palavra filho.

Tu és o homem que todos os homens deviam ser.

O homem que eu jamais conseguirei assemelhar-me, sequer, porque não tenho a tua bondade, a tua seriedade, a tua simplicidade, muito menos a grandeza do teu sorriso, em mim.

Gostava de ser o avô que tu és, a sério, pai.

Sabes, já corri esta maratona com tanta gente e, conhecendo-te como te conheço, aposto que achaste que não a ias correr comigo e eu contigo.

Pai, tu sabes como eu gosto de fazer surpresas.

Alguma vez eu te ia deixar de fora desta corrida tão intensa?

Guardei-te para o último quilómetro - não digas a ninguém que depois de vermos a placa dos 42 ainda temos que correr os últimos 195 metros, não digas, eu sei que tu guardas segredos, guarda-o - guardei-te para este quilómetro, porque hoje é o “Dia do Pai”, do meu pai.

És meu.

Eu, mais do que ninguém, sei aquilo que sofreste em silêncio, por mim, todos estes anos, todos aqueles quilómetros de Berlim, todos estes quilómetros das nossas vidas inteiras.

Foi por mim, por nós, que a história foi escrita assim, não há histórias perfeitas, pai, não te condenes nunca por isso, porque não há histórias perfeitas.

Há o amor e ele acaba sempre por nos entrelaçar, demore anos, décadas, demore a eternidade.

Nunca é tarde, pai.

Não foi tarde, para nós.

Tu és o homem que todos os homens deviam ser.

Vou aproveitar para te dizer uma coisa, estou aproveitar-me desta corrida, porque ela está a chegar ao fim, para te dizer coisas que nunca te disse.

Nem mesmo naqueles tempos em que a vida nos tentou trocar as voltas, tanto tempo, que ela é uma maluca, nem mesmo nesses tempos em que cada um de nós andava pelos seus próprios caminhos, afastados, te afastei do meu coração e, nunca tive interrogações sobre esta minha decisão, que  foi das coisas mais certas que fiz na minha vida.

Porque nunca é tarde para mostrarmos o nosso amor.

Nós trocámos as voltas à vida, pai, e ganhámos.

Como eu ganhei, quando cortei aquela meta, em Berlim.

Senti-me um campeão do mundo.

Tu és um campeão do nosso mundo.

Imagina, até já treinaste Muay Thai, até já correste uma corrida, imaginavas tu, algum dia ?

Até nesses pequenos instantes me fizeste feliz.

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Sim, estás certo, as lágrimas que deixei inundar os meus olhos, no final, nessas lágrimas escorrias tu, no meu rosto, naquele instante em que a minha boca salgou, porque sorria, como um menino, o teu “menino”.

Serei sempre o teu menino.

Serás sempre o meu farol, quando a escuridão me visitar, porque tu e eu já caminhámos o tempo suficiente no escuro da vida.

Vou contar uma história,

quando era criança a minha avó levava-me todos os dias a passear na “Rua do Chave D´ouro”.

Parávamos sempre em frente à montra da loja das bicicletas.

Eu adorava deambular entre os triciclos, as motorizadas, as bicicletas de mil cores.

Ainda hoje sinto o cheiro da borracha dos pneus novos que pairava na loja e tu encostado lá ao fundo, ao balcão, a conversar, conversas que eu nunca escutava, porque nada nem ninguém me fazia desviar daquele sonho.

Era branca.

Recordo a cor, branca e linda.

Aquela que eu jamais conseguiria ter, porque tu eras um pai que insistia em guardar os teus afectos para ti, porque não eras homem de dar presentes por dá cá aquela palha. Só nos momentos certos.

Recordo a cor, branca e linda.

E, recordo aqueles dias mágicos, quando ia-mos tomar café ao Filimar. Eu, tu e a mãe, que o mano ainda não tinha nascido.

Pois, hoje digo-te, aquele foi um dos dias mais felizes de toda a minha vida.

Era inicio de tarde, lembras-te?

O sol aconchegava, apesar da brisa saborosa que corria na vila, naquela tarde quando tu, eu e a mãe entrámos no café - o que eu adorava ver-te e as teus amigos a jogar snooker, naquelas mesas tão grandes e tão bonitas.

  • “Zé, olha ali uma bicicleta igual àquela que tu gostavas de ter”.

Parece que a estou a ver, encostada à parede, à entrada do Filimar.

Brilhava, branca e linda.

Confesso-te que, neste momento, anda sinto o cheiro da borracha dos pneus novos.

Olhei-te, cá debaixo.

Vi, pela primeira vez na vida o brilho do teu olhar, vejo-o agora, outra vez.

  • “É tão bonita, pai”.
  • “Pega nela, vai dar uma volta”.
  • “Não posso, pai, não é minha”.
  • “Pega nela, vai dar uma volta. É tua”.

Depois perdi a minha memória, apenas me lembro que era o filho mais feliz do mundo.

Imagina, mais de 40 anos depois, ainda lhe sinto o cheiro da borracha dos pneus novos e ainda estou, pasmado, a ver o brilho do teu olhar.

Nesse dia o céu tocou a terra.

Como numa noite, aquela noite em que fomos pai e filho, de pleno direito.

Levei-te, foi comigo que foste, pela primeira vez ao Estádio da Luz, tu de um lado, o meu filho, teu neto, ao meio e eu do outro lado.

Os três, ali, juntos, pela primeira vez, lado-a-lado, passos sincronizados, coisas de homens.

Subíamos a rampa, para ver um jogo que a memória não me deixa lembrar.

Os três de mãos dadas.

Tu e o Rodrigo sorriam porque iam à bola.

Tu ias conhecer o estádio do teu Eusébio, o Gu ia ver os bonecos da Playstation, em carne e osso.

Eu sorria porque, pela primeira vez, éramos pai, filho e neto.

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Mãos dadas, os três. Felizes, cada qual à sua maneira.

Os netos são os nossos filhos, disseste-me.

Por mil anos que viva nunca irei conseguir agradecer o amor que entregas todos os dias aos meus dois filhos.

Que orgulho gigante que o Gu e a Maria têm em ti.

E, eu.

Tao gigante, gigante, como só tu.

Nessa noite a nossa história, a tua e a minha recomeçou, alinhou-se, encheu-se de tudo o que de mais belo existe, porque nós deixámos a escuridão perdida no tempo e derrotámos as trevas.

Foi, provavelmente, a noite mais marcante da minha vida.

O instante em que eu te chamei pai, pela primeira vez, com o P maior que existe em qualquer abecedário do amor.

  • “Estou tão feliz, pai, nunca imaginei que um dia ia à bola, contigo e com o Rodrigo”

Quando me levavas contigo, para irmos ao Cevadeiro, ver o nosso União, nunca me levavas pela mão, eu sei que querias, mas eu era assim.

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Hoje, não deixo a tua mão, larga, gosto de sentir os teus dedos grossos e gretados de uma vida inteira de trabalho entrelaçados nos meus.

Acalma-me, sossega-me, faz-me sentir forte, faz-me sentir o campeão do mundo.

Foi teu, o primeiro telefonema que recebi depois de acabar a maratona que me trouxe até aqui.

O teu orgulho, naquilo que eu acabava de ter feito, a preocupação na tua voz, a doçura das tuas palavras, filho, chamaste-me filho, lembras-te?

- "Como é que estãs, filho, estava tão preocupado?".

Até àquele momento eu não tinha atendido um único telefonema, eu não estava em mim, a emoção que me invadiu depois de cortar aquela meta acompanhou-me até casa, enquanto caminhava sozinho, por não ter coragem de chorar de alegria em frente a mais ninguém.

Já tinha chorado demais.

Que raio, nunca é demais, quando choramos por sermos felizes e, até isso tu ensinaste-me, a chorar de alegria, como naquela tarde, quando me deste a bicicleta, como naquela noite, em que fomos os três à bola.

E, tal como em Berlim, nunca me viste chorar de alegria.

Ainda hoje não consigo meter em palavras aquele instante que durou uma vida.

A tua e a minha.

Apenas alguns metros, desde que deixei a Carla, a Maria e todos aqueles amigos que guardarei para sempre em mim, alguns metros, solitários, até casa,  só eu, metros que ainda hoje me pareceram os mesmos quilómetros fantásticos e mágicos que tinha acabado de correr.

Tão mágicos quanto a tua voz.

Tão mágicos como o teu amor.

Naquele pedaço de tempo voltei a sentir-me menino.

O teu menino.

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Foi por isso que as lágrimas que deixei inundar os meus olhos, quando passei aquela meta e cheguei ao fim, foi por isso que nessas lágrimas, partilhadas com uma multidão de afectos, também escorrias tu, no meu rosto, naquele instante em que a minha boca salgou, porque sorria, como um menino, o teu “menino”.

Nunca te o disse, vou dizer-te, olhos nos olhos, quando te juntares a mim, no final deste quilómetro tão cheio de tanto.

Vou dizer-te, olhos nos olhos, porque quero voltar a ver o brilho do teu olhar, como naquela tarde em que me mandaste pegar na bicicleta branca e linda e me empurraste para um caminho onde fui tão feliz.

A minha maratona está a chegar ao fim.

Ai de ti que não estejas a meu lado quando fizeres 85 anos, porque tu, sim, tu és um corredor de fundo.

Já gahaste tantas maratonas, os filhos que perdeste, o cancro que derrotaste, os ataques de coração que tiveste, vejo-te, quando saiste de maca do hospital de Vila Franca, para Lisboa e nos olhaste, a mim e à mãe e disseste "eu quero voltar para junto de vocês".

E voltaste. E estamos juntos, até ao fim desta corrida.

Sim, porque tu és um homem de palavra.

Tu és o homem que todos os homens deviam ser.

Quero-te dar amor, todo o amor que te fiquei a dever.

Feliz dia, Pai.

Entrámos nos últimos 195 metros!

 

 

 

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publicado às 12:09


por The Cat Runner, em 15.03.19

O QUILÓMETRO 41 - O PIANO - (DIA 98 DA MARATONA)

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Ela caminha por um caminho que não conhece, mas que é sempre o mesmo, sempre igual.

Ali chegada encontra uma pocilga delimitada nos quatro lados por troncos de madeira castanhos.

Todos compostos, alinhados, imaculadamente desenhados.

Decide entrar na pocilga que a faz passar pela mesma porta de sempre, que se abre, lentamente, permitindo que os seus passos leves e silenciosos a conduzam até ao interior daquele enorme salão e belo salão, a lembrar os salões dos grandes castelos que carregam em si histórias de encantar.

Um grande salão, que a recebe, sempre, como sempre, com dezenas de janelas, alinhadas, lá no alto das grandes paredes, assim como numa pintura perfeita, como ela, janelas que, como ela se deixam trespassar por uma luz morna e reconfortante.

Cada janela tem uma cortina, quase invisível, como as cortinas antigas, que albergam minúsculas flores, em tons leves, salmão, azul-bebé, alaranjadas.

Detém-se, muda, é o silêncio que a impele, olhando em redor, no meio daquele salão mágico.

À medida em que a sua cabeça roda e o olhar se fixa no horizonte, transformado em parede feita de rocha firme, começa a escutar um som, atrás de si.

Piano.

Ouve um piano a tocar, suavemente, atrás de si, porque é atrás de si que ela o escuta.

Lá atrás.

Invade o grande salão.

A luz é agora mais intensa, mais reconfortante, mais bonita.

Para trás de si ficou a pocilga, delimitada nos quatro lados por troncos de madeira castanhos.

Todos compostos, alinhados, imaculadamente desenhados.

A música soa-lhe a eternidade. E, sorri.

É um sonho que a acompanha há uma vida inteira, contou-me ontem.

Desde pequena, uma vida inteira, um sonho que se repete, sempre igual.

Há-de ter um significado, porque tudo tem o seu próprio significado, há-de ter, embora ela não saiba qual.

Uma vida inteira.

A vida dela, que me faz sonhar, por viver a minha a seu lado, dia após dia, todos os dias da minha vida, da vida dela.

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Ninguém sabe, porque nunca o contei, conto agora.

Conheço um mundo inteiro de fé.

Gente como eu, que caminha, como ela, para um lado qualquer, que é sempre o mesmo.

Mágico.

Piano.

Luz.

Gente que, levada pela sua fé, pés cravados de bolhas, alma que guarda chagas só suas, gente que é gente, naquela caminhada até ao final da viagem, onde as lágrimas correm pelo rosto, salgam os lábios, que sorriem naquele intenso momento da chegada.

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Já devo umas quantas promessas não cumpridas, umas quantas caminhadas até Fátima, onde a fé dos homens se mistura com a sua incomensurável bondade.

Prometo que é desta, levado pelo sonho que ela tem desde menina, guiado pela minha própria fé, em busca da bondade. Prometo.

Ninguém sabe, porque nunca o contei, conto agora.

Quando, num acto de fé, porque foi isso que foi, um acto de fé, decidi ir a Berlim correr a minha maratona, foi como se me tivesse obrigado a percorrer, finalmente, esse caminho, o meu próprio caminho, o meu próprio calvário, como num sonho, porque é isso que tudo isto também foi, o meu sonho.

E o dela.

O sonho que eu desconhecia;

chegar àquele enorme salão, onde cada janela tem uma cortina, quase invisível, como as cortinas antigas, que albergam minúsculas flores em tons leves, salmão, azul-bebé, alaranjadas e ali ficar, como ela, no seu sonho.

Fui sem saber, fui sem conhecer, fui por ela e, isso ninguém sabia, nem ela, porque eu nunca o tinha contado, até hoje.

Correr esta (única) maratona foi o meu acto de fé, porque precisava de provar a mim mesmo que sou um homem de palavra, de promessas cumpridas.

Uma espécie de garantia, guardada no mais secreto canto de mim, que irei pagar tudo, promessa a promessa, até à última promessa.

Isso é fé.

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E, no momento da decisão, no momento em que me propus calcorrear o meu próprio calvário de provação, foi nela que pensei.

Nem ela sabe.

Mas irá saber, se chegar a ler este quilómetro.

Vou fazer com que o leia, afinal, estamos a chegar ao fim e o fim não é, forcosamente, o terminar de nada.

Pode até significar o começo de tudo.

Porque ela agora consegue ler, este e todos os quilómetros do seu sonho, quinze anos depois de viver em escuridão quase completa.

Mas, nos nossos sonhos, nem a escuridão consegue penetrar.

Aprendi, nesta jornada incrível a acreditar no milagre, porque é a nossa fé que nos alimenta e nos impele para fazermos esse nosso caminho.

Disso eu já não dúvido mais. Não tenho como.

Eu quis correr a maratona para pagar os meus pecados, para acreditar nas minhas promessas e na palavra do meu coração.

E, fui.

Eu quis correr a maratona por centenas, milhares, de motivos só meus, tantos quantas aquelas cortinas iguais às do seu sonho, que a acompanha durante toda a vida.

E, fui.

Se isto me acontecer, se aquilo se concretizar, se aquilo se resolver, se eu me tentar expressar e se for ouvido eu vou correr todos aqueles quilómetros, até ao fim.

E, fui.

Lembrei-me da gente de fé que caminha assente nos seus joelhos feridos, na sua inabalável crença. Gente que eu admiro, por saber que nunca serei igual, gente a quem eu me quis comparar.

Mas, não, quem sou eu ao pé de tamanha gente?

Gente como ela.

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A minha mãe chama-se Adelaide.

Um nome tão doce, doce como o sonho que ela me contou e que a acompanha toda a vida.

A Adelaide tem uma doença incurável.

Há quinze anos ela começou a perder a capacidade de ver, sem nunca perder a capacidade de sorrir, sem nunca perder a capacidade de sonhar.

Ontem contou-me o seu sonho.

Só hoje, aqui, tive coragem para lhe contar o meu, aqui, nestas linhas deste quase último quilómetro desta brutal maratona.

O quilómetro que me abriu a porta, lenta e suavemente, para que eu pudesse entrar naquele salão mágico, grande e admirar as belas cortinas em tons suaves.

Confessou-me que as cortinas estavam apanhadas por uns laços aos quais não conseguiu descortinar a cor.

Foi acompanhado por ela que me fiz ao caminho, foi com ela no pensamento que passei dores inimagináveis, que sorri como nunca havia sorrido, de dor, de felicidade, mas nunca como ela, porque o seu sorriso é incomparável.

Foi ela que levei nos meus pensamentos, porque é nela que eu penso todos os dias da minha vida.

Fiz o meu caminho de fé, nas ruas de Berlim, qual peregrino, com sapatilhas encarnadas, de calções vestido, como um menino.

O seu menino.

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Serei sempre o teu menino.

Foste tu que me o disseste e eu em ti acredito, a vida inteira e para lá dos tempos.

Há quinze anos ela começou a perder a capacidade de ver, sem nunca perder a capacidade de sorrir, sem nunca perder a capacidade de sonhar.

Hoje, hoje, quinze anos depois, como que por milagre das mãos mágicas de um homem bom, ela voltou a ver a luz que trespassava as belas cortinas do grande e mágico salão.

Vou fazer chegar-lhe este texto, e se ela não o quiser ler vou obrigá-la, porque sei que agora ela ela o vai conseguir ler.

O que ela não sabe, só o vai saber agora, é que foi por ela que aqui cheguei.

E, fui.

Foi nela que pensei, em primeiro lugar, quando cruzei aquela linha de chegada, aquela porta que se abriu lenta e suavemente e que me levou àquele lugar, que só existe no seu coração e que a chama sempre que a noite cai.

Finalmente, tal como no seu sonho, escutei aquela música, daquele piano, que tocava atrás de mim.

E, guardei-a no meu coração.

Para sempre.

Nem um milhão de anos apagará a minha maratona.

Os sonhos não se apagam.

Jamais se apagam.

Entrámos no quilómetro 42!

 

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publicado às 10:13


por The Cat Runner, em 27.02.19

O QUILÓMETRO 40 - LUTO - (DIA 97 DA MARATONA)

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Os homônimos perfeitos.

Perfeito.

Luto.

Luto.

A mesma palavra, a mesma grafia, significados diferentes.

Tudo tem um significado, voluntário ou involuntário.

Eu sei qual foi, eu sei qual é o significado daquilo que eu consegui, daquilo que eu quis conseguir, sem ter a certeza que o conseguisse.

Essa foi a luta. Agora, o fim do luto.

Estou a caminhar para o fim desta monumental e brutal aventura, que começou há mais de um ano, dentro da minha cabeça, que ganhou forma e se materializou já lá vão cinco longos meses.

Aqui, no meu blog, também, quilómetro a quilómetro, eu sei agora que vou terminar mais esta luta, porque eu luto.

Eu luto, sem medo de perder, luto com coragem para ganhar, luto, por isso tomei essa decisão brutal, que foi colocar-me à prova, em provação, física e mental e ver no que dava.

Eu quis, pela primeira vez em toda a minha vida colocar-me numa situação muito difícil, lidar com o excesso de sofrimento que testa a capacidade de superação, a fé viva ela como viver dentro de nós, seus preceitos morais, suas convicções: cada um tem a provação que é capaz de superar.

Eu fui e fiz. Eu vi e cheguei.

Depois de correr 42 quilómetros, mais 195 metros (no final vai perceber a importância desses últimos metros), no instante em que cortei a meta, aquela meta, nas portas de Bradenburgo, em Berlim, nesse exacto momento, ainda que, inconscientemente,  comecei a fazer o luto de uma história que será para sempre a minha.

O luto de uma luta.

Passaram cinco meses desde que tomei consciência absoluta de que eu luto, luto pelo que eu quero, luto pelo que eu defendo, luto por mim, luto pelos outros.

É o maior dos ensinamentos.

A pulseira que cortei do meu pulso é, provavelmente, o objecto que mais se colou a mim, em todo o sempre.

A pulseira que cortei do meu pulso foi-me colocada em Berlim, na véspera da maratona, aquela coisa que mudou a minha vida, em muitos sentidos.

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Quando me a colocaram, não imagina a alegria que senti, um miúdo a quem ofereceram o mais belo dos brinquedos, eu estava, finalmente, à porta daquilo pelo qual lutei. Eu era um deles. Faltava-me tudo o resto.

O resto era chegar ao fim, vivo, são, salvo.

Faltava-me tanto.

Hoje, depois de cortar a pulseira, chegou a hora de  acabar o meu luto.

A história está a chegar ao fim, eu sei que daqui a dois quarteirões há um momento mágico à minha espera. O momento pelo qual eu lutei tanto, até à exaustão, literalmente.

Daqui a dois quarteirões chegamos ao fim.

São dois quarteirões carregados de intensidade, de dores incríveis, de suor já seco, de sorrisos doridos, de esperanças incrédulas, dois quarteirões que me separam do fim do início de uma das mais bonitas páginas que escrevi no meu livro, o livro que é a minha vida.

Cortar aquela pulseira do meu pulso foi como cortar o meu cordão umbilical emocional, uma catarse que te deixa com a cabeça vazia, os olhos a arder e as recordações, as memórias tão presentes como se tivesse sido ontem, mais presentes e vivas do que se tivesse sido ontem.

Durante muitos quilómetros o Francisco ofereceu-me o seu pulso e foi com o meu dedo entrelaçado na sua pulseira que eu corri os quilómetros mais brutais da minha vida.

Jamais esquecerei esse pedaço de tempo, não tenho como algum dia esquecer, nem quero.

Mas, não, não era esta pulseira.

Era uma pulseira, que guardo no meu pulso, religiosamente.

Ele tinha-me oferecido uma pulseira igual à sua, um dia antes da maratona, enquanto esperávamos pelo autocarro.

Uma pulseira carregada de simbolismo, de energia e de crença, em mim e nos outros, uma pulseira dos Caminhos de Santiago, que nos guiam até onde a nossa alma se senta, contemplando o que só o nosso coração consegue alcançar.

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Foi com o dedo entrelaçado nessa pulseira, que ele usava no seu pulso, que eu percorri o meu próprio caminho, pelas ruas da inesquecível Berlim, até aqui, até hoje.

É ela que me vai levar até ao fim de tudo isto.

As coisas, para mim, as pequenas coisas, têm um significado que chega a ser tocante, emocionam-me, apaixonam-me, fazem-me ir mais à frente, aqui, na corrida, na vida, naquilo que eu sou verdadeiramente.

Hoje, o luto caminha, também ele, para o fim, tal como esta longa corrida, a mais bela, na sua dor, na sua alegria, na sua paixão. Foi tudo isto, foi tanto isto e isto é tanto!

Agora falta-me dois quilómetros e mais 195 metros.

Lembro-me perfeitamente do que aconteceu nesta altura.

O sol já aquecia, era hora de almoço, tinham passado quase cinco horas desde que começámos a correr, as ruas continuavam cheias de gente, estávamos no coração de Berlim, as pessoas continuavam a gritar os nossos nomes, como se fossemos velhos conhecidos.

Não, éramos apenas uns guerreiros, numa longa batalha, que ia-mos ganhar, nem que fossemos os últimos a chegar ao fim da linha. As pessoas, desconhecidas, queriam isso, queriam tanto quanto nós. Senti-o. E, quem sente, raramente se engana.

Caraças, lembro-me de tudo, como se fosse agora.

O que faz um simples corte de uma pulseira!

Faz-nos viajar no tempo, faz-nos sentir super-heróis, outra vez, faz-nos acreditar em nós próprios, como nunca o havíamos feito, faz-nos olhar o futuro e o horizonte como se fossem apenas uma inevitabilidade.

Começar, correr e acabar uma maratona faz-nos tudo isso.

Faz-nos entrar num verdadeiro período de luto.

Um ciclo. Começa. Acaba.

Mas, faz mais do que isso, porque nos obriga, definitivamente, a colocar os pés bem assentes no chão.

Por pouco tempo, que a corrida faz-se de passos e os passos fazem-se de movimentos.

Tal e qual a vida de cada um de nós.

Mas, faz tudo isso. Provoca-nos tudo isso. Tudo isto.

Faz de nós pessoas diferentes.

Por isso, eu luto.

Por isso, eu estou a terminar o meu luto.

Os homônimos perfeitos.

O que aí vem nestes últimos instantes desta incrível corrida será tão intenso quanto aquilo que eu senti nesses últimos instantes.

É assim que tem que ser.

De outra forma não fazia qualquer sentido.

E, fez, fez todo o sentido.

Entrámos no quilómetro 41!

 

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publicado às 19:25


por The Cat Runner, em 24.02.19

O QUILÓMETRO 39 - O BOSQUE DOS ESQUIMÓS - (DIA 96 DA MARATONA)

 

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Se eu fosse um doce era uma mulher.

Era uma Barriga de Freira, não tenho a menor dúvida.

Há ali qualquer coisa de exótico, de pecaminosamente irrecusável, de anti-natura, até.

Anti-natura, porque por estes dias eu devia estar a perder gordura corporal, que não é formosura coisa nenhuma.

Como sou uma espécie de prima dona, em gajo, acho que em vez de estar a perder estou a ganhar.

Inconscientemente, o lado bom das coisas.

A felicidade.

O problema é que a felicidade às vezes cruza-se com o pecado.

Eu sou e tenho uma Barriga de Freira.

Não me custa a admitir. Foi premeditado. Foi desejado. Foi brutal.

Só que tudo tem um preço e há coisas que fazemos em consciência, sabemos que estamos a fazer da forma menos correcta mas, caraças, é tão bom. Tão doce.

Eu, pecador-pagador.

Sinto-me como no primeiro dia em que comecei a correr regularmente, foi há seis anos, mais ou menos.

Pesado, pesado, pesado.

Claro que sinto, estou pesado, havia de sentir o quê, levezinho?

Tento desculpar-me com o passar do tempo por mim mas nem eu próprio acredito nas minhas desculpas.

Ainda ontem comi uma Barriga de Freira. Sou um predador-delico-canibalesco. Se me arrependo?

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(A foto é do pudim de castanhas que comi hoje, mas dá igual)

Por partes,

Arrependo-me, porque a penitência faz parte daqueles que acreditam em forças superiores e eu sei o que vou sofrer para atingir a redenção. Nesse sentido, arrependo-me. Penitencio-me, mais ainda.

Esta comiseração levou-me a tomar uma decisão que vai ser quase um mantra.

A partir de terça-feira, daqui a dois dias, começo um regime assente no défice calórico.

Ingerir menos calorias, gastar mais calorias.

Não como dar a volta a isto.

Já corremos trinta e nove - por extenso - quilómetros.

Tem a noção do que é correr trinta e nove quilómetros, a escrever ?

Pois, do alto das minhas cinco horas e cinco na maratona lhe digo;

correr trinta e nove quilómetros é qualquer coisa que nos faz sentir como uns auto-sobre-dotados.

Nesta altura, meu caro(a) leitor(a) já todos acreditam que vamos chegar ao fim da corrida.

Mas, o que eu acrescento é que alguns pensam em como chegar ao fim da corrida.

Quero, não sei se consigo, quero. Consigo.

Três quilómetros são como a paixão, são muito e depois são nada. Ou, são nada e tornam-se muito.

Em Berlim, num domingo como este, quando entrei no quilómetro trinta e nove pensei nos dois cenários.

Falta um quilómetro para a Carla saltar a barreira e se juntar a nós, com as bandeiras de Portugal. Faltam dois quilómetros para ver os meus amigos e a minha família.

Duzentos metros depois, a meta. O sonho materializado em dificuldades em caminhar, em sentar, em estar de pé, em estar parado.

Tantas horas depois.

Chegar aqui implicou, em mim, brutais doses de stress físico e mental.

Por esta altura já visualizava a meta, na minha cabeça, mas não imaginava, na verdade, como é que ela era.

Serão os próximos quilómetros.

Por outro lado, dei comigo a pensar;

se eu agora só consigo caminhar e arrastar-me, em passo mais acelerado, cheio de dores por todo o lado, como é que vou passar a meta a correr?

Eu nunca cortei uma meta a caminhar, mesmo que tenha caminhado toda uma corrida.

Em circunstância alguma na vida.

Falta uns três quilómetros.

Nem que rasteje até lá.

Eu nunca tinha chegado a este ponto, em nada, não podia falhar-me, porque isso era trair-me.

Nesse domingo parecido com este eu fui para lá daquilo que julgava ser possível.

Foi para esse lugar exclusivo que eu me quis transportar.

Lá cheguei.

Lá chegarei.

Vir até aqui e acabar o que falta é uma obrigação, já não é um objectivo, quando já vais a correr trinta e nove quilómetros e tem faltam mais três.

Fácil perceber o que toda esta aventura provocou:

Um quase colapso dos chacras.

Baralharam-se todos.

Isto, estamos em Setembro do ano passado.

Cinco meses passaram.

E, a minha consciência tornou-se, igualmente, pesada. É-me fiel, fiel às trends do seu dono.

Eu pequei.

Caraças, eu não pequei, eu fui violado pelo próprio Satanás.

O diabo, descobri, adora Barrigas de Freiras, assim como os ursos adoram salmão.

E encarna em nós, o diabo e o urso, a Barriga de Freira e o salmão.

Eu sou um little pecador, alguém que determina em si mesmo alguma coisa, que atinge o que pretende e, depois, delicia-se, deitado no seu próprio doce pecado.

Tudo isto para dizer que é a primeira vez que me lesiono, desde que comecei a ter actividade física regular, leia-se, a correr, desde há seis anos.

Não deve ser nada de grave, nada que uma corrida não cure, mas parece ser um pequeno “rasgão” no gémeo, o que não me dava nada jeito.

Estou overweight, que é como quem diz, estou a sentir-me um esquimó, mas em formato bola de Berlim.

Sempre Berlim.

Nas três últimas semanas perdi dois dos quilos que tenho a mais, mas já os encontrei e estão bem, não houve complicações.

Mal eles sabem que isto  do peso em excesso está a começar a chatear o meu próprio sistema nervoso central.

Aqui, onde me encontro, no alpendre de um iglo, com um sol que se põe, dono do seu nariz, num bosque que não digo onde fica, tomei uma decisão (juro, estou num alpendre de um iglo).

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A partir de terça feira começo o regime alimentar. Eu sei que já tinha dito, mas as técnicas de narrativa sugerem que o escritor vá buscar ideias que ficaram lá atrás, para acabar o texto e ele ter uma lógica.

Eu gosto de caminhar no beiral do telhado, onde os gatos contemplam o que se passa cá em baixo.

Gosto de ir ao limite, perder-me no momento, voltar à base e repetir.

Mas, não me dava nada jeito esta pequena lesão, numa altura quem que eu me sinto um verdadeiro esquimó, no que ao volume diz respeito.

Acredite no que lhe digo, se não, não vinha passar uns dias a um iglo, num bosque como este.

Isto vai lá.

Também havia quem não acreditasse que eu conseguia correr uma maratona.

Gente que não sabe o que eu faço só para ter uma Barriga de Freira.

Entrámos no quilómetro quarenta.

 

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publicado às 18:01


por The Cat Runner, em 14.02.19

O QUILÓMETRO 38 - TERRA FRANCA - (DIA 95 DA MARATONA)

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( Fotos by ZGQ)

A vila está diferente.

Desde logo, a vila é uma cidade.

A vila só é vila para os da vila, será eternamente a vila.

Coisas calcificadas no espírito de cada um de nós;

Os mergulhos, junto à fábrica do arroz, quando nos deixávamos ir, nas correntes do nosso rio.

Há muitos de nós que ainda hoje olham para si, mergulhos descuidados, tardes quentes, e os avieiros.

A fábrica do arroz nunca o soube, mas ela sempre foi a fábrica de vidas.

Tenho algumas dificuldades em construir frases que espalhem a minha ideia, aqui, quando falo da vila.

Tenho pena de não lhe dar mais, dou quase nada. Gosto de escrever. E, de correr. Só isso.

O pai da Leonor, que andou comigo ao colo, deve estar com um orgulho do tamanho do céu.

O céu. A noite.

A Leonor é uma miúda, como eu era um miúdo, naquele tempo em que a minha avó se sentava, em gigantes rolos de carpetes, que lá se vendiam, autênticos sofás, enormes, tardes inteiras, na loja da avó da Leonor, em conversas que eu não ouvi.

A Leonor não é, propriamente, da minha geração. Bem mais nova.

A mãe, mulher linda, inteligente, corajosa, hei-de saber como se sente, um dia que me cruze com ela, na vila.

A Leonor é realizadora, produtora, argumentista, o que quer que seja, mas ela é da vila.

Passeia-se na cena internacional com a mesma humildade e naturalidade como quando está na vila, o que deve ser raro, nesta altura, dado o sucesso do seu trabalho.

Todas as pessoas da vila que viram o seu documentário “Terra Franca” sairam das salas invadidas pelo mesma viagem que eu fiz.

Naquele documentário estava a vila.

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O rio, a família de avieiros, o mercado, as festas, as dificuldades, a esperança, a nostalgia.

“Terra Franca” impregna-nos de nostalgia, de tal modo, que não volta a sair de dentro de nós.

Resta-me dizer que a Leonor Teles é brilhantemente premiada e o seu trabalho.

Foi a mais nova realizadora a receber um prémio de curta-metragem no festival de Berlim, com a curta “Balada de um Batráquio”.

O filme de 11 minutos que retrata a tradição portuguesa de colocar sapos à porta das lojas para evitar a entrada de ciganos,

No final Leonor, filha de pai cigano e mãe não cigana parte os sapos à porta das lojas, num acto de vandalismo. Tabú. Não tabú!

Voltando ao Albertino Lobo, avieiro, da vila, ele é o fio condutor da história, mas também desta história.

Desde que vi o documentário, e sempre que vou correr para o Jardim e para o Passeio Ribeirinho, ao lado do rio, para lá da fábrica do arroz, lembro-me da Leonor e do Albertino.

E das suas famílias.

Encho-me de coragem e tiro sempre uma foto aquela rua, virada para o rio, à saída do Jardim, terra franca.

Mas, nunca uso essas fotografias.

Elas são sempre tiradas à noite, no fim da minha corrida, à luz de candeeiros lampiões, amarelos, que dão uma tonalidade ouro-fosco ao que se sente.

Cria-se um arco de luz, desenhado por um iluminador comum - leu bem - que contorna o alcatrão, quase como uma enguia, até à casa da família Lobo e para lá, mas cerca do rio, das redes e das bateiras.

Sempre que tiro a fotografia, no fim de cada corrida, sinto-me como que a invadir o recato daquela gente que é minha também.

Ali, onde é a casa do Albertino, onde ele projecta as suas mágoas e as suas pequenas alegrias, onde vive e partilha afectos e crença os estores estão quase sempre corridos, as luzes apagadas, silêncio.

Como um intruso.

E, de todas as vezes, apago as fotos do telemóvel.

Por respeito.

E é isso que ser da vila nos incute;

respeito!

E mais uma mão cheia de coisas, pó DNA de memória.

 

Na segunda feira saí para fazer 12 quilómetros, da entrada do jardim, com a rua do Albertino ali ao meu lado esquerdo, iluminada no ponto certo, mais o rio, à esquerda, a linha do combóio e o casario, à direita, até para lá da fábrica do arroz e da fábrica do cimento.

Custou-me imenso, mas tive, como tenho sempre, os meus momentos exclusivos, viagem por muitas vidas, como um gato, umas sete, muito mais.

A fábrica do arroz deixou de ser a fábrica do arroz, cedeu o seu lugar à Fábrica das Palavras.

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( Foto by CMVFX )

Dizem que é uma das bibliotecas mais modernas da Europa e eu acredito, pelo menos será das mais bonitas, ali, ali mesmo, em cima do rio.

É a linha de chegada, se quisermos, depois só mais uns 400 metros, Jardim dentro, até ao carro.

Quando passei por ali, na volta,  já o Jardim se tinha tapado, com a noite, apenas uma, duas, três pessoas que saíam da estação em direcção aos carros.

Esperei que todos se fossem embora, aproveitei para alongar. Estava frio. A mesma névoa cor de ouro-fosco.

Enquanto alongava, junto ao pavilhão do União, onde há muitos anos jogávamos bola e assistíamos a grandes jogos de hóquei em patins, foi lá que vi o Livramento jogar, pela primeira vez, onde outrora era o ringue dos avieiros, dei comigo a olhar para o lado esquerdo.

Em frente o pavilhão, o mural em tributo a Alves Redol e,

a rua do Albertino.

Não havia ninguém à volta, comecei a correr, liguei o modo vídeo no telemóvel e, num acto de puro vandalismo sentimental filmei durante meia dúzia de segundos, passo de corrida comprometido.

Mostro o vídeo, aqui, por são imagens exactamente idênticas às da “Terra Franca”, da Leonor e porque, sobretudo, é apenas uma rua. Uma homenagem. Uma viagem. Uma corrida mais.

 

Uma das coisas que tenho mais saudade, na vila, é das ruas.

Era nas ruas que vivíamos os nossos sonhos de toureiros, de detectives, de jogadores de futebol, de organizadores de venda de senhas para angariar dinheiro para as festas.

E, a casa da Associação de Moradores do bairro, onde fazíamos peças de teatro só para nós, na cave da casa, que ficava junto ao depósito da água.

Fazia um mundo de coisas.

E, cresci ali, na vila, assim.

Nessa altura só não corria nas ruas da vila.

É a única coisa que reescrevia na história de um amor.

A não ser no Colete Encarnado. Aí, também corria.

Acho que rua do Albertino, no bairro dos avieiros, vai deixar-me fazer-lhe uma visita, sempre que acabar de correr, sem que eu me sinta um intruso, na minha própria rua.

Porque a rua do Albertino, aos olhos da Leonor, e dos meus, é a vila, na sua beleza mais intensa.

E porque hoje é Dia dos Namorados.

A vila será sempre a minha namorada.

Entrámos no quilómetro 39!

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publicado às 16:55


por The Cat Runner, em 09.02.19

O QUILÓMETRO 37 - NEVER TOO OLD TO BE YOUNG - (DIA 94 DA MARATONA)

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Não gosto de estar a envelhecer.

É um dado adquirido, que não gosto, que estou a envelhecer.

Tenho pensado sobre a velocidade do tempo e o que ela provoca, nos últimos anos, desde que passei os 45. Ao contrário da multidão que diz em voz alta que convive bem com isso, eu não, adapto-me, apenas.

Tenho 49 anos, curiosamente, a minha idade real é igual à idade metabólica, mas quando me olho ao espelho não vejo um tipo com quase 50 anos, meu caro(a) é meio século, não é uma coisa qualquer.

Não vejo, não porque o evite, mas porque vejo alguém que não é este eu.

Tenho (como o poeta) em mim todos os sonhos do mundo, ainda.

Tantos que quero realizar, tantos desafios que quero abraçar, tantos objectivos para atingir, tantos sorrisos para oferecer, só não tenho paciência para envelhecer.

Acho uma profunda injustiça, uma pessoa querer que o relógio páre, que o relógio dê voltas para trás e o que vê e sente é que ele avança que nem um doido. Implacável. Cruel.

Relógio descontrolado que me inflige perplexidade, ansiedade, angústia, até.

Já vou dando sinais da idade, coisas que antes não me aconteciam, por exemplo, dou por mim a conduzir o meu carro já com aquela postura de quem tem que rodar o volante com as duas mãos, tipo táxista, em movimentos soluçantes, ou quando tenho conversas com os meus filhos, sobre a vida, por vezes sinto que estou a falar “à cota”, ou quando vejo os amigos que andaram comigo na escola, sem cabelo, gordos, desfigurados, mas tudo isto passa, quando estou sozinho.

Quando estou sózinho tenho 10, 15, 20, 25, 30 anos, nunca 49, quase 50.

Depois, depois volta a mão dura do tempo que passa.

Quem me manda ter a mania de fazer actividade física com regularidade?

É aqui que o peso da idade me cai, verdadeiramente, em cima. As coisas já não são como eram. Nesta altura entro num quase mini-processo de revolta.

Desde Berlim, onde corri a minha primeira e única maratona, e que motiva todos estes quilómetros aqui, como já o escrevi, engordei 11 quilos.

Há duas semanas iniciei um novo plano, como o Mário Sá, o meu novo treinador, ou PT, ou amigo, como queria.

Estou a gostar, treino com níveis de intensidade altos, mas são treinos que me permitem treinar com prazer, a ritmos e com dinâmicas que correspondem ao meu excesso de peso e défice de forma.

SIm, andei a portar-me menos bem, ou talvez a treinar de forma errada, ou as duas coisas juntas.

Actualmente, corro três vezes por semana, treino Muay Thai duas vezes por semana, descanso dois dias.

É aqui que me revolto contra o relógio, pelo simples facto de que já não consigo recuperar como recuperava. Sinto isso de forma acentuada neste último ano, sobretudo, depois de ter corrido  a maratona, em Berlim.

Um dia já não me chega, embora quando volto a treinar no dia seguinte a carga alívia durante o treino. Há-de haver alguma explicação científica. Ficção, científica.

Ontem fiz mais uma corrida, 10 quilómetros a um ritmo lento (6.30”/6.45”) como estava planeado no programa de treino desta semana. Foi penoso, dada a fadiga, embora tenha corrido a uma média mais elevada (06.11”), talvez por isso, alguém que explique.

Como faço sempre, todos os dias, dei o meu feedback ao meu treinador, disse-lhe que “o tempo da app, provavelmente, não é o tempo correcto dado o esforço e a fadiga que senti, tive que parar alguns segundos na maioria dos quilómetros para recuperar as pernas e seguir”.

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Não me posso enganar, nem a ele, até porque começo a ver resultados, duas semanas depois de termos começado a nossa parceria.

O Mário diz-me que a fadiga muscular é normal nesta fase e eu acredito, mas ele já percebeu que na minha cabeça a equação é outra: a idade começa a pesar e eu não estou a gostar.

O Mário não respondeu à minha mensagem com texto, limitou-se a enviar-me este vídeo, acredito que com o objectivo de eu me rever nele.

Afinal, vai-me conhecendo cada vez melhor.

Sim, Mário, revi-me e fez-me repensar.

Porque não?

 

Agarrei a mensagem.

Momentos antes de escrever este texto, mais este quilómetro, mais um quilómetro, agora que nos aproximamos do fim desta maratona, tomei conhecimento de uma notícia que, a par do vídeo que acabou de ver, obrigou-me a estar aqui a fazer introspecções de fim de semana.

É em vídeos como o que viu e em notícias como esta, em pessoas assim, que eu vou buscar a minha inspiração e força para continuar, até ao fim. Sim, porque eu vou continuar...

Não conheço o João Neto, apenas sei que é mais velho do que eu, posto assim nada de relevante, mas se eu disser que o João acabou de fazer a “maratona das maratonas”, a World Marathon Challenge, 7 maratonas, em 7 dias, em 7 continentes, tudo passa a ter mais significado.

Todos nós temos que ter algo ou alguém que nos inspire, para provocar a nossa própria inspiração.

A Maratona das Maratonas

Agora, vou terminar este texto, porque depois do vídeo do grisalho do Muay Thai e das maratonas do João tenho que mandar uma mensagem ao meu treinador.

Há- de ser qualquer coisa como:
“Mário, isto é para ir até ao fim, porque eu tenho o foco, tenho a vontade, tenho a coragem, tenho a capacidade de superar dores e fadiga, altos e baixos.

Tu tens os conhecimentos e a estratégia”.

E, acredito, vou terminar a mensagem assim: “Por muito que vergue, não parto”.

Nunca parti, a não ser no ínicio de cada corrida, em cada tiro de partida.

Tenha eu a idade que tiver, tenho sempre muito para viver, para correr, para conquistar.

Inspirações e introspecções.

Entrámos no quilómetro 38!

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publicado às 12:09


por The Cat Runner, em 04.02.19

O QUILÓMETRO 36 - O CAMALEÃO, O CICLISTA E OUTRAS COISAS BONITAS - (DIA 93 DA MARATONA)

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A maratona de Berlim mostrou-me todo um admirável mundo novo.

Não exagero, nem um bocadinho.

Foi a "experiência" completa.

Foi marcante a nível pessoal, foi marcante a nível físico, foi marcante a nível intelectual, não fosse Berlim, ela mesmo, uma cidade profundamente marcante.

Foi a quarta vez que estive em Berlim, mas em nenhuma das anteriores tinha lá estado sem ser em trabalho.

Tive tempo, bastante tempo, para a saborear.

Por isso, recordo-me de um pensamento que tive, aliás, dois pensamentos, naqueles dias mágicos.

O primeiro apareceu-me enquanto corria a maratona, ao passar pelo histórico bairro Schoneberg.

Eis a história que me assaltou a memória e os passos;

Em 1976, David Robert Jones tinha-se mudado de Los Angels para Berlim e passou a viver no bairro Schoneberg. Tinha 29 anos.

A cidade continuava dividida pelo muro, mas boémia nunca de lá saiu, até hoje.

David tentava relançar a carreira e era em Berlim que muitas das influências a que se sujeitou estavam em ebulição.

O prédio onde David viveu aguentou duas guerras mundiais, coisa pouca.

Em Berlim ele tinha uma rotina quase sagrada: caminhava a pé entre lojas de antiguidades e livrarias e tomava cafés (quase sempre tardios) com outros intelectuais.

Há dois anos, no dia dez de Janeiro, o mundo acordava em comoção:

“David Bowie morreu tranquilamente hoje, rodeado da família, depois de uma dura batalha que durou um ano e meio”.

Foi por me ter lembrado de David Bowie, quando passei a correr pelo bairro onde viveu que, um dia depois, antes de deixar Berlim, logo a seguir às compras da praxe, sentámo-nos, eu, a Carla e a Maria para almoçar naquele que é, provavelmente, um dos restaurantes que mais me fez viajar no tempo.

Berlim foi isso, uma viagem.

 

Lembrei-me de Bowie e dos seus cafés, naquele café, moderno, mas cheio de memórias.

O espírito de Édouard Louis Merckx pairava no ar.

O “Steel Vintage Bikes Café” é um espaço totalmente decorado com bicicletas de corrida, equipamentos de ciclistas, tudo o que esteja relacionado, mas tudo “vintage”.

Havia várias bicicletas (como o vídeo mostra) com aquele nome mítico inscrito nelas:

Eddy Merckx !

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Eddy Merckx é considerado, por muita gente, por mim também, como o maior ciclista de todos os tempos. Ele era belga, mas naquela tarde ele, como eu, como Bowie, era de Berlim.

Estive um quarto de hora a maravilhar-me com aquela decoração, tudo era novo, menos o estilo.

Tinha conseguido correr uma maratona, na véspera.

Estava feliz, estávamos felizes e quase de regresso a casa.

Lembro-me de que, enquanto almoçávamos umas maravilhosas sandes de salmão, expliquei à minha mulher e à minha filha que tinha sido Eddy Merckx, porque Bowie já elas sabiam quem era. Quem não sabe?

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E, pela milésima vez demos connosco a viajar pelo tempo fora, compilando nomes de gente grande que amou Berlim, por isto e por aquilo. Como nós amamos.

A lista é infindável.

Cidade eterna.

O almoço foi memorável.

Aqueles dias únicos foram memoráveis.

O que mais me dói a alma é saber que a história não se repete.

Se eu tivesse a lâmpada mágica guardava um dos três segredos para o fim:

“Quero ser feliz, como fui em Berlim”, para sempre.

Como o Eddy e como o David.

Entrámos no quilómetro 37!

 

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publicado às 15:59


por The Cat Runner, em 26.01.19

O QUILÓMETRO 35 - SOBRE CORAGEM - (DIA 92 DA MARATONA)

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(Foto: Francisco Cunha Cerca)

 

Esta semana apanhei um vídeo, nas redes sociais, que me levou até Berlim, Setembro do ano passado.

O vídeo tem apenas três minutos.

Durante três minutos voltei a sentir tudo o que senti naquela manhã de domingo, as lágrimas, os sorrisos, as dores, os tremores, o desespero, a esperança, a crença, a união, a amizade, o amor.

Antes de continuar, para perceber melhor aquilo que escrevo, aquilo que senti, aquilo que sentirei, para sempre, porque aquela manhã de domingo será eterna, para se colocar no meu lugar, prometo que não lhe passo as dores, mostro-lhe o vídeo, depois continuo.

 

Não sei se reparou, mas estamos no quilómetro trinta e cinco desta longa corrida, demorada, como foi a minha primeira maratona.

Mas, tal como aconteceu em Berlim, aquilo que me prometi, aquilo que prometi a alguém, o compromisso, será até ao fim e já faltou mais.

Faltam apenas sete quilómetros. Apenas?

É este o ponto forte desta crónica, quando mil metros parecem cem mil, quando um passo parece um pesadelo, pesado, muito pesado, quando as ideias ficam lá para trás, quando aquilo que mais queremos é chegar, abraçar, sorrir, porque no fim, nas horas seguintes, não dá para muito mais.

Nas horas seguintes dá para conhecer o purgatório, um sítio algures entre o bem e o mal, entre a dor  e o prazer.

O vídeo que acabou de ver levou-me, de novo, a Berlim.

Menos gordo, menos pesado, se calhar, melhor preparado, em relação ao homem que desespera, eu revi-me neste vídeo.

Eu passei por aquilo.

Eu passei por aquilo, sabendo que aquilo me ia acontecer, mas por muito preparado, sobretudo, mentalmente, que estejamos, nunca imaginamos aquele momento, aqueles momentos, onde tudo se confunde, onde tudo parece ser um abismo sem fim, onde nada acontece por acaso, porque nada acontece por acaso.

Tal como aquele homem gordo, pesado, se calhar, mal preparado, eu também tive o incentivo de muita gente, durante a corrida.

As pessoas que assistiam à corrida, os voluntários oficiais, a família, alguns amigos, eu tive o apoio que aquele homem teve daquele voluntário.

Mas eu tive mais.

Tive os meus dois parceiros durante todas aquelas horas, a meu lado, a levarem-me desde que começou até que acabou.

Sem eles não creio que tivesse acabado.

Por isso, se voltar a ver estes três minutos, deste vídeo, vai perceber, em definitivo, o real valor de muitas das palavras que costumo usar quando escrevo sobre as corridas.

Mas, uma dessas palavras acompanha aquele homem gordo, pesado, se calhar, mal preparado, ela acompanhou-me durante aquelas cinco horas;

coragem.

A coragem ao alcance de quem acredita em si, de quem acredita nos outros, de quem quer alcançar.

Eu alcancei.

Aquele homem gordo, pesado, se calhar, mal preparado, também alcançou.

Gostava de o conhecer.

Gostava de debater a superação, gostava de ouvir o som da sua vez e, no fim, dava-lhe um abraço, como aqueles que dei, no fim, em Berlim.

Abraços sérios.

Para milhões de pessoas correr uma maratona é nada, fácil, chegam a ter prazer todo o tempo.

Para milhões de pessoas correr uma maratona é tudo.

Para mim foi ir do céu ao inferno e voltar.

Sim, eu fui e voltei!

Entrámos no quilómetro 36!

 

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publicado às 18:46


por The Cat Runner, em 21.01.19

O QUILÓMETRO 34 - SIMPLESMENTE, QUARESMA - (DIA 91 DA MARATONA)

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Quando a corrida se mistura com o futebol, com a amizade, com a viagem que é a nossa vida.

Simplesmente, Quaresma.

A única ligação que eu tenho ao jogador de futebol, o das trivelas, é que somos primos em quarto ou quinto grau, por parte do meu pai, de quem um tio dele era primo direito, mas do meu avô.

Qualquer coisa deste género.

Tirando isso conheço o Quaresma e o Quaresma conhece o Quaresma por força da minha profissão e da dele.

Ao que consta Quaresma nunca jogou na Alemanha, mas não imagina que, em Berlim, ele esteve presente entre nós.

A nossa comitiva acidental, acidentalmente boa, nesta aventura mágica que foi a maratona, decidiu que aquele restaurante de esquina, do qual o nome não fixei, sería o nosso refeitório.

Em Berlim os restaurantes são caros, para as nossas carteiras, para as carteiras das pessoas da Europa de segunda (ou terceira) e o “Turco” - assim ficou conhecido entre nós - tinha variedade de pratos, era barato e, melhor que tudo, tinha uma esplanada, a esplanada da foto.

Usámos e abusámos do “Turco”, um homem baixo, cabelo preto, rosto gorduroso, devido às horas que passava em frente ao fogão, óculos com lentes tão, mas tão grossas e embaciadas, que até lhe permitiam ver vídeos, no pequeno telemóvel.

O “Turco” tinha tudo aquilo que precisávamos e, por isso, era lá que nos juntávamos, mais que não fosse para beber um café e trocar uns dedos de conversa fraternal.

De simpático ele não tinha nada, limitava-se a aceitar os pedidos, a cozinhar e a dar instruções aos empregados.

Quatro dias ali e parecia que já nos conhecíamos há anos, nós, a nós, nós, a ele.

Já sabíamos de letra os turnos em que estava a miúda, tarde/noite, o horário do turco mais novo, noite/madrugada e horário do chefe, o “Turco”.

Dava a sensação que ele fazia todos os turnos. Vim de lá com essa crença.

O restaurante estava aberto praticamente vinte e quatro horas por dia, o que era fantástico, para nós e para ele, dada a facturação, mas isso são coisas do “Turco”.

A carta tinha, obviamente, especialidades turcas, mas também tinha massas, pizzas, bifes, sandes fantásticas e servia muito bem as nossas intenções. E, a esplanada.

Almoçámos lá, jantámos lá, lanchámos lá, por vezes íamos apenas descansar, na esplanada, entre um café e os tais dedos de conversa. Histórias que não se repetem, porque a História não se repete, isso é um dado adquirido.

Foi lá, na esplanada do “Turco” que eu escrevi, algures nestes quilómetros, que chorámos todos com as nossas histórias, fruto, creio eu, do momento que se aproximava;

a minha primeira maratona, mais uma maratona para os restantes. Aprendi que sempre que se corre uma maratona passa-se pelo mesmo processo, sempre, as expectativas, os receios, os medos, até.

Contámos histórias que nos uniram naquele único propósito: Berlim!

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O “Turco” marcou-nos a todos, arrisco em dizer, cada um à sua maneira, como tem que ser.

Mas, como bons portugueses houve um momento em que o “Turco”, fizemos acontecer esse momento, do nada, em que o “Turco” sorriu para nós.

Ele parecia viver ali, em frente ao fogão, quase sempre de costas voltadas para o balcão, para os clientes.

Uma dessas noites, uma das mais marcantes desta aventura, fomos jantar “em família”, embora alguns de nós tivessem jantado noutro lugar, por força da distância entre os nossos apartamentos.

Naquela noite fomos apenas as famílias de sangue, mais a nossa Carla e a nossa Alice.

O “Turco” demorava a atender-nos.

Levantei-me, fui direito ao balcão e perguntei-lhe se podia fazer o pedido.

Deu-me a lista, com a mão direita, enquanto a mão esquerda virava o hambúrguer, coberto de cebola.

Num ápice, junto à lista, os copos, os guardanapos, os pratos, os talheres. Eu que levasse para a mesa.

Levei.

Ficámos ali à conversa, como sempre, já com umas cervejas a acompanhar-nos, quando no demos conta;

o “Turco” estava com pressa, muita pressa.

Estava a chegar a hora de jantar, o relógio batia na meia noite, mais coisa menos coisa, o que ele queria era despachar-se.

Mas, não era para jantar.

Sentado naquela mesa de dois lugares, dedos grossos e gordurosos, ele ria à gargalhada, gritava, gritava impropérios, tenho a certeza, pelo menos ouvi-lhe um sonoro “skime”, que é como quem diz, em bom português, F…se!

O “Turco” não jantava, ele passava a hora de jantar a ver vídeos no Youtube, vídeos do seu grande amor, que o levava a gritar, em pleno restaurante, a plenos pulmões, vídeos que já devia ter visto milhares de vezes, mas que provocavam nele as mesma s reacções, todas as noites.

Eram vídeos do Beşiktaş, provavelmente, o maior clube da Turquia.

Pois, isso…

Quaresma.

É lá que (ainda) joga o português Quaresma.

O que nós rimos à gargalhada!

Levantei-me, esperei que ele acabasse de ver aquele vídeo, não fosse levar-me ou fazer-me mal, tamanha era a sua devoção, fanatismo ou amor, não fosse ele pensar que eu queria pedir mais um hambúrguer e que, por isso, ia interromper a sua hora de jantar golos e trivelas bem medidas, com tudo o que ele tinha direito, tudo menos cebola frita e gotas de suor a escorrer-lhe pela testa.

Esperei e atirei-lhe, em inglês:

- Sabe como me chamo?

Levantou os olhos para mim, sem nunca largar o telemóvel, e sorriu, pasmado, sem perceber o que se estava a passar.

  • Chamo-me Quaresma!

Percebi que não estava acreditar. Contei-lhe então a história do tio do Quaresma, o Alfredo Quaresma, antigo jogador do Belenenses e do primo, em segundo grau, o Helder Quaresma, o meu pai.

Não queira ver a alegria do homem!

Pela primeira vez sorriu como deve ser, levantou-se, mostrou-me aquele golaço de trivela que estava ver no Youtube.

Apertou-me a mão e sentou-se, de novo, como uma criança deliciada.

Voltou a colocar os olhos no pequeno ecrã do telemóvel e ali continuou.

Ele e nós.

Nos dias seguintes recebeu-nos sempre de forma calorosa.

Por segundos, quando chegávamos, deixava o fogão para nos cumprimentar.

Já era um avanço.

Gostava de ter tirado uma foto com ele, mas jamais ia interromper, outra vez, aquele momento sagrado.

Um dia hei-de saber o nome do restaurante.

Até lá será sempre o “Turco”, o restaurante daquele homem baixo, cabelo preto, rosto gorduroso, devido às horas que passava em frente ao fogão, óculos com lentes tão, mas tão grossas e embaciadas, que até lhe permitiam ver vídeos, no pequeno telemóvel.

Entrámos no quilómetro 35!

 

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publicado às 18:53


Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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