Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


DE BESTIAL A BESTA ( DIA 32 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 07.06.18

IMG201806071820371EasyResizecom.jpg

 

De bestial a besta já fui algumas vezes ( não tantas assim, felizmente ).

Do céu ao inferno também já fui algumas vezes ( as suficientes ).

Nada espantado, é assim o caminho, não há grandes voltas a dar-lhe, é ser resiliente, ter a capacidade de lidar com problemas, de se adaptar às mudanças, superar obstáculos e resistir à pressão de situações adversas.

Quem nunca foi besta, nem bestial, quem nunca foi do céu ao inferno, nunca tocou ambos os lados da equação.

O meu último treino de séries foi infernal.

Ecoava na minha cabeça uma dúvida; quando é que vou recuperar disto?

Pior, questionava-me como é que não tinha atingido os patamares de intensidade exigidos.

Foi o inferno.

Escusa de perguntar; então porque corres?

Isso vinha já a seguir.

É que, depois, do nada há coisas que viram tudo ao avesso, ficando então o teu mundo na posição correcta.

Uma boa notícia e uma boa corrida e tudo muda.

Ou será, uma boa notícia é que te empurra para uma boa corrida?

Talvez tenha acontecido ambas as coisas no meu último treino, o melhor de todos, desde Janeiro.

Senti-me bem a todos os níveis. Choveu durante os cinquenta minutos de corrida. Era só eu, de olhos semi-cerrados, como eu tanto gosto.

Os primeiros quilómetros foram a um ritmo desenhado pelo treino que tenho feito, corri os primeiros quilómetros abaixo dos seis minutos por quilómetro.

Sabia que mais à frente ia sentir cansaço.

Estranhamente, a meio da corrida ainda ia abaixo dos seis minutos. Não quebrei, como nos outros treinos.

Stronger !

Senti isso.

Tentei manter o ritmo.

Devia correr abaixo das 130 BPMs, corri sempre acima das 140.

Sentia-me bem.

Consegui, finalmente, sair do patamar dos seis minutos e meio por quilómetro, que me estava a prender, como entre quatro paredes, dentro da minha cabeça, ao longo das minhas pernas.

Credo, sinto-me bem, ainda me sinto bem.

Houve um momento até em que limpei os olhos, olhei a pista lá ao fundo, vazia, o rio cinzento, escuro, como ele é nestes dias, cheguei a sentir-me o corredor mais giro da pista.

Não vi uma única pessoa durante cinquenta minutos.

IMG20180607195617011EasyResizecom.jpg

 

Fitei o longe e senti-me corredor, confesso.

Foi um grande momento, do meu melhor quilómetro, ia a 5.45”.

Depois foi voltar a controlar o treino, verificar as batidas cardíacas, o tempo de corrida, e já agora o ritmo.

Nada de especial, mas uma vitória, do José Carlos, o meu treinador, do Pedro Mimoso, o meu recuperador.

Graças a eles, depois da dureza de alguns treinos, consegui, finalmente, treinar na plenitude, gozando e tendo prazer no treino, cumprindo os objectivos definidos, voltei a gostar e a correr por prazer, embora estivesse em treino.

Mas, acho que é, basicamente, isto que pretendemos.

Se há dois dias eu estava no inferno.

Bastou as massagens do Pedro para hoje ter estado no céu.

Se no treino de séries fui uma besta.

Bastou uma boa notícia para me sentir bestial.

Amanhã é outro dia.

Começa outra corrida.

E, é sempre assim, até ao fim.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:25

IMG20180606015022EasyResizecom.jpg

 

 

Sai mais uma lição de vida para a mesa do canto.

Aprendi que conseguimos fazer coisas que nunca antes imaginámos fazer.

Coisas que vão para além, até, da nossa vontade.

Aprendi-o no calçadão, durante a minha última corrida.

Confesso que há coisas que me  fazem temer, coisas que para outros são “com uma perna às costas”, mas se tivéssemos todos a mesma paleta éramos todos Leonardos Da Vinci, e não somos.

No final da semana passada começou a penetrar no meu sub-consciente o meu último treino, o mais recente.

Tinha que correr três vezes quatro quilómetros num determinado patamar cardíaco, que entre outras coisas mais importantes até, me permitia baixar tempos, a cada quilómetro.

Foi assim nas séries de dois quilómetros e nas séries de três.

Também nunca as tinha feito na vida mas fi-las e dentro das instruções que recebi.

Mas, quatro quilómetros?

Vezes três?

Depois de um quilómetro e meio a aquecer e mais quinhentos metros, no final?

Espera, quatorze quilómetros a um nível (que me lembre) só consegui nos primeiros dois anos de corrida?

Aquilo andou ali, no meu sub-consciente, a atemorizar-me, a assombrar-me, porque conheço os meus limites, porque sei que estou agora melhor que em Janeiro, mas ainda distante do que serei em Setembro.

Chegou o dia.

Idealizei o treino, começar no  jardim, ir até Alhandra, um e meio mais quatro feitos, voltar dois quilómetros, ir para trás mais dois, segunda série concluída, de Alhandra ao jardim, fim de treino, chamem o 112.

Foi assim que o sacana do meu sub-consciente andou a meter uma pressão brutal em mim.

Sabia que conseguia fazer o treino. Sabia que não ia conseguir andar ao ritmo definido.

Acontece que, a meio da segunda série, já com sete quilómetros e meio nas pernas bati contra um muro que eu próprio meti, ali, à minha frente.

Já no treino do dia anterior tinha falhado. Só consegui treinar meia hora, devido à fadiga, potenciada por factores externos que não são chamados ao caso.

Isto da corrida é do caraças.

Estava eu a imaginar onde e como ia inventar pernas para a segunda metade do treino, a entrar em stress, até a fita de medição cardíaca me estava a fazer passar.

Eu explico, a determinação em concluir o treino era tanta quanto o meu corpo se recusava a treinar.

E, sublinho, não tem a apenas a ver com o treino.

Nos últimos dias, quando vou treinar, levo comigo um peso extra, uma dormência temporária.

Os meus últimos treinos, devido a factores externos, têm sido hard-core. Grau 5 na escala da loucura.

Só que é assim que te tornas mais forte. Não é como começa é como acaba.

Foi essa a lição de vida, naquele calçadão.

Parece fácil, não é como começa é como acaba.

Mas, alguém faz ideia do caminho que se faz até chegar ao fim?

Eu faço.

Os meus dois últimos treinos foram atípicos. Era eu, a correr contra a minha ansiedade, contra os minutos, contra as batidas cardíacas, contra as passadas, contra quase tudo.

-“ Não é como começa, é como acaba. Esse é o meu truque nas minhas corridas. E, resulta”.

Disse-me o Zé Duarte, a determinada altura.

-“ Cada um gosta mais do seu tipo de treino, mas as séries são das coisas mais duras que existe, só que dão te resistência e velocidade. Agora custa-te, mas quando chegar a Setembro vai produzir efeitos”.

O Zé Duarte apareceu-me, em sentido contrário, precisamente a meio da minha segunda série.

Andava ali a rolar, até às 140 BPMs (que são as batidas que eu devia ter no quase pico do esforço, ele andava a rolar).

Obviamente que continuou o seu treino comigo, no meu registo, assim como assim não passava das 140 BPMs ( ah ah ah ).

A nossa conversa desenrolou-se nos restantes quase sete quilómetros - ainda nos cruzámos com o Sousa e com o Rui.

O Zé Duarte tem mais quatro anos que eu.

Ainda jogámos à bola juntos, era um guarda redes do caraças.

Foi ele quem me indicou o meu/nosso treinador.

O Zé Duarte vai só fazer umas duzentas milhas ali a Chamónix - Mont - Blanc, uma daquelas provas de topo, onde está a elite toda.

  • “ Óh Zé durante aquelas horas todas em que é que pensas, um, dois dias…?”.

Que ali não existe o tempo, que te esqueces e não dás por ele passar.

  • “ Como quando éramos putos e vamos brincar e o tempo passava num instante, é mais ou menos isso”.

Por esta altura o Zé ia à minha frente e eu seguia-lhe a passada, assim é mais fácil.

  • “Eu, quando treino séries treino sempre acompanhado, e séries de quatro quilómetros então…”

Depois, contou-me o que tem que preparar para uma prova daquelas, a mochila, a roupa para o frio, a comida, o equipamento, o telemóvel, por causa dos dados.

  • “ Como é que tens bateria durante aquele tempo todo?”

Diz que leva “powerbanks”.

Eu, acompanhando o seu passo, atrás dele, pensava;

Puta que pariu…No bom sentido, claro, que eu não sou ordinário.

  • “ Quantas BPMs?”:
  • “ 145…”.
  • “ Vês, treinar séries sozinho não dá, digo-te mais, eu faço 200 milhas tranquilo, mas se faço uma maratona mato-me todo…”.
  • “ Se eu fizesse uma maratona em três horas e meia também morria”.

Por esta altura, a meio da última série das três, confesso, já me arrastava.

  • “ 140, vês, estamos bem”.

O tempo começava a ficar curto, ele ainda tinha que acabar o treino dele, ir buscar o carro a casa e ir buscar a filha.

  • “ Vai a correr”, disse-lhe eu.

O Zé Duarte já tem muita maratona, muita montanha, muito quilómetro, muita experiência.

A lição estava a chegar ao fim.

Eu nunca treinei corrida. É a primeira vez.

Explicou-me o Zé que as barreiras que aparecem à nossa frente são para ser destruídas, é essa coisa a que muitos chamam superação.

O trabalho que estou a fazer desde Janeiro tem um só objectivo: chegar a Setembro em pico de forma, mais rápido, mais forte.

  • “ Meu, isto faz parte, tens que superar, continuar e ultrapassar o desconforto, porque não é agora que conta, é depois. Não é como começa é como acaba”.

Faltavam quinhentos metros.

  • “Zé acelera”.

Terminámos o treino nas 150 BPMs.

Contei tudo isto ao meu treinador, estes meus dois treinos dificultados por factores extra.

E, dali, como sempre veio aquela força, que já antes o Zé me tinha transmitido.

  • “Zé, keep on going. Um abraço”.

IMG_20180607_002759.jpg

 

Começa a ser cada vez mais intenso, este processo, cada vez mais duro e desafiante, cada vez mais exigente.

Eu sei, foi a isto que me propus!

Se é para “morrer” morremos de pé!

Hoje foi dia de massagens e já ressuscitei.

Entrei morto. Saí novo.

Isto não é como começa é como acaba.

Parece fácil?

Eu aprendi à minha custa!

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:55

EU VI UM SAPO... ( DIA 31 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 07.06.18

IMG20180607002502EasyResizecom.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:55

LOVE & RUN (DIA 30 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 04.06.18

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:51

A CMTV ( DIA 29 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 03.06.18

IMG20170909124919EasyResize.om.jpg

 

 

Quem me conhece sabe que eu não falo em público sobre orgãos de comunicação social.

Não o faço, enquanto for jornalista, porque há mínimos, em sociedade, um deles é não dizer mal do próprio oficio, porque há lugares para o fazer.

Hoje quebro essa regra por causa da CMTV.

Por causa dela hoje saltei o treino.

Dei descanso às pernas, não sei se fiz bem.

Hoje, o treino era de intensidade.

Vou fazê-lo amanhã, só que, depois de amanhã tenho um brutal treino de séries (3 x 4 kms), mas não há como falhar, adiar é diferente. Adiei.

Ainda assim, porque a noite estava como eu gosto, solta e fresca, ainda pensei sair para fazer o treino de hoje.

Mas não.

Dormi pouco esta noite ( como ainda me acontece, algumas vezes) e sentia-me sem vontade de treinar. Não fui.

Mas, também não fui por causa da CMTV.

A palavra Nodeirinho.

Ouvi a palavra Nodeirinho e gelei.

Estava a passar uma reportagem sobre a aldeia do Nodeirinho.

Ali, só ali morreram onze pessoas, no maior incêndio que há memória.

A aldeia do Nodeirinho é uma rua, apenas.

Onze pessoas.

Um terço dos habitantes.

Vi lágrimas e vi testemunhos de pessoas que vivem num inferno, abandonado por todos.

Lágrimas, embargos de voz, olhares, súplicas, apelos.

Foi a 17 de Junho, está quase a fazer um ano.

E, continuavam os testemunhos, misturados com aquelas brutais imagens negras;

- “ Eu já só pedia que fizessem ali qualquer coisa, olhe ali, pela janela, aquela noite está sempre presente, aquele inferno, olhe em frente, tudo queimado”, e chorou.

A aldeia do Nodeirinho foi esquecida. Os sobreviventes, dezanove pessoas, que lá continuam, são pessoas traumatizadas, a quem foi negado o direito de fugir do negro ardido, cheiro que ainda paira no ar, porque na aldeia do Nodeirinho só o cheiro a queimado é uma ilusão forçada, tudo o resto é real.

As casas destruídas, a floresta, em todo o redor, queimada, o rostos das pessoas.

O rosto das pessoas.

IMG20170909124416EasyResizecom.jpg

 

Um terço dos habitantes morreram enquanto fugiam ao inferno, porque o diabo andava ali e ele nunca lá tinha estado antes.

Eu estive na aldeia do Nodeirinho, depois do diabo por lá ter andado.

Sim, eu vi, eu estive junto ao tanque - que a CMTV voltou a retratar - que salvou mais de uma dezena de pessoas, enquanto, à volta, literalmente à volta, o fogo era o monstro imparável, o calor era o rasto que o diabo deixava, a noite estava horrível e tragicamente iluminada por um laranja que tudo envolvia, no seu rasto de horror.

Tudo ali me chocou, porque eu só tinha visto na televisão.

Tudo me chocou, mas aquilo que mais me deixou sem tino foi o tanque.

O tamanho do tanque.

Um pequeno tanque. E, tentei imaginar aquela noite de sábado, aquelas pessoas, ali dentro, daquele pequeno tanque, enquanto tudo ardia, casas, lojas, mata, tudo ardia.

Tentei imaginar, mas parei segundos depois, porque não consegui.

Achei que era ofender a memória de todos mas, sobretudo, não consegui.

Nodeirinho não fica longe de Lisboa.

Mas, Lisboa está longe de Nodeirinho - e de outras pequenas aldeias igualmente destruídas, na alma e na terra agora queimada.

Eu estive na aldeia do Nodeirinho e escutei histórias daqueles que as viveram.

Conheci quem tivesse tido a coragem de ter estado fechado em casa, totalmente envolta em chamas. Conheci quem tivesse acolhido os primos que ficaram com nada do que tinham. Ele ficou queimado, com gravidade, porque quando fugia do fogo, com a mulher, decidiu voltar atrás para ir buscar o carro.

Caiu.

O fogo apanhou-o, mas sobreviveu.

Ele não sai de casa. A mulher abeira-se da porta, com o primo, e por incrível que possa parecer, eles conseguem sorrir, abandonados dentro do seu próprio inferno.

IMG20170909140316EasyResizecom.jpg

 

Eu estive na aldeia do Nodeirinho.

O tanque é tão pequeno que ainda hoje me custa a crer que tenha salvo tantas vidas das garras do diabo.

Os que morreram, ali, naquela noite, envoltos em terror e desespero, não conseguiram chegar ao tanque, por muito pequeno que ele fosse (que ele é).

Os que vivem ali, hoje, envoltos em terror e desespero, olham todos os dias para o tanque, e choram, sobretudo, por dentro.

Choram porque acreditam que na próxima vez o diabo não irá poupar o tanque.

Por agora, dormem sem receio que o fogo volte tão depressa, mas inquietos, em sobressalto, tristes, resilientes, que já não há nada para arder, por aqueles lados.

Nos próximos anos, se a alma lhes permitir, eles podem dormir, em desassossego.

O tanque é pequeno.

Nós somos o inferno.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:33

AMIGOS SEM ASPAS ( DIA 28 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 03.06.18

IMG2018053120402301resized20180603012736775EasyResizecom.jpg

 

 

Não via o Zé Carlos há mais de trinta anos, trinta anos.

Perdemos o rasto, um ao outro, até um dia.

Nós vivíamos no mesmo bairro e, por isso crescemos juntos, na Quinta da Mina.

No nosso bairro tínhamos o mundo inteiro só para nós.

Brincávamos ao touro, porque o Rui tinha um tio que lhe tinha dado uns cornos, que nos transformavam em destemidos forcados, em talentosos cavaleiros, em digníssimos touros. Jogámos ao alerta, e havia sempre um de nós que ficava a tarde toda a tentar “descobrir” os outros, porque os outros se escondiam no campo de futebol, atras do prédio do Luis “francês”, ou no depósito da água, ou dentro das “manilhas”, que existiam no fim da ladeira, e que faziam lembrar os bunkers das guerras que vemos nos filmes.

Putos a viver a vida a alta velocidade, em carrinhos de rolamentos, que nós próprios construíamos, na estrada do hospital, estrada abaixo, na “gáspia”, poucos automóveis havia, e os carrinhos de rolamentos tinham solas de sapatilhas, que faziam de travões, em caso de urgência.

Desvendámos imensos mistérios da vida, da vida de miúdos, quando brincávamos aos detectives, cada qual com a sua pistola e a sua maleta de mão, com “documentos da investigação”.

Imaginávamos o prédio do Covas e do Eduardo (situado mais abaixo, em relação ao meu prédio e ao do Zé Carlos) como sendo um mega arranha-céus, numa gigantesca metrópole, onde se passavam cenas de acção, elevador a cima, elevador a baixo, escondidos na casa da porteira ou deslizando nos corrimões das escadas, para não perdermos o bandido.

Havia sempre um que era “o rapaz”!

  • “Eu sou o rapaz”…

O “rapaz” era, naturalmente, o actor principal dos filmes, o que ficava sempre com a “rapariga” e aquele que nunca morria.

Grandes perseguições se fizeram, grandes tiroteios imaginários aconteceram.

O Eduardo morreu.

Morreu mesmo.

Soube-o agora, pelo Zé Carlos.

O Zé Carlos reapareceu-me na vida, depois de umas mensagens trocadas no Linkedin.

Fazia-lhe confusão como é que eu tirava as fotos das minhas corridas.

Lá lhe fui explicando, até que a dada altura me pergunta se eu sabia com quem estava a falar.

Fui delicado, expliquei-lhe que não, nem pelas coisas que ele me estava a recordar. Dessas recordações apenas reconhecia os nomes, e isso estava a fazer-me confusão.

Estava perante alguém tão próximo de mim, sem que eu conseguisse chegar até ele. O Zé Carlos contava-me histórias para me reavivar a memória, Faltava-me a cara dele.

Andámos dias nisto, até que um dia ele me enviou uma foto de quando era miúdo.

Pois.

Também eu fiquei assim, sem reacção.

Rapidamente chegámos ao Eduardo, que vivia no prédio do Covas.

O Covas trabalha nas OGMA, o Jorge é oficial superior na Armada, o Zéze perdi-lhe o rasto, o Rui tenho-o no Facebook, mas não me liga nenhuma, ao César, não sei o que aconteceu, nem ao Vasco, grande guarda redes era o Vasco.

Às vezes ficávamos no depósito da água, sentados, com as pernas para o lado de fora, a ouvir os relatos da taça dos Campeões, num rádio que falhava sempre as pilhas, à noite, depois de jantar. Outras vezes assaltávamos a casa da Comissão de Moradores (do bairro), enquanto os mais velhos tinham as suas reuniões sobre a comunidade. Nós iamos para a cave e éramos felizes.

Não havia mistérios para nós.

Mas sempre houve um mistério para mim.

Nunca o contei a ninguém, é a primeira vez.

O Eduardo era mais velho do que eu, e do que o Covas, o Rui e os outros; ele e o Zé Carlos eram os mais velhos do grupo.

O Eduardo era alguém misterioso, como a sua família.

O Eduardo era um desenquadrado com a sociedade, muito à frente no tempo dele.

A família era a avó, já muito velhinha, que lhe fazia pescada cozida com batatas, e o pai, alguém que recordo pelo seu semblante, um homem de pele escura, olhos enormes, caídos, ar de putanheiro e de jogador de casino.

Creio que nunca trocou uma palavra com nenhum de nós.

Trinta anos depois há muitos mistérios por desvendar, muitas histórias para recordar, muitas corridas para correr.

Se as corridas me têm dado a alegria de fazer amigos, foi por causa das corridas que, trinta anos depois, ali estávamos nós, outra vez.

Fomos correr juntos.

IMG_20180603_012317-01_resized_20180603_012736961.jpeg

 

Desde que comecei a preparação para a maratona nunca corri acompanhado.

Foi, de todas, a corrida onde me senti bem, sem quaisquer queixas.

Ficámos de voltar a correr juntos mas, sobretudo, ficámos de voltar a rebobinar o filme das nossas vidas.

Hoje fui correr uma hora.

Pela segunda vez, desde Janeiro - quando comecei a recuperação e a preparação - corri sem qualquer queixa. Consegui ter prazer na corrida.

Durante uma hora, só eu, comigo, como gosto, voltei atrás na minha vida, quando tinha sete, oito ou nove anos. Voltei a viver tudo outra vez.

Durante a corrida com o Zé Carlos não falámos daquele que era um dos momentos mais esperados, todos os anos, as fogueiras dos santos populares, quando fazíamos peditórios, na vila, para montar o balcão, com madeiras roubadas das obras, e para comprar o pão, as sardinhas e o vinho.

Depois, era correr por aquela ribanceira abaixo e saltar sobre fogueiras gigantescas, enquanto os vizinhos conversavam uns com os outros, e o bairro era o nosso mundo exclusivo.

Não falámos sobre isso, nem sobre nada do passado.

Corremos e falámos do presente.

É que eu quero voltar a tocar às campainhas dos prédios e fugir, como se fosse o dono do meu próprio mundo.

“Zé, anda para casa”, é a frase que me ecoa, quando a minha mãe me chamava, à varanda, lá do alto do quarto andar.

Por isso, Zé,  ainda temos muitas corridas para correr.

Muitas histórias para recordar, de um mundo que não era de mais ninguém.

Só nosso !

 

 

(NOTA DO AUTOR: Os títulos dos textos mencionam sempre um dia - DIA 28 DA MARATONA - esse número não corresponde efectivamente ao números de dias de treinos, pois comecei em Janeiro. É um número que corresponde ao texto, como se fosse uma página de um livro. Desfeita a dúvida)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:05

INNER PEACE ( DIA 27 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 24.05.18

IMG_20180524_160427_157.jpg

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:55

ATÉ À ETERNIDADE ( DIA 26 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 23.05.18

 

IMG201805221723551EasyResizecom.jpg

 

 

 

( Texto escrito há 48 horas, publicado dois dias depois devido à fraca internet, no paraíso, faz sentido )

 

 

Ontem voltei aos treinos de séries.

Treinei num sítio fantástico, quase tão fantástico, como o sítio que está aqui à minha frente, enquanto escrevo. É isto que vejo e que me rodeia, nos próximos dias.

A foto só não tem o som do ribeiro e da cascata, dos pássaros, devem ser dezenas de espécies, que parecem envolver-nos num concerto a várias vozes.

Na verdade, estou num local encantado, secreto, dentro de um bosque, que lhe dá o desenho que acabei de traçar.

O médico aconselhou-me várias coisas, treinar, treinar muito, viver, estar com os mais queridos, mas descansar, muito.

Provavelmente, não sabe, há tempos fui ao médico porque não conseguia dormir. Há dois meses que não dormia em condições. Ainda não consigo dormir em condições, mas já recuperei alguma estabilidade.

Não era suposto escrever isto, mas é uma questão de respeito.

O exercício que me foi recomendado pelo médico é aquele que eu faço há anos, a corrida, que chocou com a minha preparação para a maratona de Berlim. Uma casualidade.

Se devo treinar, porque o médico diz que devo, então, faço-o com a maratona em vista, algo que antecede em muito esta minha paragem profissional - temporária.

Por isso, nas minhas redes sociais vê publicações sobre as corridas, e tudo aquilo que tenha a ver com a terapia que estou a seguir, recomendada pelo meu médico de família. Nada mais, nem eventos sociais, nem rigorosamente nada que me faça sair destas de dentro destas duas paralelas; usar tudo ao meu alcance para dormir, uma noite, como deve ser, recuperar tranquilidade e serenidade.

O exercício, a alimentação, o descanso, a família, os amigos, um comprimido e a escrita, tudo conjugado, provocam o equilíbrio que estava a perder. Falta consolidá-lo. É o que estou a fazer.

Posto isto, de regresso aos treinos de séries, tomei consciência que andava enganado, que vergonha!

O treino de séries não serve, em exclusivo, para ganhar velocidade, serve, sobretudo, para ganhar resistência. Correr distâncias mais curtas, a um ritmo mais elevado, com curtos intervalos de recuperação. Aprendi à minha custa, até porque, quando treino séries, como ontem, as últimas são sempre um pouco mais longas que as primeiras.

Por isso fui ler e perguntei ao meu treinador. Na verdade, ele já me tinha explicado, mas é sempre assim !

Interessa-me o objectivo; correr três quilómetros a baixo dos seis minutos por quilómetro, foi cumprido. O problema - já reparou que em todos os textos há um problema - é que consigo encurtar o tempo e adaptar-me à intensidade, mas as BPM, agora, já não as atinjo como há umas semanas.

Para fazer as séries entre as 145 e as 150 Batidas Por Minuto tenho que correr muito mais rápido, em relação ao mais rápido que corro, nas séries, comparado com os outros treinos. E, não consigo. Quero dizer, até consigo, porque ao longo de cada série de três quilómetros, a partir de meio, as BPM vão para o patamar pretendido, mas só nessa altura.

Frustra um bocado, olhar para o relógio e ver 131, em vez de 142, embora esteja a correr mais rápido. Eu sei, é o coração que está mais forte.

Deixando os lamentos, o meu treino de ontem foi absolutamente fantástico.

Começou ao acordar, cedo, nove da manhã.

Tomei o pequeno almoço no alpendre da casa, contemplando o mesmo cenário da foto principal deste texto, mas de uma perspectiva superior, mais ampla.

Pássaros, muitos, cada qual na sua pauta, o som da água, na cascata, o fresco do bosque, o sol que entra pelas árvores, a espaços. Foi perante este cenário que demorei quase uma hora a tomar o pequeno almoço.

Meia torrada de pão escuro, com fiambre de frango. Uma fatia de bolo seco. Uma banana. Uma bebida de arroz com café de máquina- aqui no paraíso as casas são antigas, mas têm máquina de café. Tem tudo, até o bosque.

Seguimos para a eco pista, que fica a uns quatro quilómetros para lá dos portões do bosque encantado.

Um local brutal. Uma eco pista, ao longo do Rio Minho. Três quilómetros para cada lado. Rio, verde, com uma pista no meio. Foi assim, foi aqui.

Já recebi os parabéns do meu treinador, embora também ele me tenha levantado agora a questão. Bons ritmos - para mim - de corrida, mas pulsações de corrida de recuperação.

Às vezes penso que devo estar registado na maternidade do Entroncamento, na parte dos fenómenos, mas depois lembro-me que não, são mesmo coisas enigmaticamente estranhas, que me alavancam a vida, encantadoramente enigmáticas, como este sítio para onde me retirei. Retiro.

Hoje faz vinte anos.

Há vinte anos um sonho de miúdo tornou-se uma realidade, materializava-se, concretizou-se.

Há vinte anos casei com a mulher da minha vida.

Vinte anos depois, como que num sonho, viemos parar a este lugar encantado,como nós, tanto nos encanta.

Hoje devia ter treinado, mas não treinei.

Amanhã vamos correr juntos (as celebrações em privado serão inúmeras, brutais, estou a brincar, mas quase). O sono tranquilo há-de chegar, que começo a não ter idade para ansiedades.

Aqui, no bosque encantado, contigo, para sempre. Tenho a eternidade toda.

Temos toda a eternidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:32

EU HEI DE CORTAR A META ( DIA 25 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 14.05.18

Correr é ser solidário, livre, corajoso, humilde, humano, maior.

Rumo a Berlim, com receios, mas inspirado por cenas como esta.

Faltavam 200 metros, apenas 200, como ir daqui até ali.

Só quem nunca levantou o butt do sofá é que pode achar que 200 metros é só ir daqui até ali.

Duzentos metros é ir dali até ao limite mais estreito da existência.

Eu hei-de cortar a meta...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:55

EM ESTADO DE CHOQUE ( DIA 24 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 14.05.18

IMG20180512001542EasyResizecom.jpg

 

 

Estou em estado de choque.

Não é caso para tal, mas eu gosto de dramatizar um bocado, para a coisa subir de tom.

Estou um pouco em estado de choque, isso sim.

Entro hoje no terceiro mesociclo, na minha preparação para a minha primeira maratona.

Mesociclo é uma palavra estranha, no meu caso consiste em quatro semanas de treino, quer dizer que oito semanas já lá vão.

Se o primeiro mesociclo foi para recuperar as minhas pernas, o segundo já teve como objectivo começar a re-adaptar-me à corrida.

Este terceiro mesociclo deixou-me abananado e ainda nem o comecei.

Depois de o receber e de o ler enviei um email ao José Carlos Santos, o meu treinador.

Dizia mais ou menos isto: vou ter que subir para patamares de intensidade para os quais não sei se as minhas pernas conseguem estar à altura.

Tinha acabado de enviar o email quando a minha mulher me pergunta como tem corrido a preparação.

Contei-lhe que sinto evolução, se calhar mais lentamente do que eu pensava, mas sinto a minha corrida a evoluir.

Confidenciei-lhe o meu drama; a partir de uma certa altura as minhas pernas, sem dor, nunca mais tive dores, não conseguem responder mais-além. Mantenho aquela cadência e dali não consigo passar.

IMG20180512001725resized20180512121750350EasyResizecom (1).jpg

 

É, quando acabo de lhe dizer que "isto está a sair-me do bolso, está a começar a ficar exigente, mas foi por isso que me meti neste desafio, só tenho que me aguentar e acreditar", que recebo o email de resposta, do meu treinador, que estava em Espanha com a selecção portuguesa de Trail, da qual ele é o selecconador nacional.

Escrevia-me ele: "o que é importante são as batidas cardíacas por minuto, tens que as atingir".

Isso sei eu, pensei, e disse-o à minha mulher, "o problema é correr duas vezes três quilómetros acima das 145 BPM e as pernas colaborarem, deixarem de se sentir ultra-pesadas ( sinal que os treinos estão a dar resultado)".

- "Sabes o que me respondeu o Zé Carlos?", perguntei à Carla.

- "O quê?".

-"Aquela velha máxima, mas que é uma verdade absoluta: - no pain, no gain".

Confirmo.

Sem sofirmento não há conquista.

O sofrimento faz parte.

A lei da natureza impede a evolução, se não formos mais-além, se não puxarmos os nossos limites, se não sentirmos o cansaço.

Faz parte. É uma parte. 

Do outro lado da moeda está o prazer, o prazer de conseguir, o prazer de ver, o prazer de sentir, porque a seguir a uma pain vem um gain, como a tempestade a a bonança.

Mas, que dá para ficar meio em estado de choque dá, digam o que disserem. 

Começamos assim;

segunda feira, trabalho core e tronco e braços.

Terça feira, dez minutos de aquecimento abaixo das 130 BPM, a seguir duas vezes três quilómetros numa janela entre as 145 e as 150 BPM, e mais cinco minutos, no fim. Ou seja, tenho que fazer seis quilómetros na casa dos 5,30"/km. Medo.

Quarta feira, cinquenta minutos, nas 130 BPM.

Quinta feira, quinze minutos de bike e trabalho de pernas, massagem.

Sexta feira, uma hora de corrida, abaixo das 30 BPM.

Sábado, descanso.

Domingo, uma hora e um quarto e corrida. No início 130 BPM, no final 145 BPM.

Repete nas três semanas seguintes, mas aumenta gradualmente, ao longo da semana.

Para a próxima, em vez de duas vezes três quilómetros será quatro vezes três quilómetros, e por aí fora.

Neste terceiro mesociclo posso dizer que começo a treinar  para a maratona.

Até porque, ia eu uns parágrafos lá em cima, recebo este email do meu treinador:

IMG20180514154019EasyResizecom.jpg

 

Confesso, ainda ontem, como me acontece algumas vezes, no meio da Lezíria, no meio da minha corrida dei comigo a pensar que não vou conseguir fazer a maratona.

Depois, lembro-me de emails como este, de amigos que começaram a correr depois de mim e fazem maratonas acima dos níveis em que ainda me encontro, lembro-me do dinheiro que esta aventura me está e vai custar, lembro-me dos compromissos de amizade que assumi, lembro-me, sobretudo, que me meti nisto para me confrontar comigo próprio e dar início a um novo ciclo na minha forma de viver e na minha vida.

É muito importante, para mim, chegar a setembro em forma e fazer a minha primeira maratona, mais que importante, um desafio decisivo, enquanto ser humano. Só que, já só faltam quatro meses.

E essa é a minha dúvida, será que nestes quatro meses vou conseguir tirar um minuto a cada quilómetro que corro, na verdade é isso que me falta.

Correr um quilómetro até seis minutos vezes quarenta e dois quilómetros.

A dúvida é minha, a certeza é a do meu treinador e do meu recuperador, Pedro Mimoso, com quem acabo de falar ao telefone.

Eles têm a certeza.

Quem sou eu para duvidar?!

IMG20180512001119resized20180512121136686EasyResizecom.jpg

 

Falamos no final desta semana, para ver como está a correr esta nova e dura etapa da preparação.

Até porque, este fim de semana decidi perder dois quilos até sexta feira.

Hoje acordei por volta do meio dia e almocei o que a foto documenta.

Comer de três em três horas, cortar com doces, fritos, gorduras.

Se na sexta feira tiver perdido dois quilos, e se o meu corpo e cabeça tiverem aguentado o plano de treino, a minha dúvida cai por terra.

Se os outros acreditam em mim, porque raio eu não hei-de acreditar?

Vou comer um iogurte, uma banana, que daqui nada há treino.

E, que bom que isto me tem feito à cabeça, nestes últimos dois complicados e difíceis meses. 

Dois meses difíceis, porque como diz um amigo meu "a vida não é só correr".

Mas, é a correr que me equilibro e reencontro com a vida, embora demore, está a demorar, o meu reencontro, tal como a minha corrida, que me levará à forma perfeita.

Eu sei, tudo tem o seu tempo. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:22


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D