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Por esta altura eu já ia a temer o pior, em silêncio.

Por esta altura eu já ia a pensar que dali a quatro quilómetros estava a chegar à meia maratona, o meu ponto crítico.

Disse-me o meu treinador, antes de partir para Berlim,

“tu tens fuel para uma hora e meia de corrida seguida, o resto depende de ti, mas se quiseres o teu fuel aguenta a maratona toda, é como te digo, depende de ti, da tua cabeça, sobretudo”.

Ao quilómetro dezassete as pernas ainda iam leves, a minha respiração, que durante todo a maratona só ela, a minha respração, nunca me traíu, só ela não me traíu, tudo o resto apanhou-me na curva;

correndo, vivendo e aprendendo.

Ainda ia bem, por isso comecei a pensar que aquilo que estava para vir, depois de chegar à meia maratona, podia ser ultrapassado com mais ou menos dificuldade.

Quero dizer, sei-o agora, estava a tentar-me convencer do impossível.

Um dos meus erros na preparação da maratona de Berlim foi não ter corrido o treino de trinta quilómetros, fundamental, quando se preparar uma maratona.

Não o corri, porque no dia 26 de Agosto, domingo, dia em que fazia os treinos longos, quando saí para treinar achava que era um treino de 25 quilómetros que devia fazer e não o de 30 quilómetros.

Enganei-me.

Estava muito transtornado, como há muito não me sentia.

Na véspera, no sábado, tinha sido confirmada a morte do meu amigo Grilo, nas televisões.

Foi-me confirmada, pessoalmente, ainda antes das televisões a confirmarem.

Era uma notícia que já esperava.

As restantes notícias, as que se lhe seguiram, essas não, mas aquela eu já esperava.

Mas, fiquei de tal forma transtornado, que me equivoquei com a data do treino mais longo de todos, fundamental, para derrubar “o muro” e o "muro" aparece sempre durante uma maratona.

Nesse domingo saí de casa, fui a correr desde o Centro Comercial Vasco da Gama até quase para lá de Algés e voltei. Corri durante duas horas e meia. Metade do tempo que corri em Berlim.

Só depois, chegado a casa, quando fui registar o treino é que reparei que não devia ter corrido esses 25 quilómetros, mas devia ter corrido 30.

Pode achar que mais cinco, menos cinco, não é relevante.

É.

É, de tal forma relevante que faz toda a diferença entre passar “o muro” ou chocar de frente com ele e viver o inferno na terra, até ao último metro, tal como me aconteceu.

Ainda tentei convencer o meu treinador a fazer esse treino no domingo seguinte, mas não era aconselhável porque ia entrar na fase descendente da preparação, retirar carga, não dava, podia comprometer toda a preparação e a própria maratona.

Fui para Berlim, assim mesmo.

Ao quilómetro dezassete, este que aqui descrevo, mesmo indo bem, já ia a fazer contas de cabeça e a assustar-me antecipadamente.

Este foi outro dos meus erros estratégicos. Eu fui o meu maior pânico. Não foi a distância da maratona.

Arrependo-me, claro que sim, como me arrependo de mais uma meia-dúzia de decisões que tomei antes, durante e  depois, mas de pouco me adianta o arrependimento, se dele não tirar lições, porque isto de correr tem duas saídas, ou ganhas ou aprendes.

Eu aprendi!

Aprendi, tanto que Berlim me ensinou.

Sobretudo, sobre a nossa condição, a condição humana.

A propósito do meu querido amigo Grilo, Berlim ensinou-me a desprezar os vermes, os seres rastejantes, frustrados, tipos como aquele que, há umas semanas, decidiu utilizar as redes sociais para tentar queimar-me vivo, na fogueira da Inquisição dos loucos, por causa de um texto que aqui escrevi em homenagem ao meu amigo.

Como se de um crime se tratasse.

 

( https://thecatrun.blogs.sapo.pt/a-morte-nao-te-levou-85775 )

 

 

Um tipo, queimado, que tentou acusar-me do "crime" de elogiar a mulher que terá morto o meu amigo, numa altura em que ninguém imaginava que ela o pudesse ter feito. Muito menos eu.

Um inquisidor nojento, que usou termos nojentos, para escrever sobre um assunto nojento, sobre um texto que eu dediquei a um amigo meu, uma homenagem que lhe prestei, sentida, sincera.

O meu amigo estava desaparecido.

Só depois se confirmou o seu assassinato, não foi a sua morte, foi o seu assassinato.

Mas, mesmo assim, a futilidade e a ausência de sentimentos levou alguém a ter a falta de lucidez para me apontar o dedo, só porque sim.

Esse tipo, não precisa de saber que, ainda hoje ecoa na minha cabeça aquele último cumprimento, quando nos cruzámos no jardim, eu e o meu amigo: "um abraço, amigo Zé", ao qual respondi, como sempre, "um abraço, amigo Grilo".

Não precisa de saber, nem tem que saber, por que a sua falta de inteligência, de moral, de coluna vertebral não lhe o permite, sequer.

Mas, aquela troca de palavras, ainda hoje ecoa na minha cabeça e há-de ecoar, para sempre.

Um tipo que me acusou de procurar palco e protagonismo à conta do assassinato de um  amigo meu.

Um tipo que tentou colocar em causa a minha integridade profissional e pessoal, como se a palavra dele valesse o que quer que fosse, sobretudo, quando comparada com a minha carreira, com o reconhecimento que o meu trabalho me trouxe.

Mas, tentou.

Provavelmente, porque imaginaria que eu iria apagar o texto, que aqui republiquei, agora.

Provavelmente, porque me odeia, sem sequer me conhecer, ele lá terá as suas razões.

Provavelmente, porque se julga tão inteligente que não consegue ter a lucidez suficiente para perceber que não o é.

Apenas tem uma ligação à internet, só isso.

Ele, mas não só, também alguns meus amigos (reais) que colocaram "likes" naquele texto abjecto e inaceitável, mas que continuaram a ler e a apreciar os meus textos, todos os dias.

Provavelmente, os mesmos que estão agora a ler este texto.

Não são inteligentes, são iguais a ele, limitam-se a  saber utilizar o wi-fi.

Hoje é domingo, e eu quero que este final de domingo seja duro, como naquele dia, como na minha maratona.

A fogueira moderna, onde ardem as aves-raras.

Ardem sem darem conta, e isso é que é verdadeiramente revelador, muito mais crú que o meu desprezo.

Sabem lá eles o que é escrever com a tinta que nos sai da medula.

Sabem lá eles, essas aves-raras que procuram palco, o que é o pulsar de um coração honesto, doce e sério.

Eles não sabem, mas eu sei que um perú nunca passará de um bicho muito feio.

Eles não sabem, mas eu sei que o ser humano consegue ser um bicho muito feio.

Alguns desses bichos revelam-se no momento, outros tardiamente mas,diz a história que os perús desta vida acabaram, inevitavelmente, dentro de um forno, desossados, depois de ser embriagados e levados para a sua a morte. Queimados.

É a sua condição.

Eu acredito no homem-bom.

Os outros, limito-me a desprezar.

Não que me sinta bem por isso, é uma questão de higiéne, apenas.

Aprendi, em Berlim, imensas coisas sobre a vida e sobre a corrida, sobre o significado da palavra desprezo, o sentimento mais cruel que alguém pode sentir, pelos perús desta vida.

Agradeço a Berlim, por tanto.

Por ter mexido, profundamente, comigo, enquanto ser vivo, por ter sido a lição de vida que me faltava, que eu procurava, precisamente, porque me faltava.

Berlim tornou-me mais imune, mais forte, porque me deu aquilo que eu precisava, para me conhecer melhor, através de uma viagem interior que eu quis fazer.

Foi por querer que a fiz.

Porque eu sei sorrir.

Porque eu gosto de sorrir, mesmo que sorrir signifique sofrer.

Há momentos para tudo, até para isso.

Ainda hoje, pouco mais de um mês depois, sinto o meu corpo inchado, por fora e por dentro, tamanhas foram as alterações que Berlim em mim provocou.

Bem sei que é uma alucinação da minha cabeça, mas nem só os perús desta vida têm o direito à sua exclusiva alucinação.

Eu também tenho, nem que depois consiga fugir do fogo que consome a alma, os músculos, as mãos, a cara, ao contrário deles.

Sobreviver.

Aprender.

Decidir.

Ser.

Viver.

A equação é nova. É minha. Não a empresto.

Quando te propões a um desígnio e passas cinco horas em cima de ti mesmo, sem parar, para atingir esse desígnio, aprendes muito, passo-a-passo, dor-a-dor, palavra-a-palavra, sorriso-a-sorriso, porque embora possa não parecer eu sorri muito, em Berlim.

A grande lição guardo-a agora e dela não abro mão,

nunca alguém me roubará o sorriso.

Era preciso correrem mil maratonas seguidas, sem parar.

A mim bastou-me correr uma só para perceber isso.

O sorriso é meu.

A fogueira que arda à vontade!

Entrámos no quilómetro dezoito.

 

 

 

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Se há coisa que eu não sou é ingrato.

Passou um mês.

Passou um mês desde que me coloquei à prova, perante mim mesmo, como nunca antes o havia feito.

Quando terminei a minha maratona, a caminho do apartamento, detive-me, ali, a observar, emocionado, todos (as) aqueles(as) que estavam a chegar, também eles a cumprirem os seus sonhos.

A primeira coisa que me veio à ideia foi realizar que, depois de todo aquele meu sofrimento, havia milhares de pessoas atrás de mim, o que é que elas terão passado até ali chegarem, aquelas que chegaram, porque três mil ficaram pelo caminho.

Uma maratona não está ao alcance de qualquer um, está ao alcance de todos os que se comprometem a corrê-la, mas não ao alcance de qualquer um.

Enquanto ali estava, a observar, emocionado, aquela mancha de gente, veio-me à ideia uma segunda coisa;

as centenas - foram centenas -de pessoas que me acompanharam durante os nove meses em que andei a treinar, as centenas de pessoas que, durante aquele domingo de setembro se tiraram dos seus cuidados para torcerem por mim, como se fossem elas que ali estivessem a correr.

Na verdade estavam.

Todos(as) comigo, durante aquelas cinco horas.

A todas essas pessoas, muitas que só me conhecem da televisão e das redes sociais, a todas elas, a minha gratidão será eterna.

Cheguei a confessar, antes de ir para Berlim, que por vezes me assutei com a corrente que estava criada em meu redor (tentei sempre afastar os aproveitadores, que existem sempre, quando coisas destas acontecem, algumas vezes consegui, em outras não, mas a água tem sabedoria, como veremos mais à frente).

Levei-vos a todos(as) vocês no meu coração e, porque não sou ingrato, essa é uma das minhas características, porque a força que me deram e que me transmitiram foi imensa, pensei em vós, no durante a corrida, no final da corrida.

Emocionado, como sempre.

Recordemos.

Recordações.

Passou um mês.

Tanto mudou.

Tanto mudou em mim.

Por isso fui a Berlim, correr a "minha" maratona, porque esta foi "a minha maratona", para provocar profundas mudanças em mim, enquanto homem, enquanto marido, enquanto profissional, enquanto pai, enquanto filho, enquanto irmão, enquanto amigo, enquanto ser humano.

Consegui.

Hoje, um mês depois, sou uma pessoa diferente.

Mais forte, mais sabedor, mais feliz, mais duro, mas eu.

Lembrei-me hoje, um mês (e um dia) depois, da sabedoria da água: "ela nunca discute com os seus obstáculos, ela simplesmente os contorna".

Foi isso que fiz. Foi isso que aprendi em Berlim.

Sou "Maratonista" e isso, por muito que o mundo queira, isso jamais alguém irá mudar.

Foi por isso que me sujeitei a muita coisa, coisas que jamais alguém se sujeitaria, antes, durante e depois.

Foi por isso, para poder dizer, em voz bem alta: "Sou Maratonista".

O resto, o resto são ilusões.

Ilusionistas.

Ilusionismo.

Faz parte da condição humana.

E, tão diferente que o ilusionismo é da magia.

Magia.

Foi isso.

Magia.

Foi por isso.

Entrámos no quilómetro dezassete.

 

 

 

 

 

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Faz hoje um mês, por esta altura, estava com o maior empeno da minha vida.

É uma daquelas coisas que não se esquecem.

Passa, como tudo na vida, mas é uma recordação só nossa, tão íntima que, um mês depois, parece que de repente voltei a sentir o mesmo inesquecível empeno.

Valente empeno.

Acabei a corrida e, durante os quatro ou cinco dias seguintes movi-me exactamente como o senhor do vídeo que se segue, nem mais, nem menos, tal e qual assim, como ele.

 

 

 

Apesar de tudo, ainda conseguia ter sentido de humor.

"Um andar novo", disse eu para mim próprio, que não havia mais nenhum português por perto, isto é, tinha entrado na fase de falar sózinho, mas mal eu sabia o que me esperava.

Passou um mês apenas, parece que passou toda a eternidade, e um mês muda tudo e tanto, parece longe, parece ontem, lá tudo atrás da memória.

Passou apenas um mês e quatro quilos.

Foi quanto engordei à conta da maratona, que a culpa da merda que fazemos, normalmente, nunca é nossa é sempre dos outros.

Haja coragem.

As desculpas, cada qual inventa a sua, cada qual mostra aquilo que quer mostrar, revelações em cima da balança, digo eu, diga lá, não é a vida, ela própria uma balança?

Porque corri uma maratona há um mês advoguei-me o direito de comer que nem um buda.

Um grande buda!

Bem sei que está a pensar que os budas comem pouco, mas que importa, no caso?

Quer estragar-me o texto?

Muito bem, adiante…

Comi, comi, comi e em um mês inchei uns bons quatro quilos, ao abrigo de ter corrido uma maratona, para além de ter inchado por causa da maratona, em si - nela, não em si, caro(a) leitor(a).

O ser humano é, realmente, muito estúpido, tem outros predicados bem melhores, mas ninguém é perfeito, e a estupidez é quase, como diria Einstein, como o Universo.

Infinita(o).

Portanto, se eu corri tanto, podia comer mais do que corri.

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Pensava eu, o estúpido, que eu pelo menos olho-me ao espelho, todos os dias!

Agora, estou a pagar por isso, que nesta idade perder quatro quilos, com o metabolismo lento, como o meu, é uma tarefa tão complicada quanto correr a maratona, maldita maratona (ler com um sorriso, sff).

Por isso ando há três semanas a malhar todos os dias no ginásio. O Orlando fez-me um porgrama de treino diferente, todos os dias.

Treino seis dias por semana, descanso um dia, mas ando divertido, apesar de o fazer por obrigação.

Obrigado eu faço, mas chego a um ponto que mando tudo dar uma volta, neste caso obriguei-me, entre aspas, para conseguir recuperar a silhueta bela e, mais a sério, para descansar das mazelas do empeno e da corrida.

Corro três vezes por semana, duas corridas integradas nos treinos de ginásio, cerca de meia hora cada e ao domingo, aí corro os meus dez quilómetros.

Voltei a adquirir o prazer de correr.

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Cá entre nós, que ninguém nos ouve, aqueles nove meses “obrigatórios”, sem aspas, irritaram-me.

Os dias seguintes à maratona também.

Na verdade, o antes e o depois irritaram-me, mas o durante, o dia da maratona, a maratona, ela própria, apesar de tudo - destas histórias todas - foi delirante. Foi por isso e para isso que vivi intensamente, para aquela corrida única.

Por isso, tolerei o antes e o depois, para poder viver tudo o que vivi naquele domingo.

Mas que empeno!

Lembra-se do senhor a descer as escadas do metro, no vídeo lá em cima?

Eu andei assim, com um andar novo, literalmente novo, durante vários dias.

Até para me levantar ou sentar, para entrar ou sair do carro, até para me virar na cama, precisava de uma grua que não existia, imagine o esforço?

Imaginou? Boa!

Depois de ter cortado a meta, das fotos da praxe, da cerveja para celebrar, dos abraços e beijos à família e amigos, aquilo que eu mais queria era…nem sei bem o que era, confesso.

Naquela altura, já depois de ter ficado frio, cerca de uma hora depois de ter cortado a meta, o meu corpo, sobretudo as minhas pernas gemiam por todo o lado, ao ponto de eu não saber se queria deitar-me, sentar-me, dormir, ou sequer estar vivo.

Era o início do empeno monumental.

Só que eu não sabia da hsitória a metade.

Pensava que aquilo passava assim sem mais nem menos, passava, com o plano de recuperação, pensava eu.

Quando deixei toda a gente, família e amigos, que naquela altura ainda estavam no relvado, em frente ao Reichstag, a conviverem uns com os outros e me encaminhei para o apartamento, a uns quatricentos metros dali, porque na verdade o que eu queria era estar sozinho, com o meu sofrimento (rir, de novo),  tive uma surpresa, uma enorme surpresa;

Eu pensava que tinha sido dos últimos a cortar a meta, em Berlim, afina demorei cinco horas e onze minutos, que os segundos dou de barato.

Nada mais errado.

Uma hora depois ainda havia heróis, uma enorme mancha de heróis, uma marcha triunfal, uma hora depois da minha chegada, que se encaminhava para as Portas de Bradenburgo, a menos de um quilómetro da tão desejada meta.

Heróis, sem mais.

 

A um mês de distância os meus gritos de incentivo podem parecer patéticos, mas eles, os que ali iam, eles não acharam, de certeza.

Eu também não achei nada disso, quando me gritaram durante toda a corrida.

Reparou quando eu disse num inglês quase perfeito que "isto é lindo", reparou naquele casal com a bandeira do México que pareceu ter ganho asas?

Pois, pateta sim, mas feliz, eu!

Novos, velhos, a passo, a correr, a rir, a chorar, com dores, sem dores, heróis, ponto. Sem mais.

Quem começa e acaba uma maratona é um herói.

Para mim é um herói.

Corra em três, em quatro, em cinco ou em seis horas, herói. Sem mais.

Bom, se correr em duas horas e muito pouco, como o Kipchoge, nesse caso já não é herói coisa nenhuma.

É um fenómeno.

Não conta.

Conta sim, porque há heróis que são fenómenos, não somos todos apenas humanos.

Ali fiquei, a filmar quem chegava, não sei bem porquê, talvez para poder escrever este texto e ilustrar com um vídeo, talvez porque quis registar a marcha heróica, para me deliciar depois a ver, talvez porque, não sei, talvez só porque sim, porque eu estava ali, porque eu lutei para ali estar, porque eu estava feliz, muito cansado, muito empenado, mas muito feliz.

Lembro-me de ter feito um directo, no Facebook, sobre os heróis que chegaram depois de mim, lembro-me de ter tido mais um rasgo de estupidez e de ter sublinhado que o meu penteado não estava em conformidade, porque eu ainda não tinha chegado a casa e estava com um aspecto medonho.

Sorte de quem viu o directo, e foi muita gente, que o Facebook ainda não tem cheiro, mas lá chegará.

Parei, ali, junto às baias, para ver quem chegava, para me rever nesses heróis, para saborear, sozinho, aqueles instantes.

Peço desculpa pela qualidade do vídeo, mas isto não dá para tudo, para correr, para escrever, para gravar, lamento, mas não sou multifacetado (rir, de novo, sff).

Parei ali para ganhar forças, que não consegui ganhar, para descer as escadas, como o senhor do vídeo, e atravessar o metro, que dava acesso ao outro lado da rua que me levaria a casa.

Não havia outra forma, a alternativa era atravessar a corrida, incomodar quem ia em sofrimento ou em êxtase, depende, saltar as baias e seguir o caminho mas, e forças para isso?

Optei por passar pelo metro.

Antes, antes ainda me sentei num dos bancos que havia na avenida, junto a um casal que estava acompanhado pela filha.

Deviam ser britânicos, falavam inglês, ou norte-americanos, talvez australianos.

A prova que a estupidez é como o Universo, no vídeo eu também gritei em inglês e, no entanto, sou português, infinto, infinita, adiante que isto está quase a acabar.

Sentei-me junto a eles.

Sentei-me, a muito custo, empenado.

Sentei-me, eu do lado direito do banco, ele ao centro, a filha do lado esquerdo e a mulher junto à miúda, em pé.

Sentei-me, olhei para ele, sorrimos.

Estava na cara.

Só não sei é como é que ele chegou a casa.

Nem eu.

É que um empeno nunca vem só.

Entrámos no quilómetro dezasseis.

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Correr uma maratona é muito mais difícil do que escrever uma maratona.

Garanto.

Eu sei, porque já corri uma.

Eu sei, porque estou a escrever uma.

Quilómetro a quilómetro.

Há nesta corrida em linhas escritas quem, por direito próprio, mais que não seja porque gosta de ler o que eu escrevo, a sério, há quem goste de ler o que escrevo, dizia, há quem me pergunte:

“Então, não há mais textos?”…

Claro que há mas uma maratona demora tempo, por muito rápido que o escritor seja.

Isto da escrita corrida tem dias, momentos, embora pareça que é quando um homem quiser.

Nada mais errado, isso é o Natal, quando um homem quiser, com a escrita não é bem assim.

A pessoa precisa de inspiração, a pessoa precisa de assunto, a pessoa precisa de ter vontade, a pessoa precisa, imagine, de ter coragem.

Correr uma maratona, escrever uma maratona, exige bastante coragem.

Garanto.

Eu sei, porque já corri uma.

Eu sei, porque estou a escrever uma.

Deixa-se no asfalto pedaços de nós, marcas que trazemos connosco, para sempre, coisas que só nós guardamos e escondemos, até de nós mesmos.

A escrita é um pouco assim, é preciso ter coragem para escrever, coragem para mostrar as nossas marcas, os pedaços que deixámos lá no asfalto, mesmo que escondamos tanto do muito que vivemos.

Há tanto de vida na escrita quanto o há na corrida.

Dito isto, penso que já percebeu que o acto de escrever é, por vezes, penoso, para mim.

É mesmo. 

Às vezes falta-me a coragem, outras a bateria do computador.

Se calhar os escritores a sério dizem o mesmo.

Eu não passo de um simples Técnico Instalador de Palavras.

Há algum sofrimento misturado com algum prazer, alguma entrega misturada com alguma indecência. É indecente revelarmos fragmentos de nós. É sempre indecente e corajoso.

Mas, quando coloco um ponto final sinto o mesmo que quando corto uma meta;

sou eu, apenas eu naquilo que me constrói, apenas eu naquilo que me faz sentir ansiedade e inquietação.

A vida, a corrida, a escrita.

Um triângulo que só consegue ter as pontas ligadas se transpirar alma, como eu qie transpiro muito quando corro, muito menos quando escrevo. São formas diferentes de sofrer e de sorrir.

Contrasta um tudo nada com a ideia que temos dos alemães. Preconceitos.

São conhecidos pelo pela frieza.

Ideias pré-feitas.

Percebi em Berlim que, neste cenário de ideias já formadas, os alemães têm uma adoração, diria, colectiva à organização.

Tudo funciona.

Mas, tudo funciona à velocidade deles, à sua maneira, dentro da sua vontade.

Funciona, de forma organizada.

Ainda que pela frente tenham apressados portugueses, mais criativos, é certo, mas muito, muito mais desorganizados.

Ali, em Berlim,  a fama dos alemães é levada à letra;

Por exemplo, levantar o kit, com o dorsal, o chip (que controla o tempo da corrida), e mais uns autocolantes é feito em tempo recorde. Não se levanta mais nada, a não ser que se pague.

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Nada que me espante.

É sempre assim, nas corridas por onde tenho passado e já lhes perdi a conta mas, em Berlim, estamos a falar de 43 mil almas. Cenário perfeito para o caos.

Senão, repare neste video que fiz, quando me dirigi à feira, no antigo aeroporto, para ficar definitivamente com os dois pés na 45ª Maratona de Berlim.

Estávamos na véspera da coisa e eu não sabia bem se estava nervoso, ansioso, sei que estava estupidamente feliz.

 

 

 

Parece fácil.

Parecem formigas.

Nunca vi tanta gente numa só corrida, no caso, na véspera da corrida.

E, tudo fluiu, sem stress, sem tensão, tudo envolvido num ambiente feliz, tudo envolvido numa única razão, pareciamos pastores de uma daquelas religiões que eu não respeito. Respeito quase nenhuma. Diria que nenhuma, mesmo, embora não lhes falte ao respeito.

Correr.

Vivi dias muito felizes, em Berlim.

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Dias que são, infelizmente, irrepetíveis, porque uma história bonita só se escreve uma vez, mesmo que o escritor a divida em 42 quilómetros, mais 195 metros.

No fim desta maratona vai perceber porque é que, sempre que escrevo, faço questão de sublinhar os 195 metros finais.

Até lá, tem duas opções, ou deixa de me ler, ou corre comigo até ao fim e, no fim, vai entender.

São apenas alguns metros.

São metros inesquecíveis.

Vai ver que é fantástica a sensação de cortarmos a meta juntos.

A organização dos alemães sentiu-se nesse sábado, quando fomos levantar os kits à feira, sentiu-se durante a corrida, nesse domingo, onde os postos de abastecimento estavam bem distribuídos, cheios de opções, fiquei com a sensação que estava tudo tão detalhadamente calculado que a ideia deles era que a experiência fosse em tudo positiva.

E, quase que foi.

Se reparar, até agora, ainda não corri um único quilómetro de texto com uma única ideia negativa.

Mas, ela vai chegar, muito em breve, que isto de correr uma maratona não é um mar de rosas.

Muito menos escrever 42,195 quilómetros.

Peço-lhe paciência, é que ainda nem vamos a meio da corrida e eu já vou com algum cansaço.

Aina nem cheguei à meia-maratona, imagine.

Prometo não desistir, porque nunca desisti de nada.

Prometo sofrer, porque isto do prazer envolve sofrimento.

É uma cena sado-maso, a sério, ele há gente para tudo!

Se sentir falta de me ler imagine que eu volto rápido, estou só a apertar os atacadores, para continuar a corrida, até ao fim.

Entrámos no quilómetro quinze.

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Correr uma maratona, demore o tempo que demorar, acaba sempre por ser uma história de sucesso e de realização pessoal.

Fama, para uns, glória, para todos.

É assim, para aquele que corre em quase seis horas, é assim, para aquele que corre em pouco mais de duas horas e bate todos os recordes.

Cada qual, ao seu ritmo, ao ritmo do seu sofrimento e alegria, conta a sua história, atinge o momento porque tanto esperou e lutou.

Chama-se a isso su-pe-ra-ção!

Quando acabei a minha prova, cinco horas e onze minutos depois, recebi muitos telefonemas e mensagens.

Havia muitas pessoas, em Portugal, muitas mais do que eu imaginava, a seguirem através da app oficial a minha corrida.

Por isso, quando terminei havia muitos amigos e familiares a quererem saber das novidades.

Vi-me obrigado a não olhar para o telemóvel, para conseguir gerir o meu cansaço mental e físico e aquele stress que é o telemóvel sempre a vibrar.

Curiosamente, pela primeira vez em nove meses, acho até que, pela primeira vez desde que corro, corri sem usar o teleóvel (uso-o apenas para ouvir música). Até nisso Berlim foi diferente.

Pois bem, naquela hora, após ter cortado a meta eu apenas queria reencontrar-me, nada mais.

Obriguei-me, então, de novo, a pensar que não tinha telemóvel.

Mas, houve algumas mensagens às quais tive que responder, pessoas que me amam, verdadeira e incondicionalmente, e que estavam preocupadas, expectantes, para saber como é que eu estava. A essas respondi. É fácil perceber quem são.

Abri, no entanto, uma excepção, enquanto caminhava sózinho - que é como quem diz, porque o que não faltava era gente por ali -, pelas ruas de Berlim, à procura não sei bem de quê!

Em inglês, em uma dessas mensagens, perguntava-me o Arturo Torres (um mexicano a viver nos EUA), que eu tinha conhecido dias antes no avião a caminho de Berlim, como é que tinha corrido a minha primeira maratona.

Ele já levava mais de trinta feitas.

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Respondi-lhe o mesmo que respondi a todos, "por um lado correu bem, porque cheguei ao fim, mas isso, eu iria chegar sempre, por outro, correu mal, porque demorei mais 41 minutos do que era suposto".

A maratona de Berlim desperta fascínio em corredores do mundo inteiro.

É o palco perfeito para a queda de recordes de atletas profissionais e amadores e para estreias de tipos como eu.

Naquele domingo Arturo ia correr uma maratona especial, porque Berlim é sempre especial, mas ele não ia atrás de nenhum recorde, porque quem já correu mais de trinta maratonas já bateu todos os seus recordes.

Arturo fazia anos dali a três dias.

Por isso, Berlim, confidenciou-me no avião, ia ser diferente de tudo.

Para mim também.

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Arturo cortou a meta na maratona de Boston, poucos minutos antes dos atentados.

Contou-me isso no avião, nessa curta conversa deu-me um conselho, "se esta é a tua primeira maratona, esquece o tempo, esquece o ritmo, convence-te apenas que tens que chegar ao fim, e até lá repara em tudo aquilo que está à tua volta, sê feliz, esquece o relógio".

O relógio foi um dos meus grandes problemas, durante toda a corrida, mas esse é um tema para um outro quilómetro, não este.

Berlim tem outro encanto, tem charme, tem história.

Vivem lá três milhões e meio de pessoas de 180 nacionalidades.

É uma cidade que se inventa, a ela própria, todos os dias. Uma cidade que resulta de um passado rico, mas de contrastes. Fama e glória.

Eu preocupei-me com todos esses conselhos, quis observar os contrastes, marcados no chão, ou na arte urbana, quis sentir o passado rico, por vezes triste, por vezes glorioso.

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Mas, o relógio traíu-me, fui incapaz de não olhar para ele durante toda a corrida, mesmo quando já tinha falhado o objectivo das quatro horas e meia.

Foi tudo ao contrário do que aconteceu com o telemóvel, no final.

Ao telemóvel eu desprezei-o, completamente, a não ser quando recebi as tais mensagens e chamadas que tanto me aconchegaram o coração, dos meus pais, do meu irmão, do meu filho, que ficaram em Portugal.

E, a excepção, a mensagem do Arturo, o mexicano, que vive nos Estados Unidos, onde um presidente acéfalo queria construir um muro, provavelmente, porque não sabe nada sobre a História do mundo.

Não sei se ainda quer construir esse muro, pelo menos nunca mais falou nisso, o abrolho.

Foi a pensar no que me disseram amigos e corredores bem mais experientes (que eu sou o verdadeiro amador) que, enquanto tive discernimento, fui apreciando tudo em redor e fui escutando histórias, fui vivendo a própria história, à conta das dores - nas pernas - porque a História é feita de dor e paixão, fama e glória, sempre a fama e a glória, na base de tudo, é a condição humana.

O quilómetro seis fica na zona do Reichstag, o edifício que alberga o parlamento alemão, onde muita dessa História aconteceu.

É uma das atrações mais fotografadas de Berlim, embora, provoque em mim uma sensação de raiva pura, pois simboliza o pé alemão, no pescoço português, aquando da crise da década de 2000. A mesma crise que, com a cumplicidade do governo de então (constituído por vários "emissários" do FMI, da Goldman Sachs e afins, a quem chamo mercenários) destruiu mulhares de pessoas, de famílias, de sonhos, no meu próprio país.

Raiva, senti.

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Ali, no Reichstag, aconteceu um duro golpe na democracia alemã.

Em Fevereiro de 1933, o plenário foi completamente destruído por um incêndio provocado por um jovem comunista holandês.

Menos de um mês depois de ser empossado como chanceler, Adolph Hitler aproveitou esse facto para solidificara sua negra ditadura.

“Agora não há mais piedade. Quem se colocar no nosso caminho será eliminado”, teria dito ele.

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Eliminou quem se colocou no caminho e quem dele fugiu.

Raiva!

O resto é o que vem nos livros.

Bom, nem em todos, porque nas escolas portuguesas os miúdos não fazem a mínima ideia do que aconteceu em Berlim, antes e depois do "muro".

Somos uma amostra de país, não passamos disso, por isso há "pés" que nos pisam o "pescoço", sempre que quiserem, se tiverem a ajuda dos de cá, muito melhor.

"Pés" que nos pisam o "pescoço", tal como Trump quis fazer com os mexicanos.

Nunca cheguei a falar sobre isso com o Arturo.

Não gosto de melindrar os meus amigos, embora, ao contrário, não sempre seja assim, quando acontece não os elimino, porque, felizmente, não me chamo Adolph, mas afasto-os, muitas das vezes silenciosamente, sem sequer darem conta.

É o meu lado mais negro.

Quando olhei para a mensagem que o Arturo me enviou, depois da corrida, e lhe respondi que tinha corrido bem porque tinha terminado a maratona, mas tinha corrido mal porque não tinha feito as quatro horas e meia, ele respondeu-me assim:

"Chegar ao fim, na primeira maratona que corres é sempre um atingir do objectivo. Não te esqueças do seguinte, eram 43 mil corredores, 3 mil desistiram, nós os dois ficámos do lado de cá. Parabéns, campeão. Um abraço, do Art Torres".

Também por isso eu escrevi, no início deste texto:

Correr uma maratona, demore o tempo que demorar, acaba sempre por ser uma história de sucesso e de realização pessoal.

É que o Arturo já correu mais de trinta maratonas.

Entrámos no quilómetro catorze.

 

 

 

 

 

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Só passaram três semanas desde que corri a minha primeira maratona, em Berlim.

Parece que passaram três anos.

A distância permite-me, agora, um olhar mais frio, menos emotivo, mais assertivo sobre o que ali aconteceu.

O que ali aconteceu, o que ali me aconteceu, foi qualquer coisa de marcante, profundamente transcendental.

Marcas que ficam na pele, nos músculos, na alma e no coração.

Já não há lágrimas à mistura, o que é bom. Faz-nos ver as coisas como realmente elas são.

Quando entrei no quilómetro doze ia bem, ia a correr solto, leve, como há muito não me acontecia.

Ia, sei-o agora, a esta distância, a cumprir aquilo que o José Carlos Santos, o meu treinador, o verdadeiro mentor desta epopeia me tinha indicado.

Perante tudo aquilo que me envolvia era nele que eu pensava, no que ele me tinha dito, no acreditar, no que ele acreditava em mim. Obriguei-me a correr dentro das balizas que ele tinha traçado, afinal, foi ele e só ele quem me preparou para aquela que seria a aventura maior, a maior de todas.

No final, já a caminho do apartamento, com as pernas desfeitas, que eu não estou habituado a estas coisas, o meu treinador ligou-me:

“Então, atleta, és um finisher, és um maratonista, como correu?”.

Não foi o primeiro telefonema que recebi depois de concluir a maratona.

Já antes o meu irmão me tinha ligado, já antes tinha chorado como uma criança, ao telefone com o meu filho: “pai, tenho tanto orgulho em ti, amo-te muito”.

"E eu a ti, filho".

Ninguém resiste, muito menos eu.

“Sim, coach, sou um finisher, mas não correu bem”, respondi-lhe, ao meu treinador, aquele que me acompanhou todos os dias, literalmente, durante nove intensos e brutalmente desgastantes meses.

Aquele que é o verdadeiro responsável por eu ter conquistado a coisa mais absurda da minha existência, a maior superação física a quem alguma vez me sujeitei.

“Como não correu bem?”, espantou-se.

“Por um lado correu bem, cheguei ao fim, mas isso eu iria chegar sempre, nem que chegasse sem pernas, eu sou do Ribatejo, coach, só que demorei cinco horas e onze, em vez das quatro e meia que tinhamos combinado”, respondi-lhe.

Senti a indignação no tom.

“És louco? Não quero ouvir isso de novo. Lembra-te que chegaste ao pé de mim, cheio de dores, sem conseguir correr dois quilómetros de seguida. Chegaste e disseste-me, eu quero correr uma maratona. Nove meses depois cortaste a meta, nunca mais voltes a dizer uma coisa dessas”.

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Agora, três semana depois, as lágrimas já ficaram secas mas, naquele momento, enquanto caminhava, sozinho, pelas ruas de Berlim, em direcção a casa, silenciei-me por breves segundos.

“Estás aí, atleta?”.

“Estou, desculpa…”.

“Não digas mais isso, tu és um campeão, eu ando nisto há anos suficientes para te dizer que muitos poucos conseguiriam fazer o que tu fizeste, no estado em que te encontravas,  a superação que tu conseguiste, aí em Berlim, isso é digno só dos gajos sérios e fortes.

Agora, vai curtir e desfruta disso tudo, porque é único aquilo que estas a viver”.

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Há momentos, na vida, em que por muito perdidos que no sintamos basta uma palavra, desde que seja honesta e sincera, para que nos reencontremos.

E, naquela altura, naquela altura como eu me sentia perdido, sozinho, no meio da rua.

Queria agradecer-lhe com um abraço.

Três semanas depois, continuo a falhar, ainda não estive com ele para lhe mostrar a minha medalha.

Devo-lhe esse abraço.

O José Carlos Santos fez o favor de me acompanhar durante nove meses, mas ele tem mais que fazer.

Para além de ser o seleccionador nacional de Trail, ele é vice-presidente da Federação Internacional de Trail e dirigente da Federação Portuguesa.

Ele, sim, é uma máquina.

É, portanto, um tipo que podia estar perfeitamente a cagar-se para mim.

Mas, não, assumiu o compromisso de me fazer começar e acabar uma maratona e levou-o até ao fim, até aquele telefonema, até ao abraço de gratidão que ainda lhe devo.

Dali não vem mentira, nem aproveitamento, nem falsidade.

Provo o que digo, dias antes, cometo a inconfidência, tinha-me enviado este email, ainda eu não tinha partido para Berlim:

 

“ Amigo, tenho orgulho em ti desde o dia em que nos conhecemos e iniciamos o trabalho juntos. 

Alguém que não conseguia correr 2km seguidos propunha-se correr uma maratona....é de Homem!

Com a tua dedicação e resiliência já alcançaste objectivos inimagináveis, e o grande dia está ali tão próximo...

Lembrar-me de como falavas da meta que julgavas impossível dos 6m/km, e ver o que fazes hoje, é algo que me enche de orgulho.

Falta só mais um pouco....

Grande abraço”

 

Entre o quilómetro dez e o quilómetro quinze, ainda ia eu fresquinho da silva, foi nele e nos seus ensinamentos que pensei, consecutivamente.

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No pace, na passada, na respiração, no tempo. Ia a cumprir e sentia-me orgulhoso, por ele, por mim. O pior veio depois, lá mais para a frente, que ainda há quase trinta quilómetros para escrever.

Se pensava que as histórias começavam a fraquejar, como as minhas pernas, que a escrita começava a morrer, como os meus músculos, está muito bem enganado(a).

Eu entendo, não me conhece.

Pouca gente me conhece, verdadeiramente.

Parece que me dou a conhecer a toda a gente, por causa do meu sorriso fácil, do meu trato simples, mas não, desengane-se, por incrível que possa parecer, quase ninguém me conhece, só que eu quero que me conheça.

O resto, o resto são sorrisos ocasionais.

Só me conhece quem eu quero, a quem eu me entrego.

Só me conhece quem me trata por Zé Gabriel, como ele me trata, que para os outros sou tudo, menos isso, porque não tem que ser.

Ao José Carlos Santos devo gratidão eterna. Ele, ele eu sabemos o que eu sofri para aqui chegar.

Não foi fisicamente.

A minha prova de superação não era física, isso foi só uma consequência.

A minha prova de superação foi para além do resto que é imaginável, para além do sofrimento.

Sofri muito mais mentalmente que fisicamente, durante nove meses, o tempo que uma criança leva a nascer.

Sou feliz e sou-o todos os dias, quando olho para a minha medalha. É minha. E dele.

Tem noites que durmo com ela à cabeceira.

Como que a suplicar para que não me fuja, porque ainda a tenho que mostrar ao José Carlos.

Sei que ele vai gostar de a conhecer.

Sei que aquilo que nos une, desde o momento em que cortei aquela meta, é uma coisa tão forte que, até eu, homem das palavras, não consigo aqui deixar escrito, de tão profundo que é. Intenso.

Não dá para lhe explicar.

Há coisas que não se explicam.

Há coisas que não têm que ter explicação.

Só quem me trata por Zé Gabriel, esse minúsculo universo, que me trata assim, só ele sabe os quês e os porquês.

Foi assim que eu sonhei, foi assim que eu quis.

O resto é mundo, lá fora.

Entrámos no quilómetro treze.

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Em primeiro lugar, falemos de slogans.

Aquele slogan "se conduzir não beba" é correcto, não bate certo ir agarrado ao volante com a cabeça "cheia", está provado.

Por isso, neste caso, porque falamos da maratona, inventemos alguns slogans, cá vai o primeiro: "se correr beba, desde que esteja fresca".

O segundo slogan inventado virá lá mais à frente, antes disso, um pouco de história, cultivemo-nos.

A primeira maratona de Berlim aconteceu quatro meses, quase cinco, depois do 25 de Abril de 1974.

A Liberdade, em todo o seu esplendor.

Foi uma corrida com pouca gente, eram uns duzentos corredores, por aí, não mais do que isso.

Foi o SCC, o Clube de Corredores de Berlim que organizou a primeira maratona, e todas as outras, desde esse dia.

A sigla SCC ainda hoje se mantém na medalha que é colocada ao pescoço dos finishers.

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Só muitos anos depois apareceu o slogan “No Pain No Gain“ (sem dor não há vitória).

Antes disso Os Corredores de Berlim usavam uma outra expressão - para não estar sempre a repetir slogan, ups, repeti -  que, ela sim, determinava quem podia participar na prova: “No Training No Marathon” (sem treino não há maratona).

Se não treinou, não pode correr a maratona.

Eu treinei e vi-me grego (em homenagem à primeira de todas as maratonas, na Grécia Antiga) para chegar ao fim.

É engraçado que escrevo este texto num dia importante para muitos portugueses, o dia da República, e é engraçado porque a maratona de Berlim, em 1990, correu-se três dias antes da reunificação das duas Alemanhas.

 

Há aqui um certo paralelismo.

Foi, por assim dizer, um acto de celebração, pelas ruas da bela Berlim.

Claro que houve cerveja a rodos. Há sempre, percebi eu, quando lá estive.

A cerveja é um dos motivos de orgulho para o povo alemão.

No final da maratona há voluntários que distribuem cerveja sem álcool.

A cerveja oficial é a Erdinger, uma das marcas mais famosas, na Alemanha.

Também ela tem um slogan (mais um), que isto nas corridas há slogans para todos os gostos, com ou sem álcool: “100 porcento de desempenho, 100 por cento de recuperação”.

Acrescento eu (mais um) novo slogan - eu avisei no ínicio do texto que ia inventar uns dois slogans: “sofres a correr celebra a beber”.

Foi exactamente isso que fizemos, no final, um brinde ao nosso feito histórico, um brinde a nós, um brinde aos nossos.

O problema foi só um, a cerveja estava quente - houve quem a bebesse toda - e eu e o Stephane só bebemos um trago, para concluir o brinde, mas bebemos e brindámos.

Celebrámos, como diz o slogan que acabei de inventar neste texto.

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Mas, porque é que a cerveja, mesmo sem álcool - e com álcool, já lá iremos beber uma…- é parte integrante de uma maratona, desta, a e Berlim?

Fácil.

Para além de ser orgulho nacional, a cerveja alemã está subordinada a uma lei com mais de meio século ( mais de 500 anos) que assegura a pureza da cerveja.

As cervejeiras só podem fabricar cerveja pura, feita com cevada, lúpulo, água e ponto final.

É um elemento integrante da cultura.

Por isso, ao longo dos 42 quilómetros o(a) caro(a) leitor(a) não imagina a quantidade de vezes, foram mesmo muitas, que eu pensei em parar, sentar-me numa qualquer esplanada e pedir uma fresquinha.

Um dos meus companheiros de aventura não se sentou, mas à passagem por uma fila de mesas (eu nem dei conta disso) carregadas de cerveja, parou e enfiou uma de seguida, ou quase, como regista a foto, porque festa é festa.

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Eu sei lá, a mim deu-me vontade de tudo, deu-me vontade de me deitar nas macas, ao longo do trajecto, e juntar-me às dezenas de pessoas que estavam a levar massagens, em tempo real (rir), apeteceu-me entrar nas casas e atirar-me pra cima dos sofás dos berlinenses que nos apoiavam junto às suas portas, apeteceu-me sentar na beira do passeio e ficar ali, junto dos outros, a ver os outros a passar e, apeteceu-me, juro, apeteceu-me entrar nos restaurantes e bares, abertos aquela hora da manhã, para que nada faltasse a ninguém, e pedir uma salsicha e uma cerveja à pressão.

Admito, vim de Berlim e não comi uma salsicha, mas isso será tema em outro quilómetro.

Quando passámos pelas tais mesas cheias de cerveja os meus companheiros ainda disseram: “bebe uma”, mas eu ia tão “desaustinado” que nem os ouvi, hoje invade-me um sentimento de puro arrependimento ( rir, de novo), porque tenho a certeza que me teria sabido tão, mas tão bem…

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Bebi no final, só para o brinde.

Na verdade, não sou muito dado a álcool, bebo só quando tem que ser, mas uma fresquinha eu gosto, e com álcool, que cerveja sem álcool só nas maratonas.

Ao jantar pedi duas, das grandes, deve ter bebido uns quase dois litros, a acompanhar aquele bife estrondoso e caro.

Vinguei-me daquele momento em que o stress, o cansaço, a ideia fixa de chegar ao fim me impediu de ser racional e de deitar abaixo aquela fresquinha que acho agora distância teria feito de mim um maratonista ainda mais feliz.

Convém apenas acrescentar que os vencedores da primeira Maratona de Berlim, em 1974 foram

Günter Hallas, com 2h.44min.53 e Jutta von Haase, com 3h.22min.01.

Desde então, os dois, correram todas as edições desta "Major" maratona.

Os dois voltaram a correr naquele domingo, 16 de Setembro de 2018, que eu vi.

Tenho a certeza que correram todas estas maratonas pelo seu amor à corrida, mas também tenho a certeza que no final brindaram sempre com uma fresquinha, como manda a tradição alemã.

Tenho a certeza absoluta.

Entrámos no quilómetro doze.

 

(Olhe só o senhor Hallas a cortar a meta…antes de mim)

 

 

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E quando uma conhecida lhe oferece uma bandeira isso é…

Já lá vamos a essa parte.

Primeiro o enquadramento.

A Carla Fernandes gosta muito pouco da exposição, ao contrário da maioria dos seres humanos, que a procuram incessantemente. Isso faz dela uma amiga muito especial, mas não apenas isso.

Ela gosta de ser discreta, de passar entre os intervalos da chuva, só que desta vez não tem hipótese.

Conheci a Carla há uns bons quatro ou cinco anos, nas corridas.

A empatia que a Carla cria traduz-se, não raras vezes, em amizade.

A Carla tem uma colecção de ténis impressionante, mais, a marca preferida dela é a mesma que a minha, ainda por cima gostamos de ténis coloridos (na minha terra diz-se ténis).

Eu conheci a Carla nas corridas, mas não a conheci por causa das corridas.

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Foi em Bruxelas que tudo começou, por causa de um livro que eu escrevi.

Um belo dia fui a Bruxelas apresentar esse livro à Comissão Europeia.

Foi lá que conheci o Jorge, Fernandes, de apelido.

Era o responsável pela delegação dos Super Dragões de Bruxelas, casa onde passámos, eu o Eduardo Vieitas e um outro senhor “do qual não se deve pronunciar o nome” três fantásticos dias, entre bifanas, minis e jogos de matraquilhos.

Já eu andava nas corridas há um bom par de anos, quando o Jorge, um dia, me mandou uma mensagem:

“Tens que conhecer a minha irmã, ela também vai sempre a essas meias maratonas onde tu vais, já lhe disse para ir ter contigo quando te vir”.

Dito e feito. Não me recordo em que corrida foi, apenas sei que foi numa manhã de domingo que alguém se aproximou de mim e me disse, “olá, eu sou a Carla, a irmã do Jorge”.

Eu sou gajo de sorriso fácil e abraços soltos.

Desde então, a Carla cruzava-se sempre comigo quando eu ia a essas meias maratonas, em cidades património mundial.

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Ela gosta de fazer o bem, gosta de fazer voluntariado, ainda por cima, soube em Berlim, foi campeã nacional de atletismo.

Só em Berlim, mea culpa, associei a minha amiga ao nome, ao tempo e ao feito hirtórico.

A sua humildade é de tal forma incrível que nunca me o tinha dito.

Que ela percebia muito de atletismo isso saltava à vista, mas nunca a tinha associado a essa imagem de topo, o que ainda a aconchegou mais no meu coração e me fez ter ainda muito mais respeito e carinho por ela.

Mas, não foi apenas isso...Há mais.

A Carla tem uma mania, ela costuma ir buscar-me-nos a duzentos metros da meta, puxa por nós, ao nosso lado, e depois deixa-nos cortar a linha sozinhos. Afasta-se, no momento final.

Vai buscar-me-nos, apesar de tudo, sempre.

Mal sabe ela o bem que sabe.

Mas, o coração dela é grande demais, é muito maior, ainda.

Quando os meus companheiros de aventura souberam que eu ia correr a minha primeira maratona em Berlim, sozinho, ofereceram-se para me acompanhar, isso já é público, o que não se sabe é que a Carla, mal soube que o Francisco e a Alice iam fazer-me companhia e ajudar-me a ser maratonista, também ela decidiu ir, também ela foi a Berlim.

Tinha acabado de percorrer toda a Europa, com a filha, em férias, tinha acabado de chegar a Portugal, quando voltou a apanhar um avião e rumou a Berlim.

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Foi ela que teve a ideia das bandeiras.

“Vou com vocês e vou levar três bandeiras, para vos dar antes de chegarem a meta”.

Eu, de imediato, acreditei nela, mulher do norte cumpre a palavra, amiga minha, de coração, nunca me engana, a não ser às vezes, em relação aos autocarros, como o vídeo demonstra.

 

A atitude da Carla foi qualquer coisa de marcante mas, sobretudo, um acto de coragem impar.

Eu explico;

A Maratona  de Berlim faz parte do circuito WMM (World Marathon Majors), é por assim dizer a elite das elites, uma prova extremamente organizada, onde tudo é cuidado ao detalhe.

Pois bem, a Carla, levada por esse sentimento ao alcance de poucos, quando verdadeiro, que é a amizade, e porque é uma mulher corajosa, bondosa, incrível, decidiu esperar por nós entre o quilómetro 41 e o 42, um pouco antes do local onde estava a nossa família e amigos (que já tinham terminado a corrida).

Ela pensa tanto nos outros, antes de pensar nela que, muitas das imagens e alguns dos vídeos que têm visto por aqui (e as que ilustram este texto) são da sua autoria.

Do nada, a Carla saltou as baias, entregou-nos as bandeiras de Portugal, eram três, uma para cada um, ligou o telemóvel, começou a filmar o último quilómetro, sempre ao nosso lado.

Foi sem calções, com calças de ganga, mas com a camisola dos “Rainbow Runners”, feita especialmente para a maratona de Berlim que ela correu, connosco, o último quilómetro.

Foi, para além de uma maravilhosa amiga, a nossa repórter dos metros finais.

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Carla, aquilo que aconteceu em Berlim é por assim dizer uma página que o destino nunca conseguirá rasgar.

Ainda hoje, já refeito de todas as emoções, e com o distanciamento devido, consigo viver aquele último quilómetro, como se ainda lá estivesse, no limite de mim mesmo.

Ainda hoje consigo ouvir a tua voz, quando dei aquele abraço à carla, a minha Carla: "continuem, continuem, a meta é lá à frente, vamos, ainda falta!".

A Carla, como sempre fez, foi-nos buscar antes do final, para puxar por nós e, como sempre fez, ao cortar a meta colocou-se de lado, porque ela entende que aquele momento é nosso, de cada um de nós.

Teve sorte, porque eu já não ia no meu perfeito estado mental, porque se fosse, desta vez ela não escapava, cortava a meta de mãos dadas comigo, porque aquele momento também foi todo dela.

Foi, digo-o hoje, à distância, como se tivesse cortado aquela meta, comigo, de mão dada.

A Carla, que conheci nas corridas, por causa da minha viagem a Bruxelas, e das bifanas e das minis, mais os jogos de matraquilhos, foi a grande campeã desta maratona inesquecível.

Não está ao alcance de muitos aquilo que ela fez.

Não está ao alcance de quase ninguém.

Depois de me colocarem a medalha ao pescoço, que linda que é, ainda hoje dou por mim a admirá-la, depois desse momento incrível, olhei para ela, para a medalha e chorei.

Só voltei a sorrir quando levantei a cabeça e vi a Carla, a olhar fixamente para mim, com aquele olhar cor de castanha doce.

Admirei a medalha, a dela.

Sim, depois de tudo isto ela tinha que ter uma medalha.

E teve-a.

A medalha da Maratona de Berlim, a mais inesquecível de todas as corridas.

Entrámos no quilómetro onze.

 

 

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 Uma vez vi Angela Merkel toda nua, a correr, com umas amigas.

Juro, confesso, vi-a numa fotografia e nunca mais aquela imagem horrível me saiu da cabeça.

Não tem nada de machista, esta minha observação, ela é resumida e estritamente estética.

Angela Merkel não fazia a depilação, via-se bem, ao longe.

Desde esse dia que comecei a detestar a senhora, cada vez a detesto mais, admito.

A minha filha conseguiu apertar-lhe o pescoço.

Eu, como sou um homem de sorte, não me cruzei com ela, em Berlim.

A minha filha, sim, mas também ela é uma miúda com sorte, e a Chanceler não se mexia, não ouvia, não falava, nem sequer respirava, graças a deus, se ele existir.

Era de cera, a senhora.

Dizem que a verdadeira é quem governa a União Europeia, não tenho dúvidas, ela tem mais calças que muitos homens.

Espero que, nos dias que correm, ela já faça a depilação, afinal já estamos no tempo da Guerra Fria e ela já não vive na Alemanha de Leste. Outros tempos, pois.

Mais uma razão para eu a detestar, a sério, não consigo, é mais forte do que eu.

Lembro-me sempre daqueles sovacos horrorosos e não só, via-se tudo, procure no Google e verá que eu não minto mas aviso já, achtung baby, que aquilo é hardcore.

Angela Merkel é, para mim, o protótipo dos alemães antipáticos, autoritários, dos alemães que ainda têm alguns genes de outros tempos mais "socialistas".

Na sexta feira, antes da maratona, eu, a Alice, a Adriana, a Carla e a Maria fomos matar o tempo, dando voltas pela cidade, horas e horas, deslumbrados com tudo, com a história, com as bicicletas, com os edifícios, com a atmosfera.

Eu já tinha estado em Berlim duas vezes, mas nunca tinha estado ao pé do parlamento, o Reichstag.

Só a meia palavra “Reich” tira-me logo do sério. Acho que aquilo não devia ter nada a ver com a maratona.

Acontece que a entrada para os blocos de partida era ali e, no final, era ali que as famílias e os amigos se encontraram, para abraçar os seus corredores preferidos.

E, como os abraços fazem toda a diferença, muito mais depois do sofrimento e do prazer que é correr durante tantas horas.

Há abraços que comovem, mesmo que dados, apertados, em frente ao símbolo da arrogância imponente.

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Vinguei-me, “mijei” mesmo em frente ao Reichstag e ninguém me levou preso.

Vinguei-me, abracei quem amo e ningém me aumentou os impostos, nem me despediu.

Vinguei-me, fui feliz, ali mesmo, e chorei, muito, por estar feliz.

Eu detesto Angela Merkel, irei detestá-la para sempre,  porque ela é o rosto da destruição impune.

Foi ela, foi através dela e daquele ministro das finanças com ar de nazi - que entretanto desapareceu de cena, arrumado num cargo milionário, como todos os burocratas sem coração - que eu vi a destruição de famílias, de vidas, de empresas, de sonhos, no meu país.

Foi por culpa de toda aquela imponência fascista que vi filhos, irmãos, netos emigrarem, famílias divididas, como nos tempos do Muro.

Não aprenderam a lição.

Por isso, quando passei por aquele imponente edifício - mantido à nossa custa -  e mais à frente, pelo Banco Central Alemão, recheado de carros de alta cilindrada com motoristas à porta, não me contive, meio a sério, meio a brincar;

protestei, qual esquerdista a lutar pela democracia (porque os tipos de esquerda têm a mania que só eles é que sabe o que é a democracia, também têm a memória curta, como a Angela e o ministro com ar de nazi).

Perante os olhares espantados da Alice, da Carla e da Maria, com a minha reacção, ali mesmo, às portas do poder, logo me apressei a sublinhar, no mesmo tom de voz, que “não sou comunista”, e não sou.

Não consigo ser partidário. Ponto.

Voltando à maratona, que o texto, embora não pareça é sobre a maratona, tive que gramar com o Reichstag, que por sinal é de uma beleza brutal.

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Para mim, os alemães eram (o tempo verbal foi escolhido de propósito) um povo antipático, sobretudo, por causa da Chanceler.

A única alemã que eu gostava (voltei a usar o passado de propósito, embora continue a gostar dela, no presente, e no futuro) é a minha grande amiga Petra Sauer.

Se tivesse uma irmã mais velha era a ela que escolhia.

Uma alemã com mais humor que qualquer latino, com um coração maior que qualquer onda do Guincho, com tanto talento que até trabalha bem longe da Alemanha, aqui mesmo, em Portugal, e faz o favor de me aturar sempre que preciso de um ombro amigo.

Adoro a Petra e ela sabe.

É de mim, não conseguia (tempo verbal sempre no passado) simpatizar com os alemães, excepção feita à minha querida Petra, até porque, aquela tipa de cabelo pintado de encarnado e azul, que servia ao balcão do

Starbuck´s conseguia ser bem pior que a Chanceler.

Também nos vigámos dela.

Tratou-nos, ao pequeno almoço, com uma arrogância e desprezo tais que aprecia uma doutora, atrás de um balcão, onde servia, mal, clientes que apenas queriam tomar o pequeno-almoço.

Tudo porque alguém, dos nossos, não entendeu a sua pergunta;

“ É para levar lá para fora?”, perguntou ela, com uma voz estridente, num inglês tão, mas tão mau, que até eu falava melhor.

Teve o que merecia, viemos cá para fora, deixámos os pedidos pendentes, deixámo-la pendurada, como só os portugueses sabem fazer.

Ficou a falar sozinha.

Cá fora, o sol sorria para nós, era o bastante.

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Restava-nos Berlim, a cidade.

Ela não tem nada a ver com a tipa de cabelo pintado com cores berrantes e absurdas, nem com Angela Merkel, apesar de ambas lá viverem. Não há cidades perfeitas.

Berlim é quase eprfeita, ela é muito mais bela, acolhedora, adorável, que estas duas aventesmas.

Berlim é tão mais do que elas que, quando me vim embora, no último dia, vim com uma ideia completamente diferente em relação à ideia com que lá cheguei.

 

Afinal, os alemães, não sendo como a minha Petra, porque ela é excepcional, são pessoas adoráveis, praticamente todos, menos aquelas duas.

Durante a maratona havia muitos estrangeiros nas ruas, mas havia muitos alemães também.

Todos eles, sem qualquer excepção, com palavras de conforto para quem ali ia a correr a corrida das suas vidas, palavras, bebidas, comida, simples toques de mão-com-mão.

Estavam ali para nos apoiar, mas também para promover a sua própria cidade, com a simplicidade dos bons.

Coisas de seres humanos, sem raça, sem idade, sem crenças, apenas humanos, seres.

Berlim obrigou-me a mudar a percepção que eu tinha sobre os alemães, essa raça com mania das superioridades, como eu achava.

Afinal, Berlim e as pessoas de lá são encantadoras e é o mínimo que posso dizer delas.

Fui-me apercebendo disso ao longo dos quarenta e dois quilómetros, cento e noventa e cinco sofridos metros.

Mas, foi no fim da maratona, já mais para lá do que para cá, já com um andar novo que eu deixei de ter qualquer dúvida.

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Este rapaz, que está nestas fotos comigo tem um nome.

Eu estava tão em transe que não lhe perguntei, sequer, mas hei-de descobrir, juro que sim. Não o conhecia, tão pouco. Não o reconheci, mesmo quando erguemos a bandeira de Portugal, os dois.

Foi preciso os meus companheiros de estrada avivarem-me a memória, no momento em que ele pediu para tirar as fotos.

“Não te lembras dele?”

“Não, quem é?”.

Eu não me lembrava, mas ele foi mais um protagonista nesta história brutal que eu vivi em Berlim.

A determinada altura da maratona, não sei se ao quilómetro 30 ou 30 e tal, a minha cabeça só tinha uma imagem, tal era o meu sofrimento, a minha mulher.

Eu sabia que a Carla estava entre o quilómetro 41 e 42, mas naquela altura procurava-a, inconscientemente, por todo o lado.

“Queria tanto dar-lhe um abraço, agora, precisava tanto”, disse à Alice e ao Francisco. 

Acho que ia a alucinar, ia num dos vários momentos de alucinação que tive.

“Volta à estrada, concentra-te na corrida, foca-te, anda, volta”, gritou-me a querida Alice.                       

Nesse momento puxei a camisola, para esconder o rosto e comecei a chorar, convulsivamente, sem parar, sem nexo, sem controle.

Nessa altura, alguém chega por trás, acerca-se de mim, agarra-se a mim, aos meus ombros, com força e grita-me:

“Come on man, let’s finish this fucking shit, let´s go man”.

Eu não me lembro, mas sei que comecei a correr rápido, tão rápido que era impossível, naquele momento, numa altura em que as minhas pernas nem sequer recebiam as ordens do cérebro, de tão dormentes que estavam.

Corri durante uns trezentos ou quatrocentos metros, a uma velocidade que era, para mim, naquela altura, impraticável.

Não me lembrava de nada do que tinha acontecido.

“Depois de te abraçar, ele perguntou-nos”, contou-me a Alice e o Francisco, “se tu estavas bem e nós encolhemos os ombros, sorrimos e dissemos que achávamos que sim”. 

Quando eu, finalmente, passei a meta, em Berlim, quando eu me tornei num Finisher, num Marathoner, quando eu conquistei o meu objectivo, o meu Santo Graal, eu só queria perceber o que é que me ia acontecer a seguir, se ia desfalecer, se ia ter um ataque, ou se ia conseguir sobreviver até chegar à tenda onde estavam a oferecer cerveja alemã.

Ao contrário de outras corridas, não queria nem abraços nem fotografias. Mas, tirei várias, tive que tirar, não tinha como não as tirar, são marcas que ficam, para sempre, sorrisos imortalizados, no digital, até que um dia alguém as apague.

Uma, algumas dessas fotos, foram com esse rapaz de camisola preta, esse alemão fantástico, do qual eu não me lembrava sequer.

Esse rapaz com nome, um nome que eu hei-de descobrir, prometi-me.

Do abraço que me deu, lembro-me agora, ainda o sinto.

Ele lembrava-se de mim, ele preocupou-se comigo, ele empurrou-me, ele marcou-me, até hoje.

Era ele, contaram-me, no fim, os meus companheiros de aventura, era ele.

E, para sempre, guardei os alemães no meu coração.

Menos a Angela e a tipa do Starbuck´s.

Essas não!

Entrámos no quilómetro dez.

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 Naquela manhã de Setembro, mal despertei, a primeira coisa que fiz foi abeirar-me da janela e

espreitar o dia lá fora.

Também ele estava ainda a despertar, comigo.

Ao aproximar-me de uma das janelas do quarto olhei o Memorial dos judeus mortos, lá em baixo, à direita, e um pouco mais afastada, ainda mais à direita, a embaixada dos Estados Unidos, também ela um símbolo daquela resistência toda.

Hoje, o símbolo de coisa nenhuma, porque há um americano que quer construir um muro, o mesmo muro que separa, divide, afasta. Um americano burro que, curiosamente, deu de caras comigo durante a corrida, no fim deste texto.

Estava a poucas horas e começar a correr pelas ruas de Berlim.

A minha memória estava a ser assaltada por uma perturbadora imagem, o “Muro”.

O muro de Berlim, da vergonha, e o muro do idiota, sem vergonha.

O muro que divide, separa, destrói, afasta.

Quando decidi correr a minha primeira maratona, um desígnio solitário, escolhi Berlim por vários motivos;

Porque é uma cidade onde me sinto bem, porque é uma cidade brutalmente marcada e carregada de e pela história recente deste mundo surreal, porque queria que a minha filha caminhasse por aquelas ruas, olhasse os pedaços de “muro” e viesse de lá com a consciência toldada.

E, veio, felizmente. Ela e eu. Venho de lá sempre assim, sempre que lá vou.

Em Berlim, quem quiser, quem tiver a humildade que compete a cada ser humano ter, aprende uma enorme lição de vida, porque não tem como fugir dela.

Por isso escolhi Berlim e não qualquer outra cidade.

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Junto à minha janela, contemplava o sol que nascia e ao mesmo tempo fitava aqueles dois mil e tal blocos de betão, quando essa perturbadora imagem me assaltou. Senti-me envergonhado pela humanidade, por mim, pelo que o “homem” tem de pior.

A minha corrida, daí a algumas horas, ia ser um caminho longo, cheio de considerações, provações, lutas, sobretudo, interiores, homenagens, em vida, em morte, tanta coisa, essa ia ser a minha corrida, foi por isso que escolhi Berlim, foi por isso que tomei a minha decisão.

Ao olhar pela janela do quarto lembrei-me do que ali tinha acontecido, há não tanto tempo quanto isso. Parece que foi ontem.

Foi há vinte e nove anos, foi ontem, continua a ser todos os dias, porque as marcas continuam lá, aqui e ali, pedaços do muro, erguidos esteticamente.

Marcas do muro, espalhadas pelo chão da cidade, o mesmo chão que dai a horas eu ia pisar, naquele que era a mais importante desafio físico e mental da minha existência.

Mas, o que era isso, comparado com os desafios que ali enfrentaram todos aqueles que, numa madrugada, em Agosto, cinquenta e sete anos antes daquele dia, foram abruptamente separados dos seus, por um muro que nos envergonha a todos, que envergonha a humanidade.

Fui assaltado por muitas imagens, por muitas ideias, por muitos, ruídos, imaginários, que tentavam cortar o silêncio que ainda envolvia o quarto, a casa, tudo o resto, naqueles instantes, enquanto olhava pela minha janela.

Quando, na véspera, fui à “feira” levantar o dorsal e colocar a pulseira oficial da maratona no pulso fiz questão de colocar a minha assinatura no muro.

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Era um outro muro, mas a assinatura era minha e eu sei porque é que lá deixei a minha marca;

Berlim marcou-me e eu quis marcar Berlim.

O Muro foi construído na madrugada de 13 de Agosto de 1961.

Nesse dia, quem estava do lado de cá, cá ficou, quem estava do lado de lá, lá ficou.

Pais, irmãos, avós, amigos, uma fronteira os separou durante vinte e oito longos anos.

Uma fronteira, na cidade.

Berlim de um lado, Berlim do outro.

É difícil imaginar, mesmo estando lá, mesmo olhando as marcas que nos agitam a consciência, o que é acordar de manhã e não voltar a ver os nossos filhos.

Para quem ama é impossível imaginar.

O Berliner Mauer circundava toda a cidade, onde dali a pouco eu ia correr.

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Correr, ali, assim, era algo de totalmente impensável há vinte e nove anos, precisamente, porque havia ali uma fronteira física, um muro, que separou uns dos outros, para lá do muro havia pistas onde cães ferozes corriam atrás de quem se atrevesse, alarmes que soavam ao mínimo movimento, homens armados, com ordens para atirar a matar quem ousasse sequer espreitar para o lado de lá.

Foi com essa ideia no pensamento que fui tomar o meu banho e vestir o meu equipamento, antes de tomar o pequeno almoço: há poucos anos era impossível eu fazer aquilo que iria fazer dali a pouco tempo, correr em Berlim, por toda a cidade, livre, seguro, feliz.

Houve quem pagasse com a própria vida, para que naquela manhã de Setembro, eu em mais 43 mil pessoas pudéssemos fazer uma das coisas que mais gostamos, correr.

Dias antes eu tinha estado a tomar café junto ao Check Point Charlie, que hoje em dia não é mais do que um ponto turístico, onde se factura dinheiro com fotografias.

Na altura da guerra fria, o Check Point Charlie era o único posto militar para a passagem das tropas aliadas de uma Alemanha para a outra.

Depois de tomar o café fui visitar uma exposição ao ar livre, onde se conta a história de dois soldados que tentaram saltar o muro. Um conseguiu fugir. O outro foi ferido.

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As tropas aliadas não tinham autorização para o ir buscar, as tropas orientais também não, e ele morreu, ali mesmo, horas depois de estar a agonizar, banhado no seu próprio sangue.

Senti um arrepio, quando olhei para o lado e vi a fotografia do momento em que, finalmente, os soldados aliados conseguiram retirar o corpo daquele local.

Estando ali - passámos lá perto durante a maratona - sentimos dentro de nós toda a verdade e toda a mentira do mundo dos homens.

 

Um longo filme passou-me em frente aos meus olhos, durante aqueles breves minutos, enquanto olhava pela janela do meu quarto.

Naquela manhã de domingo, enquanto corria a maratona, enquanto escutava as palmas e as palavras de incentivo de mais de um milhão de pessoas, dei por mim a olhar em redor, e sim, vi pedaços do muro, e sim, pisei as marcas no chão, com os mesmos pés que pisaram o bunker onde Hitler se matou, logo a seguir à porta do prédio, lá em baixo, por baixo da minha janela.

Em Berlim serei sempre um homem feliz, porque foi lá que corri a minha primeira e, provavelmente, única maratona, porque a história não se repete.

Felizmente.

Lembrei-me da minha filha, quando passei por aquele pedaço de muro, junto ao hotel onde antigamente existia uma rádio, que através dos seus reclamos em néon passava mensagens para as famílias do lado de lá do muro.

Um pedaço de muro violentado, todos os dias, nos nossos dias, por gente miserável, carteiristas que distraem os turistas com jogos ranhosos, para os roubarem, se seguida, gente cobarde que foge depois de escutar um grito de aviso, do outro lado da rua.

Vem aí a polícia.

Estávamos lá, nesse momento, passei por lá quando estava quase, quase, quase a chegar ao fim da maratona.

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 Relembrei a cena que vi nos dias anteriores, olhei o hotel, onde havia a antiga rádio, e segui passo-a-passo.

Tenho a certeza que a minha filha jamais esquecerá Berlim, foi por isso que a convidei para ir comigo, para juntos vivermos aqueles dias estonteantes.

Berlim fica tatuado na nossa alma.

Marcado em nós, tal e qual as marcas no chão, ao longo de toda a cidade, onde corri durante cinco horas e onze sofridos minutos.

Nada que se compare ao imenso sofrimento daquela gente separada por um muro.

O muro esteve sempre presente, até, mais à frente, nas minhas pernas, sempre presente, durante aqueles dias, na minha cabeça.

O muro.

Lembrei-me de Donald Trump e do muro que ele quer construir.

Lembrei-me de Donald Trump e de um cartaz que vi, a determinada altura da maratona, dizia assim:

“if an idiot can run a country, you can run a marathon”!

Entrámos no quilómetro nove.

 

 

 

 

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