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"NUNCA SERÁS JORNALISTA" ( DIA 18 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 20.04.18

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Eu sei como as pessoas olham para esses doidos que andam por ai a correr.

Sei, porque também olham para mim, à minha passagem.

São milhões, para que não haja dúvidas, milhões de loucos, que correm em todo o planeta.

O meu Instagram apresenta-me todos os dias corredores da Nova Zelândia, da Colômbia, dos Estados Unidos, da Suécia, do Japão, todos os dias, quando publico a foto da minha corrida recebo “likes” e comentários de gente de todo o mundo.

Até da Coreia…do Sul.

Facilmente se conclui que, o que há uns anos era “moda”, diziam os corredores que correm há bastante tempo, como que a desprezar essa nova tribo, e diziam aqueles que não queriam sair do sofá, a chamada dor de cotovelo”, deixou de o ser.

É parte integrante da vida desses milhões de loucos. Todos os dias. Entranha-se. Vicia.

Hoje, hoje voltei a sentir esse olhar;

O tipo maluco, que vai aqui a passar, de calções e tshirt, a olhar para o relógio, aquele olhar que nos faz ler o pensamento: “o que é que deu a este tipo para andar aqui, assim”.

Quem nos olha não entende porque é que corremos, aparentemente, sem rumo, aparentemente. Mas, neste caso descodifica-se bem o pensamento do outro lado: se nunca usaste os meus sapatos, como podes querer saber o meu caminho?

Porque é que corro, o que me motiva a correr, o que sinto quando corro, e depois.

Se soubessem, entendiam, sendo que não é relevante que não o entendam, é apenas assunto para este texto, nada mais que isso.

Até porque é simples, corremos porque há algo comum, porque gostamos, porque nos divertimos, porque nos sentimos mais fortes, às vezes até nos sentimos heróis (só dentro das nossas cabeças), corremos porque vivemos, isso é parte da vida, ver, respirar, ultrapassar a nossa sombra, escutar a cadência dos nossos passos.

Correr pode ser tanta coisa, aquele momento do dia em que nos encontramos connosco e deixamos o stress no asfalto, o momento é que tratamos a alma e castigamos o corpo do pecado.

Cada um de nós, dos que correm, tem um ponto comum, mas o seu próprio objectivo.

No meu caso é superar um desafio que nunca me tinha passado pela cabeça, não chega a ser um sonho, que isso era ter um emprego novo e bem remunerado, ter mais tempo, menos preocupações, isso era o sonho, a maratona é um objectivo, só isso. Imenso, não é?

Eu não gosto de correr acompanhado, aliás, gosto pouco de socializar, mas creio que vou aprender a gostar, de vez em quando, para tornar tudo mais fácil, mas gosto de partilhar as experiências, as dores, as alergias, as músicas, os sítios, as minhas corridas.

Não porque me sinta um narciso, mas porque quando olho para as fotos, encaro o dia seguinte, mais que não seja porque as fotos são bonitas (sorrir, nesta parte).

Correr é tanto, que não há religião, classe social, crença política, cor.

Na corrida não ganha quem tem mais ou menos poder, mais ou menos dinheiro, quem é mais ou menos influente.

Isso mesmo provarei, quando estiver em Berlim, e não há nada mais libertador que isso.

Na corrida, ganha aquele que acorda mais cedo que o resto do planeta e sai para correr, ainda sem sol, ou já de noite, ou sob o sol escaldante, ou debaixo de chuva que pica a cara. Ganha aquele que leva com o vento pelo focinho.

Na corrida, ganha aquele que faz tudo para que aconteça, antes ou depois do trabalho, queira ou não, tenha vontade ou não.

Nisso já sou um vencedor.

Disse-me o meu treinador, sem se dar conta, quando soube que tinha feito apenas meio treino, porque “não me apeteceu correr mais”.

“Agora é que começámos, não é quando apetece, a maratona é sofrer, é quando tem que ser”.

Hoje, não me apetecia, mas aquela frase ecoava na minha cabeça.

Quero pertencer ao grupo dos “maratonistas”, quero ser um “maratonista”.

Por isso, planifico os meus dias em função dos treinos, ando a aprender a correr mais longe, mais rápido, mais forte.

O meu treinador, sem saber, ou se calhar sabendo-o bem, provocou em mim uma sensação, por ter feito apenas meio treino, que o meu professor de jornalismo me provocou há uns quase trinta anos.

Férias de Natal.

Avaliação. Notas excelentes a todas as disciplinas, menos em Géneros Jornalísticos.

“Porquê?”, perguntei ao professor Fernando Cascais.

“Porque quem quer ser jornalista deve saber que não se usa a palavra potencializar, neste caso. É potenciar. Você nunca chegará a jornalista”, e deu-me um nove.

A única negativa, que me estragou o Natal e me revoltou tanto que terminei a cadeira com dezoito.

Fiquei eternamente agradecido ao meu professor, de quem guardo imensa competência e saudade.

Nesse dia, depois de o escutar e de saber a nota, disse-lhe: “estragou-me o Natal”, ao que me interrompeu, “eu não, você é que estragou o seu Natal”.

Inspirei, “lamento, mas está enganado, eu irei ser jornalista, porque é o que eu quero ser”.

Ele, sabia isso quase melhor do que eu.

Hoje, se o meu professor lesse este texto ia perceber que eu também nunca quis ser corredor.

Vou ser “maratonista” !

 

 

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publicado às 20:27

A GRANDE CAMINHADA ( DIA 17 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 19.04.18

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Há quase dois meses que não dormia.

Um sono seguido.

Há um ano e meio que me deitava perto das quatro da manhã, acordava às sete e meia, para ver os meus filhos, adormecia às onze, para acordar às duas ou três da tarde.

Durante um ano e meio fui conjugando tudo, com alguma elasticidade, o sono, que não dormia, o trabalho, cada vez mais exigente, a vida familiar, que parecia quase não existir e eu próprio.

É no treino, na corrida, que encontro (ou tento) encontrar o meu próprio equilíbrio, para conseguir conjugar uma vida em contra-ciclo.

Nos últimos meses comecei a ficar impossível, criticava tudo, existia dentro de mim uma animosidade e uma ansiedade que não eram normais, tudo disfarçado pelas horas de sono.

Mentira.

Sentia-me bem fisicamente, porque apesar de não conseguir dormir de seguida, na verdade dormia horas suficientes.

Foi depois de uma conversa mais dura, no trabalho, que tomei a decisão de consultar um médico.

Pairou no ar que tinha sido efeito causa-consequência, mas só que não me conhece pode pensar que eu ousaria sequer pensar em tal coisa.

Foi a causa próxima, isso foi.

Expliquei à médica, que substituía o meu médico de familia, que estava a ficar intolerante com as pessoas, irritado com tudo mas, sobretudo, não estava feliz.

O que aconteceu depois fica entre as paredes do consultório.

Saí de lá com uma baixa médica, para doze dias e com recomendações bastante claras.

Voltei doze dias depois, já com o meu médico de família regressado das férias, e declarou mais um mês de baixa médica e com recomendações bastante claras.

Também saí de lá a saber o que estava a acontecer;

“Está dentro de si um caldeirão de ansiedade a querer saltar cá para fora, tudo junto com a falta de qualidade do sono está a provocar-lhe um stress que começa a materializar-se”.

Perante isto foi-me ordenado que treinasse - até há quem possa ver na coincidência uma qualquer intenção, como se estivesse a ver-se ao espelho - mas, o meu médico de família, que há um ano sofreu um enfarte, para além de ser um excelente médico, sabe que praticar desporto intensamente só ajuda.

Mental e fisicamente.

Foi mais uma coincidência, apenas.

Coincidiu com a minha preparação para a maratona, mas já antes ela se tinha iniciado, bem antes, pelo que agora cada treino faz parte das minhas tarefas diárias.

Dormir de seguida - ainda a custo, mas está quase lá -, tomar cinco refeições diárias, treinar, estar com os meus filhos, visitar a minha mãe, escrever, ver amigos, apanhar o sol na cara, e descansar.

É só um anti-depressivo e um ansiolítico, faz-se bem.

Têm sido assim os meus dias, no último quase mês e meio.

Estou a voltar a ser quem sou, lentamente, como lenta tem sido a preparação desta maratona, não me refiro apenas à de Berlim.

A vida.

Estes dias, estes meses, este ano e meio.

Mas, vou seguindo, lentamente, o caminho.

Eu sei que - ensinou-me a corrida - primeiro ganhas resistência, só depois ganhas velocidade.

Sei mais;

sei que a grande caminhada faz-se de pequenos passos.

E, ninguém gosta de ficar pelo caminho.

Nem eu !

 

(Se calhar são efeitos desta música )

 

 

 

 

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publicado às 22:05

RAMPAS DO DIABO ( DIA 16 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 19.04.18

 

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Chegou o bom tempo.

Até ver.

Posso dizer, por isso, agora que parou de chover que, por entre os intervalos da chuva fui aumentando a minha carga de treino, porque Berlim é já aí.

Já passei por quatro fases, recuperação das lesões, corridas de teste de reacção das pernas, adaptação à corrida e, agora o treino de resistência e velocidade. 

Passram quatro meses.

Faltam cinco meses, para Berlim, e por incrível que pareça, sinto que foi há dias que recomecei.

Recomeçar.

Corri durante mais de quatro anos, mas metade deles corri cheio de lesões. Parei. Re-aprendo, ou na verdade, aprendo agora o que é "correr".

Janeiro e as duras massagens já lá vão, Fevereiro e as corridas de teste já ficaram lá atrás, Março trouxe-me corridas mais definidas e específicas e, Abril trouxe-me as rampas e as rectas.

Sem dores. Cansado, mas sem dores.

É isso o que mais me anima e empurra, sentir que, apesar de continuar lento deixei de ter dores.

Correr.

Simplesmente.

Corro sem dores, neste momento, corro subordinado a patamares de treino definidos, pelo meu treinador, no que às batidas cardíacas diz respeito.

Registo todos os dados, de cada corrida e analisamos, em conjunto, para definir os mesociclos de preparação.

Se faço uma corrida de cinquenta minutos, de recuperação, sei que não devo ultrapassar determinadas BPM.

Se faço um treino de rampas, sei que tenho que atingir determinadas BPM, quase o meu máximo.

O mesmo, quando treino rectas.

É este o segundo aspecto que me anima.

Na verdade, ainda não treinei rectas, o treino de velocidade.

Desde Janeiro, tenho tratado as pernas, cuidado do resto do corpo, tenho corrido, para começar a acrescentar quilómetros e, as rampas, para fortalecimento e resistência.

Só para a semana é que vou iniciar o treino de velocidade.

Depois de uma corrida de 15 minutos, leve, tenho 5 rectas para correr, um quilómetro cada uma, com intervalos.

Nessas corridas as minhas batidas cardíacas devem atingir obrigatoriamente as 160 BPM.

Uma espécie de sprint, num quilómetro.

Só devo partir para o quilómetro seguinte, quando as batidas descerem para as 110.

Aquilo que tenho sentido, porque isto é uma coisa muit solitária, apesar de tudo, é que estou completamente fora de forma e, para Berlim só faltam cinco meses.

Mas, posso estar errado, admito.

No final de alguns treinos de corrida ( 6 por semana, 4 de corrida e 2 de ginásio) sinto que não vale a pena, porque as pernas prendem, não respondem à velocidade que lhes quero dar. Algumas vezes penso em desistir.

Já pensei tantas vezes.

Só que aguentei e, agora, começo a perceber que, afinal, não estou em baixo de forma, não senhor.

Estou a caminhar em sua direcção.

Tenho ganho consistência e resistência, no último mês e meio.

Nas pernas e no resto do corpo.

Agora, vou juntar a velocidade.

Agora, começo a acreditar, verdadeiramente, que vou correr em Berlim a minha primeira maratona.

Porque começo a juntar as peças e elas começam a encaixar-se. Vêm aí cinco meses alucinantes.

E, todo este tempo tem sido uma enorme lição;

Perceber que somos feitos de nada, e de tanto, ao mesmo tempo.

Quando a tua cabeça pende para baixo, levanta-a, coloca a tua coroa e sai para a rua.

As coisas acontecem.

Parecem impossíveis, mas acontecem.

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publicado às 20:16

CORREDOR COM COROA (DIA 15 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 26.03.18

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Lancei-me a escrever, sem ter uma ideia para explorar.

Dentro da cabeça um vazio.

Dentro da medula a vontade, sem uma ideia para explorar.

Ainda não lhe falei do novo mesociclo (que isto já está quase a entrar no quarto mês de preparação), nem das primeiras rampas, não lhe falei de nada que só a mim importa. Não gosto de maçar as pessoas com coisas que nada lhes dizem.

Facto é que comecei há uma semana os treinos específicos.

Core à segunda, rampas à terça, descanso à quarta, corrida à quinta, pernas à sexta, descanso ao sábado, corrida ao domingo.

É isto, por agora.

Isto, nada lhe diz mas, se eu lhe disser que isto tem sido o meu escudo protector achará que estou em desequilíbrio mental, nada mais errado.

É, justamente, o contrário.

É uma preciosa, diria, fundamental terapia para manter o foco e a cabeça alta, de modo a respirar e seguir.

Um amigo dizia-me que tinha três níveis de vida, a privada, a social e a digital.

Aprendo com os meus amigos.

A vida privada é isso mesmo, por isso, não vem ao caso o motivo, mas nos próximos dias terei mais tempo para os meus, para mim, para olhar o sol e senti-lo no rosto, para saborear a brisa que passa, sem destino, para escrever, para ler, para treinar, tempo meu.

Há decisões que, se adiadas, podem fazer com que a nossa coroa caia no chão, e todos sabemos quanto difícil é vergarmo-nos, mesmo que seja para apanhar a coroa e voltar a colocá-la, aprumada, na cabeça.

O vime verga, mas não parte e inspira.

A analogia inspirou-me e tomei uma dessas decisões.

Vem isto a propósito do meu treino de domingo.

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Desde o momento em que decidi parar e viver, almocei com a minha filha, lanchei com a minha mãe, jantei com a minha mulher e com os meus filhos e, corri, com o meu irmão. Só ainda não estive com o meu pai, mas este fim de semana não falha o almoço.

Tanto, em apenas dois dias, quase uma vida inteira, pareceu-me.

E, com os amigos.

Vê-los, revê-los, escutá-los.

O meu treino de domingo era simples, apenas 50 minutos de corrida dentro de um determinado patamar cardíaco.

O meu irmão, Ricardo, tem as pernas longas.

O João apareceu, ele tem as pernas ainda mais longas que as do meu irmão.

  • “Miúdos, não posso passar as 135BMP, pelo que ou vão os dois ou vão comigo”.

Os pernas-longas nem responderam.

  • “Vamos lá”, disse o mais velho, eu.

Começámos junto à biblioteca, provavelmente, a mais bela da Europa.

  • “Quanto é que fazem até Alhandra, vinte minutos ?”.
  • “Mais ou menos isso…”.

Da biblioteca ao cais de Alhandra são uns quatro quilómetros, sempre junto ao rio, o nosso rio.

O rio é importante nesta caminhada que é a minha vida. Nele brinquei, saltei, nadei, andei de barco, o rio é aquilo que me transporta para qualquer viagem que queria fazer para dentro de mim.

Vou muitas vezes junto ao rio, mesmo quando não vou correr.

Chegados a Alhandra, o meu irmão mais à frente, o João a meu lado - percebi a sua intenção de ajudar a manter o ritmo - eu segui um pouco mais, para fazer metade do treino, enquanto eles voltaram e pararam, para alongar, enquanto aguardavam por mim.

Enquanto corria, já de volta, contemplei o rio, pela milésima vez.

Via o Ricardo e o João lá à frente junto, à marina.

O rio.

Como que a conversar comigo.

Que não me conseguia entender, que nem eu me conseguia entender, que aquele momento em que corro liberta-me, mas não me cura.

Ele, sereno.

Que não conseguia encontrar o caminho, que não conseguia sorrir como antigamente, que aquele momento em que corro liberta-me, mas não me cura.

Ele, sereno.

Quando está sereno, o rio, transmite-me esse veludo da alma, permite-me cheirar os eucaliptos da antiga Escola da Armada, como se entrasse num túnel mágico.

Dali em diante foi por esse túnel mágico adentro que fui.

O rio, sereno, ensina-me, quando teimo em não querer perceber.

É ali, é aqui, com eles, comigo que pertenço, porto de abrigo, mais forte que o porto da antiga Escola da Armada que, por esta altura triste se limita apenas a adornar a paisagem.

A serenidade do rio, que é meu, mostrou-me, já quase no fim da pista, quase no último quilómetro, que ainda há muita corrida para correr.

Era hora de acabar a corrida de domingo.

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Pedimos à miúda do bar da biblioteca, que contempla o rio, para nos tirar uma foto, aos três.

  • “É só clicares no meio, para focar e depois dispara várias, alguma ficará boa”, pedi-lhe.

A minha corrida de domingo foi-me especial, porque o rio ensinou-me a olhar de novo para o caminho.

Ali, mesmo, junto dos meus, que é ali mesmo que pertenço.

Ao tempo que não corria com o meu irmão

Ao tempo que não dizia ao meu irmão que o amava.

Disse-o no domingo.

No domingo de corrida.

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publicado às 22:08

COISAS DA VIDA E DA CORRIDA (DIA 14 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 14.03.18

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A corrida tem-me ensinado algumas coisas.

Coisas sobre ser, sobre ver, sobre a vida, até sobre a morte, que já corri, para poder gritar, sózinho, eu e o céu.

Olhe, ensinou-me, recentemente que devo comer com regularidade e sempre antes de treinar, ao contrário do que fiz durante anos.

Olhe, ensinou-me que faz sentido a teoria da cabeça;

"Corpo são em mente sã".

Quando a cabeça está ausente, o corpo perde-se, tal como a vontade.

Se és resiliente e vestes o equipamento e sais para treinar, daí até ao fim, sabes bem, será um brutal pesadelo.

Tudo te pesa, tudo te dói, tudo te irrita, tudo te impede, mas tu vais.

"Se a cabeça não estiver bem, esquece, Zé, nada funciona", disse-me o meu treinador. Confirmei.

Tenho treinado, nos últimos dias, como sempre, desde o dia em que me coloquei este desafio, com a certeza que vou cruzar a meta, em Berlim.

Mas, tem havido dias muito difíceis, que só me vieram comprovar a teoria.

Isto fez-me pensar em algumas coisas da vida.

É, a vida, um processo de transformação, resume-se quase a isso. Então olha-a de frente, José.

Ontem fiz o melhor treino, desde que esta aventura começou.

Quando sentes o cansaço, mas ele sabe bem, em vez de te prender ao chão, quando corres mais rádio, quase sem te dares conta, não fossem os registo do relógio, quando terminas, transpirado até dizer não, quando acordas no dia seguinte e sentes que estás vivo.

Corri abaixo dos seis minutos por quilómetro, sem qualquer dor, sem qualquer desconforto, gozando em pleno a corrida.

Nestes últimos dias, uma das muitas coisas da vida em que tenho pensado é na forma de ser feliz. Isso passa pela corrida, haja cabeça.

Desde Janeiro que questiono diariamente se, de facto, isto irá até ao fim.

Confesso, por vezes sinto-me tão em baixo que questiono tudo.

O que não faz uma corrida.

Ontem, depois de correr, voltei a sentir-me leve, em paz, feliz. Hoje acordei assim, a acreditar que a vida tem aquele lado sereno, embora demore, por vezes, a encontrar. Tamanhos conflitos interiores.

Quero poder dizer: sou maratonista, isso quero, mas a minha aventura já valeu a pena e mal começou.

O que não faz uma corrida, um momento mágico, um instante.

Há, depois, mais coisas da vida, como a emoção, os sentimentos, os afectos.

Tenho tido a sorte de ter encontrado, nestes dias de Inverno, pessoas que não saem do meu lado, pessoas que me empurraram para aqui, até aqui.

É também por elas que vou continuar, porque naquele sábado que tanto desejo, quando passar a linha de chegada é para estas pessoas, tão especiais na minha vida, que irei levantar os braços, olhá-las de frente, para que vejam o rosto do esforço, para que saibam que a minha amizade é eterna, incondicional.

Voltei a acreditar.

Em mim, na vida, na minha corrida.

É de maratonas que gosto.

É por isso que gosto da vida.

Lutar ou vencer.

Não há outra hipótese, apenas uma escapatória:

amar, muito.

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publicado às 14:51

A TEMPESTADE DENTRO DE MIM ( DIA 13 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 04.03.18

 

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Porque há domingos assim...

 

 

Chovia a potes.

Foi de repente, de repente, assim que me despedi dos meus dois amigos começou a chover a potes. Uma daquelas chuvadas que nos empurram porta de casa dentro, para um sofá reconfortante.

Pegar ou largar !

O rio mostrava-se-me bravo, mas eu conheço-o, desde miúdo, entendo-lhe a cor escura, nem vivalma no horizonte, nem barcos a subir em direcção à ponte, nem namorados sentados nos bancos decorados pela história dos heróis da vila, grandes, nada, ninguém.

Apertei os cordões do carapuço azul, bem apertados, aconcheguei os phones nas orelhas, fiz play e fui.

Nos primeiros quilómetros vi os meus próprios passos. Só eles.

Tanta era a chuva que, não podia levantar a cabeça, apenas os meus passos. De tempos a tempos desapertava os cordões do carapuço azul e olhava de frente para o meu caminho, ninguém. Nada.

Aprendi que, afinal, não baixo a cabeça apenas para apertar os atacadores, também baixo a cabeça para ver os meus próprios passos, toc-toc-toc-toc, assim, a este ritmo.

Tenho-me obrigado a isso, a olhar os meus passos. Como se tudo estivesse prestes a recomeçar.

Já não me lembrava de como era correr à chuva. Há quem dance, há quem cante, há quem corra à chuva, eu corro à chuva.

Corro contra o vento, contra o tempo, contra aquilo, contra isto, corro, mesmo quando sinto puxar-me para trás.

Agora que corro sem dores nas pernas, finalmente, continuo a fazer tempos de corrida idênticos. A diferença está no facto de, agora, ter voltado a desfrutar do prazer de correr, o prazer de sentir as gotas de suor a cair nos olhos, misturadas com as notas da chuva, sim, consigo diferenciar, o prazer de sentir a temperatura do corpo a subir, e a cabeça a viajar, as pernas a responderem.

O prazer de correr sem ter que parar, só a porcaria do relógio parou, a aplicação também, a meio da corrida. Chateou-me, claro que chateou. Vou mudar, de relógio e de aplicação.

Vou mudar tudo, ou quase tudo, depois da maratona que vou correr, pela primeira vez.

Cada vez mais o sinto.

Tenho vivido momentos difíceis, coisas minhas mas, nos últimos dias têm-me acontecido coisas boas, pessoas. As pessoas fazem-me bem, ao sorriso.

Hoje, pela primeira vez, fui a uma corrida e não corri. Foi nesta corrida que me estreei, há quase cinco anos, sozinho, como sempre, como eu próprio. Fui lá só para dar um abraço, a dois amigos, que me estimam, que estimo, amigos feitos a correr, porque a vida é isso mesmo, uma corrida de fundo, como a maratona.

É este o meu desafio, a minha corrida, a minha experiência. Toda a vida desafiei a vida.

Estamos cara-a-cara, eu e ela, de novo, eu e ela.

A minha maratona não é só uma corrida grande, a minha maratona é a metáfora de toda a minha vida. É agora que preciso, muito, de saber se sou capaz, de saber quem sou eu, de saber como irei ser, dali em diante, porque é perder ou ganhar.

Já não há mais tempo. É o meu tempo, o meu confronto, perder ou ganhar.

Não é apenas uma maratona, é a minha maratona.

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Estive com estes dois amigos, depois da corrida, ele de Guimarães, ela de Arruda dos Vinhos, vieram correr à minha terra, ao meu sítio.

Foi, orgulhoso, que lhes falei do caminho onde corro, onde me reencontro, onde sinto e vivo, “é ali em frente, fantástico, não é?”, perguntei, enquanto tomávamos um café, olhando o rio, bravo, o rio.

“Estás a ver a praça de touros? O meu primeiro restaurante era logo a seguir...”.

Falei-lhes imenso de tudo, como sempre, falo imenso, ninguém é perfeito.

Metemos a conversa em dia. O Francisco vai correr a maratona, comigo, em Setembro, a Alice, provavelmente.

Falámos sobre os apoios que estamos a tentar, para suportar esta aventura, falámos da família, amigos.

Tenho tido, nestes dias de temporal, amigos que fazem questão de entrar dentro da metáfora que estou a construir.

Se escrevo este texto, hoje, devo-o à Petra, um ser humano como nunca conheci, não que me tenha feito nada, a não ser empurrar-me para a escrita, de novo, e o tanto que isso é.

Amigos.

E, se ao Francisco e à Alice devo o abraço - há um ano, exactamente, estava em Moçambique, nas aldeias do abraço - à Petra devo o sorriso, e se à Petra devo o sorriso, ao Rui devo um mundo inteiro.

Não contem a ninguém, mas eles não sabem que lhes devo tanto.

Amigos.

Assim que me despedi deles começou a chover a potes.

Foi quando comecei a correr !

 

 

 

 

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publicado às 17:29

METADE DA VIDA

por The Cat Runner, em 21.02.18

 

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A TVI fez 25 anos.

É uma porção de tempo respeitável.

É uma porção de tempo que merece respeito.

Sobretudo, respeito por aqueles, tantos, que ao longo de 25 anos deram e receberam, muito.

Nunca o disse, mas tenho uma TVI só minha, não dá para me a tirarem.

Metade da minha vida foi passada dentro dela, com ela.

Tenho 48 anos, estou lá há 24 (23 e meio), ela tem 25.

Entrei solteiro. Casei.

Entrei sem filhos. Tenho dois.

Entrei novo. Estou velho.

Entrei com sonhos. Concretizei alguns.

Entrei ninguém e ninguém continuarei a ser quando sair.

Mas, não há volta a dar, a TVI, é como a olho, corre-me nas veias, bomba-me o coração, está tatuada na pele.

Entrei tinha ela um ano e meio, estava a começar a dar os primeiros passos.

Ela mudou, muito, muitas vezes.

São as pessoas que fazem a história e, tantas que por lá já passaram. Eu, continuo.

Por quanto tempo?

Não sei, não faço ideia.

Toda a vida defendi a minha TVI com dentes cerrados. Quando ela não tem defesa limito-me a calar-me.

Tantas vezes me zanguei com ela, tantas vezes me desiludiu, tantas vezes me revoltei.

Tantas vezes chorei, mais de alegria, tantas vezes me senti orgulhoso, tantas vezes, a caminho da TVI pensava “vou fazer aquilo que se calhar milhões adoravam fazer”.

A TVI ensinou-me a valorizar a vida.

No deve e haver, os maus momentos não conseguem, de todo, superar o tudo de bom que a TVI me deu e me fez. Muito menos mesmo os piores momentos.

A nossa relação é de marido e mulher.

Mesmo quando ela não me liga nenhuma faço questão de lhe mostrar que eu estou ali.

A TVI fez 25 anos.

Apeteceu-me escrever sobre ela, a minha TVI, não é sobre a TVI que toda a gente vê. É sobre a minha.

Foi ela que me abriu as portas para ensinar, para dar aulas, foi ela que me criou condições para casar, comprar uma casa, constituir uma família, foi ela que colocou o esforço do meu trabalho aos olhos das pessoas.

Foi ela que me deu algo que nunca pensei ter; o reconhecimento do meu trabalho, no meu país, por parte dos meus concidadãos.

No dia que eu morrer haverá pelo menos uma alma que dirá: aquele gajo foi jornalista da TVI.

A TVI mudou tantas vezes que, por vezes, dou comigo a perguntar se é a TVI.

É.

Será sempre.

Por isso acabei o jornal da meia noite de uma forma extremamente intensa, para mim;

A TVI fez 25 anos.

Espero que nos acompanhe nos próximos 25.

(Mesmo que eu já lá não esteja)

A TVI é como os meus braços, pernas, coração, alma, faz parte de mim.

Peço menos, a minha TVI.

Que eu tenho uma só para mim !

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publicado às 21:10

É A VIDA, JOSÉ ! ( DIA 12 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 21.02.18

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As coisas estão a correr bem.

Quero dizer, algumas, que não podemos agradar à vida a cem porcento, nem ela a nós.

Coisas da vida!

Bom, neste momento sei que acordo com o meu coração a bater ali à volta das 155 batidas por minuto, todos os dias.

Há quase dois meses que tiro a pulsação, sempre que acordo, de acordo ( a repetição da palavras foi de propósito ) com o determinado pelo meu treinador. Também registo outros dados diários, que não são para aqui chamados, agora. Faz parte do plano.

Este mês fiz seis corridas. Hoje faço a sétima.

As coisas estão a correr bem.

Mas, não é para deitar foguetes, que a qualquer momento tudo pode mudar.

Coisas da vida!

As primeiras corridas, de 35 minutos, foram servindo para testar o estado das minhas pernas.

As seis corridas que faltam, para completar o mesociclo (este mês) têm o mesmo objectivo das primeiras. As próximas vão passar a ser de 45 minutos. Faz parte do plano.

Acontece que, sinto as pernas cada vez melhores.

Na última corrida, pela primeira vez, em dois anos, praticamente não senti desconforto no gémeo direito. Apenas um resquício.

A corrida foi feita em passadeira ( uma vez não faz mal ). Agora, na próxima, na rua, é o tira-teimas. Ou vai, ou racha (mais rachas não, please).

Para lá deste brutal desafio que é conjugar o treino com a regeneração das pernas, há o desafio psicológico.

Por exemplo, enquanto escrevo apareceu-me a tal sensação de desconforto.

É mental.

Estou a escrever e o meu sub-consciente está a correr, com dores e desconforto.

Só pode ser ele, visto que eu ainda estou no sofá, só vou correr ao fim do dia.

Isto pode não parecer nada, mas para um tipo que quer ir correr uma maratona, pela primeira vez, isto é imenso.

Nunca, na vida, me deixei derrotar pela mente, mas passar esta barreira está a ser mais difícil que o Harry Potter passar a parede da plataforma 9 3/4.

Hoje, finalmente, vou ao tira-teimas.

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Tenho o estômago colado e uma dispensável sensação de ansiedade.

Pode parecer nada, mas isto é imenso, para mim.

Se hoje as pernas não me doerem, de todo, estou apto a passar à fase 3 do plano de treino.

Concluir as corridas que faltam, em Fevereiro, porque aproveito sempre e coloco mais quilómetros nas pernas, e continuo a garantir que o calvário chegou ao fim.

Depois, em Março, começamos os treinos mais focados na maratona. As rampas, as séries, o ginásio, que quanto à alimentação a coisa vai indo, embora seja chato ter que comer 5 vezes por dia, e preparar tudo, e isso.

O que sinto é que estou a conquistar coisas, umas atrás das outras.

E, já que não podemos agradar à vida a cem porcento, nem ela a nós, ao menos que alguma coisa faça sentido.

Correr faz todo o sentido, para mim.

É a vida. Faz parte do plano.

Viver.

Correr.

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publicado às 17:03

SEM STRESS ( DIA 11 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 09.02.18

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Hoje falhei o primeiro treino, verdade !

Na segunda feira corri pela primeira vez, em dois anos, sem dores, ao fim de cinco semanas de paragem.

Na terça descansei.

Na quarta voltei a correr, numa inquietude só desfeita no fim da corrida.

Hoje devia fazer treino de pernas, no ginásio, e baldei-me.

Mas, como isto é um caso sério pedi a opinião ao meu treinador, que de forma clara me disse que devia fazer o treino.

Só que o dia já ia longo e já não tinha tempo útil de ir ao ginásio - a pessoa tem que arrumar a casa e assim, quando a dona Cristina fica doente e não nos pode vir ajudar -, dediquei-me ao lar.

Arrumei tudo, limpei tudo, e vim escrever.

Perguntei-lhe, então, ao meu treinador se podia fazer “pernas” no sábado.

Que não, que domingo volto a ter treino de corrida e é melhor não.

Sugeri metermos este treino no plano da próxima semana.

“Sem stress”, respondeu-me.

O José Carlos Santos transmite a calma e a segurança necessárias, para acreditar que a minha ideia louca vai fazer sentido.

Salta-se o treino e não se fala mais nisso.

 

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publicado às 17:16

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A cabeça é tramada.

Passaram praticamente dois anos.

Meses e meses, dias e dias, semanas e semanas, dois anos.

Nos últimos dois anos corri sempre com lesões crónicas nas pernas, uma perfeita inconsciência, que apenas tem a ver com a resiliência e com a vontade de não atirar a toalha ao tapete.

Mas, tinha que parar e tratar-me.

Finalmente, livrei-me das dores, tenho as pernas curadas.

Mas, a cabeça é tramada.

Hoje, quando recebi o telefonema do meu treinador (falamos todas as semanas), para combinarmos o plano de treino das próximas semanas até os meus olhos brilharam e, de alguma forma, até a minha alma sorriu, ela que tem andado tão cabisbaixa, com coisas da vida.

“Viste o plano que te enviei? Ainda não é um plano detalhado, agora é para avaliar, vamos ver como reagem as tuas pernas à corrida”.

Corrida, a palavra mágica.

Não corro há cinco semanas, por ordem do meu treinador.

Sinto as pernas descansadas, mas a cabeça inquieta, como se fosse a primeira vez.

Já assumi que é como que começar do zero. Recomeçar.

Gosto de recomeços, com toda a inquietação que eles encerram em si.

“Vi, sim, mas estou a ter um bloqueio…”

“Eu sei”, respondeu-me ráido, do outro lado da linha.

“Aquilo que eu quero é que corras solto, livre, confortável, para vermos como é que os teus gémeos se comportam, estão curados, já só tens um ou outro ponto de desconforto que vai desaparecer, não estiques e cumpre as regras todas”.

As regras (de treino) não são propriamente fáceis, não sendo um bicho de sete cabeças.

Lá está, a cabeça, a cabeça é tramada.

“Sabes, estou inquieto”, disparei.

“Eu sei, foram dois anos a defenderes as pernas, instintivamente. Ganhaste vícios, posições incorrectas, por isso não penses nesses dois anos, vai correr, com prazer, e regista os dados todos”.

O registo de dados passa por anotar os meus batimentos cardíacos - PM, (Pulsações Matinais) mal acordo, por registar os quilómetros que vou correndo, de acordo com as instruções de corrida e, no final, de acordo com uma escala determinada registo a minha (PE) Percepção de Esforço.

Isso, até com o Excel eu vou ter que trabalhar, e que confusão que aquilo sempre me fez.

A escala vai de 0 a 10; zero é totalmente confortável, dez é insuportavelmente desconfortável.

Nas próximas semanas o plano obriga-me a treinar cinco vezes em cada semana.

Basicamente são três treinos de corrida e dois de fortalecimento, em ginásio.

A corrida será feita de preferência na rua.

A maratona está agora a oito meses de distância. Passou um mês.

Foi então que aprendi o significado da palavra "mesociclo".

Na verdade é um ciclo que pode ir das duas às seis semanas.

No meu caso este terá duas semanas, para reavaliação mental e física, os próximos, já mais a sério terão a duração de quatro semanas, até ao dia 15 de Setembro, férias incluídas (o treino não vai parar).

São planos de treino específicos e personalizados, podem servir para adquirir picos de forma, para recuperação ou para pré-preparação. Tudo detalhado, comparado e anotado.

Bendita palavra estranha; "mesociclo", soube-me tão bem ouvi-la, aprendê-la, entendê-la, de a interpretar.

Estas duas semanas vão servir, nesta segunda fase do plano, para avaliar a minha condição total, para avaliar a resposta das minhas pernas a eventuais lesões como as que tive e para, a partir daqui, entrarmos na terceira fase, a preparação específica e minuciosa da maratona.

Nessa altura já o plano de treino será personalizado ao detalhe, em função da minha capacidade aeróbica, da minha coragem e da resposta das minhas pernas.

Mas, a cabeça é tramada.

O regresso à corrida está agendado para terça feira, faltam dias.

Serão dez minutos de corrida, quase caminhada, para aquecer, mais quinze minutos de corrida lenta e mais dez minutos de “desaquecimento”, com os obrigatórios alongamentos, no final.

“Nos últimos dois anos nunca correste mais de dez minutos de seguida, quando foste ter comigo a primeira vez, ao fim de dez minutos estavas a alongar, por isso vamos fazer tudo com calma, com muita calma”.

Vai ser assim três vezes por semana, nas próximas duas, porque pelo que já vi, quando o plano for definitivo, com as variáveis todas ponderadas, a coisa tornar-se-à bastante dura, diria.

Numa altura em que devia estar preocupado se vou aguentar, se a queda de forma foi grande, se vou conseguir, na minha cabeça só ecoa aquela sensação que me acompanhou nos últimos anos.

Enquanto escrevo isto parece que aquela bola maldita, no gémeo direito, que já não existe, a bola (contractura maior) está a latejar, quer saltar para fora da perna, obriga-me a parar, a mim que estou no sofá.

A cabeça é tramada.

“Estás obrigado a não pensar nos últimos dois anos, não te deixes condicionar por isso”.

A minha relação com o meu treinador começa a adensar-se, para além de ser um bom homem, o José Carlos Santos é um profundo conhecedor do treino e da recuperação e essa sabedoria transmite-me segurança.

Mas, não chega. O grosso do trabalho tenho que ser eu a fazer.

Todos nós temos dias melhores e dias piores, nesta vida.

Confesso, não ando a a travessar a fase mais animada, antes pelo contrário.

E, se noutras alturas era ao desporto que ia buscar forças, neste momento é dentro da minha cabeça que se guarda a minha capacidade de superação, de apanhar a toalha do chão e limpar o suor do rosto.

Correr a maratona é mais que superação, é ir além daquilo em que acredito, bem além, até.

É prova de vida e de compromisso.

Estou-me a provar isso mesmo.

Faltam oito meses e os desafios são sucessivos.

Primeiro recuperar das lesões, agora ver como vai ser o recomeço, depois o cumprimento escrupuloso das indicações de treino, com toda a ausência física da família, até por força dos meus horários de trabalho, com a rigidez da alimentação, com todo o investimento financeiro que estou a fazer.

Tenho a consciência que são desafios quase diários.

Estou cá para isso !

Quanto ao corpo, desde que os gémeos não voltem a gritar de dor, tudo se arranja, é para enfrentar o desafio que me estou a preparar.

Quanto à cabeça, ela é tramada, mas eu sou mais tramado do que ela.

Bem sei que há desafios que perdemos, mas também há desafios que ganhamos.

E, se afinal as vacas voam, também eu posso correr uma maratona.

E vou corrê-la, disso ninguém tenha dúvidas.

Venha a terça feira, que quero matar os fantasmas todos que tenho dentro de mim.

Venha a terça feira, que quero voltar a sentir os cheiros, descodificar os sons, olhar as cores do rio e das flores, enquanto corro, enquanto respiro, enquanto vivo, como antigamente.

Quero ser feliz, outra vez.

Vou ser feliz, outra vez.

Volto já.

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publicado às 17:45


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