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por The Cat Runner, em 19.01.19

O QUILÓMETRO 33 - A MORTE NÃO NOS LEVA QUEM NOS TOCA NO ROSTO - (DIA 90 DA MARATONA)

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Este quilómetro vai ser quase impossível de concluir.

À medida que corro vou ficando cada vez mais de rastos.

A corrida já vai longa.

É um quilómetro triste, numa altura em que faltam longos nove quilómetros para chegar ao fim.

Tem sido uma maratona muito mais dura do que alguma vez a imaginei.

Muito mais implacável, muito mais difícil, muito mais cruel.

Vamos no dia noventa.

São noventa dias, já, consigo, lado-a-lado, ao meu lado, como foi em Berlim, com os meus dois parceiros.

Noventa dias de felicidade, de orgulho, de tristeza, de dor, de esperança, de superação.

É uma das palavras que aprendi: superação. A todos os níveis, em todos os patamares, em qualquer condição. Sem condições.

Desde que isto tudo começou, até este quilómetro, morreram duas pessoas de quem gosto muito.

Morreu o meu amigo Grilo, violentado todos os dias e à sua memória, nos Media sem coração, nas redes sociais carregadas de lixo humano. Morreu às mãos de alguém, mas não o deixam ter a paz dos mortos.

Em Berlim corri por ele, com ele. Foi ele quem me acompanhou dentro da minha cabeça em permanência.

Os outros milhares de frames que me passaram pela pensamento foram e vieram, mas ele esteve sempre comigo.

Ontem morreu a Maria José!

Nunca lhe consegui chamar “Zézinha” ou “Misé”, como os mais íntimos.

Sempre a tratei por “directora”. A "directora que sorri".

Felizmente, para mim, sobretudo, para mim, ao contrário do mal que o mundo continua a fazer ao meu amigo Grilo, com a Maria José tudo é diferente, a começar, desde logo, pelas circunstâncias da sua morte.

Ela não foi assassinada por um ou mais monstros em forma humana.

Não foi um ser humano que lhe roubou o sorriso.

Ela morreu por causa de um ataque de coração fulminante.

Desde ontem, ao percorrer as redes sociais, onde o lixo humano se deposita, não vi em momento algum um único comentário reles, depreciativo, baixo, sobre ela. Sería difícil, mas no meio do lixo encontra-se de tudo. Não vi. Ainda bem que não vi, porque só eu sei o que me magoa ler piadas, opiniões, montes de merdas escritos por montes de merdas, sobre o meu amigo.

São textos e textos e textos belos, bonitos, dóceis, de afecto, de amor e de amizade, textos que a Maria José merece.

Ela personifica tudo o que de bom um ser humano tem, ou deve ter, dentro de si.

Quando a conheci, há uns cinco anos, no primeiro momento, disse à minha mulher: “agora só nos faltava aqui uma bruxa”!

Foi por causa do seu rosto que, apesar de bonito, era fechado, e escondia, naquele momento, um sorriso que só depois aprendi a decifrar.

Conheci-a quando foi apresentada a toda a redacção da TVI, mas a primeira vez que me dirigi a ela foi no refeitório, porque precisava de falar com alguém da direcção.

Não sei porquê, sempre tive grande empatia com o Zé Alberto, desde que tirei o curso de jornalismo, há vinte e cinco anos. Foi a ele que me dirigi, mas foi ela quem me respondeu.

Era a milésima vez que eu tinha sido atirado para um canto, precisava que me ouvissem, precisava de ouvir, precisava que perceber se eu era mesmo "aquilo" que me fizeram sentir.

“Vai ter comigo ao meu gabinete a seguir ao almoço”, e sorriu-me, sem mais.

A Maria José sorria permanentemente, descobri-o depois.

“Enganei-me, ela não é nenhuma bruxa, o seu semblante fechado guarda sempre um sorriso”, disse à minha mulher, porque nós trabalhamos juntos e a porcaria do trabalho está sentado no meio de nós no nosso sofá, à mesa, no quarto, seja onde for.

Entrei no seu gabinete, “senta-te”, convidou-me, enquanto abria a cigarreira e retirava um cigarro que guardava entre os dedos, juntamente com o isqueiro, enquanto conversávamos.

“Então, o que se passa contigo?”.

Desabafei, naquele momento, desabafei com alguém que nem sequer conhecia minimamente, mas que estava na disposição de me escutar. Senti a sua preocupação e, estranhamente, porque não nos conhecíamos, senti um grande afecto vindo daquele rosto que me tinha enganado num primeiro momento.

Contei-lhe o que sentia, a revolta, a frustração, a injustiça, falei-lhe daquilo que mais amava, sim, amava, na forma passada, fazer em televisão, aquilo que me completava e que era apresentar, não para me tornar conhecido, nada disso, isso eu dispenso, dispensava, apenas porque adorava estar em frente a uma câmera a desafiar-me.

É o desafio que me empurra, não perceber isso é não entender nada da condição humana.

Ela entendeu, à primeira, na primeira conversa.

Contei-lhe que, de tempos a tempos, encostavam-me, tiravam-me do ar, para onde voltava para tapar buracos de folgas ou de ausências de colegas, porque nunca na vida fui a almoços com ninguém, falei-lhe dos meus anos de profissão, do que fiz, do que não me deixaram fazer, do que queria fazer, ela escutava, contei-lhe que as pessoas seguiam o meu trabalho há mais de vinte anos o reconheciam, me transmitiam esse reconhecimento, quase todos os dias mas que dentro de portas me tratavam como eu nunca o mereci.

Dependeia de quem mandava.

Depende sempre de quem manda!

A Maria José tinha acabado de chegar à TVI, integrada na nova direcção de informação, com o José Alberto carvalho e a Judite de Sousa.

Não conhecia pessoalmente nenhum dos três.

Tinhamo-nos cruzado aqui ou ali, conheciamo-nos dos ecrãs, mas não mais do que isso.

Ela passou uma boa meia hora a ouvir-me, a escutar-me, com aquele leve sorriso permanente e os olhos doces, guardando o cigarro, apagado, entre os dedos e o isqueiro na outra mão.

Eu só precisava daquilo, de nada mais e ela deu-me, mas deu-me o resto.

Vi-lhe nos olhos o afecto, naquele momentoe a prendi a decifrar o sorriso, mesmo quando era dura, como tem que ser.

A partir dali foi o meu anjo da guarda, a minha confidente, a minha amiga, a minha melhor directora.

Poucos dias depois o Director de Informação chama-me para me dizer, já passaram uns cinco anos, puta que pariu isto, que eu era uma cara da TVI e não fazia sentido estar fora.

Ia voltar a apresentar notícias, que me preparasse!

Assim foi.

Havia mão dela.

A mão dela.

Dei uma entrevista ao Diário de Notícias, a pedido do jornal, sobre o meu regresso e voltei a fazer aquilo que mais amava fazer na televisão.

Durou pouco, apenas o tempo que durou aquela direcção, mas foi tão bom!

Pelo meio, imensas vezes, a Maria José chamava-me ao seu gabinete ou convidava-me para irmos lá fora fumar um cigarro, embora eu não fumasse, nessa altura.

"Anda, vamos fumar e conversar".

E falávamos sobre tudo, a família, os amigos, os problemas dos outros, os nossos, a TVI, falávamos enquanto durava um cigarro, ou dois.

Por entre os noticiários que me deixou voltar a apresentar entregou-me a enorme responsabilidade de acompanhar, gerir, produzir, editar e apresentar tudo o que tinha a ver com desportos náuticos, na TVI, com total liberdade.

Foi assim que fiz a América Cup todas as provas mais importantes.

Não podia falhar, por ela. Nunca falhei.

Foi assim que voltei a viajar pelo mundo, que voltei a sentir que tinha valor, que voltei a ser um profissional feliz, estimado, respeitado, acarinhado, um homem feliz.

“Tens que ser tu a ir, se não fores tu eu não fico sossegada”, dizia-me, quando por qualquer motivo eu não podia estar presente nesses eventos, ou nas reuniões de produção, fosse onde fosse.

Por ela, eu ia, desmarcava tudo e ia.

Não era uma troca de favores, era uma questão de lealdade do coração.

A lealdade ao alcance de apenas alguns.

Ontem, a Maria José morreu.

Foi a minha muher que me informou por mensagem, sem mais "morreu a nossa Maria José Nunes".

Nós choramos, eu e a Carla, e todos os que tiveram a sorte de se cruzar com ela, porque nos lembramos todos daquilo que ela fez por todos.

Vai continua a cuidar de nós, eu sei disso, o seu olhar e o seu sorriso disseram-me isso, ontem, quando, a custo, adormeci.

Uma mãe, uma irmã, uma amiga, uma confidente, uma conselheira, uma directora, a melhor que alguma vez tive, nesta longa maratona que tem sido a minha carreira.

A Maria José não morreu, não!

Ainda agora, neste momento em que me arrepio ao escrever esta linha, reparo no seu olhar doce e no seu sorriso subtil, mas permanente.

Ainda agora sinto a sua mão na minha face e choro, porque nunca ninguém me tinha feito uma festa no rosto, com tanto afecto, como naquele momento em que saí do seu gabinete.

Só que hoje, Maria José, hoje agarro-te a mão, com a minha e não te deixo largar o meu rosto.

Acho que nunca te larguei a mão.

Tu nunca a tiraste do meu rosto.

Gosto muito de ti, minha querida amiga.

Porque se há alguma coisa que tu foste para mim, neste mundo de merda que é o nosso, foi amiga.

Entrámos no quilómetro 34!

 

 

 

 

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publicado às 19:52


por The Cat Runner, em 09.01.19

O QUILÓMETRO 32 - EXORCIZAR A NEGRITUDE - (DIA 89 DA MARATONA)

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Prazer.

Prazeres há muitos, seu palerma, diria Vasco Santana, no filme, se soubesse o que eu sei hoje.

Uma das coisas que mais gosto de fazer, mais prazer me dá é correr.

A outra é escrever.

Correr dá-me liberdade, permite-me ser apenas eu e ser feliz.

Escrever exorciza-me a negritude que, por vezes, me invade.

Dois actos, uma liturgia.

Gostava de escrever mais, mas a minha corrida, no último ano e no início deste tem tido imensas pedras no caminho, não as suficientes para construir o tal castelo.

Nem um Super-Homem é sempre o Super-Homem, basta ver quando tira a capa.

Começámos a corrida deste ano, ainda vamos no princípio e quase nada mudou, a não ser o calendário.

Não comi as doze passas, na mudança do ano, algo que já deixei de fazer há alguns anos, em primeiro lugar porque não gosto de passas comidas assim à bruta, depois porque não acredito em coisas dessas.

Gosto de sultanas com mel.

Há um ano, em vez de comer as doze passas decidi correr a maratona.

Este ano, nem isso, não decidi nada. Tudo o que me acontecer irá acontecer porque tem que acontecer. Já não tenho estômago para comer passas por imposição.

Este é o primeiro quilómetro deste novo ano. Doze meses.

Faltam dez, para acabar esta maratona, neste blog, que me é tão especial, tão meu, tão único.

Aqui, sou eu, mais do que em qualquer outro lugar.

Se há algo em mim que gosto, gostar é diferente de ter prazer, essa coisa é levar até ao fim aquilo com que me comprometo.

Foi assim em Berlim. É assim há uma carrada de tempo.

Assim será esta saga, até ao fim, já faltou mais, faltam os tais doze quilómetros para chegar aso quarenta e dois. Doze quilómetros de escrita, como quantos mesmos faltam para voltarmos a virar o calendário e a acreditar que o mundo corre ao nosso lado.

Depois, independentemente daquilo que me possa acontecer irei escrever um livro.

Sem objectivos comerciais, sem querer parecer escritor, sem querer o que quer que seja senão ser eu mesmo, como o fui e serei toda a vida.

Um livro diferente dos que já escrevi, um livro meu.

Entre os dias, este ano já corri uma meia dúzia de vezes, não destoando do habitual.

Voltei a treinar Muay Thai, um ano depois de ter parado, por causa da maratona, e por força das saudades daquela família, onde me sinto querido e acarinhado e por força dos quilos que ganhei desde Setembro.

Iniciei-me, desta forma, na gastronomia do exercício, criei um novo parto, a entremeada de desporto, Muay Thai às segundas, corrida às terças, e assim sucessivamente, dia sim, dia não. Ao fim de semana não treino. Em um desses dois dias vou namorar.

Pego na mão dela e vamos caminhar para o passeio ribeirinho, que o rio continua lindo. Depois descanso.

Acaba por ser um treino, porque caminhamos oito quilómetros, mas é mais do que isso, é um momento exclusivo. Afecto, amor.

Só que, os treinos e as corridas, não funcionam apenas para me manter activo, feliz, eles servem, sobretudo, para segurar a auto-estima, para que ela não venha por aí abaixo porque, garanto, quando ela cai é extremamente difícil voltar a vir cá a cima.

Resiliência, foi o que me ensinou Berlim.

É uma palavra feia, mas cheia de força.

Aprendi a conhecê-la no ano passado, antes, durante e depois da maratona.

A maratona de Berlim teve várias consequências. Ensinou-me outras coisas sobre mim próprio.

As boas, tem vossa excelência lido por aqui, as menos boas reservo-as, na sua maiora.

Uma delas, por incrível que pareça foi retirar-me o prazer de correr. Dessa eu não estava à espera.

Sobrecarga física e emocional. Obrigação. 

Correr uma maratona é personificar a metáfora da nossa própria vida. É mesmo.

Não é uma prova de corrida.

Para mim não é, por isso, dificilmente, irei correr outra. Vivi essa catarse, chegou-me.

Admiro que gosta de correr maratonas, pelo prazer de correr, mas admiro mesmo.

Eu não tive esse prazer, apenas luta, luta titânica, uma batalha contra mim próprio e contra os quilómetros, lentos, lentos e lentos. Foi assim que quis que fosse. 

Desistir era olhar-me ao espelho e ver um homem fraco.

Fui, fomos, até ao fim.

Mas gosto de correr e irei correr até que o corpo me obrigue a parar.

Voltando à terra,

a escrita faz-me sentir outro, não faz sentido não escrever todos os dias, só que é isso que acontece e não tem sido por falta de tempo, infelizmente. Tenho tido todo o tempo do mundo, infelizmente.

Não sei se acontece a mais gente, mas quando sinto em baixo, quando as coisas não me aparecem, nem parecem como eu quero, às vezes basta um telefonema desanimador, perco a vontade, a vontade de correr, a vontade de escrever, a vontade de fazer as coisas que mais prazer me dão.

Bicho estranho, o ser humano, não me bastava ser bicho do mato.

Ando para aqui às voltas, dia-após-dia, à procura da meta, de uma meta que não se consegue ver quando estamos no início da corrida, por fica muito longe.

À medida que vamos correndo e gastando os quilómetros a meta continua invisível, ela só começa a vislumbrar-se no último quilómetro, mas para isso é preciso lá chegar.

É preciso ter força, ter forças.

Ter pernas e pulmões, alma e coragem, paciência e uma mão apertada, agarrada à nossa.

Resiliência,

independentemente daquilo que me possa acontecer irei escrever um livro.

Vou começar hoje.

Depois vou treinar Muay Thai.

Exorcizar a negritude.

Antes disso vou correr.

Basta-me ser feliz durante essa janela de tempo.

Amanhã começa tudo outra vez.

Entrámos no quilómetro 33!

 

 

 

 

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publicado às 17:08


por The Cat Runner, em 31.12.18

O QUILÓMETRO 31 - FELIZ ANO NOVO, BERLIM - ( DIA 88 DA MARATONA )

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Faz hoje um ano.

Pela primeira vez, uma ideia,  que me passou pela frente, faz hoje um ano. Daquelas que são únicas, porque o tempo guarda-se dentro de uma caixa de sapatos, para quando tivermos saudades podermos voltar atrás.

Faz por isso todo o sentido, não só mas, sobretudo, porque também. Todo o sentido.

Este quilómetro é especial.

É nesta altura que bato contra “o” muro.

Esmago-me, com a verdade e a missão. A passagem.

Provação.

Nessa noite imaginei uma provação, corporal e mental, tracei-lhe a rota, vinquei-me nela, e enfrentei-a. Como sería?

A luz era uma réstia.

Um ano passou, mas as tatuagens que fazemos dentro de nós jamais desaparecem, como as que levamos no corpo.

Às vezes doem, magoam, outras, não.

Outras, sorrisos, cumplicidades, comunhão, sofrimento, instantes, frames, imagens que não conseguiremos ver sempre da mesma forma, a cada vez, a cada passo, que aqui, não se facilita, na escrita. Só nela.

Há um assumir de imensas incertezas, mais nesta altura, na altura em que, porque muda o ano, o ciclo, a vida, mudamos nós.

Durante este quilómetro, exactamente, Berlim, o que tenho dentro, tatuado, definitivo.

Não havia opções, voltra atrás, ir para a frente, era tudo muito longe, regressar ou chegar, não há derrotas, há ensinamentos.

Havia chegado a altura, ao quilómetro trinta e um materializava-se a provação a que me sujeitei, porque a quis entender e não tinha outra forma.

Acho que foi neste momento que me convoquei, sem sossego, o corpo sem sentido, os músculos e os tendões contraídos, como os caminhos do meu cérebro, a vida estava a passar por mim, durante aquelas passadas já muito pesadas, a corrida é dura, contaminou-me, naquele dia, exactamente como hoje.

Eu tive uma visão.

Não escolhi correr o quilómetro trinta e um, na  noite de trinta e um, a última.

A primeira, digo eu.

A maratona não acaba aqui.

Faz hoje um ano, na minha cabeça.

E, aquilo que se correu num ano!

Se houvesse perfeição os recordes do mundo das nossas mais íntimas maratonas seriam batidos todos os dias. Ainda bem que não há perfeição, em lado algum.

Um caminho, para as grandes coisas que perdemos, para pequenas coisas que ligamos.

Quantas vezes, durante uma corrida, saímos da estrada e pisamos o passeio?

Tentamos com que não reparem, mas o caminho diverge, a escolha é nossa, por isso corremos pelo passeio, só depois voltamos à estrada.

Berlim, faz hoje um ano.

Numa noite como esta pensei ir e fui. Não fui só. E, ainda bem.

Leal, ingrato, bondoso, amigo, injusto, apaixonado, afastado, próximo, aqui, onde for, nada paga aquilo que eu sinto saudade. Esta corrida nunca foi uma corrida como qualquer outra corrida.

Que raio, Berlim é plano!

De hoje em diante, vão passar nove meses, até chegar o dia da grande maratona. O tempo conta.

Passaram nove meses de um ponto ao outro. O nascer de um ideal até ao cortar a linha de chegada.

Nascimento. Renascimento.

Foi assim, faz hoje um ano, assim começou.

Quando se corta uma meta, não significa que a corrida acabou.

Ela é interminável.

Basta querer.

Foi isso que eu quis e escolhi.

Estou de volta à corrida.

Feliz Ano Novo.

Entrámos no quilómetro 32!

 

 

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publicado às 17:44


por The Cat Runner, em 31.12.18

O QUILÓMETRO 30 - E SE UM DESCONHECIDO LHE OFERECER UM ELOGIO? - (DIA 87 DA MARATONA)

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Não há coisa melhor que um elogio.

Sobretudo, quando ele é genuíno.

Sobretudo, quando sentes que as coisas não correm como tu queres. Nesses momentos um elogio ajuda a afagar a alma.

Foi o que me aconteceu, em Lisboa, felizmente, acontece-me algumas vezes, por força da minha profissão, mas nunca tal me tinha acontecido por causa de um dos meus maiores prazeres, a escrita, este blog, precisamente.

Uma das corridas que mais gosto de correr é a São Silvestre de Lisboa, por causa do ambiente que a envolve, a noite cai cedo, na cidade, as luzes de Natal acesas, milhares de sorrisos, de gente feliz, miúdas giras, famílias inteiras, vá, não leve tudo tão a sério, é todo um conjunto.

Só que, este ano não me enganaram, guardei-me para os dois últimos quilómetros, quando temos que subir a majestosa Avenida da Liberdade. Uma subida que não se sente quando vamos de carro, mas que acaba connosco quando a fazemos a correr.

Gato escaldado de água fria tem medo e eu já corri quatro edições, já sabia ao que ia, até porque ia mais pesado oito quilos do que é normal.

Cheguei uma hora antes da corrida, estacionei no Parque Mayer (que começa a ganhar vida, outra vez), desci a avenida até aos Restauradores, para levantar o kit de convidado, até tinha o nome no dorsal e tudo, o Hugo Miguel trata-me na palma das mãos.

O tempo corria a meu favor.

Voltei para o carro, para me ir equipar, é todo um ritual, acredite.

Quaresma”, alguém gritou.

Voltei-me e deparei-me com um senhor, ar afável, feliz, sorriso enorme, largo, olhos brilhantes.

Tem idade para ser meu pai.

“Desculpe abordá-lo assim, mas eu adoro aquilo que escreve no seu blog, o Cat Run”, eu, ali, sem reacção.

“Não tenho redes sociais, recebo as notificações por email, é fantástico, sigo sempre a sua aventura de Berlim, comecei a lê-lo quando foi aquela história da gatinha”.

A Alice, disse-lhe eu. Foram as minhas primeiras palavras. Estava aparvalhado e sorridente, eu.

O senhor Isaac (não revelo o apelido por uma questão de respeito, pois não lhe pedi autorização e não sei se poderia não gostar) chama então um jovem que estava um pouco mais afastado.

“Chega aqui, olha este é o senhor Quaresma”.

Ali estávamos nós, três homens feitos, com três sorrisos do tamanho dos sorrisos daqueles milhares de pessoas que nos rodeavam.

Ficámos uns minutos à conversa, demos abraços, recordo-me que o seu cumprimento, o aperto de mão, durou imenso tempo. À homem!

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Pedi-lhe que comentasse um texto, dizendo quem era, para que eu lhe pudesse responder.

Assim o fez.

“Caro José Gabriel Quaresma. Escrevo para agradecer o seu abraço desta tarde na Avenida da Liberdade. Obrigado mais uma vez pela partilha deste diario berlinense. Receba um abraço e espero que a prova desta noite lhe tenha corrido bem.IC”

Sabe uma coisa, meu querido Isaac, espero que a prova também lhe tenha corrido bem, a mim correu. Foi fantástico, sobretudo, depois de ter estado consigo e de me fazer acreditar que as pessoas, quando querem, são boas, são humanas.

O senhor não tem redes sociais, não trocámos contactos, mas deixo-lhe aqui o meu email (jgquaresma@gmail.com) contacte-me sempre que quiser, mais que não seja para criticar um texto meu, porque eu escrevo para as pessoas, para si, e o seu abraço e as suas palavras valeram tanto como a medalha que conquistámos em Lisboa.

Depois da maratona, em Berlim, engordei imenso, uma estupidez.

Começo agora a recuperar, mas só em Janeiro é que irei entrar em regime alimentar, preciso mesmo.

Por isso fui à São Silvestre com três objectivos definidos, nada do outro mundo:

1- Divertir-me muito, sozinho, porque fui sozinho, sem sequer olhar para o relógio.

2- Subir a Avenida da Liberdade, no final, sempre a correr - lembrei-me do que me ensinou o meu querido José Massuça, a subir vai com passos curtos e imagina que vais a puxar dois cordéis com as mãos).

3- Fazer toda a corrida a correr.

E não é que cumpri os três objectivos!

Ao longo da prova, como sempre, como é normal, imensas pessoas me ultrapassaram.

Cruzei-me com elas, depois, a dois quilómetros da meta, o penúltimo quilómetro é a subida da avenida, o último é a descer, sempre a abrir. Sabia que ia ser assim, tinham dado "el berro".

Enquanto eu corria algumas dessas pessoas, algumas que retive na memória visual, por causa do equipamento, ou de uns ténis, ou de umas pernas :) essas pessoas iam a caminhar.

A mim é que já não me enganam…

Fiz toda a corrida na mesma cadência, quase sempre na mesma média, lenta, mas minha.

Admirei-me com a presença feminina, arrisco a dizer que nunca tinha visto tanta mulher numa só corrida. Eram doze mil pessoas.

Estive com pessoas de quem gosto, a Rita, a Alice, a Ercília e, agora, o senhor Isaac.

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Admirei as iluminações, a cidade fica mais bonita neste dia, sorri para as pessoas que nos apoiavam ao longo de todo o caminho, o que acontece em poucas corridas, em Portugal, fui concentrado naquilo que tinha que fazer, divertir-me muito, e recebi a medalha, linda.

É o segundo momento mais alto de uma corrida, logo a seguir ao momento em que corto uma meta.

Quando me colocaram a medalha no pescoço - é uma tradição minha - senti-me muito mais feliz.

Não vou agora explicar, mas fechei um ciclo, nesse momento, mais um.

Precisava de ir fazer esta corrida, porque correr é isso, é o ambiente, o espírito, ser feliz.

É um medicamento que em mim produz efeito.

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Mudou o ciclo. Mudei mais um ciclo.

Quando a menina, também ela feliz, me colocou a medalha ao pescoço lembrei-me do senhor Isaac, que horas antes me tinha abordado, nos Restauradores.

Depois alonguei, meti-me no carro, e vim para o calor da lareira.

Comemos uns mariscos, bebemos uns vinhos, e a vida voltou a fazer sentido.

Vem aí um novo ano.

Vem aí um novo quilómetro.

Entrámos no quilómetro 31!

 

 

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publicado às 11:07


por The Cat Runner, em 30.12.18

O QUILÓMETRO 29 - O MEU MAIOR DEFEITO - (DIA 86 DA MARATONA)

 

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Ninguém é perfeito.

Uns acordam mal-dispostos, outros são bipolares, outros andam sempre irritados, uns são gordos, outros são magros, outros têm o “pé chato”, outros padecem até de micose, imagine só.

Está a imaginar?

Imagine, está num evento social, rodeado de gente quando de repente lhe dá aquela comichão brutal, nas virilhas. Antes coxo dez mil vezes!

Pois, ninguém é perfeito, disso eu não padeço.

Eu, acredite, achava que era mais ou menos perfeito, apesar de também não ter "pé chato", só que dei-me conta que tenho outras coisas que são defeitos, sobretudo, defeitos de fabrico, e o meu prazo de garantia há muito que expirou.

Não acredito que acreditou no que eu disse?

Achava nada.

Muito menos acho agora.

Fiz uma ressonância magnética e, ela está na origem disto tudo.

Mas, antes, pense só nisto:

O meu pé esquerdo, há uns anos largos, teve uma Verruga Plantar, era uma espécie de prego espetado na planta do pé, em permanência.

Já corria, nessa altura. Juro!

O que eu tenho sofrido por amor, deus meu.

Fui operado e a Verruga Plantar passou a calo permanente, afinal temos que andar para a frente e não conheço ninguém que ande sem pés.

Com ele, com o calo, posso eu bem, raspo-o todas as semanas e corro como um queniano da Lezíria, o mais lento de todos os quenianos da Lezíria, and proud of it.

Adiante.

Em 2004 fui vítima de um grave acidente.

Foi num jogo de futebol, num torneio, um animal, porque o fez de propósito, entrou com tal força que me provocou uma fractura do planalto tibial, com afundamento do osso. Em linguagem comum, fez-me um buraco na rótula, no joelho, lá está, na perna esquerda.

Estive para ficar sem a perna.

Foi de tal forma violento que desmaiei três vezes, com as dores.

Muito antes disso quase entrei para o Guiness Book of Records.

Só não entrei porque não tenho um agente que cuide da minha carreira. Shame on me.

Tornei-me no único jornalista de televisão (pelo menos não encontro outro, mas pode haver, duvido) a quem caiu um dente da frente, durante um directo.

O único no planeta Terra e ilhas adjacentes, atenção!

Por esta altura pensava eu, qualquer dia vou doar o meu corpo à ciência, porque tudo me acontece.

Ora, voltemos à ressonância magnética.

Há mais de dois anos que corro com problemas no meu gémeo da perna direita. Uma cena que me dificulta a vida.

Dizem-me os quenianos mais rápidos do que eu - umas avestruzes do atletismo mundial - que eu devia correr mais rápido, para os anos que já levo de corridas.

Eles não acreditam nas minhas explicações, mas agora com a ressonância, ai caraças, até lhes a esfrego na cara.

Ok, limito-me a explicar-lhes, não esfrego nada, que eu não sou dessas coisas.

Os meus defeitos são outros.

O que eu gostava era de os ver a correr com uma "batata" no gémeo, era o corrias!

É isso que eu sinto, há mais de dois anos, sempre que começo a correr.

Os primeiros três ou quatro quilómetros chegam a ser bastante dolorosos.

Imagine uma hérnia, só que na perna, que aparece quando corro, mas que não se vê, só se sente. Parece querer sair dali para fora e provoca dores parecidas com as de uma contractura.

Isso obriga-me a correr lentamente, por vezes a ter que parar alguns segundos, outras vezes a ter que alongar, durante a corrida, as avestruzes, sabem lá.

Na maioria das corridas tenho esse problema, não em todas, felizmente e isso ainda é mais estranho.

Em Berlim, na maratona, não tive dores, ontem, na São Silvestre de Lisboa (tema do próximo quilómetro) também não tive.

Aliás, a quinésio tape faz milagres, nesse aspecto.

Bom, fui então fazer a ressonância magnética, para ver se era patológico, se era uma lesão se o que é que era.

É morfológico.

O veredicto.

Estou tramado. Imagine um bife. Esse pedaço de bife ganha fissuras. Quando é colocado em esforço ele contrai-se. Nessa contracção, porque há essas fissuras - no caso uma - o músculo, que é um conjunto de músculos, na verdade, ele  vai ter que ocupar esse espaço, “tenta sair por ali”, por assim dizer.

Daí a minha sensação de ter uma batata a querer sair pela perna aos primeiros quilómetros.

Daí a minha explicação para quando me perguntam porque é que eu não corro mais rápido.

Eu tenho um problema morfológico.

Porque é que esse desconforto desaparece ao fim de alguns quilómetros?

O médico não sabe, se calhar não desaparece, se calhar o corpo fica quente, o desconforto está lá, eu é que não o sinto, não sei!

A primeira coisa que perguntei ao médico, mal recebi a ressonãncia magnética foi se teria que parar de correr.

Que não, bastava-me não forçar, quando esse sintoma aparece, o tal sintoma que me lixa os tempos todos. Só que não.

Eu não quero ser uma avestruz, limito-me a ser o mais lento de todos os quenianos da Lezíria, isso basta-me.

Não é preciso parar de correr, é morfológico, é assim que tem que ser.

Sou feliz, porque corro, sou muito feliz, porque não vou ter que parar de correr.

Apesar de ter este, mais este, problema morfológico.

Não há nada a fazer, disse o médico, “não é uma lesão, não é uma patologia, os músculos estão impecáveis, só que é mesmo assim”.

Não é um caso raro, mas não é todos os dias que aparecem pessoas com estas coisas estranhas, como as minhas, como eu.

Por esta altura pensava eu, qualquer dia vou doar o meu corpo à ciência, tudo me acontece.

Decidi que sim, vou mesmo.

Vou doar o meu corpo à ciência, ou pensava que o meu maior defeito era o quê?

Também tenho mau feitio, é verdade, às vezes, mas não há ressonância magnética que o detecte.

E, não é morfológico, é patológico.

Entrámos no quilómetro 30!

 

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publicado às 12:31


por The Cat Runner, em 26.12.18

O QUILÓMETRO 28 - NADA PESSOAL, FELIZMENTE - (DIA 85 DA MARATONA)

 

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Hoje recebi uma notícia que não era a que eu esperava.

Esperava por ela há algum tempo, mas não acreditava que ela chegasse assim, seca, impávida, hoje.

Foi surpreendente. Nada de pessoal, felizmente.

Era algo em que eu tinha acreditado profundamente e, por isso, fiquei sem reacção, como se tivesse sido vítima de um espancamento da alma.

Eu acredito muito nas coisas e nas pessoas.

Mas viver é como correr, vamos até ao fim, umas vezes saímo-nos bem, em outras nem tanto, mas vamos até ao fim e nunca cortamos a meta a caminhar, nunca, isso não.

Acordei com ela.

E, por muito que me tenha afectado, despertei.

Despertei de uma forma que não queria.

Fui fumar um cigarro.

A cabeça invadiu-se de milhares de pensamentos, o corpo deixou escondida a sua vitalidade, senti a barriga colada, vontade quase nenhuma de me vestir e sair de casa, nem de ouvir pessoas, nem ver pessoas, nem comer.

Fui percebendo que este não era eu, aquele que de forma determinada e implacável decidiu correr a sua maratona. Fui a Berlim por isso, para provocar profundas mudanças em mim, enquanto ser humano.

Estava na hora de me testar, de verdade, pela primeira vez.

Já passaram algumas horas, as bastante para começar a refazer-me, mas este é um daqueles dias que nos ensinam. Muito. Muito mais que anos e anos de banco de escola.

Só que, na verdade, é só mais um dia.

Amanhã será outro.

Essa notícia que eu não esperava fez-me rever este último ano, não foi um ano fácil, embora eu faça por sorrir e mostrar o meu sorriso, um ano difícil que termina com impacto, com este impacto.

Nada de pessoal, felizmente.

O meu sorriso vai durar mais uns dias, porque outro ano estará a bater-me à porta.

Vou abri-la, escancarada, para mim.

Vou agarrar-me a ele e vou obrigá-lo a correr comigo, a meu lado, pelo menos até ao próximo ano, como o fiz em Berlim.

E, tenho pensado, não tenho feito outra coisa.

Pensei que tudo aquilo que não vai ao nosso encontro e que por isso é mau existe sempre alguma coisa que nos torna mais fortes, mais que não seja porque aprendemos.

Porque depende só de sermos mais fortes, mais sérios, mais pessoas.

Crescemos quase tudo, num dia.

Na vida, como nas corridas, ou ganhamos ou aprendemos.

Nunca perdemos.

Depois do primeiro embate, do qual lentamente me refaço, desde a manhã, fiquei sozinho em casa.

Aquele momento que é só nosso, como quando corremos, mesmo que rodeados de centenas ou milhares de pessoas. É nosso, só nosso, basta querer.

Vi e revi dezenas de vezes as fotografias da minha maratona, ao longo deste dia, a tal que tanto me ensinou, aquela que me transformou e pensei, que raio, isto não pode ser só no papel.

Apelei, por isso, à minha racionalidade, nesta confusão de pensamentos, de sentimentos, de tudo. Quero saber se corri a minha maratona e se voltei de lá outro homem. Hoje é o dia.

E, vi o vídeo da minha chegada à meta, em Berlim.

Instantes que duraram mais de cinco horas, durante os quais me esqueci de tudo, nesse domingo mágico, quando corri em direcção à Carla e à Maria e as abracei, como nunca, e quando cruzei aquela meta, com a bandeira de Portugal nas mãos e gritei: “consegui, c…”.

 

Consegui e tornei-me outro homem, nesses dois precisos momentos felizes.

Hoje, finalmente, tenho a certeza disso.

Neste preciso instante.

São instantes, como aquele em que recebi essa merda de notícia.

Nada pessoal, felizmente.

Foi a esses instantes que me agarrei, para contornar esta notícia, que tanto impacto provocou em mim.

Num rasgo, concluí, não foi, porque não tinha que ser, será quando tiver que ser. Se tiver que ser.

Passar do papel à prática.

Está passado. É passado.

Desde aquele domingo mágico de Setembro, hoje, hoje foi a minha primeira prova de fogo, mudei ou não mudei, sou ou não sou outro homem?

E, sorri, aqui, sozinho.

Sou, respondi-me.

Já abri a janela, a que me mostra o futuro, e quando acabar este texto vou preparar a mochila e vou correr, correr esvazia-me os pensamentos, faz-me voltar a acreditar em mim e depois, sozinho, vou jantar e hei-de acabar a noite a ver uma série.

Porque hoje quero estar sozinho.

Apenas comigo a meu lado.

Enquanto corria em Berlim, naquele domingo mágico, tantas vezes pensei em tanto, mas sempre levei nos meus pensamentos uma interrogação permanente: será que irei tornar-me outra pessoa, na verdade?

Hoje, tenho a certeza absoluta.

Aqui estou eu, resiliente, crente em mim, abrindo janelas para ver o que está à minha frente, fechando portas por onde já não irei entrar, por elas ficam lá atrás.

Superação, motivação, resistência, querer, acreditar.

E sonhar.

Tenho sonhado muito, nestes dias.

Tenho acordado com pesadelos, a rir, porque quando acordo eles morrem, ali mesmo.

Em quase todos os meus textos digo que a corrida é uma metáfora da vida, digo-o porque acredito, acredito porque o sinto.

Hoje tive a prova disso.

Mais uma prova disso.

Provavelmente, se nunca tivesse corrida a minha maratona, hoje estaria enfiado na cama, tapado até à cabeça, a pensar porquê?

Na verdade, estou a acabar este texto e não quero sequer saber porquê, embora o saiba.

Mas, já não me interessa.

Interessa-me ir correr, ouvir os ruídos do rio e do jardim, das pessoas, apetece-me cumprimentá-las à minha passagem, sorrir-lhes, e fechar os olhos, por instantes.

Sentir o suor molhar-me o rosto e gritar, se tiver que gritar.

E, voltar. 

Recebi uma notícia que era aquela que não queria receber.

Nada pessoal, felizmente.

Uma má notícia, apenas.

Sim.

Mas, uma má notícia encerra em si coisas boas, porque elas fazem parte da vida, senão isto era uma descompensação permanente, e não o é.

Acredite que não o é, sobretudo, acredite em si mesmo, não há nada mais encorajador.

Quem corre tem prazer, enquanto corre, mas também sofre por dentro, porque assim tem que ser, mas corre e corre até ao fim.

O lado positivo desta notícia é que ela só chegou ontem, deixou-me passar o Natal em paz.

O outro lado positivo desta notícia é que a Carla e a Maria voltaram a abraçar-me, como em Berlim, naquele domingo inesquecível.

A janela está aberta, vou olhar o futuro lá fora.

Antes disso vou correr.

Quando voltar a porta fechou-se, os pensamentos arrumaram-se, a alma afagou-se e o corpo estará mais feliz.

Como eu!

Entrámos no quilómetro 29!

 

 

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publicado às 16:14


por The Cat Runner, em 20.12.18

QUILOMETRO 27 - A MINHA MEDALHA E O MEU PRESENTE DE NATAL - (DIA 84 DA MARATON)

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Alguém escreveu num post que publiquei no Facebook que “a maratona fez-te resiliente”.

A maratona fez-me muito mais do que eu pensava ser.

Fez-me olhar os outros de forma diferente, e a vida, e a mim próprio.

Havia uma pessoa, aquele homem fantástico que me treinou, que me mentalizou e me preparou para a mais exigente prova física e mental da minha vida que ainda não tinha visto a minha medalha, a única coisa que se conquista na Maratona de Berlim, porque tudo o resto é comprado.

Também é assim no Natal. Tudo se compra, menos uma coisa, o nosso "eu".

Passaram três meses, vai passar o Natal, não podia passar mais.

Convidei o meu treinador, agora meu amigo, para um almoço, para lhe apresentar a minha menina.

Olho para ela todos os dias.

A partir de hoje passa a ter um nome, chama-se “Nair”.

A minha medalha, para a qual olho todos os dias, passa a chamar-se “Nair”.

Depois de almoçarmos e de colocar toda a conversa em dia, as aventuras e as desventuras destes dias, nada fáceis, mas isso é comigo, depois de contar as histórias da corrida, da minha vida, de como estou, de como me sinto, para onde vou, eu e o José Carlos Santos fomos beber um café e comer um doce.

  • “E, então, a medalha, quero vê-la”.
  • “Está aqui”.

Saquei-a do bolso do blusão e passei-a para a mão dele.

Senti o orgulho que aquele momento nos revelou, vi os seus olhos a brilhar.

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  • “É linda”
  • “Pois é, obrigado, também é tua”.
  • “ Não é, não. É tua! Sabes porque é que te custou esta maratona?”.
  • “Sei, porque não fiz o treino dos 30 quilómetros”.
  • “Não, porque tu não começaste do zero, tu começaste do menos vinte, não estavas preparado, tiveste que tratar as dores, não foi um processo normal. Viveste muito intensamente todos estes meses, estes dias, foste carregado de sentimentos e de dúvidas, e uma certeza. Por isso, quando tu acabaste de cortar a meta foi uma enorme emoção lá em casa”.

O meu treinador, que ficou meu amigo, treina atletas de alta competição. Não gosto dos holofotes, apenas me permite estes textos e estas fotos, porque sabe que é assim que tem que ser.

Aquilo que ele fez comigo foi pegar num tipo comum e ajudá-lo em busca do seu sonho e não há dinheiro que pague isso.

Demos um forte abraço, despedimo-nos, desejámos Boas Festas.

Vamos continuar juntos. Vai continuar a treinar-me, só para estar em forma e, quem sabe, para mais uma maratona.

  • “Vais ver que a próxima vai ser totalmente diferente”.

Acredito. Acredito nele.

O resto do dia, já que estava num centro comercial, passei-o a fazer as compras de Natal.

Funciono assim, guardo um dia, e trato de tudo.

Comprei os presentes, meti as Samsonite a arranjar e, quatro horas depois vim-me embora.

O centro comercial estava completamente cheio.

O Pai Natal é um boneco da Coca-Cola, o Natal é um boneco de notas e sacos às cores.

Paciência.

Fomos nós que o fizemos assim.

Enquanto caminho reparo num homem, de cócoras, numa das zonas mais largas e visíveis do centro comercial, junto ao hipermercado, ali mesmo no meio, numa estranha posição.

A primeira impressão que tive foi que tinha deixado cair um bebé que estava deitado entre as suas pernas. Olhei, para perceber se sería preciso alguma coisa, mas não parei, ninguém parava.

A mulher pegava em outra criança pela mão.

Foi naquele instante, quando eu passei.

Ninguém reparava neles, ninguém repara em nada, quando carregam sacos às cores, a fingir que é Natal.

Naquele instante.

“Nair”!

Não sei se foi esse o nome que ele gritou, com uma voz rouca, estonteantemente desorientada. Foi esse o som que me invadiu, “Nair”.

Os seus olhos, assustados, em transe.

“Nair”, gritou, de novo, “Nair”, gritou a mulher.

Olhavam em volta, às voltas, perdidos, assustados.

Eram indianos.

Olhei em redor, apressei o passo, virei a esquina do corredor.

Um dos seguranças conversava, tranquilamente, com uma senhora. É Natal.

-“Desculpe, acho que estão ali uns pais que perderam uma criança”.

-“Onde?”

-“Ali, mal vira à esquerda, vá lá ver”.

O homem correu, como um louco.

Continuei a minha caminhada para o carro, coração apertado.

Eu já perdi o meu filho, uma vez, tinha ele dois anos.

Não, não escrevo o que senti, é indiscritível, aglutina, asfixia, morremos por dentro, em segundos.

Não podia seguir viagem. Não segui, apenas abrandei.

Passei um corredor, olhei, outro, e outro, olhei para todos os lados, para todos os cantos, para todas as pessoas.

Voltei a olhar, já estava distante do local onde tinha presenciado aquela cena perturbadora.

Só podia ser ela.

“Nair”, pequenina, sozinha, a caminhar, perdida, como o seu olhar.

Vi-me dentro de um filme. Só podia ser ela. As crianças pequeninas não andam às compras sozinhas num centro comercial de gente grande.

Foram segundos, tão rápidos, como os passos daquela multidão, que carregava sacos às cores, nas mãos.

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Só os passos, dela, perdidos, eram lentos, tudo o resto girava à minha volta.

-“Papá”, disse-lhe baixinho, “papá, anda, eu levo-te ao papá”.

Senti que ela não me entendeu, mas...

Mas, papá, papá até um bebé convence, é uma palavra de amor.

Hesitou, por momentos.

Encaminhou-se para junto de mim.

Acho que a minha voz a reconfortou naquele momento.

Segundos. Durou segundos.

Estendi-lhe a mão. Agarrou-a.

-“Vamos ao papá, eu levo-te, não chores, o papá está ali, anda”.

Caminhámos, de mão dada, passos lentos. Não a queria assustar ainda mais.

Protegi-me, não fosse alguém pensar outra coisa qualquer.

A minha mão esquerda segurava a dela, dali não a deixava ir, a minha mão direita, carregada de sacos às cores, levantada, para que toda a multidão me visse, porque quis que me vissem.

Ninguém quer ser visto se raptar uma menina, foi o meu pensamento, naquele momento.

Quis proteger-me.

Enquanto caminhava para o sítio onde tinha visto o desespero personificado naqueles pais ia assobiando alto, para chamar a atenção.

Naquela altura já dezenas de pessoas nos fitavam, sem entender o que estavam a ver.

Olho em frente.

Ele vem a correr, desesperado, com um dos filhos ao colo, aos gritos, perdido, “Nair”, “Nair”, não sei se era esse o nome que gritava, era esse o som que entrou em mim. Cravado em mim, no meu eu.

Frente-a-frente. Eu e ele. Ele e ela.

Ajoelhou-se, com a outra criança ao colo, com a multidão parada, parou, finalmente, a multidão, para ver o que aquilo era.

Ele, ali, ajoelhado, à minha frente.

O mundo parado.

Finalmente.

De joelhos, em frente a mim, olhando-me de baixo para cima.

-“Está aqui, encontrei-a, está aqui, Nair, olha o papá”.

De joelhos, ali, em frente a mim, agora, agarrado às duas crianças, estendeu-me a mão e apertou-me-a.

-“Obrigado, obrigado”.

Olhei-o.

Olhei à minha volta.

Deixei cair uma lágrima que me molhou o sorriso.

Não havia mais nada a dizer, não havia mais nada a fazer.

Apertei-lhe a mão,com força e virei costas, mas antes, enquanto lhe apertava a mão disse-lhe com a voz turva,

-“Feliz Natal”.

Sim, a maratona fez-me resiliente, fez-me outro homem, fez-me outra coisa qualquer.

Já não sou eu.

Foi por isso que a corri.

Foi por ela que ali fui, para mostrar a minha medalha ao meu treinador.

Chama-se “Nair”.

Assim será, para sempre.

Entrámos no quilómetro 28.

 

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publicado às 18:10


por The Cat Runner, em 06.12.18

O QUILÓMETRO 26 - UM TIPO COMO EU - (DIA 83 DA MARATONA)

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Como deve calcular, por esta altura as pernas já pesam o dobro, a cabeça já começa a perder o tino, se é que alguma vez o teve, as ideias ficam turvas.

O máximo que corri, durante a preparação para a maratona de Berlim foi 25 quilómetros, falhei o mítico treino dos 30, achava eu que cinco quilómetros não faziam a diferença. Fizeram e muito.

Foi por esta altura que vi a construção do muro, em Berlim, dezenas de anos depois do verdadeiro ter caído e mudado o mundo, da forma como o conhecíamos até então.

O muro é uma barreira psicológica e física que atormenta e aterroriza muitos maratonistas. Outros nem tanto.

Conheço muitos que passam através do muro como se nada fosse, quais Harry Potters de calções, mas eu não, era o que mais faltava, se havia muro para embater nele, eu tinha que experimentar.

Digo-lhe uma coisa, parece fácil, para muitos, correr 26 quilómetros sem parar, mas é obra e das grandes.

Dito isto,

(vou só meter os fones que não gosto de escrever sem música)

Dito isto, dizia eu, feitas as contas, já lá vão cinco anos de corridas e 8 mil e 500 quilómetros nas pernas.

Ao fim de tantos quilómetros eu tinha que correr uma maratona, era como morrer virgem, perdoe-me a imagem criada.

Foi bastante atribulada a minha inscrição na prova, uma das mais prestigiadas do mundo.

Uma decisão isolada, tomada sozinho, planeada individualmente, porque há coisas só nossas, é aquela história do homem solitário no meio da multidão.

Apesar de tudo, é isso que guardo, fui acompanhado, mas a minha maratona é minha, que não restem dúvidas. O que a rodeou foram circunstâncias. Casualidades. Coisas que só acontecem uma vez.

Uma maratona é uma prova de tudo mas, sobretudo, uma prova de seriedade, para connosco, para com os outros, que nos ladeiam do princípio até ao fim.

O resto não entra aqui, fica do lado de fora.

Ao longo de 8 mil e 500 quilómetros conheci meio mundo, por força da minha exposição pública, algo que não se ganha de um dia para o outro, leva uma vida inteira, cimenta-se na integridade, na seriedade, na verticalidade, em princípios, os meus, que sempre levei ao extremo.

Ao longo de 8 mil e 500 quilómetros é natural que, conhecendo tanta gente, dando-me a conhecer a outra tanta, tenha encontrado gente séria e gente que se faz passar por séria.

É transversal, a corrida é o desporto mais democrático, basta calçar uns ténis, basta, depois, uma palavra, uma aproximação, um sinal, e criam-se relações.

Em Berlim, na verdade, antes de Berlim, conheci um homem sério.

A desconfiança incial era legítima.

Bom, conhecer não conhecia, só o conheci em Berlim, mas foi ele que me abriu a porta do meu sonho, Henrique Reck Farias, um tipo como eu.

Gosta de correr, corre para comer e viaja muito - esta é uma das poucas coisas que nos separa, isso e a nacionalidade.

O Henrique é brasileiro. Foi, até há poucos dias, o dono da agência Maratonas no Mundo, uma agência especializada em corridas.

Um homem tão sério e profissional que nunca quis que eu citasse a sua agência, nem em hastags, nem em comentários, zerinho.

Cheguei até ele através de um amigo que só conhecia do Facebook, e que também vim a conhecer pessoalmente só em Berlim, o Ricardo Areias.

Foi o Ricardo que, vendo o meu desespero em não conseguir comprar uma inscrição (em Berlim sorteia-se os dorsais entre milhares e milhares de pretendentes) me colocou em contacto com o Henrique. Bendito Facebook.

Tratámos de tudo por email, as condições, o pagamento, o alojamento, as inscrições, tudo menos as viagens porque a comitiva do Henrique vinha do Brasil. Mas, se fosse caso disso, até disso ele tratava.

Chegado a Berlim, um contratempo, o único, era preciso pagar largas centenas de euros para o apartamento.

Surpresa, as nossas contas estavam saldadas, lnão fazia sentido, a alemã estava irredutível.

Liguei ao Henrique e de imediato o seu cartão de crédito entrou em acção, estava garantida a nossa presença na mítica maratona. Fomos festejar.

Fui o único que conheceu o Henrique, da nossa comitiva.

Estive com ele e com outros brasileiros, na véspera, de manhã, para me entregar uns blusões, guardo o meu religiosamente, e mais umas lembranças e, claro, para nos conhecermos.

O Henrique é um homem sério, cumpriu, em rigor, tudo aquilo que estava combinado, sem sequer nos conhecermos. Sério e profissionalão.

Não o voltei a ver, mas fomos trocando mensagens, até hoje.

Soube há dias que deixou a empresa, a agência, que ele próprio criou e construiu.

Primeiro, funcionava nos aeroportos, nos hotéis, cá e lá. Onde calhava. Era a corrida que importava, ela e os corredores viajantes, peregrinos do asfalto.

Agora, Henrique deixou uma empresa com escritório montado e com um elevado número de colaboradores. Uma empresa sólida e credível. Mundialmente credível. Quem sabe se não me dedico a este negócio, quem sabe. Nem seu sei. Se calhar.

Não sei o que vai fazer da sua vida, pareceu-me estar feliz, apesar de tudo, mas não lhe perguntei, porque não sou desses, não me estico só porque sim, mas fiquei pensativo.

Pensei, no entanto,  que já escrevi sobre tanta gente, mas ainda não tinha escrito sobre o homem que me abriu, verdadeiramente, as Portas de Bradenburg.

Decidi, por isso, prestar-lhe esta homenagem.

Se eu sou maratonista, isso deve-se a um grupo muito restrito de pessoas, que me ajudaram, mas deve-se ao Henrique, no limite, sem ele nenhuma ajuda teria valido, porque teria ficado em terra e o sonho não passaria disso.

É de elementar justiça, este texto, porque aquilo que que mais gosto no ser humano é da sua integridade.

O Henrique tem coluna vertebral.

É dos meus.

Um dia hei-de publicar uma foto com o blusão alusivo à maratona de Berlim que ele me ofereceu. Hoje é o dia.

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E, hei-de descobrir o que é que ele vai fazer da vida, porque quando eu decidir voltar a correr uma prova fora de Portugal, o que vai acontecer em breve, será a ele que vou recorrer.

Quem me engana uma vez não me volta a enganar.

Quem nunca me enganou terá sempre aquilo que quiser ter de mim.

Boa sorte, meu caro Henrique, seja o teu futuro aquilo que for.

Já vamos no último terço desta maratona.

Daqui para a frente acabaram as homenagens.

Agora é tentar chegar ao fim.

Faltam 15 dolorosos quilómetros.

Daqui para a frente será sobre alucinação, superação, raiva, dores, desespero e felicidade extrema que irei falar e escrever.

Sério, mas alucinado.

Eu, não o Henrique.

Entrámos no quilómetro 27

 

(É preciso manter a calma...a música ajuda...faltam ainda tantos quilómetros para viver)

 

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publicado às 22:58


por The Cat Runner, em 30.11.18

O QUILÓMETRO 25 - PALESTRA MOTIVACIONAL GRATUITA -( DIA 82 DA MARATONA)

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Faltam 17 quilómetros para chegar ao fim.

A escrita já vai cansada, dura, mas resiliente.

Adoro desafios, passo-me com desafios, são os desafios que me guiam todos os dias há 49 anos. Dia-após-dia.

Mais que não seja, o desafio de me levantar da cama. É um desafio, sobretudo, em dias como estes, frios, chuvosos, nebulosos, como eu gosto.

Sou um tipo às cores, mas gosto do Outono e das suas tonalidades, do seu frio, aconchegado pela lareira. Foi um aparte.

Adoro desafios e, correr é cada vez mais um desafio, porque a idade também vai correndo e tudo pesa muito mais, ano-após-ano, há-de lá chegar e constactar.

Correr passou a ser um desafio constante na minha vida há já cinco anos. Ou só há cinco anos.

Soubesse eu o que sei hoje.

Vejo-os, aos corredores, passar a alta velocidade e fico feliz, não com aqueles malandros que não sabem mudar de esquina, mas com aqueles malandros que começaram a correr, inspirados nas minhas corridas e, hoje são autênticos bichos. Com esses fico feliz.

Fazem-me lembrar os jornalistas, a quantidade de jornalistas que formei, ao longo destes anos, que me passaram pelas mãos e que hoje estão aí, a fazer as suas coisas, felizes, sem serem malandros, ou ainda assim, malandros.

O malandro aqui é no sentido positivo da palavra, seu eu quisesse dar o sentido mais próximo usava a palavra cabrões, ou filhos da puta, ou assim.

Não faça juízos errados da palavra malandro, neste texto, aqui tem um significado fofinho

Malandro que é malandro não estrilha, muda de esquina.

Sou um tipo que quase toda a vida viveu acima do seu peso, há quem viva acima das suas possibilidades, mas esta frase faz-me lembrar aquele governo que nos ia matando a todos.

Não gosto dela, só a adapatei.

Quando me nasceu esta louca ideia, poucos acreditaram que eu conseguisse correr uma maratona. Não me conheciam bem.

Muitos me apoiaram, depois de começarem a acreditar. E, começaram a conhecer-me melhor.

Fico e sou feliz por mostrar e provar o contrário.

Fui para Berlim com 79 quilos, uns três quilos a mais do que devia, mas fui, e fiz, e acabei e tornei-me maratonista.

O grande campeão Carlos Lopes dizia-me há uns meses, em Viseu, quando lá estive a convite do meu amigo Jorge Quaresma, na última prova em que participei do circuito Running Wonders, que eu não era maratonista.

Insinuou que nem eu nem a maioria dos que correm maratonas, por prazer.

Claro que, ao pé dele, nem um protótipo de maratonista eu seria e, por estranho que possa parecer,  concordei com o campeão, que me inspirou e inspira desde Los Angeles.

Ainda assim, respondi-lhe: "eu sou maratonista"!

Ele sorriu e deu-me uma suave palmada nas costas.

Ele foi profissional das corridas, eu sou profissional da comunicação, como outros são profissionais de outras áreas.

Garantidamente, Carlos Lopes nunca faria um “directo” ou apresentaria um telejornal tão bem como eu, por isso ele nunca seria um homem da comunicação.

Por isso, eu não sou maratonista. O que ele disse, da forma como o disse faz todo o sentido.

Sou apenas um tipo que começou e terminou uma maratona.

Por isso a maioria dos “malandros”, com aspas, e não malandros, sem aspas, onde me incluo, nunca serão maratonistas. O Carlos Lopes é.

Só que isso não nos retira, a uns e a outros, o orgulho de dizermos que somos maratonistas, que corremos uma maratona, porque para nós é isso que somos, é isso que nos sentimos, foi isso que fizemos.

Eu corri a maratona de Berlim e tornei-me num homem diferente, mais feliz, mais de bem com a vida e com os outros, não só por ter terminado aquilo, mas porque sei que continuarei a inspirar homens e mulheres (gordinhos) a tornarem-se activos, saudáveis, felizes, como eu. Isso eu sei.

Os últimos cinco anos provam o que digo.

Na verdade, a distância que eu mais gosto de correr são os dez quilómetros, que me deixam à beira do abismo, mas  inundado de prazer por todos os poros.

Só corro meias maratonas ou porque fui embaixador oficial de um circuito (uma vez), ou porque de tempos a tempos gosto de me colocar à prova, para lá dos desafios diários.

Ver como estou e o que consigo fazer, só por isso, ok, também porque como conheço centenas de pessoas das corridas, aproveito para matar saudades e, divirto-me.

Faço umas trê sou quatro meias maratonas por ano. Chega-me.

Não que as meias me dêem prazer, muito menos a maratona.

Mas, pelos motivos acima explicados.

Quanto aos cinco quilómetros, aquilo, para mim, é uma espécie de ejaculação precoce, pouco mais.

Os dez quilómetros, isso sim.

E, vou confessar, os dez quilómetros que mais gozo me dão, em prova, são os da São Silvestre de Lisboa, a cada 29 de Dezembro, em cima do Natal.

É magia.

As luzes, a cidade, as pessoas, o cheiro das castanhas assadas, a névoa, os abraços.

Magia.

Nas corridas longas, o meu "problema" é simples, por isso corro-as, de tempos a tempos, cada quilómetro que eu venço numa meia maratona (e na maratona, porque hei-de correr mais umas quantas) traz-me uma alegria imensa, aquele sentimento da superação ja tantas vezes falado, mas que é real, aquela sensação que me empurra, porque se eu quero, eu consigo.

Um mantra.

Se eu quero eu consigo.

Tem tudo a ver com motivação. Inspiração. Assim levo a vida. Assim vim de Berlim.

A maratona foi um dos meus maiores desafios, desde os treinos até o dia da prova. Todo este processo obrigou-me a olhar para a vida de maneira diferente e ao cortar aquela meta percebi que tudo aquilo que queremos só depende de nós, nunca dos outros, somos nós que comandamos a nossa vontade, a nossa força, o nosso querer, somos nós o nosso próprio exemplo. Foi isso que conclui, para além da maratona, não me canso de sublinhar isso, eu acabei aquele cena.

Mostrei a mim mesmo o controlo emocional que desconhecia, os limites físicos que nunca tinha enfrentado, a vontade de chegar, de ser o que sou. Vim de lá com isso.

Aprendi a ser mais humilde, a jogar como a minha própria fragilidade, mas também aprendi a força que tenho.

Aprendi a usá-la, a meu favor.

Aprendi a usar tudo isto, nestes meus desafios diários, que é viver, sobreviver, tentar ser exemplo, tentar ser feliz, tentar fazer quem me rodeia feliz, e já lá vão 49 anos.

Desde Setembro que sou outro homem. Em todos os aspectos. Obrigado, Berlim.

Depois da me tornar maratonista, apesar do meu querido Carlos Lopes achar o contrário, fiquei com uma certeza;

Para mim, o céu é o limite.

O inferno é só o caminho para lá chegar.

Entre mim e Deus, venha o diabo e escolha.

Que a mim não me agarram.

Sou um malandro, sem aspas.

A quantidade de vezes que eu já mudei de esquina, nesta rua da vida.

A maratona de Berlim só veio mostrar-me o caminho.

Entrámos no quilómetro 26 !

 

( Be Happy )

 

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publicado às 17:53


por The Cat Runner, em 28.11.18

O QUILÓMETRO 24 - O SEXO E A CORRIDA - ( DIA 81 DA MARATONA)

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Não, este texto não fala sobre se deve ou não deve praticar sexto antes de correr, era o que mais faltava, eu meter-me na cama entre si e o seu par, nem pensar!

Este texto tem a ver com segurança.

E, se pensa que lhe vou deixar conselhos sobre como controlar a natalidade durante o acto, tire o preservativo da chuva, perdão, o cavalinho. Na verdade dê-lhe o nome que quiser, vai tudo dar ao mesmo, sexo!

Enquanto corria nas ruas de Berlim, há dois meses e meio - parece que foi há séculos - confesso que pensei, muitas vezes, na segurança.

Berlim é uma cidade daquelas, a maratona é a mais rápida do mundo e uma das mais conceituadas, tudo era possível acontecer. Pensei nisso, enquanto me divertia, enquanto corria.

Só quando as dores começaram a tomar conta do meu corpo é que me esqueci da segurança, esqueci-me de tudo.

Ali por volta do quilómetro 24 lembrei-me de uma notícia que tinha lido, um mês antes de partir para a minha grande aventura.

Aeroporto de Berlim, Schonefeld, Agosto de 2018.

O mesmo aeroporto onde aterrei e onde levantei, curiosamente, um dos piores e mais pequenos aeroportos onde alguma vez estive, nem parecia Berlim.

Durante uma revista normal de bagagem os funcionários, grandes como torres, deviam calçar para aí o 52, barrigudos, detectaram um objecto suspeito na mala de um passageiro.

Acharam eles que era uma bomba.

Mal sabiam eles que, durante a maratona, quem quisesse metia ali as bombas que entendesse, tal era a falta de segurança, pelo menos, eu senti-a.

O terminal do aeroporto foi evacuado (aprenda, não se evacua pessoas, as pessoas é que evacuam, mas isso não vem agora ao caso, evacua-se instalações e não só). O dono da mala foi detido temporariamente e levado para uma zona exclusiva.

Os agentes alemães precisaram de uma hora inteira para perceber que objecto era aquele.

Eu precisei de cinco horas para correr a maratona.

Não creio que alguém tenha aguentado cinco horas, a não ser com ajudas extra, tal como eu. Na corrida, bem entendido.

Posso dizer, com propriedade, que sou um verdadeiro maratonista (rir).

Depois dessa tensão toda (eu disse tensão) os agentes lá perceberam, com alguma surpresa, que a bomba era pacífica (rir, de novo).

Quero dizer, ela provoca estragos, mas em bom.

O que parecia ser um engenho explosivo era, afinal, um brinquedo sexual (nome pomposo para vibrador).

O passageiro confessou que o tinha comprado umas semanas antes, ele e a namorada.

Quanto ao uso, dê largas à sua imaginação, porque eu, como disse em cima, não me meto no meio, nestas coisas.

Este episódio foi animando a minha corrida, apenas isso, porque enquanto se corre poucas coisas são compatíveis, embora se transpire imenso, se atinja, por vezes, aquela sensação de orgasmo, embora tenhamos imenso prazer, mas são poucas as coisas compatíveis com a corrida, muito menos se ela fora longaaaaaaaaaaa, a corrida.

Eis quando, por volta dos 24 quilómetros dou de caras com uma situação embaraçosa.

Preferia ter sido apanhado com um vibrador dentro da mala.

Enquanto o pelotão corria, alguns pré-humanos, uma raça que não é exclusiva de Portugal, existe em todo o mundo,  atravessavam a estrada de um lado para o outro, uns iam a pé, a correr, podiam ter-se juntado a nós, mas não, e outros com bicicletas pela mão, podiam ter ido a pedalar, mas não.

Dou comigo a pensar, credo, numa Major Marathon é esta a segurança?

Bem sei que, garantir a segurança de mais de 40 mil pessoas ao longo de mais de 40 quilómetros só mesmo se fossemos chefes de estado ou assim, ainda assim…

Lembrei-me da história do vibrador, quando vi aquela gente a faltar ao respeito a quem corria, a colocar em perigo quem corria, a menosprezar quem corria, ainda por cima a pagar, e bem, e lembrei-me da história do vibrador só que, desta vez, não lhe achei graça nenhuma.

Pensei, isso sim, que estávamos ali, todos vulneráveis, durante algumas horas.

À mão de semear.

Confesso que, enquanto tive forças para correr e pensar ao mesmo tempo, só pedia para que não acontecesse nada que, ironicamente, meses antes esteve para acontecer;

Um atentado, falhado, em Berlim. Basta pesquisar as notícias. Eu tinha feito essa e outras pesquisas, porque preparei bem a minha primeira maratona.

Pensei em Boston, até porque na viagem para Berlim conheci um mexicano, o meu amigo Art Torres, que tinha cruzado a meta em Boston poucos minutos antes do atentado.

Pensei em milhares de coisas, enquanto tive forças para pensar.

Pensei que podia acontecer alguma coisa nas Portas de Bradenburg, onde estavam milhares de pessoas.

Depois, depois perdi as forças, e deixei-me ir, sem pensar em nada, como acontece sempre que perdemos as forças, sabe a que me refiro.

Só não fumei um cigarro, depois, no final, porque quando se corre não se fuma.

Ou estava a pensar que perdi as forças por outro motivo?

O brinquedo sexual era do outro senhor, não era meu.

Não me "fecundem".

Entrámos no quilómetro 25!

 

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publicado às 17:08


Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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