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Eu confesso que não fiz de propósito.

Corri, aqui, o quilómetro 21, o da meia maratona, numa corrida que entremeou as palavras dando-lhes um carácter metafórico; a meia maratona, a metade da vida.

Se eu quisesse que fosse de propósito não ia conseguir que, o quilómetro 22, o primeiro depois da viragem da metade, o início da segunda parte da corrida, coincidisse com o dia do meu aniversário.

Hoje faço 49 anos.

I-na-cre-di-tá-vel !

Eu nunca imaginei chegar até a esta fase da “prova”, eu nem sequer me imagino a correr para o fim da corrida.

Leva-me este dia de aniversário de volta a Berlim, à minha primeira maratona.

Estreei-me com 48 anos, era um jovem.

Uns cinco quilos depois - tenho-me baldado um tudo nada -, que precisei de me desligar da obrigação de correr, dou comigo a pensar se algum dia eu irei correr mais uma qualquer maratona, tirando esta, a da vida, esta eu, se pudesse, correria eternamente.

Não me apetece morrer, um dia, sei lá.

Mas, não somos (até ver) eternos.

Há-de estar a pensar: o que é que a maratona tem a ver com o aniversário dele, a não ser a ligação entre a meia maratona e a segunda metade da vida?

Pois bem, digo eu, que sou quem está a escrever e a correr, tem muito a ver.

Já percebeu que eu não me limito a contar episódios que me aconteceram na maratona, em Berlim, eu pego nesses episódios e comparo-os com pensamentos, meus, reflexões, minhas, situações que vivi, e crio estes textos, corro esses quilómetros.

Também já reparou, por isso, que eu não retrato, em rigor, cada quilómetro que corri e que aqui escrevo. Senão, isto não tinha piada, era cansativo, mais do que correr a maratona, e ninguém  ia ler o que eu escrevo, com tanta dedicação e alma.

Foi uma fórmula que eu decidi seguir e que tem resultado, as pessoas leem, anseiam pelos textos, as que leem, porque se divertem, aguardam pelo próximo quilómetro e isso, tal como na maratona, em Berlim, faz com que eu não páre e siga até ao fim.

Chama-se incentivo, apoio, atenção, chega a chamar-se afecto, eu acho. Eu acho que as pessoas que me leem têm afecto por mim e eu tenho imenso respeito por elas, de outra forma não seria capaz de escrever, sem respeito.

É um turbo que dá power nesta corrida saborosa, por vezes dramática.

Escrever é dramático, para quem escreve, embora seja saboroso.

Muito bem, eu hoje faço anos, eu corri a minha primeira maratona, faz daqui a três dias dois meses e, tal como naquele domingo de Setembro, também hoje, neste dia especial, bastante especial (em breve explicarei porquê, que agora não posso, nem devo) recebi uma mensagem daquelas que jamais irei perder de vista, jamais irei deixar escapar do meu coração, jamais irei permitir que dela não me lembre.

Tal e qual como a mensagem que recebi em Berlim, depois do maior feito da minha história, a nível fisico e mental.

Muitos parabéns, amor da minha vida”, apitou o telefone, bem cedo.

Agradeci-lhe e disse que comecei o dia a correr.

“Gosto de saber que comecaste o dia dos teus 49 anos cheio de energia”.

Disse-lhe que vamos ficar juntos para sempre, como sempre lhe prometi.

“Sim…juntos até sermos velhinhos”.

É uma ideia que temos desde os nossos 15 anos, altura em que nos conhecemos e começamos a namorar, até hoje. Acabar a nossa vida, juntos, velhinhos.

"Muitos parabéns, velhote", esta ela nunca me tinha dito. E não me soou mal de todo, dito por ela.

Esta mensagem, devido a circunstâncias, que serão conhecidas em outra altura, encheu-me os olhos de sal, rasos de Lezíria, como canta a canção.

Fez-me sorrir de orelha a orelha mas, aquilo que provocou em mim, foi uma clara definição que há muito eu tinha perdido de vista: eu sou um homem feliz!

Foi a Carla, o grande amor da minha vida quem me enviou a mensagem.

Foi a ela que eu escolhi para ficar a meu lado a vida toda.

Foi a mim que ela escolheu para ficar a seu lado a vida toda.

Apesar da vida.

Apesar das armadilhas da vida.

Apesar das distâncias da vida.

Só a vida tentou trair o nosso amor, nunca conseguiu e nunca irá conseguir, porque ele é para sempre. Para lá da vida, até.

Agora, entrado na segunda parte da maratona, tenho a certeza que ficaremos de mãos dadas até que apenas a morte no separe. Apenas ela.

E, nem isso será um dado garantido, porque nós seremos um só, para lá da eternidade.

Quando estava entre o quilómetro 41 e o 42, o último da maratona, em Berlim, numa altura em que estava emocionalmente de rastos, como acho que nunca tive, dei de caras com a Carla, numa lateral da avenida, a escassos metros das Portas de Bradenburg.

Foi o maior dos abraços das nossas vidas.

Hoje, não será possível dar-lh esse abraço, não seria tão forte e intenso, como aquele, será difícil abraçar-nos, como naquela manhã. Mas, sería tão mas tão bom.

Fundimo-nos e assim ficámos, para sempre.

Hoje recebi a mensagem que me encheu os olhos, a alma, o coração e o sorriso.

Naquele dia de domingo, a Carla publicou a foto desse nosso abraço, dado em Berlim, na recta final da maratona.

 

O sonho ia ser real, como quando sonhámos ser marido e mulher.

Nunca antes ela tinha tido tamanha manifestação de amor, por mim, publicamente, tirando o dia do nosso casamento.

Ela gosta de passar discreta. Eu gosto dela assim.

Naquele dia não, naquele dia, depois daquele abraço, ela sentiu, decidiu, que o mundo devia saber a nossa história, a sua versão.

Naquele dia, naquele domingo, ela publicou a foto do abraço, a mesma deste texto (repetida, hoje, deliberadamente) com uma mensagem que me calou ainda mais fundo do que aquela que eu recebi hoje.

Dizia assim:

“Foi este o momento que fez tudo valer a pena”.

A Carla, desde o início, soube aquilo que significava para mim correr uma maratona, o simbolismo, a transcedência, o ir para lá de tudo, para tudo provar, para tudo selar.

Aquela fotografia selou o ciclo.

O ciclo terminou.

O ciclo começou.

A mensagem dela falava dessa fotografia.

A mensagem dela falava de nós.

Hoje, aqui, digo-te eu, digo ao mundo, não chega dizer-te obrigado. Não chega, nem nunca chegaria.

Uma palavra não chega para uma vida inteira, quando dois são um e assim serão, para todo o sempre.

Havemos chegar a velhinhos, de mãos dadas, lado-a-lado, como sempre sonhámos.

Como eu te prometi, quando eramos miúdos e eu comecei a namorar com a miúda mais gira do liceu.

Amo-te, para sempre, meu amor.

Entrámos no quilómetro 23.

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Berlim 2018

 

Chegámos à meia maratona.

Agora, falta-me metade, até cortar a meta, até atingir o meu objectivo.

Um pouco como com a vida, dentro de dias faço 49 anos, já vou na correr para a segunda metade da corrida e, pelo que me parece, a passos largos.

Dispensava tanta velocidade, corro mais ano a ano que quilómetro a quilómetro e isso inquieta-me.

Inquieta-me, porque penso que o tempo fica curto, porque há tanta coisa que quero fazer, transformar, viver, que fico com a impressão que já não tenho tempo para tudo.

Gastei tempo mais do que devia ter gasto. O tempo é das poucas coisas que não se recupera, nesta vida, nem na outra.

Em Berlim, por esta altura, na maratona, também tinha essa noção, não ia conseguir cumprir o tempo definido.

O meu treinador, o José Carlos Santos tinha-me dito que “quando chegares à meia maratona reavalias o teu estado, se estiveres bem corres mais rápido, se estiveres cansado abrandas a velocidade”.

Como com a vida, eu sabia que ia estar cansado, que não ia conseguir ser mais rápido, afinal, tinha treinado tanto, tinha corrido tanto, sabia, sabia o que me acontecia ao corpo a partir das duas horas de corrida, sei o que me tem acontecido  enquanto homem grande, a partir dos 40 anos.

Sou mais maduro, sou mais responsável, sou mais consciente, mais experiente, sou intelectualmente mais evoluído, mas os quilómetros cansam, pesam nas pernas, vale o coração e a coragem, que isso só depende de mim. Isso leva-me onde quero, custe-me o que me custar!

Depois, passa uma música no Spotify - que na maratona, em Berlim, não usei o telemóvel, mas na vida estou sempre com os fones nos ouvidos - e sinto-me de novo com coragem para os quilómetros que faltam, embora se pudesse evitava-os.

Evitava, mesmo, mas não posso, nem na maratona, em Berlim, eu os pude evitar.

São uma obrigação, enquanto a respiração fica mais e mais ofegante.

Ninguém gosta de envelhecer, por muito que se convença que o passar dos anos faz de nós pessoas melhores. faz, é um facto, mas não gosto. Não nos torna, apesar de tudo, pessoas mais fortes.

É a lei da natureza, a seguir ao Verão vem o Outono.

“Papa Was a Rolling Stone”.

Ouço, lembro-me, sigo correndo e vivendo, enquanto vou cantarolando, para mim próprio, sem que ninguém mais ouça.

Em Berlim, por esta altura, em vez das duas horas e dez, já ia com duas horas e vinte.

Sabia que estes dez minutos a mais iam transformar-se no dobro, à medida que o cansaço se ia apoderando das minhas pernas, malditas.

O que não me passava pela cabeça é que em vez de correr mais vinte minutos do que o planeado ia acabar com mais quarenta.

Longe de mim imaginar as dores de alma e de pernas, até de braços, que ia sentir e que me impediam de ser tão “leve” quanto os meus companheiros e todos aqueles milhares que iam lá à frente, à minha frente.

Não podemos ser bons em tudo, somos bons em quse nada, nada.

Lembrei-me depois daqueles milhares que ficaram atrás de mim. Isso é um facto.

Uns partem, outros chegam, outros ficam a meio.

Seja como for, os planos sairam-me furados, naquele momento, neste moment, na meia maratona, em que tinha que reavaliar a minha corrida sairam furados.

Daqui a dias faço 49 anos, é na próxima terça feira.

Será um aniversário especial, por ser diferente dos outros aniversários.

Tenho-me lembrado da segunda parte da maratona de Berlim. Foi a partir daí que o meu sofrimento se tornou real, único e quase insuportável.

Espero que até terça não se-me massacrem os músculos, e que a partir de terça em diante se-me não massacre a alma, porque tenho mais uma meia maratona para correr, até ao fim da linha.

Filhos para ver, mulher para amar, pais para adorar, irmão para abraçar, amigos para sorrir-lhes.

Enquanto isso a voz negra continua a cantar “Papa Was a Rolling Stone” e é aí, nesse momento inspirador, que vou buscar a coragem, cerrar os dentes, ganhar forças inimagináveis, para seguir em frente, rumo ao fim.

Um dia, daqui a uns tempos, conto-lhe porque é que escrevi esta crónica desta forma e não de outra.

Entrámos no quilómetro 22!

 

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São vinte quilómetros, senhoras e senhores.

Parece fácil mas é uma carga de trabalhos.

Escrever um quilómetro não é uma tarefa simples, quanto mais vinte, quanto mais quarenta e dois e mais uns pózinhos, só que a vida não é, ela própria fácil.

Falemos, a partir daqui, de superação, essa palavra tantas vezes dita, que tanta gente guia, por essa vida fora.

É disso que se trata.

Trata-se de tomadas de decisão. É isso que fazemos dia-após-dia, tomamos as decisões que entendemos serem as melhores, para nós, para aqueles que amamos, para os outros.

Mas, é o “eu” que deve sobrepor-se ao que nos rodeia. Sobrepor-se sem anular o que nos rodeia, valorizando, mais e mais.

Não há outra forma de correr esta estrada, quando o desafio nos chega e nos enfrenta.

Não somos nós, embora queiramos pensar que sim, que o enfrentamos, nunca assim foi.

Somos nós que queremos transformar as nossas dúvidas em certezas, somos nós que queremos que os nossos sonhos e desejos sejam reais.

O que nos rodeia ajuda ou dificulta, por isso também deve ser valorizado.

Vale a pena acordar, sair da cama, lavar a cara, sorrir ao espelho, para nós próprios.

Agir, em vez de ficarmos a sonhar na esperança que os pesadelos passem quando abrimos os olhos.

Quando agimos, persistentes, corajosos, os desejos realizam-se.

E, por vezes, é esse o momento em que percebemos que, afinal, não estamos sós.

Sem medo, sem medo do que está para chegar, porque a coragem está do nosso lado.

Uma maratona só se corre com coragem, tenha ela a distância que tiver, porque só vivemos uma vida.

Quando decidi ir correr a maratona, nas ruas de Berlim, um dos meus objectivos passava por criar em mim uma motivação especial, para sair do marasmo a que os meus dias me tinham condenado.

Acordar dos sonhos, matar os pesadelos.

Corri atrás daquilo que queria, embora tenha escolhido o mais dos exigentes testes, havia outros, mas era a maratona que eu queria, pela dureza que ele representa, pelas marcas que deixou em mim.

Ou morro ou mato-me, como diria o outro.

Ou vivo, ou viverei, como digo eu.

Eu. Ponto.

Este texto soa a um exercício de narcisismo, mas está muito longe disso.

Pelo contrário.

Ele fala de mim, porque sou eu que o escrevo, sou eu quem o corre, dureza, dificuldade, ousadia, coragem, porque não basta desejar, é preciso merecer, fazer por merecer, seguir em frente.

Viver é como correr, é estar em constante movimento, respirar sem parar, é ter um plano, um trajecto e tentar não nos desviemos da rota, a não ser que tenhamos que a corrigir, não para encurtar o caminho, mas para o tornar mais acessível, porque o fim é lá à frente.

Começar pelas pequenas coisas, um dia de cada vez, para ganhar confiança, a nossa e a dos outros e sermos mais merecedores daquilo que temos, daquilo a que queremos.

Eu não tenho muitos amigos, tenho muitas pessoas que conheço, a maioria, fruto da minha (pouca, felizmente) exposição pública, à qual tento fugir cada vez mais e mais, sempre a correr.

Os meus amigos eu sei perfeitamente quem são e, por vezes, erro, correndo até alguns riscos, na avaliação que faço deles.

O Carlos Samora é um desses meus amigos.

É uma espécie de irmão mais velho, que nunca tive, sempre pronto para mim, para tudo, já lá vão quase vinte e cinco anos.

Ainda ontem, no Centro de Saúde, quando fui à consulta, um daqueles senhores que tem a mania que sabe tudo, daqueles chatos que temos que aturar pra não sermos indelicados (até porque, na verdade, nunca nos fizeram mal) me dizia, insistia, que o Carlos tinha ido comigo a Berlim.

"Então, a maratona, como é que correu e o Samora, também foi correr?".

“Não foi, garanto-lhe, o Carlos apenas ajudou nesta operação, a vários níveis, mas não esteve em Berlim”, tentei que compreendesse, do alto da sua certeza, encostado ao balcão das informações.

"Claro que foi, eu vi que ele esteve em Berlim", insitiu, chato, como sempre que o encontro.

"Se calhar o senhor viu foi fotografias com a camisola do restaurante do Carlos, só pode ser isso".

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“Esteve em Berli, então eu não sei, o não sei das quantas disse-me que esteve, que o viu lá”, carregou na sua certeza.

“Se o senhor diz que esteve, então esteve, mas não foi comigo”.

Entretanto, a voz do doutro Manuel chamam-me no intercomunicador do centro de Saúde.

Salvo pelo gongo, que até eu, um gajo que leva com tudo e com todos, perco a paciência, sobretudo, perante pessoas extremamente fúteis, tão fúteis que se tornam irritantes, como naqueles instantes em que estás a correr e queres parar, sabendo que não podes, nem deves parar, porque ainda faltam mais vinte e dois quilómetros para o fim e entras em stress.

Iso aconteceu-me em Berlim, várias vezes durante a corrida.

Ninguém é de ferro, nem os tipos que correm maratonas, garanto.

O Carlos Samora esteve em Berlim, sim senhor, naquele domingo.

Mas, não dava para explicar ao tipo chato, ele nunca iria entender.

Naquele domingo dezenas de pessoas estiveram comigo em Berlim, durante aquelas cinco horas - vi ontem que a aplicação Strava me deu 5.02H, ao contrário das 5.11H - tempo oficial).

Eu sei que estiveram, porque as redes sociais me mostraram.

Isso não tem preço, porque ninguém se supera sempre sozinho, a não ser os fora-de-série, que também os há.

A superação é uma coisa que às vezes se consegue, não basta querer, por isso só as vezes se consegue.

Motivação, sobretudo.

As pessoas motivam-me, até aquele momento em que me desiludem e o Carlos nunca me desiludiu, talvez em já o tenha desiludido.

Dezenas de pessoas levaram-me ao colo durante todo aquele tempo e, sim, o Carlos Samora esteve comigo, no meu coração, em Berlim.

Mas, foi chegado a Portugal que, realmente, finalmente, percebi o amigo que ali tenho.

Berlim também serviu para isso, separar o trigo do joio da vida. Berlim, abençoada Berlim, serviu-me para tanta coisa, ensinou-me tanta coisa.

Foi dias depois que descobri uma fotografia, no Facebook, na qual eu estava identificado.

Essa fotografia, a que ilustra este texto, retrata uma folha de papel, com uma simples palavras que eu não vi, em Berlim mas, estranhamente, senti.

“Força Zé Quaresma, estamos contigo”.

Acrescento, até ao fim e depois também.

A meia maratona aproxima-se.

É o próximo quilómetro.

É a partir daqui, a partir de agora, que a coisa se vai pôr fina, complicada, extremamente complicada, para mim e para uns largos milhares que cortaram a meta atrás de mim, quase metade dos participantes.

Já fui visitar o Carlos, mas ainda não lhe mostrei a medalha.

Quero fazer-lhe surpresa.

Eu conheci o Carlos no dia em que andava à procura de um espaço para fazer o meu casamento, nessa altura ele já tinha a Coudelaria, um dos melhores restaurantes do mundo, em pleno coração da Lezíria, na Companhia das Lezírias, aqui ao lado da minha casa.

Nesse dia ele pagou-me um café, paga-me sempre um café, quando o visito, e ficámos amigos, para sempre.

Ainda por cima, o Carlos jogava às quintas ferias na Tapadinha, com a malta com quem eu também jogava futsal.

 

Depois, decidi ficar esperto e deixei essas coisas da bola, que só me traziam lesões e pouco mais.

Hoje, ao escrever este texto reparo que a minha amizade  com o Carlos dura quase metade da minha vida.

É por ele que corro este quilómetro, enquanto tenho forças porque, tal como disse, vem aí o resto da maratona, o que falta é igual ao que já corri e, também como eu disse, quando agimos, persistentes, corajosos os desejos realizam-se.

O Carlos Samora ( sim, é primo do Rogério Samora) ajudou-me e muito a realizar este meu desejo, este sonho, esta prova de superação, que ninguém é grande sózinho, só os génios e, sempre, como sempre, a meu lado, com a aquele sorriso fantástico, por baixo daquelas barbas sempre brancas, que me fazem lembrar o Pai Natal.

Enquanto tomava o café e comia aqueles bolos em miniatura que ele faz questão de me oferecer, realizei que esse era o momento em que percebemos que, afinal, não estamos sós.

E, como isso é tão importante, tão decisivo, tão encorajador.

Uma maratona só se corre com coragem, tenha ela a distância que tiver, e nós só vivemos uma vida.

Abracemos os nossos amigos.

Hei-de ir aí, em breve, para te mostrar a nossa medalha.

Entrámos no quilómetro vinte e um.

 

 

 

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Levei horas para começar a escrever este texto.

Como se as palavras me fugissem para longe.

Como se os dedos estivessem presos, asfixiados.

Como se a boca estivesse seca, em sofrimento.

Como se a cabeça estivesse fora do meu corpo, pendente numa memória qualquer.

Como se não quisesse escolher as palavras, com medo daquilo que elas me trazem.

Como um cobarde.

Levei horas para começar a escrever este texto.

Eu gosto de escrever enquanto escuto música.

A música guia-me as frases, endireita-me o pensamento, mistura-me os sentimentos, revolve-me, entranha-me, transforma-me e, enquanto escrevo, deixo de ser eu, passo a ser apenas um instrumento usado por aquilo que não consigo ser.

Como um cobarde.

Liguei-me ao Youtube e meti a tocar a música que mais me chocou, em toda a minha vida.

Nunca mais saí de dentro dela, nem ela de dentro de mim.

A mesma música que usei quando fiz a minha mais brutal Grande Reportagem, em Moçambique, onde voltarei, um dia, quem sabe. Eu sei, sei que sim. Voltarei.

Ir e voltar.

A vida obriga-nos a ir, faz-nos voltar.

A morte não, a morte é uma puta sem vergonha.

Ela leva pedaços de nós e não nos devolve mais.

Deixa-nos essa coisa chamada memória, que dói, que inquieta, ansiosa, que mente.

Passaram três anos.

A morte roubou-nos o João Paulo e eu não chorei.

Eu sabia que ele não queria que nós chorássemos. Eu não chorei.

Vou contar pela primeira vez, a primeira vez que não chorei a partida de um amigo, porque ele não queria que eu chorasse.

Este quilómetro vai ser doloroso, faz parte, já vamos nisto há dezanove quilómetros e uma maratona é um lugar para gente forte, não tem lugar vago para cobardes.

O João Paulo Vargas, o Vargas, é o culpado por eu ter começado a correr.

Conto rápido, que eu corro muito mais devagar que isto;

A minha mulher conhecia-o desde os tempos da Rádio Renascença.

Quis essa coisa chamada destino que nos cruzássemos todos lá na fábrica.

Ainda hoje, quando lhe disse que passaram três anos ela respondeu-me:

Penso nele quase todos os dias, sabes, quando vamos para o guarda-roupa, junto aos cacifos, estão lá fotografias dele coladas, olho para elas todos os dias”.

Para ser sincero, acho que todos nós passamos por ali, todos os dias, para olhar as fotografias do João Paulo, mesmo que a desculpa seja ir à máquina do café.

Foi ali, numa dessas noites longas, nesta longa maratona, quando eu ia para o guarda roupa, naquela altura em que eu era um gajo de valor que me detive à conversa com ele.

Já lá vão quase seis anos.

O Vargas tinha ganho uma batalha contra uma Leucemia grave.

Depois dessa batalha ele começou a correr, corria muito.

Falávamos muito, muitas vezes. Gostava de o escutar, de o ouvir, de olhar para o seu rosto enquanto ele me contava as suas histórias.

Já naquela altura ele corria os (agora tão na moda) trails de centenas de quilómetros, maratonas, meias maratonas, ele nunca me o disse, mas eu sempre achei que aquela era a forma de ele brindar a vida. Só os homens bons sabem fazer brindes à vida e detestam que chorem na sua morte.

Isso eu sei, já perdi tantos amigos, homens bons, já me levaram tantos pedaços meus, que isso eu sei, só eles sabem fazer brindes à vida.

Depois morrem. Todos morremos.

Não há nada mais democrático que a morte.

Enquanto escutava as histórias que o Vargas me contava ia pensando que “um dia vou ser como tu”, mas nunca lhe o disse.

Como um cobarde.

Uma dessas noites longas, na fábrica, que tanto marcou a minha vida, no bem e no mal, a fábrica guarda memórias de uma vida quase inteira, numa dessas noites o Vargas apareceu-me à frente com um livro.

“Gab, toma, leva, lê, este gajo é japonês, escreveu este livro que acho que vais gostar, devolves quando acabares, não tenhas pressa”.

O livro era de um dos maiores romancistas modernos vivo.

Haruki Murakami, escreveu uma dúzia de romances brutais, mas aquele era “o” livro.

“Auto Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo”, contava a história de Murakami, a história que mudou a sua própria vida, a minha e, pelos vistos, a do Vargas.

O livro centra-se na mudança de vida do autor, quando deixou de ser dono de um bar e se dedicou a escrever livros.

Nesse livro, sobre as corridas dele, eu descobri tanta coisa bela que, correr, para mim, passou a ser outra coisa que não isso.

Nele, eu aprendi os cheiros, as cores, as paisagens, os sons, o suor que arde os olhos, o barulho da cadência dos passos, aprendi a que sabe o cansaço e a resiliência, a superação e a coragem.

Nesse livro aprendi a correr, a viver, a ser um homem um pouco melhor, embora longe ainda dos homens bons com quem tive a sorte de me cruzar.

Quando decidi correr a maratona, em Berlim, com tudo o que esta aventura louca envolveu - até morte brutal de mais um amigo, a morte, mais uma vez, e as corridas, e a vida -, a coisa que senti mais falta, confesso-o agora, que é o momento certo, foi dos conselhos do Vargas.

Ele dava-me muitos conselhos, sobre tudo, mas muitos mais sobre as corridas.

E, eu admirava-o imenso. Isso eu tive oportunidade de lhe o dizer e disse, muitas vezes, quase sempre, no fim das nossas conversas.

Ensinou-me, o João Paulo, muito mais que o “Auto Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo”, embora tenha sido um ensinamento que me guia todos os dias.

Dava-me conselhos, a mim, novato nestas coisas de correr, e eu seguia-os, tirava-me dúvidas, imensas, muitas delas patéticas, vindas de um gajo já com barba rija.

Não minto, durante os nove meses, que me custaram tanto, enquanto preparava a maior superação física da minha vida, pensei nele, no João Paulo vezes sem conta.

No que me tinha dito, aconselhado, elogiado, ele elogiava-me muito.

Os elogios vindos dele - ele era técnico de som, era um daqueles que, lá escondido na sua cabine, repara em tudo o que nós fazemos, quando estamos no ar...e fora dele - tinham um enorme impacto em mim.

Há Elogios e elogios.

Pensei no João Paulo muitas vezes, mas muito conscientemente quando, em plena preparação da maratona fui confrontado com a notícia trágica do assassinato de um amigo.

Sim, esse.

A morte.

Transversal.

Não fosse ela parte da vida, por muito que nos roube pedaços de nós.

A memória é que ela não leva.

Foi num sábado que soube da notícia.

Estava em Viseu, ia correr uma meia-maratona, daquelas em que cheguei a ser Embaixador Oficial.

O João Paulo também ia correr uma prova, longe dali, que ele não gostava do palco que nos expõe perante tudo e perante todos.

Era um homem discreto.

Foi num sábado de manhã, antes de descer para o pequeno almoço, que soube da notícia.

O João Paulo tinha morrido, a dormir, no hotel.

Não chegou a correr a última corrida de todas.

Hoje, ao escrever este quilómetro, que isto não é um texto, são quilómetros, pelo que aqui deixo de mim, pedaços, hoje reparo que a  morte já me chegou três vezes, ao sábado de manhã;

Chegou em forma de notícia fria, dura e cruel, porque é assim que tem que ser.

A notícia da morte do Mané, que vivia aqui no meu prédio e que era meu amigo de infância.

Apresentei notícias o dia inteiro, nesse mesmo dia, sem ainda hoje saber como.

A notícia da morte do Grilo, que foi a Rita que me avisou por mensagem, antes de dizer a quem quer que fosse, antes de dar a notícia, no noticiário da uma.

No dia seguinte errei o treino, falhei o que estava planeado e gritei enquanto corria.

A notícia da morte do Vargas, que soube pelo Facebook, antes da nossa corrida, a minha numa prova cheia de gente da televisão, a dele numa prova cheia de pessoas.

Corri essa meia maratona, mas ainda hoje não me recordo da chegada.

Apenas lembro a partida.

Nunca mais esqueci a partida, por ele leva sempre um pedaço de nós.

A morte é uma notícia que chega aos sábados.

Há tempos, dei conta que o livro que o João Paulo me emprestou desapareceu, não sei se o emprestei e se não me o devolveram, não sei se o perdi - os livros não se perdem -, não sei se ele também partiu.

Não sei.

Sei que nunca lhe devolvi o livro.

Tenho esperança de o voltar a ler.

Naquele livro guardo o sorrido do Vargas.

Foi por causa dele e daquele livro que eu me tornei corredor.

Gostava tanto que tivesses visto as minhas fotos com a camisola a dizer "I´m a marathoner".

Gostava tanto que tivesses visto aquela foto minha a abraçar a nossa Carla, como nunca o fiz.

Sei que ias adorar e sorrir.

Sei que ias sentir-te tão orgulhoso de mim, porque sei quanto gostavas de mim, de mim e da tua "Carlinha".

Ela disse-me hoje que pensa em ti quase todos os dias quando vai para o guarda-roupa, quando passa junto aos cacifos e vê as tuas fotos.

Hoje, João Paulo, hoje posso dizer-te que a culpa disto tudo é tua!

Havemos de nos encontrar outra vez.

Havemos de cumprir a nossa promessa de correr juntos e, nessa altura, prometo, devolvo-te o livro.

Entrámos no quilómetro vinte.

 

 

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A fé move montanhas.

Eu cá vou muito pela sabedoria popular, muitas vezes.

Por algum motivo é sabedoria, embora seja popular.

A fé, disso também ninguém tem dúvidas, é uma palavra única, no entanto, ela é diferente de Homem para Homem ( se reparou, escrevi homem com H grande, no sentido de “ser humano”, pessoa, e não do género).

Cada qual tem a sua fé e a mais não é obrigado.

Quero dizer, às vezes até é obrigado a ir para lá da sua fé, mas isso são contas de outro rosário (estas contas estão relacionadas com a fé, não têm nada a ver com a matemática).

Decidi ir à Wikipédia ver a designação “oficial” de fé;

passo a citar:

“ Fé é a adesão de forma incondicional a uma hipótese que a pessoa passa a considerar como sendo uma verdade…pela absoluta confiança que se deposita nessa ideia”.

Portanto, a minha decisão de correr uma maratona foi um acto de fé, segundo a Wikipédia.

E, eu a pensar que tinha sido uma determinação.

Se calhar a fé é isso mesmo, uma determinação.

Acreditemos que sim, até porque um terço (que não os que servem para rezar, tendo por base alguma fé) do texto está escrito e não me dá jeito apagar isto tudo.

Estamos a correr uma maratona, não nos esqueçamos disso, nunca.

Isso é o fundamental.

Ora bem, estamos em pleno quilómetro dezoito.

Sabia lá eu que era fé, naquela altura, nem conseguia sequer pensar nisso, apenas sabia que estava a entrar a passos largos no período crítico da corrida, da minha corrida, e nem sequer estávamos a meio.

Pensei com os meus atacadores: qual fé, qual carapuça (cada um que enfie a sua), isto é mas é cerrar os dentes, pensar em tudo e mais alguma coisa, e dar ao stick, salve seja, que com ou sem fé tenho que acabar esta merda.

Até por uma questão de brio e de orgulho pessoal, que eu não sou de me ficar nos desafios, muito menos nos meus próprios desafios.

Eu se fui a Berlim correr a minha primeira maratona foi por mim, em primeiro lugar.

Era o que mais faltava, voltar para o Ribatejo como perdedor. Jamais, como diria o outro senhor, jamais.

Para ser (ainda) mais sincero, correr este quilómetro com base na fé era o mais fácil, bastava-me continuar a divagar e a agarrá-lo(a), salve seja, com a escrita, para que continuasse aqui a correr comigo.

Mas, se há coisa que eu não sou é falso, nem oportunista, nem cínico.

Não.

Puxei o tema da fé, para este quilómetro, por três motivos;

 

1- Foi um acto de fé correr esta maratona.

2- Sem fé (em mim) nunca teria abraçado a minha mulher, como nunca, nem chorado aquilo que chorei, muito menos, sem fé (em mim) alguma vez teria cortado aquela meta.

3- Há amigos meus (dos verdadeiros), gente séria e honesta nos sentimentos, sobretudo, que é gente de fé.

 

Este texto é dedicado a um desses amigos.

Eu tenho o privilégio de ter alguns amigos. É verdade!

Curiosamente, aqueles que me tratam por “meu amigo” são os que menos considero como amigos, porque aquilo soa-me sempre a asséptico.

Os que são meus amigos, conto-os pelos dedos, sei bem quem são.

Senão vejamos, um amigo é aquele que vai a Fátima - sem saber se acreditas em Deus, se tens religião, sem tens fé -, e em Fátima reza por ti, acende uma vela por ti, porque vais correr a tua primeira maratona.

O Paulo é um grande amigo.

Tem sido, sempre, desde que nos conhecemos.

O Paulo não tem nada a ver com as corridas.

O Paulo tem muito a ver com o afecto e com aquela capacidade ao alcance de poucos, a amizade incondicionalmente pura, sem interesses mundanos e materiais, sem procura de protagonismo, sem sequer me tratar por “meu amigo”.

O mais longe que o Paulo Silva vai é quando me trata por “Zézinho”, um diminutivo que me agiganta o coração, porque tirando o Paulo Silva, só a minha mãe me trata assim.

O Paulo é um homem de fé.

Foi a Fátima pedir por mim, pelo seu amigo, que ele sabe o significado da palavra.

Em Fátima acendeu uma vela, a vela que ilustra este texto, essa mesmo.

A fé do Paulo, na nossa amizade, em mim, é tanta que acordou bem cedo, naquele domingo já distante, para me acompanhar na corrida mais longa da minha vida.

Descarregou a aplicação oficial da Maratona de Berlim, sacou o meu número de dorsal e começou a seguir a minha corrida, desde o primeiro passo.

Reparei, depois, no Facebook, que ia comentando à medida que eu ia evoluindo na corrida.

Confessou-me, depois, pessoalmente, o susto que apanhou, precisamente, por ser meu amigo, verdadeiro.

Conto rápido,

Aliás, contou-me ele, já em Portugal:

Zézinho, apanhei um susto do carago, pá, então, segui-te durante os 42 quilómetros, Zé, e quando chegaste ao quilómetro 42 desapareceste da aplicação, desligou-se, apagou-se”.

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Respondi-lhe que devia ter sido algum bug.

“Eu disse à pessoa que estava comigo nessa manhã, queres ver que o meu Zé caiu antes de chegar à meta, mesmo no final, e não conseguiu terminar a maratona, óh pá, fiquei quase desesperado, Zé, em sofrimento, mesmo”.

Tentei que a gargalhada que dei não fosse ofensiva, era a última coisa que queria.

O Paulo (Silva), que acendeu uma vela por mim, tinha perdido, por momentos, a sua própria fé.

Na verdade, tinha-se esquecido dela, apenas, momentaneamente.

Descansei-o.

A explicação era simples;

“Paulinho, fizeste-me rir, pensaste que eu tinha caído a 195 metros da meta e por isso tinha deixado de ser rastreado pela aplicação?

Nem que eu fosse sem pernas, a arrastar-me, meu querido, nem que eu fosse morto, fosse eu como fosse, havia de passar aquela puta daquela meta”, disse-lhe.

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Ele esboçou um sorriso, que eu sei que sim.

E, eu conclui:

“A vela que acendeste por mim resultou, meu querido.

Eu não caí.

A aplicação é que deixou de fazer o tracking a partir do quilómetro 42, desligou-se, para ela a maratona acabou ali. Nem tudo é perfeito, na tecnologia, nem na vida, meu amigo”

Usei a expressão “meu amigo”, de propósito, porque entre amigos verdadeiros não há falsidade.

A nossa amizade é assim.

A amizade é assim. É amizade!

E, por falar em fé, eu quem nem sou dessas coisas da religião, mas sou das coisas da fé, tenho vontade de acabar este texto com um “até amanha, se deus quiser”, para manter a actualidade fútil da polémica estéril, porque às vezes também sou sacana de um pecador.

"Até amanhã, se deus quiser"!

Entrámos no quilómetro dezanove.

 

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Por esta altura eu já ia a temer o pior, em silêncio.

Por esta altura eu já ia a pensar que dali a quatro quilómetros estava a chegar à meia maratona, o meu ponto crítico.

Disse-me o meu treinador, antes de partir para Berlim,

“tu tens fuel para uma hora e meia de corrida seguida, o resto depende de ti, mas se quiseres o teu fuel aguenta a maratona toda, é como te digo, depende de ti, da tua cabeça, sobretudo”.

Ao quilómetro dezassete as pernas ainda iam leves, a minha respiração, que durante todo a maratona só ela, a minha respração, nunca me traíu, só ela não me traíu, tudo o resto apanhou-me na curva;

correndo, vivendo e aprendendo.

Ainda ia bem, por isso comecei a pensar que aquilo que estava para vir, depois de chegar à meia maratona, podia ser ultrapassado com mais ou menos dificuldade.

Quero dizer, sei-o agora, estava a tentar-me convencer do impossível.

Um dos meus erros na preparação da maratona de Berlim foi não ter corrido o treino de trinta quilómetros, fundamental, quando se preparar uma maratona.

Não o corri, porque no dia 26 de Agosto, domingo, dia em que fazia os treinos longos, quando saí para treinar achava que era um treino de 25 quilómetros que devia fazer e não o de 30 quilómetros.

Enganei-me.

Estava muito transtornado, como há muito não me sentia.

Na véspera, no sábado, tinha sido confirmada a morte do meu amigo Grilo, nas televisões.

Foi-me confirmada, pessoalmente, ainda antes das televisões a confirmarem.

Era uma notícia que já esperava.

As restantes notícias, as que se lhe seguiram, essas não, mas aquela eu já esperava.

Mas, fiquei de tal forma transtornado, que me equivoquei com a data do treino mais longo de todos, fundamental, para derrubar “o muro” e o "muro" aparece sempre durante uma maratona.

Nesse domingo saí de casa, fui a correr desde o Centro Comercial Vasco da Gama até quase para lá de Algés e voltei. Corri durante duas horas e meia. Metade do tempo que corri em Berlim.

Só depois, chegado a casa, quando fui registar o treino é que reparei que não devia ter corrido esses 25 quilómetros, mas devia ter corrido 30.

Pode achar que mais cinco, menos cinco, não é relevante.

É.

É, de tal forma relevante que faz toda a diferença entre passar “o muro” ou chocar de frente com ele e viver o inferno na terra, até ao último metro, tal como me aconteceu.

Ainda tentei convencer o meu treinador a fazer esse treino no domingo seguinte, mas não era aconselhável porque ia entrar na fase descendente da preparação, retirar carga, não dava, podia comprometer toda a preparação e a própria maratona.

Fui para Berlim, assim mesmo.

Ao quilómetro dezassete, este que aqui descrevo, mesmo indo bem, já ia a fazer contas de cabeça e a assustar-me antecipadamente.

Este foi outro dos meus erros estratégicos. Eu fui o meu maior pânico. Não foi a distância da maratona.

Arrependo-me, claro que sim, como me arrependo de mais uma meia-dúzia de decisões que tomei antes, durante e  depois, mas de pouco me adianta o arrependimento, se dele não tirar lições, porque isto de correr tem duas saídas, ou ganhas ou aprendes.

Eu aprendi!

Aprendi, tanto que Berlim me ensinou.

Sobretudo, sobre a nossa condição, a condição humana.

A propósito do meu querido amigo Grilo, Berlim ensinou-me a desprezar os vermes, os seres rastejantes, frustrados, tipos como aquele que, há umas semanas, decidiu utilizar as redes sociais para tentar queimar-me vivo, na fogueira da Inquisição dos loucos, por causa de um texto que aqui escrevi em homenagem ao meu amigo.

Como se de um crime se tratasse.

 

( https://thecatrun.blogs.sapo.pt/a-morte-nao-te-levou-85775 )

 

 

Um tipo, queimado, que tentou acusar-me do "crime" de elogiar a mulher que terá morto o meu amigo, numa altura em que ninguém imaginava que ela o pudesse ter feito. Muito menos eu.

Um inquisidor nojento, que usou termos nojentos, para escrever sobre um assunto nojento, sobre um texto que eu dediquei a um amigo meu, uma homenagem que lhe prestei, sentida, sincera.

O meu amigo estava desaparecido.

Só depois se confirmou o seu assassinato, não foi a sua morte, foi o seu assassinato.

Mas, mesmo assim, a futilidade e a ausência de sentimentos levou alguém a ter a falta de lucidez para me apontar o dedo, só porque sim.

Esse tipo, não precisa de saber que, ainda hoje ecoa na minha cabeça aquele último cumprimento, quando nos cruzámos no jardim, eu e o meu amigo: "um abraço, amigo Zé", ao qual respondi, como sempre, "um abraço, amigo Grilo".

Não precisa de saber, nem tem que saber, por que a sua falta de inteligência, de moral, de coluna vertebral não lhe o permite, sequer.

Mas, aquela troca de palavras, ainda hoje ecoa na minha cabeça e há-de ecoar, para sempre.

Um tipo que me acusou de procurar palco e protagonismo à conta do assassinato de um  amigo meu.

Um tipo que tentou colocar em causa a minha integridade profissional e pessoal, como se a palavra dele valesse o que quer que fosse, sobretudo, quando comparada com a minha carreira, com o reconhecimento que o meu trabalho me trouxe.

Mas, tentou.

Provavelmente, porque imaginaria que eu iria apagar o texto, que aqui republiquei, agora.

Provavelmente, porque me odeia, sem sequer me conhecer, ele lá terá as suas razões.

Provavelmente, porque se julga tão inteligente que não consegue ter a lucidez suficiente para perceber que não o é.

Apenas tem uma ligação à internet, só isso.

Ele, mas não só, também alguns meus amigos (reais) que colocaram "likes" naquele texto abjecto e inaceitável, mas que continuaram a ler e a apreciar os meus textos, todos os dias.

Provavelmente, os mesmos que estão agora a ler este texto.

Não são inteligentes, são iguais a ele, limitam-se a  saber utilizar o wi-fi.

Hoje é domingo, e eu quero que este final de domingo seja duro, como naquele dia, como na minha maratona.

A fogueira moderna, onde ardem as aves-raras.

Ardem sem darem conta, e isso é que é verdadeiramente revelador, muito mais crú que o meu desprezo.

Sabem lá eles o que é escrever com a tinta que nos sai da medula.

Sabem lá eles, essas aves-raras que procuram palco, o que é o pulsar de um coração honesto, doce e sério.

Eles não sabem, mas eu sei que um perú nunca passará de um bicho muito feio.

Eles não sabem, mas eu sei que o ser humano consegue ser um bicho muito feio.

Alguns desses bichos revelam-se no momento, outros tardiamente mas,diz a história que os perús desta vida acabaram, inevitavelmente, dentro de um forno, desossados, depois de ser embriagados e levados para a sua a morte. Queimados.

É a sua condição.

Eu acredito no homem-bom.

Os outros, limito-me a desprezar.

Não que me sinta bem por isso, é uma questão de higiéne, apenas.

Aprendi, em Berlim, imensas coisas sobre a vida e sobre a corrida, sobre o significado da palavra desprezo, o sentimento mais cruel que alguém pode sentir, pelos perús desta vida.

Agradeço a Berlim, por tanto.

Por ter mexido, profundamente, comigo, enquanto ser vivo, por ter sido a lição de vida que me faltava, que eu procurava, precisamente, porque me faltava.

Berlim tornou-me mais imune, mais forte, porque me deu aquilo que eu precisava, para me conhecer melhor, através de uma viagem interior que eu quis fazer.

Foi por querer que a fiz.

Porque eu sei sorrir.

Porque eu gosto de sorrir, mesmo que sorrir signifique sofrer.

Há momentos para tudo, até para isso.

Ainda hoje, pouco mais de um mês depois, sinto o meu corpo inchado, por fora e por dentro, tamanhas foram as alterações que Berlim em mim provocou.

Bem sei que é uma alucinação da minha cabeça, mas nem só os perús desta vida têm o direito à sua exclusiva alucinação.

Eu também tenho, nem que depois consiga fugir do fogo que consome a alma, os músculos, as mãos, a cara, ao contrário deles.

Sobreviver.

Aprender.

Decidir.

Ser.

Viver.

A equação é nova. É minha. Não a empresto.

Quando te propões a um desígnio e passas cinco horas em cima de ti mesmo, sem parar, para atingir esse desígnio, aprendes muito, passo-a-passo, dor-a-dor, palavra-a-palavra, sorriso-a-sorriso, porque embora possa não parecer eu sorri muito, em Berlim.

A grande lição guardo-a agora e dela não abro mão,

nunca alguém me roubará o sorriso.

Era preciso correrem mil maratonas seguidas, sem parar.

A mim bastou-me correr uma só para perceber isso.

O sorriso é meu.

A fogueira que arda à vontade!

Entrámos no quilómetro dezoito.

 

 

 

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Se há coisa que eu não sou é ingrato.

Passou um mês.

Passou um mês desde que me coloquei à prova, perante mim mesmo, como nunca antes o havia feito.

Quando terminei a minha maratona, a caminho do apartamento, detive-me, ali, a observar, emocionado, todos (as) aqueles(as) que estavam a chegar, também eles a cumprirem os seus sonhos.

A primeira coisa que me veio à ideia foi realizar que, depois de todo aquele meu sofrimento, havia milhares de pessoas atrás de mim, o que é que elas terão passado até ali chegarem, aquelas que chegaram, porque três mil ficaram pelo caminho.

Uma maratona não está ao alcance de qualquer um, está ao alcance de todos os que se comprometem a corrê-la, mas não ao alcance de qualquer um.

Enquanto ali estava, a observar, emocionado, aquela mancha de gente, veio-me à ideia uma segunda coisa;

as centenas - foram centenas -de pessoas que me acompanharam durante os nove meses em que andei a treinar, as centenas de pessoas que, durante aquele domingo de setembro se tiraram dos seus cuidados para torcerem por mim, como se fossem elas que ali estivessem a correr.

Na verdade estavam.

Todos(as) comigo, durante aquelas cinco horas.

A todas essas pessoas, muitas que só me conhecem da televisão e das redes sociais, a todas elas, a minha gratidão será eterna.

Cheguei a confessar, antes de ir para Berlim, que por vezes me assutei com a corrente que estava criada em meu redor (tentei sempre afastar os aproveitadores, que existem sempre, quando coisas destas acontecem, algumas vezes consegui, em outras não, mas a água tem sabedoria, como veremos mais à frente).

Levei-vos a todos(as) vocês no meu coração e, porque não sou ingrato, essa é uma das minhas características, porque a força que me deram e que me transmitiram foi imensa, pensei em vós, no durante a corrida, no final da corrida.

Emocionado, como sempre.

Recordemos.

Recordações.

Passou um mês.

Tanto mudou.

Tanto mudou em mim.

Por isso fui a Berlim, correr a "minha" maratona, porque esta foi "a minha maratona", para provocar profundas mudanças em mim, enquanto homem, enquanto marido, enquanto profissional, enquanto pai, enquanto filho, enquanto irmão, enquanto amigo, enquanto ser humano.

Consegui.

Hoje, um mês depois, sou uma pessoa diferente.

Mais forte, mais sabedor, mais feliz, mais duro, mas eu.

Lembrei-me hoje, um mês (e um dia) depois, da sabedoria da água: "ela nunca discute com os seus obstáculos, ela simplesmente os contorna".

Foi isso que fiz. Foi isso que aprendi em Berlim.

Sou "Maratonista" e isso, por muito que o mundo queira, isso jamais alguém irá mudar.

Foi por isso que me sujeitei a muita coisa, coisas que jamais alguém se sujeitaria, antes, durante e depois.

Foi por isso, para poder dizer, em voz bem alta: "Sou Maratonista".

O resto, o resto são ilusões.

Ilusionistas.

Ilusionismo.

Faz parte da condição humana.

E, tão diferente que o ilusionismo é da magia.

Magia.

Foi isso.

Magia.

Foi por isso.

Entrámos no quilómetro dezassete.

 

 

 

 

 

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Faz hoje um mês, por esta altura, estava com o maior empeno da minha vida.

É uma daquelas coisas que não se esquecem.

Passa, como tudo na vida, mas é uma recordação só nossa, tão íntima que, um mês depois, parece que de repente voltei a sentir o mesmo inesquecível empeno.

Valente empeno.

Acabei a corrida e, durante os quatro ou cinco dias seguintes movi-me exactamente como o senhor do vídeo que se segue, nem mais, nem menos, tal e qual assim, como ele.

 

 

 

Apesar de tudo, ainda conseguia ter sentido de humor.

"Um andar novo", disse eu para mim próprio, que não havia mais nenhum português por perto, isto é, tinha entrado na fase de falar sózinho, mas mal eu sabia o que me esperava.

Passou um mês apenas, parece que passou toda a eternidade, e um mês muda tudo e tanto, parece longe, parece ontem, lá tudo atrás da memória.

Passou apenas um mês e quatro quilos.

Foi quanto engordei à conta da maratona, que a culpa da merda que fazemos, normalmente, nunca é nossa é sempre dos outros.

Haja coragem.

As desculpas, cada qual inventa a sua, cada qual mostra aquilo que quer mostrar, revelações em cima da balança, digo eu, diga lá, não é a vida, ela própria uma balança?

Porque corri uma maratona há um mês advoguei-me o direito de comer que nem um buda.

Um grande buda!

Bem sei que está a pensar que os budas comem pouco, mas que importa, no caso?

Quer estragar-me o texto?

Muito bem, adiante…

Comi, comi, comi e em um mês inchei uns bons quatro quilos, ao abrigo de ter corrido uma maratona, para além de ter inchado por causa da maratona, em si - nela, não em si, caro(a) leitor(a).

O ser humano é, realmente, muito estúpido, tem outros predicados bem melhores, mas ninguém é perfeito, e a estupidez é quase, como diria Einstein, como o Universo.

Infinita(o).

Portanto, se eu corri tanto, podia comer mais do que corri.

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Pensava eu, o estúpido, que eu pelo menos olho-me ao espelho, todos os dias!

Agora, estou a pagar por isso, que nesta idade perder quatro quilos, com o metabolismo lento, como o meu, é uma tarefa tão complicada quanto correr a maratona, maldita maratona (ler com um sorriso, sff).

Por isso ando há três semanas a malhar todos os dias no ginásio. O Orlando fez-me um porgrama de treino diferente, todos os dias.

Treino seis dias por semana, descanso um dia, mas ando divertido, apesar de o fazer por obrigação.

Obrigado eu faço, mas chego a um ponto que mando tudo dar uma volta, neste caso obriguei-me, entre aspas, para conseguir recuperar a silhueta bela e, mais a sério, para descansar das mazelas do empeno e da corrida.

Corro três vezes por semana, duas corridas integradas nos treinos de ginásio, cerca de meia hora cada e ao domingo, aí corro os meus dez quilómetros.

Voltei a adquirir o prazer de correr.

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Cá entre nós, que ninguém nos ouve, aqueles nove meses “obrigatórios”, sem aspas, irritaram-me.

Os dias seguintes à maratona também.

Na verdade, o antes e o depois irritaram-me, mas o durante, o dia da maratona, a maratona, ela própria, apesar de tudo - destas histórias todas - foi delirante. Foi por isso e para isso que vivi intensamente, para aquela corrida única.

Por isso, tolerei o antes e o depois, para poder viver tudo o que vivi naquele domingo.

Mas que empeno!

Lembra-se do senhor a descer as escadas do metro, no vídeo lá em cima?

Eu andei assim, com um andar novo, literalmente novo, durante vários dias.

Até para me levantar ou sentar, para entrar ou sair do carro, até para me virar na cama, precisava de uma grua que não existia, imagine o esforço?

Imaginou? Boa!

Depois de ter cortado a meta, das fotos da praxe, da cerveja para celebrar, dos abraços e beijos à família e amigos, aquilo que eu mais queria era…nem sei bem o que era, confesso.

Naquela altura, já depois de ter ficado frio, cerca de uma hora depois de ter cortado a meta, o meu corpo, sobretudo as minhas pernas gemiam por todo o lado, ao ponto de eu não saber se queria deitar-me, sentar-me, dormir, ou sequer estar vivo.

Era o início do empeno monumental.

Só que eu não sabia da hsitória a metade.

Pensava que aquilo passava assim sem mais nem menos, passava, com o plano de recuperação, pensava eu.

Quando deixei toda a gente, família e amigos, que naquela altura ainda estavam no relvado, em frente ao Reichstag, a conviverem uns com os outros e me encaminhei para o apartamento, a uns quatricentos metros dali, porque na verdade o que eu queria era estar sozinho, com o meu sofrimento (rir, de novo),  tive uma surpresa, uma enorme surpresa;

Eu pensava que tinha sido dos últimos a cortar a meta, em Berlim, afina demorei cinco horas e onze minutos, que os segundos dou de barato.

Nada mais errado.

Uma hora depois ainda havia heróis, uma enorme mancha de heróis, uma marcha triunfal, uma hora depois da minha chegada, que se encaminhava para as Portas de Bradenburgo, a menos de um quilómetro da tão desejada meta.

Heróis, sem mais.

 

A um mês de distância os meus gritos de incentivo podem parecer patéticos, mas eles, os que ali iam, eles não acharam, de certeza.

Eu também não achei nada disso, quando me gritaram durante toda a corrida.

Reparou quando eu disse num inglês quase perfeito que "isto é lindo", reparou naquele casal com a bandeira do México que pareceu ter ganho asas?

Pois, pateta sim, mas feliz, eu!

Novos, velhos, a passo, a correr, a rir, a chorar, com dores, sem dores, heróis, ponto. Sem mais.

Quem começa e acaba uma maratona é um herói.

Para mim é um herói.

Corra em três, em quatro, em cinco ou em seis horas, herói. Sem mais.

Bom, se correr em duas horas e muito pouco, como o Kipchoge, nesse caso já não é herói coisa nenhuma.

É um fenómeno.

Não conta.

Conta sim, porque há heróis que são fenómenos, não somos todos apenas humanos.

Ali fiquei, a filmar quem chegava, não sei bem porquê, talvez para poder escrever este texto e ilustrar com um vídeo, talvez porque quis registar a marcha heróica, para me deliciar depois a ver, talvez porque, não sei, talvez só porque sim, porque eu estava ali, porque eu lutei para ali estar, porque eu estava feliz, muito cansado, muito empenado, mas muito feliz.

Lembro-me de ter feito um directo, no Facebook, sobre os heróis que chegaram depois de mim, lembro-me de ter tido mais um rasgo de estupidez e de ter sublinhado que o meu penteado não estava em conformidade, porque eu ainda não tinha chegado a casa e estava com um aspecto medonho.

Sorte de quem viu o directo, e foi muita gente, que o Facebook ainda não tem cheiro, mas lá chegará.

Parei, ali, junto às baias, para ver quem chegava, para me rever nesses heróis, para saborear, sozinho, aqueles instantes.

Peço desculpa pela qualidade do vídeo, mas isto não dá para tudo, para correr, para escrever, para gravar, lamento, mas não sou multifacetado (rir, de novo, sff).

Parei ali para ganhar forças, que não consegui ganhar, para descer as escadas, como o senhor do vídeo, e atravessar o metro, que dava acesso ao outro lado da rua que me levaria a casa.

Não havia outra forma, a alternativa era atravessar a corrida, incomodar quem ia em sofrimento ou em êxtase, depende, saltar as baias e seguir o caminho mas, e forças para isso?

Optei por passar pelo metro.

Antes, antes ainda me sentei num dos bancos que havia na avenida, junto a um casal que estava acompanhado pela filha.

Deviam ser britânicos, falavam inglês, ou norte-americanos, talvez australianos.

A prova que a estupidez é como o Universo, no vídeo eu também gritei em inglês e, no entanto, sou português, infinto, infinita, adiante que isto está quase a acabar.

Sentei-me junto a eles.

Sentei-me, a muito custo, empenado.

Sentei-me, eu do lado direito do banco, ele ao centro, a filha do lado esquerdo e a mulher junto à miúda, em pé.

Sentei-me, olhei para ele, sorrimos.

Estava na cara.

Só não sei é como é que ele chegou a casa.

Nem eu.

É que um empeno nunca vem só.

Entrámos no quilómetro dezasseis.

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Correr uma maratona é muito mais difícil do que escrever uma maratona.

Garanto.

Eu sei, porque já corri uma.

Eu sei, porque estou a escrever uma.

Quilómetro a quilómetro.

Há nesta corrida em linhas escritas quem, por direito próprio, mais que não seja porque gosta de ler o que eu escrevo, a sério, há quem goste de ler o que escrevo, dizia, há quem me pergunte:

“Então, não há mais textos?”…

Claro que há mas uma maratona demora tempo, por muito rápido que o escritor seja.

Isto da escrita corrida tem dias, momentos, embora pareça que é quando um homem quiser.

Nada mais errado, isso é o Natal, quando um homem quiser, com a escrita não é bem assim.

A pessoa precisa de inspiração, a pessoa precisa de assunto, a pessoa precisa de ter vontade, a pessoa precisa, imagine, de ter coragem.

Correr uma maratona, escrever uma maratona, exige bastante coragem.

Garanto.

Eu sei, porque já corri uma.

Eu sei, porque estou a escrever uma.

Deixa-se no asfalto pedaços de nós, marcas que trazemos connosco, para sempre, coisas que só nós guardamos e escondemos, até de nós mesmos.

A escrita é um pouco assim, é preciso ter coragem para escrever, coragem para mostrar as nossas marcas, os pedaços que deixámos lá no asfalto, mesmo que escondamos tanto do muito que vivemos.

Há tanto de vida na escrita quanto o há na corrida.

Dito isto, penso que já percebeu que o acto de escrever é, por vezes, penoso, para mim.

É mesmo. 

Às vezes falta-me a coragem, outras a bateria do computador.

Se calhar os escritores a sério dizem o mesmo.

Eu não passo de um simples Técnico Instalador de Palavras.

Há algum sofrimento misturado com algum prazer, alguma entrega misturada com alguma indecência. É indecente revelarmos fragmentos de nós. É sempre indecente e corajoso.

Mas, quando coloco um ponto final sinto o mesmo que quando corto uma meta;

sou eu, apenas eu naquilo que me constrói, apenas eu naquilo que me faz sentir ansiedade e inquietação.

A vida, a corrida, a escrita.

Um triângulo que só consegue ter as pontas ligadas se transpirar alma, como eu qie transpiro muito quando corro, muito menos quando escrevo. São formas diferentes de sofrer e de sorrir.

Contrasta um tudo nada com a ideia que temos dos alemães. Preconceitos.

São conhecidos pelo pela frieza.

Ideias pré-feitas.

Percebi em Berlim que, neste cenário de ideias já formadas, os alemães têm uma adoração, diria, colectiva à organização.

Tudo funciona.

Mas, tudo funciona à velocidade deles, à sua maneira, dentro da sua vontade.

Funciona, de forma organizada.

Ainda que pela frente tenham apressados portugueses, mais criativos, é certo, mas muito, muito mais desorganizados.

Ali, em Berlim,  a fama dos alemães é levada à letra;

Por exemplo, levantar o kit, com o dorsal, o chip (que controla o tempo da corrida), e mais uns autocolantes é feito em tempo recorde. Não se levanta mais nada, a não ser que se pague.

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Nada que me espante.

É sempre assim, nas corridas por onde tenho passado e já lhes perdi a conta mas, em Berlim, estamos a falar de 43 mil almas. Cenário perfeito para o caos.

Senão, repare neste video que fiz, quando me dirigi à feira, no antigo aeroporto, para ficar definitivamente com os dois pés na 45ª Maratona de Berlim.

Estávamos na véspera da coisa e eu não sabia bem se estava nervoso, ansioso, sei que estava estupidamente feliz.

 

 

 

Parece fácil.

Parecem formigas.

Nunca vi tanta gente numa só corrida, no caso, na véspera da corrida.

E, tudo fluiu, sem stress, sem tensão, tudo envolvido num ambiente feliz, tudo envolvido numa única razão, pareciamos pastores de uma daquelas religiões que eu não respeito. Respeito quase nenhuma. Diria que nenhuma, mesmo, embora não lhes falte ao respeito.

Correr.

Vivi dias muito felizes, em Berlim.

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Dias que são, infelizmente, irrepetíveis, porque uma história bonita só se escreve uma vez, mesmo que o escritor a divida em 42 quilómetros, mais 195 metros.

No fim desta maratona vai perceber porque é que, sempre que escrevo, faço questão de sublinhar os 195 metros finais.

Até lá, tem duas opções, ou deixa de me ler, ou corre comigo até ao fim e, no fim, vai entender.

São apenas alguns metros.

São metros inesquecíveis.

Vai ver que é fantástica a sensação de cortarmos a meta juntos.

A organização dos alemães sentiu-se nesse sábado, quando fomos levantar os kits à feira, sentiu-se durante a corrida, nesse domingo, onde os postos de abastecimento estavam bem distribuídos, cheios de opções, fiquei com a sensação que estava tudo tão detalhadamente calculado que a ideia deles era que a experiência fosse em tudo positiva.

E, quase que foi.

Se reparar, até agora, ainda não corri um único quilómetro de texto com uma única ideia negativa.

Mas, ela vai chegar, muito em breve, que isto de correr uma maratona não é um mar de rosas.

Muito menos escrever 42,195 quilómetros.

Peço-lhe paciência, é que ainda nem vamos a meio da corrida e eu já vou com algum cansaço.

Aina nem cheguei à meia-maratona, imagine.

Prometo não desistir, porque nunca desisti de nada.

Prometo sofrer, porque isto do prazer envolve sofrimento.

É uma cena sado-maso, a sério, ele há gente para tudo!

Se sentir falta de me ler imagine que eu volto rápido, estou só a apertar os atacadores, para continuar a corrida, até ao fim.

Entrámos no quilómetro quinze.

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Correr uma maratona, demore o tempo que demorar, acaba sempre por ser uma história de sucesso e de realização pessoal.

Fama, para uns, glória, para todos.

É assim, para aquele que corre em quase seis horas, é assim, para aquele que corre em pouco mais de duas horas e bate todos os recordes.

Cada qual, ao seu ritmo, ao ritmo do seu sofrimento e alegria, conta a sua história, atinge o momento porque tanto esperou e lutou.

Chama-se a isso su-pe-ra-ção!

Quando acabei a minha prova, cinco horas e onze minutos depois, recebi muitos telefonemas e mensagens.

Havia muitas pessoas, em Portugal, muitas mais do que eu imaginava, a seguirem através da app oficial a minha corrida.

Por isso, quando terminei havia muitos amigos e familiares a quererem saber das novidades.

Vi-me obrigado a não olhar para o telemóvel, para conseguir gerir o meu cansaço mental e físico e aquele stress que é o telemóvel sempre a vibrar.

Curiosamente, pela primeira vez em nove meses, acho até que, pela primeira vez desde que corro, corri sem usar o teleóvel (uso-o apenas para ouvir música). Até nisso Berlim foi diferente.

Pois bem, naquela hora, após ter cortado a meta eu apenas queria reencontrar-me, nada mais.

Obriguei-me, então, de novo, a pensar que não tinha telemóvel.

Mas, houve algumas mensagens às quais tive que responder, pessoas que me amam, verdadeira e incondicionalmente, e que estavam preocupadas, expectantes, para saber como é que eu estava. A essas respondi. É fácil perceber quem são.

Abri, no entanto, uma excepção, enquanto caminhava sózinho - que é como quem diz, porque o que não faltava era gente por ali -, pelas ruas de Berlim, à procura não sei bem de quê!

Em inglês, em uma dessas mensagens, perguntava-me o Arturo Torres (um mexicano a viver nos EUA), que eu tinha conhecido dias antes no avião a caminho de Berlim, como é que tinha corrido a minha primeira maratona.

Ele já levava mais de trinta feitas.

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Respondi-lhe o mesmo que respondi a todos, "por um lado correu bem, porque cheguei ao fim, mas isso, eu iria chegar sempre, por outro, correu mal, porque demorei mais 41 minutos do que era suposto".

A maratona de Berlim desperta fascínio em corredores do mundo inteiro.

É o palco perfeito para a queda de recordes de atletas profissionais e amadores e para estreias de tipos como eu.

Naquele domingo Arturo ia correr uma maratona especial, porque Berlim é sempre especial, mas ele não ia atrás de nenhum recorde, porque quem já correu mais de trinta maratonas já bateu todos os seus recordes.

Arturo fazia anos dali a três dias.

Por isso, Berlim, confidenciou-me no avião, ia ser diferente de tudo.

Para mim também.

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Arturo cortou a meta na maratona de Boston, poucos minutos antes dos atentados.

Contou-me isso no avião, nessa curta conversa deu-me um conselho, "se esta é a tua primeira maratona, esquece o tempo, esquece o ritmo, convence-te apenas que tens que chegar ao fim, e até lá repara em tudo aquilo que está à tua volta, sê feliz, esquece o relógio".

O relógio foi um dos meus grandes problemas, durante toda a corrida, mas esse é um tema para um outro quilómetro, não este.

Berlim tem outro encanto, tem charme, tem história.

Vivem lá três milhões e meio de pessoas de 180 nacionalidades.

É uma cidade que se inventa, a ela própria, todos os dias. Uma cidade que resulta de um passado rico, mas de contrastes. Fama e glória.

Eu preocupei-me com todos esses conselhos, quis observar os contrastes, marcados no chão, ou na arte urbana, quis sentir o passado rico, por vezes triste, por vezes glorioso.

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Mas, o relógio traíu-me, fui incapaz de não olhar para ele durante toda a corrida, mesmo quando já tinha falhado o objectivo das quatro horas e meia.

Foi tudo ao contrário do que aconteceu com o telemóvel, no final.

Ao telemóvel eu desprezei-o, completamente, a não ser quando recebi as tais mensagens e chamadas que tanto me aconchegaram o coração, dos meus pais, do meu irmão, do meu filho, que ficaram em Portugal.

E, a excepção, a mensagem do Arturo, o mexicano, que vive nos Estados Unidos, onde um presidente acéfalo queria construir um muro, provavelmente, porque não sabe nada sobre a História do mundo.

Não sei se ainda quer construir esse muro, pelo menos nunca mais falou nisso, o abrolho.

Foi a pensar no que me disseram amigos e corredores bem mais experientes (que eu sou o verdadeiro amador) que, enquanto tive discernimento, fui apreciando tudo em redor e fui escutando histórias, fui vivendo a própria história, à conta das dores - nas pernas - porque a História é feita de dor e paixão, fama e glória, sempre a fama e a glória, na base de tudo, é a condição humana.

O quilómetro seis fica na zona do Reichstag, o edifício que alberga o parlamento alemão, onde muita dessa História aconteceu.

É uma das atrações mais fotografadas de Berlim, embora, provoque em mim uma sensação de raiva pura, pois simboliza o pé alemão, no pescoço português, aquando da crise da década de 2000. A mesma crise que, com a cumplicidade do governo de então (constituído por vários "emissários" do FMI, da Goldman Sachs e afins, a quem chamo mercenários) destruiu mulhares de pessoas, de famílias, de sonhos, no meu próprio país.

Raiva, senti.

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Ali, no Reichstag, aconteceu um duro golpe na democracia alemã.

Em Fevereiro de 1933, o plenário foi completamente destruído por um incêndio provocado por um jovem comunista holandês.

Menos de um mês depois de ser empossado como chanceler, Adolph Hitler aproveitou esse facto para solidificara sua negra ditadura.

“Agora não há mais piedade. Quem se colocar no nosso caminho será eliminado”, teria dito ele.

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Eliminou quem se colocou no caminho e quem dele fugiu.

Raiva!

O resto é o que vem nos livros.

Bom, nem em todos, porque nas escolas portuguesas os miúdos não fazem a mínima ideia do que aconteceu em Berlim, antes e depois do "muro".

Somos uma amostra de país, não passamos disso, por isso há "pés" que nos pisam o "pescoço", sempre que quiserem, se tiverem a ajuda dos de cá, muito melhor.

"Pés" que nos pisam o "pescoço", tal como Trump quis fazer com os mexicanos.

Nunca cheguei a falar sobre isso com o Arturo.

Não gosto de melindrar os meus amigos, embora, ao contrário, não sempre seja assim, quando acontece não os elimino, porque, felizmente, não me chamo Adolph, mas afasto-os, muitas das vezes silenciosamente, sem sequer darem conta.

É o meu lado mais negro.

Quando olhei para a mensagem que o Arturo me enviou, depois da corrida, e lhe respondi que tinha corrido bem porque tinha terminado a maratona, mas tinha corrido mal porque não tinha feito as quatro horas e meia, ele respondeu-me assim:

"Chegar ao fim, na primeira maratona que corres é sempre um atingir do objectivo. Não te esqueças do seguinte, eram 43 mil corredores, 3 mil desistiram, nós os dois ficámos do lado de cá. Parabéns, campeão. Um abraço, do Art Torres".

Também por isso eu escrevi, no início deste texto:

Correr uma maratona, demore o tempo que demorar, acaba sempre por ser uma história de sucesso e de realização pessoal.

É que o Arturo já correu mais de trinta maratonas.

Entrámos no quilómetro catorze.

 

 

 

 

 

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