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VOLTO JÁ

por The Cat, em 28.06.15

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Este domingo dificilmente será esquecido.

Isto é histórico.

Levei a família à corrida. Para correr (caminhar).

Que é como quem diz, a Carla, a Maria, o João.

O Rodrigo ficou a descansar porque amanhã começa um torneio de futebol internacional.

Havia pouca gente. Umas 300 pessoas, talvez.

Um terço fez a caminhada de 5 quilómetros, os outros dois terços fizeram a corrida de 10 quilómetros. Fui nesta.

Foi uma corrida diferente de todas, quase um "boot camp" surpreendente.

Dez e meia da manhã.

A Lezíria a olhar-nos seriamente nos olhos.

O sol da manhã - o sol das manhãs de domingo é sempre diferente - reflectia-se na planície e subia de novo.

Parecia um gigantesco ar condicionado que nos enviava calor dos pés à cabeça e da cabeça aos pés.

A charneca da Lezíria é linda. Tem algo de místico dentro dela.

O sol é mais dourado e os touros estavam no pasto.

A Companhia das Lezírias é a maior reserva agrícola de Portugal.

Pertence ao Estado e liga várias fronteiras entre o Ribatejo e o Alentejo.

A ministra da agricultura também foi caminhar.

É bom saber que existe alguém que olha para o melhor que temos e tenta cuidar, mais que não seja mostrar.

E, tanto que ainda há para mostrar, na minha Lezíria.

Desta vez foi a correr.

Corremos 10 quilómetros nos arrozais.

O arroz é um dos produtos de excelência da CL.

O vinho, o cavalo Lusitano, a cortiça, a carne, o azeite, são outros produtos de excelência.

Mas, este texto não é sobre turismo ribatejano. Foi só um apontamento de cultura geral.

Os 10 quilómetros foram corridos, na esmagadora maioria, num terreno que apanhou quase todos de surpresa. A mim não.

Areia.

Como na praia.

" Parece uma meia-maratona", disse-me um dos que por mim passaram. Pelo correr era pro.

A dificuldade da prova foi imensa.

A beleza do percurso atenuou mas as pernas e os pulmões não esqueciam.

Pó, algum pó. Normal.

É por tudo isto que no Ribatejo a tez dos homens é escura, a pele é dura, as pernas esguias e o coração forte.

Na Lezíria os homens são altivos.

Eu treino muitas vezes nestas condições, com muito calor, nestes sítios, ou em sítios parecidos, à mesma hora.

Mas, quem corre, sabe que treinar é uma coisa e estas manhãs de domingo são outra.

E, até eu me enganei nos cálculos.

Parti a um ritmo que não é meu, arranquei a fazer uma média de cinco minutos e dez segundos por cada quilómetro.

Ao segundo quilómetro, já com a boca cheia de pó, tive que tomar a decisão: continuar a um ritmo alto, sabendo que por volta dos cinco quilómetros a coisa ia quebrar, ou abrandar e guardar-me para os 3 últimos.

Assim fiz, tomei a decisão; levava uma média boa, em todos os aspectos, sobretudo, tendo em conta as condições.

Senti que, bem controlado, conseguia fazer a baixo da hora.

Corro sempre os 10 quilómetros entre a hora e uma hora e dez, depende.

Na Corrida do Arroz - solidária, cada corredor doava um quilo de arroz a uma instituição local - senti, a meio, que conseguia baixar da hora.

Em alguns momentos tive que caminhar, para respirar - o ar condicionado gigante continuava a bombar bafo quente - sobretudo para respirar.

As pernas - depois de uma semana inteira a treinar Muay Thai, pela primeira vez na vida e a correr todos os dias, ainda ontem corri à hora da corrida de hoje - estavam bem, bendito relaxante muscular.

Mas, havia ali qualquer coisa que não estava a bater certo.

Como não sou queniano, normalmente, quando eu ainda vou para lá já os potenciais vencedores vêm para cá. Nada de novo.

"É o primeiro?", perguntei a quem, de repente, me apareceu pela frente, em direcção contrária.

"Não..." respondeu-me.

Foi então que pensei: o sol está a torrar-me os miolos.

Enquanto a minha fila corria em direcção a norte, a outra fila corria já em sentido contrário mas lá ao longe, bem longe, havia uma gigante serpente colorida.

Uma terceira fila que corria em uma outra direcção.

Chegada a minha vez de voltar, a pergunta impunha-se: para a esquerda (por onde corria a serpente colorida) ou para a direita (em direcção à Coudelaria, onde ficava a meta)?

Segui pela direita.

Só depois percebi que o tipo que não era o primeiro da corrida se tinha enganado e o resto, foi tudo atrás dele.

Fizeram mais três quilómetros.

No fim estavam fulos e exaustos.

Um corredor enganou toda uma corrida.

A mim não, que eu sou da Lezíria.

E, pronto, lá vem uma história daquelas que parecem inventadas.

Faltavam uns quatro quilómetros para acabar, quando passei por duas senhoras que equipavam de igual.

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A conversa surgiu como sempre: está quase, vamos lá...

E fomos.

Uma das senhoras foi embora.

A outra estava com dificuldades, como eu, dificuldades normais.

O Ribatejo é terra de gente dura que trata do gado e da lavoura. Correr no Ribatejo é diferente, neste Ribatejo é muito diferente.

Voltei a ver imensas pessoas em estado de exaustão, a receber assistência, no final também.

Nós não somos máquinas.

Superar os nossos limites não é colocar a vida no limite, é correr, treinar, sofrer, amar, até ao ponto de paragem.

É perigoso correr assim. Morre-se.

A corrida é vida, porra.

Superar os limites é dar mais um passo quando queres parar.

Não tens que o dar, forçosamente, a correr. Tens que o dar a respirar.

Superar os nossos limites é, antes de tudo, superar a nossa própria inteligência. O resto é inconsciência.

Ela ia em dificuldades, como eu.

Com uma diferença, nas corridas mais longas e duras, é no fim que a minha resistência começa a ajudar-me.

Tinha a certeza que ia terminar mas uma vez mais deixei cair o objectivo.

"Oito quilómetros, 50 minutos e dois segundos..." debitava-me a aplicação.

Era impossível chegar antes da hora.

Ou cumpria o objectivo ou seguia com ela.

Obviamente, não tinha escolha.

"Vamos, tome a minha água, caminhamos e corremos, também me dá jeito", disse-lhe, mentindo nesta última parte. Uma mentira inofensiva.

Tentei incentivar-nos.

Ia dando a contagem a cada 500 metros.

"Falta um, agora está feito, como está?"

"Não está fácil".

O pó já estava entranhado na pele, misturado com o suor, a água já entrava na garganta, por cima da cabeça, nas pernas, quase morna.

"Tenho boas e más notícias. As boas é que estamos a uns 800 metros. As más é que temos uma subida, naquela curva".

Soltámos uma gargalhada.

 "Sabe o que lhe digo, fazemos a curva, dá-me a mão, está a ver a meta lá ao fundo?"

"Vá você..."

"Vamos. Dê-me a mão e vamos acabar isto como deve ser".

Foi a maior inconsciência de toda a minha corrida.

A música fazia-me esticar a passada, gosto de cortar a meta "fresquinho", pelo menos a disfarçar bem.

E, fui puxando por ela, pela mão, enquanto subia e esticava a passada. Ela acompanhava-me.

"Respire, abra só o passo, respire, estamos a chegar!"

Olhava para trás.

As dificuldades eram agora um sorriso queimado pelo sol da planície.

Acho que demos o abraço da praxe, ainda nem a meta tinha sido totalmente ultrapassada. Foi genuíno.

Fiz uma hora e seis.

Tirando a senhora e as necessidades fisiológicas tinha feito uns 59 minutos. Terminei contente, como comecei.

Comecei, por chegar com a Carla, a Maria e o João.

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Só não falei ainda deles porque eles foram por outros caminhos.

O João foi o sétimo nos 5 quilómetros. Sétimo!

Bateu o seu record e foi o sétimo. Há poucos meses nem corria.

Ando a ver se o desencaminho para o Muay Thai.

Chegámos e encontrámos a nossa colega, Rita Rodrigues, o marido, a filha.

Família. Famílias. Corrida. Domingo. Sol.

Antes isso do que ficar com o rabo metido no sofá.

No final, voltámos a estar todos juntos, mais parte da família do Muay Thai - mas isso fica para a noite.

A Rita foi enganada.

Fez parte do grupo que teve que correr mais três quilómetros devido ao engano do senhor que não era o primeiro.

Chegou exausta.

Quem corre entende perfeitamente. Fazes a gestão de todo o teu esforço e capacidades para dez quilómetros, não para treze.

É isso que levas dentro da cabeça, é o teu foco.

Surpresas desagradáveis, às vezes, deixam-nos exaustos.

Correr na Lezíria é duro.

Estávamos todos bem. Felizes.

Esse é o objectivo. Acabar num momento feliz.

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Ainda estive tentado a dar cabo de uma sandes de porco, acabado de assar, mas não gosto de comer logo a seguir à corrida. Nem antes.

Nem sequer conseguia parar de rir.

Cada um de nós usava uma pulseira verde que a organização nos deu, para podermos comer, no final.

Diz a Carla:

- "Vou tirar a pulseira".

Diz a Maria:

-"Mãe, a pulseira é para comer".

Eis quando, a mãe, começa a trincar a pulseira, na tentativa de a mastigar.

-" Para ir comer, mãe, não é para comer".

Sorte a nossa que não conseguimos comer depois de correr.

Afinal, o sol da Lezíria quando nasce é para todos (rir). Não me torra o cérebro, momentaneamente, só a mim (rir de novo).

Voltámos para casa.

Vivemos a uns quatro quilómetros do local da corrida.

Caímos na piscina.

Está na hora de voltar para lá.

Não prometo que eles continuem a correr, o João sei que continua, mas já alguém me disse: " na próxima vou fazer os dez".

E, outro alguém sublinhou: " eu também".

Assim como assim, já convidei a Maria, a minha rainha, para irmos amanhã de manhã treinar Muay Thai.

Acho que a convenci.

Há domingos assim.

Inesquecíveis.

Ah, a piscina, desculpem...

Volto já.

 

 

 

 

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publicado às 17:30


2 comentários

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De André Palma a 16.07.2015 às 05:12

Boas, running cat! Sabes, estive em vários desertos agora (Arizona e Nevada), por aquelas intermináveis auto-estradas americanas e imaginei o que seria correr ali... Nada, mesmo nada, a não ser, quem corre e a paisagem. A paz, a calma e sobretudo os pensamentos que surgem durante a corrida!
Em vez disso, dei uma corridinha em Las Vegas... os outros sítios foram só de passagem.
Mas o imaginar, teve um grande impacto. Um dia irei fazê-lo!
Abraço.
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De The Cat a 19.07.2015 às 23:34

Viva,
a mim falta-me ir a Las vegas gastar uns cobres.
Garantido é que se for a LV vou correr nessas auto-estradas sem fim.
Grande abraço.

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