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IMG_5751.JPG

 

(Foto by the Cat ) 

 

 

Ela apareceu, do nada, de repente, porta dentro, uma luz quente ficou lá atrás, um rasto, o rasto dela, ela, apareceu, passou, passou pelas costas do sofá mais comprido, pelas minhas costas, encostadas. Encostado.

Segui-lhe os movimentos, imóvel, sentado, olhar em frente. Enquanto ela passava.

Imaginei-lhe os momentos, os passos, e senti-a, a ela e  aos movimentos.

Abriu a porta da varanda. Também senti, como um abalo.

A rede que travava os mosquitos, grandes como cobras, ou maus como Drácula, há muito que estava rasgada em um dos lados.

Eles não costumam entrar, raramente o fazem, sabem - eles são uma comunidade dominante, nesta região plana e quente em que me encontro - sabem que se o fizerem serão literalmente esmagados. Alguns não salpicam, mas espalham sangue, os filhos da mãe.

Isto foi ficção, a rede mosquiteira está intacta e, na verdade, os mosquitos são grandes e eu esmago-os sem piedade, quando instalados no meu cuidado corpo.

Abriu a porta da varanda. Cruzou-se uma brisa, cruzaram-se brisas, a sala ficou fresca, a televisão desligada, apenas a luz do candeeiro, branca, e a brisa.

A sala fresca.

Depois, a sala começou a formar-se redonda, uma bola, as paredes redondas, uma esfera, atravessada por uma brisa que desejei que fosse para sempre.

Como nos filmes que retratam a Índia colonial e os seus recantos frescos e tranquilizadores.

Era assim o ambiente e a ambiência.

Do lado de dentro da bola, que era agora a minha sala, ou a minha sala, que era agora uma bola, continuava eu, sentado, e ela, na varanda, e a noite por cima de nós, e a brisa.

Um globo terrestre, cheio de tonalidades brancas e cor de café com leite.

Eu no centro. Sentado. Sossega.

Nada entre o céu e a terra.

Chega, sossega.

E sentei-me a escrever.

Em desassossego.

Sentado. Desassossegado.

Chega, desassossega.

A primeira vez que andei numa nave espacial o que mais me despertou a curiosidade, me prendeu os sentidos, não foi sequer a viagem, a ausência de gravidade, a comida em pílulas, foi a cor da nave espacial.

Prateada. Polida. Reluzente. Foi isso. Não foi avistar a luz das estrelas.

O importante é ficar bem. Ficares bem.

Havia uma pessoa que não esperava por mim. Ainda assim, todos os dias, ainda o sol dormia, eu ia daqui até lá, só para não a ver, só para me permitir pensar que se um dia eu voasse num cisne gigante, cor de rosa, ela havería de aparecer. Nesse momento, cortava a cabeça ao cisne - a paciência tem limites - e saltava lá para baixo.

Ela haveria de esperar.

O cisne levantou-se, abandou as penas, a cabeça, caída em cima da rocha, fez um movimento em "ésse". Ergueu-se. Voltou ao seu lugar de origem.

Voou até mim, junto a mim, enquanto as nuvens nos salpicavam e trespassavam, acompanhando-me na queda-livre, olhando para mim e eu para ele. Uma queda ilusória.

Foi quando saquei do baralho de cartas.

Dei dez a cada um.

Eu, o cisne rosa, já com a cabeça a funcionar, o cão que tinha o focinho e o pescoço cor escura e o camaleão amarelo, momentos depois verde, castanho, cabrão.

Quatro à mesa, dois a dois, pares, kizomba, algodão doce, merdas que fazem mal, sueca, copas, saco o trunfo e lanço para a mesa.

Olhares trocados, gosto de destrunfar a abrir, e o jogo todo na mesa.

A música irrita o camaleão.

Muda de cor.

Protesto: não vale sinais.

O cisne manda-me calar. Está a perder.

Filho da puta, devolvi-lhe a cabeça e agora não lhe chega o ar virtualmente altivo - corto-lhe a cabeça quando quiser -, ainda precisa de me engatar a vaza.

Não faço renúncia. Não sou desse campeonato.

Olho para o cão, Inspiramos. Avançamos. Tropa. Assumir o tal risco.

Chegados a zona do controlo de entradas para a nave espacial, sinto que o meu companheiro está nervoso.

Dou-lhe um livro da Gina e indico-lhe o WC, que fica logo a seguir ao edifício sem paredes.

Passado aquele controlo, a viagem era nossa.

Dali já conseguia avistar a nave espacial, metalizada, não, que se danasse o cão de focinho escuro.

Foi quando alguém exclamou: não há mais trunfos para jogar.

A mesa indignou-se, partiu-se em pedaços, o cão ganiu, o cisne ficou sem cabeça, o camaleão era agora um casulo cor de vinho.

Começou a trovejar.

A porta da varanda estava aberta.

A brisa cantava-me ao ouvido. Havia gavetas abertas.

Cartas espalhadas, com o Às de copas virado para cima.

Cartas escritas com mãos gastas com o tempo. Cartas que falavam segredos que não se liam no remetente.

Havia gavetas fechadas. Nunca as abri.

Tive medo do que lá de dentro saltaria.

Já me basta os dois gatos a jogar ping-pongue e o barulho da bola a bater, e eles que não se calam.

Ao menos que deixe a porta da varanda aberta, a ver se a brisa não se esconde e a noite não se vai.

Prefiro uma fartura, às cores, polvilhada de farinha doce e açúcar mascavado, e a música da festa popular, tocada de forma barulhenta, que irrita os olhos, lá ao fundo do horizonte, denunciada por fogo de artifício, que me entra pelos ouvidos dentro, que me incendeia o coração, como o ácido que sobe e me queima a traqueia.

Posso, mas não quero, dá trabalho.

Por isso, reflicto, de vez em quando.

Prefiro isso, ao risco de um dia não passar o controlo e ficar em terra.

Já andei na nave espacial e gostei.

Dou mais um bafo.

Costumo cheirar oxigénio puro quando estou em grande altitude.

Depois vou acender um charuto e comer um cacho de uvas.

Depois lambo o ecrã do computador, para ficar bem selado, meto na caixa postal, e envio, pelos correios, pela Posta Restante, para uma esplanada, num praia sem areia e sem mar.

Sem previsão de chegada.

Enquanto isso os cartuxos vão queimando.

Já não dei por ela passar de volta, nem ter fechado a porta da varanda.

A brisa parou.

E, no fim de tudo, sem previsão de chegada.

O pior ficou para trás. Deixou-me apenas um traço de luz quente.

Ate que chegue o amanhã, o pior ficou atrás, e no que faço, e no que sou, fico a pensar no daqui nada, venha ele montado num unicórnio, ou a escorregar num arco-íris de apenas três cores, amarelo, verde e laranja.

Um dia de cada vez, porque os anos têm tantos séculos dentro.

Carrego no botão Power. Desligou-se.

O que fiz já passou.

Fica entre nós. Entre o céu e a terra.

 

 

 

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publicado às 23:16



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