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Se calhar, voar é uma acto de liberdade, também.

Eu nunca tinha visto um pato bravo, nunca tinha visto um pato tão bonito. Só nos quadros, nas paredes do "apartamento 6", junto à espingarda do século passado, dos séculos que passaram, pendurada por cima da lareira, abaixo do monumental par de cornos de um qualquer boi. Devia ser um boi importante, para ali figurar. Há bois e bois.

O pato bravo que eu vi era mais bonito que os patos bravos que vivem nas molduras envelhecidas.

É curioso que ao longo de todos estes anos eu nunca abordei o tema da liberdade com o Marco.

O engenheiro Marco é o dono do Monte do Sobral.

Homem íntegro, inteligente, altivo, lavrador, nobre, fidalgo na pose, contador de histórias. Nunca falámos sobre o assunto. Nem eu dei, ao longo dos anos, a relevância que estou a dar hoje.

O Rodrigo e a Maria já são crescidos e já entendem e defendem a sua, a minha, a nossa liberdade. É a última coisa que quero que percam e por eles e por ela lutarei até cair. Exausto, tal como quando corto uma qualquer meta.

Tudo isto dentro da cabeça, enquanto corria desde o Monte a Viana, pela estrada da revolução.

Nós dormimos debaixo do cobertor da liberdade, uma noite apenas, desta vez, dezenas delas sem consciência.

Eu dormi em liberdade, tomei o pequeno almoço em liberdade, eu corri em liberdade.

Em 1973, tinha eu quase cinco anos, ainda não havia liberdade.

Aqueles que nestes dias dizem que "a minha liberdade acaba quando começa a tua" são uns mentirosos. Eu já o senti na pele.

Mentirosos que não respeitam a liberdade, excepção feita à deles.

Que nada fizeram para a merecer e que a usam e deitam fora.

Gente que mente não é gente livre, mesmo que corra.

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 Ameaçar de morte - não havia redes sociais, mas havia ameaças, tantas e tantas concretizadas - podia até ser tolerado, como agora, que vivemos em liberdade. E nada toleramos, apesar de dizermos que toleramos quase tudo.

Dizer que se estava contra a guerra dava passaporte para a prisão e para a tortura.

Em Setembro desse ano, 95 capitães, 39 tenentes e 2 alferes encontraram-se no "apartamento 6" no Monte do Sobral, naquela que foi a noite em que nasceu o MFA, o Movimento das Forças Armadas.

No dia 9 de Setembro de 1973, o MFA nasceu numa reunião plenária (clandestina) ali mesmo. Onde eu estava. Para onde eu fujo há mais de 20 anos. Eu fujo para junto da liberdade. É lá que me sinto bem.

Em 1973, o largo principal de Viana também estava enfeitado com velhos, sentados em bancos corridos, chapéus pretos nas cabeças, cajado nas mãos a servir de apoio aos braços. Quarenta e dois anos depois ainda se sentam no mesmo banco.

Ao Domingo não se trabalhava.

Era o único dia em que não se trabalhava, e não era em todos os casos.

Dei duas voltas à rotunda, eu estava a correr, embora talvez já não se recorde, não para fazer quilómetros, mas para observar, já que estava a ser observado.

Não é normal um tipo cruzar a vila, calções azuis claros, especiais de corrida, camisola amarela, ténis às cores, a correr, num Domingo de manhã, no meio da vermelha Viana de Alentejo.

Observámo-nos em simultâneo, eles e eu. Li-lhes nos rostos esse 9 de Setembro que chegou antes de 25 de Abril. As revoluções alteram a lógica normal.

E, na pele e nas rugas, e nas roupas pretas e nos relógios de bolso, as correntes pendentes. Li-os assim, tão bem, entre quatro ou cinco voltas à rotunda. Sorri quando passei, sorriram à minha passagem.

- Bom dia...

- Bom dia.

Acenámos logo na primeira volta.

Enquanto andava ali às voltas a fazer trabalho sociológico, pesquisa para memória futura, saltou-me para a frente aquela coisa que inquieta quem gosta de escrever, aquela vontade de começar a escrever, logo ali.

Não combina, escrever e correr não combina. É das poucas coisas.

Como nunca tinha abordado o tema da Revolução com o engenheiro Marco, decidi que quando voltasse, caso o encontrasse, ia puxar o assunto.

Sentámo-nos no salão grande, em frente à grande lareira. O salão grande está decorado com motivos de caça, arreios, quadros cheios de lavradores com olhares cruéis e ceifeiras com bigode. Naquela altura as mulheres tinham bigode, juro. Pelo menos nos retratos a preto e branco que estão espalhados pelo salão. Todos tinha caras tristes, mesmo os que sorriam.

Fiquei então a saber que o MFA, que nasceu secretamente nesse ano de 1973 e que era constituído por oficiais descontentes com a guerra e com as carreiras militares, nasceu ali mesmo, onde estávamos sentados.

Eu num sofá individual. O Marco no sofá maior. O Rodrigo ao lado. A Maria apoiada entre o sofá grande e o outro pequeno onde estava a mãe.

Falámos de tudo, não nos via-mos há mais de dois anos, tinhamos dois anos de conversa para colocar em dia.

Falámos também da história da liberdade. O Rodrigo e a Maria escutaram atentamente. Nós também.

O 25 de Abril começou ali, num papel e acabou no coração de Lisboa com chaimites e cravos vermelhos.

Estamos em Abril, cada vez menos Abril.

Em liberdade, cada vez menos em liberdade.

Basta olhar à nossa volta, olhar para dentro de nós próprios.

Liberdade, só quando corremos. Só quando corro.

Quando não corro os chefes roubam-me a liberdade, os horários roubam-me a liberdade, as palmadinhas nas costas roubam-me a liberdade, os amigos roubam-me a liberdade, até os animais que se julgam racionais me a roubam, sobretudo escondidos atrás de um ecrã de um computador. Vá lá sabem escrever mal, mas sabem, valha-me isso.

As regras roubam-me a liberdade, os dias roubam-me a liberdade, a mentira rouba-me a liberdade, os sorrisos cínicos e falsos, como algumas amizades e os afectos, roubam-me a liberdade.

A liberdade não é incondicional e perceber isso é meio caminho andado ou corrido para a defender, custe o que custar.

Há quem a defenda com a própria vida e, defendendo-a estão a oferecê-la ao falsos defensores da liberdade, Charlies de trazer por casa. São danos colaterais do fogo amigo.

Corressem eles e talvez aprendessem algo sobre a vida, sobre a liberdade, agora que estamos em Abril.

Sobre Abril eles apenas sabem que traz águas mil. Nada mais sabem.

Levam-na, mas não a levam por inteiro, que eu não deixo. Era o que mais faltava. A liberdade também é minha e por ela abdico do resto. Está aos olhos de quem quer ver.

Depois da última volta à rotunda, depois de um último olhar às rugas dos que me observavam, sentados à soleira, em bancos corridos, virei na segunda à direita e comecei a subir a rua inclinada.

Uns duzentos metros à frente os sorrisos que me receberam no fim da corrida.

A bica ainda a deitar fumo - deu para alongar e tudo - e a certeza de que ali, ali mesmo, na terra onde nasceu a minha, a tua, a nossa liberdade, eu sou livre.

Para lá, no regresso ao Monte, fui de carro, no banco de trás, à capitalista.

Ai não!

Sou livre, mas não sou estúpido.

 

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publicado às 19:30



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