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THE VOODOO RUNNER

por The Cat, em 02.05.15

MARCO

 

Conheci o Marco no Facebook.

A normal troca de likes, uns comentários e tudo foi dar à corrida.

Há uns meses, no fim dos 15 quilómetros da Lezíria, encontrei o Marco Domingos, a seguir à meta. Fiz-lhe um sinal para esperar. Gosto de receber a minha medalha no fim de cada corrida. Ele esperou.

Tal como em outras situações, o facto de conhecer o Marco através do Facebook não foi impeditivo de ter aquela sensação que já nos conhecia-mos, na verdade.

O Marco estava com um amigo. Deram-me boleia para o centro da cidade, onde tinha o meu carro.

Ficou marcado um novo encontro. Para mais tarde, sem data.

O Marco trabalha no Grupo Pedro Choy. Ele é, por assim dizer, o braço direito do vice-presidente da Federação Mundial de Medicina Oriental.

No fim da nossa corrida ficou combinado ele apresentar-me Pedro Choy.

Esta quinta feira fui até Salvaterra de Magos, no coração do Ribatejo.

Em Salvaterra pratica-se medicina oriental.

A situação acabou por ser caricata. Eu não tinha nada com que me queixar, pensava ir tomar café, apenas, quando dou por mim dentro da sala, no consultório, a ser consultado pelo reputado Pedro Choy.

- "Para lhe ser sincero, antes de mais agradecer a sua disponibilidade, depois, eu pensava que ia-mos tomar um café, mas há sempre queixas".

- "Eu prefiro escutar, enquanto tiro notas".

Que o meu metabolismo era lento, que demorava muito a fazer a digestão, que as análises estavam todas boas menos as do colesterol e do açúcar, que me custava recuperar das corridas, montei uma panóplia de queixas que pensei que Pedro Choy me convidasse para o tal café em vez de continuar com a consulta.

- "Eu corri muito quando era novo, agora apenas pratico karaté".

- "Mas ainda é novo, tem uns 49".

Afinal tinha um pouco mais. Desviei para canto.

Ele, ao fim de quase uma hora de conversa e de anotações, pegou-me nos dois pulsos.

- "Rins, Fígado e Baço, são os pilares do equilíbrio. Há dois grandes bloqueios energéticos que impedem estes orgãos de funcionarem na perfeição e em inter - acção com os outros orgãos".

Incha, Quaresma.

- "Penso que um tratamento prolongado poderá resultar".

O que mais me espantou foi a pergunta seguinte:
- "O Zé Gabriel tem mau feitio, embora não pareça?".

- "Não acredita, até quando acordo, sózinho, mando vir comigo. De manhã sou impossível e, sim, não gosto mas..."

Interrompeu-me.

- "Percebe agora porque é que os portugueses costumam dizer qua alguém tem maus fígados?".

Parece simples.

- "Os desequilíbrios energéticos, ao nível do fígado, provocam irritação latente".

Fiquei a saber que o fígado é o centro do metabolismo. Ele coordena e determina o ritmo e a actividade dos outros orgãos. Elimina as toxinas e resíduos fisícos, mentais e psíquicos.

Ora aí está, o fígado acumula tensões provenientes da raiva e dos aborrecimentos.

- "Vamos equilibrar isso", disse-me ele.

Vem depois o baço.

É um orgão pouco dado a mudanças. Regula o sangue e o pâncreas, regula, sobretudo e este é um dado importante para quem corre, as reservas de glicogénio ( que está depositado no fígado ) através da secreção de insulina.

É importante para a digestão.

- "Vamos equilibrar isso", disse-me ele.

Faltava os rins.

- "Deite a língua de fora. Pois, os rins também precisam de encontrar o seu equilíbrio".

Eu não tinha queixas e afinal tinha que me equilibrar. Que raio!

Os rins são uma central purificadora do sangue e regulam todos os líquidos do corpo.

- "Dr. percebo agora porque é que esta barriga não morre de vez. Sabe que eu estou sempre muito hidratado, mas não posso beber água, se bebo um litro e meio, como as pessoas normais, pareço o boneco da Michelin, com montes de saliências à volta da barriga".

- "Tem que perceber uma coisa, não pode haver termo de comparação. O ser humano é um único indivíduo. O que pode ser metabolismo lento para alguém, pode não ser o seu caso. O seu caso é o seu caso."

Decidimos começar um tratamento de longo prazo, fitoterapia e acupunctura. Seis meses. Uma vez por semana.

O objectivo é equilibrar o organismo, a mente e o corpo. Regenerar.

IMG_3717.JPG

 

Durante uns bons dez minutos tivemos uma troca de argumentos interessante que terminou com uma ordem:

- "Tem que comprar um relógio para controlar as batidas cardíacas".

- "Dr. sempre que faço exames médicos o coração está sempre a cem porcento, dizem que tenho coração de atleta de alta competição porque bate lento".

Sempre tiver problemas de coração, mas problemas clínicos, desses nunca tive. Felizmente.

- "Aquilo é barato. Compra o relógio, programa entre as 130 e as 155 bpm".

- "Dr. 155 bpm é muito para mim."

- "Aposto que não, você deve correr com umas 145 bpm, só o relógio poderá ajudar. Programe o relógio e treine nesse intervalo, vai ver que melhora tudo, queima mais gordura, activa o metabolismo de forma mais fácil, ganha mais resistência e prazer na corrida".

Dito e feito, ainda não corri, depois da consulta, porque entretanto apanhei i uma gripe, que estou a combater a todo o gás. Este sábado, com ou sem gripe, vou correr. É que à conta da consulta tomei uma decisão radical.

Se eu corro há dois anos e meio e não sei qual a frequência cardíaca ideal para mim é sinal que não devo adiar mais.

Assim fiz.

Saí da consulta cheio de artilharia.

AGULHAS

 

- "Seguindo este plano vai ver que vai melhorar na recuperação e nas dores".

Fui aconselhado a manter a vida que tenho levado, correr, comer de três em três horas, o que me apetece, mas, introduzir o almoço e jantar, que eu raramente faço.

- "Não deve ser difícil, faça refeições só de carne e saladas. A carne é a melhor proteína. Coma, encha-se de carne".

Trouxe as minhas próprias agulhas de acupunctura - sou eu que as levo para as sessões para garantir, sob sugestão do médico, que são virgens - e mais três medicamentos de fitoterapia, à base de ervas e plantas.

São 100 gotas em jejum, 100 ao jantar e 100 ao deitar. Trezentas gotas por dia dão saúde e alegria.

Daqui a seis meses estou um estouro de gajo.

Já comecei o tratamento e fui às compras. Já mostro as compras. Uma coisa levou à outra.

Sempre fui muito virado para a medicina tradicional chinesa.

Reconheço na medicina convencional e na tecnologia muito de importante, mas a medicina chinesa é que me convence na maioria das vezes.

Já fiz acupunctura dezenas de vezes. As agulhas nem se sentem, juro, e resulta.

Mas, desta vez vou levar o programa até ao fim. Deixou sempre muita coisa a meio.

No fim terei a recompensa.

As agulhas estimulam a libertação de endorfinas e de ACTH, uma espécie de analgésico e anti-inflamatório, que são produzidos pelo próprio organismo.

A acupunctura é uma especialidade médica, não é efeito placebo.

Por isso a acupunctura entrou já no mundo dos que correm.

A acupunctura resulta também nos distúrbios funcionais, nas patologias dos músculos, tendões e articulações.

Para além de ajudar a eliminar as dores, as aplicações das agulhas são também bem vindas contra entorses, edemas, inchaços e fadiga muscular.

As picadas dispersam a energia acumulada, responsável pela dor, em pontos específicos do corpo.

A acupunctura dedica-se ao trabalho de equilíbrio energético global.

Eu, como qualquer pessoa, procuro o equilíbrio, a todos os níveis, cada vez mais.

Por isso, esta decisão de usar a acupunctura para me ajudar na corrida, na vida.

Saí dali com as gotas de fitoterapia, com seis meses de acupunctura marcados na agenda, com as respectivas agulhas e com a ideia que, a médio prazo, me sentirei imensamente melhor comigo próprio.

Não satisfeito, decidi completar a missão.

Há meses tinha feito um check up geral, na medicina convencional, agora outro, na medicina oriental, faltava comprar uma série de coisas que tenho andado a adiar. Sempre por causa da corrida. As consultas, as compras, a vontade.

Meias de compressão, gel para dar energia, um relógio e um banda para controlar as batidas cardíacas e, como tenho o meu lado gaja, ainda comprei uma t-shirt, uns calções camuflados e dois pares de calças.

Nada disto para correr.

As meias de compressão, afinal, são óptimas para estar em repouso. Estou fã.

COMPRAS

 

Como a Maria ia comigo ainda lhe comprei uns ténis que ela andava a mirar há semanas.

O que me está a irritar - as gotas ainda não começaram a fazer efeito, só ao fim de um mês - é que na quinta feira não corri e esta sexta feira também não.

Estou com uma gripe de "Verão", daquelas lixadas, tratada a alho crú, vitamina C, Griponal e chá de gengibre.

Então não é que foi a única coisa que me esqueci de me queixar ao dr. Choy, que estava com uma gripe sacana!

Mas, não me esqueci de tomar um café - com o respectivo pastel de nata - com o Marco, na Cabana dos Parodiantes de Lisboa, em Salvaterra, depois da consulta. Isso não. Completámos a conversa que tivemos meses antes e deixámos em aberto as muitas que ainda teremos.

A propósito, Pedro Choy vai escrever em breve, aqui no blog, sobre medicina chinesa e corrida, ninguém melhor que o melhor para falar sobre o tema. O Marco disse que sim à primeira. É ele quem aconselha.

As amizades são assim.

Basta afastares-te das pessoas.

Se elas notarem elas voltam, se não, sabes finalmente onde tens e com quem tens que estar.

O Marco Domingos é uma dessas pessoas.

Vivemos em locais e em vidas diferentes. Logo, essa parte do afastamento está...afastada!

Como é que eu podia recusar o café e o pastel de nata?

Aos anos que não entrava na Cabana dos Parodiantes ( os mais novos podem pesquisar no Google ).

Aviso já que este sábado vou correr, com ou sem gripe.

Pareço uma criança, ansiosa, para calçar os ténis amarelos e laranja, estrear o relógio e a banda, experimentar o novo gel de energia e o batido de proteína de leite de soro e fazer-me ao asfalto.

As pernas estão leves e a cabeça só vê quilómetros.

Nem que o diabo me desate os atacadores. Este sábado eu corro!

Eu agora sou um voodoo runner, por causa das agulhas, obviamente.

 

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publicado às 00:18



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