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SEM STRESS ( DIA 11 DA MARATONA)

por The Cat, em 09.02.18

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Hoje falhei o primeiro treino, verdade !

Na segunda feira corri pela primeira vez, em dois anos, sem dores, ao fim de cinco semanas de paragem.

Na terça descansei.

Na quarta voltei a correr, numa inquietude só desfeita no fim da corrida.

Hoje devia fazer treino de pernas, no ginásio, e baldei-me.

Mas, como isto é um caso sério pedi a opinião ao meu treinador, que de forma clara me disse que devia fazer o treino.

Só que o dia já ia longo e já não tinha tempo útil de ir ao ginásio - a pessoa tem que arrumar a casa e assim, quando a dona Cristina fica doente e não nos pode vir ajudar -, dediquei-me ao lar.

Arrumei tudo, limpei tudo, e vim escrever.

Perguntei-lhe, então, ao meu treinador se podia fazer “pernas” no sábado.

Que não, que domingo volto a ter treino de corrida e é melhor não.

Sugeri metermos este treino no plano da próxima semana.

“Sem stress”, respondeu-me.

O José Carlos Santos transmite a calma e a segurança necessárias, para acreditar que a minha ideia louca vai fazer sentido.

Salta-se o treino e não se fala mais nisso.

 

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publicado às 17:16

 

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Passaram quatro semanas, desde que comecei a narrar aqui a minha aventura, que vai durar até Setembro.

Poucas coisas me correm bem na vida, mas esta correu como previsto, pelo menos tem estado a correr.

Quatro semanas depois tive “alta” das pernas.

As contracturas desapareceram todas (resta restos de uma, mas já lhe ganhei carinho), depois do tratamento-choque à base de massagens ( 7 em 4 semanas) e mudança brusca de hábitos alimentares, mais vitaminas e magnésio.

“Primeiro objectivo atingido, as tuas pernas estão prontas”, disse-me o meu treinador, depois de mais uma sessão de massagens.

“Volto a dizer que nunca vi uns gémeos como os teus, não sei como conseguias correr com tantas contracturas. Agora vamos dar mais um passo em frente”.

Foi, provavelmente, a melhor notícia que recebi este ano, que não tem sido um ano nada fácil, mas isso são outras histórias.

Comecei mal o dia, aquela cena da austeridade, o recibo de vencimento sem duodécimos e sem mais um bocado de dinheiro que tanto me custa a ganhar.

Fiquei neura, quando fico neura refugio-me, mas hoje tinha que ir fazer 40 minutos de bicicleta, porque hoje era dia de massagens e o meu treinador queria perceber como é que as pernas iam responder após três semanas sem grande esforço.

Não tinha como não ir.

Pedalei 14 quilómetros, alonguei bem, fiz-me à estrada e não, ainda não me passou a neura, só vejo as caras do Socrates, do Passos e do Costa à frente e esta vontade de lhes fazer maldades ainda me consome.

Mas, diz-me o José Carlos: “tivemos sucesso com as tuas pernas”, e isso alegrou-me.

“Sabes do que tenho saudades?”, perguntei-lhe eu, depois de desabafar com ele sobre a revolta que me invade por causa desta gente que comanda este país, gente que eu não respeito, nem que morra agora, aqui. Lamento.

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O meu treinador ouviu o meu desabafo austero, e foi-me animando, à medida que os seus dedos se cravavam nos meus músculos e me ia dando as boas notícias.

“Tenho saudades, nem que seja de correr só um bocadinho”.

“Não te preocupes, para a semana vamos introduzir a corrida, no treino”.

Foi o que precisava de ouvir, para vir escrever este texto, se não aposto que ia ficar aqui, comigo próprio a chamar nomes a estes filhos de uma enorme meretriz.

O desporto faz parte da minha vida, é a ele que recorro para  aguentar toda esta porcaria, os impostos, o trabalho, a corrupção, as preocupações, esta vida cada vez mais merdosa que nos impõem.

Não corro há quatro semanas, que fique claro.

Nos dias que faltam até ao fim de semana vou continuar a fazer reforço de pernas, core e membros superiores, e até lá vou receber o “mesociclo” que  meu treinador me vai enviar e iremos falar ao telefone para acertar detalhes desta segunda fase, mas para a semana tudo vai mudar, outra vez.

A maratona é ali à frente.

Até lá é lutar, contra mim, contra os fantasmas, contra este sistema abjecto, e acreditar, acreditar em mim, sobretudo e sobreviver.

Acreditar que se eu consigo passar da noite para o dia e fazer-me à vida, porque quero correr a maratona, acreditar que estando focado me abstraio do resto, acreditar que estas elites, um dia, um dia vão meter a mão na consciência.

Eu sei, sou um utópico.

Esta gente só mete a mão nos bolsos, dos outros, sabem lá eles o que é consciência.

Agora só quero que chegue segunda feira, para voltar a correr como se não houvesse amanhã.

Por dores nas pernas já não as há.

Valha-me isso, pelo menos, porque de dores está a minha alma cheia.

Nunca estive tão farto, como agora!

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publicado às 21:49

VOU COMER A SOPA TODA (MARATONA DIA 1)

por The Cat, em 09.01.18

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Há pessoas que ficam para sempre registadas na sebenta da nossa história.

O meu treinador é uma dessas pessoas.

Conheci-o apenas há um dia.

Mas, alguém que treina atletas de alta competição e se disponibiliza para preparar um jornalista para uma maratona, sem pedir nada em troca é alguém que está pelo bem, pela ajuda, pelo amor à corrida.

Conheci o José Carlos da Run Advisor por alturas do Natal, mas ele não me conhecia.

Foi um amigo comum, treinado por ele, quem me o apresentou, estávamos no jantar de natal da ZFortes, a nossa escola de Muay Thai.

O meu amigo, o Zé Duarte, tem 50 anos, despediu-se há semanas do emprego de 25 anos. Era chefe de oficina. O Zé faz ultra-trail, este ano vai fazer o mítico Mont Blanc.

Dizia-me ele que descobriu o José Carlos na internet.

O Zé precisava, como eu, de um especialista que o ajudasse a fazer as coisas bem feitas.

Nessa noite comprometeu-se a meter em contacto comigo o seu treinador, mas não estava totalmente certo que eu conseguisse ser treinado por ele. Não custava tentar. Tentei.

Consegui.

No sábado trocámos mensagens, na segunda feira estávamos frente a frente, pela primeira vez, eu e o meu treinador.

Não é difícil criar empatia com o José Carlos, é reconfortante ouvi-lo falar sobre corrida, sobre treino, sobre nutrição, sobre recuperação.

Depois de fazer uma análise visual aos meus pés e às minhas pernas, depois de um questionário ao qual tive que responder, saímos para uma corrida de cinco quilómetros.

Estamos em testes.

Fizemos 33 minutos, entremeados com meia dúzia de metros de caminhada.

Senti necessidade de chegar a um especialista porque quero preparar a maratona, com pés e cabeça, sem ter que navegar à vista.

Em teoria, em Maio, fazia-me à estrada, adiámos para Junho ou Julho, porque precisamos das próximas quatro semanas para recuperar os estragos que permiti infligir a mim próprio.

Mas, aqueles que me conhecem e que me acompanham sabem que os últimos dois anos têm sido um pesadelo para mim.

Para não cair na rotina de deixar de correr, tenho corrido, diariamente, cheio de dores musculares nas pernas.

Até à semana passada, durou dois anos, nunca tinha decidido ir à oficina.

O José Carlos percebeu imediatamente as minhas dificuldades e os meus condicionalismos físicos.

Os meus gémeos não enganam.

Agora, para além de começar a corrigir algum desalinhamento provocado por uma gravíssima lesão que tive em 2004 ( altura em que quase tiveram que me amputar a perna ), tenho que eliminar estas dores.

O objectivo é a maratona, mas esta é agora a prioridade.

Se não recuperar não consigo aguentar os treinos que estão para vir, e se aguentar, seguramente, não conseguirei acabar a Maratona.

E, isso é ver desabar tudo à frente dos olhos.

"Deves ter uma enorme capacidade de resistência, não sei como conseguiste correr durante dois anos com as pernas nesse estado", disse-me.

Coisa pouca, fibroses e contracturas musculares crónicas.

Resumindo, os músculos enrolam-se uns nos outros, devido a vários factores, e provocam dores enormes.

Tenho umas 3 ou 4 na perna esquerda, a que sofreu o acidente, e umas 4 ou 5 na perna direita, que durante anos tem suportado a cobardia da esquerda, porque entretanto criei um desconforto na planta do pé, fruto da defesa que a própria perna decidiu encetar.

Chamam-lhe verruga plantar. Chamo-lhe prego espetado no pé.

Não tem sido fácil, não me estou a queixar, e sei que o que está para vir será, provável e igualmente duro, mas cada quilómetro da vida é ele próprio duro, e eu gosto da dureza e do desafio, sem o desafio sou outra coisa qualquer.

Alonguei, no final, fizemos massagem profunda, dolorosa e conversámos mais um pouco.

O enigma é perceber porque tenho estas contraturas crónicas e a prioridade, como disse é eliminá-las.

Desconfiamos que a causa está relacionada com a alimentação deficiente.

Espantado, ficou o José Carlos quando me questionou sobre os meus hábitos alimentares.

Ao logo dos anos e das leituras e das corridas foi-me fácil perceber que o regime alimentar de quem pratica exercício é decisivo. Mas, nunca interiorizei que estava obrigado a isso.

“Bebo um iogurte e um café, vou treinar, como um pastel de nata e um café, vou trabalhar…”

“E o jantar?”

“Como uma tosta e um sumo…”

“E, de madrugada, quando chegas a casa?”

“Bebo bebida de arroz e como o que houver, uma broa, por exemplo”.

“Conclusão: não te alimentas!”

Confesso que tive vergonha.

Nos últimos dois anos, para além das dores permanentes que me obrigavam a sofrer mais do que era suposto, nunca consegui, durante esse período melhorar a minha corrida, antes pelo contrário, chegando ao ponto de querer desistir.

“Tens que mudar os hábitos alimentares já hoje, tens que ingerir proteína e hidratos, tens que ir hoje a um nutricionista”.

E, fui.

Conversei com a Mariana Gameiro, que até dá consultas online, e pouco tempo depois de me ter despedido do José Carlos, na Beloura, já estava a comer frango, com feijão e arroz, e um ovo estrelado extra. Repeti a dose ao jantar e hoje, ao almoço, já ataquei peito de frango, com salada e arroz.

Como as análises clínicas que fiz estão boas, tirando o exorbitante colestrol, começo a concluir o que me disse ontem o meu treinador, é da alimentação, que eu não fazia.

O carro não anda se não tiver combustível, é tão simples, e eu sou tão estúpido.

O meu treinador decidiu que nas próximas duas a quatro semanas não há corrida, para recuperar as pernas, apenas trabalho específico de ginásio, regime alimentar cuidado e muitas massagens daquelas que fazer chorar, mas que depois fazem sorrir.

Estou a seguir tudo à risca, de tal forma que nunca antes as pernas me doeram tanto como hoje.

É das massagens.

Quinta feira há mais e há reavaliação destas primeiras horas.

Quase não mexo as pernas, de tão doridas e pesadas, mas já consigo sorrir.

Ora, voltando ao início desta crónica, se alguém (que nem sequer conhecias) te provoca esse momento intensamente mágico que é um sorriso, esse alguém ficará na sebenta da tua história.

Mais do que o sorriso é a mudança que estou a viver;

Estou a lutar por um objectivo, estou dedicado de alma e coração, estou a adaptar a minha vida pessoal e profissional e a sacrificar, em nome desse desafio.

Eu sei que vou correr a Maratona, não que lhe tenha perdido o medo, só que quando me desafio os medos transformam-se em determinação e em coragem.

Se ontem eu queria correr os 40 e dois quilómetros e picos e terminar bem, hoje eu quero correr a Maratona em menos de quatro horas.

E vou conseguir.

Porque as pernas vão parar de me doer e eu já voltei a sorrir.

É assim que tem que ser e assim será.

Ah, e prometo comer a sopa toda.

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publicado às 21:00

CORRIDA A CORES

por The Cat, em 16.05.17

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(Huwaei P10 & Leica)

 

 

Dois dias sem correr é o suficiente para me deixar cheio de comichões, a sentir-me inchar, deixa-me inquieto, ao mesmo tempo sinto as pernas a aliviar.

É uma sensação de bem-estar disfarçada, que eu sei.

Dois dias sem correr é o meu limite.

Vem isto a propósito da foto que acompanha este texto, lá em cima.

 

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publicado às 21:38

AO DOMINGO NÃO SE CORRE

por The Cat, em 09.05.17

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( HUAWEI P10 & LEICA) 

 

Os domingos são dias mágicos, por isso corro quase todos os domingos, como que por magia.

Mas, aos domingos não se corre, porque o céu de domingo não se compadece com coisas mundanas.

O domingo é o dia litúrgico, o mais de todos, o dia da celebração da brisa que nos toca o rosto, do mar de peregrinos que se te atravessam na pista, o louco que te obriga a ser parte da sua própria e solitária loucura.

Como o sagrado e o profano.

Um mar de peregrinos, no teu caminho, que te engole a cada passada, em contra-mão.

Um mar que abres, enquanto corres por ele adentro, com movimentos das mãos, como Moisés, eventualmente, terá feito, quando abriu o Mar Vermelho durante o Êxodo.

Os peregrinos, em contra-mão, afastam-se abrindo caminho pelo centro da corrente.

Deixei-me, continuei, as mãos em movimento, por eles adentro, como se a pista fosse um mar e eu apenas «o mais humilde do que todos os homens que havia sobre a face da terra» .

Aquele momento recordou-me outros momentos. Alterei o trajecto, na volta do caminho, impelido para aquela rua onde brinquei, lá mesmo no fim da volta do caminho, onde tudo também começa.

As minhas corridas são também as minhas peregrinações.

De quando em vez mudo de rumo e deixo-me viajar pelos sítios que me fizeram, e revivo.

É aos domingos que eu faço as minhas peregrinações, porque os domingos são dias litúrgicos, os mais de todos, e essa magia transporta-me sempre para memórias que ainda estão por chegar. Só, eu, comigo, em viagem.

Na volta do fim do caminho, segui para o largo da vila.

Detive-me junto da estátua do médico-santo, que é objecto de romaria anual, há muitos anos, mas isso é lá em cima, no castelo, no cemitério, onde dá consultas do outro mundo, a crentes que não eu.

Nem as flores de plástico vivem para sempre, aprendi há muito tempo.

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( HUAWEI P10 & LEICA)

 

Fui com fé, diferente da fé deles.

Meti-me pela rua da morgue, onde, logo ao início, fica o antigo hospital, agora lar da Misericórdia.

Misericórdia. Faltavam-me mais quatro quilómetros para chegar ao carro e a viagem ia a meio.

O antigo hospital mantém as grades e o portão em ferro, que deixam ver o pátio, a portaria, o edifício castanho.

Não parei, apenas olhei, porque olhava sempre, quando era pequeno.

«O mais humilde do que todos os homens que havia sobre a face da terra» estava agora ali, à minha direita, vi-o através das grades.

Deu para ver.

Inspirei o final de tarde, estava fresco, não estava frio, estava morno, não estava quente, mas ele, ele olhava em frente, em movimentos estudados, lentos.

As pernas, os pés, rodavam, parecia um boneco.

Tinha um sorriso altivamente digno e louco espelhado no rosto.

Dirigiu-me o olhar, sacou de uma muito bem feita continência, como que em câmara lenta, sem qualquer pressa.

Não há pressa aos domingos.

Ao passar pelo portão olhei-o, ele percebeu, mas não desfez a continência.

O muro do hospital velho é baixo e feito com grades largas, não o suficiente para deixar a loucura sair cá para fora, mas o suficiente para permitir uma troca de continências, o acto mais humilde e digno entre dois homens, mágico, como os domingos.

Ao meu segundo virar de cabeça encontrámos os olhares.

Não o escutei, a música não me o permitiu, mas consegui ver claramente que não tinha desfeito a continência, nem mesmo após um direita-volver, que o colocou em linha de fogo comigo.

Li-lhe os trejeitos e os lábios, ao longe. enquanto passava, como se olhasse uma fita do tempo.

Obriguei-me a fazer-lhe continência, enquanto continuava a correr, agora muito lentamente. E

ra eu também uma personagem daquele momento.

“Estava a ver que não me prestava continência”, pareceu-me ter dito, de lá do meio do pátio, atrás das grades que guardam a loucura, que apenas a deixam sentir a brisa do final de tarde, nas tardes de domingo, as únicas que valem a pena.

Levei-o comigo até ao fim da corrida, lá no meu jardim mágico.

 

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( HUAWEI P10 & LEICA)

 

 

O rio não mente. A corrente leva-nos, se quisermos ir.

Peguei na passada de uma miúda gira, deve ser, não consegui passá-la, só seguir-lhe a passada, através daquele perfume de creme Nívea, feito feitiço.

Era morena, apareceu do nada, elegante.

Não a consegui acompanhar, só lhe vi o rosto, já vinha ela de regresso, em sentido contrário.

Era bonita.

Nem tive tempo para mais nada senão ver-lhe o rosto.

Os rostos das pessoas também são diferentes, aos domingos.

Ele usava um boné, tinha uma camisa branca, de manga curta, umas calças bejes, sapatos castanhos, e estava ali, no meio do pátio.

Ela passou e ele prestou-lhe continência, tenho a certeza.

Numa destas corridas vou voltar a ligar a máquina do tempo, para confirmar.

Mas, tenho quase a certeza.

 

 

 

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publicado às 15:09

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O blog do Gato que Corre vai oferecer 10 - leu bem - 10 vouchers para a "Évora Running Wonders - EDP Distribuição Meia Maratona Corrida Monumental".

É dia 27, domingo.

No ano passado, na primeira edição, cerca de 6.500 participantes, de vários pontos do país e do mundo, marcaram presença na novel etapa de Évora do Running Wonders - EDP Distribuição Meia Maratona Corrida Monumental.

Em breve diremos como pode ter acesso aos vouchers para participar na edição deste ano.

Basta seguir o blog - e, por entre a saga de Alice, ir descobrindo como ganhar o seu voucher.

Correr na monumental e bela Évora, património mundial, Alentejo do nosso encanto, é uma experiência que qualquer runner quer viver.

O "The Cat Run" vai abrir a dez pessoas a porta desta experiência.

Meia maratona, dez e cinco quilómetros. É estar atento(a) e escolher.

Espreite o vídeo e diga lá que não vale a pena...

 

"O Gato"

 

 

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publicado às 10:15

ALICE A BRUXA

por The Cat, em 05.11.16

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Dia 35

04/11/2016

 

Sobre festas...

 

Doçura ou travessura?

Nada contra.

Não tenho nada contra o Halloween, bem pelo contrário, não tenho nada contra as formas que as pessoas encontram para serem felizes.

Embora, escrito desta forma, com esta foto a acompanhar, possa, admito soar a ironia, mas não o é. Por certo.

Ao contrário da maioria das pessoas eu não tenho sempre opinião sobre tudo e não me manifesto. Se o Halloween não tem raízes portuguesas, mas os portugueses gostam de comemorar, porque não?

Não creio que o Pai Natal (a melhor activação de marca da história) tenha qualquer ligação a Portugal e, no entanto, até eu adoro o Natal, embora agora beba menos Coca-Cola, por causa da beleza exterior ao nível do abdómen.

Não veio mal ao mundo, a pasta de dentes cheirava bem e saiu com facilidade, notou-se algum cuidado na preparação do ataque, efectuado por criaturas de tamanho pequeno, mas imaginação larga, basta observar as teias penduradas, revela preparação, o que é digno de registo.

Surpreendido, mas divertido.

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Ao sair do elevador, enquanto a luz acendia (já informei várias vezes que o sensor deve estar avariado, se a gata me foge pela porta nem sequer a vejo), fiquei baralhado.

Olhei para a minha porta e achei algo estranho, olhei para a porta do vizinho – a luz acendeu, entretanto, e estava menos ornamentada, a porta do vizinho, faz sentido, o vizinho já lá não vive há uns dois anos.

Quando volto a olhar, para me situar, para ter a certeza que estava no 2º andar, deparo-me com as travessuras. Isto foi uma travessura, porque não houve doçuras (agendas desencontradas), no contexto do Halloween, que eu não festejo, aliás, festejo muito, mas muito poucas coisas.

Tive pena, por um lado, isto porque desde há um mês, que me confronto com novas travessuras, todos os dias, hoje, por exemplo.

Por outro lado, tive pena, porque não ofereci as doçuras, como faço desde há quase um mês, depois das travessuras.

Alice estava em casa, mas não está autorizada a abrir a porta a ninguém.

Neste momento há até uma estranha calma; não faço ideia onde estará Alice.

Em letra grossa, isto já é tudo dela.

Mas, calma, a travessura de andar em cima da mesa da cozinha, depois do meu almoço, enquanto arrumo a louça, foi uma vez sem exemplo. Isto é uma travessura.

A bom rigor, o Halloween é quando uma gata quiser.

Com as travessuras de Alice eu posso bem.

As doçuras, adoro.

Agora, agora, limpar a zona onde Alice come e esgravata com as patas, umas sei lá, seis, sete vezes por dia, já não me parece uma travessura.

Parece-me mais o próprio Halloween.

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O pesadelo materializado.

Hoje já recolhi milhões de pequenas pedras que saltam, qual explosão atómica, impulsionadas pelas patas de Alice.

Ainda agora, há que esteja neste preciso momento a aspirar a cozinha.

Aposto que daqui a uns dez minutos vai ter que se atirar moeda ao ar para ver quem vai limpar outra vez.

Não, não falo da porta, que isso foi há uns dias, falo do canto de Alice.

A minha esperança é que o Halloween se repita para a semana, quando estiver gente em casa.

Não se nega uma doçura a ninguém, muito menos a uma (ou várias) criança(s).

 

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publicado às 20:55

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Sem tirar nem pôr.

O blog Desconcertezas morreu. O gato matou-o. E matou-o com traços de sadismo.

Primeiro ele entrou-lhe pelas definições dentro. Depois selecionou tudo. Não satisfeito e já com o Desconcertezas a definhar, o gato ( The Cat Run para os amigos e amigas) seleccionou-o todo, transformou-o em um ficheiro e, aqui é de arrepiar, exportou-o. Para aqui, para este blog.

Um crime que compensou.

 

A partir de hoje todos os textos que viviam no blog Desconcertezas moram agora aqui no The Cat Run. Todos.

 

O dono deste blog, que adora escrever, que adora correr, já foi ao funeral do outro blog. Foi uma festa. Toda a gente divertida.

 

Por isso é possível que passe a encontrar um ou outro texto que não sobre corrida. Ninguém é perfeito. Nem o gato.

Vai gostar, se tudo correr bem.

Lá está, correr, corrida, vai dar tudo à mesma meta.

Escusa de googlar desconcertezas.blogs.sapo.pt porque ele morreu, o gato matou-o. Isso é não acreditar no que eu escrevo.

Paz à sua alma.

Viva o gato!

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publicado às 01:33

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Esta é a história de um tipo que já foi tantas coisas e muitas delas ao mesmo tempo.

Alguma vez imaginava ele que um dia ia correr alguns quilómetros, quanto mais uma meia maratona ou coisa parecida. Jamais!

 

Esta é a história de um tipo que já foi mais novo, como as pessoas, regra geral, de um tipo que quando decide olhar para trás percebe que já não é a mesma pessoa, o mesmo tipo.

Sim, acontece com as pessoas, regra geral, eu sei, mas é assim, vá-se lá dizer o contrário.

Ele começou a correr com regularidade há uns dois anos, por aí.

 

Entrou nos quarenta com excedente primário em termos de camada adiposa, leia-se alguma excessiva gordura em redor de todo o seu corpo, excepto a cabeça. Vá, a zona do pescoço e as bochechas. Fumava, claro, após longas paragens, mas fumava.

Podia dedicar-se à comercialização de pneus humanos, um nicho de negócio que lhe foi aconselhado em resultado dos vários protótipos que exibia com alguma insatisfação disfarçada.

 

Este tipo era um gato, quando era novo, como a foto comprova, pena os óculos inclinados, mas tudo bem, um gato que já tinha entrado nos quarenta; melhor não mostrar foto.

 

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 Um gato que um dia deixou crescer a barba e deixou de ser gato, talvez urso, assim cresça a barba.

Que, de um dia para o outro, passados muitos dias, deixou de ser urso, ou gato e passou a ser outro tipo, que não ele. Deu-se conta disso ainda a tempo.

A bem do rigor ele continua a ser gato, já teve três vidas neste texto, faltam quatro para as sete, vidas, bem entendido.

Passou de gato a urso e tornou-se corredor, runner que é mais elegante. Começou a correr.

 

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Uma espécie de estagiário - ele só corre há dois anos - que se apaixonou perdidamente. As paixões também se vivem a correr.

Outras transformam-se em amor. Vício. Na verdade há paixões que assumem contornos de loucura. Se assim não fosse correr era outra coisa qualquer.

Há dias encontrei-o:

(Conversa forçada e imaginária)

 

- Estás um tipo diferente.

- Pois estou.

- É da corrida?

 

A pausa foi quase uma branca.

 

- Já pediste os cafés?

- Sim e um pastel de nata e uma miniatura.

- Boa!

Não sei se é da corrida. Se a perspectiva é emparelhar a corrida com a forma de viver, como se costuma dizer: com a forma de estar - não evitou o sorriso felino, como de um qualquer gato que se preze - se calhar é da corrida, ou da vida, ou não será uma a mesma e outra coisa?

- Bem, vamos ver...

- Vamos ver nada, vamos correr, correr, pode ser?

 

Deixei-o sem resposta. Primeiro era um gato, depois deixou crescer a barba e no fim fez-se runner.

 Levantou-se, de repente, como quem "não quer a coisa" e foi correr. Não saiu a correr, foi correr.

Paguei os cafés, o pastel de nata e a miniatura e fiquei a vê-lo afastar-se, passada larga como a esperança que carrega nos pés.

Daqui nada já conto o resto da história. Isto não acaba assim. Ele volta. Eu sei que volta.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 00:48

UMA ESTRANHA MANHÃ DE DOMINGO

por The Cat, em 24.03.15

 

 

Uma meia maratona não se corre em 2.000 caracteres. São 21 quilómetros de muitas histórias. Dramáticas, felizes, sofridas, superadas, conquistadas, vividas, milhares de passadas e de olhares que não cabem na matemática aconselhada da escrita para blogues.

 

Vive-se intensamente durante uma meia maratona, demore e dure o tempo que demorar e durar.

 

Correr uma meia maratona é uma prova de carácter, sobretudo. 

Do nosso, dos outros.

 

Lembro-me de alguém, que correndo em sentido contrário já a caminho da meta levava estendido o braço direito. Na mão carrega uma garrafa de água. Braço estendido para quem a quiser agarrar. Agarrei-a. Estava meio cheia. Não estava meio vazia. Molhei a cara e segui.

 

Caso não tenha reparado, o que disse em cima é basicamente o seguinte:

Não me vou poupar nos caracteres. Tentarei que a escrita seja corrida, como se pretende. Um risco assumido. Um texto um pouco mais longo, como uma meia maratona. Chegar ao fim, sempre esse o desafio, lá bem no fundo.

Correr durante mais de 21 quilómetros a meio de uma manhã de domingo é um risco. Arrisquemos.

 

Esta foi a minha quinta meia maratona. Corri três, sozinho, enquanto treinava. Três em três meses seguidos. Em outubro de 2014 corri a  primeira meia maratona oficial. A da Ponte Vasco da Gama - para não fazer publicidade.

 

Preparei-me com a ajuda do Google e de alguns amigos que correm há muito mais tempo do que eu. Na minha estreia baixei 52 minutos em relação à minha primeira meia maratona corrida sozinho, enquanto treinava, oito meses depois. Check. Correu tudo bem, até eu.

 

Estava com receio de correr a minha segunda meia maratona oficial, a da ponte 25 de Abril. Não me preparei, estou a preparar-me para outra, mas sabia que tinha quilómetros suficientes nas pernas para a fazer. Se terminava ou não isso é outra questão.

 

Pela primeira vez fiquei na cabeça da corrida.

 No final fiquei nos 10.000 primeiros, entre uns 30 ou 40 mil participantes, mas nos últimos 1000 da classificação da meia maratona. Nem por isso deixei de publicar fotografias nas redes sociais (rir).

 

Até pode parecer desculpa, mas não é.

O objectivo - tem que haver sempre um objectivo quando corremos, um qualquer - era fazer menos de duas horas e meia. É um bom tempo para mim. É nesta janela de tempo e de distâncias longas que me realizo. O tempo. Gosto de sonhar acordado. É isso que a corrida me canta ao ouvido.

 

A Rita ia fazer uma reportagem enquanto corria. Criou um "movimento" nas redes sociais, o hastag runningTVI24. Encontrei-a cedo, estava com o António Ferrari que eu não via há long time ago. Entrámos no autocarro. Só havia dois lugares e éramos três. Fui no que estava atrás. Perdi-os. Nunca mais os vi.

 

Já na partida, depois de ter saído do autocarro em andamento, antes do destino, devido a necessidades comumente chamadas fisiológicas, ali,  no meio da multidão, ao meu lado, o Luis Menezes, o meu homem da acupunctura, amigo, mais um amigo que não via há meses.

Bastou-me ir ao wc pela terceira vez naquela manhã para os perder, também a eles. Eu perco os meus amigos nas corridas. Antes, durante e depois. Sou um bicho do mato.

 

É quando dou de caras com o Rui Baioneta. Cigarro na mão, equipado a rigor, saca da selfie da ordem e siga a corrida que ainda sequer não começou. Estava quase. 

 

Olho, pescoço esticado para ver bem e vejo o Mo Farah a alongar. O Mo Farah era a estrela.

 

Já ele ia lá em baixo, em Alcântara, quando em zigues e zagues serpenteio os que caminhavam, os que corriam, os que tiravam fotografias, preocupado em não cair.

A poucos metros de mim, já ao quilómetro dois, um senhor com idade avançada. Uns oitenta, não lhe perguntei.

Nas corridas eu colo-me sempre aos mais velhos. Gosto do ritmo que levam. Ajudam-me, porque eu tenho dificuldades em manter um ritmo, uma cadência. Se calhar tenho oitenta ou mais anos.

 

Passámos o quilómetro quatro, à saída da ponte.

  Olhou-me e disse:

- Faça a sua corrida.

Olhei-o e respondi-lhe:

- A minha corrida vai ser consigo. O seu ritmo é bom. Não se canse a falar. Vamos juntos.

E assim foi.

 

De dois em dois quilómetros perguntava-lhe se estava bem, lembro-me de perguntar se costumava correr, envergonhado com a pergunta que fiz. Que sim, que corria, respondeu-me com alguma sofreguidão.

 

Mais à frente, num dos abastecimentos, foi buscar água e fez-me sinal se queria. Acenei-lhe que não e voltámos a juntar as passadas.

 

Começava a crescer uma estranha preocupação. Tão estranha como a corrida estava a ser. Como foi, depois. Inesquecível, está meia maratona.

 

Pergunto-lhe o nome:

- Victor.

- Eu sou o Quaresma, da TVI.

Olhou-me de novo, um olhar cansado mas feliz por correr.

 

- Ai é...

- No fim tiramos uma foto, pode ser?

- Pode sim senhor.

    

E sorriu, sem parar. Eu também. E seguimos.

Tinha acabado de conhecer mais um amigo ainda que temporário. Uma amizade que durou 21 quilómetros, que vai durar para sempre no código genético dos meus ténis de correr. Eles tiveram uma estreia como nunca imaginaram.

 

Esta meia maratona foi a corrida que mais me fez sentir feliz mas, foi a corrida mais estranha da minha vida. Estava um calor escondido.

 

 

 

Fomos vendo muita gente caída, a ser assistida, em estado de exaustão, ao longo da corrida.

 

Estranha preocupação.

 

- Senhor Victor vai bem?

- Vou.

     

A resposta saiu em esforço.

 

- Olhe, tenho aqui gel, faz bem, dá energia, quer um?

Olhou-me de novo.

Senti-lhe a interrogação do olhar, gel?

 

- Confie em mim, experimente, é líquido, bebe-se bem.

    

Passei-lhe o gel para a mão. Convenci-o e a minha estranha preocupação ficou suspensa durante mais alguns quilómetros. Passou-me o gel de novo, intacto. Falhei, pensei.

 

- Abra aí, não consigo ver bem.

 

À saída de Alcântara torci o pé esquerdo, no limite da lesão. Não sei se foi sorte se foram os ténis. Ele nem reparou. Eu acho que foi as duas coisas.

 

Agora, a horas de distância - sempre a distância - depois de ler, de ver o que foi esta dramática meia maratona, percebo que me preocupei muito pouco comigo e muito com um estranho que conheci ao quilómetro dois e perdi ao quilómetro 18, reencontrando-o apenas nas redes sociais. Nunca mais saberei nada dele.

o faltam fotos desta estranha meia maratona. Registos. Não faltam.

 

 

 

Correr 21 quilómetros é transportar na cabeça a clareza de cada respiração, carregar nas pernas cada passada no asfalto e é tudo o resto.

 

Em alguns momentos achei que o senhor Victor me ia mandar acelerar, para se ver livre de mim. O meu questionário era agora de quilómetro em quilómetro, à medida que ele ia abrandando a passada, quase a passo, eu dava comigo mais à frente, quase parando pra esperar por ele. Passei-lhe a bebida que levava comigo.

 

Beba, hidrata.

    

Levei comigo muito gel, l-carnitina, pastilhas efervescentes.

O calor escondido e traiçoeiro não se me chegou.

Os seis minutos e cinquenta de ritmo por cada quilómetro davam-me a certeza que ia terminar. 

Os meus ténis, estreados na corrida, contra a opinião de alguns amigos mais experientes, fizeram o resto. São uns aviões. Tem gel e tudo. E brilham.

 

 

 

Por volta dos 18 quilómetros:

 

- Senhor Victor já só faltam três, vamos acabar juntos.

     

Olhou-me de baixo para cima, ele é mais baixo do que eu.

 

- Vamos sim senhor.

- Siga o senhor que vou ali ao wc e já o apanho.

 

Nesta altura ele já sabia o que a casa gastava. Nunca fui tantas vezes ao wc na minha vida como nesta estranha meia maratona. Fui mesmo muitas, credo!

 

Recordo que perco sempre os amigos antes, durante e depois das corridas. Não faço de propósito. 

Apenas nos perdemos pela mesma paixão.

 

Ainda fiz uns metros a passo, olhando em redor.

Tinha-o perdido a três quilómetros do fim. A preocupação deu lugar a uma momentânea tristeza. 

Falhei o objectivo. Não cortámos a meta juntos, de mãos dadas no ar. Perdi-o antes de cortar a linha de chegada.

 

 

Era hora de raciocinar.

Fiz 18 quilómetros com o senhor Victor, por opção, porque achei que me ia carregar nos primeiros quilómetros, a um ritmo baixo - tenho  a mania de cometer o erro de acelerar sempre no início - e depois eu ia-me embora. Não fui. Perdi-o.

 

Decidi tentar recuperar alguns, poucos, minutos ao meu tempo.

 

É quando, de repente, ouço gritar o meu nome.

 

Conheci a Joana Malcata há dois anos.

Levou-me atrás dela uns oito quilómetros, no meio do campo e da planície do Ribatejo, nos 15 quilômetros das Lezírias e a dois da meta ia desistir, quando passei por ela.

Carreguei-a. Ficámos amigos, eu ela e o Nuno, o marido. Nunca mais nos vimos mas as redes sociais aproximaram-nos. As corridas também.

 

A Joana ainda não tinha virado no sentido da meta. Uma grade separava-nos. Tudo em segundos. Gritei-lhe: boa corrida.

Estico o pescoço e uns metros à frente o senhor Victor. Estranha meia maratona. Foi a última vez que o vi. Joana, gritei:

 

- Esse senhor aí ao pé de ti carregou-me até aqui, por favor, leva-o até ao fim, um beijo grande, vai, coragem. Acho que foi a primeira meia maratona da Joana. Sei que a acabou.

 

Faltava menos de dois quilómetros e meio para o fim. Acelerei. Fiz a melhor média, como se isso fosse o mais importante. Nunca foi. Já não o era. Há muito tempo e muitos quilómetros lá atrás.

A Ana Morais, que conheci através da Joana, nas corridas, tirou fotos sem fim, as que tem estado a ver ao longo do longo texto.

 

Uma meia maratona diz-se de forma fácil mas é longa, tão longa quanto a vida permite. Mais longa ainda do que este texto.

 

Morreu um homem mais novo do que eu. Um outro entrou na recta a desfalecer. Não a cortou.

Um amigo, que muito estimo, cortou-a, inconsciente, cambaleante. Literalmente.

Caiu prostrado a seguir à linha de chegada.

A paixão é a mesma e só a entende e à beleza da sua violência quem escalda os pés no alcatrão e se faz mover a coragem e ganas.

 

Vi muita, muita gente a ser assistida, as ambulâncias acompanharam-nos quase como se também elas estivessem a correr, estranha corrida.

 

E, no fim, mesmo no fim, na linha da meta, tal como na partida os amigos me  afagaram a alma, sem saberem, na chegada, ao olhar para cima vejo o Ricardo Martins Pereira e a sua Pipoca Mais Doce. Olhavam para baixo, sorridentes. Braços encostados ao varão observando a chegada. As chegadas. Também a minha. Que surpresa. A última. Não creio.

 

Dobro-me. Coloco as mãos nos joelhos. Inclino a cabeça para cima. Cruzo olhares com os deles.

 

- Quanto fizeste?

  

O Ricardo respondeu-me. Percebi que fez um excelente tempo, mas as pernas não me deixaram memorizar. Pensei em esperar pela Joana e pelo senhor Victor, mas não podia ficar ali na zona meta.

 

Trocámos mais umas palavras cá de baixo lá para cima e segui para receber a minha medalha. É linda.

 

Mas a história não acaba aqui. A meia maratona é que chegou ao fim.

 

No autocarro, a caminho do hotel de onde partimos para a corrida, mais um amigo que não via há anos, a não ser nas redes sociais e às vezes na televisão.

 

 

 

O Miguel Guerreiro é um daqueles da velha guarda. O avião que viu a ser lançado na foto é o dorsal dele. Sempre foi assim descontraído, desprendido. Inteligente.

 

Nele, no avião que está na foto voam todas as histórias que esta meia maratona me colocou à frente, me contou.

Ainda não contei uma. Falta esta.

 

O Faísca é meu colega na televisão.

Pesava cento e muitos quilos, muitos mesmo. O Faísca começou a caminhar, todos os dias, há uns dois meses. O Faísca já caminhou 25 quilómetros. Foi parar ao hospital. 

Saiu, foi comer sushi e voltou ao asfalto. 

O Faísca é um exemplo. 

Vai reduzir o estômago, está a perder peso, por isso, por isso caminha todos os dias sem excepção. o Faísca já está mais magro e cada vez mais feliz.

 

Faltava menos de um quilómetro para a meta. Olho para a berma, para o passeio. Gritei:

 

- Faíscaaaaaaaaa (assim mesmo).

    

Não queria acreditar, mesmo antes do fim, depois de tamanha intensidade, alguém, mais alguém que partilha comigo o mesmo caminho.

 

O Faísca entrou na estrada. Eu não parei, apenas abrandei. Deu-me um abraço, apertado, eu transpirado, molhado, ele de blusão.

 

- Vou contigo.

- Não vais nada.  

 

Corremos dez metros juntos, mais coisa menos coisa, abraçados.

Acreditei que ele ia comigo até ao fim. Pelo menos senti que sim, que ia se eu deixasse.

 

Voltei-me para trás e mandei-lhe um beijo, de amigo. Ninguém tirou a foto. Guardamos o instante. Esta congelado. Só eu e ele sabemos o que significou aquele frame em que ficámos suspensos no ar.

 

Voltei-me de frente, para a frente, de novo, cerrei os dentes, esqueci-me dos blocos de cimento nas pernas e fui.

 

O senhor Victor terminou a prova. A Joana cumpriu a promessa. 

Vi-os, de mãos dadas e sorrisos rasgados a cortar a meta. 

E também eu sorri, em casa, a olhar para o Facebook da Joana. Foi quando os vi.

 

Hoje voltei a calçar os ténis novos e fui correr antes de escrever este texto que agora sim chega ao fim.

 

Houve muito de dramático e superação, amizade, solidariedade e tragédia e prazer, coragem, espanto e sorrisos e lágrimas,  nesta estranha meia maratona.

 

Há manhãs assim.

Há domingos assim. Porque tem que ser assim. Porque queremos que seja assim. Porque correr é isto e tudo. Ponto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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