Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


 

1 blog.jpeg

 

Passaram quatro semanas, desde que comecei a narrar aqui a minha aventura, que vai durar até Setembro.

Poucas coisas me correm bem na vida, mas esta correu como previsto, pelo menos tem estado a correr.

Quatro semanas depois tive “alta” das pernas.

As contracturas desapareceram todas (resta restos de uma, mas já lhe ganhei carinho), depois do tratamento-choque à base de massagens ( 7 em 4 semanas) e mudança brusca de hábitos alimentares, mais vitaminas e magnésio.

“Primeiro objectivo atingido, as tuas pernas estão prontas”, disse-me o meu treinador, depois de mais uma sessão de massagens.

“Volto a dizer que nunca vi uns gémeos como os teus, não sei como conseguias correr com tantas contracturas. Agora vamos dar mais um passo em frente”.

Foi, provavelmente, a melhor notícia que recebi este ano, que não tem sido um ano nada fácil, mas isso são outras histórias.

Comecei mal o dia, aquela cena da austeridade, o recibo de vencimento sem duodécimos e sem mais um bocado de dinheiro que tanto me custa a ganhar.

Fiquei neura, quando fico neura refugio-me, mas hoje tinha que ir fazer 40 minutos de bicicleta, porque hoje era dia de massagens e o meu treinador queria perceber como é que as pernas iam responder após três semanas sem grande esforço.

Não tinha como não ir.

Pedalei 14 quilómetros, alonguei bem, fiz-me à estrada e não, ainda não me passou a neura, só vejo as caras do Socrates, do Passos e do Costa à frente e esta vontade de lhes fazer maldades ainda me consome.

Mas, diz-me o José Carlos: “tivemos sucesso com as tuas pernas”, e isso alegrou-me.

“Sabes do que tenho saudades?”, perguntei-lhe eu, depois de desabafar com ele sobre a revolta que me invade por causa desta gente que comanda este país, gente que eu não respeito, nem que morra agora, aqui. Lamento.

2 blog.jpeg

 

O meu treinador ouviu o meu desabafo austero, e foi-me animando, à medida que os seus dedos se cravavam nos meus músculos e me ia dando as boas notícias.

“Tenho saudades, nem que seja de correr só um bocadinho”.

“Não te preocupes, para a semana vamos introduzir a corrida, no treino”.

Foi o que precisava de ouvir, para vir escrever este texto, se não aposto que ia ficar aqui, comigo próprio a chamar nomes a estes filhos de uma enorme meretriz.

O desporto faz parte da minha vida, é a ele que recorro para  aguentar toda esta porcaria, os impostos, o trabalho, a corrupção, as preocupações, esta vida cada vez mais merdosa que nos impõem.

Não corro há quatro semanas, que fique claro.

Nos dias que faltam até ao fim de semana vou continuar a fazer reforço de pernas, core e membros superiores, e até lá vou receber o “mesociclo” que  meu treinador me vai enviar e iremos falar ao telefone para acertar detalhes desta segunda fase, mas para a semana tudo vai mudar, outra vez.

A maratona é ali à frente.

Até lá é lutar, contra mim, contra os fantasmas, contra este sistema abjecto, e acreditar, acreditar em mim, sobretudo e sobreviver.

Acreditar que se eu consigo passar da noite para o dia e fazer-me à vida, porque quero correr a maratona, acreditar que estando focado me abstraio do resto, acreditar que estas elites, um dia, um dia vão meter a mão na consciência.

Eu sei, sou um utópico.

Esta gente só mete a mão nos bolsos, dos outros, sabem lá eles o que é consciência.

Agora só quero que chegue segunda feira, para voltar a correr como se não houvesse amanhã.

Por dores nas pernas já não as há.

Valha-me isso, pelo menos, porque de dores está a minha alma cheia.

Nunca estive tão farto, como agora!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:49

LEVEI OS PAIS AO PARQUE INFANTIL

por The Cat, em 05.06.17

IMG_20170604_114712_2.jpg

 

 

 

O meu domingo foi especial.

Levei os meus pais a uma corrida.

Foi, aos 65 e 68 anos, a sua primeira vez, e a minha, também.

Uma das mais belas manhãs dos meus domingos, e como os meus domingos são belos, mesmo aqueles que teimam em fazer-me cara de mau. Às vezes acontece-me o domingo fazer-me cara de mau, que não há dias perfeitos.

Nem eu sou perfeito, eu atraso-me, em tudo, até mesmo enquanto corro.

Mas, nunca me atraso quando vou correr, isso nunca.

Às sete e meia da manhã estava à porta de casa dos meus pais.

O meu filho disse que queria ir, o meu irmão também disse, mas eles são tão, mas tão parecidos, que até nesta falta de afecto, porque esta foi uma prova de afecto, eles falham da mesma foram.

Irrito-me, quando os meus não dão o valor devido às coisas, ao casamento, aos pais, aos momentos únicos.

Depois, tudo passa.

Eles ficaram a dormir, bons sonhos a ambos.

Foi a única coisa que me irritou, nesta especial manhã de domingo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:27

EM NOME DO PAI

por The Cat, em 03.06.17

IMG_20170525_225655.jpg

 

 

Zé Manel é um homem do Douro.

O Douro é ele próprio, dentro e fora de si. Salta-lhe pelos olhos brilhantes, por detrás daqueles grossos óculos de massa preta.

Basta olhar para ele.

Observa-se à primeira, entende-se-lhe os sinais e os segredos da vinha, da terra e do sol.

Também transporta chuva no olhar e vento na alma, que os olhos não mentem, nunca. Nunca nos mentem, os sacanas.

Zé Manel é um profundo, culto, sábio e exímio contador de histórias, histórias da vida, da vida dele, sobretudo, que pouco gosta de falar da vida dos outros.

Numa dessas noites, em redor da mesa grande, disse-lhe eu:

“O senhor conta histórias com tinta que lhe sai da medula”.

A frase é do Gabriel, o Pensador, o outro, não eu, não minha, desta vez.

Mas, não era fácil acompanhar aquela inteligência, sentada à minha frente, por isso plagiei, plagiador, me confesso.

Culto, intelectualmente muito desenvolvido, homem das artes, do vinho e da beleza, Zé Manel ficou a pensar que aquela frase do caraças era minha.

E, eu senti-me bem com isso.

Zé Manel é casado – há uma vida – com Luísa.

São das pessoas mais fantásticas que conheci até hoje, e olhe que já levo uns anos por cá.

Conhecemo-nos há uma semana, por alturas em que escrevo este texto, uma semana depois.

São ambos do Douro.

Herdaram a Quinta da Senhora da Graça, ali pelos lados de Santa Marta de Penaguião.

A filha, produtora de cinema e televisão vive em Lisboa, visita-os regularmente, naquele refúgio que deve continuar secreto – ou quase – para todo o sempre.

São gente feliz, gente boa, gente de quem não apetece sair de perto.

Cheguei na quarta feira, a corrida era no domingo.

Na primeira noite dormi. Ponto.

Na segunda noite chamaram-me, e eu fui.

“Carla, tenho ali um arroz de forno e vou fazer umas alheiras, querem vir?”.

Fomos.

IMG4481EasyResizecom.jpg

 

Ali ficamos pela noite dentro, comendo, bebendo, conversando, que à mesa, no Douro, conversa-se.

Zé Manuel é um homem marcado pela guerra. Nunca a quis, nunca a entendeu, nunca a esqueceu. Nem ao pai.

Chamava-se Armindo Lopes.

Nem a mãe, li, olhos molhados, um dos muitos poemas que Ze Manel escreveu, durante a guerra.

Operações Especiais, na Guiné.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:53

CORRIDA A CORES

por The Cat, em 16.05.17

IMG20170514082000EasyResizecom.jpg

(Huwaei P10 & Leica)

 

 

Dois dias sem correr é o suficiente para me deixar cheio de comichões, a sentir-me inchar, deixa-me inquieto, ao mesmo tempo sinto as pernas a aliviar.

É uma sensação de bem-estar disfarçada, que eu sei.

Dois dias sem correr é o meu limite.

Vem isto a propósito da foto que acompanha este texto, lá em cima.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:38

AO DOMINGO NÃO SE CORRE

por The Cat, em 09.05.17

IMG_20170507_232147_resized_20170507_112208429.jpg

( HUAWEI P10 & LEICA) 

 

Os domingos são dias mágicos, por isso corro quase todos os domingos, como que por magia.

Mas, aos domingos não se corre, porque o céu de domingo não se compadece com coisas mundanas.

O domingo é o dia litúrgico, o mais de todos, o dia da celebração da brisa que nos toca o rosto, do mar de peregrinos que se te atravessam na pista, o louco que te obriga a ser parte da sua própria e solitária loucura.

Como o sagrado e o profano.

Um mar de peregrinos, no teu caminho, que te engole a cada passada, em contra-mão.

Um mar que abres, enquanto corres por ele adentro, com movimentos das mãos, como Moisés, eventualmente, terá feito, quando abriu o Mar Vermelho durante o Êxodo.

Os peregrinos, em contra-mão, afastam-se abrindo caminho pelo centro da corrente.

Deixei-me, continuei, as mãos em movimento, por eles adentro, como se a pista fosse um mar e eu apenas «o mais humilde do que todos os homens que havia sobre a face da terra» .

Aquele momento recordou-me outros momentos. Alterei o trajecto, na volta do caminho, impelido para aquela rua onde brinquei, lá mesmo no fim da volta do caminho, onde tudo também começa.

As minhas corridas são também as minhas peregrinações.

De quando em vez mudo de rumo e deixo-me viajar pelos sítios que me fizeram, e revivo.

É aos domingos que eu faço as minhas peregrinações, porque os domingos são dias litúrgicos, os mais de todos, e essa magia transporta-me sempre para memórias que ainda estão por chegar. Só, eu, comigo, em viagem.

Na volta do fim do caminho, segui para o largo da vila.

Detive-me junto da estátua do médico-santo, que é objecto de romaria anual, há muitos anos, mas isso é lá em cima, no castelo, no cemitério, onde dá consultas do outro mundo, a crentes que não eu.

Nem as flores de plástico vivem para sempre, aprendi há muito tempo.

IMG_20170507_232405_resized_20170507_112434759.jpg

( HUAWEI P10 & LEICA)

 

Fui com fé, diferente da fé deles.

Meti-me pela rua da morgue, onde, logo ao início, fica o antigo hospital, agora lar da Misericórdia.

Misericórdia. Faltavam-me mais quatro quilómetros para chegar ao carro e a viagem ia a meio.

O antigo hospital mantém as grades e o portão em ferro, que deixam ver o pátio, a portaria, o edifício castanho.

Não parei, apenas olhei, porque olhava sempre, quando era pequeno.

«O mais humilde do que todos os homens que havia sobre a face da terra» estava agora ali, à minha direita, vi-o através das grades.

Deu para ver.

Inspirei o final de tarde, estava fresco, não estava frio, estava morno, não estava quente, mas ele, ele olhava em frente, em movimentos estudados, lentos.

As pernas, os pés, rodavam, parecia um boneco.

Tinha um sorriso altivamente digno e louco espelhado no rosto.

Dirigiu-me o olhar, sacou de uma muito bem feita continência, como que em câmara lenta, sem qualquer pressa.

Não há pressa aos domingos.

Ao passar pelo portão olhei-o, ele percebeu, mas não desfez a continência.

O muro do hospital velho é baixo e feito com grades largas, não o suficiente para deixar a loucura sair cá para fora, mas o suficiente para permitir uma troca de continências, o acto mais humilde e digno entre dois homens, mágico, como os domingos.

Ao meu segundo virar de cabeça encontrámos os olhares.

Não o escutei, a música não me o permitiu, mas consegui ver claramente que não tinha desfeito a continência, nem mesmo após um direita-volver, que o colocou em linha de fogo comigo.

Li-lhe os trejeitos e os lábios, ao longe. enquanto passava, como se olhasse uma fita do tempo.

Obriguei-me a fazer-lhe continência, enquanto continuava a correr, agora muito lentamente. E

ra eu também uma personagem daquele momento.

“Estava a ver que não me prestava continência”, pareceu-me ter dito, de lá do meio do pátio, atrás das grades que guardam a loucura, que apenas a deixam sentir a brisa do final de tarde, nas tardes de domingo, as únicas que valem a pena.

Levei-o comigo até ao fim da corrida, lá no meu jardim mágico.

 

IMG_20170507_232703_resized_20170507_112737596.jpg

( HUAWEI P10 & LEICA)

 

 

O rio não mente. A corrente leva-nos, se quisermos ir.

Peguei na passada de uma miúda gira, deve ser, não consegui passá-la, só seguir-lhe a passada, através daquele perfume de creme Nívea, feito feitiço.

Era morena, apareceu do nada, elegante.

Não a consegui acompanhar, só lhe vi o rosto, já vinha ela de regresso, em sentido contrário.

Era bonita.

Nem tive tempo para mais nada senão ver-lhe o rosto.

Os rostos das pessoas também são diferentes, aos domingos.

Ele usava um boné, tinha uma camisa branca, de manga curta, umas calças bejes, sapatos castanhos, e estava ali, no meio do pátio.

Ela passou e ele prestou-lhe continência, tenho a certeza.

Numa destas corridas vou voltar a ligar a máquina do tempo, para confirmar.

Mas, tenho quase a certeza.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:09


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D