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LEVEI OS PAIS AO PARQUE INFANTIL

por The Cat, em 05.06.17

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O meu domingo foi especial.

Levei os meus pais a uma corrida.

Foi, aos 65 e 68 anos, a sua primeira vez, e a minha, também.

Uma das mais belas manhãs dos meus domingos, e como os meus domingos são belos, mesmo aqueles que teimam em fazer-me cara de mau. Às vezes acontece-me o domingo fazer-me cara de mau, que não há dias perfeitos.

Nem eu sou perfeito, eu atraso-me, em tudo, até mesmo enquanto corro.

Mas, nunca me atraso quando vou correr, isso nunca.

Às sete e meia da manhã estava à porta de casa dos meus pais.

O meu filho disse que queria ir, o meu irmão também disse, mas eles são tão, mas tão parecidos, que até nesta falta de afecto, porque esta foi uma prova de afecto, eles falham da mesma foram.

Irrito-me, quando os meus não dão o valor devido às coisas, ao casamento, aos pais, aos momentos únicos.

Depois, tudo passa.

Eles ficaram a dormir, bons sonhos a ambos.

Foi a única coisa que me irritou, nesta especial manhã de domingo.

 

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publicado às 16:27

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Esta é a história de um tipo que já foi tantas coisas e muitas delas ao mesmo tempo.

Alguma vez imaginava ele que um dia ia correr alguns quilómetros, quanto mais uma meia maratona ou coisa parecida. Jamais!

 

Esta é a história de um tipo que já foi mais novo, como as pessoas, regra geral, de um tipo que quando decide olhar para trás percebe que já não é a mesma pessoa, o mesmo tipo.

Sim, acontece com as pessoas, regra geral, eu sei, mas é assim, vá-se lá dizer o contrário.

Ele começou a correr com regularidade há uns dois anos, por aí.

 

Entrou nos quarenta com excedente primário em termos de camada adiposa, leia-se alguma excessiva gordura em redor de todo o seu corpo, excepto a cabeça. Vá, a zona do pescoço e as bochechas. Fumava, claro, após longas paragens, mas fumava.

Podia dedicar-se à comercialização de pneus humanos, um nicho de negócio que lhe foi aconselhado em resultado dos vários protótipos que exibia com alguma insatisfação disfarçada.

 

Este tipo era um gato, quando era novo, como a foto comprova, pena os óculos inclinados, mas tudo bem, um gato que já tinha entrado nos quarenta; melhor não mostrar foto.

 

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 Um gato que um dia deixou crescer a barba e deixou de ser gato, talvez urso, assim cresça a barba.

Que, de um dia para o outro, passados muitos dias, deixou de ser urso, ou gato e passou a ser outro tipo, que não ele. Deu-se conta disso ainda a tempo.

A bem do rigor ele continua a ser gato, já teve três vidas neste texto, faltam quatro para as sete, vidas, bem entendido.

Passou de gato a urso e tornou-se corredor, runner que é mais elegante. Começou a correr.

 

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Uma espécie de estagiário - ele só corre há dois anos - que se apaixonou perdidamente. As paixões também se vivem a correr.

Outras transformam-se em amor. Vício. Na verdade há paixões que assumem contornos de loucura. Se assim não fosse correr era outra coisa qualquer.

Há dias encontrei-o:

(Conversa forçada e imaginária)

 

- Estás um tipo diferente.

- Pois estou.

- É da corrida?

 

A pausa foi quase uma branca.

 

- Já pediste os cafés?

- Sim e um pastel de nata e uma miniatura.

- Boa!

Não sei se é da corrida. Se a perspectiva é emparelhar a corrida com a forma de viver, como se costuma dizer: com a forma de estar - não evitou o sorriso felino, como de um qualquer gato que se preze - se calhar é da corrida, ou da vida, ou não será uma a mesma e outra coisa?

- Bem, vamos ver...

- Vamos ver nada, vamos correr, correr, pode ser?

 

Deixei-o sem resposta. Primeiro era um gato, depois deixou crescer a barba e no fim fez-se runner.

 Levantou-se, de repente, como quem "não quer a coisa" e foi correr. Não saiu a correr, foi correr.

Paguei os cafés, o pastel de nata e a miniatura e fiquei a vê-lo afastar-se, passada larga como a esperança que carrega nos pés.

Daqui nada já conto o resto da história. Isto não acaba assim. Ele volta. Eu sei que volta.

 

 

 

 

 

 

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publicado às 00:48


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