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SOZINHO NO MEIO DA MULTIDÃO

por The Cat, em 12.09.15

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Foi uma das corridas mais difíceis de sempre - leia-se, para mim - nos últimos 3 anos.

Dez quilómetros são, para quem corre com regularidade, uma distância pacífica, estes, tornaram-se num pré-inferno, ao ponto de quase ter vomitado umas duas ou três vezes ao longo da corrida.

Faz este Domingo um ano.

Nem mais, este domingo volto ao local do crime.

Nesse local, há um ano, uma das coisas que impressionou, desde logo, foi o tamanho da mancha humana.

As meias-maratonas das pontes, em Lisboa, são aquilo que sabemos, gente sem fim.

As restantes corridas não se lhes comparam.

No entanto, há outras provas, nas quais participam centenas de pessoas, largas centenas e há provas, nas quais participam milhares de pessoas.

Umas mil ou duas mil já mete respeito.

Faz este Domingo um ano, não queria acreditar no que me estava a acontecer.

 

Tanta, mas tanta gente, que meia hora antes da partida já não conseguia sair dali, do meio daquela multidão.

Já fiz muitas provas de dez quilómetros nestes três anos de corridas.

Os dez quilómetros são a minha distância preferida - quando para aí estou virado, uma meia-maratona também me satisfaz o ego -, aquela distância em que consigo controlar quase tudo, aquela distância onde os riscos existem, o esforço para lá do banal também, aquela distância que me dá a sensação de ter puxado por mim, sabendo que tenho uma janela temporal de uma hora, sabendo que tenho capacidade plena para a fazer.

É a minha média em prova: entre os 58 minutos e a hora e cinco.

No i´m not a withe quenian runner boy.

Dez quilómetros já dão para ver coisas, sentir coisas, viver coisas, cheirar coisas, sempre com a certeza que é uma hora só. A certeza que conseguimos terminar, algo que em uma meia-maratona também é viável, mas comporta mais riscos.

Pois bem, faz este Domingo um ano, lá fui para a Corrida do Tejo.

Tinha começado a ir a provas, esta era mais uma, no entanto, esta corria-se na Marginal, devia ser giro, por isso fui, ainda não tinha tomado o gosto às corridas, ainda não lhes achava piada, mal eu sabia.

Há um ano, por esta altura, eu apenas corria, mas já corria com pés e cabeça.

Preparava-me para as provas - só vou a provas com mais de 8 quilómetros, as de 5 só em casos muito excepcionais, sentia-me nervoso, parecia até um atleta.

Um ano depois vou correr a 35ª edição - é uma das provas de estrada mais antigas em Portugal -, mas não me preparei minimamente, e durante a minha semana de treinos não pensei na prova uma única vez.

O facto de fazer 4 treinos de Muay Thai e 3 de corrida todas as semanas dá-me confiança suficiente para saber que vou chegar ao fim, e se correr mal, em vez de correr abaixo da hora, farei até uma hora e dez. Tranquilo. Vou sózinho, como sempre, e vou para não estar parado, vou para voltar a viver a sensação de estar entre milhares de pessoas, sei que vão umas nove mil, a correr, em comunhão total.

Vou para passar uma manhã de Domingo bem passada, porque à tarde tenho um churrasco para comparecer.

Sei que vou estar pelo menos uma hora no meio de uma multidão, que apenas pensa em começar a correr.

Vou estar ali, quase sem me mexer, eu sei.

Sei ao que vou.

Há um ano não sabia.

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Tenho um ritual em dias de prova.

Levanto-me duas horas antes. Tomo o pequeno-almoço em casa, nas calmas, equipo-me, a mochila fica preparada de véspera - já está tudo pronto e ainda sao 22.56h - passo no café, como um bolo e uma bica, sigo viagem, estaciono, ultimo os detalhes e vou à minha vida.

No ano passado até fui dar um beijo à minha mãe e tirar uma foto com ela, antes de ir para a corrida.

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Desta vez até já tenho a mesa do pequeno-almoço posta.

Um post it.

Até tenho um post it, junto a mesa, com a ementa e com as tarefas, os cereais, a proteína, o sumo de fruta, a fruta, o pão. É só levantar-me e está a andar.

Em relação a isso nada mudou, desde há um ano.

Mas, este Domingo, quando começar a correr, tenho algumas certezas sobre o que vou encontrar e sobre o que não devo fazer, apesar de dez quilómetros ser a tal distância acessível, e a que mais me agrada.

Nunca tive uma corrida em que me sentisse mal disposto.

Hidrato-me muito bem, uso gel, gomas, bebidas energéticas, água, o normal.

Há um ano foi o que fiz.

Mas, fiz mal.

A prova começou muito rápida, quando há milhares de corredores não há grande capacidade para andar lento, sobretudo, se estás no meio da mancha.

Os primeiros quatro quilómetros foram, para mim, de recorde, abaixo dos quinze minutos.

Nunca antes visto, neste pedaço de carne com pernas, braços, pés e olhos, e algum cérebro.

Parou.

O cérebro parou ao quilómetro quatro.

Vamos ver agora o filme dos acontecimentos.

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Eu e o meu cérebro em profundas conversações, ao quilómetro quatro. Podia ter sido pior.

Eu: deves estar maluco, quatro quilómetros abaixo do quarto de hora?

Agora, como é que vais chegar ao fim e ficar abaixo da hora?

És um perfeito trengo.

Cérebro: Tranquilo, amigo. Para quê esse stress?

Temos um quilómetro para pensar, definir a estratégia e ir até ao fim.

Eu: Deves ser grande anormal. Faltam uns cinco quilómetros e aquilo que devia estar guardado para o fim foi gasto ao início. Já reparaste no tempo que está? A humidade? O calor? Parece que estou na América Latina. Achas que isto vai correr bem?

Cérebro: Não está a correr mal. Já fizeste tempo para abrandar, se quiseres, e ficar abaixo da hora.

Eu: E as pernas, pá?

Eis quando, de repente, já ia entre o quilómetro cinco e o seis. A quatro do fim.

Mas, estava muito abafado.

Um daqueles domingos, junto ao rio, quente, o domingo, abafado, mas com o sol escondido. Uma verdadeira armadilha.

No espaço de dois quilómetros tive duas quebras de açúcar no sangue, que vergonha.

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Eu: Vou ter que parar.

Cérebro: És doido, vomitas-te todo, se parares.

Eu: Mas, não consigo continuar a correr, estou mal- disposto, vou vomitar na mesma, à frente desta gente toda.

Cérebro: Toma o gel, bebe água, vais aguentar.

Nunca percebi porque é que às vezes sigo os conselhos da razão, sabe lá ela o que é correr.

Meti o gel à boca e foi por um triz. Não me vomitei todo não sei como.

O gel, normalmente doce e saboroso, não se desfez na boca, parecia pastilha elástica, os lábios secaram, a garganta também, nem a água ajudou. Tinha a boca cheia de barro a saber a maçã. Ponto.

Eu: Meu caro, vou caminhar um bocado, até ficar melhor.

Cérebro: Faz isso, até porque, casos não tenhas percebido, ainda estamos a meio da subida. Só que já está toda a gente a olhar para ti, todo equipadinho a rigor, com phones nos ouvidos, a arrear. És tãoooooooo fraquinho, mas pára, pára bebé, é melhor parares.

Na verdade, estes dez quilómetros têm uma subida a meio, sensivelmente.

A subida junto ao quartel da NATO.

Quando por lá passo, de carro, nem dou conta dela mas, a pé, vai lá vai.

Não estava preparado para isso.

Não parei. 

Depois do gel e da água, dois quilómetros depois, nova quebra de açucar, nova má disposição.

Não vomitei.

Mas também não retirei grande prazer destes cerca de vinte e tal minutos de inferno, eu, o diabo, o inferno e eu.

Adiante, que isto não é só correr, também é sofrer, para acabar.

Pior, no fim, a minha contagem, na app,  dava-me entrada no último quilómetro, o marco, na estrada, indicava que ainda faltavam dois quilómetros.

Corri-os a protestar, a falar sózinho, a ralhar, só queria chegar ao fim.

Assim foi. Em protesto.

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Imagine que não me tinha preparado para a corrida.

Este ano não me preparei, mas já sei que vão correr nove mil pessoas, já sei que há uma subida a meio, já sei que são dez quilómetros acompanhados ao metro e ao centímetro por um verdadeiro micro-clima, quente e húmido, típico do rio, já sei que a camisola será de outra cor, já sei que à tarde voltarei a escrever sobre a experiência. Já sei uma série de coisas.

Sei que no fim irei receber a minha medalha, e que a vou juntar às dezenas que tenho.

Essa é sempre a minha vitória.

Sei, sobretudo, que vou viver mais uma manhã deliciosa, sózinho, no meio da multidão, como sempre.

De certeza absoluta!

E, no fim, tomo mais um café, sózinho, de medalha ao peito.

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publicado às 23:17



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