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SOU LIVRE QUANDO CORRO

por The Cat, em 07.04.15

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 Pela primeira vez, em mais de 20 anos, eu corri no Alentejo, no Monte do Sobral, onde soube que a Maria ia nascer, onde soube que a Liberdade ali tinha nascido.

Foi durante a minha corrida de Domingo que pensei na história daquele lugar e de como ela e ele são uma e a mesma coisa. Um sítio de liberdade. Um acto de liberdade.

No texto anterior e neste, quem sabe se num terceiro texto e em outros é disso que falarei, nestes tempos de liberdade disfarçada, como nesses outros tempos.

Como só corro há dois anos e meio nunca me foi possível associar o maior acto de liberdade que pode haver, correr, com o sítio exacto onde toda a liberdade foi desenhada e concebida. Nunca tinha criado esse link.

A minha corrida de Domingo tinha um objectivo: fazer oito quilómetros. Adoro estes passeios matinais domingueiros.

Do Monte à morena Viana do Alentejo.

Alentejo, de um lado e do outro da estrada, por cima da cabeça, no céu, Alentejo por baixo dos pés. Estrada sem berma. Risco calculado. Poucos ou quase nenhuns carros. Muitos cheiros, cantares de pássaros, vacas que pastam, montes em tons de branco e azul. Nesta altura o meu Alentejo já mudou de tonalidade, já não é verde, começa em tons pastel salpicados de violetas e margaridas. Já vi papoilas este ano.

Desde que vou para o Monte que eu e a família mantemos a tradição de ir tomar café à vila, a seguir ao pequeno almoço.

O Monte fica a meio, entre Alcáçovas e Viana. Sempre pendi para a esquerda, para quem está de frente para a entrada, nada de confusões.

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 Comi três fatias de bolo caseiro, uma chávena de café, sem açúcar - para doce já basto eu e os bolos que como diariamente, um por dia - porque não gosto de correr depois de comer. Gosto de correr com o estômago vazio.

Saí para correr, a família continuou o pequeno almoço, jogaram snooker e fizeram-se à estrada. Uns 50 minutos depois eram suficientes para o reencontro.

Foi engraçado, quando passaram por mim abrandaram para me dar bebida, que meio litro já tinha ido. Aquela estrada, que conheço há mais de vinte anos, não tinha aquelas subidas antigamente, juro, pelo menos de carro eu não as sentia. As minhas pernas sentiam e de que maneira. Estava calor.

- Já estávamos a pensar, o pai tornou-se o Bolt.

- Porquê?

Perguntei, enquanto ia em marcha, eu e o carro.

- Porque não te víamos. Pensámos, ou vai de avião ou está caído para aí no meio de qualquer coisa.

- Estão inspirados, gosto. Bazem, faltam dois quilómetros, daqui a um quarto de hora peçam um café para mim.

E lá seguiram viagem.

O Audi subia a inclinação da estrada com uma facilidade que quase me comoveu. A mim e às minhas pernas.

Durante a corrida, fui intervalando os pensamentos, entre o que tinha acontecido no Monte há quase 42 anos - eu tenho 40 e tal - , e as coisas que ia observando, os cheiros que me entravam pelas narinas, ao longo da estrada sem berma.

Nem mesmo as urtigas que me acariciaram o fim da minha perna direita, junto ao pé, que me incomodaram durante dois quilómetros me chatearam mais.

Estava em perfeito transe e a bica bem quente esperava por mim, dois quilómetros depois, que passaram a quatro, porque oito é pouco e dois dentro da vila são maravilhosos.

Eu nunca tinha corrido ali. Tinha que saborear. Foi o que fiz.

Antes da estrada começar a subir ligeiramente, antes da curva apertada, existe um riacho que a atravessa, à estrada, por baixo. Dá para ver dos dois lados.

Eu nunca tinha visto um pato selvagem.

Assustei-me, apesar de ser lá em baixo.

Ele levantou vôo, do nada. Verde cintilante, castanho terno, pescoço preto com um colar branco desenhado, bico longo, amarelo. Voou em liberdade. Mas, assustou-me.

A liberdade assusta-me. A sua condição. Ela não é interminável, ela não é incondicional, ela nem sequer é livre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 16:00


2 comentários

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De André Valente a 13.04.2015 às 09:14

Adoro o Alentejo. Para mim, não há local mais belo neste país. Não há. Costumo ir a Moura várias vezes durante o ano e estou muito familiarizado com a sensação de liberdade que aquela Natureza envolvente transmite. Por acaso, nunca corri em solo alentejano. Acho que tenho algum receio em experimentar um local novo, dado que estou tão habituado a correr no mesmo sítio há já dois anos. Mas este Verão (aquele calor tórrido combina mesmo bem com a corrida, não é?), quando lá for, não vou deixar escapar a oportunidade de correr por aquela imensidão de campo e estrada e de ouvir a Natureza falar.
Fiquei bastante feliz ao ler este post. Muito obrigado!
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De The Cat a 13.04.2015 às 15:10

Olá, André.
Muito obrigado pela sua mensagem. Também eu fiquei bastante feliz ao ler o que escreveu. A corrida dá-nos isto: liberdade para a gozar em qualquer pedaço de terra do planeta. Experimente. Afinal, cada corrida é diferente da outra.
Um abraço.
O Gato

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